{"id":1118,"date":"2013-06-12T22:22:17","date_gmt":"2013-06-13T01:22:17","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?page_id=1118"},"modified":"2013-06-12T22:23:05","modified_gmt":"2013-06-13T01:23:05","slug":"30-maria","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/boa-nova-1\/30-maria\/","title":{"rendered":"30 &#8211; Maria"},"content":{"rendered":"<p>(Da obra &#8220;Boa Nova&#8221; de Humberto de Campo, psicografada por Chico Xavier&#8221;<\/p>\n<p>Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indel\u00e9vel impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perf\u00eddias humanas, a ternura materna regredia ao passado em amarguradas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali estava, na hora extrema, o filho bem-amado.<\/p>\n<p>Maria deixava-se ir na corrente infinda das lembran\u00e7as. Eram as circunst\u00e2ncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Isabel, as profecias do velho Sime\u00e3o, reconhecendo que a assist\u00eancia de Deus se tornara incontest\u00e1vel nos menores detalhes de sua vida. Naquele instante supremo, revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o c\u00e2ntico de gl\u00f3ria daquela noite inolvid\u00e1vel. Atrav\u00e9s do v\u00e9u espesso das l\u00e1grimas, repassou, uma por uma, as cenas da inf\u00e2ncia do filho estremecido, observando o alarma interior das mais doces reminisc\u00eancias.<\/p>\n<p>Nas menores coisas, reconhecia a interven\u00e7\u00e3o da Provid\u00eancia celestial; entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava tamb\u00e9m pelo vasto mar das mais aflitivas interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Que fizera Jesus por merecer t\u00e3o amargas penas? N\u00e3o o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu cora\u00e7\u00e3o? Desde os mais tenros anos, quando o conduzia \u00e0 fonte tradicional de Nazar\u00e9, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Frequentemente, ia busc\u00e1-lo nas ruas empedradas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes mis\u00e9rrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as b\u00ean\u00e7\u00e3os do C\u00e9u. Com que enlevo recebia os h\u00f3spedes inesperados que suas m\u00e3os min\u00fasculas conduziam \u00e0 carpintaria de Jos\u00e9! &#8230; Lembrava-se bem de que, um dia, a divina crian\u00e7a guiara a casa dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladr\u00f5es do vale de Mizhep.<\/p>\n<p>E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irm\u00e3os. Muitas vezes, comentara a excel\u00eancia daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu ador\u00e1vel filhinho.<\/p>\n<p>Depois do caricioso ambiente dom\u00e9stico, era a miss\u00e3o celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram paral\u00edticos que retomavam os movimentos da vida, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e de amor que se saciavam na sua li\u00e7\u00e3o de infinita bondade.<\/p>\n<p>Que profundos des\u00edgnios haviam conduzido seu filho adorado \u00e0 cruz do supl\u00edcio?<\/p>\n<p>Uma voz amiga lhe falava ao esp\u00edrito, dizendo das determina\u00e7\u00f5es insond\u00e1veis e justas de Deus, que precisam ser aceitas para a reden\u00e7\u00e3o divina das criaturas.<\/p>\n<p>Seu cora\u00e7\u00e3o rebentava em tempestades de l\u00e1grimas irreprim\u00edveis; contudo, no santu\u00e1rio da consci\u00eancia, repetia a sua afirma\u00e7\u00e3o de sincera humildade: \u201cFa\u00e7a-se na escrava a vontade do Senhor!\u201d<\/p>\n<p>De alma angustiada, notou que Jesus atingira o \u00faltimo limite dos padecimentos inenarr\u00e1veis. Alguns dos populares mais exaltados multiplicavam as pancadas, enquanto as lan\u00e7as riscavam o ar, em amea\u00e7as audaciosas e sinistras. Ironias mordazes eram proferidas a esmo, dilacerando-lhe a alma sens\u00edvel e afetuosa.<\/p>\n<p>Em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria reparou que algu\u00e9m lhe pousara as m\u00e3os, de leve, sobre os ombros.