{"id":1791,"date":"2013-10-21T21:09:44","date_gmt":"2013-10-21T23:09:44","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?page_id=1791"},"modified":"2013-10-21T21:09:44","modified_gmt":"2013-10-21T23:09:44","slug":"evolucao-e-espiritualidade","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/ciencia-e-espiritualidade\/evolucao-e-espiritualidade\/","title":{"rendered":"Evolu\u00e7\u00e3o e Espiritualidade"},"content":{"rendered":"<div>Dalmo Duque dos Santos<\/p>\n<div><big><big><br \/>\n1. \u00a0<big><big><small><small>O Governo do Universo<\/small><\/small><\/big><\/big><\/big><\/big><\/div>\n<\/div>\n<p>A Consci\u00eancia \u00e9 o governo do Universo. \u00c9 ela quem reina e comanda a Vida, em todos os planos e dimens\u00f5es que formam o Infinito. Nada escapa \u00e0 sua Onisci\u00eancia e Onipresen\u00e7a, atrav\u00e9s das leis que regulam a Natureza, em todos os lugares e mundos.<\/p>\n<p>Quando passamos a perceber essa verdade em n\u00f3s, iniciamos imediatamente o processo de gest\u00e3o de nossas exist\u00eancias. Passamos a administrar os rumos que tomam as nossas vidas.<\/p>\n<p>Somos pequenas consci\u00eancias, criadas \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de uma Consci\u00eancia Maior, que rege as coisas e alimenta todas as necessidades. Somos microcosmos de uma realidade macro-c\u00f3smica.<\/p>\n<p>Em n\u00f3s existe, em pleno funcionamento, todas as din\u00e2micas e r\u00edtmicas que acontecem nos m\u00faltiplos esteios da Cria\u00e7\u00e3o. Carregamos em n\u00f3s todos os seus elementos vitais: a energia, o tempo, os ciclos, as pulsa\u00e7\u00f5es, os compassos, circunst\u00e2ncias, pensamentos, emo\u00e7\u00f5es, vontades, escolhas, decis\u00f5es e finalmente as tramas do destino. Tudo isso \u00e9 o Reino da Vida, que existe dentro e fora de n\u00f3s, simultaneamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que todos somos, a todo instante, impulsionados pela necessidade de dominar e controlar as in\u00fameras for\u00e7as que se movimentam ao nosso redor. Vivemos incomodados numa perturba\u00e7\u00e3o f\u00edsica e ps\u00edquica, tentando acalmar o turbilh\u00e3o de inquieta\u00e7\u00f5es \u00edntimas e tamb\u00e9m exteriores.<\/p>\n<p>Como H\u00e9rcules, o filho de Zeus e Alemena, trazemos gravados em nossa mem\u00f3ria espiritual os sinais das nossas origens divinas. Temos como metas compromissos inadi\u00e1veis, semelhantes aos Doze Trabalhos do c\u00e9lebre her\u00f3i da mitologia grega, cuja realiza\u00e7\u00e3o representa as equa\u00e7\u00f5es das coisas que precisamos entender, compreender e depois colocar em pr\u00e1tica. Muitos enigmas ainda ter\u00e3o que ser decifrados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por outra causa tamb\u00e9m que estamos constantemente insatisfeitos, sempre em busca das coisas que consideramos inexplic\u00e1veis e incompreens\u00edveis. Por isso sempre queremos mudar as que est\u00e3o prontas e acabadas e resolver os problemas que est\u00e3o, desde sempre, solucionados. Queremos ser deuses, dominar consci\u00eancias, direcionar destinos alheios e contrariar a ordem natural. Enfim, queremos engolir toda a \u00e1gua dos oceanos e respirar\u00a0 toda a poeira c\u00f3smica que se espalhada pelo espa\u00e7o. E ainda assim continuamos entediados, insaci\u00e1veis, querendo governar o mundo, por\u00e9m fugindo sempre da necessidade de governar a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Esse tem sido o nosso dilema central, esquecendo-nos de que perigoso n\u00e3o \u00e9 morrer e sim existir. Esse tem sido o nosso \u201cser ou n\u00e3o ser\u201d, o drama de todas as consci\u00eancias, a hist\u00f3ria de todas as criaturas e dos eternos mist\u00e9rios da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a consci\u00eancia que herdamos do Criador tem sido a ferramenta principal das nossas tarefas, a b\u00fassola que vem nos guiando desde as mais rudes experi\u00eancias dos reinos f\u00edsicos at\u00e9 o nosso recente ingresso no reino ps\u00edquico. Ela \u00e9 o meio que certamente nos conduzir\u00e1 ao fim, que \u00e9 o nosso encontro ou mergulho definitivo na Consci\u00eancia Divina.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o \u00e9 mero efeito do acaso existencial, mas o produto de uma longa jornada evolutiva pela qual passam os seres vivos, em incont\u00e1veis experi\u00eancias nos pacientes laborat\u00f3rios da Natureza. E a parcela de consci\u00eancia humana, na escala infinita da Consci\u00eancia Divina, talvez seja apenas um dos in\u00fameros est\u00e1gios desse grande percurso. Ainda assim, ela n\u00e3o d\u00e1 saltos, e sim queima as etapas de um complexo processo de percep\u00e7\u00e3o da realidade:<\/p>\n<ul>\n<li>1\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia\u00a0 Apreende a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>2\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Compreende a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>3\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Significa a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>4\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Projeta a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>5\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Critica a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>6\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Age sobre a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>7\u00ba momento \u2013 a consci\u00eancia Transforma a realidade<\/li>\n<\/ul>\n<p>2. \u00a0A Emerg\u00eancia da Pessoa<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX foi marcado pela explos\u00e3o de movimentos de busca de felicidade, como reflexo dos desequil\u00edbrios causados pela revolu\u00e7\u00e3o industrial. No s\u00e9culo XX essas ideologias e utopias tomaram formas esdr\u00faxulas, em forma de sistemas pol\u00edticos totalit\u00e1rios, guerras monstruosas, aniquilamento humano e ambiental. O pr\u00f3prio planeta foi colocado em risco diante da amea\u00e7a de uma hecatombe nuclear. Morte, servid\u00e3o industrial, massifica\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria, individualismo, narcisismo foram as principais marcas desse s\u00e9culo t\u00e3o promissor e\u00a0 ao mesmo tempo t\u00e3o sombrio. Durante esses cem anos estivemos mergulhados na ambi\u00e7\u00e3o e no medo, na extravag\u00e2ncia e na fome, nas multid\u00f5es e na solid\u00e3o, nas fantasias e na depress\u00e3o; ora iludidos pela fama de quinze minutos, ora derrotados pela desilus\u00e3o das coisas ef\u00eame ras. Nunca se registrou tamanha situa\u00e7\u00e3o de caos na experi\u00eancia humana, uma crise sem precedentes; nunca se consumiu tantas drogas e alucin\u00f3genos para facilitar a fuga da realidade. A expans\u00e3o da criminalidade e o aumento da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria atingiram n\u00edveis assustadores.<\/p>\n<p>Mas foi tamb\u00e9m no mesmo s\u00e9culo XX, em plena crise, que surgiram os germes de uma nova forma de vida. Da pr\u00f3pria ci\u00eancia decadente aparecem novos paradigmas de observa\u00e7\u00e3o da realidade; das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es, impotentes e desmoralizadas, brotam novas perspectivas para civiliza\u00e7\u00e3o. Uma nova gera\u00e7\u00e3o come\u00e7a a nascer no planeta, demonstrando um comportamento diferente dos seus antepassados. \u00c9 a emerg\u00eancia da pessoa, antes sufocada pelo coletivismo da cultura de massas. Marilyn Ferguson[1] definiu esse curioso fen\u00f4meno como uma \u201cconspira\u00e7\u00e3o \u201d.\u00a0 Esse novo ser humano\u00a0 se recusa ser tratado como uma pe\u00e7a de consumo ou mero dado estat\u00edstico. S\u00e3o eles novos focos de uma transforma\u00e7\u00e3o silenciosa, sem alardes, e que se intercomunicam pela afinidade de sentimentos. \u201cConspiram\u201d porque \u201crespiram\u201d juntos o mesmo ar, os mesmos anseios. S\u00e3o portadores de uma revolu\u00e7\u00e3o invertida, de dentro para fora, e por isso permanecem em sil\u00eancio, num compasso de espera, aguardando o momento certo para atuar. N\u00e3o poderiam comprometer a nova ordem das coisas. Muitos deles j\u00e1 entraram em cena e desempenharam complicados pap\u00e9is de mudan\u00e7a; pap\u00e9is de destaque ou an\u00f4nimos, como suportes ou pontas de lan\u00e7a, mas todos comprometidos com as transforma\u00e7\u00f5es.\u00a0 S\u00e3o pessoas diferentes e que continuam a nascer todos os dias. Segundo Carl Rogers[2], eles ter\u00e3o uma inf\u00e2ncia atormentada, sofrer\u00e3o as adversidades de um ambiente estranho e hostil, mas conseguir\u00e3o sobreviver. Ir\u00e3o crescer, instruir-se para exercer as mais diversas profiss\u00f5es, geralmente ligadas ao processo de mudan\u00e7as: na educa\u00e7\u00e3o, nas artes, nos laborat\u00f3rios, no ativismo social. Ser\u00e3o aut\u00eanticos agentes da regenera\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria e por isso ocupar\u00e3o novos espa\u00e7os e saber\u00e3o explorar o novo tempo. \u00c9 claro que tamb\u00e9m est\u00e3o nascendo seres iguais ou piores aos do s\u00e9culo XX, mas j\u00e1 s\u00e3o em menor n\u00famero e brevemente ser\u00e3o impedidos de agir negativamente, pois ser\u00e3o vistos claramente como seres med\u00edocres ou aberra\u00e7\u00f5es de passado inaceit\u00e1vel.<br \/>\nO momento atual \u00e9 de lutas entre o velho e o novo, entre o v\u00edcio e a virtude e de intensas contradi\u00e7\u00f5es; \u00e9 muito delicado e exige paci\u00eancia e confian\u00e7a no futuro; \u00e9 uma longa fase de transi\u00e7\u00e3o que deve ser vivida com coragem e vivenciada com aceita\u00e7\u00e3o e at\u00e9 sacrif\u00edcio, como necessidade natural do processo de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste in\u00edcio de um novo s\u00e9culo e de um novo mil\u00eanio as institui\u00e7\u00f5es que trabalham pela qualidade de vida no planeta e pelo desenvolvimento da Humanidade j\u00e1 demonstram um vivo interesse em dar novos rumos no conhecimento e na melhoria da experi\u00eancia humana. A Unesco, por exemplo, que \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas e voltado para as quest\u00f5es educacionais, elaborou um vasto estudo sobre as necessidades a serem preenchidas neste setor. Tais estudos devem preparar a Humanidade para os novos paradigmas sociais do novo mil\u00eanio. Esse relat\u00f3rio, preparado por c\u00e9lebres educadores de diversos pa\u00edses e coordenado por Jacques Delors, elegeu como ponto fundamental os Quatro Pilares da educa\u00e7\u00e3o para o futuro:<\/p>\n<ul>\n<li>Aprender a\u00a0 Conhecer<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Aprender a Fazer<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Aprender a Conviver<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Aprender a Ser<\/li>\n<\/ul>\n<p>Nesses quatro verbos din\u00e2micos, certamente inspirados por intelig\u00eancias espirituais superiores, est\u00e3o contidas e sintetizadas as experi\u00eancias essenciais da viv\u00eancia humana, incluindo as intelig\u00eancias m\u00faltiplas. Neles visualizamos n\u00e3o s\u00f3 os conte\u00fados te\u00f3ricos racionais e exteriores, mas tamb\u00e9m a valoriza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias emocionais, fortemente respons\u00e1veis pela plenitude existencial da nossa esp\u00e9cie. Numa ordem evolutiva de transforma\u00e7\u00e3o da pessoa \u2013 de dentro para fora e de fora para dentro &#8211; eles contemplam, portanto, n\u00e3o s\u00f3 as habilidades cognitivas,\u00a0 mas tamb\u00e9m as compet\u00eancias, que influenciam o ser humano a tomar as mais importantes decis\u00f5es. Mostram ainda, pela intera\u00e7\u00e3o, as m\u00faltiplas faces e possibilidades do Ser:<\/p>\n<ul>\n<li>Ser corp\u00f3reo: de dimens\u00e3o e complexidade biol\u00f3gica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser inteligente: de dimens\u00e3o mental e complexidade psicol\u00f3gica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser emotivo: de sensibilidade e expressividade sentimental.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser social: de rela\u00e7\u00f5es e afinidades interpessoais.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser livre: de ir e vir, de agir e decidir.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser est\u00e9tico: que se alimenta de imagens e auto-imagens.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser volitivo: que se move pela vontade.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser hist\u00f3rico e planet\u00e1rio: do seu tempo e do seu ambiente.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser c\u00f3smico: de condi\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia meta planet\u00e1ria.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser espiritual: de origem e condi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Ser moral: de natureza \u00e9tica, de din\u00e2mica evolutiva e\u00a0 positiva.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Nessa mesma linha de novas descobertas sobre a natureza humana e de propostas renovadoras\u00a0 Bernardo Toro[3] desenvolveu \u201cOs Sete C\u00f3digos da Modernidade\u201d, que s\u00e3o os saberes necess\u00e1rios para compreender e conviver na nova sociedade contempor\u00e2nea. Baseando-se em experi\u00eancias desafiadoras de ensino e educa\u00e7\u00e3o em escolas p\u00fablicas e comunidades carentes, o pesquisador colombiano identificou as principais ferramentas para interpreta\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o des se novo mundo, dessa nova ordem: velocidade tecnol\u00f3gica, diversidade social, incerteza e instabilidade de paradigmas, incongru\u00eancia entre o ef\u00eamero e as perman\u00eancias, multiculturalismo e fragmenta\u00e7\u00e3o da realidade s\u00e3o as novas condi\u00e7\u00f5es de vida e perspectivas que a humanidade tem pela frente.<\/p>\n<ul>\n<li>Dominar as diferentes formas de leitura e escrita;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Resolver equa\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e psicol\u00f3gicas;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Analisar, descrever e interpretar dados, fatos e situa\u00e7\u00f5es;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Compreender e atuar no contexto social;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Receber\u00a0 aberta e criticamente os meios e mensagens\u00a0 da comunica\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Localizar, acessar e otimizar a informa\u00e7\u00e3o acumulada;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Planejar, trabalhar e decidir em grupo.<\/li>\n<\/ul>\n<p><big>As Contra-correntes de regenera\u00e7\u00e3o<\/big><\/p>\n<p>Outra tend\u00eancia afinada com tais propostas s\u00e3o as id\u00e9ias do fil\u00f3sofo Edgard Morin[4], cuja an\u00e1lise hist\u00f3rica da passagem do mil\u00eanio identificou as tr\u00eas principais for\u00e7as negativas predominantes no s\u00e9culo XX : o aniquilamento, o irracionalismo e a servid\u00e3o industrial. Identificou tamb\u00e9m, por outro lado, as contra-correntes que lutam pelo estabelecimento de uma nova ordem mundial, mais harm\u00f4nica e humanista:<\/p>\n<ul>\n<li>Ecologista : movimenta-se pela preserva\u00e7\u00e3o ambiental e pela conscientiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Qualitativa: luta pela qualidade de vida, pela humaniza\u00e7\u00e3o do trabalho, pelo exerc\u00edcio dos direitos de cidadania e integridade\u00a0 humanas;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Resist\u00eancia ao consumismo: pratica a temperan\u00e7a, a frugalidade e luta contra o consumo sup\u00e9rfluo e a cultura do desperd\u00edcio de recursos;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Resist\u00eancia ao capitalismo desumano: \u00e9 contra a tirania do dinheiro e do lucro e luta pela correta aplica\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da riqueza;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Resist\u00eancia \u00e0 frieza utilitarista: exemplifica a poesia, a espiritualidade e o amor; combate a dissemina\u00e7\u00e3o do comportamento individualista e da indiferen\u00e7a social;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Pacifista: acredita no amor e no perd\u00e3o e trabalha contra a dissemina\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Segundo Morin todas essas contra-correntes buscam um novo sentido para a Humanidade, na constru\u00e7\u00e3o de uma Civiliza\u00e7\u00e3o Planet\u00e1ria, atrav\u00e9s do desenvolvimento de uma consci\u00eancia antropol\u00f3gica, da matura\u00e7\u00e3o de um civismo global e da espiritualiza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o humana. Profetizadas nas obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Isac Asimov, como \u201cfunda\u00e7\u00f5es\u201d, esses n\u00facleos sociais ou \u00e1tomos regeneradores foram surgindo em pequenos grupos idealistas na medida em ocorriam os abusos empreendidos pelas for\u00e7as destruidoras e tir\u00e2nicas e que colocavam em risco milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o. Inicialmente foram vistas com desconfian\u00e7a pela sociedade exatamente porque ousavam destoar dos conceitos comuns. Eram desacreditados porque se apoiavam em pessoas\u00a0 sem nenhuma influ\u00eancia formal, e sim em jovens idealistas, ad ultos j\u00e1 conhecidos como velhos rebeldes, grupos de utopistas que nunca haviam mostrado resultados pr\u00e1ticos de suas id\u00e9ias. Mas com o tempo essas contra-correntes foram crescendo, tomando forma e for\u00e7a, ocupando espa\u00e7o pol\u00edtico e social. Na d\u00e9cada de 1960 eram apenas pequenos grupos isolados; na d\u00e9cada de 1980 foi tomando formato de organiza\u00e7\u00f5es, como do Partido Verde, na Alemanha. E de protesto em protesto, e muitos abaixo-assinados, as contra-correntes foram se impondo como alternativas aos sistemas opressores do capital industrial, gerador de guerras, de morte e destrui\u00e7\u00e3o ambiental.\u00a0 Podemos identificar na reuni\u00e3o de todas elas a s\u00edntese da Regenera\u00e7\u00e3o, na qual o nosso planeta poder\u00e1 superar a condi\u00e7\u00e3o de mundo inferior &#8211; de provas e expia\u00e7\u00f5es \u2013 adquirindo um perfil superior em moralidade e harmonia com as leis universais.<br \/>\nAtualmente continuamos insistindo nessa desarmonia com essas leis e por isso sofremos constantemente os choques de retorno\u00a0 dessas a\u00e7\u00f5es negativas. Elas s\u00e3o, quase sempre, estimuladas pelo ego\u00edsmo, pelo individualismo, pela gan\u00e2ncia, pelo h\u00e1bito pessoal e social das fugas da realidade, da mentira, da ilus\u00e3o, da alucina\u00e7\u00e3o\u00a0 e outros mecanismos defensivos mentais. Essa situa\u00e7\u00e3o de impasse entre a animalidade instintiva e a humanidade intuitiva exige uma reestrutura\u00e7\u00e3o mental, pela educa\u00e7\u00e3o dos sentidos f\u00edsicos e ps\u00edquicos.<\/p>\n<p>Novos verbos din\u00e2micos tamb\u00e9m est\u00e3o nesse repert\u00f3rio de grandes transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas visualizadas por Morin: o bem pensar; o cultivo da introspec\u00e7\u00e3o;\u00a0 a abertura para novas id\u00e9ias e experi\u00eancias; compreens\u00e3o, pela empatia , da diversidade planet\u00e1ria e da complexidade humana.\u00a0 Tudo isso se resume numa nova Intelig\u00eancia Global.<\/p>\n<p><big><big>3. \u00a0A Era da Intelig\u00eancia Emocional\u00a0\u00a0<\/big><br \/>\n<\/big><br \/>\nA melhor express\u00e3o da esp\u00e9cie humana \u00e9 sua intelig\u00eancia, diferenciada das demais esp\u00e9cies pela sua capacidade de fazer escolhas. E a maior express\u00e3o dessa intelig\u00eancia s\u00e3o os sentimento e emo\u00e7\u00f5es, paix\u00f5es e compaix\u00f5es que o ser humano demonstra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas e aos seus semelhantes. Este \u00e9 o motivo pelo qual todas as culturas ensinam, de acordo com as suas tradi\u00e7\u00f5es, que o Homem foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a da Divindade.\u00a0 Ao contr\u00e1rio do car\u00e1ter quase est\u00e1tico da intelig\u00eancia instintiva dos animais, a intelig\u00eancia humana \u00e9 din\u00e2mica e constantemente desafiada pelas circunst\u00e2ncias das exist\u00eancias. O fator mudan\u00e7a-adapta\u00e7\u00e3o do plano biol\u00f3gico animal \u00e9 lento e quase impercept\u00edvel; por\u00e9m, no plano psicol\u00f3gico hominal, \u00e9 extremamente veloz, devido \u00e0 percep\u00e7\u00e3o racional e dada \u00e0 riqueza e diversidade das situa\u00e7\u00f5es existenciais da experi\u00eancia social humana. Diante dessa diversidade e impulsionado pelas paix\u00f5es naturais, o ser racional n\u00e3o tem alternativa sen\u00e3o fazer escolhas, mesmo que seja em forma de fugas. \u00c9 atrav\u00e9s dessa crescente riqueza circunstancial, estimulada pelas constantes descobertas e inquieta\u00e7\u00f5es sociais, que se revelam as m\u00faltiplas faces da intelig\u00eancia e tamb\u00e9m os segredos do funcionamento da mente e da aprendizagem. Foi por esse motivo que somente agora, em plena era tecnol\u00f3gica, antigas verdades, guardadas \u00e0 sete chaves nos c\u00edrculos ocultos,\u00a0 vieram \u00e0 tona nos tempos atuais. Foi dessa forma que desabou o mito cient\u00edfico da intelig\u00eancia \u00fanica e da pedagogia unilateral. Quando um Huberto Rohden afirma que \u201cningu\u00e9m educa ningu\u00e9m\u201d &#8211; porque a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 intransitiva \u2013 ou um Carl Rogers demonstra que o professor \u00e9 apenas um facilitador, est\u00e3o revelando essa face enigm\u00e1tica e atraente da mente humana, qu e s\u00f3 aprende algo e se deixa educar quando toma a decis\u00e3o de se transformar. Quem decide o momento da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio educando, pela auto-aprendizagem, que \u00e9 a busca da sua realiza\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente intransitiva, mas \u00e9\u00a0 tamb\u00e9m imprevis\u00edvel, como o pr\u00f3prio ser humano.<\/p>\n<p>Os conceitos existentes sobre a intelig\u00eancia &#8211; hoje bastante transformados &#8211; , j\u00e1 vinham passando\u00a0 por uma profunda revis\u00e3o nas \u00faltimas cinco d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Diversos\u00a0 fil\u00f3sofos, psic\u00f3logos e educadores desenvolveram nesse per\u00edodo pesquisas e teorias revolucion\u00e1rias, mostrando que a mente humana n\u00e3o era somente uma fatalidade biol\u00f3gica ou um mero produto do meio social; e sim uma complexa combina\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias cujas conex\u00f5es permaneceram desconhecidas e ainda permanecer\u00e3o por muito tempo no terreno do mist\u00e9rio. Tudo indica que nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas deste novo s\u00e9culo esse tema t\u00e3o atraente tomar\u00e1 rumos totalmente novos em rela\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e0queles que vinham sendo propostos anteriormente.\u00a0 \u00c9\u00a0 assim que temos\u00a0 visto a recente substitui\u00e7\u00e3o do tradicional conceito de Q.I. (Quociente de Intelig\u00eancia)\u00a0 pelo Q.E. (Quociente Emocional) ou T.I.M.- Teoria das Intelig\u00eancias M\u00faltiplas. O primeiro julgava a intelig\u00eancia do ponto de vista quantitativo, geral, \u00fanico, fixo e imut\u00e1vel; o segundo j\u00e1 mostra a intelig\u00eancia de um ponto de vista qualitativo, negando que exista somente uma intelig\u00eancia geral e sim intelig\u00eancias espec\u00edficas e aut\u00f4nomas. Segundo essas novas teorias todos n\u00f3s somos dotados de uma variedade de diferentes compet\u00eancias e habilidades cognitivas. O primeiro conceito restringia a intelig\u00eancia ao pensamento l\u00f3gico-matem\u00e1tico, mensurando-a com f\u00f3rmulas da mesma natureza: o Q.I. seria ent\u00e3o a propor\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia de um indiv\u00edduo determinada de acordo com alguma medida mental, e a intelig\u00eancia normal ou m\u00e9dia para a sua idade[5].\u00a0 O segundo conceito diverge da id\u00e9ia de que a intelig\u00eancia se mede pela capacidade de responder testes l\u00f3gico-matem\u00e1ticos e afirma que a mesma \u00e9 caracterizada por um conjunto de habilidades emocionais na solu\u00e7\u00e3o de problemas. Prova disso \u00e9 o fato de que muitos indiv\u00edduos rotulados como \u201cinteligentes\u201d pelos testes de QI se mostraram in\u00e1beis na solu\u00e7\u00e3o de determinados problemas que n\u00e3o os de ordem l\u00f3gico-matem\u00e1tica.\u00a0 E muitos indiv\u00edduos, tamb\u00e9m rotulados como \u201cpouco inteligentes\u201d\u00a0 na realiza\u00e7\u00e3o dos teste s de QI se mostraram muito habilidosos na solu\u00e7\u00e3o de problemas nos quais os indiv\u00edduos de QI elevado sempre fracassavam. Enfim, a Ci\u00eancia come\u00e7a a perceber uma verdade filos\u00f3fica\u00a0 t\u00e3o antiga quanto a esp\u00e9cie humana: o livre-arb\u00edtrio como ferramenta de crescimento e autonomia pessoal; e a capacidade individual de fazer escolhas certas como o verdadeiro atributo da intelig\u00eancia integral.<\/p>\n<p>A partir dessas contradi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e evid\u00eancias de comportamento constatou-se que a intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 absoluta, mas sempre relativa e proporcional ao grau de consci\u00eancia da pessoa. Ela parte sempre do aspecto parcial e simples\u00a0 para o integral e complexo, que \u00e9 a verdade como um todo. Quando afirmamos que algu\u00e9m \u00e9 inteligente ou pouco inteligente devemos sempre acrescentar as seguintes perguntas: Inteligente em que? Para que?\u00a0 Em que circunst\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Intelig\u00eancia sempre foi sin\u00f4nimo de poder e superioridade e durante muito tempo ela vem sendo objeto sistem\u00e1tico de culto um social, sobretudo no mundo competitivo p\u00f3s-industrial. Segundo esse conceito cultural, as pessoas tidas como inteligentes geralmente s\u00e3o vistas como seres superiores aos demais. Mas s\u00e3o superiores em que sentido? Em que circunst\u00e2ncia?\u00a0 Alexandre Magno, J\u00falio C\u00e9sar e Napole\u00e3o Bonaparte eram seres muito inteligentes, mas n\u00e3o eram seres superiores aos demais seres humanos em diversos sentidos.\u00a0 Hitler, apesar de ser vegetariano e abst\u00eamio de carne, fumo e \u00e1lcool, nunca foi exemplo de superioridade, sobretudo no aspecto moral.\u00a0 Todos eles eram seres humanos e, portanto, tinham limi tes n\u00e3o ultrapassados pelo tipo de intelig\u00eancia que possu\u00edam.\u00a0 Hitler tinha preconceitos contra judeus, negros, mulheres, etc.; isso \u00e9 um limite na capacidade de solucionar problemas de conviv\u00eancia com aqueles que consideramos diferentes. Ali\u00e1s, considerar pessoas ou conceitos diferentes como \u201cinferiores ou \u201cpiores\u201d denota claramente falta de habilidade mental para romper limites. Todos esses falsos \u201cg\u00eanios\u201d da hist\u00f3ria cometeram erros ao fazer escolhas e avalia\u00e7\u00f5es emocionais, provando que a intelig\u00eancia que possu\u00edam era limitada e parcial.<\/p>\n<p>Foi isso que diferenciou esses famosos e \u201cinteligentes\u201d estadistas de alguns seres tamb\u00e9m inteligentes como Santo Agostinho, Gandhi, Conf\u00facio ou Martin Luther King. Esses \u00faltimos eram pessoas que exibiam um tipo de intelig\u00eancia n\u00e3o muito adequada para os padr\u00f5es competitivos da arte militar e da conquista de territ\u00f3rios, mas extremamente habilidosos na competi\u00e7\u00e3o contra inimigos interiores e na conquista do \u00e1rido territ\u00f3rio \u00edntimo. Eram, al\u00e9m de inteligentes, muito equilibrados emocionalmente. Suas conquistas interiores, aparentemente fr\u00e1geis e impotentes, promoveram assustadoras mudan\u00e7as exteriores, de grande impacto social. Logo, o equil\u00edbrio emocional \u00e9 um grande diferencial de intelig\u00eancia. Isto porque, al\u00e9m da cogni\u00e7\u00e3o e do pensamento l\u00f3gico, esses indiv\u00edduos ampliaram suas intelig\u00eancias atrav\u00e9s de outras experi\u00eancias mentais, manifestadas pelos sentimentos e a\u00e7\u00f5es ainda incomuns na maioria dos seres humanos.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o conceito de intelig\u00eancias m\u00faltiplas abriu uma nova perspectiva na \u00e1rea do conhecimento, pois rompeu com os limites da \u201cintelig\u00eancia \u00fanica\u201d, que \u00e9 por si s\u00f3 limitada e restrita, deslocando o ser humano para a \u201cviv\u00eancia\u201d, que \u00e9 uma forma de intelig\u00eancia mais ampla, infinitamente irrestrita\u00a0 e ilimitada. Viv\u00eancia pode ser chamada de intelig\u00eancia total ou integral, enquanto a intelig\u00eancia, \u00fanica e isolada,\u00a0 \u00e9 fragmentada e parcial.