{"id":1021,"date":"2013-06-01T22:07:04","date_gmt":"2013-06-02T01:07:04","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?page_id=1021"},"modified":"2013-06-01T22:07:04","modified_gmt":"2013-06-02T01:07:04","slug":"dependencia-quimica-na-familia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/os-vicios\/dependencia-quimica-na-familia\/","title":{"rendered":"Depend\u00eancia Qu\u00edmica Na Fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>1 &#8211;\u00a0 A forma\u00e7\u00e3o do sintoma<\/p>\n<p>Podemos definir sintoma como um fen\u00f4meno ligado a alguma condi\u00e7\u00e3o patog\u00eanica que sinaliza a disfuncionalidade de um organismo ou sistema. O sintoma se apresenta na fam\u00edlia por meio do sofrimento de pelo menos um de seus membros, o qual \u00e9 chamado de \u201cpaciente identificado\u201d (PI). O processo patol\u00f3gico do PI tende a fazer com que a maioria das aten\u00e7\u00f5es dos membros da fam\u00edlia se voltem para ele. E, dependendo da gravidade do sintoma, ou da fun\u00e7\u00e3o que o paciente identificado tem na fam\u00edlia, sua patologia passa a ser o tema do sistema familiar, ocupando sua principal \u00e1rea de preocupa\u00e7\u00e3o. Os membros da fam\u00edlia passam a creditar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o patog\u00eanica vivida pelo PI todas as suas ang\u00fastias e preocupa\u00e7\u00f5es. Neste sentido, o sintoma, apesar de seu aspecto desagrad\u00e1vel, se torna funcional para o todo, trazendo uma ambival\u00eancia. A fam\u00edlia quer se livrar do sintoma, contudo se \u201cutiliza\u201d dele. Este impasse causa mais estresse ao sistema, refor\u00e7ando o padr\u00e3o relacional. Assim, quando afirmamos que a depend\u00eancia qu\u00edmica \u00e9 um sintoma do sistema familiar, apontamos para o fato de que, apesar de a depend\u00eancia ser uma patologia que merece tratamento especializado, sua presen\u00e7a tamb\u00e9m sinaliza uma disfun\u00e7\u00e3o neste sistema.\u00a0 Esta disfun\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o for tratada, ser\u00e1 terreno f\u00e9rtil para o desenvolvimento de outros sintomas, causando o agravamento do padr\u00e3o relacional e, consequentemente, da condi\u00e7\u00e3o patog\u00eanica. Papp (1992) afirma que o sintoma est\u00e1 a servi\u00e7o da fun\u00e7\u00e3o reguladora de for\u00e7as que circulam dentro da fam\u00edlia. Este processo possibilitaria sua evolu\u00e7\u00e3o, permitindo que este possa cumprir suas etapas de desenvolvimento. Para a autora a fun\u00e7\u00e3o do sintoma na fam\u00edlia e o modo como as pessoas reagem a ele seria o principal interesse dos terapeutas de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Na teoria sist\u00eamica, um sintoma \u00e9 visto como consequ\u00eancia de uma condi\u00e7\u00e3o estressante vivida pelo sistema. Ele pode surgir como resposta a um desequil\u00edbrio previs\u00edvel, ou n\u00e3o, tendo como principal fun\u00e7\u00e3o a volta do equil\u00edbrio, ou seja, da homeostase familiar. Segundo Carter e McGoldrick (1995) o sintoma estaria denunciando uma dificuldade da fam\u00edlia em avan\u00e7ar nas etapas do ciclo vital familiar.\u00a0 Assim, as fam\u00edlias podem reagir de diversas formas diante de algum estresse. Quando reagem \u00e0 situa\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica dando foco ao problema, tendem a buscar uma forma diferente de se relacionar, provocando mudan\u00e7as na estrutura familiar, num processo de retroalimenta\u00e7\u00e3o positiva. Este fato parece ocasionar uma \u201coxigena\u00e7\u00e3o\u201d no sistema familiar, comprometendo todos os membros no processo de transforma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00f3 a pessoa que apresenta o sintoma foi tratada como tamb\u00e9m a estrutura sintom\u00e1tica. Esta postura normalmente determina o desaparecimento do sintoma e, como consequ\u00eancia, a volta da funcionalidade familiar. Muitas vezes isto ocorre sem que tenha sido procurada uma ajuda externa ao sistema.\u00a0 Podemos afirmar que o grau de estresse vivido no sistema \u00e9 o fator determinante que leva a fam\u00edlia a buscar ajuda. Se este se torna intoler\u00e1vel, significa que aquele padr\u00e3o relacional induzido pelo sintoma ao inv\u00e9s de equilibrar o sistema, passa a desequilibr\u00e1-lo causando tamb\u00e9m estresse e desequil\u00edbrio nos membros da fam\u00edlia (Papp, 1992).\u00a0\u00a0 Alguns membros s\u00e3o mais atingidos, outros menos, e costumam manifestar esta influ\u00eancia de diversas formas. Normalmente os que apresentam preju\u00edzos mais vis\u00edveis costumam ser mais solicitados a se engajarem de forma mais intensa no processo de mudan\u00e7a. Entretanto, se isto n\u00e3o acontecer, a fam\u00edlia tender\u00e1 a se organizar de forma cada vez mais disfuncional em torno do estresse, perpetuando-o. De modo geral, a sa\u00fade do sistema familiar est\u00e1 relacionada com o comprometimento dos membros da fam\u00edlia no processo de mudan\u00e7a, o que Carter e McGoldrick (1995) chamariam de avan\u00e7ar nas etapas do ciclo vital. A falta deste engajamento, al\u00e9m de sinalizar a intensidade da gravidade do sintoma, aponta para a intensidade do desequil\u00edbrio e para a falta de flexibilidade do sistema em lidar com as desestabilidades. Contando com o fato de os sintomas serem previs\u00edveis em algumas situa\u00e7\u00f5es \u2013 tais como depress\u00e3o ap\u00f3s morte de parente pr\u00f3ximo ou manifesta\u00e7\u00f5es psicossom\u00e1ticas ap\u00f3s situa\u00e7\u00f5es traum\u00e1ticas \u2013, em algumas fam\u00edlias estes eventos deixam de ser passageiros e se mant\u00e9m atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es construindo padr\u00f5es de comportamento.\u00a0 Isto acontece quando as fam\u00edlias absorvem o sintoma, acomodando sua estrutura a ele de forma a minimizar seus efeitos perturbadores dentro do sistema familiar. Esta situa\u00e7\u00e3o impede um \u201cestranhamento\u201d do sofrimento, afastando a motiva\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a. Essa esp\u00e9cie de organiza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica facilita o agravamento do sintoma inicial al\u00e9m de provocar o surgimento de sintomas cada vez mais perturbadores e mais graves. Por exemplo, poder\u00edamos afirmar que o fato de a estrutura familiar estar organizada na forma m\u00e3e superfuncional e pai subfuncional, fato este refor\u00e7ado pelo sintoma de alcoolismo, esta poderia estar em equil\u00edbrio at\u00e9 o momento em que a m\u00e3e n\u00e3o conseguiria mais dar conta de um filho adolescente abusador de drogas e precisaria da atua\u00e7\u00e3o do pai para tal fim. Se o pai n\u00e3o conseguir assumir seu papel devido ao seu intenso grau de depend\u00eancia, o equil\u00edbrio do sistema entraria em colapso. Necessitaria, portanto, de ajuda externa para auxili\u00e1-lo a voltar ao seu equil\u00edbrio por interm\u00e9dio de outro tipo de intera\u00e7\u00e3o relacional. Neste caso, o subsistema parental deveria ser refor\u00e7ado em sua fun\u00e7\u00e3o paterna. Isto s\u00f3 seria poss\u00edvel com o tratamento da depend\u00eancia do pai.\u00a0 Contudo o sistema tamb\u00e9m pode se organizar de forma a que outra pessoa ocupe a fun\u00e7\u00e3o parental \u2013 av\u00f4, av\u00f3, tio ou at\u00e9 um outro filho. Caso isto aconte\u00e7a, o sistema teria encontrado uma solu\u00e7\u00e3o no sentido de se acomodar ao sintoma (depend\u00eancia qu\u00edmica) conservando o pai em seu alcoolismo, perpetuando assim este sintoma no sistema.\u00a0 Al\u00e9m disso, o processo de acomoda\u00e7\u00e3o parece dificultar a percep\u00e7\u00e3o da gravidade do quadro, sendo muito comum nesse tipo de fam\u00edlia a busca de ajuda somente em momentos de extrema crise. Este fato compromete seriamente o progn\u00f3stico, pois qualquer interven\u00e7\u00e3o se deparar\u00e1 com um intenso \u201cengessamento\u201d da estrutura familiar em torno do sintoma.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, alguns autores acreditam que a manuten\u00e7\u00e3o de determinadas patologias precisaria de uma estrutura familiar espec\u00edfica que as sustentaria. Normalmente, essas estruturas familiares est\u00e3o relacionadas com as patologias mais graves, de car\u00e1ter progressivo e cr\u00f4nico.<\/p>\n<p>\u201cA natureza cr\u00f4nica da drogadi\u00e7\u00e3o pode ser explicada pelo sistema familiar. O ciclo adictivo forma um padr\u00e3o familiar que envolve um complexo sistema homeost\u00e1tico de mecanismos de retroalimenta\u00e7\u00e3o entrela\u00e7ados que servem para manter a adic\u00e7\u00e3o e, em consequ\u00eancia, a estabilidade geral da fam\u00edlia.\u201d (Stanton e Todd, 1999, p.\u00a0 42)<\/p>\n<p>2 &#8211; A fun\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia no sistema familiar<\/p>\n<p>O sintoma, enquanto padr\u00e3o relacional, tem o papel tanto de denunciar alguma disfun\u00e7\u00e3o da forma como a fam\u00edlia est\u00e1 estruturada, quanto de proteger e manter o funcionamento da estrutura familiar. Entender a fun\u00e7\u00e3o que o sintoma tem em uma fam\u00edlia \u00e9 elucidar importantes pistas que levam a uma adequada compreens\u00e3o dos fatores mantenedores dos padr\u00f5es interacionais presentes em um sistema adictivo. \u00c9 preciso tamb\u00e9m esclarecer que entender a fun\u00e7\u00e3o do sintoma \u00e9 diferente de inferir uma causalidade \u00e0 sua exist\u00eancia. Esta fun\u00e7\u00e3o pode acontecer ap\u00f3s o seu surgimento ou ao longo disto, n\u00e3o havendo, necessariamente, nenhuma implica\u00e7\u00e3o etiol\u00f3gica (Dare, 1996).\u00a0 A fun\u00e7\u00e3o do sintoma est\u00e1 ligada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 sustenta\u00e7\u00e3o da estrutura no sistema. O grau de cronicidade de um sintoma no sistema aponta para a import\u00e2ncia de sua fun\u00e7\u00e3o nas transa\u00e7\u00f5es familiares. E, quanto mais importante \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do sintoma na fam\u00edlia, mais dif\u00edcil ser\u00e1 a mudan\u00e7a dos padr\u00f5es relacionais que o sustentam (Papp, 1992). A depend\u00eancia de drogas \u00e9 um dos sintomas mais graves dentro de um sistema familiar. Por ter aspecto progressivo e \u201cadaptativo\u201d, seu desenvolvimento refor\u00e7a os padr\u00f5es relacionais que se iniciam em sua origem.