<\/p>\n<p>Deparou-se-lhe a figura de Jo\u00e3o que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os bra\u00e7os amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abra\u00e7ou-se \u00e0quele triturado cora\u00e7\u00e3o maternal. Maria deixou-se enla\u00e7ar pelo disc\u00edpulo querido e ambos, ao p\u00e9 do madeiro, em gesto s\u00faplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no c\u00famulo dos tormentos. Foi a\u00ed que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade daquelas duas almas em extremo desalento.<\/p>\n<p>\u201cMeu filho! Meu amado filho! &#8230; \u201cexclamou a m\u00e1rtir, em afli\u00e7\u00e3o diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduz\u00edvel.<\/p>\n<p>O Cristo pareceu meditar no auge de suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunh\u00e3o com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos vigilantes: \u201cM\u00e3e, eis a\u00ed teu filho!. . .\u201c E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno, ao ap\u00f3stolo, disse:<\/p>\n<p>\u201cFilho, eis a\u00ed tua m\u00e3e!\u201d<\/p>\n<p>Maria envolveu-se no v\u00e9u de seu pranto doloroso, mas o grande evangelista compreendeu que o Mestre, na sua derradeira li\u00e7\u00e3o, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra. Entendeu que, no futuro, a claridade do Reino de Deus revelaria aos homens a necessidade da cessa\u00e7\u00e3o de todo ego\u00edsmo e que, no santu\u00e1rio de cada cora\u00e7\u00e3o, deveria existir a mais abundante cota de amor, n\u00e3o s\u00f3 para o c\u00edrculo familiar, sen\u00e3o tamb\u00e9m para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habita\u00e7\u00e3o permaneceria a fraternidade real, para que a assist\u00eancia rec\u00edproca se praticasse na Terra, sem serem precisos os edif\u00edcios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante.<\/p>\n<p>Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, at\u00e9 que o Mestre, ex\u00e2nime, fosse arrancado \u00e0 cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusal\u00e9m num dil\u00favio de sombras.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos, que se dispersaram por lugares diferentes, para a difus\u00e3o da Boa Nova, Maria retirou-se para a Batan\u00e9ia, onde alguns parentes mais pr\u00f3ximos a esperavam com especial carinho.<\/p>\n<p>Os anos come\u00e7aram a rolar, silenciosos e tristes, para a angustiada saudade de seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo r\u00e1pido, as lembran\u00e7as do filho amado se convertiam em elementos de \u00e1speras discuss\u00f5es, entre os seus seguidores. Na Batan\u00e9ia, pretendia-se manter uma certa aristocracia espiritual, por efeito dos la\u00e7os consangu\u00edneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a Jos\u00e9. Em Jerusal\u00e9m, digladiavam-se os crist\u00e3os e os judeus, com veem\u00eancia e acrim\u00f4nia. Na Galil\u00e9ia, os antigos cen\u00e1culos simples e amor\u00e1veis da Natureza estavam tristes e desertos.<\/p>\n<p>Para aquela m\u00e3e amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Can\u00e3 se transformara no vinagre do mart\u00edrio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior no mundo e uma esperan\u00e7a cada vez mais elevada no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Sua vida era uma devo\u00e7\u00e3o incessante ao ros\u00e1rio imenso da saudade, \u00e0s lembran\u00e7as mais queridas. Tudo que o passado feliz edificara em seu mundo interior revivia na tela de suas lembran\u00e7as, com min\u00facias somente conhecidas do amor, e lhe alimentavam a seiva da vida.<\/p>\n<p>Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em que o recebera nos bra\u00e7os maternais, iluminado pelo mais doce mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Figurava-se-lhe escutar ainda o balido das ovelhas que vinham, apressadas acercar-se do ber\u00e7o que se formara de improviso.