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia \u00e9 um meio para se chegar ao conhecimento; a viv\u00eancia \u00e9 um fim, \u00e9 o pr\u00f3prio conhecimento. E este \u201cfim\u201d n\u00e3o \u00e9 o limite, mas o eterno \u201cin\u00edcio\u201d de novas e eternas experi\u00eancias. Logo, conhecimento \u00e9 uma experi\u00eancia que na verdade n\u00e3o tem fim. Quanto mais conhecemos mais tomamos consci\u00eancia de que n\u00e3o sabemos muito. Essa foi a viv\u00eancia de S\u00f3crates e foi por esse motivo que o or\u00e1culo o apontou como o homem mais s\u00e1bio da Gr\u00e9cia, exatamente\u00a0 porque o conhecido fil\u00f3sofo vivia afirmando que nada sabia e que a experi\u00eancia mais importante na vida era o \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Todo ser humano que desperta para as realidades que o rodeiam o faz buscando entender a l\u00f3gica da sua exist\u00eancia. Suas d\u00favidas o levam a aprender coisas novas e solucionar problemas delas decorrentes. E naturalmente faz perguntas, busca respostas, tr\u00e1s consigo o germe da filosofia no sangue e na alma. Considerando a linha filos\u00f3fica socr\u00e1tica, as d\u00favidas mais comuns s\u00e3o essas:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0QUEM SOMOS?<\/p>\n<div>Resposta: Consci\u00eancias, individualidades.-\u00a0DE ONDE VIEMOS?<\/p>\n<p>Resposta: de uma fonte inteligente superior e criadora das coisas.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0PARA ONDE VAMOS?<\/p>\n<p>Resposta: atrav\u00e9s de in\u00fameras experi\u00eancias nos transformamos mental e constantemente do simples para o complexo, do homog\u00eaneo para o heterog\u00eaneo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Mesmo discordando ou aceitando a l\u00f3gica dessas respostas sentimos a necessidade de ir adiante, desvendar os mist\u00e9rios que elas\u00a0 deixam na superf\u00edcie da nossa capacidade de compreens\u00e3o. Queremos ent\u00e3o aprofund\u00e1-las cada vez mais.<\/p>\n<p>Sabemos o que \u00e9 a intelig\u00eancia, qual a sua fun\u00e7\u00e3o e isso nos leva a perceber primeiramente que ela se localiza em um determinado ponto do nosso organismo: a cabe\u00e7a, especificamente no c\u00e9rebro.\u00a0 Mas os c\u00e9rebros, organicamente falando, s\u00e3o todos iguais. C\u00e9rebros de criminosos famosos e de personalidades do mundo acad\u00eamico, de pois de suas mortes f\u00edsicas, foram dissecados por estudiosos e nada foi encontrado em suas medidas e caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas que pudessem ser associadas \u00e0 intelig\u00eancia. Tanto o c\u00e9rebro de Einstein quanto o do cangaceiro Lampi\u00e3o eram absolutamente id\u00eanticos.\u00a0 Ent\u00e3o, por que as pessoas s\u00e3o diferentes e reagem de maneiras diferentes? Onde est\u00e1 essa diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>Quando uma pessoa v\u00ea um objeto vermelho todas as outras pessoas tamb\u00e9m v\u00eaem o tal objeto vermelho porque os c\u00e9rebros realizam uma opera\u00e7\u00e3o f\u00edsica semelhante para interpretar essa informa\u00e7\u00e3o visual. Mas essas pessoas podem ter uma rea\u00e7\u00e3o diferenciada quando s\u00e3o questionadas sobre o que \u201csentem\u201d a respeito da cor vermelha. Uns podem\u00a0 \u201cgostar\u201d do vermelho e outros simplesmente \u201cdetestar\u201d a mesma cor.<\/p>\n<p>Por que isso acontece se os c\u00e9rebros s\u00e3o iguais?<\/p>\n<p>Resposta: quem manifestou o sentimento sobre a cor vermelha n\u00e3o foi o c\u00e9rebro, mas algo que d\u00e1 qualidade ao c\u00e9rebro: a mente.\u00a0 O c\u00e9rebro \u00e9 uma massa org\u00e2nica e a mente[6] \u00e9 o conjunto das experi\u00eancias que o c\u00e9rebro manifestou; o c\u00e9rebro \u00e9 apenas um captador externo de informa\u00e7\u00f5es, pelos sentidos exteriores; a mente \u00e9 a matriz das informa\u00e7\u00f5es interiores, o arquivo dessas informa\u00e7\u00f5es. Se aplicarmos uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito nessa an\u00e1lise \u00e9 f\u00e1cil perceber que o c\u00e9rebro \u00e9 o efeito da mente, emb ora seja um instrumento org\u00e2nico essencial para a manifesta\u00e7\u00e3o da mente. Um c\u00e9rebro defeituoso ou lesado n\u00e3o veicula corretamente os pensamentos, as atitudes, sentimento e emo\u00e7\u00f5es emitidas pela mente.<\/p>\n<p>Comparando algumas caracter\u00edsticas podemos perceber algumas diferen\u00e7as fundamentais entre c\u00e9rebro e mente e estabelecer realmente onde est\u00e1 centro das intelig\u00eancias:<\/p>\n<p>O C\u00c9REBRO: fisiol\u00f3gico, material , temporal, concreto, objetivo, s\u00e3o todos iguais na forma.<\/p>\n<p>A MENTE: psicol\u00f3gica, espiritual, atemporal,\u00a0 abstrata, subjetiva, s\u00e3o todas diferentes no conte\u00fado.<\/p>\n<p>Para o fil\u00f3sofo Henri B\u00e9rgson, que dedicou sua vida ao estudo dessas diferen\u00e7as conceituais, a percep\u00e7\u00e3o que temos do tempo e a exist\u00eancia da mem\u00f3ria s\u00e3o provas irrefut\u00e1veis do universo mental:<\/p>\n<div>&#8220;Todos os fatos e todas as analogias est\u00e3o a favor de uma teoria que veria no c\u00e9rebro apenas um intermedi\u00e1rio entre as sensa\u00e7\u00f5es e os movimentos, que faria desse conjunto de sensa\u00e7\u00f5es e movimentos a ponta extrema da vida mental, ponta incessantemente inserida no tecido dos acontecimentos, e que, atribuindo assim ao corpo a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o de orientar a mem\u00f3ria para o real e lig\u00e1-la ao presente, consideraria essa pr\u00f3pria mem\u00f3ria como absolutamente independente da mat\u00e9ria. Neste sentido, o c\u00e9rebro contribui para chamar de volta a lembran\u00e7a \u00fatil, por\u00e9m mais ainda para afastar provisoriamente todas as outras. N\u00e3o vemos de que modo a mem\u00f3ria se alojaria na mat\u00e9ria; mas compreendemos bem &#8211; conforme a observa\u00e7\u00e3o profunda de um fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo [Ravaisson] &#8211; que &#8220;a materialidade ponha em n\u00f3s o esquecimento&#8221;.<\/div>\n<p>Segundo B\u00e9rgson o c\u00e9rebro jamais poderia produzir as impress\u00f5es e as refer\u00eancias que a mente consciencial d\u00e1 ao tempo:<\/p>\n<p>&#8220;A dura\u00e7\u00e3o vivida por nossa consci\u00eancia \u00e9 uma dura\u00e7\u00e3o de ritmo determinado, bem diferente desse tempo de que fala o f\u00edsico e que \u00e9 capaz de armazenar, num intervalo dado, uma quantidade de fen\u00f4menos t\u00e3o grande quanto se queira. No espa\u00e7o de um segundo, a luz vermelha &#8211; aquela que tem o maior comprimento de onda e cujas vibra\u00e7\u00f5es s\u00e3o portanto as menos freq\u00fcentes &#8211; realiza 400 trilh\u00f5es de vibra\u00e7\u00f5es sucessivas. Deseja-se fazer uma id\u00e9ia desse n\u00famero? Ser\u00e1 preciso afastar as vibra\u00e7\u00f5es umas das outras o suficiente para que nossa consci\u00eancia possa cont\u00e1-las ou pelo menos registrar explicitamente sua sucess\u00e3o, e se ver\u00e1 quantos dias, meses ou anos ocuparia tal sucess\u00e3o. Ora, o menor intervalo de tempo vazio de que temos consci\u00eancia \u00e9 igual, segundo Exner, a dois mil\u00e9simos de segundo; ainda assim \u00e9 duvidoso que possamos perceber um ap\u00f3s outro v\u00e1rios intervalos t\u00e3o curtos. Admitamos no entanto que sejamo s capazes disso indefinidamente. Imaginemos, em uma palavra, uma consci\u00eancia que assistisse ao desfile de 400 trilh\u00f5es de vibra\u00e7\u00f5es, todas instant\u00e2neas, e apenas separadas umas das outras pelos dois mil\u00e9simos de segundo necess\u00e1rios para distingui-las. Um c\u00e1lculo muito simples mostra que ser\u00e3o necess\u00e1rios 25 mil anos para concluir a opera\u00e7\u00e3o. Assim, essa sensa\u00e7\u00e3o de luz vermelha experimentada por n\u00f3s durante um segundo corresponde, em si, a uma sucess\u00e3o de fen\u00f4menos que, desenrolados em nossa dura\u00e7\u00e3o com a maior economia de tempo poss\u00edvel, ocupariam mais de 250 s\u00e9culos de nossa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Refletindo ainda sobre a diferen\u00e7a que existe entre as pessoas, podemos afirmar com toda a certeza que ela n\u00e3o est\u00e1 no c\u00e9rebro, mas na mente. \u00c9 na mente que est\u00e1 localizada verdadeiramente a intelig\u00eancia. \u00c9 na mente que se encontra desde as experi\u00eancias mais grosseiras e primitivas at\u00e9 as mais sofisticadas opera\u00e7\u00f5es cognitivas. Quanto mais complexas s\u00e3o as experi\u00eancias, mais complexas s\u00e3o as mentes.<\/p>\n<p>Enquanto c\u00e9rebro \u00e9 composto de massa e dinamizado pelos neur\u00f4nios, a mente \u00e9 formada e desenvolvida pelo conjunto de habilidades ou intelig\u00eancias cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 solucionar problemas de diferentes ordens. O conjunto dessas habilidades e compet\u00eancias opera e estimula os neur\u00f4nios atrav\u00e9s das tr\u00eas viv\u00eancias fundamentais: o Sentimento, o Pensamento e a A\u00e7\u00e3o .<\/p>\n<p>Durante todo o tempo de nossas vidas estamos pensando, agindo e sentindo.\u00a0 Ser inteligente n\u00e3o significa apenas raciocinar; significa tamb\u00e9m agir\u00a0 e reagir atrav\u00e9s de atitudes e emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso que tornam\u00a0 pessoas diferentes entre si, mais ou menos experientes uma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, com maior ou menor grau de maturidade.\u00a0 Mas \u00e9 bom lembrar que intelig\u00eancia nem sempre \u00e9 sin\u00f4nimo de maturidade. Existem pessoas &#8211; crian\u00e7as ou adultos &#8211;\u00a0 muito inteligentes por\u00e9m imaturas emocionalmente. Essa \u00e9 basicamente a diferen\u00e7a entre intelig\u00eancia e viv\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s dessas tr\u00eas viv\u00eancias que mente realiza suas fun\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas: obter conhecimento e auto-conhecimento e desenvolver o auto-dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Na manifesta\u00e7\u00e3o das tr\u00eas viv\u00eancias, isto \u00e9, o contato com o ambiente,\u00a0 a mente tem como trabalho b\u00e1sico a solu\u00e7\u00e3o de problemas e, num plano mais amplo, a ruptura de limites circunstanciais. Sempre que um problema \u00e9 solucionado ocorre uma acomoda\u00e7\u00e3o da nossa consci\u00eancia; se o problema\u00a0 n\u00e3o teve solu\u00e7\u00e3o \u00e9 sinal que h\u00e1 um limite que deve ser rompido para ser superado. Enquanto isso n\u00e3o for poss\u00edvel ocorre ent\u00e3o a adapta\u00e7\u00e3o, processo no qual a nossa consci\u00eancia \u201cdribla\u201d a realidade atrav\u00e9s da resigna\u00e7\u00e3o, das fugas e tamb\u00e9m dos ataques \u00e0s situa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas.<\/p>\n<p>Vejamos tamb\u00e9m como ocorre esse \u201cjogo\u201d entre a mente o ambiente[7]<\/p>\n<p>&#8220;A vida cotidiana \u00e9 c\u00f4moda quando estamos em contato com as coisas comuns e banais. Mas quando surge uma mudan\u00e7a qualquer, rompendo-se a monotonia atrav\u00e9s de situa\u00e7\u00f5es novas, ela passa a ser inc\u00f4moda. Essas situa\u00e7\u00f5es podem ser de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o e geralmente resultam numa nova acomoda\u00e7\u00e3o.\u00a0 Por\u00e9m, nem sempre as situa\u00e7\u00f5es se acomodam. Na maioria das vezes as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o inc\u00f4modas \u2013 e n\u00f3s sabemos a causa espiritual das mesmas \u2013 e geram uma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel de amea\u00e7a ao nosso conforto \u00edntimo. Diante dessas situa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas\u00a0 temos como op\u00e7\u00e3o a acomoda\u00e7\u00e3o,\u00a0 o fracasso e adapta \u00e7\u00e3o: nesta \u00faltima temos a s tentativas de diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento: a fuga , a resigna\u00e7\u00e3o ou agress\u00e3o.\u00a0 Para nos adaptarmos ao fracasso podemos fugir da realidade inc\u00f4moda e isso \u00e9 feito de in\u00fameras formas: desde a mudan\u00e7a brusca de assunto at\u00e9 a situa\u00e7\u00e3o extrema de entrarmos em coma. Fingir indiferen\u00e7a, usar drogas e rem\u00e9dios, tomar bebidas alco\u00f3licas, fumar, praticar algum esporte, fazer uma viagem, ler um livro, dobrar a carga de trabalho, demonstrar agressividade f\u00edsica e verbal, desmaiar e at\u00e9 mesmo entrar em coma s\u00e3o diferentes formas de adapta\u00e7\u00e3o ante as situa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas. As formas de variam de acordo com as pessoas e das circunst\u00e2ncias em que ocorrem. \u00c9 nesses momentos que a mente exige opera\u00e7\u00f5es cognitivas na qual temos que usar algum tipo de intelig\u00eancia para aprender a resolver desde os pequenos at\u00e9 os mais complexos problemas: da porta que emperrou ou do aparelho eletr\u00f4nico que n\u00e3o funciona at\u00e9 as mais graves prova\u00e7\u00f5es de ordem moral.&#8221;<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o das Intelig\u00eancias M\u00faltiplas<br \/>\nCom j\u00e1 dissemos, o conceito de uma intelig\u00eancia gen\u00e9rica foi sendo gradualmente superado pelo conceito de intelig\u00eancias m\u00faltiplas.\u00a0 Segundo essas novas tend\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia do comportamento o ser humano possui potencialmente sete tipos de intelig\u00eancias ou compet\u00eancias e habilidades cognitivas[8]. S\u00e3o habilidades e compet\u00eancias que foram sendo adquiridas desde os prim\u00f3rdios da ra\u00e7a humana constituindo tr\u00eas tend\u00eancias cognitivas: as intelig\u00eancias natural\u00edsticas (instintivas e intui tivas), as intelig\u00eancias t\u00e9cnicas (intelectuais e racionais) e as intelig\u00eancias sociais (emocionais e expressivas).<\/p>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia LINGU\u00cdSTICA: habilidade e sensibilidade no uso e significado das palavras: ret\u00f3rica, persuas\u00e3o, poesia, explica\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00e3o e narra\u00e7\u00e3o, etc.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia MUSICAL: habilidade e sensibilidade aos sons e ritmos.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia L\u00d3GICO-MATEM\u00c1TICA: habilidade na abstra\u00e7\u00e3o, na cria\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es, longas cadeias de racioc\u00ednio.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia ESPACIAL: habilidade de precis\u00e3o e sensibilidade na percep\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo, nas formas e objetos.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia CINEST\u00c9SICO-CORPORAL: habilidade no uso do corpo com fins expressivos e no alcance de objetivos que exijam movimentos motores.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Intelig\u00eancia PESSOAL: \u00e9 uma intelig\u00eancia \u00fanica\u00a0 no g\u00eanero e dupla na fun\u00e7\u00e3o: Intrapessoal \u00e9 a capacidade de acesso \u00e0 nossa vida emocional ou sentimental, pelo auto conhecimento;\u00a0 e Interpessoal \u00e9 capacidade \u00e9 a capacidade de observar e fazer distin\u00e7\u00f5es entre as pessoas do seu conv\u00edvio.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essas intelig\u00eancias n\u00e3o apareceram no ser humano num passe de m\u00e1gica, como se fosse um decreto arbitr\u00e1rio do Criador para suas criaturas, privil\u00e9gio e sucesso de uns e fonte de tormentos e fracasso para outros. Elas s\u00e3o o produto de uma evolu\u00e7\u00e3o natural, regida por leis naturais, de um desenvolvimento hist\u00f3rico da esfera biol\u00f3gica para a psicol\u00f3gica, realizada em milh\u00f5es de anos de experi\u00eancias, de erros e acertos. Marcaram dessa forma a transforma\u00e7\u00e3o de habilidades parciais no plano existencial em compet\u00eancias integrais, no plano vivencial. Cada uma dessas habilidades e compet\u00eancias surgiu por efeito de uma necessidade imperativa imposta pela Natureza ou pelas circunst\u00e2ncias. A descoberta do fogo \u00e9 a mais conhecida dessas experi\u00eancias. As vicissitudes do frio e da fome deram impulso para o desenvolvimento de habilidades que foram respons\u00e1veis pela sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana na Era Glacial. A educa\u00e7\u00e3o humana primitiva era feita pela natureza, pois o pr\u00f3prio Homem a ela estava mais estreitamente ligado. As leis naturais funcionavam processo de ensino-aprendizagem. Com o desenvolvimento da raz\u00e3o e do livre-arb\u00edtrio, o ser humano passou a gerir sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o e, n\u00e3o satisfeito com a sua autonomia, passou a desafiar a maestria da natureza na tentativa de submet\u00ea-la e transforma-la segundo assua necessidades. Essa ruptura coincide com o desenvolvimento das intelig\u00eancias m\u00faltiplas e a verticaliza\u00e7\u00e3o gradual da consci\u00eancia. Em cada \u00e9poca da Humanidade essas intelig\u00eancias se manifestaram em prot\u00f3tipos hist\u00f3ricos[9], dando um perfil antropol\u00f3gico para os grupos humanos e civiliza\u00e7\u00f5es nas quais viveram. Esses prot\u00f3tipos foram na verdade grandes educadores, modelos de pedagogias avan\u00e7adas no tempo. Em todos eles encontramos grandes projetos pedag\u00f3gicos cuja ess\u00eancia era transpor as coletividades da barb\u00e1rie para a civiliza\u00e7\u00e3o. Essa transposi\u00e7\u00e3o teve como suporte o aparato da intelig\u00eancia emocional desenvolvido no advento institucional da fam\u00edlia, em cujas rela\u00e7\u00f5es sociais sangu\u00edneas e de efetividade foram se processando as primeiras no\u00e7\u00f5es de ordem, de valores, de moral e de \u00e9tica. Foi a partir da fam\u00edlia e de suas seq\u00fc\u00eancias coletivas (cl\u00e3s, tribos, fr\u00e1trias) que os grandes educadores primitivos elaboraram seus projetos educativos facilitando ou refor\u00e7ando as bases da civiliza\u00e7\u00e3o. Foi no trajeto hist\u00f3rico do costume para a lei, da fam\u00edlia para o Estado, da moral para a \u00e9tica, que esses educadores fixaram as bases do comportamento diferenciado que traziam g ravados em suas almas. Eram seres de superioridade inconfund\u00edvel e desde cedo funcionaram como vetores de uma moralidade avan\u00e7ada e na maioria das vezes ainda incompat\u00edvel com o moral predominante em suas \u00e9pocas. Mas era exatamente essa caracter\u00edstica que os tornavam aptos a exercer a fun\u00e7\u00e3o de agentes transformadores do comportamento comum. Na Antiguidade o ve\u00edculo mais adequado para se processar tais mudan\u00e7as eram os n\u00facleos religiosos, que eram locais onde a curiosidade e a busca da verdade era mais comum. A inicia\u00e7\u00e3o religiosa e nos mist\u00e9rios da natureza aconteciam nos templos ou em escolas inici\u00e1ticas alternativas que fugiam da vicia\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica do clero. \u00c9 s\u00f3 lembrarmos do percurso hist\u00f3rico feito pelos judeus entre o Egito e a Palestina, no qual Mois\u00e9s funciona como educador social ao implantar, em pleno deserto, o projeto da civiliza\u00e7\u00e3o judaica, base da futura civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Antes da implanta\u00e7\u00e3o Mois\u00e9s fez sua inicia\u00e7\u00e3o\u00a0 nos templos eg\u00edpcios, conheceu os segredos do corpo e do Esp\u00edrito, o dom\u00ednio das for\u00e7as elementares e da comunica\u00e7\u00e3o transcendental entre os mundos f\u00edsico e metaf\u00edsico. A ess\u00eancia do seu projeto era a id\u00e9ia da Lei Universal, que deveria ser personalizada na figura de um Ser \u00danico, superior e regulador de todas as coisas, em todos os lugares. O povo judeu seria a classe de aprendizagem mais adequada para esse empreendimento, base social potencialmente mais eficiente, pois reunia as condi\u00e7\u00f5es culturais e circunstanciais para a efetiva\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias avan\u00e7ada para a \u00e9poca: vinham de uma antiga luta de afirma\u00e7\u00e3o de identidade social (desde Abra\u00e3o), estavam na condi\u00e7\u00e3o de escravos, oprimidos pelo poder eg\u00edpcio; passariam nesse trajeto por provas espetaculares nas quais poderiam avan\u00e7ar ou recuar, vencer ou fracassar. Todas essas provas eram ponto de escolha entre a barb\u00e1rie e a civiliza\u00e7\u00e3o, entre a verdade espiritual e a ilus\u00e3o material. Povo inquieto, inteligente, orgulhoso, pragm \u00e1tico, criativo, de f\u00e1cil inter-relacionamento com outras culturas, sobretudo no terreno dos neg\u00f3cios, os judeus n\u00e3o guardariam somente para si essa experi\u00eancia da busca de Cana\u00e3. A longa forma\u00e7\u00e3o e a dispers\u00e3o das tribos na Di\u00e1spora seriam a garantia de que as li\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a divina ensinadas por Mois\u00e9s seriam propagadas nos quatros cantos da civiliza\u00e7\u00e3o oriental, ent\u00e3o predominante no planeta. O \u201ccurso\u201d de quarenta anos no deserto forneceu preciosas experi\u00eancias que permitiram a realiza\u00e7\u00e3o de escolhas decisivas, ricamente registradas no grande livro did\u00e1tico b\u00edblico. Mois\u00e9s foi, em sua \u00e9poca, um prot\u00f3tipo do Homem Teol\u00f3gico, legislador universal. \u00c9 claro que a tradi\u00e7\u00e3o sacerdotal ofuscou muito do brilho da sua sabedoria,\u00a0 inventou e incorporando em sua obra elementos dogm\u00e1ticos estranhos e pervertidos, como o exclusivismo racial e a viol\u00eancia do tali\u00e3o. Mas tantos os profetas, tamb\u00e9m excelentes educadores sociais, como o pr\u00f3prio Jesus , sublime pedagogo c\u00f3smico, se encarregariam de fazer justi\u00e7o ao trabalho educativo de Mois\u00e9s, revelando mais tarde a sua verdadeira face espiritual e libertadora. Hoje \u00e9 f\u00e1cil entender que os relatos b\u00edblicos sobre a Mois\u00e9s e o povo do deserto escondem\u00a0 sedutoras met\u00e1foras vivenciais: a abertura\u00a0 e passagem do Mar Vermelho, por exemplo, revela n\u00e3o somente espet\u00e1culo do fen\u00f4meno sobrenatural, que \u00e9 puramente simb\u00f3lico, mas a id\u00e9ia do impasse educativo entre recuar para a barb\u00e1rie e avan\u00e7ar para a civiliza\u00e7\u00e3o. Voltar para o Egito naquele momento significava morrer espiritualmente, retroceder e negar as li\u00e7\u00f5es de futuro e\u00a0 permanecer no passado, na escravid\u00e3o do orgulho, da persist\u00eancia no mal, no sofrimento in\u00fatil e desnecess\u00e1rio. Cana\u00e3 nunca foi um lugar geogr\u00e1fico, mas o mundo ideal, modelo de perfei\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada na utopia de Mois\u00e9s. A Palestina\u00a0 materializou-se como Cana\u00e3 por causa da teimosia e ambi\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o e do imediatismo materialista daqueles que n\u00e3o souberam aproveitar as li\u00e7\u00f5es do deserto. Tanto \u00e9 que, at\u00e9 hoje, esse falso territ\u00f3rio da liberdade continua sendo o centro das contendas pol\u00edticas mundiais e de dolorosos resgates c\u00e1rmicos.\u00a0 O mesmo equ\u00edvoco deu-se no cultivo ut\u00f3pico da Jerusal\u00e9m espiritual e do Reino de Deus ensinados mais tarde pelos profetas e por Jesus, e deturpados pela tradi\u00e7\u00e3o clerical das igrejas.<\/p>\n<p>Os prot\u00f3tipos antropol\u00f3gicos avan\u00e7ados deixaram marcam ineg\u00e1veis da sua educa\u00e7\u00e3o superior. Mois\u00e9s ensinou a Lei, Khrisna iluminou as d\u00favidas sobre o livre-arb\u00edtrio e destino;\u00a0 Buda exemplificou o dom\u00ednio do desejo; Lao-ts\u00e9 e Conf\u00facio demonstraram os segredos da paci\u00eancia e da honestidade; Zoroastro tranq\u00fcilizou os esp\u00edrito humano dividido entre o bem e o mal; e Jesus vivenciou na pr\u00f3pria carne a li\u00e7\u00e3o do amor\u00a0 e do perd\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, na Pr\u00e9-hist\u00f3ria apareceu o Homem Biol\u00f3gico;\u00a0 nas primeiras civiliza\u00e7\u00f5es da Antig\u00fcidade surgiu o Homem Teol\u00f3gico; nas perip\u00e9cias da civiliza\u00e7\u00e3o greco-romana desenvolveu-se o Homem Racional; na transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo, com o advento da Renascen\u00e7a, delineia-se o Homem Metaf\u00edsico; na Era industrial, em meio \u00e0s descobertas cient\u00edficas dos s\u00e9culos XVIII e XIX, aparece o Homem Positivo; e na Era At\u00f4mica e da Inform\u00e1tica, na transi\u00e7\u00e3o do 2\u00ba para o 3\u00ba mil\u00eanio, j\u00e1 encontramos sinais do Homem Psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Esses seis prot\u00f3tipos seriam ainda a base para o desenvolvimento, num futuro ainda distante, de um S\u00e9timo Ser, o Homem C\u00f3smico, que ser\u00e1 a s\u00edntese de todas as intelig\u00eancias, de todas as experi\u00eancias acumuladas nos mil\u00eanios anteriores. Segundo revela\u00e7\u00f5es de diversas tradi\u00e7\u00f5es espiritualistas esot\u00e9ricas, este S\u00e9timo Ser, que supera todos os obst\u00e1culos das seis intelig\u00eancias exteriores, \u00e9 o prot\u00f3tipo que vai se manifestar na s\u00e9tima ra\u00e7a e dominar\u00e1 a s\u00e9tima intelig\u00eancia, que \u00e9 a plenitude, a felicidade, o nirvana, o reino de Deus, enfim o dom\u00ednio das coisas exteriores e do universo interior, que \u00e9 a Consci\u00eancia Integral e Universal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em diversas \u00e9pocas, encontramos essas manifesta\u00e7\u00f5es da conquista evolutiva das m\u00faltiplas intelig\u00eancias: os primeiros seres \u201cad\u00e2micos\u201d que dominaram o\u00a0 fogo e criaram a agricultura; os estadistas e l\u00edderes como Mois\u00e9s , o fara\u00f3\u00a0 Amen\u00f3fis IV; fil\u00f3sofos como Zoroastro, Pit\u00e1goras, S\u00f3crates, Buda, Conf\u00facio, Lao-tse, Apol\u00f4nio de Tiana; personalidades marcantes como Paulo de Tarso,\u00a0 Hermes Trimegisto, Rama, Ant\u00falio de Maha-Ethel , Gandhi, Santo Agostinho,\u00a0 Francisco de Assis; figuras intrigantes como Albert Einstein, Anie Besant, Allan Kardec, Dom Bosco, Helena Blawastky, Sigmund Freud\u00a0 poderiam certamente ser apont ados como prot\u00f3tipos desses seres hist\u00f3ricos que desenvolveram habilidades fora do padr\u00f5es da \u00e9poca em que viveram e servindo de modelos para as sociedades que\u00a0 observavam seus exemplos.<\/p>\n<p>Algumas dessas pessoas poderiam ser classificadas como um S\u00e9timo Ser? Ao nosso ver todas elas atingiram a plenitude psicol\u00f3gica, mas somente Jesus tornou-se um verdadeiro prot\u00f3tipo do S\u00e9timo Ser, a s\u00edntese das experi\u00eancias que\u00a0 transformam o Homem Psicol\u00f3gico no Ser Espiritual, superconsciente, completo e integral. N\u00e3o se trata apenas de uma cren\u00e7a dogm\u00e1tica na sua pessoa ou simples admira\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Os pr\u00f3prios mestres de reconhecida sabedoria reconhecem sua inferioridade diante da magnitude de Jesus[10]. Nele n\u00f3s podemos perceber a realiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias comuns a outros seres j\u00e1 altamente evolu\u00eddos, por\u00e9m encontramos tamb\u00e9m viv\u00eancias in\u00e9ditas, n\u00e3o registradas anteriormente, e que revolucionaram o comportamento humano, que romperam historicamente paradigmas psicol\u00f3gicos e sociais que n\u00e3o haviam sido ultrapassados. \u00c9 indiscut\u00edvel modelo de perfei\u00e7\u00e3o relativa, dos seres criados, pois a perfei\u00e7\u00e3o absoluta \u00e9 somente Deus, o Criador.\u00a0 A figura hist\u00f3rica de Jesus, bem como de outras personalidades evolu\u00eddas, veio sendo ofuscada por leituras m\u00edsticas e mitol\u00f3gicas que n\u00e3o souberam compreender \u00e0 luz da raz\u00e3o os seus conceitos filos\u00f3ficos e suas atitudes sociais; sua experi\u00eancia refletiu a manifesta\u00e7\u00e3o de uma intelig\u00eancia superior vivendo num ambiente inferior. Sua \u201cluz\u201d interior, normalmente n\u00e3o revelada por seres evolu\u00eddos, por cautela e tamb\u00e9m pela inutilidade circunstancial, com ele teve que ser reve lada por necessidade hist\u00f3rica; da\u00ed o seu aspecto sacrificial. Era necess\u00e1rio compartilhar essa experi\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 com a inicia\u00e7\u00e3o a curto prazo dos disc\u00edpulos, mas estender e investir a longo prazo numa inicia\u00e7\u00e3o coletiva das massas, num grande projeto pedag\u00f3gico universal. As express\u00f5es \u201csalvador\u201d e \u201credentor\u201d aplicadas a ele n\u00e3o possuem apenas significados m\u00edsticos e de adora\u00e7\u00e3o exterior. Trata-se de uma defini\u00e7\u00e3o da sua alta capacidade pedag\u00f3gica de redirecionar o comportamento de coletividades humanas moralmente falidas. Esse tipo de experi\u00eancia n\u00e3o ocorreu apenas em nosso planeta e deve ser comum em outros orbes cujas humanidades atingem ciclos evolutivos cr\u00edticos e precisam ser reorientadas nas suas jornadas espirituais.