<\/p>\n<p>Diversos autores estudam o papel da droga e da depend\u00eancia no sistema familiar. Estes estudos t\u00eam como principal objetivo compreender as especificidades deste sistema, a fim de desenvolver um referencial te\u00f3rico que possibilite interven\u00e7\u00f5es eficazes no sistema para a retomada de seu desenvolvimento.\u00a0\u00a0\u00a0 A seguir, discutiremos tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que a depend\u00eancia qu\u00edmica, enquanto um sintoma, pode ocupar em um sistema familiar.<\/p>\n<p>2.1 \u2013 Manuten\u00e7\u00e3o da homeostase familiar<\/p>\n<p>Stanton (1999) afirma que, apesar do sofrimento que a viv\u00eancia da drogadi\u00e7\u00e3o causa ao adicto e a seus familiares, existe uma estranha estabilidade que subjaz \u00e0s instabilidades vividas pelo dependente e sua fam\u00edlia. \u201cSe trata de fen\u00f4menos est\u00e1veis em sua previsibilidade, sua recorr\u00eancia e na fun\u00e7\u00e3o que cumprem para as pessoas envolvidas\u201d (p. 25).\u00a0 A fam\u00edlia estaria organizada em torno do fen\u00f4meno da depend\u00eancia, e, apesar do intenso sofrimento experimentado a cada dia, as pessoas teriam aprendido a viver daquela forma, sentindo-se extremamente amea\u00e7adas diante da possibilidade de provocarem alguma modifica\u00e7\u00e3o no padr\u00e3o relacional. O sintoma da depend\u00eancia estaria no pilar do equil\u00edbrio da estrutura familiar, mantendo sua homeostase.\u00a0 Manter a homeostase \u00e9, de uma certa forma, dificultar qualquer mudan\u00e7a na estrutura do sistema familiar. Papp (1992) afirma que, quando a fam\u00edlia pede ajuda para o sintoma, sua expectativa \u00e9 de mud\u00e1-lo, sem contudo mexer na estrutura do sistema. Isto porque a fam\u00edlia, em sua rea\u00e7\u00e3o ao sintoma, aprendeu a \u201cisol\u00e1-lo\u201d, vendo-o como entidade \u00e0 parte. Este isolamento acontece no sentido de conviver de modo a perder o menos poss\u00edvel com ele. E \u00e9 justamente esta din\u00e2mica que possibilita a adapta\u00e7\u00e3o ao mesmo.\u00a0 No caso da depend\u00eancia qu\u00edmica, uma esposa, por exemplo, poderia reagir com muita dificuldade se lhe fosse recomendado que ela superfuncionasse menos a fim de que o marido pudesse funcionar mais. Na pr\u00e1tica isto significaria que a esposa deveria deixar de chamar para si certas atribui\u00e7\u00f5es que seriam de seu marido, para que este pudesse assumir sua fun\u00e7\u00e3o. \u00c9 prov\u00e1vel que, apesar de estar esgotada por \u201ccarregar a fam\u00edlia nas costas\u201d, esta esposa teria muito medo de deixar seu marido alco\u00f3latra gerir novamente sua conta banc\u00e1ria ou lidar com seu filho.\u00a0 O caso acima ilustra claramente o quanto o alcoolismo do marido est\u00e1 mantendo uma estrutura familiar, e que o fato de ele deixar de beber trar\u00e1 profundas mudan\u00e7as na intera\u00e7\u00e3o desta fam\u00edlia. Ao mesmo tempo, o fato de o filho ter abusado de subst\u00e2ncias coloca a fam\u00edlia em um dilema: muda-se a estrutura para eliminar o sintoma ou mant\u00e9m-se a estrutura evitando mudan\u00e7as mais profundas.\u00a0 Este dilema estar\u00e1 no cerne de qualquer atitude de enfrentamento que esta fam\u00edlia vier a adotar e ser\u00e1 ao mesmo tempo motivador para a mudan\u00e7a e mantenedor do status quo.<\/p>\n<p>2.2 &#8211; Manuten\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is familiares<\/p>\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o do sistema familiar, seus membros se organizam em subsistemas que determinam suas fun\u00e7\u00f5es e capacita\u00e7\u00f5es dentro da fam\u00edlia. Este \u00e9 um processo adaptativo que ocorre no decorrer do tempo.\u00a0 A depend\u00eancia qu\u00edmica \u00e9 um sintoma que causa uma debilidade cr\u00f4nica ao usu\u00e1rio, o que faz com que as pessoas \u00e0 sua volta assumam as situa\u00e7\u00f5es que ele pr\u00f3prio n\u00e3o consegue assumir. Em n\u00edvel estrutural isto significa que as capacita\u00e7\u00f5es e posicionamentos na fam\u00edlia adictiva se organizam de forma a possibilitar que os outros membros dos subsistemas exer\u00e7am algumas fun\u00e7\u00f5es pelo dependente, trazendo problemas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o de fronteiras e posicionamentos hier\u00e1rquicos. Este fato acontece em decorr\u00eancia do processo de adapta\u00e7\u00e3o dos membros da fam\u00edlia \u00e0 depend\u00eancia. Assim como o usu\u00e1rio percorre diversas fases em seu processo de depend\u00eancia (Johnson, 1992), a fam\u00edlia tamb\u00e9m sofre um processo de adapta\u00e7\u00e3o ao comportamento sintom\u00e1tico. Carter e McGoldrick, (1995) citam uma sequ\u00eancia adaptativa da fam\u00edlia no processo de depend\u00eancia que, apesar de ser baseada no subsistema conjugal, pode ser generalizada para todo o sistema familiar. A referida descri\u00e7\u00e3o elucida o processo de assun\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is superfuncionais, al\u00e9m de descrever os momentos onde as fronteiras dos subsistemas s\u00e3o quebradas para a sobreviv\u00eancia do sistema:<\/p>\n<p>1o momento &#8211; Diante das primeiras experi\u00eancias de perda de controle com o uso de subst\u00e2ncia qu\u00edmica, ocorre uma intera\u00e7\u00e3o tensa baseada no sil\u00eancio e na n\u00e3o-abordagem clara das dificuldades conjugais. H\u00e1 tamb\u00e9m uma minimiza\u00e7\u00e3o dos problemas relativos ou n\u00e3o ao h\u00e1bito de usar a subst\u00e2ncia, tanto por parte do c\u00f4njuge que n\u00e3o a usa, quanto por parte do c\u00f4njuge que dela faz uso.<\/p>\n<p>2o momento &#8211; Devido ao agravamento dos problemas com rela\u00e7\u00e3o ao h\u00e1bito de usar, h\u00e1 um crescente isolamento social da fam\u00edlia, que passa a se organizar em torno das necessidades do abusador, com o objetivo de n\u00e3o o expor e de n\u00e3o expor o sistema. A parceria do subsistema conjugal \u00e9 abalada, e intensificam-se as tentativas de controle do c\u00f4njuge n\u00e3o abusador sobre o abusador. O c\u00f4njuge n\u00e3o abusador intensifica as manobras para manter a fam\u00edlia em funcionamento, come\u00e7ando a funcionar pelo c\u00f4njuge abusador. Os filhos adquirem pap\u00e9is disfuncionais a fim de equilibrar o sistema.<\/p>\n<p>3o momento &#8211; A fam\u00edlia, diante do fracasso em controlar o processo de depend\u00eancia, reage a este manifestando raiva e rejei\u00e7\u00e3o. Alguns membros podem iniciar o uso de subst\u00e2ncias psicoativas, enquanto o c\u00f4njuge n\u00e3o abusador experimenta um grande sentimento de incapacidade com rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio, sentindo-se culpado por n\u00e3o ter conseguido controlar a situa\u00e7\u00e3o. O mesmo sentimento \u00e9 experimentado pelo abusador.<\/p>\n<p>4o momento &#8211; O c\u00f4njuge n\u00e3o abusador passa a assumir a maior parte das responsabilidades do abusador (tanto as tarefas funcionais como paternas). O abusador passa a ser considerado uma pessoa incapaz de assumir suas tarefas, n\u00e3o sendo mais considerado como um adulto respons\u00e1vel. A fam\u00edlia sente raiva e pena do abusador. O c\u00f4njuge n\u00e3o abusador se torna cada vez mais confiante em sua capacidade de administrar a fam\u00edlia, empenhando-se junto com os demais membros para possibilitar uma estrutura familiar que minimize cada vez mais os efeitos que a depend\u00eancia possa trazer ao sistema. O abusador tende a ficar isolado com a sua adi\u00e7\u00e3o, colaborando para esse novo ajuste familiar. Havendo ou n\u00e3o separa\u00e7\u00e3o desse casal, se o abusador ficar s\u00f3brio, ao tentar restabelecer seu papel na fam\u00edlia encontrar\u00e1 muita dificuldade em organizar sua vida e em assumir os novos pap\u00e9is exigidos pela sobriedade.<\/p>\n<p>Podemos observar portanto, que os pap\u00e9is familiares se estruturam em torno de uma escala que vai do superfuncional ao subfuncional, estando o dependente qu\u00edmico no extremo subfuncional da escala. Como esses dois pap\u00e9is s\u00e3o a t\u00f4nica da din\u00e2mica destas fam\u00edlias, n\u00e3o falta algu\u00e9m que assuma os extremos da escala. Podemos afirmar que este fato \u00e9 um dos principais motivadores da cristaliza\u00e7\u00e3o da estrutura familiar.\u00a0\u00a0 As pessoas participantes deste tipo de sistema sentem que, se deixassem seus pap\u00e9is \u201cvagos\u201d, causariam um desarranjo fatal \u00e0s demais pessoas e \u00e0 fam\u00edlia como um todo. Vale ressaltar que o papel mais valorizado neste tipo de sistema \u00e9 o de \u201csuper-respons\u00e1vel\u201d. Ele \u00e9 vivido por qualquer membro do sistema que ocupe a fun\u00e7\u00e3o de excesso de responsabilidades na fam\u00edlia. Esta \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o muito conhecida na literatura especializada no assunto e recebe o nome de codepend\u00eancia (Beattie, 1992). O codependente \u00e9 aquele que aprende desde muito cedo a ser valorizado a partir de sua fun\u00e7\u00e3o de cuidador ou de superfuncional no sistema. Apesar de a literatura apontar para sua rela\u00e7\u00e3o di\u00e1dica com o dependente, na vis\u00e3o sist\u00eamica podemos chamar de codependente todo o indiv\u00edduo que funciona de forma a refor\u00e7ar a depend\u00eancia no sistema familiar.\u00a0 Sendo assim, a codepend\u00eancia pode se manifestar de diversas formas em cada membro do sistema.\u00a0 Podemos afirmar que a din\u00e2mica da codepend\u00eancia ajuda na cristaliza\u00e7\u00e3o dos pap\u00e9is mantenedores da din\u00e2mica adictiva e se retroalimenta com a adic\u00e7\u00e3o ativa do dependente. Quanto mais tempo esta estrutura estiver sustentada no sistema, maior probabilidade haver\u00e1 de existirem pessoas subfuncionando, causando a perpetua\u00e7\u00e3o deste tipo de sintoma na fam\u00edlia.