<\/p>\n<p>E aquele primeiro beijo, feito de carinho e de luz? As reminisc\u00eancias envolviam a realidade long\u00ednqua de singulares belezas para o seu cora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e generoso. Em seguida, era o rio das recorda\u00e7\u00f5es desaguando, sem cessar, na sua alma rica de sentimentalidade e ternura. Nazar\u00e9 lhe voltava \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, com as suas paisagens de felicidade e de luz. A casa singela, a fonte amiga, a sinceridade das afei\u00e7\u00f5es, o lago majestoso e, no meio de todos os detalhes, o filho adorado, trabalhando e amando, no erguimento da mais elevada concep\u00e7\u00e3o de Deus, entre os homens da Terra. De vez em quando, parecia v\u00ea-lo em seus sonhos repletos de esperan\u00e7a. Jesus lhe prometia o j\u00fabilo encantador de sua presen\u00e7a e participava da car\u00edcia de suas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A esse tempo, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observa\u00e7\u00f5es que o Mestre lhe fizera da cruz, surgiu na Batan\u00e9ia, oferecendo \u00e0quele esp\u00edrito saudoso de m\u00e3e o ref\u00fagio amoroso de sua prote\u00e7\u00e3o. Maria aceitou o oferecimento, com satisfa\u00e7\u00e3o imensa.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o lhe contou a sua nova vida. Instalara-se definitivamente em \u00c9feso, onde as id\u00e9ias crist\u00e3s ganhavam terreno entre almas devotadas e sinceras. Nunca olvidara as recomenda\u00e7\u00f5es do Senhor e, no \u00edntimo, guardava aquele t\u00edtulo de filia\u00e7\u00e3o como das mais altas express\u00f5es de amor universal para com aquela que recebera o Mestre nos bra\u00e7os vener\u00e1veis e carinhosos.<\/p>\n<p>Maria escutava-lhe as confid\u00eancias, num misto de reconhecimento e de ventura.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o continuava a expor-lhe os seus planos mais insignificantes. Lev\u00e1-la-ia consigo, andariam ambos na mesma associa\u00e7\u00e3o de interesses espirituais. Seria seu filho desvelado, enquanto receberia de sua alma generosa a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a vir, explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se pudessem abrigar; entretanto, um dos membros da fam\u00edlia real de Adiabene, convertido ao amor do Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de \u00c9feso, distando tr\u00eas l\u00e9guas aproximadamente da cidade. A habita\u00e7\u00e3o simples e pobre demorava num promont\u00f3rio, de onde se avistava o mar. No alto da pequena colina, distante dos homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam ambos para cultivar a lembran\u00e7a permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso e ref\u00fagio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os esp\u00edritos de boa-vontade e, como m\u00e3e e filho, iniciariam uma nova era de amor, na comunidade universal.<\/p>\n<p>Maria aceitou alegremente.<\/p>\n<p>Dentro de breve tempo, instalaram-se no seio amigo da Natureza, em frente do oceano. \u00c9feso ficava pouco distante; por\u00e9m, todas as adjac\u00eancias se povoavam de novos n\u00facleos de habita\u00e7\u00f5es alegres e modestas. A casa de Jo\u00e3o, ao cabo de algumas semanas, se transformou num ponto de assembleias ador\u00e1veis, onde as recorda\u00e7\u00f5es do Messias eram cultuadas por esp\u00edritos humildes e sinceros.<\/p>\n<p>Maria externava as suas lembran\u00e7as. Falava dele com maternal enternecimento, enquanto o ap\u00f3stolo comentava as verdades evang\u00e9licas, apreciando os ensinos recebidos. Vezes in\u00fameras, a reuni\u00e3o somente terminava noite alta, quando as estrelas tinham maior brilho. E n\u00e3o foi s\u00f3. Decorridos alguns meses, grandes fileiras de necessitados acorriam ao sitio singelo e generoso. A not\u00edcia de que Maria descansava, agora, entre eles, espalhara um clar\u00e3o de esperan\u00e7a por todos os sofredores. Ao passo que Jo\u00e3o pregava na cidade as verdades de Deus, ela atendia, no pobre santu\u00e1rio dom\u00e9stico, aos que a procuravam exibindo-lhe suas \u00falceras e necessidades.<\/p>\n<p>Sua choupana era, ent\u00e3o, conhecida pelo nome de \u201cCasa da Sant\u00edssima\u201d.<\/p>\n<p>O fato tivera origem em certa ocasi\u00e3o, quando um miser\u00e1vel leproso, depois de aliviado em suas chagas, lhe osculou as m\u00e3os, reconhecidamente murmurando: \u201cSenhora, sois a m\u00e3e de nosso Mestre e nossa M\u00e3e Sant\u00edssima!