\u00a0 Ela sabia dos riscos de se \u201cjogar p\u00e9rolas ao porcos\u201d, mas na sua \u201cpar\u00e1bola do semeador\u201d, percebe-se que h\u00e1 nele uma confian\u00e7a no livre-arb\u00edtrio e na pontencialidade ang\u00e9lica e espiritual do ser humano ainda animaliz ado. Muitos \u201ciniciados\u201d modernos n\u00e3o compreendem por que Jesus resolver revelar sua luz para as massas. Fazem uma avalia\u00e7\u00e3o parcial da sua obra pedag\u00f3gica, olhando apenas os resultados pol\u00edticos e o triste epis\u00f3dio da sua condena\u00e7\u00e3o \u00e0 pena de morte. Esquecem que a proposta era exatamente essa: o sacrif\u00edcio pessoal e o perd\u00e3o como li\u00e7\u00f5es derradeiras de alto impacto psicol\u00f3gico e social. Essa repercuss\u00e3o hist\u00f3rico-vivencial de Jesus n\u00e3o foi uma coincid\u00eancia social e que virou tradi\u00e7\u00e3o \u00e0 toa, ao acaso. Ela teve a sua raz\u00e3o de ser, essencialmente exemplificadora, e\u00a0 passou\u00a0 a ser imitada e propagada\u00a0 pelos primeiros m\u00e1rtires crist\u00e3os, seres j\u00e1 um tanto evolu\u00eddos, que perceberam que podiam experimentar essas a\u00e7\u00f5es e contribuir para a revolu\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo silenciosa e estrondosa de Jesus.\u00a0 Cada cena registrad a, cada conceito explicado, cada exemplo vivenciado, cada s\u00edmbolo, cada met\u00e1fora, cada revela\u00e7\u00e3o, cada atitude, cada cura,\u00a0 tinha sempre seu significado filos\u00f3fico e sua signific\u00e2ncia social. Foram tr\u00eas anos de tarefa p\u00fablica e not\u00f3ria.\u00a0 Seu nascimento n\u00e3o foi escolhido como marco divisor da nossa hist\u00f3ria somente pela imposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos estadistas crist\u00e3os ou das igrejas que durante muito tempo foram deposit\u00e1rias, nem sempre fi\u00e9is, das suas id\u00e9ias. \u00c9 que muitos crist\u00e3os sinceros e dedicados logo compreenderam, intuitivamente, a sua superioridade espiritual sobre o homem comum, chegando mesmo a confundi-lo com o pr\u00f3prio Criador. Este Ser Integral superou a perfei\u00e7\u00e3o relativa que caracteriza todos os seres que o antecederam e sucederam no tempo para ingressar na experi\u00eancia intermin\u00e1vel e sempre evolutiva da busca e\u00a0 conquista da perfei\u00e7\u00e3o absoluta, que \u00e9 Deus.<\/p>\n<p><big><big>4. A Andragogia Espiritual<\/big><\/big><\/p>\n<p>Andragogia \u00e9 a pr\u00e1tica educativa inici\u00e1tica que, desde remot\u00edssimos tempos, vem sendo utilizada em n\u00facleos filos\u00f3fico-religiosos. Ela visa, sobretudo, a forma\u00e7\u00e3o de agentes multiplicadores (disc\u00edpulos) de uma determinada doutrina. A inicia\u00e7\u00e3o, como t\u00e9cnica did\u00e1tica, \u00e9 id\u00eantica no que diz respeito \u00e0 sua ess\u00eancia educativa e varia somente nas suas aplica\u00e7\u00f5es culturais, sendo comum tanto nas mais simples pr\u00e1ticas primitivas tribais at\u00e9 as mais sofisticadas institui\u00e7\u00f5es sacerdotais. O pag\u00e9 ind\u00edgena, o feiticeiro ou curandeiro tribal, o padre cat\u00f3lico, o pastor protestante, o xam\u00e3, o bruxo, o mago, o gur\u00fa, o pai-de-santo, a rezadeira ou benzedeira, todos s\u00e3o iniciados em suas respectivas \u00e1reas de conhecimento, obedecendo princ\u00edpios e regras educativas necess\u00e1rias ao exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es ou pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Nas civiliza\u00e7\u00f5es teocr\u00e1ticas da Antiguidade oriental esse tipo de pr\u00e1tica educativa foi predominante\u00a0 porque a camada sacerdotal tinha grande influ\u00eancia social e pol\u00edtica. O sacerd\u00f3cio era um status diferenciado e altamente prestigiado nessas sociedades.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica oriental no mundo ocidental se deu atrav\u00e9s do contato da civiliza\u00e7\u00e3o greco-romanos com as culturas do Egito, da \u00edndia e da China. S\u00e1bios gregos como Her\u00f3doto, Plat\u00e3o e Pit\u00e1goras freq\u00fcentaram n\u00facleos inici\u00e1ticos orientais. Mas a pr\u00f3pria metodologia de ensino de S\u00f3crates (a mai\u00eautica e a ironia) funciona como um processo de inicia\u00e7\u00e3o no qual o disc\u00edpulo tinha que romper barreiras e obst\u00e1culos para vencer etapas de aprendizagem. De todos esses s\u00e1bios do Ocidente, Pit\u00e1goras foi o que mais se destacou nesse setor , criando uma escola in\u00edci\u00e1tica de grande prest\u00edgio na qual se ensinava ao mesmo tempo o conhecimento racional , o fenomenal exterior (exot\u00e9rico) e o fenomenal interior ou emocional (esot\u00e9rico). A Matem\u00e1tica pitag\u00f3rica tanto abrange o aspecto racional do universo (geometria) como o aspec to m\u00edstico, como a teoria da perfei\u00e7\u00e3o num\u00e9rica seten\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia, em plena Era Metaf\u00edsica, a educa\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica, voltou a ser praticada nos c\u00edrculos de elite, como contesta\u00e7\u00e3o e alternativa ao monop\u00f3lio cultural teol\u00f3gico da Igreja (ordens religiosas em mosteiros e conventos).\u00a0 Nessas sociedades secretas ocultistas\u00a0 os homens cultos e inquietos se reuniam para aprender e desenvolver conhecimentos proibidos. A Ma\u00e7onaria \u00e9 um exemplo desses n\u00facleos, cuja origem foi a corpora\u00e7\u00e3o de of\u00edcio dos pedreiros ou construtores ( do franc\u00eas \u201cmasson\u201d ou fazedor de massa).<\/p>\n<p>Na Renascen\u00e7a essas sociedades secretas se propagaram em fun\u00e7\u00e3o do relativo clima de liberdade estabelecidos em cidades comerciais e pelas revoltas contra os abusos de poder do clero cat\u00f3lico (Reformas). Nomes famosos como Galileu, Leonardo Da Vinci, Rafael, Miguelangelo foram iniciados nos mist\u00e9rios metaf\u00edsicos dessas escolas esot\u00e9ricas e deixaram transparecer em suas obras os reflexos desses conhecimentos.<\/p>\n<p>Com o advento do iluminismo e das Revolu\u00e7\u00f5es Liberais as escolas inici\u00e1ticas perderam muito da sua influ\u00eancia por causa do estabelecimento das liberdades civis. Mesmo assim, sabe-se que muitos desses movimentos foram pensados e tramados em n\u00facleos inici\u00e1ticos ou pelos seus ex-alunos.<\/p>\n<p>No mundo contempor\u00e2neo, com as crises existenciais geradas pelo clima de incerteza, a escolas inici\u00e1ticas ainda sobrevivem e em determinados setores avan\u00e7am como alternativa educacional da chamada Nova Era, do III Mil\u00eanio.<\/p>\n<p><big>Caracter\u00edsticas mais comuns\u00a0 da educa\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica:<\/big><\/p>\n<ul>\n<li>Ocultismo, misticismo, mist\u00e9rios, enigmatismo e simbolismo;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Busca do conhecimento das rela\u00e7\u00f5es e inter-rela\u00e7\u00f5es entre o Homem, Divindades e a Natureza;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Diferencia\u00e7\u00e3o entre o conhecimento Exot\u00e9rico e o conhecimento Esot\u00e9rico;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre mestre e disc\u00edpulo;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Regras disciplinares e de conduta (sil\u00eancio, jejum, medita\u00e7\u00e3o, olhar, etc.);<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Progress\u00e3o gradual dial\u00e9tica em etapas (graus hier\u00e1rquicos);<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Instrumentos rigorosos de avalia\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Diferencia\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica entre a pedagogia e a andragogia.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica , enquanto a Pedagogia est\u00e1 voltada para a educa\u00e7\u00e3o existencial das crian\u00e7as a Andragogia volta-se para o aperfei\u00e7oamento consciencial dos adultos. Para tanto, esta \u00faltima lan\u00e7a m\u00e3o de m\u00e9todos diferenciados da educa\u00e7\u00e3o infantil, capazes de amadurecer o indiv\u00edduo biologicamente j\u00e1 desenvolvido, por\u00e9m emocionalmente imaturo, atrav\u00e9s do processo de despertamento. Essa metodologia consiste basicamente na revers\u00e3o do conhecimento e do aprofundamento de experi\u00eancias, do plano exot\u00e9rico para a dimens\u00e3o esot\u00e9rica. O conhecimento esot\u00e9rico est\u00e1 inserido no rol dos principais tipos de conhecimentos manifestados na experi\u00eancia humana, a saber: o m\u00e1gico, o emp\u00edrico, revelado, l\u00f3gico-racional, o experimental, e o intuitivo. O esoterismo enquadra-se, portanto, na esfera da revela\u00e7\u00e3o m\u00edstico-religiosa, da qual prov\u00e9 m a maioria dos ensinamentos espiritualistas ministrados pelas escolas inici\u00e1ticas tradicionais e tamb\u00e9m pelas principais religi\u00f5es hist\u00f3ricas das civiliza\u00e7\u00f5es. Lembrando Plat\u00e3o e sua analogia sobre o efeito moral do conhecimento nas pessoas, a Verdade \u00e9 como uma luz que ofusca a vis\u00e3o do expectador que se habituou com a escurid\u00e3o de uma caverna escura. Ele vai se adaptando gradualmente \u00e0 medida que faz incurs\u00f5es de olhos vendados at\u00e9 que possa finalmente encarar a luz sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o. A venda nos olhos \u00e9 o exoterismo; tirar a venda dos olhos \u00e9 processo de inicia\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica.<\/p>\n<p>Todas as religi\u00f5es e escolas filos\u00f3ficas espiritualistas, em todas as \u00e9pocas, guardam duas formas b\u00e1sicas de express\u00e3o social: uma esot\u00e9rica, voltada para os setores mais intelectualizados, cuja minoria tende sempre a formar suas elites, corporativas ou n\u00e3o; e outra exot\u00e9rica, voltada para as massas, para cuja maioria limitada intelectualmente assume significados simb\u00f3licos e ritual\u00edsticos mais acess\u00edveis ao seu n\u00edvel de compreens\u00e3o.\u00a0 Isso significa que as religi\u00f5es e filosofias possuem conhecimentos\u00a0 complexos que precisam ser, de uma forma ou de outra, vulgarizados, quase sempre em forma de dogmas e sacramentos cerimoniais.<\/p>\n<p>Mas tudo isso s\u00f3 amplia ainda mais o fasc\u00ednio que o ser humano tem pelo conhecimento esot\u00e9rico. Menos palp\u00e1vel e realista do que os conhecimentos l\u00f3gico-racional e emp\u00edrico, ele n\u00e3o fornece provas\u00a0 materiais dos fatos, por\u00e9m gera\u00a0 em todos n\u00f3s uma profunda confian\u00e7a na imagina\u00e7\u00e3o e na capacidade filos\u00f3fica\u00a0 de cultivar\u00a0 as possibilidades do desconhecido.\u00a0 A mente humana n\u00e3o se alimenta apenas de convic\u00e7\u00f5es l\u00f3gico-racionais. Nossa auto-realiza\u00e7\u00e3o depende do entendimento e da compreens\u00e3o de muitas outras coisas que est\u00e3o fora dessa esfera limitada da cogni\u00e7\u00e3o racional. Al\u00e9m do pensamento est\u00e3o in\u00fameras outras experi\u00ean cias ainda n\u00e3o decifradas e que se escondem no universo dos nossos sentimentos e emo\u00e7\u00f5es. Somente quando estivermos suficientemente equilibrados nas tr\u00eas \u00e1reas vivenciais \u00e9 que poderemos conviver com o conhecimento pleno e absoluto das coisas. Por enquanto teremos que viver na relatividade. Enquanto isso, n\u00e3o h\u00e1 nada de mal especularmos nesse terreno oculto e atraente do mundo das id\u00e9ias, da esorealidade da qual falava Plat\u00e3o.<\/p>\n<p><big><big>5. A Consci\u00eancia e\u00a0 a Verdade<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cAos quinze anos, minha intelig\u00eancia se consagrava ao estudo. Aos trinta, mantinha-me firme. Aos quarenta, n\u00e3o tinha d\u00favidas. Aos cinq\u00fcenta, conhecia os decretos o C\u00e9u. Aos sessenta, o meu ouvido era um \u00f3rg\u00e3o obediente para a recep\u00e7\u00e3o da verdade. Aos setenta, podia fazer o que me desejasse o cora\u00e7\u00e3o sem transgredir o que era justo\u201d. \u2013 Conf\u00facio (Kongtzeu).<\/div>\n<p>Duas coisas predominam e todo o Universo: a Consci\u00eancia \u2013 que \u00e9 Deus e os seres criados \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a; e a Lei, que \u00e9 a vontade de Deus governando os seres e a Natureza.<\/p>\n<p>A Lei significa a ordem, o equil\u00edbrio, a harmonia. A Consci\u00eancia significa intelig\u00eancia, pensamento, a\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o, auto-controle, responsabilidade e conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O contr\u00e1rio da Lei \u00e9 o caos, o mal, a escurid\u00e3o, o medo e a ignor\u00e2ncia, a incerteza, a inseguran\u00e7a e o sofrimento.\u00a0 O contr\u00e1rio da Consci\u00eancia \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o e a loucura.<\/p>\n<p>Quando a Lei e a Consci\u00eancia n\u00e3o se chocam e andam juntas significam sempre o Bem, a Luz, a f\u00e9, a confian\u00e7a, a sabedoria, a resigna\u00e7\u00e3o, a tranq\u00fcilidade, a confian\u00e7a e a felicidade.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o da Lei com a Consci\u00eancia resulta no conhecimento gradual da Verdade. Quando conhecemos a Verdade a nossa vida se transforma incessantemente.<\/p>\n<p>A Verdade total ainda est\u00e1 bem longe do nosso alcance: ainda n\u00e3o temos maturidade para conhec\u00ea-la como um todo. Por isso vamos conhecendo-a em partes. Se conhec\u00eassemos a Verdade de uma s\u00f3 vez entrar\u00edamos em desequil\u00edbrio. Por isso, assim como as crian\u00e7as que aprendem a andar por si pr\u00f3prias, vamos dando passos lentos, at\u00e9 adquirirmos seguran\u00e7a para pisarmos nesse terreno, para n\u00f3s ainda t\u00e3o\u00a0 assustador e inseguro.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rias \u00e9pocas Deus permitiu a manifesta\u00e7\u00e3o na Terra, e em muitos outros mundos f\u00edsicos, de seres s\u00e1bios para mostrar a Verdade aos homens. Mostraram muitas coisas verdadeiras, mas n\u00e3o puderam mostrar tudo por completo. Krishna e Buda na \u00cdndia, Zoroastro na P\u00e9rsia,\u00a0 Lao-ts\u00e9 , Fo-Hi e Conf\u00facio (Kong-Teseu) na China, S\u00f3crates na Gr\u00e9cia,\u00a0 Mois\u00e9s e Jesus na Palestina. Todos eram legisladores morais e ampliadores da Consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Todos eles falavam da Lei e da necessidade de praticarmos essa lei desenvolvendo a Consci\u00eancia. Krishna e Buda ensinavam: amem os seres da Natureza e controlem os desejos; Mois\u00e9s alertava: respeitem a Deus n\u00e3o matando e n\u00e3o roubando; Os mestres da China recomendavam: Cultivem a paci\u00eancia e a bondade; Zoroastro explicava a import\u00e2ncia do livre-arb\u00edtrio falando da luta constante entre o Bem e o mal; S\u00f3crates refletia: sei que nada sei e recomendava: conhece-te a ti mesmo; Jesus pedia: sejam humildes, perdoem seus inimigos. Este, como o \u00faltimo grande s\u00e1bio que se manifestou em nosso planeta, tinha plena consci\u00eancia de sua responsabilidade e do momento hist\u00f3rico que estava inaugurando para a Humanidade: \u201cN\u00e3o pensei que vim destruir a lei ou destruir os profetas; eu n\u00e3o vim destru\u00ed-los, mas dar-lhes cumprimento; porque eu vos di go que o c\u00e9u e a Terra passar\u00e3o antes que tudo o que est\u00e1 na Lei n\u00e3o seja cumprido perfeitamente, at\u00e9 um \u00fanico jota e um s\u00f3 ponto\u201d.<\/p>\n<p>Quando falavam da Consci\u00eancia esses s\u00e1bios convidavam todos para conhecer as maravilhas do nosso mundo interior, que uns chamavam de Nirvana, de Plenitude ou ainda o Reino de Deus.<\/p>\n<p>Uma Consci\u00eancia \u00e9 a prova viva da exist\u00eancia de Deus, sua pr\u00f3pria imagem e semelhan\u00e7a. A Consci\u00eancia n\u00e3o pode jamais ignorar a Lei ou fugir de si mesmo agredindo sua natureza espiritual divina.<br \/>\nA Lei diz que somos todos iguais em Esp\u00edrito, na origem, na raiz, que\u00a0 \u00e9 a nossa Consci\u00eancia. Somos diferentes no pensar, no agir e no sentir porque temos a liberdade de escolha dos caminhos que vamos percorrer. Mas somos iguais naquilo que queremos atingir como finalidade.<\/p>\n<p>Nossas diferen\u00e7as nunca devem servir de motivos de conflitos e de viol\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio, as diferen\u00e7as existem para que pratiquemos a lei da conviv\u00eancia, conhecendo a Verdade \u00fanica do Amor Universal.<\/p>\n<p>Por Isso Jesus ensinava: aquele que se humilhar ser\u00e1 exaltado, ou seja, aquele que respeitar a simplicidade e a ignor\u00e2ncia do seu semelhante ser\u00e1 sempre maior porque ficar\u00e1 com a consci\u00eancia limpa e com o cora\u00e7\u00e3o leve. Na sua enorme experi\u00eancia espiritual, Jesus dizia: Vinde a mim, todos v\u00f3s que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o; e achareis descanso para a vossa alma. Porque meu jugo \u00e9 suave e um fardo leve.<\/p>\n<p>Quem tem a consci\u00eancia limpa pelo senso de justi\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o leve pela humildade jamais sofre diante das dificuldades e da provas da Vida. Jesus j\u00e1 conhecia plenamente essa realidade do mundo interior e ensinava: Sejam inteligentes como as serpentes e simples como as pombas. A serpente \u00e9 a necessidade de sobreviv\u00eancia do corpo e a pomba a salva\u00e7\u00e3o da alma.<\/p>\n<p>A humildade \u00e9 o segredo para estarmos sempre quites com a Lei e paz com a nossa Consci\u00eancia. J\u00e1 o orgulho \u00e9 a rebeldia, o ego\u00edsmo, a causa da manifesta\u00e7\u00e3o de todos os nossos defeitos morais. Esses defeitos nos afastam da Lei, escurecem a nossa Consci\u00eancia, nos tornam infelizes e derrotados.<\/p>\n<p>A humildade n\u00e3o \u00e9 covardia. \u00c9 preciso muita coragem e disposi\u00e7\u00e3o para ser humilde. O orgulho \u00e9 sim uma covardia, porque incentiva o ser humano a mentir para si mesmo. Quem \u00e9 mais covarde: aquele se enfrenta ou aquele foge de si pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>A Ci\u00eancia humana desconhece as origens da consci\u00eancia. Opinam muitos pesquisadores especulando que ela \u00e9 produto da transforma\u00e7\u00e3o dos organismos, vendo nisso somente o fen\u00f4meno vis\u00edvel e exterior. N\u00e3o conseguem, portanto, estabelecer uma correta e clara rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Sabem que ela existe, pois carregam dentro de si mesmo essa prova viva, mas, contraditoriamente, n\u00e3o t\u00eam como prova-la objetivamente, segundo os paradigmas cient\u00edficos que cultuam. Tanto a Consci\u00eancia como a Mente continuam sendo considerados nas academias materialistas como uma cren\u00e7a. At\u00e9 mesmo as cl\u00e1ssicas experi\u00eancias e teorias do Dr. Sigmund Freud s\u00e3o inclu\u00eddas neste rol. No entanto ela a\u00ed est\u00e1, seja como cren\u00e7a, seja como fato objetivo o u subjetivo, servindo sempre como refer\u00eancia no esfor\u00e7o que fazemos para compreender e aceitar a realidade.<\/p>\n<p>Como percebemos, este \u00e9 o assunto que mais incomoda e fascina aqueles que sentem a necessidade de explicar as coisas e, por isso, est\u00e1 presente em todas a atividades nas quais os ser humano est\u00e3o envolvido. \u00c9 s\u00f3 conferirmos nos dicion\u00e1rios[11] para constatar a enorme incid\u00eancia de conceitos e circunst\u00e2ncias em que a palavra \u201cconsci\u00eancia\u201d aparece como base nas defini\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Mas uma coisa \u00e9 certa: \u00e9 indiscut\u00edvel ela \u00e9 a principal porta de acesso \u00e0 Verdade, que todos n\u00f3s buscamos ansiosamente. Trata-se de um term\u00f4metro e ao mesmo tempo uma b\u00fassola que utilizamos para navegar no imenso oceano do Desconhecido.<\/p>\n<p><big>As leis Universais<\/big><\/p>\n<p>O conhecimento sobre as Leis Universais n\u00e3o \u00e9 simples produto te\u00f3rico das elucubra\u00e7\u00f5es e dos ensaios teol\u00f3gicos e filos\u00f3ficos do ser humano.<\/p>\n<p>Trata-se de algo que est\u00e1 muito mais al\u00e9m das nossas cogita\u00e7\u00f5es mentais,\u00a0 bastante limitadas pelas nossas atuais condi\u00e7\u00f5es morais\u00a0 e incapacidade de visualizar complexidade do Universo que nos rodeia.<br \/>\nVivemos mergulhados neste imenso mar c\u00f3smico de estrelas e nebulosas, na verdade um Grande Oceano Mental\u00a0 do qual somos parte indiscut\u00edvel e inalien\u00e1vel.<\/p>\n<p>O saber dessa verdade universal vem de longa data, atrav\u00e9s da revela\u00e7\u00e3o gradual do mundo e da realidade.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o, como a pr\u00f3pria verdade, tem muitos caminhos de manifesta\u00e7\u00e3o e diferentes formas de se comunica\u00e7\u00e3o ao seu principal alvo, que o ser humano. O Homem \u00e9 o primeiro est\u00e1gio\u00a0 de uma enorme escala consciencial na qual se realiza a revela\u00e7\u00e3o das coisas dos seres e da Vida.<\/p>\n<p>Os caminhos da religiosidade, das artes e das ci\u00eancias s\u00e3o os meio mais comuns para que a Verdade se manifeste em forma de revela\u00e7\u00e3o. E \u00e9 principalmente atrav\u00e9s desses tr\u00eas campos de experi\u00eancias que apareceram em todos os grupos humanos, de todas as \u00e9pocas, os conceitos sobre as leis universais. Muitos diferem na forma, mas s\u00e3o id\u00eanticos na ess\u00eancia, provando que brotaram da mesma fonte e que cumprem a mesma finalidade de promover o crescimento e a felicidade das consci\u00eancias que animam\u00a0 a Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um antigo aforismo oriental afirma que \u201cDormimos no mineral, sonhamos no vegetal e acordamos no animal\u201d. J\u00e1 um recente axioma ocidental confirma que \u201cNada se cria, nada se perde, tudo se transforma\u201d. N\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m provas irrecus\u00e1veis da legisla\u00e7\u00e3o e do equil\u00edbrio universal? Tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 verdade a rela\u00e7\u00e3o entre o macrocosmo da realidade Universal e o microcosmo da realidade humana?<\/p>\n<p>A tomada de consci\u00eancia \u00e9, portanto, o in\u00edcio da imensa jornada de descobertas dos mist\u00e9rios do Cosmos; e conhecimento das leis que regulam esse universo \u00e9 o primeiro passo para compreendermos o que \u00e9 o Caminho (que \u00e9 o Conhecimento), o que \u00e9 a Verdade (que \u00e9 o Criador) e finalmente o que \u00e9 a Vida (que somos n\u00f3s, as Criaturas).<\/p>\n<ul>\n<li>Lei da EVOLU\u00c7\u00c3O: \u00e9 imperiosa em todo o Cosmo e nenhum ser escapa \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o transformadora, tanto na forma, como na ess\u00eancia.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da RELATIVIDADE: toda forma \u00e9 relativa, toda ess\u00eancia \u00e9 absoluta. Deus no plano absoluto \u00e9 inacess\u00edvel, imponder\u00e1vel, invis\u00edvel;\u00a0 mas no plano relativo torna-se manifestado atrav\u00e9s dos universos materiais, tornando-se objetivo, ponder\u00e1vel, vis\u00edvel.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da ORDEM:\u00a0 \u00e9 o equil\u00edbrio universal absoluto resultante da perfei\u00e7\u00e3o e da harmonia do conjunto e da cada uma das partes em separado. O inverso disso seria o caos.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da UNIDADE: Deus \u00e9 unidade, por isso \u00e9 absoluto e uno; no plano relativo manifesta-se fragmentado de forma dupla ou trina. O homem \u00e9\u00a0 semelhante a Deus porque \u00e9\u00a0 duplo e triplo : vis\u00edvel e invis\u00edvel,\u00a0 est\u00e1vel e transform\u00e1vel, mortal e imortal; \u00e9 tamb\u00e9m triplo porque \u00e9 esp\u00edrito, energia e mat\u00e9ria.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei das UNIDADES COLETIVAS: nada existe individualmente isolado, independente. Toda individualidade resulta de agregados de individualidades ainda menores e at\u00e9 o infinito negativo, sendo, ao mesmo tempo, parte integrante de individualidades maiores, que o s\u00e3o de outras ainda maiores e assim at\u00e9 o infinito positivo.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei do TRANSFORMISMO: por esta lei toda a unidade do Universo se mant\u00e9m inalterada, nada desaparecendo do Todo, mas unicamente se transformando atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o. O Esp\u00edrito se transforma moralmente e mant\u00e9m inalterada a sua ess\u00eancia.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei do RITMO:\u00a0 o Universo todo funciona por meio de ritmos, desde os fen\u00f4menos astron\u00f4micos aos ps\u00edquicos, desde os qu\u00edmicos aos sociais. Tudo tem fluxo e refluxo.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da CAUSALIDADE: n\u00e3o o acaso, tudo est\u00e1 concatenado pelo princ\u00edpio de causa e efeito. Acaso \u00e9 somente aquilo cujas causas desconhecemos.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da POLARIDADE: tudo \u00e9 duplo; tudo tem dois p\u00f3los. Tudo tem seus opostos e seus opostos s\u00e3o id\u00eanticos em natureza, por\u00e9m diferentes no grau de vibra\u00e7\u00e3o. Esp\u00edrito e mat\u00e9ria s\u00e3o dois p\u00f3los opostos da mesma coisa; calor e frio, \u00f3dio e amor, masculino e feminino, perto e longe, luz e trevas, alto e baixo. Uma nota musical numa oitava abaixo \u00e9 id\u00eantica \u00e0 mesma nota uma oitava acima, diferindo somente no grau vibrat\u00f3rio.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de VIBRA\u00c7\u00c3O: nada est\u00e1 parado no universo. Tudo se move, tudo vibra. As diferen\u00e7as entre as diversas manifesta\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria, energia e esp\u00edrito resultam das diferen\u00e7as vibrat\u00f3rias.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei do G\u00caNERO: o g\u00eanero est\u00e1 em tudo, manifestando-se em todos os planos. Tudo tem o seu princ\u00edpio masculino e feminino, e isto se d\u00e1 tanto no plano f\u00edsico como no espiritual. No plano f\u00edsico \u00e9 o sexo, que \u00e9 gera\u00e7\u00e3o, no plano mental \u00e9 regenera\u00e7\u00e3o, e no espiritual \u00e9 cria\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei do LIVRE ARB\u00cdTRIO: s\u00f3 aplic\u00e1vel aos Esp\u00edritos, encarnados e desencarnados; \u00e9 o direito de a\u00e7\u00e3o individual pela liberdade com a rec\u00edproca da responsabilidade: \u00e9 a ferramenta de ingresso na raz\u00e3o e na consci\u00eancia. Seu uso ou abuso \u00e9 que define a evolu\u00e7\u00e3o ou a estagna\u00e7\u00e3o, o equil\u00edbrio ou o desequil\u00edbrio, a felicidade ou infelicidade dos Esp\u00edritos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Sobre as leis secund\u00e1rias temos uma s\u00e9rie delas que complementam as primeiras nos casos espec\u00edficos. S\u00e3o as chamadas manifesta\u00e7\u00f5es morais das leis maiores e est\u00e3o inter-relacionadas entre si:<\/p>\n<ul>\n<li>Lei do TRABALHO: lei que permite a produ\u00e7\u00e3o, a sobreviv\u00eancia e a realiza\u00e7\u00e3o de in\u00fameras necessidades individuais e coletivas;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de SOCIEDADE: compartilhar socialmente as experi\u00eancias\u00a0 para a aprendizagem e a evolu\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da REENCARNA\u00c7\u00c3O: segundo a tradi\u00e7\u00e3o oriental\u00a0 \u00e9 a lei que permite o retorno aos mundos f\u00edsicos para a realiza\u00e7\u00e3o de novas experi\u00eancias. A renova\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, pelas m\u00faltiplas exist\u00eancias, facilita a renova\u00e7\u00e3o espiritual.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da JUSTI\u00c7A : \u00e9 a express\u00e3o moral da lei de Causa e Efeito, tamb\u00e9m conhecida como lei do Carma;<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de ADORA\u00c7\u00c3O : \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o natural entre a criatura e o Criador, manifestada segundo a evolu\u00e7\u00e3o dos seres.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de REPRODU\u00c7\u00c3O: s\u00e3o os recursos gen\u00e9sicos que\u00a0 garantem a\u00a0 perpetua\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de CONSERVA\u00c7\u00c3O : a manuten\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica e moral.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de DESTRUI\u00c7\u00c3O: \u00e9 um recurso extremo, permitido pela pr\u00f3pria necessidade de transforma\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei do PROGRESSO: nada impede o progresso, pois \u00e9 uma necessidade impulsionada pela transforma\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o; no plano relativo nada \u00e9 definitivo.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei da IGUALDADE: as diferen\u00e7as s\u00f3 ocorrem nas vibra\u00e7\u00f5es e n\u00e3o na ess\u00eancia; os seres s\u00e3o iguais perante a lei por isso s\u00e3o iguais em ess\u00eancia; a aplica\u00e7\u00e3o da lei lhes s\u00e3o diferentes na medida que s\u00e3o diferentes as suas necessidades e capacidades decompreens\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Lei de LIBERDADE:\u00a0 ser livre \u00e9 atributo natural; o abuso da liberdade \u00e9 que reduz e limita a sua atua\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p><big>A Lei das Leis<\/big><\/p>\n<p>Esta \u00e9 a\u00a0 lei que resume todas as outras e que pode ser definida como um \u201csentimento\u201d superior. \u00c9 um sentimento espont\u00e2neo e esclarecido que impulsiona a criatura a ser \u00fatil ao pr\u00f3ximo, auxiliando-a na sua evolu\u00e7\u00e3o, visando, n\u00e3o somente o seu bem, mas o bem de toda a coletividade da qual faz parte. \u00c9 a\u00a0<big>Lei do Amor<\/big>. Todos os Iluminados que ensinaram a realidade das leis universais deram a ele um destaque especial, pois tinha plena consci\u00eancia de que para ela n\u00e3o existem teorias, mas somente a exemplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jesus, que \u00e9 considerado, pela sua exemplifica\u00e7\u00e3o vivencial, uma express\u00e3o m\u00e1xima dessa lei no mundo f\u00edsico, sabia da dificuldade que ser humano tem de compreender intelectual e espiritualmente as leis universais e, por isso optou pela simplicidade das par\u00e1bolas e da exemplifica\u00e7\u00e3o pessoal para ensinar algo t\u00e3o complexo.