\u00a0 Assim, os pap\u00e9is existentes em um sistema aditivo se retroalimentam em suas fun\u00e7\u00f5es, perpetuando as capacita\u00e7\u00f5es dos membros que os possuem. Muitas vezes, a mudan\u00e7a do papel de algum membro da fam\u00edlia causa o desequil\u00edbrio no sistema, resultando numa manifesta\u00e7\u00e3o grupal de cobran\u00e7a de lealdade.<\/p>\n<p>Quando surgem situa\u00e7\u00f5es de desequil\u00edbrio do sistema, \u00e9 comum que os membros da fam\u00edlia achem que os outros membros n\u00e3o est\u00e3o cumprindo as suas obriga\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o aparecem reivindica\u00e7\u00f5es de lealdade familiar e manobras que induzem culpa\u201d (Minuchin, 1990, p. 58).<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, o tratamento familiar \u00e9 de extrema import\u00e2ncia na abordagem da depend\u00eancia qu\u00edmica, pois se n\u00e3o estiverem todos de acordo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o do sistema, provavelmente este n\u00e3o acontecer\u00e1. \u201cQuando um membro da fam\u00edlia se recupera, se torna necess\u00e1ria uma readapta\u00e7\u00e3o para inclu\u00ed-lo em sua antiga posi\u00e7\u00e3o ou ajud\u00e1-lo a assumir uma nova posi\u00e7\u00e3o no sistema.\u201d (Minuchin, 1980, p. 58)<\/p>\n<p>2.3 &#8211; A depend\u00eancia e os est\u00e1gios desenvolvimentais<\/p>\n<p>O processo de depend\u00eancia pode estar intensamente vinculado \u00e0s dificuldades na ultrapassagem de fases no ciclo vital familiar ou ser uma resposta a algum estresse vivido em determinada fase (Carter e McGoldrick, 1995).\u00a0 Cada fase que o sistema ultrapassa em seu ciclo vital possibilita a viv\u00eancia de desafios que podem se tornar impasses desenvolvimentais. Estes impasses podem acabar por facilitar o desencadeamento de um processo de depend\u00eancia ativa. Este fato ocorre por conta das desestabilidades que o sistema vivencia na passagem de suas etapas.\u00a0 Como a depend\u00eancia se desenvolve de forma progressiva e insidiosa, sua evolu\u00e7\u00e3o pode estar intimamente ligada a momentos espec\u00edficos que a fam\u00edlia vivencia. Por exemplo, uma fam\u00edlia pode ter sua estrutura pautada em torno do papel de \u201ccuidadora\u201d da m\u00e3e e da filha e dos pap\u00e9is de \u201cnecessitados\u201d dos outros membros. O momento do casamento da filha pode causar estresse ao sistema, na medida em que seu papel era extremamente importante para a manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio. Talvez o pai venha a intensificar sua rela\u00e7\u00e3o com a bebida, ou a m\u00e3e venha adoecer ou passar a tomar medicamentos para dormir, tensa por n\u00e3o poder mais contar com a filha. A filha pode casar, mas n\u00e3o ter sa\u00eddo de fato da casa dos pais e seu marido, para chamar-lhe a aten\u00e7\u00e3o, possa come\u00e7ar a abusar do \u00e1lcool. \u00a0Ao mesmo tempo, este marido, para minimizar o impacto da sa\u00edda do papel de filho para o de marido, pode continuar a ter o mesmo comportamento que tinha na sua fam\u00edlia de origem, em que a m\u00e3e cuidava dele ap\u00f3s todas as suas bebedeiras de adolescente.\u00a0 Este quadro demonstra o quanto o aumento da ingesta do \u00e1lcool pode estar vinculado a entraves na transi\u00e7\u00e3o evolutiva do ciclo vital familiar. Como afirma Dare (1997) \u201c&#8230;embora os sintomas tragam s\u00e9rios preju\u00edzos e desvantagens para a vida da pessoa, eles tamb\u00e9m t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o, por exemplo, a de modular as demandas de mudan\u00e7a durante as transi\u00e7\u00f5es do ciclo de vida\u201d (p. 36). Para o autor, o sintoma tamb\u00e9m pode ter a fun\u00e7\u00e3o de fixar o indiv\u00edduo no est\u00e1gio do ciclo vital em que ele tenha come\u00e7ado. Dare (1997) observou que em seu grupo terap\u00eautico de adultos dependentes de opi\u00e1ceos, os pacientes se comportavam como pr\u00e9-adolescentes \u201cpresos a um estilo, um padr\u00e3o de vida, que existia na \u00e9poca em que eles usaram a droga pela primeira vez\u201d (p.36). Situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m \u00e9 observada por Krestan e Bepko (1995) quando pontuam que o alcoolismo pode ter a fun\u00e7\u00e3o de interromper tarefas desenvolvimentais.\u00a0 Este fato faz com que o processo evolutivo do sistema familiar fique intensamente comprometido, refletindo-se no desenvolvimento de cada membro da fam\u00edlia, proporcionando estresse, surgimento e intensifica\u00e7\u00e3o de sintomas. Krestan e Bepko (1995) afirmam que o momento do est\u00e1gio de vida do indiv\u00edduo correlacionado com o momento do ciclo vital familiar formam um contexto em que a depend\u00eancia tanto pode ser a causa quanto o efeito da disfun\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto a este fato, o in\u00edcio do uso de subst\u00e2ncias psicoativas e sua dura\u00e7\u00e3o ao longo do ciclo vital t\u00eam import\u00e2ncia fundamental para demarcar o comprometimento da din\u00e2mica familiar. Quanto mais cedo o h\u00e1bito \u00e9 introduzido na fam\u00edlia, mais mecanismos adaptativos ter\u00e3o sido desenvolvidos para lidar com o sintoma e mais dificuldades a fam\u00edlia ter\u00e1 tido em vivenciar suas etapas evolutivas (Krestan e Bepko, 1995). Este fato tamb\u00e9m \u00e9 observado com rela\u00e7\u00e3o ao tempo que a fam\u00edlia leva para pedir ajuda quanto ao h\u00e1bito de se drogar.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rios anos de alcoolismo cr\u00f4nico, a disfun\u00e7\u00e3o normalmente \u00e9 muito grave, ao passo que a interven\u00e7\u00e3o e o tratamento logo no in\u00edcio sugerem um grau menos intenso de preju\u00edzo, assim como um melhor progn\u00f3stico para o futuro ajustamento familiar. (p. 417)<\/p>\n<p>Krestan e Bepko (1995) desenvolveram uma interessante correla\u00e7\u00e3o entre as principais tarefas desenvolvimentais no ciclo vital familiar e o papel da depend\u00eancia em tais est\u00e1gios. Elas descrevem a correla\u00e7\u00e3o entre as principais etapas do ciclo vital familiar e o desenvolvimento da adi\u00e7\u00e3o no sistema. Segundo as autoras, o maior desafio do jovem adulto solteiro, que est\u00e1 se preparando para formar sua fam\u00edlia, consiste em conseguir se diferenciar o suficiente de sua fam\u00edlia de origem a ponto de se vincular ao seu parceiro num verdadeiro investimento afetivo. Se o seu crescimento se deu em uma fam\u00edlia com problemas de abuso de subst\u00e2ncias, esse processo estar\u00e1 comprometido devido \u00e0s dificuldades de fronteiras nos subsistemas. Al\u00e9m disto, o investimento na pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia \u00e9 t\u00e3o alto e intenso que costuma causar no jovem adulto solteiro, comportamentos reativos \u00e0 din\u00e2mica familiar disfuncional.\u00a0 Para as autoras, no sistema familiar alcoolista, tendem a predominar tr\u00eas caminhos no esfor\u00e7o da diferencia\u00e7\u00e3o: o jovem adulto pode desenvolver alcoolismo, repetindo o padr\u00e3o familiar parental; o indiv\u00edduo pode assumir o papel de superfuncional e se unir a um outro adicto, repetindo novamente o padr\u00e3o familiar, ou pode \u201cromper emocionalmente\u201d com a fam\u00edlia de origem, dela se afastando. Esses tr\u00eas caminhos d\u00e3o in\u00edcio ao processo de distanciamento da fam\u00edlia de origem, por\u00e9m n\u00e3o configuram a diferencia\u00e7\u00e3o.\u00a0 Consideramos em nosso trabalho, uma quarta alternativa construtiva, que seria a aceita\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o do padr\u00e3o familiar saindo dos extremos \u2013 disfuncional e superfuncional \u2013 e procurando um equil\u00edbrio que satisfa\u00e7a seu padr\u00e3o relacional. Este \u00e9 um caminho trabalhoso e dif\u00edcil, por\u00e9m compensador.<\/p>\n<p>Estes desafios est\u00e3o presentes tamb\u00e9m na din\u00e2mica do jovem casal. Uma vez que a escolha do c\u00f4njuge est\u00e1 comprometida com os padr\u00f5es relacionais vividos na fam\u00edlia de origem, o desafio do jovem casal tamb\u00e9m se resume em criar sua fam\u00edlia diferenciada das fam\u00edlias de origem das quais vieram. O abuso de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas nesta fase, portanto, sinaliza profundas dificuldades de diferencia\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia de origem.\u00a0 Krestan e Bepko (1995) afirmam que este casal \u00e9 marcado por intensos conflitos de disputa de poder, competitividade, graus altos de depend\u00eancia afetiva de um ou ambos os c\u00f4njuges e profundo desequil\u00edbrio na complementariedade de pap\u00e9is, com um superfuncionando pelo outro. A autora ainda aponta que o uso de subst\u00e2ncias pode ser uma forma de externar as diverg\u00eancias de cren\u00e7as do jovem casal, perpetuando essa forma de lidar com as diferen\u00e7as.\u00a0\u00a0 A vinda dos filhos ocasiona mudan\u00e7as importantes no casal e no restante da fam\u00edlia ampliada e, geralmente, a procura de ajuda nessa fase pode estar ligada ao alcoolismo paterno (Krestan e Bepko, 1995). Se, neste momento o abuso se intensifica, estar\u00e1 denunciando dificuldades no exerc\u00edcio da nova fun\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de significar tamb\u00e9m uma rea\u00e7\u00e3o ao isolamento criado pela dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 nova fun\u00e7\u00e3o parental em detrimento da conjugal.\u00a0 Com os filhos atingindo a adolesc\u00eancia, os conflitos familiares ficam mais aparentes. Isto porque a adolesc\u00eancia coloca em \u201cxeque\u201d a organiza\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica do sistema.\u00a0 Caso existam dificuldades estruturais no subsistema parental, elas podem se refletir na intensifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com a subst\u00e2ncia qu\u00edmica de algum dos pais e no in\u00edcio do uso de subst\u00e2ncias por parte de algum dos filhos.