\u201d<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o criou ra\u00edzes em todos os esp\u00edritos. Quem n\u00e3o lhe devia o favor de uma palavra maternal nos momentos mais duros? E Jo\u00e3o consolidava o conceito, acentuando que o mundo lhe seria eternamente grato, pois fora pela sua grandeza espiritual que o Emiss\u00e1rio de Deus pudera penetrar a atmosfera escura e pestilenta do mundo para balsamizar os sofrimentos da criatura. Na sua humildade sincera, Maria se esquivava \u00e0s homenagens afetuosas dos disc\u00edpulos de Jesus, mas aquela confian\u00e7a filial com que lhe reclamavam a presen\u00e7a era para sua alma um brando e delicioso tesouro do cora\u00e7\u00e3o. O t\u00edtulo de maternidade fazia vibrar em seu esp\u00edrito os c\u00e2nticos mais doces. Diariamente, acorriam os desamparados, suplicando a sua assist\u00eancia espiritual. Eram velhos tr\u00f4pegos e desenganados do mundo, que lhe vinham ouvir as palavras confortadoras e afetuosas, enfermos que invocavam a sua prote\u00e7\u00e3o, m\u00e3es infortunadas que pedjam a b\u00ean\u00e7\u00e3o de seu carinho.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e dizia um dos mais aflitos como poderei vencer as minhas dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da vida. .<\/p>\n<p>Maria lhe enviava o olhar amoroso da sua bondade, deixando nele transparecer toda a dedica\u00e7\u00e3o enternecida de seu esp\u00edrito maternal.<\/p>\n<p>\u201cIsso tamb\u00e9m passa! dizia ela, carinhosamente s\u00f3 o Reino de Deus \u00e9 bastante forte para nunca passar de nossas almas, como eterna realiza\u00e7\u00e3o do amor celestial.\u201d<\/p>\n<p>Seus conceitos abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviavam o pensamento obscuro dos mais acabrunhados.<\/p>\n<p>A igreja de \u00c9feso exigia de Jo\u00e3o a mais alta express\u00e3o de sacrif\u00edcio pessoal, pelo que, com o decorrer do tempo, quase sempre Maria estava s\u00f3, quando a legi\u00e3o humilde dos necessitados descia o promont\u00f3rio desataviado, rumo aos lares mais confortados e felizes. Os dias e as semanas, os meses e os anos passaram incessantes, trazendo-lhe as lembran\u00e7as mais ternas. Quando sereno e azulado, o mar lhe fazia voltar \u00e0 mem\u00f3ria o Tiber\u00edades distante. Surpreendia no ar aqueles perfumes vagos que enchiam a alma da tarde, quando seu filho, de quem nem um instante se esquecia, reunindo os disc\u00edpulos amados, transmitia ao cora\u00e7\u00e3o do povo as lou\u00e7anias da Boa Nova. A velhice n\u00e3o lhe acarretara nem cansa\u00e7os nem amarguras. A certeza da prote\u00e7\u00e3o divina lhe proporcionava ininterrupto consolo.<\/p>\n<p>Como quem transp\u00f5e o dia em labores honestos e proveitosos, seu cora\u00e7\u00e3o experimentava grato repouso, iluminado pelo luar da esperan\u00e7a e pelas estrelas fulgurantes da cren\u00e7a imorredoura. Suas medita\u00e7\u00f5es eram suaves col\u00f3quios com as reminisc\u00eancias do filho muito amado.<\/p>\n<p>S\u00fabito recebeu not\u00edcias de que um per\u00edodo de dolorosas persegui\u00e7\u00f5es se havia aberto para todos os que fossem fi\u00e9is \u00e0 doutrina do seu Jesus divino. Alguns crist\u00e3os banidos de Roma traziam a \u00c9feso as tristes informa\u00e7\u00f5es. Em obedi\u00eancia aos \u00e9ditos mais injustos, escravizavam-se os seguidores do Cristo, destru\u00edam-se-Ihes os lares, metiam-nos a ferros nas pris\u00f5es. Falava-se de festas p\u00fablicas, em que seus corpos eram dados como alimento a feras insaci\u00e1veis, em horrendos espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, num crep\u00fasculo estrelado, Maria entregou-se \u00e0s ora\u00e7\u00f5es, como de costume, pedindo a Deus por todos aqueles que se encontrassem em ang\u00fastias do cora\u00e7\u00e3o, por amor de seu filho.<\/p>\n<p>Embora a soledade do ambiente, n\u00e3o se sentia s\u00f3: uma como for\u00e7a singular lhe banhava a alma toda. Aragens suaves sopravam do oceano, espalhando os aromas da noite que se povoava de astros amigos e afetuosos e, em poucos minutos, a lua plena participava, igualmente, desse concerto de harmonia e de luz.