\u00a0 Nas suas bem-aventuran\u00e7as est\u00e3o resumidas\u00a0 as principais leis do Universo e, se elas forem seguidas \u00e0 risca, se transformar\u00e3o em poderosas habilidades da intelig\u00eancia espiritual. \u00c9 o jeito mais pr\u00e1tico de nos manter em sintonia com as leis do universo, sen\u00e3o vejamos:<\/p>\n<p>1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os pobres de Esp\u00edrito porque deles \u00e9 o Reino dos C\u00e9us (Mateus-5.3)<\/p>\n<p>Pobreza de Esp\u00edrito quer dizer humildade e Reino dos C\u00e9us quer dizer felicidade, a resolu\u00e7\u00e3o de problemas do nosso mundo interno, que \u00e9\u00a0 a integra\u00e7\u00e3o perfeita ao Universo.<\/p>\n<p>2.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os que choram porque ser\u00e3o consolados. (Mateus-5.5)<\/p>\n<p>O choro e a dor devem ser vistos como experi\u00eancias positivas, rem\u00e9dios amargos, por\u00e9m eficientes;\u00a0 a vacina contra o veneno \u00e9 extra\u00edda do pr\u00f3prio veneno; \u00e9 o produto das nossas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es do passado; quem chora com paci\u00eancia e resigna\u00e7\u00e3o\u00a0 \u00e9 bem-aventurado porque compreende\u00a0 essa realidade; quem se revolta\u00a0 est\u00e1 reprovado na \u201cprova\u201d e tem que recome\u00e7ar a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os mansos porque eles herdar\u00e3o a Terra. (Mateus-5.4)<\/p>\n<p>A mansuetude n\u00e3o \u00e9 a covardia, mas a superioridade sobre a viol\u00eancia; a viol\u00eancia \u00e9 sinal de pouca intelig\u00eancia, de brutalidade. Os radicais e ego\u00edstas pertencem ao mundo do passado, da intelig\u00eancia inferior e instintiva, de uivos ranger de dentes; os mansos e caridosos pertencem ao mundo do futuro,\u00a0 da intelig\u00eancia superior e intuitiva. \u00c9 a Terra\u00a0 salva e renovada espiritualmente.<\/p>\n<p>4.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a porque ser\u00e3o fartos (Mateus-5.6)<\/p>\n<p>Os que esperam a justi\u00e7a dos homens se decepcionam e se revoltam; os que conhecem a justi\u00e7a divina sabem que nada ficar\u00e1 impune; \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo, n\u00e3o o tempo material, mas o espiritual; as apar\u00eancias enganam e Deus escreve certo por linhas tortas.<\/p>\n<p>5.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia. (Mateus-5.7)<\/p>\n<p>O perd\u00e3o \u00e9 fundamental para anular uma situa\u00e7\u00e3o de desequil\u00edbrio; n\u00e3o h\u00e1 limite para o perd\u00e3o: perdoar setenta vezes sete\u00a0 significa perdoar quantas vezes for necess\u00e1rio. Quando Jesus nos recomenda oferecer a outra face, n\u00e3o est\u00e1 recomendando a covardia ,mas fazendo uma cr\u00edtica profunda \u00e0 nossa incapacidade de perdoar.<\/p>\n<p>6.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os limpos de cora\u00e7\u00e3o porque ver\u00e3o a Deus. (Mateus-5.8)<\/p>\n<p>A pureza de cora\u00e7\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de eleva\u00e7\u00e3o; a mal\u00edcia \u00e9 degenera\u00e7\u00e3o; as crian\u00e7as s\u00e3o puras de cora\u00e7\u00e3o; mesmo os selvagens n\u00e3o possuem a mal\u00edcia dos civilizados; os preconceitos nos afastam dos bons pensamentos e da pureza de cora\u00e7\u00e3o. Deus est\u00e1 escondido nas coisas que geralmente n\u00e3o queremos enxergar.<\/p>\n<p>7.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os pacificadores porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus. Mateus-5.9)<\/p>\n<p>Os Brandos e pac\u00edficos s\u00e3o aqueles que n\u00e3o aceitam nem compactuam de forma alguma com a viol\u00eancia; s\u00e3o filhos de Deus por que j\u00e1 foram oprimidos, conhecem suas leis e sabem das conseq\u00fc\u00eancias negativas da lei do mais forte.<\/p>\n<p>8.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Bem-aventurados os perseguidos por causa da justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o reino dos C\u00e9us. (Mateus-5.10) e ainda:<\/p>\n<p>9. Bem &#8211; aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem, e mentindo, disserem todo o mal contra v\u00f3s. Folgai\u00a0 exultai porque \u00e9 grande o vosso galard\u00e3o nos c\u00e9us; pois assim tamb\u00e9m perseguiram os profetas que viveram antes de v\u00f3s. (Mateus \u20135.11.12)<\/p>\n<p>A injusti\u00e7a \u00e9 apenas aparente. O destino arma ciladas que, aparentemente, s\u00e3o coincid\u00eancias. Pela lei de a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, de causa e efeito, os perseguidores de ontem geralmente tornam-se os perseguidos de hoje e sabem que os seus sofrimentos t\u00eam uma finalidade \u00fatil, para si e para os outros; para isso existem gradualmente as provas, as expia\u00e7\u00f5es e as repara\u00e7\u00f5es; provas s\u00e3o opcionais, expia\u00e7\u00f5es s\u00e3o compuls\u00f3rias e as repara\u00e7\u00f5es s\u00e3o geralmente espont\u00e2neas. Os crist\u00e3os se multiplicaram por causa das injusti\u00e7as que sofreram e isso serviu de exemplo de f\u00e9 e esperan\u00e7a para as multid\u00f5es que os viam sofrer sem nada poder fazer sen\u00e3o aguardar a Justi\u00e7a Divina.<\/p>\n<p><big><big>6.\u00a0 Conhecimento e Verdade<\/big><\/big><\/p>\n<p>O conhecimento \u00e9 a \u00fanica porta de acesso \u00e0 verdade.\u00a0 Sem ele \u00e9 praticamente imposs\u00edvel evoluir e a recusa ao seu acesso \u00e9 um gesto de rebeldia e indiferen\u00e7a contra as leis do Universo. Quando aceitamos o conhecimento, reconhecemos que precisamos progredir intelectualmente e nos transformar espiritualmente, atitude que significa sempre luz e bem-aventuran\u00e7a. Significa tamb\u00e9m comprometimento, j\u00e1 que a posse do mesmo nos torna respons\u00e1veis pelas implica\u00e7\u00f5es dessas informa\u00e7\u00f5es, seja em no plano individual, seja no coletivo. Quando recusamos o conhecimento, negamos a necessidade de progredir e bloqueamos a nossa matura\u00e7\u00e3o espiritual. Sofremos, quase sempre, as conseq\u00fc\u00eancias negativas desse gesto, geralmente um sentimento de culpa e uma sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia diante das situa\u00e7\u00f5es delicadas e desafiadoras.<\/p>\n<p>Mas Deus sempre insiste e renova constantemente as possibilidades de acesso \u00e0 Verdade. Essas oportunidades s\u00e3o praticamente inesgot\u00e1veis, mesmo quando estamos mergulhados em prova\u00e7\u00f5es ou em graves processos expiat\u00f3rios. Esta a ess\u00eancia das bem-aventuran\u00e7as, conselhos s\u00e1bios para todos aqueles que recusaram a luz do conhecimento ou ent\u00e3o , mais grave ainda, impediram que seus semelhante n\u00e3o tivessem a cesso \u00e0 ela.<\/p>\n<p>Assim como s\u00e3o verdadeiras as cores do arco-\u00edris, e ineg\u00e1veis as sonoridades das notas musicais, sete tamb\u00e9m s\u00e3o os tipos de conhecimentos manifestados na experi\u00eancia humana :<\/p>\n<ul>\n<li>O Conhecimento M\u00c1GICO (descoberta instintiva): os seres primitivos, ainda muito influenciados pelo instinto animal, descobrem de maneira m\u00e1gica e infantil os fen\u00f4menos e recursos da Natureza. Era Pr\u00e9-Hist\u00f3rica<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Conhecimento EMP\u00cdRICO: adquirido pelo esfor\u00e7o da experi\u00eancia pr\u00e1tica. Exemplo: o mec\u00e2nico quando busca solu\u00e7\u00e3o para o conserto ou constru\u00e7\u00e3o de uma m\u00e1quina; o lavrador quando desenvolve uma variedade de sementes. Era Agr\u00edcola.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Conhecimento REVELADO (transcendente): adquirido atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es para-normais. Exemplo: as revela\u00e7\u00f5es religiosas hist\u00f3ricas da B\u00edblia, do budismo, etc. Era Teol\u00f3gica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Conhecimento L\u00d3GICO-RACIONAL (rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito): adquirido pela observa\u00e7\u00e3o repetitiva dos fen\u00f4menos. Exemplo: os cientistas quando estudam os fen\u00f4menos da Natureza no ambiente ou no laborat\u00f3rio. Era da Raz\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Conhecimento EXPERIMENTAL: obtido pela observa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e metodol\u00f3gica da pesquisa cient\u00edfica. Tese, ant\u00edtese e s\u00edntese. Era Industrial. Era Positiva.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Conhecimento INTUITIVO: dom\u00ednio do Superconsciente e das intelig\u00eancias voltadas para os problemas subjetivos, interiores e espirituais. Era Psicol\u00f3gica e Espiritual.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A inter-rela\u00e7\u00e3o desses conhecimentos \u00e9 que forma o conjunto de CONCEITOS que temos sobre as coisas, isto \u00e9, a defini\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima que temos da Verdade. Quanto mais distante da verdade for o conhecimento, mais ele manifesta-se como PR\u00c9-CONCEITO, isto \u00e9, algo n\u00e3o definido, falso e mal formulado.<\/p>\n<p>Na sua forma\u00e7\u00e3o mental e social o ser humano desenvolve os VALORES para o exerc\u00edcio do ju\u00edzo nas escolhas e decis\u00f5es. \u00c9 nesse percurso que desenvolvemos tamb\u00e9m os preconceitos mais comuns: ra\u00e7a, cor, sexo, origem, classe, profiss\u00e3o, religi\u00e3o, opini\u00e3o, comportamento, gosto, condi\u00e7\u00e3o pessoal, etc.\u00a0 Muitos deles s\u00e3o adquiridos de forma inconsciente e por isso manifestam-se tamb\u00e9m de forma inconsciente, sem o nosso controle. Qualquer situa\u00e7\u00e3o ou atitude que se choca\u00a0 com os nossos VALORES desperta uma rea\u00e7\u00e3o de defesa em forma de preconceito.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre o preconceito e o conceito geralmente \u00e9 obtida pela postura cr\u00edtica (capacidade de observ\u00e2ncia e percep\u00e7\u00e3o), distinguindo o que \u00e9 ESSENCIAL do que \u00e9 SUPERFICIAL.\u00a0 Isso s\u00f3 n\u00e3o acontece quando nos sentimos amea\u00e7ados ou quando aplicamos uma an\u00e1lise cr\u00edtica da situa\u00e7\u00e3o. Mas a postura cr\u00edtica n\u00e3o ocorre somente no terreno l\u00f3gico-racional (causa e efeito ou tese, ant\u00edtese e s\u00edntese); ocorre tamb\u00e9m no plano emocional, pois \u00e9 nele que est\u00e3o gravados os preconceitos mais graves, onde nossas rejei\u00e7\u00f5es se manifestam de forma mais agressiva, ainda que camufladas. Nesse caso, o caminho mais seguro para evitar ataques inconseq\u00fcentes \u00e9 sempre a auto-cr\u00edtica e o auto-conhecimento. Quando deixamos a nossa emo\u00e7\u00e3o avaliar determinas situa\u00e7\u00f5es quase s empre fazemos julgamentos (gosto ou n\u00e3o gosto) e conseq\u00fcentemente condenamos ou absolvemos de acordo com os nossos valores, que nem sempre s\u00e3o os mais corretos. Querer conhecer e criticar os outros \u00e9 sempre um risco de julgamento superficial e proje\u00e7\u00e3o equivocada dos nossos limites e defeitos.\u00a0 Para n\u00e3o julgar, nem cair em erro, \u00e9 prefer\u00edvel sempre aceitar. E aceitar n\u00e3o quer dizer concordar nem aplaudir, mas simplesmente n\u00e3o julgar.\u00a0 Essa foi a experi\u00eancia que os grandes s\u00e1bios se esfor\u00e7aram para ensinar aos seres humanos a id\u00e9ia de Vida Plena, ou seja, a aquisi\u00e7\u00e3o de graus mais elevados de consci\u00eancia e felicidade. Nas par\u00e1bolas e exemplos desses s\u00e1bios de todos os tempos encontramos sempre preciosos ant\u00eddotos contra os preconceitos, quase sempre identificados nos personagens ou nas situa\u00e7\u00f5es por eles relatadas.<\/p>\n<p><big><big>7. A Mente versus o C\u00e9rebro<\/big><\/big><\/p>\n<div>&#8220;A\u00a0 lembran\u00e7a n\u00e3o poderia resultar de um estado cerebral. O estado cerebral prolonga a lembran\u00e7a; faz com que ela atue sobre o presente pela materialidade que lhe confere; mas a lembran\u00e7a pura \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o espiritual. Com a mem\u00f3ria estamos efetivamente no dom\u00ednio do esp\u00edrito.&#8221; Henri B\u00e9rgson<\/div>\n<p>No s\u00e9culo XIX desencadeou-se uma das mais intrigantes guerras ideol\u00f3gicas que a humanidade j\u00e1 havia presenciado. Em plena Era Industrial a Ci\u00eancia foi estruturando-se em r\u00edgidos sistemas racionalistas e passou questionar todo o tipo de conhecimento que n\u00e3o se adequava aos paradigmas da sociedade capitalista. O principal deles era a religi\u00e3o cat\u00f3lica cujos dogmas medievais impediam a expans\u00e3o da moralidade burguesa e principalmente dos seus interesses econ\u00f4micos. Era uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a hist\u00f3rica contra os abusos e persegui\u00e7\u00f5es aos livre-pensadores que durante s\u00e9culos vinham sendo esmagados pelo terrorismo inquisitorial.\u00a0 Charles Darwin, Herbert Spencer, Karl Marx e Frederich Nietzsche foram, entre tantos outros, os principais demolidores da f\u00e9 dogm\u00e1tica e da propaga\u00e7\u00e3o das teorias materialistas. Essa guerra de id\u00e9ias foi polarizada em diversos campos, mas em alguns deles as batalhas certamente foram mais ardentes e encarni\u00e7adas: a biologia versus a f\u00edsica; o c\u00e9rebro versus a mente; o determinismo versus o livre-arb\u00edtrio e, finalmente, o materialismo contra o espiritualismo. O conflito prosseguiu\u00a0 e o chamado pensamento cient\u00edfico veio levando todas vantagens sobre o advers\u00e1rio religioso, pois tudo parecia convergir para ao encontro dos seus interesses e adentrou o s\u00e9culo XX com uma for\u00e7a avassaladora. Para se ter uma p\u00e1lida id\u00e9ia dessa combina\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e o capital, os conflitos militares, que raramente ultrapassavam os limites das ambi\u00e7\u00f5es fronteiri\u00e7as das na\u00e7\u00f5es, romperam de forma espetacular essa barreira geogr\u00e1fica. Essa uni\u00e3o conseguiu transformar as guerras locais e regionais em guerras mundiais. N\u00e3o foi por outro motivo que elas se ampliaram: o capital tornou-se um interesse mundial e a guerr a acompanhou a mesma tend\u00eancia de globaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Ante o festival de posturas radicais de c\u00e9ticos e crentes, surge nessa transi\u00e7\u00e3o entre dois s\u00e9culos\u00a0 uma intelig\u00eancia fora dos padr\u00f5es comuns na \u00e9poca e que causaria um certo desconforto entre os dois extremos do conflito.\u00a0 Em meio ao longo percurso dessa confus\u00e3o entre o ser e o n\u00e3o ser, o fil\u00f3sofo franc\u00eas Henri B\u00e9rgson (1859-1940) observa calmamente essas discuss\u00f5es est\u00e9reis e dispara uma pergunta fatal:<\/p>\n<div>\u201cSe a mente \u00e9 a mat\u00e9ria, para que serve a consci\u00eancia?\u201d.<\/div>\n<p>A pergunta era tamb\u00e9m uma resposta \u00e0s posturas dogm\u00e1ticas dos religiosos, em sua maioria coniventes com a escraviza\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias, e tamb\u00e9m aos cientistas, que agora assumiam de forma arrogante a posi\u00e7\u00e3o de novos\u00a0 sacerdotes e donos da verdade. A quest\u00e3o que permanecia no ar era a seguinte: Afinal, o que \u00e9 a mente? \u00c9 uma realidade ou uma ilus\u00e3o? Ilus\u00e3o de \u00f3tica ou ilus\u00e3o m\u00e1gica provocada pela intelig\u00eancia humana?<\/p>\n<p>\u00c9 que na perspectiva te\u00f3rica materialista a mente \u00e9 alguma coisa muito concreta, espacial, l\u00f3gica, objetiva, f\u00edsica, absoluta. J\u00e1 na perspectiva espiritualista ela \u00e9 vista como alguma coisa mais abstrata, temporal, psicol\u00f3gica, subjetiva, metaf\u00edsica e, portanto, relativa.\u00a0 Apesar do confronto de opini\u00f5es, as duas fac\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas estavam buscando respostas dentro dos seus modelos de pensamento. Mas B\u00e9rgson, livre das limita\u00e7\u00f5es do m\u00e9todo positivo e dos dogmas religiosos, mesmo porque n\u00e3o estava muito preocupado em provar nada, a n\u00e3o ser para si mesmo, entendia que a quest\u00e3o essencial dessa discuss\u00e3o sobre a vida e a exist\u00eancia estava na compreens\u00e3o de outras coisas que antecediam essas teorias como, por exemplo, a necessidade de uma fil osofia do tempo. Sem essa filosofia seria imposs\u00edvel entender esses fen\u00f4menos existenciais.\u00a0 Dizia ele:<\/p>\n<p>\u201cTempo \u00e9 dura\u00e7\u00e3o, portanto transforma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Para ele o essencial n\u00e3o era definir a exist\u00eancia e ou n\u00e3o exist\u00eancia, mas compreender que as coisas mudam e porque mudam. Somente os seres que observam o tempo passar podem compreender a si mesmos. Somente aqueles que estabelecem a interliga\u00e7\u00e3o existencial entre passado, presente e futuro podem estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre causa e efeito. Mesmo os seres inferiores da Cria\u00e7\u00e3o se guiam pelos ciclos do tempo natural, pelo clima, pelas esta\u00e7\u00f5es, pelos ventos, chuvas, secas e tantos outros fen\u00f4menos da rotina natural.\u00a0\u00a0 J\u00e1 os seres humanos se guiam pelo tempo hist\u00f3rico, cuja refer\u00eancia s\u00e3o os acontecimentos e as experi\u00eancias adquiridas, os fatos marcantes da exist\u00eancia. Negar o tempo \u00e9 o que se chama de aliena\u00e7\u00e3o e certamente da consci\u00eanci a. B\u00e9rgson insiste nessa l\u00f3gica causal:<\/p>\n<div>\u201cTempo \u00e9 ac\u00famulo. O futuro \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do passado\u201d.<\/div>\n<p>A consci\u00eancia passa ser ent\u00e3o o grande fator diferencial em todas as discuss\u00f5es existencialistas. Se alguns querem apenas conhecer e explicar os mecanismos da vida e outros, por outro lado, querem fazer desse conhecimento um ato religioso e de adora\u00e7\u00e3o, o problema da consci\u00eancia dever\u00e1 sempre estar presente, pois funciona como term\u00f4metro dos observadores sobre todas as coisas. Ao fazer essas reflex\u00f5es o pensador franc\u00eas concluiu que todos n\u00f3s somos criaturas em constante processo de muta\u00e7\u00e3o, que somos suscet\u00edveis a mudan\u00e7as enriquecedoras e que somos livres para pensar e agir na constru\u00e7\u00e3o dos nossos destinos:<\/p>\n<div>\u00a0\u201cPara um ser consciente, existir \u00e9 mudar, mudar \u00e9 amadurecer, amadurecer \u00e9 continuar criando a si mesmo eternamente\u201d.<\/div>\n<p>Desafiando o dogma da superioridade humana sobre os demais reinos da natureza, B\u00e9rgson nos leva a admitir que a consci\u00eancia \u00e9 um estado de percep\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o que antecede aos \u00f3rg\u00e3os f\u00edsicos que lhe facilitam a manifesta\u00e7\u00e3o no meio em que vivem. Para cada estado existencial configura-se um grau de consci\u00eancia proporcional \u00e0 necessidade daquele respectivo ser:<\/p>\n<div>\u201cTeoricamente, ent\u00e3o, tudo o que est\u00e1 vivo pode estar consciente; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter c\u00e9rebro para estar consciente, assim como n\u00e3o \u00e9 preciso ter est\u00f4mago para digerir. Uma ameba faz digest\u00e3o\u201d.<\/div>\n<p>Nessa compara\u00e7\u00e3o aparentemente ir\u00f4nica, B\u00e9rgson descobriu a roda da evolu\u00e7\u00e3o an\u00edmica, uma verdade muito antiga ensinada nas mais conhecidas escolas inici\u00e1ticas do Oriente. Outros\u00a0 fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos e espiritualistas tamb\u00e9m raciocinavam nessa mesma linha. Para eles todos seres s\u00e3o vivos e o que os diferencia \u00e9 exatamente o grau de consci\u00eancia que carregam em seu psiquismo potencialmente evolutivo: no Reino Mineral\u00a0 a consci\u00eancia dorme, no Reino Vegetal ela sonha , no Reino Animal ela desperta e no Reino Hominal ela rompe o limite da irracionalidade e ganha novas dimens\u00f5es que nunca cessam at\u00e9 a plenitude\u00a0 na eternidade \u00e0 frente.\u00a0\u00a0 Somente os seres humanos superam gradualmente os instintos e o determinismo biol\u00f3gico e passam a fazer as escolhas que caracterizam o livre-arb\u00edtrio. Viver \u00e9 fazer escolhas, tomar decis\u00f5es, adotar posturas, enfim manter o controle da m\u00e1quina corporal e do sistema operacional mental. \u00c9 assim que passamos a ter um grau mais complexo de consci\u00eancia, que sabemos que existimos, que nos comportamos com exclusividade individual e que fazemos parte de um plano vivencial. E esse plano possui, aos nossos olhos ainda muitos limitados, dois aspectos: o da Vida e o das Exist\u00eancias.\u00a0 Pela pr\u00f3pria l\u00f3gica do tempo que observamos, seja absoluto ou relativo, conclu\u00edmos que a nossa Vida \u00e9 \u00fanica, mas as nossas exist\u00eancias s\u00e3o diversas. Mesmo assim, continua funcionando em dois aspectos: o individual, que \u00e9 intrapessoal; e o coletivo, que s\u00e3o as nossas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, pela lei de sociedade. A combina\u00e7\u00e3o desses dois sentidos vivenciais resulta na forma\u00e7\u00e3o da nossa personalidade, processo de uma longa jornada de constru\u00e7\u00e3o no tempo e no espa\u00e7o. Abrangendo a vida pessoal e coletiva, a consci\u00eancia desperta e se desenvolve na medida que amadurecemos pela idade biol\u00f3gica ou pelas incont\u00e1veis experi\u00eancias que realizamos nas suas in\u00fameras exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Consci\u00eancia, portanto, \u00e9 saber quem somos,\u00a0 que temos uma mem\u00f3ria e participamos de um grupo social, num determinado tempo da Hist\u00f3ria. Cada um de n\u00f3s tem um passado e tamb\u00e9m fazemos parte da Hist\u00f3ria de todos e de tudo que acontece ao nosso redor. Quem n\u00e3o possui essa consci\u00eancia torna-se alienado, isto \u00e9, inconsciente, desligado da realidade que o cerca, fora do contexto hist\u00f3rico em que vive.\u00a0 Ao persistir nessa aliena\u00e7\u00e3o o ser quase sempre permanece dominado e dependente dos outros; n\u00e3o usa o livre-arb\u00edtrio porque n\u00e3o faz escolhas conscientes; anula assim a sua individualidade e permitem que outras consci\u00eancias fa\u00e7am as escolhas que ela deveria fazer.<\/p>\n<p>Mas o despertar da consci\u00eancia em graus mais complexos s\u00f3 ocorre quando come\u00e7amos a conversar conosco mesmos, fazendo perguntas e tentando digerir respostas. Esse despertar \u00e9 sempre caracterizado pela constante insatisfa\u00e7\u00e3o do ser, consigo mesmo e com as cosias que acontecem ao seu redor. Para evitar um desequil\u00edbrio sempre tomamos algumas provid\u00eancias defensivas, para suportamos as constantes crises que nos assaltam a alma. Dependendo da circunst\u00e2ncia, a humildade, a aceita\u00e7\u00e3o, a resigna\u00e7\u00e3o, s\u00e3o defesas muito \u00fateis; noutras situa\u00e7\u00f5es optamos pela agressividade em suas diversas manifesta\u00e7\u00f5es. E assim vamos tocando o barco, sempre rio acima. Mesmo quando paramos em algum porto, que \u00e9 o tempo presente, ou quando ficamos \u00e0 deriva, muitas vezes arrastados pelas correntezas do tempo passado, n\u00e3o perdemos a no\u00e7\u00e3o de qu e estamos nos dirigindo rio acima, que \u00e9 o tempo futuro. Para cada ser esse percurso tem um significado muito pessoal e uma din\u00e2mica diferenciada. Cada um tem o seu tempo e o seu ritmo, mas todos t\u00eam o mesmo destino.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 chave da consci\u00eancia mais ampla e da busca de auto-realiza\u00e7\u00e3o em que todos n\u00f3s persistimos; \u00e9 a equa\u00e7\u00e3o existencial que tenta solucionar a liga\u00e7\u00e3o entre essas tr\u00eas refer\u00eancias de tempo que ocupam as nossas mentes: o que fui, o que sou e o que vou ser. Tal solu\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 encontrada quando estivermos preparados para conhecer a verdade integral das coisas e n\u00e3o em partes como o fazemos atualmente. S\u00e3o d\u00favidas que carregaremos futuro acima e sabe l\u00e1 quando estaremos maduros e satisfeitos com essas respostas. Mas a import\u00e2ncia n\u00e3o est\u00e1\u00a0 nas respostas em si, pois se as obtiv\u00e9ssemos agora provavelmente n\u00e3o as compreender\u00edamos integralmente, com o devido valor que elas exigem; o que importa nesse momento s\u00e3o as experi\u00eancias e reflex\u00f5es delas decorrentes, com todas as dificuldades e implica\u00e7\u00f5es que elas representam em nossas vidas. Isso \u00e9 o que podemos chamar de estado de coisas, de consci\u00eancia.<\/p>\n<p><big><big>8. A Hist\u00f3ria e o Destino<br \/>\n<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cQualquer que seja a dura\u00e7\u00e3o de vossa vida, ela \u00e9 completa. Sua utilidade n\u00e3o reside na dura\u00e7\u00e3o e sim no emprego que lhe dais. H\u00e1 quem viveu muito e n\u00e3o viveu. Meditais obre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de v\u00f3s, e n\u00e3o do n\u00famero de anos, terdes vivido bastante. Imagineis ent\u00e3o nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirig\u00edeis? Haver\u00e1 caminho que n\u00e3o tenha fim?\u201d \u2013 Michel de Montaigne<\/div>\n<p>H\u00e9rcules era filho de Zeus e Alemena, a rainha de Tirinto. A deusa Hera, esposa de Zeus tentou frustrar o seu nascimento, mas somente conseguiu impedir que H\u00e9rcules se convertesse em rei de Tirinto retardando sua vinda ao mundo at\u00e9 que nasceu outro menino que herdou o trono. Hercules nasceu, mas na condi\u00e7\u00e3o de um escravo. Precocemente se manifestou a natureza semi-divina de H\u00e9rcules. Hera enviou duas serpentes ao seu ber\u00e7o, mas o beb\u00ea as estrangulou. Desde muito cedo aprendeu as artes marciais. Ningu\u00e9m podia se opor \u00e0 lan\u00e7a nem \u00e0 flecha de H\u00e9rcules, que tamb\u00e9m era um lutador sobressalente. Hera n\u00e3o estava disposta a perder e no momento culminante do triunfo de H\u00e9rcules lhe provocou um ataque de loucura. No meio da sua aterradora amn\u00e9sia, o her\u00f3i matou a esposa e os filhos.<\/p>\n<p>Incapaz de recobrar a tranq\u00fcilidade de esp\u00edrito, depois de cometer esse crime espantoso, H\u00e9racles consultou o or\u00e1culo de Apolo em Delfos. Este lhe respondeu que fosse a Tirinto e acatasse as ordens do rei Euristeu. O her\u00f3i obedeceu e o monarca lhe encomendou uma s\u00e9rie de tarefas ou trabalhos. Eram tarefas simples e complexas que se articulavam entre si e aos destinos de outras pessoas, numa verdadeira trama existencial.<\/p>\n<p>Cada uma das 12 tarefas foi sendo cumprida por H\u00e9rcules de acordo com as circunst\u00e2ncias, conveni\u00eancias e limites da sua for\u00e7a f\u00edsica e moral.\u00a0 Algumas ele cumpriu corretamente e com relativa facilidade; em outras teve grandes dificuldades e as cumpriu atrav\u00e9s de artif\u00edcios ardilosos, o que agravava seus d\u00e9bitos diante das novas tarefas. Quando pensava que havia cumprido totalmente um trabalho, decepcionava-se porque via novamente diante de si algo semelhante ao que n\u00e3o havia conclu\u00eddo satisfatoriamente. Ent\u00e3o revoltava-se e cometia novos erros. Finalmente H\u00e9rcules defrontou-se com o 12\u00ba trabalho, que era tirar Cerbero dos infernos, o c\u00e3o de tr\u00eas cabe\u00e7as. Ao finalizar com \u00eaxito esta tarefa, o her\u00f3i venceu Hades \u2013 rei dos mortos \u2013 e se tornou imortal.<\/p>\n<p>Mas H\u00e9rcules ainda tinha que viver parte da vida e sofreu novos ataques de Hera. Ela seduziu Djanira, a segunda esposa do her\u00f3i, que o envenenou acreditando que lhe dava um rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Transpondo esse relato mitol\u00f3gico para a esfera da interpreta\u00e7\u00e3o objetiva podemos ter uma compreens\u00e3o mais significativa do mito:<\/p>\n<p>H\u00e9rcules simboliza o Ser Consciente, \u201cfilho\u201d de Deus, criado simples e ignorante; a perfei\u00e7\u00e3o relativa.<\/p>\n<p>Hera simboliza o destino, o Programa Existencial da individualidade,\u00a0 a sua constante busca do tempo futuro e ao mesmo tempo a raiz dos nossos compromissos como o passado, o karma e o imperativo da lei de A\u00e7\u00e3o e Rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O rei Euristeu representa a sua Consci\u00eancia e o Dever com os compromissos e responsabilidades assumidas na pr\u00e9-exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Os 12 trabalhos representam a Hist\u00f3ria e o jogo das circunst\u00e2ncias no dia-a-dia e o uso do Livre arb\u00edtrio, a s\u00edntese da evolu\u00e7\u00e3o espiritual humana, composta pelas as provas (obst\u00e1culos, sedu\u00e7\u00f5es) e expia\u00e7\u00f5es (resgates de d\u00edvidas); na matem\u00e1tica esot\u00e9rica o n\u00famero 12 \u00e9 produto da soma e da mutiplica\u00e7\u00e3o da estrutura seten\u00e1ria (3+4=7 e 3&#215;4=12) significa os ciclos das exist\u00eancias, as probabilidades circunstanciais e tend\u00eancias comportamentais que vivenciamos, simbolizadas nos doze meses do ano, na multiplica\u00e7\u00e3o das dos meses das esta\u00e7\u00f5es do ano (4&#215;3), nos 12 signos do zod\u00edaco, assim como as doze tribos de Israel, os doze ap\u00f3stolos do Cristo, etc.