\u00a0 Esta \u00e9 tamb\u00e9m a fase de in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o de uso por parte dos adolescentes. E, quanto mais cedo esse uso for iniciado, mais possibilidade ter\u00e1 de ser cronicamente inclu\u00eddo na din\u00e2mica familiar (Vaillant, 1996). Por conta disso, nesta fase os pais podem intensificar a superprote\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos filhos, assumindo suas responsabilidades, como cobrir alguma perda que o filho tenha consequente do uso dos qu\u00edmicos, como pagar d\u00edvidas contra\u00eddas pelo uso de drogas. Este h\u00e1bito tende a ser o combust\u00edvel que ajuda na evolu\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o disfuncional com a subst\u00e2ncia (como visto anteriormente no cap\u00edtulo 1 atrav\u00e9s do modelo de Johnson). A fase seguinte do ciclo vital familiar marca um grande movimento de entrada e sa\u00edda no sistema. S\u00e3o os filhos saindo de casa, noras e genros entrando na fam\u00edlia, a morte dos pais idosos e o nascimento dos netos. O abuso de subst\u00e2ncias acontece nesta fase para mascarar quest\u00f5es do casal, que agora se encontra muitas vezes vivendo esta condi\u00e7\u00e3o depois de anos investindo na fun\u00e7\u00e3o de pais.\u00a0\u00a0 Este fato pode trazer tamb\u00e9m o comportamento dependente do c\u00f4njuge em foco, que antes estava disfar\u00e7ado nas diversas tarefas que uma fam\u00edlia demanda. Esta \u00e9 normalmente a fase de busca de ajuda por parte da fam\u00edlia, mas costuma tamb\u00e9m ser a fase de maior gravidade da depend\u00eancia.\u00a0 Na velhice, a depend\u00eancia pode se intensificar por duas raz\u00f5es principais. A primeira delas seria uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s perdas dos pap\u00e9is vivenciadas nesta fase. Caso o idoso viva uma progressiva situa\u00e7\u00e3o de isolamento, o abuso de subst\u00e2ncias pode vir ocupar esta car\u00eancia, causando mais isolamento, e agravando, assim, o problema que o provocou.\u00a0 A outra raz\u00e3o seria vivenciada por idosos que iniciam o abuso por volta dos 65 anos como rea\u00e7\u00e3o a algum momento de estresse circunstancial. Estes casos costumam ter melhor progn\u00f3stico, respondendo bem ao engajamento em atividades que os ensinem a lidar com as condi\u00e7\u00f5es estressantes.\u00a0 Desta forma, para uma abordagem eficaz da depend\u00eancia \u00e9 importante observar que lugar este sintoma est\u00e1 ocupando em cada fase do ciclo vital, pois este pode ser a principal resist\u00eancia apresentada pelo sistema para se desfazer deste sintoma.\u00a0 Este fato \u00e9 observado por diversos autores, quando sinalizam para o grau de toler\u00e2ncia do sistema \u00e0s instabilidades e preju\u00edzos consequentes da drogadic\u00e7\u00e3o. O mecanismo de manuten\u00e7\u00e3o do sintoma no sistema se torna mais forte do que a disponibilidade de mudan\u00e7a dos padr\u00f5es transacionais. Este fato nos aponta para a exist\u00eancia de padr\u00f5es t\u00edpicos de intera\u00e7\u00e3o facilitadora de comportamento adictivo.<\/p>\n<p>3 &#8211; Caracter\u00edsticas do Sistema Familiar Adictivo<\/p>\n<p>Como explicitado anteriormente, a condi\u00e7\u00e3o para um sistema deixar de utilizar um sintoma em seu funcionamento seria fazer uma mudan\u00e7a estrutural em sua organiza\u00e7\u00e3o. Isto pressup\u00f5e uma s\u00e9rie de ren\u00fancias no sentido de uma reorganiza\u00e7\u00e3o de todos os membros da fam\u00edlia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 delimita\u00e7\u00e3o das fronteiras nos subsistemas, \u00e0s mudan\u00e7as hier\u00e1rquicas, ao estabelecimento de parcerias mais funcionais, \u00e0s destriangula\u00e7\u00f5es, etc. Quando o sistema n\u00e3o consegue se rearrumar de forma a funcionar sem o sintoma, este tende a se moldar ao sistema e o sistema a ele, dificultando sua elimina\u00e7\u00e3o. A acomoda\u00e7\u00e3o do sintoma \u00e0 fam\u00edlia representa uma crescente toler\u00e2ncia \u00e0s suas conseq\u00fc\u00eancias.\u00a0 Este fato \u00e9 particularmente verdadeiro no que diz respeito \u00e0 depend\u00eancia qu\u00edmica. Concordamos com diversos autores quando apontam o alto grau de toler\u00e2ncia que o sistema familiar adictivo manifesta diante das instabilidades e preju\u00edzos consequentes da drogadic\u00e7\u00e3o. Situa\u00e7\u00f5es por vezes ca\u00f3ticas, como perda de controle, falta de limites e amea\u00e7a \u00e0 vida, s\u00e3o com o tempo vividas, tanto pelo dependente como pelos demais membros da fam\u00edlia, com intenso sofrimento, mas com n\u00edtida falta de estranheza: \u201cIsso \u00e9 assim mesmo&#8230;\u201d, \u201cSempre foi assim&#8230;\u201d, \u201cN\u00e3o tem mais jeito&#8230;\u201d, \u201cJ\u00e1 fizemos de tudo&#8230;\u201d, \u201cPuxou ao pai&#8230;\u201d. Esta toler\u00e2ncia, muitas vezes motivada pela necessidade de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia e de autodefesa, acaba por se tornar um estilo de vida para aqueles membros.\u00a0 Podemos afirmar que esta realidade \u00e9 produto de uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es, acontecimentos e rearranjos familiares vividos por determinados sistemas. As situa\u00e7\u00f5es estressantes pelas quais toda a fam\u00edlia passa, somadas a determinados entraves do processo evolutivo, solicitam deste sistema uma resposta que v\u00e1 ao encontro da sua necessidade de estabiliza\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia. Este fato acaba por resultar em uma teia de padr\u00f5es transacionais facilitadores da manuten\u00e7\u00e3o do comportamento adictivo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de tais padr\u00f5es traria a possibilidade de observamos determinadas caracter\u00edsticas recorrentes nestes sistemas. Podemos afirmar que existem alguns temas e padr\u00f5es relacionais t\u00edpicos que marcariam estas intera\u00e7\u00f5es. Assim, vamos descrev\u00ea-los a partir de tr\u00eas perspectivas1. Na primeira, destacaremos os aspectos estruturais da organiza\u00e7\u00e3o familiar, em especial a exist\u00eancia de triangula\u00e7\u00f5es disfuncionais, de dificuldades nas fronteiras e na hierarquia presentes no sistema. Na segunda, abordaremos o sistema familiar em rela\u00e7\u00e3o ao seu desenvolvimento no decorrer do tempo priorizando as dificuldades na diferencia\u00e7\u00e3o de seus membros. E na terceira, enfocaremos os padr\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o t\u00edpicos dos sistemas aditivos.<\/p>\n<p>3.1 &#8211;\u00a0 A estrutura familiar adictiva<\/p>\n<p>A estrutura familiar adictiva costuma se organizar na forma de tri\u00e2ngulos r\u00edgidos, em que o dependente est\u00e1 presente em uma dupla r\u00edgida, vivendo uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica e conflituosa com o outro membro com quem faz o par. O membro outsider, localizado rigidamente fora da dupla, triangula com outros membros da fam\u00edlia de forma intensa.\u00a0 Este fato foi observado por Stanton (1999) que, tendo como refer\u00eancia estudos realizados por ele e seus contempor\u00e2neos, afirma existir nas fam\u00edlias adictivas uma estrutura t\u00edpica, baseada no tri\u00e2ngulo b\u00e1sico \u2013 pai, m\u00e3e e filho dependente. Nesta triangula\u00e7\u00e3o a m\u00e3e assume uma posi\u00e7\u00e3o de extremo apego, superprote\u00e7\u00e3o e permissividade em sua rela\u00e7\u00e3o com o filho dependente. No caso masculino, o filho tende a opor-se \u00e0 sua m\u00e3e apresentando comportamento rebelde, reagindo \u00e0 falta de espa\u00e7o e ao excesso de intromiss\u00e3o.\u00a0 J\u00e1 as mulheres, costumam competir com a m\u00e3e e rejeitar o pai, vendo-o como fraco e n\u00e3o confi\u00e1vel. Em ambos os casos, a m\u00e3e se sente bastante ressentida, j\u00e1 que, com frequ\u00eancia, esses filhos tinham tido um comportamento exemplar na inf\u00e2ncia, sendo muitas vezes os seus preferidos. O pai, na outra ponta do tri\u00e2ngulo, se encontra como outsider, ausente, por vezes abusando de \u00e1lcool e apresentando um grande distanciamento afetivo com rela\u00e7\u00e3o ao filho dependente, em posi\u00e7\u00e3o ora excessivamente cobradora, ora distante e resignada. Contudo, esse pai \u00e9 facilmente \u201ccontrolado\u201d por sua esposa, que se torna o centro do poder e do afeto da fam\u00edlia. Os irm\u00e3os n\u00e3o dependentes tendem a ter um bom relacionamento com o pai, contrabalan\u00e7ando assim, o sistema. Havendo a intensa dist\u00e2ncia do pai e a excessiva proximidade da m\u00e3e com rela\u00e7\u00e3o ao filho dependente, os pais costumam discordar entre si da forma como cada um deles trata o filho, atribuindo-se mutuamente a culpa por seu comportamento disfuncional. A cada situa\u00e7\u00e3o de perda de controle, como mentiras, falta de respeito pelos limites da casa, agressividade, chantagem para pagamento de d\u00edvidas contra\u00eddas pelo uso da droga, ou promessas de interrup\u00e7\u00e3o do uso n\u00e3o cumpridas, seguem-se acusa\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas, em que creditam a causa da situa\u00e7\u00e3o disfuncional \u00e0 atitude restritiva de um ou \u00e0 permissividade do outro.<\/p>\n<p>1 Vale lembrar que esta \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o puramente did\u00e1tica, na medida em que os fen\u00f4menos s\u00f3 podem ser entendidos pela intera\u00e7\u00e3o destas tr\u00eas perspectivas.