<\/p>\n<p>Enlevada nas suas medita\u00e7\u00f5es, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte. Minha m\u00e3e exclamou o rec\u00e9m-chegado, como tantos outros que recorriam ao seu carinho \u2014, venho fazer-te companhia e receber a tua b\u00ean\u00e7\u00e3o. Maternalmente, ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que lhe inspirava profunda simpatia. O peregrino lhe falou do c\u00e9u, confortando-a delicadamente. Comentou as bem-aventuran\u00e7as divinas que aguardam a todos os devotados e sinceros filhos de Deus, dando a entender que lhe compreendia as mais ternas saudades do cora\u00e7\u00e3o. Maria sentiu-se empolgada por tocante surpresa. Que mendigo seria aquele que lhe acalmava as dores secretas da alma saudosa, com b\u00e1lsamos t\u00e3o dul\u00e7orosos? Nenhum lhe surgira at\u00e9 ent\u00e3o para dar; era sempre para pedir alguma coisa. No entanto, aquele viandante desconhecido lhe derramava no \u00edntimo as mais santas consola\u00e7\u00f5es. Onde ouvira noutros tempos aquela voz meiga e carinhosa?! Que emo\u00e7\u00f5es eram aquelas que lhe faziam pulsar o cora\u00e7\u00e3o de tanta car\u00edcia? Seus olhos se umedeceram de ventura, sem que conseguisse explicar a raz\u00e3o de sua terna emotividade.<\/p>\n<p>Foi quando o h\u00f3spede an\u00f4nimo lhe estendeu as m\u00e3os generosas e lhe falou com profundo acento de amor:<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e, vem aos meus bra\u00e7os!\u201d<\/p>\n<p>Nesse instante, fitou as m\u00e3os nobres que se lhe ofereciam, num gesto da mais bela ternura. Tomada de como\u00e7\u00e3o profunda, viu nelas duas chagas, como as que seu filho revelava na cruz e, instintivamente, dirigindo o olhar ansioso para os p\u00e9s do peregrino amigo, divisou tamb\u00e9m a\u00ed as \u00falceras causadas pelos cravos do supl\u00edcio. N\u00e3o p\u00f4de mais. Compreendendo a visita amorosa que Deus lhe enviava ao cora\u00e7\u00e3o, bradou com infinita alegria: \u201cMeu filho! meu filho! as \u00falceras que te fizeram! . . .\u201c<\/p>\n<p>E precipitando-se para ele, como m\u00e3e carinhosa e desvelada, quis certificar-se, tocando a ferida que lhe fora produzida pelo \u00faltimo lan\u00e7a\u00e7o, perto do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Suas m\u00e3os ternas e sol\u00edcitas o abra\u00e7aram na sombra visitada pelo luar, procurando sofregamente a \u00falcera que tantas l\u00e1grimas lhe provocara ao carinho maternal. A chaga lateral tamb\u00e9m l\u00e1 estava, sob a car\u00edcia de suas m\u00e3os. N\u00e3o conseguiu dominar o seu intenso j\u00fabilo. Num \u00edmpeto de amor, fez um movimento para se ajoelhar. Queria abra\u00e7ar-se aos p\u00e9s do seu Jesus e oscul\u00e1-los com ternura. Ele, por\u00e9m, levantando-a, cercado de um halo de luz celestial, se lhe ajoelhou aos p\u00e9s e, beijando-lhe as m\u00e3os, disse em carinhoso transporte: \u201cSim, minha m\u00e3e, sou eu! &#8230; Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no meu reino a Rainha dos Anjos. .<\/p>\n<p>Maria cambaleou, tomada de inexprim\u00edvel ventura. Queria dizer da sua felicidade, manifestar seu agradecimento a Deus; mas o corpo como que se lhe paralisara, enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos suaves da sauda\u00e7\u00e3o do Anjo, qual se a entoassem mil vozes cariciosas, por entre as harmonias do c\u00e9u.<\/p>\n<p>No outro dia, dois portadores humildes desciam a \u00c9feso, de onde regressaram com Jo\u00e3o, para assistir aos \u00faltimos instantes daquela que lhes era a devotada M\u00e3e Sant\u00edssima.<\/p>\n<p>Maria j\u00e1 n\u00e3o falava. Numa inolvid\u00e1vel express\u00e3o de serenidade, por longas horas ainda esperou a ruptura dos derradeiros la\u00e7os que a prendiam \u00e0 vida material.<\/p>\n<p>A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz quando aquela alma eleita se elevou da Terra, onde tantas vezes chorara de j\u00fabilo, de saudade e de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais via seu filho bem-amado, que certamente a esperaria, com as boas-vindas, no seu reino de amor; mas, extensas multid\u00f5es de entidades ang\u00e9licas a cercavam cantando hinos de glorifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Experimentando a sensa\u00e7\u00e3o de se estar afastando do mundo, desejou rever a Galil\u00e9ia com os seus s\u00edtios preferidos. Bastou a manifesta\u00e7\u00e3o de sua vontade para que a conduzissem \u00e0 regi\u00e3o do lago de Genesar\u00e9, de maravilhosa beleza. Reviu todos os quadros do apostolado de seu filho e, s\u00f3 agora, observando do alto a paisagem, notava