<\/p>\n<p>Mas a Hist\u00f3ria \u00e9 muito mais do que o relato de acontecimentos, coisas, lugares e pessoas que viveram no passado. Na verdade, ela tem muito mais a ver com o futuro e com os fatos que atualmente afetam bem de perto as nossas vidas. Ela \u00e9 uma sucess\u00e3o l\u00f3gica de acontecimentos no tempo e no espa\u00e7o, encadeados em tramas individuais e coletivas, produto de a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es geradas pelas atitudes humanas. No grande tempo de longa dura\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria cada um de n\u00f3s possui um fragmento pessoal de realidade, um tempo individual e um cen\u00e1rio para atua\u00e7\u00e3o, delimitados pelo ciclo biol\u00f3gico do corpo e pelas circunst\u00e2ncias sociais nas quais nos envolvemos. O tempo existencial a ser equacionado varia de pessoa para pessoa, mas, em m\u00e9dia, dura entre 70 e 80 anos, o suficiente para a realiza\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias necess\u00e1rias ao nosso padr\u00e3o moral e de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Existe na Natureza Divina uma rela\u00e7\u00e3o proporcional entre o Macrocosmos e o microcosmos, como contata-se\u00a0 na rela\u00e7\u00e3o natural entre a semente e a \u00c1rvore . Assim como o Ser humano \u00e9 o micro e o Criador \u00e9 o Macro, o corpo f\u00edsico \u00e9 o micro e o Universo e o Macro, podemos dizer tamb\u00e9m que o dia est\u00e1 para a Exist\u00eancia assim como a exist\u00eancia est\u00e1 para a Eternidade. As experi\u00eancias que realizamos nos segundos e minutos s\u00e3o simula\u00e7\u00f5es e treinamentos para unidades maiores e sucessivas do tempo existencial e vivencial. S\u00e3o nos in\u00fameros minutos que aprendemos e realizamos as coisas importantes do dia. S\u00e3o nos m\u00faltiplos dias que entendemos as coisas importantes da exist\u00eancia e assim sucessivamente. S\u00e3o nas diversas exist\u00eancias que compreendemos as coisas essenciais da viv\u00eancia ou da Eternidade.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio existencial possui quatro momentos que coincidem perfeitamente com as fases do ciclo biol\u00f3gico do corpo. Ele \u00e9 a exterioriza\u00e7\u00e3o da B\u00fassola Eterna da Consci\u00eancia. Enquanto o primeiro funciona no tempo absoluto, em sentido hor\u00e1rio, medido pelos dias, horas, anos, at\u00e9 o limite da morte f\u00edsica, a segunda funciona no sentido inverso da introspec\u00e7\u00e3o, medida nos graus do tempo relativo, sem limites. Um marca a extrovers\u00e3o do ser no plano objetivo; a outra marca a sua introspec\u00e7\u00e3o no plano subjetivo da mente. Um define o status-quo da encarna\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica e a outra aponta o rumo da ressurrei\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. No tempo de uma exist\u00eancia na carne, o rel\u00f3gio existencial e a b\u00fassola consciencial se interpenetram e\u00a0 formam um terceiro marcador, que \u00e9 o ciclo Dia-e-Noi te, de 24 horas divididas tamb\u00e9m em quatros momentos nos quais ora estamos em atividade biol\u00f3gica, ora em atividade psicol\u00f3gica, seja em vig\u00edlia, seja durante o sono.\u00a0\u00a0 O Dia-e-Noite \u00e9 a s\u00edntese e a transi\u00e7\u00e3o do tempo absoluto do corpo biol\u00f3gico existencial para o tempo relativo da consci\u00eancia e da eternidade. \u00c9 no Dia-e-Noite que realizamos as experi\u00eancias fundamentais para o desenvolvimento mais amplo da mente em seus tr\u00eas campos vivenciais \u2013 o Pensamento, a A\u00e7\u00e3o e o Sentimento.<\/p>\n<p>Em cada fase do nosso tempo pessoal di\u00e1rio acontecem pequenos fatos corriqueiros, importantes para a pequena mente existencial, limitada pelo c\u00e9rebro; mas tamb\u00e9m os fatos essenciais, muito significativos para a mente maior, da consci\u00eancia e da Vida. Esses fatos nos estimulam a pensar, agir e sentir as experi\u00eancias e cada uma dessas opera\u00e7\u00f5es se desenvolvem na medida que o corpo tamb\u00e9m amplia a sua manifesta\u00e7\u00e3o no meio ambiente. Nossas exist\u00eancias se resumem num mecanismo constante de fazer escolhas e\u00a0 tomar decis\u00f5es, desde a mais simples, como tomar um copo de \u00e1gua, at\u00e9 as mais complexas, que causam grandes desgastes emocionais.\u00a0 Diante dos fatos somos for\u00e7ados a escolher, a tomar um dos caminhos que se abrem aos nossos olhos, mesmo que seja a op\u00e7\u00e3o do recuo ou op\u00e7\u00e3o da fuga. Toda escolha gera uma experi\u00eancia e esta desencadeia em n\u00f3s um irrevers\u00edvel processo de transforma\u00e7\u00e3o mental, mesmo quando n\u00e3o aceitamos as conseq\u00fc\u00eancias da escolha que fizemos; podemos at\u00e9 ficar estacionados numa determinada situa\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 fomos afetados inevitavelmente pela mudan\u00e7a.\u00a0 \u00c9 isso que se chama \u201cerraticidade\u201d, uma situa\u00e7\u00e3o de expectativa e ansiedade na qual o Ser j\u00e1 foi atingido pela necessidade de mudan\u00e7a, mas ainda n\u00e3o compreendeu o que se passa com ele e fica adiando ou planejando uma nova experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo indica que existimos num campo universal de atua\u00e7\u00e3o onde estamos sujeitos a leis que fogem do nosso controle individual. Leis como a de A\u00e7\u00e3o e Rea\u00e7\u00e3o e a de Evolu\u00e7\u00e3o, s\u00f3 para citar as mais conhecidas, estabelecem limites em nossas escolhas; possu\u00edmos o livre-arb\u00edtrio, mas na maioria dos casos, ele est\u00e1 limitado e restrito a determinadas a\u00e7\u00f5es. Isso parece absurdo, mas a l\u00f3gica desse limite est\u00e1 numa ordem maior que impede que as nossas decis\u00f5es causem desequil\u00edbrios al\u00e9m dos par\u00e2metros da normalidade. Entendemos, ent\u00e3o, que o livre-arb\u00edtrio \u00e9 uma faculdade proporcional ao grau de maturidade do Ser. Na sua fase humana e individualista, em mundos materiais imperfeitos, naturalmente sofre as limita\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a manuten\u00e7\u00e3o da ordem geral.\u00a0 Na Terra e le ainda \u00e9 o ve\u00edculo do ego\u00edsmo e do personalismo, da\u00ed os dist\u00farbios mentais que o aprisionam temporariamente como efeito dos abusos. Em mundos mais perfeitos sua manifesta\u00e7\u00e3o provavelmente se amplia porque o Ser age sempre no sentido do bem estar da coletividade. Alguns autores chegam mesmo a especular que o livre-arb\u00edtrio se torna uma faculdade desnecess\u00e1ria quando o Ser se integra perfeitamente na harmonia universal e passa a cooperar em graus cada vez mais complexos da Cria\u00e7\u00e3o Divina.<\/p>\n<p>Em nosso caso, as escolhas ainda s\u00e3o muito afetadas pelas provas e expia\u00e7\u00f5es. N\u00e3o podemos avan\u00e7ar em determinadas linhas de op\u00e7\u00e3o porque criamos obst\u00e1culos de a\u00e7\u00e3o que somente podem ser ultrapassados quando dali forem removidos os entulhos gerados pelos nossos gestos de destrui\u00e7\u00e3o. S\u00e3o naturalmente entulhos mentais, experi\u00eancias negativas antigas que nos prendem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o estacion\u00e1ria da erraticidade, onde podemos tanto fazer escolhas, cometer erros, como tamb\u00e9m repetir experi\u00eancias para reaprender com os fracassos. Aqui se v\u00ea claramente o limite entre o livre-arb\u00edtrio e o determinismo.\u00a0 Na erraticidade\u00a0 escolhemos com clareza e convic\u00e7\u00e3o, porque estamos conscientes da situa\u00e7\u00e3o e operamos com a mente maior.\u00a0 Quando encarnados, estaremos operando subjetivamente com a mente reduzida, sem mem\u00f3ria objetiva. Seremos \u201catra\u00eddos\u201d e \u201cempurrados\u201d para situa\u00e7\u00f5es onde as escolhas e decis\u00f5es sofrem as influ\u00eancias naturais dos acontecimentos. Poderemos recuar e desviar dos nossos caminhos, mas, ainda assim, teremos que suportar a sedu\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias ou o imperativo das rea\u00e7\u00f5es \u201cc\u00e1rmicas\u201d.<\/p>\n<p>Dessa forma, estamos ainda mergulhados no plano da Exist\u00eancia, restrito, incompleto, parcial e confuso, por causa multiplicidade de exist\u00eancias e personalidades. Nele estamos construindo parcialmente o nosso Eu, a nossa Hist\u00f3ria, participando com o nosso tempo individual, interagindo com a Fam\u00edlia, a Cidade, o Pa\u00eds e a Humanidade. Mas, num plano mais amplo, que \u00e9 a Vida Integral, ainda estamos atrelados a um Destino, que \u00e9 um caminho ideal.\u00a0 Ainda n\u00e3o possu\u00edmos maturidade emocional e intelig\u00eancia suficientes para fugirmos desse destino e exercer com plenitude o livre-arb\u00edtrio.\u00a0 Por isso, diante das crises existenciais, sempre nos colocamos e nos sentimos divididos entre a probabilidade e a fatalidade, entre a relatividade do tempo metaf\u00edsic o\u00a0 e o absolutismo do tempo f\u00edsico e biol\u00f3gico. Enfim, estamos entre a liberdade e o limite. A primeira somente deixar\u00e1 de ser um ideal quando o segundo deixar de ser real. Quando nos livrarmos desses limites teremos uma sensa\u00e7\u00e3o real de liberdade, sem ang\u00fastia, sem ansiedade. O tempo ser\u00e1 apenas uma sensa\u00e7\u00e3o realizadora, sem interfer\u00eancia inc\u00f4moda do passado e sem o medo do futuro. O passado n\u00e3o ser\u00e1 mais nostalgia, o presente n\u00e3o ser\u00e1 fantasia nem o futuro ser\u00e1 visto como ideologia. Quando tudo isso for superado estaremos passando das m\u00faltiplas exist\u00eancias para a Vida \u00fanica. Isso \u00e9 o que os Seres Superiores chamam de Felicidade ou Plenitude, uma realidade comum nos mundos mais perfeitos e que na Terra\u00a0 \u00e9 inconstante e s\u00f3 ocorre em alguns momentos.<\/p>\n<p>Mas a nossa atual felicidade, relativa e parcial, tem uma raz\u00e3o de ser; tem a ver com o nosso estado de esp\u00edrito, que tamb\u00e9m flutua na perfei\u00e7\u00e3o relativa ou potencial de perfectibilidade.\u00a0 Ainda n\u00e3o possu\u00edmos maturidade suficiente para sermos felizes. Essa quest\u00e3o \u00e9 bem f\u00e1cil de entender, mas nem sempre \u00e9 f\u00e1cil de compreender: se f\u00f4ssemos transportados a mundo onde a felicidade plena \u00e9 uma realidade coletiva n\u00e3o suportar\u00edamos tal situa\u00e7\u00e3o por causa da interfer\u00eancia dos conflitos \u00edntimos que ainda n\u00e3o foram solucionamos e que ainda nos causa a instabilidade emocional. Pensamos que \u00e9 f\u00e1cil viver num mundo feliz quando ainda n\u00e3o nos sentimos felizes. Mas o processo natural \u00e9 bem diferente e altamente dial\u00e9tico. Para atingirmos a felicidade integral temos que nos adaptar gradualmente atr av\u00e9s do desmonte dos conflitos e dos efeitos emocionais negativos que eles nos causam. Em resumo, a regra \u00e9 a seguinte: temos que aprender a ser felizes nas situa\u00e7\u00f5es de infelicidade. \u00c9 como aprender a respirar dentro da \u00e1gua; no come\u00e7o ficamos nos debatendo, aflitos, agonizados, nos contorcendo em forma de desespero. Depois vamos percebendo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel lutar contra a natureza; paramos de tentar respirar bruscamente, ficamos mais calmos, passamos a olhar o que se passa ao nosso redor; n\u00e3o conseguimos respirar, mas j\u00e1 vislumbramos por alguns segundos a paisagem que nos parecia hostil e para a qual nem abr\u00edamos os olhos. Com o tempo vamos aumentando os per\u00edodos nos quais prendemos a respira\u00e7\u00e3o e nos quais exercitamos a calma e a paci\u00eancia. Essa \u00e9, de forma an\u00e1loga, a chave da passagem das Exist\u00eancias para a Vida, da Hist\u00f3ria para o Destino, da Fatalidade para a Probabilidade, da Encarna\u00e7\u00e3o para a Ressurrei\u00e7\u00e3o, do Reino Animal Biol\u00f3gico para o Reino Hominal Psicol\u00f3gico, do Reino de C\u00e9sar para o Reino de Deus e, finalmente, da aliena\u00e7\u00e3o para a Consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 dissemos, essa \u00e9 uma tem\u00e1tica que podemos entender facilmente, mesmo porque as filosofias espiritualistas explicam tais quest\u00f5es com muita did\u00e1tica e objetividade. Mas resta o problema da compreens\u00e3o. Nem tudo que entendemos objetivamente com o intelecto repercute\u00a0 com clareza no mundo \u00edntimo da subjetividade e que \u00e9 o verdadeiro universo da experi\u00eancia.\u00a0 Uma coisa \u00e9 a teoria, outra coisa \u00e9 a pr\u00e1tica. \u00c9 um conceito t\u00e3o antigo que hoje soa aos ouvidos mais exigentes como um \u201cchav\u00e3o\u201d, um \u201cclich\u00ea\u201d, gasto pelo uso ret\u00f3rico, mas\u00a0 que continua tendo seu significado de verdade filos\u00f3fica. Como diz a m\u00fasica, \u201cN\u00e3o adianta fingir, nem mentir pra si mesmo&#8230;\u201d Podemos at\u00e9 estacionar para discutir milhares de aspectos que as nossas doutrina oferecem sobre a Vida e o Universo, podemos permanecer por longos per\u00edodos tentando solucionar problemas do mundo fenomenal, que j\u00e1 \u201cest\u00e3o desde sempre solucionados por Deus\u201d, para os quais basta aplicar o racioc\u00ednio. J\u00e1 entendemos o fen\u00f4meno da morte biol\u00f3gica, j\u00e1 solucionamos o problema objetivo da imortalidade. Esse enigma de Tom\u00e9 j\u00e1 foi solucionado por diversos pesquisadores da alma, atrav\u00e9s da ci\u00eancia e da tecnologia sensitiva do entendimento das leis naturais. Mas ainda falta compreender o enigma de Nicodemos, que \u00e9 fen\u00f4meno da morte do Esp\u00edrito.\u00a0 Esse enigma os mestres tamb\u00e9m decifraram, n\u00e3o para n\u00f3s, mas para eles mesmos. Deixaram pistas das suas experi\u00eancias pessoais, mas n\u00e3o puderam ir muito al\u00e9m disso, pois o\u00a0 mundo interior de cada um deles \u00e9 diferente do nosso, t\u00eam o seu pr\u00f3prio caminho a percorrer. O contato te\u00f3rico com essas verdade b\u00e1sicas s\u00e3o os primeiros passos para entender o problema, mas a compreens\u00e3o depende do mergulho psicol\u00f3gico no enigma.\u00a0 No aspecto te\u00f3rico entendemos perfeitamente o problema do ser, do destino e da dor. Mas isso ainda deixa um v\u00e1cuo, uma sensa\u00e7\u00e3o de vazio de compreens\u00e3o emocional.<\/p>\n<p>A verdadeira intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o racioc\u00ednio, mas a capacidade de fazer escolhas. Muitas vezes pessoas pouco inteligentes do ponto de vista racional fazem escolhas certas usando a intui\u00e7\u00e3o. J\u00e1 algumas pessoas tidas como inteligentes freq\u00fcentemente desprezam a intui\u00e7\u00e3o, usam a raz\u00e3o acreditando estarem seguros em suas decis\u00f5es para mergulharem em grandes fracassos. Pior ainda, n\u00e3o aceitam as conseq\u00fc\u00eancias de suas decis\u00f5es e agravam ainda mais os efeitos das suas a\u00e7\u00f5es.\u00a0 A arte da escolha, talvez\u00a0 seja esse o segredo do livre-arb\u00edtrio, das suas possibilidades e dos seus limites.<\/p>\n<p>Portanto, a evolu\u00e7\u00e3o espiritual do ser humano \u00e9 impulsionada pelo livre-arb\u00edtrio, cuja regra universal \u00e9 \u201cA Semeadura \u00e9 livre, mas a colheita \u00e9 obrigat\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Durante a nossa evolu\u00e7\u00e3o em mundos inferiores a maioria das nossas experi\u00eancias se realiza no campo do mal e da imperfei\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 normal at\u00e9 certo ponto, pois \u00e9 a fase\u00a0 de defesa e sobreviv\u00eancia no meio hostil. O Bem e a perfei\u00e7\u00e3o aparecem lentamente, quando passamos a ter percep\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos, como ser semelhante ao outro. O limite do livre-arb\u00edtrio \u00e9 a nossa capacidade de distinguir o Bem e o mal. Quando ultrapassamos esse limite esbarramos na lei de causa e efeito (a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o) e temos que assumir responsabilidades pelos nossos atos.<\/p>\n<p>As responsabilidades e os choques de retorno geralmente nos levam a duas atitudes e caminhos: estagna\u00e7\u00e3o, pelo orgulho ferido e a revolta; e o progresso, pela humildade e a resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo as escolas espiritualistas cl\u00e1ssicas a predomin\u00e2ncia do mal em nosso planeta \u00e9 devido \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de seres rebeldes e reincidentes no erro, a maioria em situa\u00e7\u00e3o de provas e expia\u00e7\u00f5es. As a\u00e7\u00f5es mal\u00e9ficas de alta destrui\u00e7\u00e3o acontecem\u00a0 pela afinidade e con\u00fabio ps\u00edquico de seres muito inteligentes, por\u00e9m, s\u00f3ciopatas, de sentimentos doentes, que n\u00e3o aceitam seus choques de retorno e n\u00e3o se conformam como fracasso de suas provas e revoltados com as expia\u00e7\u00f5es que sofrem na Terra. Disso surgiu provavelmente o mito de Sat\u00e3 (anjos ca\u00eddos). Mesmo assim, no plano coletivo, essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00fateis no despertamento para o Bem e para a regenera\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s dos resgates de d\u00edvidas c\u00e1rmicas.<\/p>\n<p>O \u00f3dio e a revolta s\u00e3o as principais marcas do mal, que em mundos como a Terra torna-se ideologia de grupos organizados em atividade criminosas e que fazem da vingan\u00e7a uma lei, pela viol\u00eancia e brutalidade. Para neutralizar essa for\u00e7a mal\u00e9fica n\u00e3o podemos jamais agir dentro do seu campo de a\u00e7\u00e3o e sempre fugir de a\u00e7\u00f5es de coniv\u00eancia direta ou indireta com essas atividades, com exemplificaram Jesus em sua \u00e9poca\u00a0 e o Mahatma Gandhi nos tempos modernos. Deve-se sempre agir no oposto, no Amor, que \u00e9 a Lei universal mais ampla e superior.<\/p>\n<p>Mas quase sempre temos a falsa impress\u00e3o de que a Lei do Amor \u00e9 ut\u00f3pica, ainda muito distante n\u00f3s, por causa dos nossos h\u00e1bitos e instintos animais. Todos esses conceitos superiores logo caem por terra quando ca\u00edmos nas contradi\u00e7\u00f5es do dia-a-dia, t\u00edpicas das nossas imperfei\u00e7\u00f5es. Da\u00ed vem a descren\u00e7a e a desconfian\u00e7a na nossa capacidade de mudar a realidade interior e o mundo que nos cerca. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio persistir para aprender a humildade, a mansuetude e o perd\u00e3o, que s\u00e3o os caminhos mais acess\u00edveis para praticarmos o Amor. A humildade \u00e9 a ci\u00eancia da confian\u00e7a no tempo e na Justi\u00e7a Divina; \u00e9 saber esperar o momento certo, em atitude de resigna\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de conformismo, covardia ou burrice, mas da sabedoria em recuar com um passo para traz e depois dar muitos passos para frente. Na vida selvagem encontramos exempl os bel\u00edssimos de humildade e sabedoria quando pequenos animais se humilham, simulando estarem mortos, para desarmar os mais fortes que os perseguem. Todos que j\u00e1 passaram por essas experi\u00eancias na vida humana afirmam que a mansuetude \u00e9 o gesto humilde e tamb\u00e9m inteligente de desarmar a agressividade do outro. \u00c9 o momento cr\u00edtico em que, por exemplo, um homem tem que se tornar mulher, pois esta \u00e9 uma intelig\u00eancia t\u00edpica do sexo feminino. Como j\u00e1 foi ensinado por um s\u00e1bio espiritual: \u201cA obedi\u00eancia \u00e9 o consentimento da raz\u00e3o, a resigna\u00e7\u00e3o \u00e9 o consentimento do cora\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 Para as pessoas experientes nesse terreno o perd\u00e3o \u00e9 capacidade de esquecer as coisas m\u00e1s que nos atingem, at\u00e9 que possamos entender o que realmente est\u00e1 acontecendo, bem como as raz\u00f5es de quem praticou esse mal. Quem n\u00e3o esquece o mal n\u00e3o consegue perdoar nem progredir. Muitas vezes as pessoas que nos fizeram mal mudam e n\u00f3s n\u00e3o mudamos, persistindo na id\u00e9ia \u00f3dio e vinga n\u00e7a. N\u00e3o podemos ficar\u00a0 est\u00e1ticos achando que o tempo congelou para satisfazer os nossos caprichos.\u00a0 Podemos ficar estacionados por algum tempo, em compasso de espera, mas sempre almejando e planejando alguma mudan\u00e7a no futuro.<\/p>\n<p><big><big>9. O Ser e o Tempo<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cMas de onde se origina ele? Por onde e para onde passa quando se mede? De onde se origina ele sen\u00e3o do futuro? Por onde caminha sen\u00e3o pelo presente? Para onde se dirige sen\u00e3o para o passado? Portanto, nasce naquilo que ainda n\u00e3o existe, atravessando aquilo que carece de dimens\u00e3o para ir para aquilo que j\u00e1 n\u00e3o existe\u201d \u2013 Santo Agostinho<\/div>\n<p>A Natureza\u00a0 possui como marca essencial os seus ritmos, que d\u00e3o vida aos fen\u00f4menos\u00a0 e significado para eventos. \u00c9 assim que as coisas acontecem, cada qual a seu modo e com suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias: na pulsa\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, nas esta\u00e7\u00f5es, per\u00edodos clim\u00e1ticos, nas mar\u00e9s, nos ventos, nas perturba\u00e7\u00f5es tel\u00faricas, fisiol\u00f3gicas e sociais, nos ciclos de reprodu\u00e7\u00e3o, migra\u00e7\u00f5es, etc. No aspecto humano, os ritmos tomam significados mais complexos , como os ciclos biol\u00f3gicos e ps\u00edquicos. Na maioria desses ritmos encontramos a presen\u00e7a inexor\u00e1vel e enigm\u00e1tica do tempo.<\/p>\n<p>Somente os seres humanos mais evolu\u00eddos possuem a faculdade da consci\u00eancia, isto a percep\u00e7\u00e3o de si mesmos e da realidade em que vivem. Isso acontece quando, atrav\u00e9s das intelig\u00eancias, superamos os instintos e passamos a agir na solu\u00e7\u00e3o de problemas fazendo escolhas. Sabemos que existimos e que somos parte de um sistema de vida social de muitas articula\u00e7\u00f5es, fazendo com que a nossa percep\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o sejam sempre em dois aspectos distintos: o individual, o nosso EU e a nossa personalidade; e o coletivo, que \u00e9 a nossa identidade social, na fam\u00edlia e na sociedade.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia \u00e9, portanto, um fen\u00f4meno hist\u00f3rico, pois \u00e9 a soma desse dois aspectos da percep\u00e7\u00e3o da realidade, o individual e o coletivo, e se amplia na medida em que o ser amadurece pelas experi\u00eancias. Ao fazer essa rela\u00e7\u00e3o de si mesmo com o mundo ao seu redor, o ser percebe o funcionamento das coisas e da sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e ps\u00edquica. Isso acontece atrav\u00e9s da percep\u00e7\u00e3o do outro e do tempo ou dura\u00e7\u00e3o das coisas. Tudo passa por um processo hist\u00f3rico, de causas e efeitos, e\u00a0 tem um tempo a ser equacionado, um in\u00edcio, um meio e um fim. Os animais s\u00f3 percebem o tempo atrav\u00e9s de coisas concretas, como os fen\u00f4menos f\u00edsicos naturais: clima, o dia e noite, as luas, as esta\u00e7\u00f5es do ano, etc. J\u00e1 o ser humano vai al\u00e9m disso e passa a observar o tempo de forma ab strata, matematicamente, vendo inclusive a possibilidade de interferir, n\u00e3o na dura\u00e7\u00e3o, mas na distribui\u00e7\u00e3o da sua utilidade, de acordo com a suas necessidades. Assim como h\u00e1 a possibilidade de intervir na Natureza, em fun\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de recursos, por exemplo, \u00e9 poss\u00edvel fazer o mesmo com o tempo, transformando o tempo integral em per\u00edodos espec\u00edficos fragmentados: tempo pessoal e tempo social : trabalho, repouso, lazer, obriga\u00e7\u00f5es sociais, voluntariado, etc. Tudo isso \u00e9 o tempo absoluto, o todo, e tamb\u00e9m o tempo relativo, em partes, dependendo de quem e como observa; \u00e9 ainda o tempo hist\u00f3rico, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o que fazemos entre o presente, o passado e o futuro. O inverso de tudo isso \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o natural dos animais irracionais, e tamb\u00e9m a recusa que muitas vezes fazemos em tomar ci\u00eancia das coisas que est\u00e3o acontecendo. Quando fazemos essa escolha de ignorar os fatos, estamos provocando voluntariamente a nossa aliena\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 de certa forma uma viola\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Temos a liberdade de agir dessa forma, mas pagamos um alto pre\u00e7o por essas decis\u00f5es, pois toda a\u00e7\u00e3o tem uma rea\u00e7\u00e3o correspondente, em todos os planos da vida, incluindo na vida ps\u00edquica. Isso significa que tudo \u00e9 poss\u00edvel, mas tudo tem uma conseq\u00fc\u00eancia inevit\u00e1vel. \u00c9 por isso que a aliena\u00e7\u00e3o deliberada \u00e9 uma viol\u00eancia, uma esp\u00e9cie de suic\u00eddio da consci\u00eancia, um crime contra a Natureza e a Cria\u00e7\u00e3o Divina. Essa \u00e9 a causa dos sofrimentos humanos, quase sempre gerados pelas tentativas v\u00e3s de burlarmos a realidade ou fugir de n\u00f3s mesmos. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia ou por \u201cimperfei\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria\u201d que vemos\u00a0 ao nosso redor milhares de seres alienados mentalmente, loucos e impedidos de liberdade de a\u00e7\u00e3o e racioc\u00ednio. Geralmente, nesses casos, os acidentes da Natureza s\u00e3o precedidos de incidentes provocados pela imaturidade humana.<\/p>\n<p>Quase sempre o despertar da consci\u00eancia \u00e9 doloroso, sendo raros os casos em que o ser o faz espontaneamente. Isso tamb\u00e9m nos leva a refletir por que essas primeiras li\u00e7\u00f5es ocorrem em mundos imperfeitos e geralmente sob circunst\u00e2ncias contradit\u00f3rias. A transi\u00e7\u00e3o entre o Instinto e a Consci\u00eancia \u00e9 que marca essas experi\u00eancias recheadas de tens\u00f5es e sofrimentos. Temos necessidades fundamentais[12] e que precisam ser satisfeitas em nossos campos de percep\u00e7\u00e3o (psicol\u00f3gicas) e de atua\u00e7\u00e3o (biol\u00f3gicas e sociais): aliment a\u00e7\u00e3o, sono, sexo, contato f\u00edsico, amor, aceita\u00e7\u00e3o, afei\u00e7\u00e3o, independ\u00eancia, status, realiza\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio, reconhecimento social. Tais necessidades geram uma tens\u00e3o permanente, causada pela busca de al\u00edvio e finalmente a realiza\u00e7\u00e3o. Se o al\u00edvio n\u00e3o for poss\u00edvel, nos frustramos. Exatamente por termos a liberdade de escolher, e tamb\u00e9m de abusar da escolha, nas circunst\u00e2ncias em nos que sentimos amea\u00e7ados na satisfa\u00e7\u00e3o das nossas necessidades, lan\u00e7amos m\u00e3o do recurso das fugas e partimos para os ataques em diversos graus de comprometimento, desde os pequenos deslizes at\u00e9 os erros mais graves e de conseq\u00fc\u00eancias dr\u00e1sticas. A fuga \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma regra, mesmo porque muitas fugas s\u00e3o atitudes que agravam os efeitos dos erros cometidos anteriormente. Em muitas ocasi\u00f5es as fugas funcionam como alternativas tempor\u00e1rias, at\u00e9 que tenhamos maturidade para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o. Mas elas n\u00e3o podem persistir como situa\u00e7\u00e3o permanente, pois isso afeta o processo natural de evolu\u00e7\u00e3o do ser. Uma analogia bem simples\u00a0 para entender isso s\u00e3o os objetos que s\u00e3o introduzidos por acidente ou s\u00e3o implantados num corpo com a inten\u00e7\u00e3o de corrigir uma falha org\u00e2nica. \u00c9 uma alternativa poss\u00edvel, mas, por serem estranhos ao conjunto, podem naturalmente ser rejeitados e repelidos. Assim tamb\u00e9m s\u00e3o as fugas que, numa determinada altura, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais aceitas, pois atingiram o limite imposto pela Evolu\u00e7\u00e3o. Se houver persist\u00eancia, o ser \u00e9 envolvido em situa\u00e7\u00f5es fora do seu controle, caracterizando at\u00e9 um certo determinismo, for\u00e7ando-o a atuar de forma consciente diante dos problemas.\u00a0 Isto \u00e9 a expia\u00e7\u00e3o, o que vulgarmente se chama\u00a0 de \u201carmadilhas do destino\u201d.