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o h\u00e1 apenas uma \u00fanica estrutura encontrada nas fam\u00edlias adictivas. Apesar de a grande maioria delas se organizar com as m\u00e3es mais pr\u00f3ximas e os pais ausentes, Stanton (1999) em seu estudo tamb\u00e9m observou que 5% de sua amostra apresentavam uma invers\u00e3o do padr\u00e3o anteriormente citado, na qual o pai surgia como o membro mais apegado ao dependente. Em 80% dos casos, havia um genitor apresentando problemas com abuso de \u00e1lcool, e, na maioria dos casos, o pai inclinava-se a se incomodar mais com a depend\u00eancia do filho do que e a m\u00e3e, que a minimizava. Observamos comportamentos parentais opostos, muitas vezes diferen\u00e7as irreconcili\u00e1veis diante da mesma situa\u00e7\u00e3o. Este fato tende desgastar o subsistema conjugal, ao mesmo tempo em que possibilita uma rela\u00e7\u00e3o complementar no subsistema parental. Enquanto um dos pais briga com o dependente, o acusa e aponta as situa\u00e7\u00f5es que lhe desagradam, o outro genitor (ou outro membro da dupla) minimiza, desqualifica e por vezes forma alian\u00e7as de segredos com o dependente. Assim, as atitudes que causam o desentendimento do casal s\u00e3o as mesmas respons\u00e1veis por sustentar a rela\u00e7\u00e3o parental, e, consequentemente, o sistema familiar (homeostase). Kalina (1999) afirma que esta \u00e9 a estrutura b\u00e1sica respons\u00e1vel pelo aparecimento do adicto na fam\u00edlia, a quem chama de \u201co eleito\u201d: aquele que carrega consigo todas as vicissitudes do grupo familiar. Para o autor, esse fato demonstra o quanto a estrutura existente na fam\u00edlia adictiva \u00e9 conservadora e autorit\u00e1ria, cristalizando-se em torno da necessidade de interagir em fun\u00e7\u00e3o deste \u201celeito\u201d, que, apesar de escravizado pela droga, muitas vezes escraviza a fam\u00edlia com o seu comportamento dependente.\u00a0 O espa\u00e7o do \u201celeito\u201d se cria a partir de conflitos origin\u00e1rios na estrutura\u00e7\u00e3o do casal, em que h\u00e1 uma desilus\u00e3o de ambas as partes com rela\u00e7\u00e3o aos pap\u00e9is idealizados e assumidos. Para o autor, o conv\u00edvio do dia-a-dia traz \u00e0 tona a realidade de cada c\u00f4njuge, que frustrado e desiludido com o que constata, prefere n\u00e3o ver, vivendo um \u201cpalco ilus\u00f3rio\u201d. Diante de tal situa\u00e7\u00e3o o casal necessitaria de uma \u201ccola\u201d que mantivesse seu v\u00ednculo.\u00a0 Mesmo em subsistemas uniparentais, as triangula\u00e7\u00f5es r\u00edgidas, sustentadas por extremo apego e conflito est\u00e3o presentes. Stanton (1999) sinaliza que nesses subsistemas existe normalmente a presen\u00e7a de um av\u00f4 ou av\u00f3 triangulando, em uma rela\u00e7\u00e3o conflituosa com o membro uniparental. Ou ainda o pai, mesmo que afastado h\u00e1 muito tempo da rela\u00e7\u00e3o com o filho, costuma estar dinamizando estas triangula\u00e7\u00f5es. Nestes casos, a rela\u00e7\u00e3o da m\u00e3e com o filho dependente pode ser mais simbi\u00f3tica ainda, pois este pode estar sendo o seu apoio emocional devido ao abandono sofrido por ela, por parte do pai.\u00a0 Al\u00e9m disso, Stempliuk e Bursztein (1999) tamb\u00e9m assinalam como que aos poucos a fam\u00edlia vai ficando cativa do dependente:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;seus desaparecimentos entram para a rotina familiar, dias sem not\u00edcia (&#8230;). N\u00e3o existe mais hora para a busca e o uso da droga ou confian\u00e7a poss\u00edvel, o usu\u00e1rio acorda-os de madrugada para pedir mais dinheiro, mente, inventa desculpas e, quando obt\u00e9m o que pediu, some novamente deixando para tr\u00e1s pessoas humilhadas, e impotentes, preocupadas e com raiva. Quando retorna, enfia-se no quarto e, depois de horas e horas de sono, quem acorda \u00e9 o arrependimento, as acusa\u00e7\u00f5es, (&#8230;) a culpa, a depress\u00e3o e as promessas de parada, de que foi a \u00faltima vez&#8230; Infelizmente, isto dura apenas alguns dias, o tempo de voltar a vontade e a compuls\u00e3o falar mais alto, e tudo recome\u00e7a novamente no seu ritual aparentemente n\u00e3o suscet\u00edvel a argumentos da raz\u00e3o, compromissos morais, afetivos ou profissionais. (p. 160)<\/p>\n<p>Com base no que discutimos at\u00e9 agora, podemos afirmar que a presen\u00e7a de uma intera\u00e7\u00e3o aditiva \u00e9 facilitada por um superapego caracterizado por uma rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica de um membro do subsistema parental com o filho dependente, em detrimento do outro membro. Este fica excluso, triangulando intensamente ou com a sua pr\u00f3pria adic\u00e7\u00e3o, ou com o trabalho, ou com outra rela\u00e7\u00e3o fora da dupla parental.\u00a0 Todavia, \u00e9 importante examinar esta din\u00e2mica a partir dos paradigmas sist\u00eamicos de circularidade, homeostase e retroalimenta\u00e7\u00e3o. A partir deles entendemos que n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtimas nem algozes e, sim, uma din\u00e2mica interativa da qual participam determinados personagens com os seus pap\u00e9is. Trata-se de uma din\u00e2mica em que todos precisam entender seu grau de responsabilidade tanto na funcionalidade quanto na disfuncionalidade, tanto na sa\u00fade quanto na manuten\u00e7\u00e3o do sintoma.<\/p>\n<p>\u201c&#8230; cada um deve assumir a responsabilidade que lhe cabe \u2013 porque constitui uma luta contra os modelos autocr\u00e1ticos e escravizantes que caracterizam a vida familiar do adito, assim como costuma ocorrer tamb\u00e9m nas demais patologias graves. N\u00e3o nos referimos com exclusividade ao autoritarismo materno ou paterno, pois este papel muitas vezes \u00e9 exercido pelo \u201celeito\u201d, que dessa posi\u00e7\u00e3o escraviza a todos os demais membros do grupo familiar\u201d (Kalina, 1999, p. 42).<\/p>\n<p>Desta forma, estamos nos referindo \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o do peso do sintoma, do papel do \u201celeito\u201d, e da superfuncionalidade de alguns membros. Tudo isto apontar\u00e1 para a qualidade das fronteiras e posicionamentos hier\u00e1rquicos dos membros da fam\u00edlia dentro do sistema. Alguns problemas com rela\u00e7\u00e3o a estes fatos devem ser apontados. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hierarquias e fronteiras dos subsistemas, encontramos nestas fam\u00edlias fronteiras difusas refletindo posi\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas indefinidas2.\u00a0 Por exemplo, a triangula\u00e7\u00e3o r\u00edgida j\u00e1 descrita sinaliza diversos problemas. Podemos destacar que as rela\u00e7\u00f5es simbi\u00f3ticas vividas nas fam\u00edlias adictivas refletem e produzem dificuldades no estabelecimento das fronteiras que demarcam os subsistemas. Isto se deve ao fato de as fronteiras existentes entre os subsistemas conjugal e filial serem excessivamente perme\u00e1veis, possibilitando aos filhos e aos pais um tr\u00e2nsito inadequado entre eles \u2013 o que resulta no excessivo apego entre o dependente e um dos genitores.\u00a0 Em decorr\u00eancia, pap\u00e9is que normalmente teriam de ser desempenhados pelos pais com frequ\u00eancia acabam ficando por conta dos filhos ou de algum deles em especial. \u201cEsta delega\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is de autoridade retroalimenta uma estrutura de rela\u00e7\u00f5es amb\u00edguas, onde as refer\u00eancias dos limites, das regras e das restri\u00e7\u00f5es acabam sendo muito confusas, al\u00e9m de objeto de negocia\u00e7\u00f5es pouco claras\u201d (Stempliuk e Bursztein 1999, p. 161).\u00a0 \u00c9 comum em tais circunst\u00e2ncias a exist\u00eancia de um subsistema conjugal unido em complementariedade, mas rachado em hierarquia. Suas interven\u00e7\u00f5es, em lugar de atacarem o problema da adic\u00e7\u00e3o, acabam por neutralizar-se a si mesmas com rela\u00e7\u00e3o aos seus objetivos caminhando em dire\u00e7\u00f5es opostas e enfraquecendo a hierarquia deste subsistema. Stanton (1999) afirma que este tipo de pr\u00e1tica \u00e9 o principal foco das interven\u00e7\u00f5es em uma terapia com este tipo de fam\u00edlia. O autor observa que o comportamento adictivo perde a for\u00e7a na fam\u00edlia quando se depara com uma coaliz\u00e3o hier\u00e1rquica coerente. Esta mudan\u00e7a \u00e9 alcan\u00e7ada quando, dentro do contexto familiar, as regras e normas s\u00e3o explicitadas de forma clara e, principalmente, quando os limites do subsistema parental est\u00e3o nitidamente demarcados. Este fato acaba por ocasionar uma demarca\u00e7\u00e3o evidente no subsistema conjugal, for\u00e7ando a quebra de duplas r\u00edgidas formadas por filho parental.\u00a0 \u00c9 importante observar que estas pontua\u00e7\u00f5es sobre a estrutura t\u00edpica da fam\u00edlia adictiva se mostram verdadeiras tanto para filhos quanto para pais dependentes. A pertin\u00eancia desta afirmativa decorre da observa\u00e7\u00e3o de que, em ambos os casos, as triangula\u00e7\u00f5es, baseadas nas d\u00edades r\u00edgidas, est\u00e3o presentes, fazendo com que a abordagem em n\u00edvel estrutural se d\u00ea de forma semelhante. Contudo, a abordagem de pessoas que j\u00e1 possuam seu pr\u00f3prio n\u00facleo familiar, engloba mais uma vari\u00e1vel. Este fato cria uma diferen\u00e7a marcante: em se tratando de adultos dependentes que j\u00e1 formaram suas fam\u00edlias, observa-se um apego desmedido \u00e0 fam\u00edlia de origem.<\/p>\n<p>2 Acreditamos que uma estrutura familiar funcional se traduz no posicionamento adequado de seus membros de acordo com suas capacita\u00e7\u00f5es e designa\u00e7\u00f5es de poder, que sustentam sua hierarquia.<\/p>\n<p>3. 2 &#8211; O processo desenvolvimental nas fam\u00edlias adictivas.<\/p>\n<p>Quando tratamos da fun\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos impasses vividos nos est\u00e1gios desenvolvimentais presentes nas fam\u00edlias, apontamos para o fato de que este sintoma se presta principalmente a diminuir o impacto que as mudan\u00e7as trazem a ele.\u00a0 Stanton (1999) observa que o fato de a adic\u00e7\u00e3o geralmente se iniciar na adolesc\u00eancia \u2013 fase em que o indiv\u00edduo come\u00e7a a fazer os primeiros movimentos significativos para fora do n\u00facleo familiar \u2013 aponta para dire\u00e7\u00f5es importantes. Por conta das instabilidades vividas em decorr\u00eancia do processo de depend\u00eancia, o padr\u00e3o de superprote\u00e7\u00e3o vai sendo constru\u00eddo desde cedo, dificultando o processo de diferencia\u00e7\u00e3o. Este fato se refletir\u00e1 mais adiante visto que as estat\u00edsticas mostram que a grande maioria dos adictos com mais de 30 anos moram com suas fam\u00edlias de origem. Ou, quando n\u00e3o moram com elas, estabelecem contato telef\u00f4nico pelo menos uma vez por dia (Stanton, 1999).