que o Tiber\u00edades, em seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita de um ala\u00fade. Lembrou-se, ent\u00e3o, de que naquele instrumento da Natureza Jesus cantara o mais belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e \u00e0 humanidade. Aquelas \u00e1guas mansas, filhas do Jord\u00e3o marulhoso e calmo, haviam sido as cordas sonoras do c\u00e2ntico evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>Dulc\u00edssimas alegrias lhe invadiam o cora\u00e7\u00e3o e j\u00e1 a caravana espiritual se dispunha a partir, quando Maria se lembrou dos disc\u00edpulos perseguidos pela crueldade do mundo e desejou abra\u00e7ar os que ficariam no vale das sombras, \u00e0 espera das claridades definitivas do Reino de Deus. Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso \u00e0s multid\u00f5es espirituais que a seguiam de perto. Em poucos instantes, seu olhar divisava uma cidade soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas enfeitadas de carros e monumentos que lhe provocavam assombro. Os m\u00e1rmores mais ricos esplendiam nas magnificentes vias p\u00fablicas, onde as liteiras patr\u00edcias passavam sem cessar, exibindo pedrarias e peles, sustentadas por mis\u00e9rrimos escravos.<\/p>\n<p>Mais alguns momentos e seu olhar descobria outra multid\u00e3o guardada a ferros em escuros calabou\u00e7os. Penetrou os sombrios c\u00e1rceres do Esquilino, onde centenas de rostos amargurados retratavam padecimentos atrozes. Os condenados experimentaram no cora\u00e7\u00e3o um consolo desconhecido.<\/p>\n<p>Maria se aproximou de um a um, participou de suas ang\u00fastias e orou com as suas preces, cheias de sofrimento e confian\u00e7a. Sentiu-se m\u00e3e daquela assembleia de torturados pela injusti\u00e7a do mundo. Espalhou a claridade misericordiosa de seu esp\u00edrito entre aquelas fisionomias p\u00e1lidas e tristes. Eram anci\u00e3es que confiavam no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperan\u00e7a. Maria aliviou-lhes o cora\u00e7\u00e3o e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos esp\u00edritos abatidos uma lembran\u00e7a perene. Que possu\u00eda para lhes dar? Deveria suplicar a Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo \u00e9 suave e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravid\u00e3o com Deus do que a falsa liberdade nos desv\u00e3os do mundo. Recordou que seu filho deixara a for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o como um poder incontrast\u00e1vel entre os disc\u00edpulos amados. Ent\u00e3o, rogou ao C\u00e9u que lhe desse a possibilidade de deixar entre os crist\u00e3os oprimidos a for\u00e7a da alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disse ao ouvido:<\/p>\n<p>\u201cCanta, minha filha! Tenhamos bom \u00e2nimo! &#8230; Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o C\u00e9u! &#8230;<\/p>\n<p>A triste prisioneira nunca saberia compreender o porqu\u00ea da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o cora\u00e7\u00e3o. De olhos ext\u00e1ticos, contemplando o firmamento luminoso, atrav\u00e9s das grades poderosas, ignorando a raz\u00e3o de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratid\u00e3o pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de j\u00fabilo e esperan\u00e7a. Da\u00ed a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no c\u00e1rcere, aguardando o glorioso testemunho.<\/p>\n<p>Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os disc\u00edpulos de Jesus t\u00eam cantado na Terra, exprimindo o seu bom \u00e2nimo e a sua alegria, guardando a suave heran\u00e7a de nossa M\u00e3e Sant\u00edssima.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, irm\u00e3os meus, quando ouvirdes o c\u00e2ntico nos templos das diversas fam\u00edlias religiosas do Cristianismo, n\u00e3o vos esque\u00e7ais de fazer no cora\u00e7\u00e3o um brando sil\u00eancio, para que a Rosa M\u00edstica de Nazar\u00e9 espalhe a\u00ed o seu perfume!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Da obra &#8220;Boa Nova&#8221; de Humberto de Campo, psicografada por Chico Xavier&#8221; Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indel\u00e9vel impress\u00e3o. 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