<\/p>\n<p>Mas o despertar da consci\u00eancia ocorre somente quando come\u00e7amos a dialogar com o nosso \u201cEu\u201d. Esse di\u00e1logo \u00e9 como entrar pela primeira vez, sozinho, numa caverna escura. Para vencer o medo da escurid\u00e3o temos que adquirir confian\u00e7a em n\u00f3s mesmos e procurar um \u201cEU\u201d at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido que vivia apartado da nossa realidade. Iniciamos o di\u00e1logo com perguntas de auto-reconhecimento &#8211; Quem sou Eu? De onde vim? Para onde vou? \u2013 e que s\u00e3o as chaves que abrem as primeiras portas da consci\u00eancia, as primeiras que conseguimos visualizar, pois muitas outras ainda permanecer\u00e3o ocultas e fora da nossa percep\u00e7\u00e3o comum. As demais portas somente ser\u00e3o abertas na medida em que formos compreendendo algumas verdades. A Verdade \u00e9 uma s\u00f3, integral, mas para os seres humanos ela ainda \u00e9 parcial, fragmentada em pequenas verdades. Deu s\u00a0 \u00e9 uma Verdade integral da qual temos apenas no\u00e7\u00f5es e intui\u00e7\u00f5es, uma realidade que ainda n\u00e3o temos capacidade de compreender em sua totalidade. Nossa rela\u00e7\u00e3o com a Natureza e com o Universo \u00e9 semelhante: s\u00f3 entendemos na medida que a informa\u00e7\u00f5es encontram um eco, o momento prop\u00edcio para serem reveladas, como se fosse um parto de compreens\u00e3o. O momento prop\u00edcio \u00e9 a nossa maturidade intelectual e emocional. Ent\u00e3o, a busca de Verdade\u00a0 \u00e9 uma forma de desenvolvimento da consci\u00eancia, que acontece quando entramos num processo de conflito entre o EU exterior e o EU interior. Ora estamos voltados para as coisas do mundo interior, ora para as coisas do exterior, numa luta dial\u00e9tica constante na qual, em alguns momentos, encontramos pontos de equil\u00edbrio. Nesses pontos \u00e9 que ocorrem as revela\u00e7\u00f5es. As revela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o a causa das mudan\u00e7as que se operam em n\u00f3s, mas alavancas que concretizam uma transforma \u00e7\u00e3o que j\u00e1 havia sido iniciada antes. Esse \u00e9 o motivo pelo qual, muitas pessoas, mesmo tendo contato direto com os fen\u00f4menos, n\u00e3o s\u00e3o afetadas pelas revela\u00e7\u00f5es. S\u00e3o frutos ainda verdes e insens\u00edveis. Outros j\u00e1 um pouco mais interessados, mas ainda imaturos, quando sofrem um amadurecimento for\u00e7ado, se mostram aparentemente transformados e preparados para satisfazer o apetite da Verdade, mas, por dentro, conservam-se sem o sabor essencial. Mas revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre somente no campo religioso; ela \u00e9, antes de tudo, filos\u00f3fica e tamb\u00e9m cient\u00edfica.\u00a0 A revela\u00e7\u00e3o m\u00edstica que transformou o jovem o pr\u00edncipe Sidarta Gautama num velho Budha \u00e9 a mesma que transformou o jovem Newton num \u00edcone da F\u00edsica moderna. Einstein deixou um testemunho escrito de que sua teoria da relatividade e compreens\u00e3o da mec\u00e2nica do Universo foi produto de um sonho, sonho que segundo ele foi t\u00e3o real quanto estar participando de um filme simultaneamente como ator e espectador .<\/p>\n<p><big><big>10. O Bem e o Mal<\/big><\/big><\/p>\n<p>\u201cO mal n\u00e3o merece coment\u00e1rio em tempo algum\u201d . Esse conhecido tema de reflex\u00e3o \u00e9 repleto de verdade, mas quando\u00a0 repercute em nosso \u00edntimo geralmente encontra pouco eco, pois a nossa realidade cotidiana ainda \u00e9 muito influenciada pela negatividade. O mal existe de forma intensa em nosso meio, predomina em nosso psiquismo e conseq\u00fcentemente retorna para o ambiente em que vivemos. O c\u00edrculo \u00e9 vicioso.\u00a0 A causa principal dessa tend\u00eancia \u00e9 a ignor\u00e2ncia das leis universais e o materialismo, ou seja, a nega\u00e7\u00e3o imortalidade e da vida espiritual futura. Esse bloqueio do ponto de vista espiritual impede o entendimento da diferen\u00e7a entre existir e viver e restringe a perspectiva humana aos seus limites objetivos e biol\u00f3gicos. A nega\u00e7\u00e3o da viv\u00eancia psicol\u00f3gica e da subjetividade espiritual enfatiza o mal na sua experi\u00eancia, dando a impress\u00e3o inversa de que o Bem \u00e9 uma utopia, muitas vezes fora de cogita\u00e7\u00e3o. \u00c9 desse desvio do ponto de vista que surgem conceitos como \u201cos fins justificam os meios\u201d.\u00a0 Somente a maturidade espiritual, adquirida pelas m\u00faltiplas exist\u00eancias, mesmo que o indiv\u00edduo n\u00e3o acredite nessa possibilidade de renascimento carnal, \u00e9 que desperta o senso de justi\u00e7a e a substitui\u00e7\u00e3o gradual do mal pelo Bem. Essa substitui\u00e7\u00e3o acontece silenciosamente nos bastidores da consci\u00eancia individual, nas in\u00fameras experi\u00eancias, simples ou marcantes, negativas ou positivas, nas quais o ser adquire novas formas de pensamento, de sentimentos e de atitudes. O livre arb\u00edtrio passa a ser utilizado com maior grau de responsabilidade e as pessoas come\u00e7am a perceber que trazem consigo n\u00e3o somente o instinto de sobreviv\u00eanc ia biol\u00f3gica, mas um algo mais, uma equa\u00e7\u00e3o existencial para ser solucionada num curto espa\u00e7o de tempo. Uma exist\u00eancia de apenas 70 anos deixa de ser uma simples fonte de satisfa\u00e7\u00e3o de prazeres da carne e dos v\u00edcios mentais e torna-se um ve\u00edculo de realiza\u00e7\u00f5es para despertar de novos desafios \u00edntimos. Uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o passa a ocupar o mundo \u00edntimo dessas pessoas e suas cogita\u00e7\u00f5es sobre o tempo e as conquistas mudam totalmente de rumo, caso elas decidam realmente mergulhar em i pr\u00f3prias. Do contr\u00e1rio, frustram-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que fazer para evitar essa predisposi\u00e7\u00e3o que temos em valorizar mais as coisas negativas do que as positivas? Como mudar essa cren\u00e7a de que o mal \u00e9 sempre mais forte do que o bem? Estar\u00edamos sendo incoerentes e hip\u00f3critas, num mundo hostil como a Terra, ao negarmos o mal e cultivarmos poeticamente o bem?<\/p>\n<p>\u00c9 senso comum, entre os espiritualistas, que nosso planeta\u00a0 \u00e9 um t\u00edpico mundo de expia\u00e7\u00f5es e provas, onde predomina o mal. Estamos numa fase de transi\u00e7\u00e3o para uma categoria supero, de regenera\u00e7\u00e3o, ou seja, o mal ainda existir\u00e1 por algum tempo, mas n\u00e3o ser\u00e1 mais predominante.\u00a0\u00a0 Os renascimentos traum\u00e1ticos e as exist\u00eancias tumultuadas ainda ser\u00e3o comuns, mas diminuir\u00e3o na medida que haja uma expans\u00e3o do conhecimento superior e da consci\u00eancia espiritualizada. O mal ainda predomina.\u00a0 Tudo bem! Mas tamb\u00e9m existe a possibilidade de se praticar o bem. Ali\u00e1s, este \u00e9 o real significado da categoria do nosso planeta, isto \u00e9, um campo de provas, de experi\u00eancias, de tentativas, portanto de in\u00fameras possibilidade de se realizar o Bem. Fazer o bem em mundos superiores \u00e9 f\u00e1cil e at\u00e9 redundante; pode at\u00e9 ter valor como aprendizagem, mas n\u00e3o mais como fator evolutivo essencial. Nesses lugares se faz o bem por espontaneidade e n\u00e3o por necessidade de recuperar o tempo perdido ou pelo resgate de faltas. Essa possibilidade de fazer o bem num campo onde predomina o mal \u00e9 uma prerrogativa do livre-arb\u00edtrio; ele \u00e9 o recurso natural no qual o Ser realiza escolhas e toma decis\u00f5es nas situa\u00e7\u00f5es de prova, quase sempre contradit\u00f3rias e confusas. Isso faz parte do jogo evolutivo. Como dizia o fil\u00f3sofo est\u00f3ico Epicteto, ningu\u00e9m progride sem demonstrar equil\u00edbrio diante das coisas contradit\u00f3rias. \u00c9 nas situa\u00e7\u00f5es confusas e desesperadoras que a mente humana adquire experi\u00eancia real, supera limites, fica mais inteligente e finalmente se transforma no reduto de poderosas for\u00e7as morais.<\/p>\n<p>Portanto, no planeta Terra, o Bem n\u00e3o \u00e9 apenas poesia ou fic\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 uma realidade que est\u00e1 ligada \u00e0s for\u00e7as naturais de transforma\u00e7\u00e3o que impulsionam os seres e as coisas rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o mal \u00e9 uma possibilidade moment\u00e2nea de estagna\u00e7\u00e3o, pelas for\u00e7as retr\u00f3gradas, que trabalham em sentido contr\u00e1rio, mas sempre funcionando como suporte secund\u00e1rio de leis superiores. Por isso se diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Sendo uma for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1tica do Bem gera mudan\u00e7as em nosso mundo interior e no ambiente em que vivemos. Quando n\u00e3o conseguimos essa mudan\u00e7a de forma imediata, ainda assim entramos em processo \u00edntimo de mudan\u00e7a, de amplia\u00e7\u00e3o do grau de consci\u00eancia, mesmo porque o mal sempre nos causa uma inc\u00f4moda din\u00e2mica de insatisfa\u00e7\u00e3o e infelicidade. Mesmo aqueles seres maus e intransigentes s\u00e3o marcados p or essa insatisfa\u00e7\u00e3o, feridos pelo espinho constante da consci\u00eancia. Esse tamb\u00e9m \u00e9 o motivo prov\u00e1vel pelo qual muitas pessoas boas, inteligentes, cheias de vida e de futuro promissor, morrem ainda jovens e repentinamente. Muitos desses casos s\u00e3o pessoas que passam por experi\u00eancias \u00edntimas impercept\u00edveis aos olhos alheios e que atingem um grau de transforma\u00e7\u00e3o suficiente numa exist\u00eancia, n\u00e3o necessitando mais conviver em ambientes atrasados e mal\u00e9ficos, a n\u00e3o ser que queiram, por quest\u00f5es pessoais ou de aux\u00edlio ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Estando infelizes e insatisfeitos, geralmente procuramos uma mudan\u00e7a que possa alterar esse estado desagrad\u00e1vel e que nos causa sentimentos negativos. N\u00e3o estando conscientes dessa situa\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a \u00edntima, cedemos aos impulsos inferiores: pensamentos negativos, coment\u00e1rios maldosos, inveja, auto-destrui\u00e7\u00e3o, etc, com se fosse um prazer emocional que nos faz suportar as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Mas \u00e9 um prazer ego\u00edsta e solit\u00e1rio, que engana e agrava os sentimentos e emo\u00e7\u00f5es e s\u00f3 faz aumentar a insatisfa\u00e7\u00e3o e sofrimento por estarmos numa condi\u00e7\u00e3o espiritual inferior. Da\u00ed vem o pessimismo, a descren\u00e7a no Bem e a supervaloriza\u00e7\u00e3o do mal. Na maioria das vezes s\u00f3 conseguimos reverter positivamente essa situa\u00e7\u00e3o quando sofremos e derramamos l\u00e1grimas de reflex\u00e3o. Afirmam os s\u00e1bios que \u00e9 preciso saber chorar e tirar proveito reflexivo das l\u00e1g rimas. Assim evolu\u00edmos.\u00a0 Do contr\u00e1rio, o que sobra depois delas \u00e9 o desencanto, a revolta, a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, fracasso e a estagna\u00e7\u00e3o. Aqui tamb\u00e9m, geralmente, se forma um c\u00edrculo vicioso.<\/p>\n<p><big><big>11. A Vida e as Exist\u00eancias<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cAqui repousa, entregue aos vermes, o corpo de Benjamin\u00a0 Franklin, impressor, como a capa de um velho livro cujas folhas foram arrancadas, e cujo t\u00edtulo e doura\u00e7\u00e3o, apagados. Mas por isso o obra n\u00e3o ficar\u00e1 perdida, pois reaparecer\u00e1, como ele acreditava, em nova e melhor edi\u00e7\u00e3o, revista e corrigida pelo autor\u201d.\u00a0 Epit\u00e1fio gravado no t\u00famulo, escrito pelo pr\u00f3prio Franklin.<\/div>\n<p>A Humanidade\u00a0 vem se transformando desde os prim\u00f3rdios da pr\u00e9-Hist\u00f3ria, quando fomos adquirindo, gradualmente, os caracteres que nos diferencia das ra\u00e7as primatas que deram origem \u00e0 esp\u00e9cie humana em nosso planeta.\u00a0 E continua em franca transforma\u00e7\u00e3o.\u00a0 Estamos vivendo uma \u00e9poca de crises e\u00a0 mudan\u00e7as r\u00e1pidas em todos os setores sociais.\u00a0 Nunca a Hist\u00f3ria registrou tantas descobertas tecnol\u00f3gicas, tantas modifica\u00e7\u00f5es de cren\u00e7as e h\u00e1bitos, tudo acontecendo em per\u00edodos de tempo t\u00e3o curtos, como as que vem ocorrendo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. O S\u00e9culo XX\u00a0 passou rapidamente sob os nossos olhares e tal foi a velocidade das mudan\u00e7as que nele ocorreram que ainda n\u00e3o demos conta de que\u00a0 a maioria n\u00f3s nasceu e viveu no intervalo de tempo secular mais curto j\u00e1 ocorrido na cultura ocidental. E n\u00e3o foi apenas uma simples impress\u00e3o de quem viveu num momento de transi\u00e7\u00e3o, como nos s\u00e9culos anteriores. Na verdade, todos sentimos que o tempo veio se acelerando numa velocidade espiral, provocando o desencadeamento de uma sucess\u00e3o de r\u00e1pidos acontecimentos. A sensa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 a de que nossos corpos foram envelhecendo, enquanto a consci\u00eancia permanecia est\u00e1tica e pasma, observando como as coisas surgiam e desapareciam.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o choque existencial de todos aqueles que cultuam a id\u00e9ia da Imortalidade e sofrem as imposi\u00e7\u00f5es do tempo biol\u00f3gico, que se esvai indiferente pelas veredas dos dias e das horas aparentemente perdidas. Mas o que realmente vem mudando, a Vida ou as nossas exist\u00eancias?\u00a0 Ao que tudo indica, o ser humano ainda n\u00e3o adquiriu\u00a0 maturidade suficiente para compreender a Vida e por isso treina essa compreens\u00e3o atrav\u00e9s das m\u00faltiplas exist\u00eancias. Quando observamos a Vida o fazemos sempre de maneira deformada, fragmentada pelas limita\u00e7\u00f5es dos nossos cinco sentidos. A Vida e a Verdade s\u00e3o coisas id\u00eanticas, mas ainda n\u00e3o conseguimos\u00a0 superar a observa\u00e7\u00e3o dos aspectos parciais dos nossos interesses particulare s. Para a maioria dos seres humanos a Vida n\u00e3o passa de uma diversidade de\u00a0 pontos de vista e estamos bem distante daquilo que se chama de realidade total e integral. Para compreendermos a Verdade total usamos a ferramenta do ponto de vista; para a Vida, usamos as experi\u00eancias existenciais, sejam de curto prazo, atrav\u00e9s de fatos cotidianos, sejam atrav\u00e9s de prazos mais longos como as exist\u00eancias programadas. As mudan\u00e7as de ponto de vista ser\u00e3o constantes, at\u00e9 que cesse a relatividade da nossa compreens\u00e3o das coisas; as exist\u00eancias tamb\u00e9m se sucedem at\u00e9 que n\u00e3o haja mais necessidade de repetir experi\u00eancias pelas quais j\u00e1 assimilamos sua ess\u00eancia.\u00a0 Todo mundo tem um problema existencial de refer\u00eancia principal para ser equacionado e cuja chave de resolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser aplicada numa experi\u00eancia real, chocante, impactante. Quando passamos por experi\u00eancias desse tipo ficamos profundamente traumatizado s, tal \u00e9 a carga de realidade que ela provoca em nosso mundo \u00edntimo. Da\u00ed d\u00e1 para entender porque ainda n\u00e3o temos maturidade intelectual e emocional para suportar toda a carga de realismo que caracteriza a Vida e a Verdade. Se em pequenas situa\u00e7\u00f5es realistas sofremos abalos dolorosos, imagine se f\u00f4ssemos mergulhados integralmente na Realidade Total. Seria um desastre colossal, talvez uma segunda morte.<\/p>\n<p>Uma outra id\u00e9ia que ajuda a compreender melhor essa diferen\u00e7a entre \u201cexistir e viver\u201d \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o que temos de felicidade. Dos momentos felizes que experimentamos nas exist\u00eancias tiramos nossos pontos de vista sobre a felicidade. Se pud\u00e9ssemos mergulhar na felicidade integral tamb\u00e9m sofrer\u00edamos um impacto inimagin\u00e1vel, uma situa\u00e7\u00e3o de \u00eaxtase que para n\u00f3s seria traum\u00e1tico e ao mesmo tempo desolador. Se f\u00f4ssemos lan\u00e7ados num mundo[13] feliz nos sentir\u00edamos como peixes fora da \u00e1gua t entando respirar num ambiente que os nossos sentidos n\u00e3o conseguem assimilar.<\/p>\n<p>A Verdade, a Vida e a Felicidade, s\u00e3o estados de esp\u00edrito que exigem uma grande soma de experi\u00eancias em todos os sentidos, sendo necess\u00e1rio que haja muitos pr\u00e9-requisitos para que as coisas sejam integralmente compreendidas. \u00c9 imposs\u00edvel atingirmos a Verdade se possu\u00edmos alguma defici\u00eancia de conhecimento racional e emocional; \u00e9 imposs\u00edvel atingir a Felicidade se ainda carregamos defici\u00eancias nos sentimentos e emo\u00e7\u00f5es; imposs\u00edvel, portanto, compreender a Vida se n\u00e3o conseguimos assimilar a l\u00f3gica e a funcionalidade das pequenas engrenagens e tramas\u00a0 das nossas exist\u00eancias. Como compreender a Vida se n\u00e3o compreendemos que a morte \u00e9 uma transforma\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o assimilamos o que \u00e9 a Imortalidade?\u00a0 Como compreender a Verdade se ainda n\u00e3o nos sentim os \u00e0 vontade para encarar situa\u00e7\u00f5es verdadeiras que nos deixam atordoados, sobretudo \u00e0quelas que se referem a n\u00f3s mesmos? Como compreender a Felicidade se ainda temos dificuldade de aceitar a felicidade alheia e de partilhar a nossa com os outros?<\/p>\n<p>Realmente, a Vida \u00e9 \u00fanica e imut\u00e1vel; existe desde sempre, como Deus. O que muda \u00e9 o viver e o existir, atributo dado pelo Criador \u00e0s suas criaturas para que um dia elas se reintegrem definitivamente na harmonia do Universo e da Cria\u00e7\u00e3o.\u00a0 Parafraseando Edgard Armond, um s\u00e1bio instrutor espiritual contempor\u00e2neo, \u201cN\u00e3o vivemos para solucionar os problemas do Universo, porque estes j\u00e1 est\u00e3o solucionados desde sempre por Deus. Nosso problema \u00e9 a quest\u00e3o evolutiva, o desenvolvimento do eu individual.\u201d<\/p>\n<p>Sendo uma s\u00f3 e sem interrup\u00e7\u00f5es, a Vida funciona sem as limita\u00e7\u00f5es do tempo, num plano absoluto da Cria\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o Eterno, o que sempre foi e sempre ser\u00e1. \u00c9 o mundo das causas, no plano Absoluto ou Divino da Cria\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as exist\u00eancias, como as criaturas, s\u00e3o m\u00faltiplas e por isso sua experi\u00eancias s\u00e3o constantemente delimitadas e reguladas pelo tempo, num plano relativo da Cria\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o ef\u00eamero, o come\u00e7o, o meio e o fim; nascimento, vida e morte. \u00c9 o mundo dos efeitos, no plano relativo da manifesta\u00e7\u00e3o. Seja nos mundos espirituais ou nos mundos materiais, cuja pluralidade c\u00f3smica \u00e9 vis\u00edvel aos olhos nus, estamos sempre existindo, nascendo, morrendo e renascendo para a Vida Eterna, num constante movimento de descobertas e realiza\u00e7\u00f5es. Portanto, n\u00e3o \u00e9 somente o corpo que morre\u00a0 e volta na condi\u00e7\u00e3o de energia para o fluido universal do qual foi extra\u00eddo. O Ser, de certa forma, tamb\u00e9m sofre a transforma\u00e7\u00e3o da morte e renasce na sua pr\u00f3pria natureza interior, para que aprenda a reconhecer em si a pr\u00f3prio a Imortalidade da qual \u00e9 dotado. Por isso renascemos da carne e do Esp\u00edrito, como disse Jesus no seu misterioso e inesquec\u00edvel encontro como sacerdote fariseu Nicodemos.<\/p>\n<p>A principal marca existencial da esp\u00e9cie humana sempre foi a busca da auto-realiza\u00e7\u00e3o, de solu\u00e7\u00f5es para as nossas constantes crises vivenciais. Somos essencialmente insatisfeitos porque ainda estamos em processo de forma\u00e7\u00e3o espiritual. Ainda n\u00e3o temos consci\u00eancia plena do significado da Vida e das nossas exist\u00eancias. A maioria dos seres humanos ainda caminha em torno de um abismo, o nosso Ego, que nos impede de saltar dos limites das nossas exist\u00eancias para o terreno ilimitado da Vida. O abismo \u00e9 tremendamente assustador e sua escurid\u00e3o representa para uns o infinito, para outros, simplesmente, o nada e o fim.\u00a0 Por isso permanecemos divididos entre o ser e o n\u00e3o ser, uma d\u00favida tamb\u00e9m gerada pelo Ego e que sempre nos convida a recuar para o conforto do cord\u00e3o umbilical. Temos medo de p erder a individualidade que adquirimos recentemente, semelhante a uma crian\u00e7a que se apega egoisticamente a um brinquedo. Quando vislumbramos por alguns instantes as possibilidades do Infinito e do Eterno[14], logo perguntamos se vamos continuar sendo aquilo que somos hoje. Assim como tudo que \u00e9 material se dissolve no oceano universal de \u00e1tomos, el\u00e9trons e neutrons, por acaso os seres tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e3o dissolvidos no oceano da consci\u00eancia divina?\u00a0 Diante da d\u00favida do ser e do n\u00e3o ser, de dar um passo para o incerto, de corrermos o risco, quase sempre nos voltamos para o aspecto mais instintivo do nosso \u201cEu\u201d\u00a0 e ali permanecemos isolados, numa esp\u00e9cie de autismo espiritual. Passar da exist\u00eancia para a Vida \u00e9 saltar por cima desse abismo com a total confian\u00e7a de que vamos encontrar aquilo que procuramos; \u00e9 correr o risco de saltar no escuro. Nesse momento ningu\u00e9m pode fazer nada por n\u00f3s, pois esta \u00e9 uma experi\u00eancia exclusiva que coloca em prova a nossa individualidade diante da Cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse salto no escuro, do tudo ou nada, que descobriremos se Deus existe ou n\u00e3o existe, se somos ou n\u00e3o somos. S\u00e3o as eternas escolhas e conseq\u00fcentes decis\u00f5es que sempre temos de tomar por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A nossa trajet\u00f3ria tem sido tamb\u00e9m a da transforma\u00e7\u00e3o individual e\u00a0 adapta\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e no tempo, impulsionados por uma Lei maior que nos direciona ao encontro do Criador de nossas vidas. Esse percurso existencial, de auto-reconhecimento, se inicia nos Reinos Naturais dos planos densos da mat\u00e9ria e continua nos planos das energias sutis, em condi\u00e7\u00f5es que ainda desconhecemos, mas que deduzimos ser um efeito espiritual das experi\u00eancias que realizamos hoje e no passado.\u00a0 Nessa longa jornada, a esp\u00e9cie humana se posiciona fisiologicamente como o meio, uma transi\u00e7\u00e3o entre a condi\u00e7\u00e3o animal e o Esp\u00edrito, que \u00e9 o fim.\u00a0 O g\u00eanero humano seria ent\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o mutante entre os planos material e o espiritu al, evoluindo gradualmente em v\u00e1rias etapas de aprendizagem, desde os primeiros lampejos da raz\u00e3o at\u00e9 o dom\u00ednio completo das suas mais sofisticadas potencialidades. Em cada uma dessas fases desenvolvemos um modelo humano ideal a ser atingido, mas continuamos essencialmente incompletos e insatisfeitos, sempre \u00e0 procura da plenitude da vida e da felicidade.\u00a0 Este percurso de incont\u00e1veis mil\u00eanios representa o admir\u00e1vel processo de verticaliza\u00e7\u00e3o do corpo existencial (o f\u00edsico e o espiritual), que \u00e9 a consci\u00eancia, uma transi\u00e7\u00e3o das nossas experi\u00eancias no mundo exterior dos reinos elementais da mat\u00e9ria densa, para o mundo interior do Reino de Deus, do Esp\u00edrito. Nossa evolu\u00e7\u00e3o espiritual vem acontecendo de maneira simult\u00e2nea \u00e0 esp\u00e9cie org\u00e2nica humana que nos abriga, at\u00e9 que ocorra a sua futura supera\u00e7\u00e3o. Assim como superamos os nossos ancestrais s\u00edmios, fomos tamb\u00e9m precedidos por in\u00fameras experi\u00eancias org\u00e2nicas, permitidas pela combina\u00e7\u00e3o s eten\u00e1ria dos quatro elementos (terra, ar, \u00e1gua e fogo) com os tr\u00eas reinos\u00a0 (vegetal, mineral, e animal).<\/p>\n<p>Semelhante ao processo de gesta\u00e7\u00e3o humana, de apenas alguns meses, em nossa gesta\u00e7\u00e3o an\u00edmica, de milh\u00f5es de anos, dormimos no Reino Mineral, sonhamos no Reino Vegetal e finalmente acordamos no Reino Animal. O despertar desse longo sono acontece exatamente quando nos tornamos humanos, o \u00faltimo elo que nos liga ao reino materiais. Isso vem acontecendo atrav\u00e9s de sucessivas crises, causando a transforma\u00e7\u00e3o,\u00a0 muitas vezes violenta, do nosso universo interior e que nos planos f\u00edsicos se manifestam atrav\u00e9s de dores e choques das mais diversas formas de vicissitudes.<\/p>\n<p>Ao adquirirmos os cinco sentidos b\u00e1sicos do mundo material (tato, olfato, paladar, vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o) sabemos que ainda nos falta algo mais, o sexto e s\u00e9timo sentidos, que \u00e9 o elo de liga\u00e7\u00e3o com o mundo espiritual.\u00a0 Simultaneamente, ao desenvolvermos as cinco intelig\u00eancias b\u00e1sicas (cinest\u00e9sico-corporal, espacial, l\u00f3gico-matem\u00e1tica, verbal e musical), para solucionar problemas do mundo exterior, tamb\u00e9m sabemos que nos falta um complemento que integra todas elas e que nos torna mais aptos a compreender e solucionar os problemas do mundo interior. Da\u00ed a nossa busca atual pelo aperfei\u00e7oamento das duas intelig\u00eancias pessoais: a Interpessoal, que substitui a competi\u00e7\u00e3o e estimula a coopera\u00e7\u00e3o e a harmonia com os outros seres; e a Intrapessoal, que elimina as rea\u00e7\u00f5es defensivas da luta da persona lidade com a individualidade, promovendo a harmonia do \u201cEu real\u201d com o \u201cEu ideal\u201d.\u00a0\u00a0 Neste mesmo processo, as tr\u00eas viv\u00eancias b\u00e1sicas da nossa mente ( pensamento, a\u00e7\u00e3o e sentimento), antes isoladas e em conflito entre si , agora se integram no seu funcionamento de experi\u00eancias pr\u00e1ticas com as experi\u00eancias emocionais e intelectuais.<\/p>\n<p>Para atingirmos esse grau de avan\u00e7o e complexidade existencial tivemos que passar por in\u00fameras provas e reprovas que s\u00f3 a pluralidade das exist\u00eancias pode explicar. Foram mil\u00eanios de luta para superarmos in\u00fameros obst\u00e1culos e acumularmos uma grande soma de conhecimentos.\u00a0 Que outro sentido teria ent\u00e3o a recomenda\u00e7\u00e3o do \u201cSede perfeitos\u201d ?\u00a0 Poder\u00edamos atingir a perfei\u00e7\u00e3o existindo uma s\u00f3 vez?<\/p>\n<p><big>O Teatro do Ir e Vir<\/big><\/p>\n<p>Numa vis\u00e3o mais ampla da Vida, podemos definir a trajet\u00f3ria humana como a caminhada do Homem em busca de si mesmo, num processo de aprendizagem para reverter o olhar direcionado para o mundo exterior, das apar\u00eancias, e redirecion\u00e1-lo para o mundo interior, real,\u00a0 do \u201cConhece-te a ti mesmo\u201d. Olhar para si mesmo pode parecer apenas uma f\u00f3rmula filos\u00f3fica, mas n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples e mec\u00e2nica.\u00a0 Para n\u00f3s que ainda estamos mergulhados na inf\u00e2ncia espiritual, o mundo interno \u00e9 um universo desconhecido e extremamente amea\u00e7ador. Trata-se de um territ\u00f3rio de aridez subjetiva onde enxergamos somente os inc\u00f4modos problemas existenciais, que ter\u00e3o que ser solucionados, mais cedo ou mais tarde: os medos, as d\u00favidas, as incertezas, os traumas.\u00a0 Tudo aquilo do qual sempre estamos fugindo ou sabemos que certamente teremos de enfrentar um dia, fica escondido em nosso mundo interno a espera de\u00a0 atitudes e de decis\u00f5es. Para suportar essa situa\u00e7\u00e3o de impasse, quase sempre usamos m\u00e1scaras e simula\u00e7\u00f5es que nos protegem das situa\u00e7\u00f5es constrangedoras que geralmente revelam o que somos na realidade. Da\u00ed o motivo pelo qual quase sempre estamos com os interesses voltados para o mundo exterior, dos fen\u00f4menos e das sensa\u00e7\u00f5es, que \u00e9 o palco da nossa atua\u00e7\u00e3o parcial, portanto teatral da Vida. Se esse interesse pelo mundo exterior \u00e9 o nosso v\u00edcio, a nossa doen\u00e7a existencial, ele tamb\u00e9m \u00e9 a nossa possibilidade de cura. \u00c9 do veneno que se extrai o seu ant\u00eddoto. \u00c9 no mundo exterior que nos iludimos com as m\u00e1scaras, mas tamb\u00e9m podemos interpretar com seriedade os mais variados pap\u00e9is, treinando para a realidade total que ainda n\u00e3o temos coragem de enfren tar. Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o da Natureza, a qual n\u00e3o se pode enganar por muito tempo.\u00a0 Nas nossas farsantes encena\u00e7\u00f5es fugimos aqui, cortamos caminho ali, mas acol\u00e1 ela nos cerca e cobra o que lhe \u00e9 de direito.\u00a0 Cada exist\u00eancia \u00e9 um auto-espet\u00e1culo no qual encarnamos um personagem que traz sempre na sua bagagem o conjunto de provas a que deve ser submetido; em cada ato, o personagem que escolhemos \u00e9 testado no campo das compet\u00eancias, geralmente motivado por algum dano factual, sofrido numa circunst\u00e2ncia aparentemente casual. O dono \u00e9 a pe\u00e7a fundamental para que ingressemos da trama na qual estaremos inevitavelmente envolvidos; \u00e9 a gota d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que, no enredo central das nossas exist\u00eancias, manifesta-se como caracter\u00edstica marcante das nossas hist\u00f3rias pessoais a Lei da Polaridade. Ela \u00e9 o principal agente regulador do equil\u00edbrio da Vida e que, em nosso caso, d\u00e1 o tom no qual teremos que nos harmonizar na prova existencial: a riqueza ou a pobreza, poder ou submiss\u00e3o, destaque ou o anonimato, sa\u00fade ou doen\u00e7a, alegria e tristeza, medo e coragem, amor e \u00f3dio, din\u00e2mica ou t\u00e9dio. Tudo isto comp\u00f5e o interessante e progressivo jogo de circunst\u00e2ncias entre a realiza\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o.