<\/p>\n<p>Quando isto n\u00e3o acontece, pessoas n\u00e3o preparadas assumem posicionamentos de lideran\u00e7a e de responsabilidades inadequadas \u00e0 sua idade e ao subsistema a que pertencem.<\/p>\n<p>\u201cDesde cedo, viver com os pais ou v\u00ea-los regularmente n\u00e3o \u00e9 por for\u00e7a ind\u00edcio de disfun\u00e7\u00e3o. Tais situa\u00e7\u00f5es podem ser muito naturais, segundo o meio cultural e \u00e9tnico, e um apego familiar permanente por certo n\u00e3o implica em drogadic\u00e7\u00e3o. Mais importante, por\u00e9m, \u00e9 a qualidade e a estrutura operativo-funcional dentro das fam\u00edlias que t\u00eam filhos que abusam das drogas e qual etapa a fam\u00edlia est\u00e1 em seu ciclo vital familiar\u201d. (Stanton, 1999, p.25)<\/p>\n<p>Em contrapartida, o contato com a fam\u00edlia nuclear era intenso, mas pouco substancial para ser aproveitado terapeuticamente.O autor relata que as rela\u00e7\u00f5es maritais costumam ser bastante conflituosas na circunst\u00e2ncia de o adicto n\u00e3o encontrar o mesmo grau de permissividade vivido em sua fam\u00edlia de origem. Isto faz com que voltar \u00e0 casa paterna seja uma op\u00e7\u00e3o muito \u201ctentadora\u201d, o que acaba acontecendo com frequ\u00eancia.\u00a0 Estes fatos levaram Stanton e seus colaboradores (1999) a realizarem um estudo a partir de 450 fitas de v\u00eddeos com atendimentos \u00e0s fam\u00edlias. Eles prestaram especial aten\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es relacionais e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es dentro desses sistemas. O autor afirma que tais padr\u00f5es diferem mais em grau do que em esp\u00e9cie em compara\u00e7\u00e3o com as outras fam\u00edlias. Suas conclus\u00f5es s\u00e3o especialmente importantes para este trabalho e ser\u00e3o expostas a seguir.\u00a0 A primeira observa\u00e7\u00e3o de Stanton diz respeito ao princ\u00edpio da homeostase que Jackson havia apresentado. O autor observa que quando o adicto come\u00e7a a evoluir em sua vida, conseguindo um emprego ou se envolvendo em atividades que o levem realmente para longe de sua fam\u00edlia de origem, uma crise costumava acontecer na fam\u00edlia: briga ou separa\u00e7\u00e3o dos pais, doen\u00e7a grave em algum deles. O adicto voltava a se comportar de forma disfuncional e os problemas familiares se dissipavam.<\/p>\n<p>Observamos este padr\u00e3o com tanta frequ\u00eancia que nos resultou evidente que n\u00e3o s\u00f3 o adicto temia se separar da fam\u00edlia, como tamb\u00e9m a fam\u00edlia se sentia igual a respeito dele. Esta conduta nos indicou que se tratava de um \u201cprocesso interdependente\u201d donde o fracasso servia como fun\u00e7\u00e3o protetora para manter a uni\u00e3o familiar. A fam\u00edlia necessitava do adicto tanto ou mais que o adicto da fam\u00edlia. Os membros pareciam agarrar-se uns aos outros para reafirmar-se, ou talvez em busca de uma certa integridade ou dignidade (1999, p. 29).<\/p>\n<p>O medo da separa\u00e7\u00e3o vivido pelo sistema pode ser observado desde a inf\u00e2ncia, no significado dos la\u00e7os familiares estabelecidos (Stanton, 1999). Caracter\u00edsticas j\u00e1 citadas, como o superapego e o distanciamento, assumem mais significado com esta observa\u00e7\u00e3o do autor. Ele afirma que a fam\u00edlia suporta as mais terr\u00edveis situa\u00e7\u00f5es, como mentiras, roubos e situa\u00e7\u00f5es de extrema vergonha, ou protege o adicto de situa\u00e7\u00f5es externas que o confrontem, com o objetivo de assegurar sua presen\u00e7a entre eles. A mensagem passada pela fam\u00edlia \u00e9 \u201cSuportamos qualquer coisa, mas n\u00e3o nos abandone.\u201d (Stanton, 1999) Por sua vez, o adicto envolto em culpa e em facilita\u00e7\u00f5es n\u00e3o consegue abandonar sua fam\u00edlia, mantendo-se disfuncional. A consequ\u00eancia deste fato \u00e9 a complica\u00e7\u00e3o do processo de individua\u00e7\u00e3o, tanto do adicto, quanto das pessoas que est\u00e3o envolvidas no processo. Podemos afirmar que a capacidade de se individualizar \u00e9 uma das principais \u201cheran\u00e7as\u201d que um sistema pode deixar para os seus membros. Ela acontece a partir de um processo de engajamento e distanciamento de pessoas e situa\u00e7\u00f5es que se apresentam no decorrer da vida. Como anteriormente sinalizado, a separa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia de origem nunca acontece de todo, mas \u00e9 necess\u00e1rio que ocorra em um n\u00edvel adequado para que o indiv\u00edduo possa sair da \u201cbarriga da fam\u00edlia\u201d e nascer para o mundo (Groisman et alli, 1996).\u00a0 Podemos afirmar que a depend\u00eancia qu\u00edmica seria a met\u00e1fora de nosso principal dilema evolutivo: nascemos em total depend\u00eancia e temos, no decorrer da vida, de conseguir nossa progressiva independ\u00eancia e mant\u00ea-la. No caso da adic\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo vive uma situa\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e, por isso mesmo paradoxal: a pseudoindividua\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, ao primeiro olhar nos parece que o comportamento do dependente demonstra displic\u00eancia e super-independ\u00eancia. Contudo, uma observa\u00e7\u00e3o mais apurada nos far\u00e1 perceber que, com a disfuncionalidade da adi\u00e7\u00e3o, os adictos se tornam cada vez mais dependentes e necessitados da ajuda externa. E essa ajuda, principalmente a familiar, vem no sentido de perpetuar a condi\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia disfuncional.\u00a0 Muitos adictos, quando descritos por seus familiares, parecem ter 12 anos de idade quando na verdade t\u00eam 40. Isto acontece porque a disfuncionalidade da adic\u00e7\u00e3o faz com que as pessoas assumam tantas coisas para o adicto que ajudam a \u201ctorna-lo\u201d um eterno adolescente.\u00a0 Este fato tamb\u00e9m repercute nos filhos desses adictos. Como muitas vezes precisam, desde cedo, assumir posicionamento de adulto devido ao seu deslocamento para a situa\u00e7\u00e3o parental, sofrem preju\u00edzo em seu processo de individua\u00e7\u00e3o ficando \u201cagarrados\u201d, ou na posi\u00e7\u00e3o de \u201cadultos mirins\u201d ou na de \u201ceternos rebeldes\u201d, e tendo dificuldade de abrir m\u00e3o deste posicionamento precocemente privilegiado (em n\u00edvel hier\u00e1rquico).<\/p>\n<p>Esse quadro denominado s\u00edndrome pseudomaturacional \u00e9 caracterizado por apresentar indiv\u00edduos que, sob a fachada de grande amadurecimento e desenvolvimento intelectual, escondem a crian\u00e7a assustada, que muito precocemente teve que aprender a cuidar de si pr\u00f3pria. Boa parte das terapias que envolvem o tratamento de pessoas filhas de alcoolistas tem que lidar basicamente com essa problem\u00e1tica (Ramos, 1999 p. 211).<\/p>\n<p>A adic\u00e7\u00e3o, servindo de condi\u00e7\u00e3o estabilizadora do sistema, tem na pseudoindividua\u00e7\u00e3o um de seus principais combust\u00edveis mantenedores. Stanton (1999) sinaliza que o adicto se mant\u00e9m incompetente aos olhos da fam\u00edlia, mas muitas vezes assume situa\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao seu grupo de pares. Al\u00e9m disto, seu uso e seu comportamento representam para a fam\u00edlia um desengajamento do n\u00facleo familiar, causando muitas vezes a sensa\u00e7\u00e3o de que o adicto \u00e9 um membro distanciado, alheio ao conv\u00edvio familiar. Por isso, o uso de drogas pode ser entendido tamb\u00e9m como uma tentativa de individua\u00e7\u00e3o que na verdade n\u00e3o se consolida (Stanton, 1999). Com a adic\u00e7\u00e3o o indiv\u00edduo n\u00e3o est\u00e1 nem dentro e nem fora da fam\u00edlia e tamb\u00e9m n\u00e3o consegue assumir a sua fam\u00edlia nuclear. Vive essa condi\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria que n\u00e3o se resolve e \u00e9 retroalimentada por todo o sistema familiar. Vive ainda a dificuldade de liberar a fam\u00edlia e de a fam\u00edlia liber\u00e1-lo.\u00a0 Podemos afirmar, portanto, que o sistema familiar adictivo fica \u201cemperrado\u201d em determinada fase de seu ciclo vital. Esta situa\u00e7\u00e3o pode ser ao mesmo tempo causa e consequ\u00eancia de um processo de depend\u00eancia. Para Krestan e Bepko (1995) definir os aspectos disfuncionais do sistema adictivo \u00e9 particularmente complicado se a depend\u00eancia aparece naquele sistema pelo menos em tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, sinalizando dificuldades de individua\u00e7\u00e3o que atravessam a hist\u00f3ria da fam\u00edlia. Todd e Selekman (1991) afirmam que o desenvolvimento do abuso de drogas em adolescentes por exemplo, \u00e9 indicativo de dificuldades no desenvolvimento do sistema multigeracional familiar. A fam\u00edlia adictiva costuma ter baixo n\u00edvel de diferencia\u00e7\u00e3o, apresentando inabilidade na adapta\u00e7\u00e3o aos estresses causados pelas mudan\u00e7as atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. Isto faz com que haja um ac\u00famulo de ansiedade nas rela\u00e7\u00f5es familiares e uma baixa toler\u00e2ncia a estresses. Tal condi\u00e7\u00e3o tende a comprometer intensamente o funcionamento familiar, facilitando rela\u00e7\u00f5es emaranhadas ou distanciadas. Todd e Selekman (1991) observam que os adolescentes s\u00e3o especialmente vulner\u00e1veis ao desenvolvimento da depend\u00eancia nesse tipo de estrutura familiar. Estando mais expostos que as crian\u00e7as \u2013 pois come\u00e7am a se engajar em muitas atividades fora da fam\u00edlia\u2013 e, ao mesmo tempo, com pouca habilidade para suportar a press\u00e3o familiar acabam por encontrar no processo de depend\u00eancia uma \u201csa\u00edda\u201d para a press\u00e3o vinda da fam\u00edlia e do seu processo de amadurecimento. Com tudo isto, combinado com um padr\u00e3o multigeracional de abuso de subst\u00e2ncias muitas vezes presente nas fam\u00edlias, o adolescente ter\u00e1 quase todas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se tornar um dependente qu\u00edmico. A abordagem destas fam\u00edlias inclui uma profunda sondagem nos processos emocionais que circundam a depend\u00eancia (Todd e Selekman ,1991). Muitos temas podem ser encontrados, mas nenhum \u00e9 t\u00e3o recorrente quanto a morte.\u00a0 Este tema aparece sob diversos aspectos. O adicto e sua fam\u00edlia vivem a amea\u00e7a da morte todo o tempo. O adicto est\u00e1 usualmente beirando a morte, ou envolvido com ela. Seus familiares por vezes se esfor\u00e7am o quanto podem na tentativa de livr\u00e1-lo da morte. De fato, esta \u00e9 uma patologia com alto grau de mortandade. Os adictos costumam manifestar um desejo de morrer mais freq\u00fcente do que outros pacientes psiqui\u00e1tricos apontando uma clara tend\u00eancia suicida. Podemos afirmar que a adi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio lento (Stanton, 1999, Kalina, 1999). E, apesar de a morte ser uma forma de separa\u00e7\u00e3o, ela parece ser a menos temida pelo adicto. V\u00e1rios estudos t\u00eam documentado que o sistema familiar adictivo costuma ser marcado por muitas mortes e perdas prematuras e traum\u00e1ticas (Stanton, 1999). Costuma tamb\u00e9m haver uma clara correla\u00e7\u00e3o entre a morte de av\u00f3s ou pais e o in\u00edcio do uso de drogas. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que estes fatos podem justificar tamb\u00e9m o superapego visto antes, o medo de se separar e de perder este ente tamb\u00e9m.\u00a0 Contudo, paradoxalmente, h\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o clara da gravidade da condi\u00e7\u00e3o do adicto, abrindo espa\u00e7o at\u00e9 a uma esp\u00e9cie de displic\u00eancia no que diz respeito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdadeira situa\u00e7\u00e3o de risco. Parece que a fam\u00edlia se acostumou tanto ao caos que se sente imune a ele. O adicto estar\u00e1 ainda representando todas as mortes da fam\u00edlia, em especial a dos av\u00f3s (Stanton, 1999). Drogar-se tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de se anestesiar da dor, assim como de estar envolvido no processo autodestrutivo de algu\u00e9m. Ao mesmo tempo, a morte fica sendo uma forma de martirizar -se \u2013 no sentido de \u201ctorna-se m\u00e1rtir\u201d. Morrendo, o adicto nunca sair\u00e1 da fam\u00edlia e seu drama ser\u00e1 perpetuado no sistema.\u00a0 Esta perpetua\u00e7\u00e3o se dar\u00e1 na forma da transmiss\u00e3o geracional de comportamentos autodestrutivos e superprotetores. Esta heran\u00e7a \u00e9 transmitida pelo relacionamento dos membros da fam\u00edlia, em sua forma de se comunicar.<\/p>\n<p>3.3 &#8211; Forma de comunica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias adictivas<\/p>\n<p>Vimos at\u00e9 ent\u00e3o alguns padr\u00f5es relacionais recorrentes na fam\u00edlia adictiva, priorizando sua estrutura e suas implica\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. Nosso objetivo agora ser\u00e1 abordar o tipo de linguagem que \u00e9 utilizada nessas fam\u00edlias, propiciando que a din\u00e2mica da depend\u00eancia aconte\u00e7a. A forma de se relacionar \u00e9 a caracter\u00edstica mais vis\u00edvel ao nos depararmos com um sistema familiar adictivo. Desde a chegada no consult\u00f3rio, a maneira como os membros da fam\u00edlia se comportam uns com os outros traduz muitas coisas a respeito do sistema familiar. Isto ocorre porque todo comportamento \u00e9 uma mensagem e \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se comunicar (Watzlawick et alli, 1993). A comunica\u00e7\u00e3o implica observarmos o dito e o n\u00e3o-dito, al\u00e9m da coer\u00eancia entre estas mensagens. Assim como nos outros itens, encontramos nas fam\u00edlias adictivas padr\u00f5es repetitivos de comunica\u00e7\u00e3o que estabelecem o tipo de funcionamento que aquele grupo ter\u00e1. Alguns autores se dedicam especialmente a identificar a forma de comunica\u00e7\u00e3o existente em fam\u00edlias adictivas. Krestan e Bepko (1994) afirmam que o segredo \u00e9 a linguagem t\u00edpica da fam\u00edlia adictiva, e que sua manuten\u00e7\u00e3o seria o principal combust\u00edvel da adi\u00e7\u00e3o. O que se tenta esconder n\u00e3o \u00e9 o uso em si, mas o seu significado e suas conseq\u00fc\u00eancias no sistema.<\/p>\n<p>\u201cO fracasso para designar o problema como sendo um problema resumindo sua nega\u00e7\u00e3o \u2013 tem os mesmos efeitos sobre os quais Bok fala, quando se refere \u00e0 guarda de segredos: o bloqueio de evid\u00eancias que evitam que uma pessoa possua informa\u00e7\u00f5es, as revele, ou fa\u00e7a uso delas. \u00c9 neste meio misterioso que o sistema familiar adictivo paralisa-se, ocorrendo, ent\u00e3o, uma incapacidade para compartilhar ou fazer uso do segredo que todos conhecem\u201d (Bepko, 1994, p. 147).<\/p>\n<p>Black (1990) afirma que as pessoas que nascem em fam\u00edlias adictivas aprendem desde cedo a negar, minimizar, racionalizar e desprezar seus sentimentos e suas experi\u00eancias, e a mentir para se protegerem e protegerem a imagem da fam\u00edlia. \u201cOutras aprendem simplesmente a nunca falar \u2013 a verdade nunca pode ser contada.\u201d ( p. 5 )\u00a0 Todos os comportamentos descritos anteriormente s\u00e3o um esfor\u00e7o para negar o problema. A nega\u00e7\u00e3o acontece por meio de mentiras que s\u00e3o contadas com o intuito de impedir a adequada percep\u00e7\u00e3o das conseq\u00fc\u00eancias do uso. Pode tamb\u00e9m acontecer pela pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o do uso ou pelas distor\u00e7\u00f5es sobre suas conseq\u00fc\u00eancias. Para Krestan e Bepko (1994) a nega\u00e7\u00e3o, como elemento propiciador da manuten\u00e7\u00e3o do comportamento adictivo, acontece na fam\u00edlia em v\u00e1rios n\u00edveis e desde o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o com a subst\u00e2ncia, acompanhando toda a sua evolu\u00e7\u00e3o. Este fato fica muito claro quando nos remetemos \u00e0 descri\u00e7\u00e3o do processo de depend\u00eancia vista no primeiro cap\u00edtulo. L\u00e1 afirmamos que a virada do momento de funcionalidade para o de disfuncionalidade dar-se-ia\u00a0 a partir da minimiza\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o dos danos vividos em tal rela\u00e7\u00e3o. Concordamos, portanto, com Bepko quando esta afirma que existe uma distor\u00e7\u00e3o entre a realidade e a percep\u00e7\u00e3o desta, resultando na mentira que o pr\u00f3prio adicto conta para si mesmo, negando as conseq\u00fc\u00eancias do uso. E acrescentamos, como exposto no primeiro cap\u00edtulo, que este fato tamb\u00e9m \u00e9 facilitado pela funcionalidade anteriormente vivida e pela disfuncionalidade agora percebida. Esta situa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, refor\u00e7aria ainda mais a utilidade da nega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEventualmente, a pessoa engajada no processo de nega\u00e7\u00e3o come\u00e7a realmente a acreditar nas mentiras que conta aos outros. A mentira b\u00e1sica \u2013 \u201cN\u00e3o estou fazendo o que estou fazendo\u201d ou \u201cO que estou fazendo n\u00e3o tem as conseq\u00fc\u00eancias que parece ter\u201d \u2013 eventualmente leva a formas mais profundas de guardas de segredos. O indiv\u00edduo come\u00e7a a contar mentiras para encobrir outras mentiras\u201d (Krestan e Bepko, 1994, p. 148).<\/p>\n<p>O progressivo distanciamento da realidade vivido pelo adicto e resultante da nega\u00e7\u00e3o traz uma gradual supress\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, fazendo com que o adicto viva num mundo cada vez mais povoado de justificativas para defend\u00ea-lo de suas perdas. Krestan e Bepko (1994) sinalizam que este fato se reflete no sil\u00eancio como representante da falta de comunica\u00e7\u00e3o dos sentimentos. Na medida em que h\u00e1 nega\u00e7\u00e3o e mentiras, como algum membro da fam\u00edlia, incluindo o pr\u00f3prio adicto, poder\u00e1 falar da vergonha, do medo, da culpa e da raiva? Assim agindo, o adicto forma um padr\u00e3o de relacionamento baseado na justifica\u00e7\u00e3o e na racionaliza\u00e7\u00e3o, em que ataca antes de ser atacado, causando grande desagrado aos demais membros da fam\u00edlia, que se sentem injustamente atingidos e desrespeitados, com uma sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o estarem mais entendendo o adicto, nem se fazendo entender por ele. A nega\u00e7\u00e3o \u00e9, por muitas vezes, o comportamento mais propenso a cr\u00edticas de pessoas de fora do sistema. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia adictiva, \u00e9 comum ouvirmos coment\u00e1rios sobre como esta pode n\u00e3o estar percebendo a gravidade do quadro em que se encontra, ou o quanto a fam\u00edlia minimiza situa\u00e7\u00f5es absolutamente dram\u00e1ticas. Contudo, se entendermos do ponto de vista sist\u00eamico, vamos compreender a l\u00f3gica de \u201ctamanho fen\u00f4meno\u201d. A adi\u00e7\u00e3o traz uma amea\u00e7a muito grande ao sistema, e a nega\u00e7\u00e3o \u00e9 a clara estrat\u00e9gia da fam\u00edlia para n\u00e3o \u201cdesmoronar\u201d por causa dela. Seria um mecanismo mantenedor do equil\u00edbrio da estrutura, como nos afirma Ramos (1999):<\/p>\n<p>\u201cO alcoolismo, dentro de uma fam\u00edlia, traz grande dose de estresse, transformando-se rapidamente numa doen\u00e7a de todo o grupo familiar, como postulou Jackson, em 1954. Esse estresse \u00e9 o respons\u00e1vel pelo rompimento da instabilidade que, por sua vez, conduz a fam\u00edlia a um exagerado apego ao conhecido, cronificando atitudes calcadas em mecanismos reguladores\u201d (p.\u00a0 209).