\u00a0 Nesse jogo natural da transforma\u00e7\u00e3o dolorosa dos pontos fracos em pontos fortes, no qual atualmente entramos pela livre escolha, existe um limite de mem\u00f3ria, imp osto pelo esquecimento provis\u00f3rio.\u00a0 A consci\u00eancia da mem\u00f3ria objetiva \u00e9 suspensa para a realiza\u00e7\u00e3o do teste de atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi por acaso que os gregos associaram essas realidades com a arte teatral e \u00e0 sua riqu\u00edssima mitologia. Os te\u00f3ricos da literatura tamb\u00e9m nunca deixaram de observar em seus estudos como os dramaturgos e comediantes combinam os elementos de suas tramas estabelecem o enredo de suas obras. Antes de entrarmos em cena escolhemos as provas a que seremos submetidos, por\u00e9m somos avisados de que, ao adentrarmos no palco, n\u00e3o mais lembraremos objetivamente dessas escolhas feitas fora da situa\u00e7\u00e3o de teste, sobretudo o dano factual que vamos sofrer, e que tais provas s\u00f3 ter\u00e3o validade no pr\u00f3prio campo de atua\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a regra b\u00e1sica do jogo. O palco ou campo de prova possui toda uma fenomenologia cenogr\u00e1fica composta de imagens aparentes, entrela\u00e7adas pelas tramas do enredo da pe\u00e7a na qual ingressamos e na qual outros atores tamb\u00e9m estar\u00e3o atuando em seus respectivos personagens. Para compreender a Vida na sua dimens\u00e3o integral, os seres devem interagir entre si nas exist\u00eancias, para que ocorra uma soma de impress\u00f5es parciais ou fragmentos de verdades de cada um rumo \u00e0 compreens\u00e3o total e \u00fanica da Verdade.\u00a0\u00a0 Nos cen\u00e1rios compostos de apar\u00eancias e tramas situacionais, predomina sempre a id\u00e9ia de Ilus\u00e3o, pela qual somos constantemente envolvidos\u00a0 e seduzidos. A sedu\u00e7\u00e3o, a mesma que atrai a abelha para a magia das cores e o perfume da flor, \u00e9 sempre \u00fatil e necess\u00e1ria como perpetua\u00e7\u00e3o das oportunidades e ferramenta de avalia\u00e7\u00e3o educativa. Ela se apresenta em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de teste nas quais temos que remover os obst\u00e1culos do percurso, tramas dos atos, at\u00e9 chegarmos no ep\u00edlogo do drama ou da com\u00e9dia que pedimos para atuar. \u00c9 no ep\u00edlogo que realizamos as escolhas essenciais, que ser\u00e3o computadas em nosso destino.\u00a0 Se superarmos os obst\u00e1culos, cuja tenta\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria sempre se apresenta como uma possibilidade de fuga, seja pelo prazer ou pela busca de al\u00edvio de um sofrimento insuport\u00e1vel, ganhamos em nossa consci\u00eancia valiosos aplausos ou pontos na experi\u00eancia da vida, cr\u00e9ditos indispens\u00e1veis na lenta composi\u00e7\u00e3o da nossa felicidade.\u00a0 Se fracassarmos, sentimos de imediato o choque da Desilus\u00e3o, um retorno ou efeito natural dos impulsos precipitados nos excessos cometidos durante a interpreta\u00e7\u00e3o do papel.\u00a0 Mas a pe\u00e7a continua, pois as cenas v\u00e3o se desenrolando, e novos atores v\u00e3o ingressando em novos atos existenciais. O que acaba \u00e9 a nossa atua\u00e7\u00e3o num determinado ato, cujo tempo fora previamente estabelecido. Ficamos temporariamente de fora, nos bastidores, em planos de espera, analisando o que foi feito, de bom ou de ruim, e tamb\u00e9m planejando como poderemos reentrar em cena para corrigir as falhas de interpreta\u00e7\u00e3o cometidas nos atos passados. E, assim que observamos alguma situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel, solicitamos ao Supremo Roteirista da Vida um novo personagem, dotado de um programa existencial mais adequado aos novos testes, e que ser\u00e1 novamente\u00a0 colocado em cena.<\/p>\n<p><big>A Descoberta do Reino<\/big><\/p>\n<p>Mas qual seria o significado de tudo isso que acabamos de refletir sobre as exist\u00eancias, a Vida, a Verdade e a Felicidade?\u00a0 Qual o sentido dessas diferen\u00e7as, quase impercept\u00edveis para n\u00f3s, seres comuns?\u00a0 Dir\u00edamos que\u00a0 \u00e9 simplesmente reverter o\u00a0 nosso olhar do mundo exterior para o mundo interior. E falando assim, grosso modo, tem-se a impress\u00e3o de que trata-se de uma simples mudan\u00e7a no direcionamento dos nossos interesses e das atitudes, como se isso fosse uma coisa banal e corriqueira. No entanto, o percurso entre a realidade aparente do mundo exterior e a realidade essencial do mundo interior, n\u00e3o acontece no intervalo da noite para o dia. \u00c9 necess\u00e1rio que uma in finidade de exist\u00eancias se sucedam no tempo biol\u00f3gico para que o ser humano possa realizar a mais importante de todas as descobertas. Esta foi a mais longa das experi\u00eancias que realizamos, sempre com o impulso da sabedoria e experi\u00eancia dos grandes Mestres do mundo oculto.<\/p>\n<p>Em todas as etapas da evolu\u00e7\u00e3o humana, nas \u00e9pocas cruciais de grandes transforma\u00e7\u00f5es, surgiram no cen\u00e1rio carnal essas figuras incomuns, atores especiais, interpretando pap\u00e9is extremamente contradit\u00f3rios aos olhos da perspectiva mediana. Eles s\u00e3o seres dotados de um conhecimento extraordin\u00e1rio e sempre agem numa dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria a da maioria dos atores, que s\u00e3o atra\u00eddos\u00a0 para suas magn\u00edficas atua\u00e7\u00f5es sobre os problemas do Ser e do Destino. Ao entrarem em cena, logo se destacam como modelos irresist\u00edveis de imita\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que seus exemplos s\u00e3o sempre representa\u00e7\u00f5es vivas do tempo futuro, do ser ideal, de como dever\u00edamos ser. Exercem sobre n\u00f3s um fasc\u00ednio e um encanto que ultrapassam os limites da perplexidade, no qual somos bruscamente deslocados da c\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o de expectadores, sentados espiritualmente, para um inc\u00f4modo posicionamento, em p\u00e9, por\u00e9m est\u00e1ticos ou oscilantes, \u00e0 espera da dif\u00edcil atitude de dar o primeiro passo na dire\u00e7\u00e3o que nos apontam. Paralisados pelo medo e pela d\u00favida, nem sempre confiamos nos convites que eles nos fazem para que os sigamos pelos caminhos misteriosos de um novo \u201cestado de coisas\u201d de que tanto falam. Quando ouvem falar pela primeira vez dessa nova realidade a maioria dos seres humanos logo pensam na morte, a principal preocupa\u00e7\u00e3o daqueles que ainda s\u00e3o governados pelas sensa\u00e7\u00f5es do corpo f\u00edsico. Para quem ainda n\u00e3o distingue o \u201cEu\u201d dos limites\u00a0 org\u00e2nicos, a morte \u00e9 \u00fanica possibilidade de ingressarmos ou sermos recusados no tempo futuro.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 por outro motivo que os grandes Mestres do Esp\u00edrito, ao ensinarem os primeiros segredos do mundo oculto da individualidade, sempre revelam antes a id\u00e9ia primordial de Imortalidade. Primeiro remove m das nossas mentes o receio da morte do corpo, mostrando que ela \u00e9 apenas o fim da exist\u00eancia e n\u00e3o da Vida; somente depois de compreendermos essa primeira verdade \u00e9 que tocam no assunto da \u201cmorte\u201d do esp\u00edrito, que \u00e9, na realidade, o aut\u00eantico significado da ressurrei\u00e7\u00e3o da alma. Ao ouvir de Jesus que renascemos da carne e do Esp\u00edrito, Nicodemos estava sendo duplamente iniciado no conhecimento da Imortalidade da alma, pelo renascimento exterior, em novo corpo, e na imortalidade do Esp\u00edrito, renascimento interior, pela ressurrei\u00e7\u00e3o. Ao mergulharmos na carne ingressamos em um novo ato existencial no qual vamos atuar e experimentar as li\u00e7\u00f5es vivenciais, pelas provas e expia\u00e7\u00f5es. \u00c9 nessa nova experi\u00eancia existencial, que pode e deve ser repetida, quantas vezes for necess\u00e1ria, que despertamos ou ressurgimos para a Vida.\u00a0 O percurso entre uma exist\u00eancia e outra \u00e9 sempre delimitado pela morte e o conseq\u00fcente renascimento; j\u00e1 o percurso entre a perspectiva do mundo exterior para o mundo interior ser\u00e1 sempre\u00a0 uma\u00a0 crise existencial, que \u00e9 a morte do Esp\u00edrito, e a sua conseq\u00fcente ressurrei\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a Verdade situada sabiamente por Jesus e por muitos outros mestres entre o Caminho e a Vida.\u00a0 As exist\u00eancias e renascimentos s\u00e3o os meios naturais para se atingir a finalidade essencial da Vida, que \u00e9 o estado eterno da ressurrei\u00e7\u00e3o.\u00a0 Tudo indica que na caminhada evolutiva os renascimentos cessem \u00e0 medida que diminui para n\u00f3s a necessidade de atua\u00e7\u00f5es existenciais de aprendizagem. Passamos, ent\u00e3o, a perceber melhor a diferen\u00e7a entre a exist\u00eancia e a Vida, o existir e o viver, entre o ef\u00eamero e o Eterno. \u00c9 bem poss\u00edvel que a Ressurrei\u00e7\u00e3o nunca cesse, num infinito processo de descobertas das maravilhas do Reino, que \u00e9 Deus, \u201cvind o a n\u00f3s\u201d, se revelando progressivamente em nosso mundo \u00edntimo.<\/p>\n<p><big><big>12. A Evolu\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica da Consci\u00eancia<br \/>\n<\/big><\/big><br \/>\nComo vimos, o pecado original que nos acompanha como heran\u00e7a de Ad\u00e3o \u00e9 o conflito da raz\u00e3o com o instinto,\u00a0 essa for\u00e7a inspiradora que mais tarde ser\u00e1 transformada definitivamente em intui\u00e7\u00e3o, o sexto sentido. Como bem observou o fil\u00f3sofo Humberto Hohden*, o homem \u00e9 o \u00fanico animal cuja espinha dorsal \u00e9 natural e permanentemente\u00a0 vertical, como se a nossa cabe\u00e7a estivesse sempre voltada para o alto, como uma antena que sintoniza as vibra\u00e7\u00f5es dos mundos superiores.\u00a0 Enquanto os corpos dos animais\u00a0 irracionais permanecem horizontais,ligados ao mundo f\u00edsico,\u00a0 o nosso corpo obedece o impulso da evolu\u00e7\u00e3o e se levan ta para captar novas experi\u00eancias de racionalidade e espiritualidade. Esse corpo vertical, que assume a\u00a0 forma de uma cruz quando abrimos os bra\u00e7os, torna-se o s\u00edmbolo vivo do sacrif\u00edcio, da ren\u00fancia e do amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Mas ainda sofremos muito a interfer\u00eancia instintiva, a\u00a0 busca constante da satisfa\u00e7\u00e3o das nossas necessidades mais fundamentais. Essa busca, que nos fez ca\u00e7adores das coisas do mundo f\u00edsico e material, nos faz agora ca\u00e7adores de n\u00f3s mesmos, das coisas do mundo \u00edntimo e espiritual.\u00a0 Essa \u00e9 a equa\u00e7\u00e3o existencial que temos que solucionar para superar o Homem do Passado, que luta para sobreviver em nosso ser, e\u00a0 continuar a nossa caminhada para deixar nascer em n\u00f3s o Homem do Futuro.<\/p>\n<p>Mas que homem \u00e9 esse? Seria um tipo especial e definitivo? Acreditamos que n\u00e3o seja um modelo definitivo, mas um modelo adequado ao nosso tempo hist\u00f3rico. Numa perspectiva antropol\u00f3gica &#8211; ou ainda antropos\u00f3fica[15] &#8211; essa transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana. Mostra as etapas evolutivas, em cada qual predominou ou manifestou-se\u00a0 um prot\u00f3tipo mental caracter\u00edstico, e dos quais herdamos as experi\u00eancias mais significativas que resultaram naquilo que somos hoje e naquilo que podemos ser num futur o n\u00e3o muito distante. Ent\u00e3o, do ponto vista antropol\u00f3gico ter\u00edamos esses oitos tipos culturais:<\/p>\n<ul>\n<li>O Homem Biol\u00f3gico: \u00c9 o Homo Sapiens Sapiens ou Homem de Cro-Magnon, do per\u00edodo paleol\u00edtico, surgido cerca de 35 mil anos A.C.\u00a0 \u201cUma era de pequenos grupos esparsos e n\u00f4mades de homin\u00eddeos, vagueando em \u00e1reas relativamente extensas, constantemente preocupados em satisfazer a fome\u201d.\u00a0 \u00c9 a ra\u00e7a ad\u00e2mica ( de Ad\u00e3o), que habitas as cavernas,\u00a0 descobridora do fogo e dos primeiros instrumentos de transforma\u00e7\u00e3o da natureza. Deu seus primeiros passos no Homo Erectus (500 mil AC), passou pelo Homo Neandertal ou\u00a0 Sapiens (150 mil AC) at\u00e9 chegar no est\u00e1gio b iol\u00f3gico atual.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Tribal: Esse Ad\u00e3o era greg\u00e1rio,\u00a0 sedent\u00e1rio, o descobridor da agricultura e da domestica\u00e7\u00e3o de animais e construtor das primeiras aldeias. Era princ\u00edpio da sociedade organizada (entre 9 e 7 mil\u00a0 AC).<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem An\u00edmico: Esse Ad\u00e3o j\u00e1 est\u00e1\u00a0 pr\u00e9-civilizado,ou seja, est\u00e1 entre o mundo das aldeias tribais e as primeiras civiliza\u00e7\u00f5es do IV mil\u00eanio AC.\u00a0 \u00c9 a chamada proto \u2013hist\u00f3ria, na qual o homem manifesta sua curiosidade pelo fen\u00f4menos naturais e passa a ter com eles um relacionamento m\u00edstico. Tudo que n\u00e3o pode ser explicado pela raz\u00e3o \u00e9 da esfera do sobrenatural. O mundo \u00e9 m\u00e1gico e o polite\u00edsmo religioso e suas magias marcam essa fase an\u00edmica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Teol\u00f3gico:\u00a0 \u00c9 o homem das civiliza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e teocr\u00e1ticas do Crescente\u00a0 F\u00e9rtil : Egito, Palestina e Mesopot\u00e2mia ( a partir de 3.500 AC). A cren\u00e7a religiosa passa a ser objeto de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (Estados teocr\u00e1ticos) e o misticismo \u00e9 formalizado como pr\u00e1tica ritual . A magia e o sobrenatural\u00a0\u00a0 passam a ser conhecimento de dom\u00ednio de especialistas ou sacerdotes.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Racional : \u00c9 a express\u00e3o do individualismo greco-romano. Aqui o homem racionaliza todos os seus h\u00e1bitos pessoais e sociais, inclusive a religi\u00e3o. A mitologia greco-romana \u00e9 um exemplo dessa tentativa de explicar racionalmente o mundo e seus mist\u00e9rios atrav\u00e9s de s\u00edmbolos e analogias. O homem quer entender como funciona o seu ser e porque somente ele tem consci\u00eancia de si mesmo. A Filosofia, com S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles ser\u00e1 o resultado mais aperfei\u00e7oado desse esfor\u00e7o.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Metaf\u00edsico:\u00a0 Nessa era pr\u00e9-cient\u00edfica, logo ap\u00f3s a Idade M\u00e9dia e do retrocesso ao tempo teol\u00f3gico imposto pela Igreja, o homem\u00a0 do Renascimento tamb\u00e9m sente a necessidade de retomar sua trajet\u00f3ria voltando na fase que havia estacionado com a queda de Roma. A raz\u00e3o tomas rumos cient\u00edficos nos s\u00e9culos XVI e XVII com Descartes, Newton e Bacon. Pensar \u00e9 existir e o sentido dessa exist\u00eancia por ser encontrado na experi\u00eancia emp\u00edrica, na pr\u00e1tica pr\u00e9-cient\u00edfica.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Positivo: \u00c9 o homem da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. A pr\u00e1tica pr\u00e9-cient\u00edfica chega \u00e0 fase cient\u00edfica, onde as experi\u00eancias podem ser comprovadas pela tecnologia. O Iluminismo filos\u00f3fico e o\u00a0 positivismo cient\u00edfico\u00a0 d\u00e3o novas dire\u00e7\u00f5es para a mente humana. \u00c9 nessa fase que surge os preparativos para a fase que estamos vivendo hoje.<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>O Homem Psicol\u00f3gico: Segundo\u00a0 Herculano Pires, trata-se de \u201cum ser potencialmente tridimensional, cuja raz\u00e3o se fecha nas categorias decorrentes da experi\u00eancia sensorial. O Homem-psi\u00a0 corresponde a um novo conceito de raz\u00e3o e da mente que surge uma nova dimens\u00e3o com a descoberta da percep\u00e7\u00e3o extra-sensorial. Trata-se de uma verdadeira amplia\u00e7\u00e3o do conceito do homem, que retorna \u00e0s dimens\u00f5es espirituais antigas, enriquecido com as provas cient\u00edficas, e por isso mesmo liberto da ganga das superti\u00e7\u00f5es, do misticismo dogm\u00e1tico e do pensamento m\u00e1gico\u201d.\u00a0 Essa fase nasceu da explos\u00e3o dos fen\u00f4menos medi\u00fanicos e com a Codifica\u00e7\u00e3o do Espirit ismo, em 1857, com a publica\u00e7\u00e3o de O Livro dos Esp\u00edritos. Inaugurava-se a \u201cEra do Esp\u00edrito\u201d que seria complementada com a revolu\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica de Sigmund Freud, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX,\u00a0 at\u00e9 chegar na psicologia humanista de Carl Rogers. A harmonia da mediunidade com a psicologia, entre o fen\u00f4meno e o comportamento, a t\u00e9cnica e a atitude, ser\u00e1 s\u00edntese do Homem do Futuro.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Mas ponto de vista espiritual ou da antroposofia, essas etapas evolutivas seriam marcadas pelos prot\u00f3tipos, cuja influ\u00eancia cultural n\u00e3o se restringe \u00e0 cultura material , mas tamb\u00e9m \u00e0s experi\u00eancias pr\u00e9-encarnat\u00f3rias:<\/p>\n<p><big>O Primeiro Ser &#8211;\u00a0 BIOL\u00d3GICO<\/big><\/p>\n<p>Dom\u00ednio da intelig\u00eancia cinest\u00e9sico-corporal. Predom\u00ednio dos instintos e dos desejos. Vive o tempo imediato e presente. Preocupa\u00e7\u00e3o com a sobreviv\u00eancia do corpo e busca de entendimento do mundo fenomenal exterior.Religiosidade natural exterior e m\u00e1gica.<\/p>\n<p>1\u00aa fase do tornar-se Pessoa: Bloqueio e recusa \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Tend\u00eancia a aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia atual: Por que estou assim?<\/p>\n<p><big>O Segundo Ser &#8211; TEOL\u00d3GICO<\/big><\/p>\n<p>Dom\u00ednio da intelig\u00eancia espacial e ling\u00fc\u00edstica. Despertar da intui\u00e7\u00e3o e das aspira\u00e7\u00f5es do tempo futuro. Religiosidade ritual\u00edstica exterior. Preocupa\u00e7\u00e3o com a sobreviv\u00eancia da alma e o medo da morte.<\/p>\n<p>2\u00aa fase: In\u00edcio da comunica\u00e7\u00e3o e do desejo de mudan\u00e7a. N\u00e3o reconhece os sentimentos e emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: O que estou sentindo?<\/p>\n<p><big>O Terceiro Ser &#8211; RACIONAL<\/big><\/p>\n<p>Dom\u00ednio das intelig\u00eancias l\u00f3gico-matem\u00e1tica. A crise existencial e a busca filos\u00f3fica do sentido existencial exterior. A Raz\u00e3o supera e inibe a emo\u00e7\u00e3o. Religiosidade narc\u00edsica e antropom\u00f3rfica.<\/p>\n<p>3\u00aa fase: Aceita\u00e7\u00e3o reduzida de sentimentos.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: Qual a origem desse sentimento?<\/p>\n<p>O Quarto Ser &#8211;\u00a0 METAF\u00cdSICO<\/p>\n<p>Dom\u00ednio da intelig\u00eancia musical. A percep\u00e7\u00e3o da realidade extra-f\u00edsica e do sexto sentido. Crise existencial e a busca da realidade existencial interior. Tend\u00eancia de equil\u00edbrio raz\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. Religiosidade m\u00edstica e sobrenatural.<\/p>\n<p>4\u00aa fase: Contextualiza\u00e7\u00e3o dos sentimentos. Despertar da consci\u00eancia integral.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: Que raz\u00f5es me levaram a este estado?<\/p>\n<p><big>O Quinto Ser &#8211; POSITIVO<\/big><\/p>\n<p>O dom\u00ednio da intelig\u00eancia interpessoal e dos conhecimentos tecno-cient\u00edfico dos fen\u00f4menos f\u00edsicos exteriores. Crise existencial (afirma\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o da mente) e a busca sistem\u00e1tica de solu\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas e psicol\u00f3gicas. Matura\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia integral. Conflito interior entre a religiosidade e a racionalidade. Busca de harmonia entre a f\u00edsica e metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>5\u00aa fase: Di\u00e1logo mais livre e desbloqueio da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: Que conseq\u00fc\u00eancias tais sentimentos est\u00e3o gerando em mim?<\/p>\n<p><big>O Sexto Ser &#8211;\u00a0 PSICOL\u00d3GICO<\/big><\/p>\n<p>O dom\u00ednio da intelig\u00eancia intrapessoal e dos conhecimentos tecno-cient\u00edficos dos fen\u00f4menos metaf\u00edsicos interiores. Funcionamento da consci\u00eancia integral e tend\u00eancia a plenitude existencial. Harmonia entre a f\u00edsica e metaf\u00edsica. Religiosidade interior voltada para solu\u00e7\u00f5es exteriores, solidariedade social.<\/p>\n<p>6\u00aa fase: Aceita\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o mais imediata dos sentimentos.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: Por onde posso come\u00e7ar a mudar a situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><big>O S\u00c9TIMO SER \u2013\u00a0 C\u00d3SMICO E INTEGRAL<\/big><\/p>\n<p>Dom\u00ednio da intelig\u00eancia e da consci\u00eancia integral.\u00a0 A plenitude vivencial. Religiosidade natural interior e m\u00edstica.<\/p>\n<p>7\u00aa fase: Confian\u00e7a total na transforma\u00e7\u00e3o pessoal, disposi\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de di\u00e1logo e de comunica\u00e7\u00e3o. Auto-aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reminisc\u00eancia: Qual \u00e9 o ponto essencial da mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>A verticaliza\u00e7\u00e3o do corpo humano coincide com o despertar das faculdades ps\u00edquicas; s\u00e3o elas que permitem ao homem a sintonia com os planos superiores da vida, que lhe d\u00e3o os rumos de exist\u00eancia. A mediunidade como instrumento e extens\u00e3o mental, torna-se uma b\u00fassola existencial para que o homem aos supere os instintos e domine a intui\u00e7\u00e3o. Ela tamb\u00e9m vai marcar a transi\u00e7\u00e3o mental do mundo sensorial para o mundo extra-sensorial, do mundo exterior e f\u00edsico para o mundo interior e espiritual. Como bem definiu Edgard Armond[16], ela quase sempre foi o recurso pelo qual os Esp\u00edritos Superiores puderam interferir em nosso planeta para garantir a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade humana. Foi assim que aprendemos a dominar a natureza e seus elementos e tem sido assim at\u00e9 nos mais avan\u00e7ados laborat\u00f3rios do mundo contempor\u00e2neo, onde sempre se realiza o estreito contato entre os g\u00eanios desencarnados\u00a0 inspirando os g\u00eanios encarnados nas descobertas fundamentais das ci\u00eancias e das artes. A mediunidade, embora mal conhecida nos tempos remotos,\u00a0 n\u00e3o sofreu em si mudan\u00e7as na sua fenomenologia, manifestou-se no homem da cavernas, nos cl\u00e3s e tribos da proto hist\u00f3ria, nos c\u00edrculos sacerdotais fechados das sociedades teol\u00f3gicas at\u00e9 ser \u201cderramada na carne\u201d das camadas populares, como garantia de uso aberto e de livre acesso ao Mundo Superior. A hist\u00f3ria da mediunidade \u00e9 vasta e ficar\u00edamos paginas e p\u00e1ginas citando seus in\u00fameros\u00a0 exemplos nos registros de todos os povos, em todos os tempos. Mas n\u00e3o podemos\u00a0 deixar de concluir \u00e9 que essa faculdade, tanto na sua manifesta\u00e7\u00e3o natural como seu car\u00e1ter de prova, \u00e9 o instrumento principal de que dispomos para desenvolver as caracter\u00edsticas do Homem do Futuro.\u00a0 Sendo cada vez mais um tipo de habilidade espiritual, ela \u00e9 em sim uma forma de intelig\u00eancia pessoal, as chaves que abrem gradualmente as portas do universo interior.<\/p>\n<p>\u00c9 fato ineg\u00e1vel, estamos passando por uma crise existencial que marca em n\u00f3s a mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o do mundo exterior para o mundo interior. O que caracteriza essa crise \u00e9 essa descoberta, que nos causa um impacto em todo o nosso conjunto vivencial: na mente, no perisp\u00edrito e tamb\u00e9m no corpo f\u00edsico. Nossas percep\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es e sentidos f\u00edsicos sofrem um abalo estrutural no qual est\u00e1vamos acomodados e passam a exigir de n\u00f3s uma reestrutura\u00e7\u00e3o para uma nova acomoda\u00e7\u00e3o. J\u00e1 passamos por esse abalo quando, ainda no mundo animal,\u00a0 descobrimos a raz\u00e3o. Essa descoberta do mundo interno foi sendo feita de maneira gradual e sempre esteve relacionada ao nosso grau de consci\u00eancia nas viv\u00eancias do mundo f\u00edsico e, em muitos casos, ao grau de mediunidade. Esse impacto \u00e9 tamb\u00e9m semelhante ao que sofre as crian\u00e7as quando saem do universo concreto e descobrem o mundo abstrato durante o processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando sofremos este abalo vivencial na descoberta da raz\u00e3o tivemos que fazer uma troca de valores materiais por valores morais; fomos progredindo lentamente na descoberta desse mundo interno.\u00a0 Primeiro descobr\u00edamos um peda\u00e7o de p\u00e3o e, pela opera\u00e7\u00e3o instintiva saciamos imediatamente a nossa fome; depois, descobrimos um outro peda\u00e7o de p\u00e3o e, racional e economicamente, o dividimos\u00a0 em um n\u00famero de peda\u00e7os igual ao n\u00famero de dias que demorar\u00edamos para encontrar outro peda\u00e7o de p\u00e3o; administrar\u00edamos a necessidade de saciar a fome; agora encontramos um peda\u00e7o de p\u00e3o,\u00a0 olhamos para todos os lados, queremos com\u00ea-lo de uma s\u00f3 vez, pensamos em guardar para os pr\u00f3ximos dias , mas estamos sendo incomodados por u m novo fator:\u00a0 a consci\u00eancia. Com novos e sempre inc\u00f4modos valores, a consci\u00eancia nos for\u00e7a a olhar novamente para todos os lados e enxergar que outros seres est\u00e3o sem o p\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 a crise: comer tudo num dia s\u00f3, cortar e, ainda sozinho, comer um peda\u00e7o a cada dia, ou repartir aquele peda\u00e7o com os que n\u00e3o tem nenhum?\u00a0 Nas duas primeiras op\u00e7\u00f5es ainda estamos vendo pela \u00f3tica racional do mundo exterior, enquanto que na \u00faltima j\u00e1 vislumbramos o mundo interior. Repartir o p\u00e3o com o outro \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que supera a viv\u00eancia racional e atinge a viv\u00eancia emocional e interior.<\/p>\n<p>Quando operamos al\u00e9m do instinto e da raz\u00e3o geralmente lidamos com outros instrumentos cognitivos, diferentes do c\u00e1lculo ou da agilidade f\u00edsica. Passamos usar instrumentos cognitivos\u00a0 espirituais, inter e intrapessoais. Esses instrumentos\u00a0 se caracterizam\u00a0 pelos valores morais, negativos e positivos que aprendemos culturalmente. Com eles estabelecemos julgamentos nos quais usamos como refer\u00eancia, para compara\u00e7\u00e3o, outros seres humanos.\u00a0 Geralmente, nessas opera\u00e7\u00f5es, quando desprezamos os fatores instintivo e racional, nos colocamos sempre no lugar do outro e tentamos imaginar, em quest\u00e3o de segundos, como reagir\u00edamos naquela situa\u00e7\u00e3o. Essa forma de intelig\u00eanci a \u00e9 chamada de empatia, um aprofundamento da simpatia, porque n\u00e3o \u00e9 um sentimento unilateral, mas rec\u00edproco: um precisa e o outro disp\u00f5e. Quanto maior a nossa capacidade de empatia, maior ser\u00e1 a nossa capacidade de penetrar em nosso mundo interior, sem sofrimentos ou traumas.\u00a0 A melhor forma de tentar penetrar e compreender em nosso mundo \u00edntimo \u00e9 tentar respeitar, aceitar e compreender o mundo \u00edntimo do outro. O nosso mundo \u00edntimo est\u00e1 fechado desde que fomos criados; \u00e9 um mist\u00e9rio, uma porta cuja chave e segredo sempre est\u00e1 com o nosso semelhante e nunca conosco; isso \u00e9 proposital na\u00a0 sabedoria da Cria\u00e7\u00e3o,\u00a0 pois se estivesse conosco talvez j\u00e1 ter\u00edamos perdido pela indiferen\u00e7a ou pela ferrugem do ego\u00edsmo. Quando odiamos um semelhante o nosso mundo fica cada vez mais fechado em n\u00f3s\u00a0 e aberto,\u00a0 exteriorizado para o grosseiro mundo material; nele se manifesta com mais dureza e rigor a lei de a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o, voltando para n\u00f3s a mesma carga energ\u00e9tica negativa. J\u00e1 quando o\u00a0 amamos\u00a0 vai se tornando cada vez mais interiorizado e a mesma lei se manifesta de forma mais suave e branda; ent\u00e3o os enigmas s\u00e3o decifrados, os mist\u00e9rios s\u00e3o revelados e, dentro de n\u00f3s, as portas se abrem. Quando entramos, sentimos uma sensa\u00e7\u00e3o diferente e muit\u00edssimo agrad\u00e1vel, que \u00e9 a felicidade. Isso \u00e9 o Reino de Deus. Essa era a miss\u00e3o de Jesus. Ele veio \u201cdemonstrar\u201d com exemplos o que outros mestres tinham apenas \u201cmostrado\u201d com teorias\u00a0 esse percurso da descoberta do mundo interior. Primeiro dava o exemplo; nossas cabe\u00e7as ficam um pouco confusas com esses exemplos; para espantar a confus\u00e3o e aquietar o nosso ser , Jesus conta va uma par\u00e1bola. Como sabemos, todas elas revelam a chave do Reino de Deus; todas elas representam do fim da nossa atual crise existencial. Foi exatamente por isso que Ele disse, como muita propriedade, que era o Caminho, a Verdade\u00a0\u00a0 e a Vida e que ningu\u00e9m iria ao Pai sen\u00e3o por ele.