<\/p>\n<p>Estando o mecanismo da nega\u00e7\u00e3o intimamente relacionado com a progress\u00e3o da depend\u00eancia, conforme visto no cap\u00edtulo 1, quanto mais ela aumenta, mais mentiras, segredos e sil\u00eancios s\u00e3o necess\u00e1rios para lidar com a evolu\u00e7\u00e3o da adi\u00e7\u00e3o. Assim, se de um lado o adicto nega a gravidade das conseq\u00fc\u00eancias de seu uso, de outro a fam\u00edlia adota o mesmo mecanismo. No come\u00e7o a fam\u00edlia nega primeiramente para si mesma: \u201cMeu filho nunca usou drogas\u201d, \u201cMeu marido n\u00e3o bebeu tanto assim\u201d. Quando o fato fica imposs\u00edvel de ser negado dentro da fam\u00edlia, seus membros se esfor\u00e7am vigorosamente para esconder as situa\u00e7\u00f5es de perda de controle das pessoas que est\u00e3o fora do sistema, dando justificativas aos outros pela aus\u00eancia do adicto em festas, ou pelo seu mau humor. Black (1990) desenvolveu um estudo com filhos de dependentes e afirma que as crian\u00e7as se tornam especialmente experts na fun\u00e7\u00e3o de proteger o sistema adictivo por meio da mentira e do sil\u00eancio. As crian\u00e7as aprendem desde cedo a n\u00e3o expressar dentro da fam\u00edlia seus sentimentos de medo e culpa, pois isto poderia perturbar ainda mais o sistema. Esse comportamento se estende para fora da fam\u00edlia trazendo dificuldades no contato com os pares, na medida em que precisam mentir para encobrir o que de fato acontece dentro de suas casas. Assim como as crian\u00e7as tentam controlar o estresse familiar com seu sil\u00eancio, os adultos adotam diversos comportamentos com o mesmo fim, e, muitos deles, em sil\u00eancio. Escondem garrafas, jogam fora as drogas que encontram e n\u00e3o contam ao dependente, v\u00e3o a boca de fumo pedir para o traficante n\u00e3o vender mais drogas ao filho, ou ao bar pedir para o balconista n\u00e3o servir seu marido.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando a fam\u00edlia se re\u00fane em uma sala de terapia e \u00e9 estimulada a falar sobre o que tem feito para minimizar as conseq\u00fc\u00eancias da adic\u00e7\u00e3o, seus membros se espantam com o quanto eles sabiam das atitudes uns dos outros, mas mantiveram sil\u00eancio. Muitas vezes preferem n\u00e3o compartilhar o que sabem, ficando com todo o peso do que descobriram. \u201cEm outras palavras, uma resposta ao comportamento secreto do alco\u00f3lico \u00e9 um engajamento rec\u00edproco no comportamento secreto por parte de outros membros da fam\u00edlia\u201d (Krestan e Bepko, 1984, p. 150). Podemos ent\u00e3o concluir que, assim como o envolvimento do adicto em seu processo de depend\u00eancia causa um profundo distanciamento da realidade e, consequentemente, um aumento de seu sofrimento, o mesmo acontecendo com o familiar. Este, cada vez mais envolvido em sua nega\u00e7\u00e3o, suas mentiras e segredos, acaba por ter dificuldade de perceber a realidade que criou n\u00e3o distinguindo mais suas mentiras de suas verdades. Ou seja, o estilo de vida adictivo do dependente equivale ao estilo de vida de nega\u00e7\u00e3o exercitado pela fam\u00edlia.\u00a0 Este fato produz um afastamento emocional cada vez maior entre os membros da fam\u00edlia, diminuindo a possibilidade de se apoiarem mutuamente no momento em que mais precisam.<\/p>\n<p>\u201cA fam\u00edlia oscila entre extremos de profundo sil\u00eancio e falta de engajamento e per\u00edodos de extrema reatividade que mascaram a emo\u00e7\u00e3o aut\u00eantica. Uma emo\u00e7\u00e3o \u00e9 expressada como algo mais: a raiva torna-se viol\u00eancia, tristeza torna-se c\u00f3lera, o medo torna-se f\u00faria, o desespero torna-se profunda necessidade de controlar, a depend\u00eancia torna-se vergonha. Os sentimentos reais permanecem escondidos e n\u00e3o manifestados\u201d. (Krestan e Bepko, 1995, p.151)<\/p>\n<p>Um outro aspecto importante da linguagem contida no mecanismo de nega\u00e7\u00e3o presente nas fam\u00edlias adictivas \u00e9 que ela priva os membros da fam\u00edlia dos recursos adequados para lidar com as situa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que aspectos destas situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o omitidos, distorcidos ou substitu\u00eddos por meio da mentira. Na medida em que as pessoas n\u00e3o se expressam verdadeiramente sobre como se sentem em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento adictivo, o adicto muitas vezes se surpreende com o quanto estava incomodando os outros com o seu estilo de vida. Apesar de o familiar reclamar quando o adicto faz algo inc\u00f4modo para ele, muitas vezes esta reclama\u00e7\u00e3o vem sob uma forma acusat\u00f3ria, n\u00e3o espec\u00edfica e distorcida, facilitando, por muitas vezes, a desfocaliza\u00e7\u00e3o do adicto de seu pr\u00f3prio comportamento. Xingar o adicto de \u201cviciado\u201d, irrespons\u00e1vel, dizer que ele est\u00e1 destruindo a vida de sua fam\u00edlia, s\u00e3o com frequ\u00eancia express\u00f5es de um desespero que n\u00e3o ajudam a encarar a realidade de frente. A linguagem do sistema \u00e9 muitas vezes voltada para atacar as pessoas e n\u00e3o para enfrentar o problema. \u00c9 importante lembrar que este estilo de intera\u00e7\u00e3o comunicacional tende a se tornar um padr\u00e3o familiar e ser passado como heran\u00e7a atrav\u00e9s de gera\u00e7\u00f5es, at\u00e9 quando o sistema encontrar outra forma de se manter funcionando. Uma outra caracter\u00edstica encontrada na linguagem das fam\u00edlias adictivas \u00e9 a dificuldade de estabelecimento de limites. Ao cuidarmos dos adictos e seus familiares, percebermos a imensa dificuldade que possuem para lidar com o n\u00e3o. Esta, muitas vezes, no sistema familiar adictivo parece ser uma palavra vazia, carente de significado. Ocasionalmente pode ser usada de forma paradoxal quando se queria dizer sim ou um talvez.\u00a0 Kalina (1991) afirma que a referida dificuldade se deve ao fato de se encontrar nas fam\u00edlias adictivas a dificuldade de lidar com os s\u00edmbolos, porque eles sempre representam uma media\u00e7\u00e3o. E media\u00e7\u00e3o significa espera. Para os membros do sistema adictivo, a demora se torna muito dolorosa, pois os desejos precisam ser satisfeitos de imediato. O adicto n\u00e3o sabe esperar e corre para os efeitos da droga. Os familiares n\u00e3o sabem esperar e correm para controlar o adicto. O n\u00e3o \u00e9 a espera, e a espera \u00e9 a morte (Kalina, 1999). Assim, o n\u00e3o tem uma especial conota\u00e7\u00e3o negativa tanto para o adicto quanto para a fam\u00edlia.\u00a0 Da mesma forma que o n\u00e3o para o adicto \u00e9 pren\u00fancio de vazio e morte, para a fam\u00edlia seu n\u00e3o \u00e9 abalado na mais pueril amea\u00e7a do adicto em transgredi-lo. Apesar de seus membros entenderem a import\u00e2ncia de sustent\u00e1-lo, t\u00eam muito medo de que ele seja um veneno que extermine o sistema. Ajudar essas fam\u00edlias a experimentarem a for\u00e7a construtiva do limite, do n\u00e3o, \u00e9 fundamental para o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es mais funcionais. A facilita\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma de linguagem muito comum nos sistemas adictivos. Geralmente ela se expressa na forma de uma ajuda dada ao adicto diante das suas dificuldades, impedindo, com o tempo, que o indiv\u00edduo possa assumir as conseq\u00fc\u00eancias de seus atos. Esta ajuda pode ser dada por qualquer membro da fam\u00edlia que se sinta com capacita\u00e7\u00e3o para tal. Na verdade, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 adi\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 a linguagem mais encontrada dentro e fora da fam\u00edlia, e \u00e9 um comportamento muito valorizado socialmente: afinal, n\u00e3o fica bem n\u00e3o ajudar a quem precisa! O adicto gasta toda a sua mesada, que \u00e9 imediatamente reposta pela m\u00e3e ou pelo pai. Ou ele \u00e9 surpreendido na escola com droga e a m\u00e3e esconde este fato do pai, por este ser muito agressivo e brigar com o filho. A esposa, mesmo enraivecida, paga as d\u00edvidas do marido no bar. Todos esses comportamentos criam na rela\u00e7\u00e3o uma expectativa da n\u00e3o capacita\u00e7\u00e3o por parte do dependente para lidar com suas escolhas. Dito de outra forma a mensagem passada seria: \u201cEstaria perdido sem voc\u00ea\u201d, por parte do adicto, e \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nada sem mim\u201d, por parte do facilitador. Figurativamente falando seria como se o adicto desse um \u201catestado de compet\u00eancia\u201d para o familiar que o \u201csalva\u201d e o familiar ao salv\u00e1-lo desse ao adicto um \u201catestado de incompet\u00eancia\u201d por n\u00e3o conseguir se salvar. Obviamente esta mensagem n\u00e3o \u00e9 concretizada nas primeiras ajudas; contudo, torna-se facilita\u00e7\u00e3o quando passa a ser uma presen\u00e7a constante na rela\u00e7\u00e3o das pessoas envolvidas.\u00a0 A mudan\u00e7a deste tipo de intera\u00e7\u00e3o est\u00e1 no bojo do tratamento da adi\u00e7\u00e3o, que precisar\u00e1 trazer alternativas que proporcionem uma transforma\u00e7\u00e3o no que tange \u00e0 intera\u00e7\u00e3o \u2013 compet\u00eancia da fam\u00edlia e incompet\u00eancia do adicto. O equil\u00edbrio das compet\u00eancias precisar\u00e1 ser conquistado a partir da assun\u00e7\u00e3o das responsabilidades que cabem ao adicto e da desist\u00eancia de controle por parte da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A linguagem da adi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode estar nas fam\u00edlias com ou sem a presen\u00e7a das drogas. Muitos estudos como o de Stanton (1999) encontram uma rela\u00e7\u00e3o positiva entre a adi\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a de outros comportamentos compulsivos na fam\u00edlia, tais como compuls\u00e3o alimentar, tabagismo, compuls\u00e3o sexual e depend\u00eancia de jogo. Nessas fam\u00edlias, o uso indiscriminado de medicamentos tamb\u00e9m \u00e9 encontrado, bem como uma facilita\u00e7\u00e3o para sua aquisi\u00e7\u00e3o e abuso. Estes fatos propiciam o aprendizado de comportamentos adictivos e de al\u00edvio imediato de dores e mal-estar, criando um ambiente prop\u00edcio para o desenvolvimento da realidade da adi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1 &#8211;\u00a0 A forma\u00e7\u00e3o do sintoma Podemos definir sintoma como um fen\u00f4meno ligado a alguma condi\u00e7\u00e3o patog\u00eanica que sinaliza a disfuncionalidade de um organismo ou sistema. 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