<\/p>\n<p><big><big>13. O Homem Biol\u00f3gico<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201c21. O Senhor Deus tamb\u00e9m fez para Ad\u00e3o e sua mulher vestiduras de peles com que os cobriu. 22. E disse: Eis a\u00ed Ad\u00e3o feito um de n\u00f3s, sabemos o bem e o mal. Impe\u00e7amos, pois, agora, que ele deite \u00e0 \u00e1rvore da vida, que tamb\u00e9m tome o seu fruto e que, comendo desse fruto, viva eternamente. (Ele disse, Jeov\u00e1 Eloim: Eis a\u00ed, o homem foi como um de n\u00f3s para o conhecimento do bem e do mal; agora ele pode estender a m\u00e3o e tomar da \u00e1rvore do bem e do mal; agora ele pode estender a m\u00e3o e tomar da \u00e1rvore da vida; comer\u00e1 dela e viver\u00e1 eternamente.\u201d \u2013 G\u00eanese.<\/div>\n<p>O trecho do G\u00eanese, sobretudo nos termos que cont\u00e9m o grifo, \u00e9 bastante sugestivo para fazermos uma leitura tranq\u00fcila e sensata da simbologia do texto mosaico. Ela fala abertamente, para quem tem olhos de ver, da transi\u00e7\u00e3o do Reino Animal para o Reino Hominal ou da Consci\u00eancia quando, juntamente com a transforma\u00e7\u00e3o dos nossos corpos, adquirimos a intelig\u00eancia racional, para a solu\u00e7\u00e3o de problemas, e a consciencial, o livre-arb\u00edtrio, para fazermos escolhas e tomarmos decis\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel, como vem sendo tratado pela tradi\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica e mais recentemente revelada pelas comunica\u00e7\u00f5es medi\u00fanicas esp\u00edritas, que este tenha sido o momento em que, em mundos apropriados, fora da Terra \u2013 ad hoc \u2013 tenham se constitu\u00eddo a primeira ra\u00e7a-matriz da esp\u00e9cie humana.\u00a0 Esse\u00a0 primeiro prot\u00f3tipo de Ad\u00e3o seria caracterizado pela constitui\u00e7\u00e3o astral e semi-astral, \u201ccorpos pouco consistentes\u201d, at\u00e9 que fosse poss\u00edvel o surgimento o modelo ideal, finalmente adaptado ao nosso meio. Seria esse tamb\u00e9m o Elo Perdido da cadeia evolutiva, e que em v\u00e3o busca-se nas escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas terrestres. Vamos encontr\u00e1-lo, sim, j\u00e1 numa terceira ou quarta fase, j\u00e1 bastante materializada, talvez nas regi\u00f5es dos continentes perdidos da Lem\u00faria e da Atl\u00e2ntida[17].<\/p>\n<p>Olhando para o passado, vamos entender que, em nosso planeta, as primeiras li\u00e7\u00f5es do Reino foram dadas na inf\u00e2ncia da Humanidade, per\u00edodo no qual os la\u00e7os entre o Esp\u00edrito e a carne eram ainda estreitos, da\u00ed o predom\u00ednio dos centros de for\u00e7a baixos (chacras b\u00e1sico e gen\u00e9sico),\u00a0 motivados pelos instintos animalescos da sobreviv\u00eancia f\u00edsica.\u00a0 Como uma obra de arte da Natureza e da arquitetura da Cria\u00e7\u00e3o, o corpo humano reflete na sua est\u00e9tica fisiol\u00f3gica toda a sua trilha espiritual percorrida nesses mil\u00eanios de hist\u00f3ria; ela possui um significado simb\u00f3lico, esot\u00e9rico, que vai muito al\u00e9m das suas magn\u00edficas e bem projetadas fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas. No seu desenho est\u00e9tico, sobretudo quando de bra\u00e7os abertos e olhar para o infinito, expressa sua ang\u00fastia existencial e o inevit\u00e1vel grito de socorro \u00e0s for\u00e7as divinas superiores tomando a forma escultural de uma cruz.\u00a0 Esta \u00e9 a nossa caracter\u00edstica essencial, o emblema da dor sacrificial que representa o compromisso supremo no qual o Esp\u00edrito deve superar a carne. Nos corpos primitivos, por\u00e9m, a postura crucial oscila nos graus inferiores da escala e n\u00e3o alcan\u00e7a a posi\u00e7\u00e3o ereta em fun\u00e7\u00e3o do peso horizontal da influ\u00eancia animal. \u00c9 o in\u00edcio da verticaliza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, uma longa trajet\u00f3ria, de zero a noventa graus, projetada no tempo existencial de muitas encarna\u00e7\u00f5es.\u00a0 Em \u201cOs Exilados da Capela\u201d[18], de Edgard Armond encontramos a confirma\u00e7\u00e3o dessa verticaliza\u00e7\u00e3o consciencial explicada pela adapta\u00e7\u00e3o do perisp\u00edrito ao corpo f\u00edsico e vice-versa:<\/p>\n<div>\u201cOs atlantes primitivos da 4\u00aa Ra\u00e7a-M\u00e3e, que vieram em seguida, eram homens de elevada estatura, com a testa muito recuada; tinham cabelo solto e negro, de sec\u00e7\u00e3o redonda, e nisto diferiam dos homens que vieram mais tarde, que os possu\u00edam de sec\u00e1\u00e3o ovalada; suas orelhas eram situadas bem mais para tr\u00e1s e para cima, no cr\u00e2neo.A cabe\u00e7a do perisp\u00edrito ainda estava um tanto para fora, em rela\u00e7\u00e3o ao corpo f\u00edsico, o que indicava que ainda n\u00e3o havia integra\u00e7\u00e3o perfeita; e na raiz do nariz havia um \u201cponto\u201d que no homem atual corresponde \u00e0 origem do corpo et\u00e9reo (n\u00e3o confundir com a gl\u00e2ndula hip\u00f3fise, que se situa muito mais para dentro da cabe\u00e7a, na sela turca.<\/p>\n<p>Esse \u201cponto\u201d dos atlantes, separado como nos animais, nos homens atuais coincide no et\u00e9reo e no denso, perfeitamente integrados no conjunto psico-f\u00edsico e essa separa\u00e7\u00e3o dava aos atlantes uma capacidade singular de penetra\u00e7\u00e3o nos mundos et\u00e9reos, e permitiu que desenvolvessem amplos poderes ps\u00edquicos que, por fim, degeneraram e levaram \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do continente.<\/p>\n<p>Nos atlantes dos \u00faltimos tempos, entretanto, quando habitavam a Poseid\u00f4nia, ap\u00f3s os afundamentos anteriores, esses dois \u201cpontos\u201d j\u00e1 se haviam aproximado, dando a eles plena vis\u00e3o f\u00edsica e desenvolvimento dos sentidos.<\/p>\n<p>Nesse continente a primeira sub-ra\u00e7a \u2013 romahals \u2013 possu\u00eda pouca percep\u00e7\u00e3o e pequeno desenvolvimento de sentimentos em geral, mas grandes possibilidades de distinguir e dar nome \u00e0s coisas que viam e ao mesmo tempo agir sobre elas.<\/p>\n<p>Foi a sub-ra\u00e7a que desenvolveu os rudimentos da linguagem e da mem\u00f3ria, conhecimentos anteriormente esbo\u00e7ados e interrompidos na Lem\u00faria por causa do afundamento desse continente, eplo mesmo motivo da degrada\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>Das outras sub-ra\u00e7as, os Travlatis desenvolveram o animismo e o respeito aos pais e familiares. Iniciaram os governos organizados e adquiriram experi\u00eancias sobre administra\u00e7\u00e3o, bem como de na\u00e7\u00f5es separadas e de governos aut\u00f4nomos, formando assim os padr\u00f5es e modelos da civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hist\u00f3rica que chegam at\u00e9 o nosso conhecimento atual.\u201d<\/p>\n<p>Os atlantes eram homens fortes, alentados, de pele vermelha-escura ou amarela, imberbes, din\u00e2micos, altivos, e excessivamente orgulhosos.<\/p>\n<p>Desde que se estabeleceram como povos constitu\u00eddos neste vasto continente, iniciaram a constru\u00e7\u00e3o de um poderoso imp\u00e9rio onde, sem demora predominaram a rivalidade intestina e as ambi\u00e7\u00f5es mais desmedidas de poderio e de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado desenvolveram\u00a0 faculdades ps\u00edquicas not\u00e1veis para sua \u00e9poca, que passaram a aplicar ao servi\u00e7o dessas ambi\u00e7\u00f5es ingl\u00f3rias; e, de tal forma se desenvolveram suas dissens\u00f5es, que foi necess\u00e1rio que ali descessem v\u00e1rios Mission\u00e1rios do Alto para intervir no sentido de harmonizar e dar diretrizes mais justas e construtivas \u00e0s suas atividades sociais.<\/p>\n<p>Segundo consta de algumas revela\u00e7\u00f5es medi\u00fanicas ali encarnou\u00a0 duas vezes, sob os nomes de Anfion e Ant\u00falio, o Cristo Planet\u00e1rio, como j\u00e1 o tinha feito, anteriormente, na Lem\u00faria, sob os nomes de Num\u00fa e Juno e como faria, mais tarde, na India, como Khrisna e Budha e na Palestina como Jesus.<\/p>\n<p>Por\u00e9m triunfaram for\u00e7as inferiores e a tal ponto se generalizaram os desentendimento entre os diferentes povos, que imp\u00f4s-se a provid\u00eancia da separa\u00e7\u00e3o de grandes massas humanas mormente entre romahals, turanianos, mong\u00f3is e travlatis, refluindo parte deles para o Norte do continente de onde uma parte passou \u00e0 \u00c1sia, pela ponta ocidental do Alaska, localizando-se principalmente na China e outra parte alcan\u00e7ou o Continente Hiperb\u00f3reo, situado, como j\u00e1 vimos, nas regi\u00f5es \u00e1rticas, ao Norte da Europa, que nessa \u00e9poca apresentavam magn\u00edficas condi\u00e7\u00f5es de vida para os seres humanos.<\/p>\n<p>No seio da grande massa que permaneceu na Atl\u00e2ntida, formada pelas outras tr\u00eas sub-ra\u00e7as Toltecas, Semitas e Ak\u00e1dios, o tempo do seu transcurso milen\u00e1rio, assinalou extraordin\u00e1rios progressos no campo das atividades materiais conquanto semelhantemente ao que j\u00e1 sucedera no Oriente, as sociedades desses povos tinham se deixado dominar pelos instintos inferiores e pela pr\u00e1tica de atos conden\u00e1veis, de orgulho e de viol\u00eancia<\/p>\n<p>Assim, lamentavelmente degeneraram comprometendo sua evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lavrou entre eles t\u00e3o terr\u00edvel corrup\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que, como conseq\u00fc\u00eancia, ocorreu novo e tremendo cataclismo: a Atl\u00e2ntida tamb\u00e9m submergiu.<\/p>\n<p>Os arquivos da hist\u00f3ria humana n\u00e3o oferecem aos investigadores dos nossos dias documenta\u00e7\u00e3o esclarecedoras e positiva desse acontecimento, como ali\u00e1s tamb\u00e9m sucede e ainda mais acentuadamente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Lem\u00faria; e por isso \u00e9 que esses fatos t\u00e3o importantes e interessantes para o conhecimento da vida planet\u00e1ria, est\u00e3o capitulados no setor das lendas.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>Realmente, at\u00e9 mesmo o relato do fil\u00f3sofo grego Plat\u00e3o (428-347 aC) enfatiza o aspecto lend\u00e1rio, afirmando inclusive que ali reinava a paz entre os dez monarcas descendentes de Posidon e que o continente sucumbiu por uma cat\u00e1strofe \u201cnatural\u201d.\u00a0 Segundo Plat\u00e3o, nos seus Di\u00e1logos entre Timeu e Cr\u00edtias, essa hist\u00f3ria foi revelada ao ateniense S\u00f3lon, 200 anos antes, pelos sacerdotes eg\u00edpcios de Sais, que a transmitiu oralmente aos seus disc\u00edpulos gregos.\u00a0 Ainda sobre as manifesta\u00e7\u00f5es das primeiras ra\u00e7as em nosso planeta, vejamos como o Esp\u00edrito de Jo\u00e3o Evangelista[19] descreve o aparecimento da esp\u00e9cie humana na Terra. A descri\u00e7\u00e3o medi\u00fanica, no seu tradicional estilo simb\u00f3lico, repleto de met\u00e1foras, \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o da nossa lenta evolu\u00e7\u00e3o an\u00edmica:<\/p>\n<div>\u201c (..) Donde havia sa\u00eddo o homem? Qual tinha sido o princ\u00edpio da sua forma\u00e7\u00e3o e de seu desenvolvimento? Veio diretamente do pensamento de Deus ou levantou-se do p\u00f3 por uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es sucessivas?Meu esp\u00edrito n\u00e3o o tinha visto, por\u00e9m minha alma n\u00e3o podia esquecer aquele algo indefin\u00edvel, que tinha como que adivinhado nos animais superiores.<\/p>\n<p>Luz \u2013 luz \u2013 muita luz- muit\u00edssima luz! por\u00e9m a luz reside em Deus.<\/p>\n<p>Eu tinha visto, e via vegetais como minerais e minerais como vegetais e vegetais como animais, homens que participavam alguma coisa do homem. Meu esp\u00edrito estava cego; e que confian\u00e7a merece a vida de um pobre cego?<\/p>\n<p>Eu via o homem, e via nele o sentimento, a vontade e a luz; via o animal, e via nele a sensa\u00e7\u00e3o, o impulso e o instinto; via o vegetal, e via nele a tend\u00eancia para a conserva\u00e7\u00e3o. E perguntava a mim mesmo:<\/p>\n<p>O sentimento e a vontade e a luz s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es independentes e primitivas ou s\u00e3o uma cria\u00e7\u00e3o \u00fanica, j\u00e1 modificada ou transformada?<\/p>\n<p>E, ao pensar que os tr\u00eas caracteres distintivos da natureza humana poderiam confundir-se em sua raiz, acudiu fugitivamente \u00e0 minha alma a id\u00e9ia de que podia ser a unidade, a identidade, o limite de sua depura\u00e7\u00e3o. E perguntava a mim mesmo:<\/p>\n<p>S\u00e3o, porventura, o sentimento, a sensa\u00e7\u00e3o depurada e transformada \u2013 a vontade, o impulso depurado e transformado? Ser\u00e3o, porventura, o sentimento e a sensa\u00e7\u00e3o, a vontade e o impulso, a luz e o instinto \u2013 depura\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es daquela tend\u00eancia para a conserva\u00e7\u00e3o iniciada no organismo vegetal?<\/p>\n<p>Ignoro; n\u00e3o sei; n\u00e3o quero; n\u00e3o posso n\u00e3o me atrevo a sab\u00ea-lo; porque Deus p\u00f4s um v\u00e9u entre o seu segredo e os olhos do meu esp\u00edrito. Minha alma nada sabe acerca do princ\u00edpio e do nascimento do homem\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>Nessa primeira etapa da constante transforma\u00e7\u00e3o f\u00edsico-an\u00edmica, atrav\u00e9s de ra\u00e7as-padr\u00e3o e v\u00e1rias sub-ra\u00e7as, surgiram na Terra tr\u00eas prot\u00f3tipos sociais humanos b\u00e1sicos, cada qual realizando as primeiras descobertas da sua individualidade:<\/p>\n<p>O tipo Human\u00f3ide (Australopithecus, de 3 milh\u00f5es de anos), ainda bastante horizontal, uma transi\u00e7\u00e3o entre os primatas e os humanos . Eram seres ainda muito rudes, de intelig\u00eancia e h\u00e1bitos grosseiros, cuja finalidade\u00a0 era a satisfa\u00e7\u00e3o impulsiva das necessidades b\u00e1sicas: alimenta\u00e7\u00e3o, sono, sexo, abrigo. Sua marca defensiva era a brutalidade e o ego\u00edsmo levado ao extremo.<\/p>\n<p>O tipo An\u00edmico (do Homo Habilis, de 2 milh\u00f5es de anos, ao Homo Erectus, de 1 milh\u00e3o anos), mais humano e ereto; mais sens\u00edvel e curioso do que o anterior, observador da Natureza; fascinado pelos fen\u00f4menos exteriores, aprendeu a fazer o fogo e\u00a0 a render homenagem \u00e0s for\u00e7as naturais. Para ele o Universo era um ambiente de magia, povoado de esp\u00edritos que animavam todas as coisas. Era o princ\u00edpio de religiosidade e da arte.<\/p>\n<p>E o tipo Tribal (do Homo Sapiens de 100 mil anos ao Homo Sapiens-Sapies de 37 mil anos), que marca a fase de transforma\u00e7\u00e3o\u00a0 biol\u00f3gica e mental entre o Homo Sapiens e o Homo Faber atual, acumulando as experi\u00eancias que v\u00e3o culminar na descoberta da agricultura, da pecu\u00e1ria, da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio de trocas naturais. No aspecto sociol\u00f3gico ocorre\u00a0 a lenta transforma\u00e7\u00e3o do cl\u00e3 em dire\u00e7\u00e3o a um tipo de organiza\u00e7\u00e3o mais complexa e necess\u00e1ria aos novos tempos[20]:<\/p>\n<div>\u201cAssim como as necessidades b\u00e1sicas do homem s\u00e3o a fome e o amor, assim tamb\u00e9m as fun\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da organiza\u00e7\u00e3o social se resumem na provis\u00e3o econ\u00f4mica e na sobreviv\u00eancia biol\u00f3gica; uma caudal de crian\u00e7as \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1ria como a continuidade do alimento. \u00c0s institui\u00e7\u00f5es que objetivam o bem-estar material e a ordem pol\u00edtica, a sociedade sempre acrescenta institui\u00e7\u00f5es cujo fim \u00e9 a perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. At\u00e9 que o Estado se tornasse a fonte central e permanente da ordem, o cl\u00e3 tomou a si a delicada tarefa de regular as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos e as gera\u00e7\u00f5es; e mesmo depois de estabelecido o Estado, o governo essencial da humanidade continuou radicado na mais profunda de todas as institui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas \u2013 a fam\u00edlia.\u00c9 de todo improv\u00e1vel que as primeiras criaturas vivessem em fam\u00edlias isoladas, mesmo no est\u00e1gio da ca\u00e7a; porque a inferioridade\u201d do homem quanto aos \u00f3rg\u00e3o de defesa teria deixado tais fam\u00edlias entregues \u00e0 voracidade das feras. Em regra, na natureza, os organismos mais pobremente dotados de defesa individual vivem em grupos, e tiram da a\u00e7\u00e3o conjunta os meios de sobreviver num mundo enxameante de garras, presas e couros impenetr\u00e1veis. Evidentemente foi assim que o homem; salvou-se pela solidariedade do grupo. Quando as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica substitu\u00edram o parentesco como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o social, o cl\u00e3 perdeu sua posi\u00e7\u00e3o na subestrutura da sociedade; embaixo foi suplantado pela fam\u00edlia e pelo alto Estado. O governo tomou a si o problema de manter a ordem , e a fam\u00edlia assumiu a tarefa de reorganizar a ind\u00fastria e a ssegurar a perpetuidade da ra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>Na transforma\u00e7\u00e3o evolutiva da esp\u00e9cie humana encontramos como fator essencial a conquista crescente e vertical da consci\u00eancia, bem como a sua principal ferramenta de a\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a intelig\u00eancia.\u00a0 Segundo as pesquisas da Antropologia, num longo per\u00edodo de 1 milh\u00e3o de anos as esp\u00e9cies human\u00f3ides e humanas das quais descendemos realizaram nesse campo poucas conquistas significativas, que mudaram os rumos da nossa experi\u00eancia social: o dom\u00ednio do fogo e a agricultura, nos tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos; e as revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas contempor\u00e2neas da mecaniza\u00e7\u00e3o industrial e a inform\u00e1tica. Todas elas estiveram ligadas aos processos produtivos e sempre impulsi onadas pela Lei do Trabalho. Outra curiosidade \u00e9 que os intervalos de tempo entre essas descobertas eram imensos inicialmente e, na medida que foram despontando novas necessidades sociais e novas intelig\u00eancias, foram diminuindo entre uma e outra:<\/p>\n<ul>\n<li>Revolu\u00e7\u00e3o do Fogo (100 mil aC) e a Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola (10 mil\u00a0 aC):\u00a0 90 mil anos<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Revolu\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola e a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial (1760 dC):\u00a0\u00a0 12 mil anos<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e a Revolu\u00e7\u00e3o da Macro-Inform\u00e1tica (1950): 216 anos<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Macro Inform\u00e1tica e a Micro-Inform\u00e1tica Digital (1976): 26 anos<\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li>Micro- Inform\u00e1tica e a Revolu\u00e7\u00e3o Biogen\u00e9tica (1980): 4 anos<\/li>\n<\/ul>\n<p>Isso mostra que as conquistas tecnol\u00f3gicas, ligadas \u00e0s intelig\u00eancias objetivas do Homem, entrar\u00e3o nos pr\u00f3ximos s\u00e9culos num processo irrevers\u00edvel de esgotamento. As descobertas ser\u00e3o cada vez mais r\u00e1pidas e as solu\u00e7\u00f5es cada vez mais pr\u00e1ticas. Os problemas da objetividade social humana, basicamente as doen\u00e7as psicossom\u00e1ticas e v\u00edcios do consumismo, v\u00e3o desaparecer e j\u00e1 causam certa preocupa\u00e7\u00e3o nas cabe\u00e7as filos\u00f3ficas quanto \u00e0s quest\u00f5es do trabalho e da sobreviv\u00eancia. Questionam eles: se n\u00e3o houver mais problemas a serem solucionados, viveremos no completo \u00f3cio?<\/p>\n<p>Outra impress\u00e3o paradoxal, muito comum diante dessas mudan\u00e7as, \u00e9 a de que quanto mais dispomos de informa\u00e7\u00f5es, menos dom\u00ednio temos sobre o conhecimento. Diante de tanta sabedoria dispon\u00edvel nunca nos sentimos t\u00e3o ignorantes.<\/p>\n<p>Lembrando as teorias de\u00a0 Marshal Mcluhan[21], a maioria dessas tecnologias foi criada para funcionar como extens\u00f5es mec\u00e2nicas do corpo humano, isto \u00e9, dos impulsos el\u00e9tricos do c\u00e9rebro. Esses mecanismos s\u00e3o efeitos das intelig\u00eancias voltadas para o mundo bidimensional da mat\u00e9ria e para as comodidades exteriores da experi\u00eancia humana. Na perspectiva materialista, as solu\u00e7\u00f5es de todos os problemas estariam apenas nesse campo tecnol\u00f3gico refletido pelos paradigmas c\u00e9rebro, esquecendo-se que os problemas de ordem subjetiva est\u00e3o apenas come\u00e7ando a dar os primeiros sinais de um longo caminho a ser percorrido. As intelig\u00eancias subjetivas (interpessoal e intrapessoal), invertendo o seu percurso racional para o caminho emocional, pela verticaliza\u00e7\u00e3o ou interioriza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m dar\u00e3o novos rumos para as intelig\u00eancias objetivas. O conhecimento e suas express\u00f5es no campo das artes e da ci\u00eancias sofrer\u00e3o profundas transforma\u00e7\u00f5es nas suas estruturas e manifesta\u00e7\u00f5es. Segundo o fil\u00f3sofo italiano Pietro Ubaldi, nos pr\u00f3ximos mil\u00eanios surgir\u00e3o novos paradigmas do universo mental e que s\u00f3 poder\u00e3o ser compreendidos e sintetizados pela faculdade da intui\u00e7\u00e3o. Esta ser\u00e1 a pedra fundamental, a antena b\u00e1sica, o censor mais imediato e acess\u00edvel para navegarmos no ainda desconhecido oceano universal do Esp\u00edrito.\u00a0 Como os morcegos e golfinhos, ainda mergulhados no microcosmo de Ego, os primeiros seres humanos da Nova Idade C\u00f3smica, ingressar\u00e3o nes se universo praticamente cegos e se guiar\u00e3o nessa escurid\u00e3o espiritual pelos sinais do pr\u00f3prio esfor\u00e7o que emitirem. A claridade que buscam n\u00e3o ser\u00e1 mais revelada pelos sentidos f\u00edsicos ou pela raz\u00e3o, pois estas j\u00e1 atingiram os seus limites; a claridade s\u00f3 ser\u00e1 atingida atrav\u00e9s da leitura emocional, pela transforma\u00e7\u00e3o gradual dos sentimentos, cujas chaves abrir\u00e3o as portas do Sexto e do S\u00e9timo Sentidos e todas a suas conseq\u00fc\u00eancias naturais.\u00a0 Todas as demais faculdades despertadas por essas novas experi\u00eancias, e que nos permitir\u00e3o fazer a leitura desses novos ambientes, ser\u00e3o extens\u00f5es da intui\u00e7\u00e3o. Um exemplo: assim como a vis\u00e3o bidimensional \u00e9 um fen\u00f4meno f\u00edsico captado pelo c\u00e9rebro, a supervis\u00e3o multidimensional ser\u00e1 um fen\u00f4meno metaf\u00edsico, captado pela mente, pela crescente sensibilidade entuitivo-sensitiva.<\/p>\n<p><big><big>14. O Homem Teol\u00f3gico<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cEle errecefer\u00e1 a chama. Ser\u00e1 considerado o pastor de todos os homens. Mal nenhum existir\u00e1 em seu cora\u00e7\u00e3o. Quando seus rebanhos s\u00e3o poucos, ele passa o dia a reuni-los, pois est\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o febril. Ele lhes discernir\u00e1 o car\u00e1ter da primeira gera\u00e7\u00e3o. E destruir\u00e1 o mal. Suprir\u00e1 a semente da heran\u00e7a. (&#8230;) Onde est\u00e1 esse homem hoje?\u00a0 Dormindo, por acaso? Aten\u00e7\u00e3o, o seu poder \u00e9 invis\u00edvel. \u2013 Testamento de Ptah-hotep, primeiro-ministro do fara\u00f3 na Quinta Dianstia, 2880\u00a0 aC.<\/div>\n<p>O Homem Teol\u00f3gico \u00e9 o primeiro an\u00fancio prof\u00e9tico do Homem Espiritual do futuro. Enquanto o Homem Biol\u00f3gico anunciava o in\u00edcio da postura f\u00edsica vertical, este anuncia os primeiros passos da verticaliza\u00e7\u00e3o espiritual; \u00e9 o produto mental de uma quinta ra\u00e7a, ainda hoje predominante, mas que ser\u00e1 brevemente substitu\u00edda pela sexta e posteriormente por uma s\u00e9tima, que ser\u00e1 a s\u00edntese de todas as anteriores.\u00a0 Segundo a tradi\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica a quinta ra\u00e7a foi gerada das matrizes arianas, fonte das primeiras civiliza\u00e7\u00f5es que apareceram nas margens dos grandes rios.\u00a0 Do Nilo surge o Egito, do Tigre e do Eufrates brotam as civiliza\u00e7\u00f5es da Mesopot\u00e2mia, do Ganges nasce a \u00cdndia, e dos rios Azul e Amarelo, a China.\u00a0 S\u00e3o socied ades organizadas pelo impulso pol\u00edtico de governos teocr\u00e1ticos, onde a religi\u00e3o influencia a tudo e a todos: o poder, o trabalho, a divis\u00e3o de classes, as categorias profissionais, as artes e as ci\u00eancias. Os historiadores marxistas definiram esse sistema como um \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o asi\u00e1tico\u201d, vendo o fator econ\u00f4mico como o principal motor dessas civiliza\u00e7\u00f5es. Mas, culturalmente falando, a religi\u00e3o e a teologia eram as for\u00e7as predominantes, a base ideol\u00f3gica de todas as pe\u00e7as do sistema: do Estado, da organiza\u00e7\u00e3o social, das rela\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas, das ci\u00eancias e das artes.\u00a0 Esse perfil teol\u00f3gico tamb\u00e9m \u00e9 reflexo da acelera\u00e7\u00e3o vertical da\u00a0 espinha esp\u00edrito-dorsal que sofremos\u00a0 desde as r\u00fasticas experi\u00eancias da pr\u00e9-hist\u00f3ria. Do per\u00edodo glacial, no qual a esp\u00e9cie humana poderia ter sido extinta se n\u00e3o tivesse dominado a tecnologia do fogo, at\u00e9 o s primeiros tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, ocorre uma consider\u00e1vel eleva\u00e7\u00e3o do eixo dorsal, sempre em busca do equil\u00edbrio entre o pensar, o sentir e o agir.<\/p>\n<p>A sociedade humana n\u00e3o comportava mais as estruturas do comunismo primitivo; \u00e9 um momento em que a energia vital que move todos os seres para a evolu\u00e7\u00e3o desperta em n\u00f3s um forte egocentrismo e n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de dividir, sem conflito com o outro, as escassas riquezas de sobreviv\u00eancia. A competi\u00e7\u00e3o pela for\u00e7a vai aos poucos sendo substitu\u00edda pela intelig\u00eancia. Para administrar a desigualdade e impor a autoridade comum, surge a id\u00e9ia do Estado-pessoa, uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cuja abstra\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser compreendida quando simbolizada numa figura humana incomum. Essa imagem humana viva \u00e9 necess\u00e1ria para que cessem as crises de poder e se estabele\u00e7a uma nova ordem social. Os monarcas da Mesopot\u00e2mia e os fara\u00f3s eg\u00edpcios s\u00e3o exemplos t\u00edpicos dessa nova fase da Humanidade, de homens-deuses, cujas figuras eram erguidas ao altar da sacr aliza\u00e7\u00e3o e se apoiavam em poderosos dogmas e supersti\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas. A religi\u00e3o organizada serve como suporte pol\u00edtico e a ideologia como importante fator de controle social. Os Estados devem ser sempre sustentados por um aparato teocr\u00e1tico-sacerdotal. O clero \u00e9 um estamento essencial\u00a0 para o exerc\u00edcio da manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. Se por um lado a maioria dos religiosos se prestam ao papel de servos do poder, por outro lado surgem, em momento marcantes, figuras um tanto estranhas ao contexto para subverterem a ordem e dar um novo rumo \u00e0s coisas. Esses homens possuem um grau de consci\u00eancia que lhes permitem distinguir o ser humano da Natureza e essa distin\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pela moral. Eles observam que a Natureza \u00e9 regida por leis imut\u00e1veis e que essas mesmas leis se manifestam\u00a0 nos seres humanos e nos grupos atrav\u00e9s do comportamento e da moral. A lei de a\u00e7\u00e3o de rea\u00e7\u00e3o que ocorre no plano da f\u00edsic a \u00e9 a mesma que regula o uso da viol\u00eancia e a pr\u00e1tica da solidariedade. A lei da polaridade que define a atua\u00e7\u00e3o dos elementos contr\u00e1rios \u2013 positivo e negativo, claro e escuro, perto e longe, pequeno e grande, etc, no cen\u00e1rio natural \u00e9 id\u00eantica quando aplicada nos pap\u00e9is sociais \u2013 forte e fraco, masculino e feminino, o bem e mal.\u00a0 Personalidades intrigantes como Zoroastro, Sidartha Gautama (Budha) funcionam nesses tempos remotos como modelos avan\u00e7ados de equil\u00edbrio emocional e intelig\u00eancia. Essa percep\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada que eles possuem sobre as leis da Natureza e do Universo logo se transformam em tratados filos\u00f3ficos ou motivos de exemplifica\u00e7\u00e3o vivencial. S\u00e3o legisladores e pedagogos que estabelecem novos paradigmas de comportamento e tudo o que fazem servem como impulso para grandes transforma\u00e7\u00f5es. Mois\u00e9s e os profetas hebreus tamb\u00e9m marcam esse per\u00edodo servindo ao mesmo tempo de modelo de ruptura da cultura polite\u00edsta\u00a0 e estabelecimento do monote\u00edsmo como a grande tend\u00eancia religiosa do futuro. Todas essas grandes intelig\u00eancias buscam despertar nos homens comuns a id\u00e9ia de que somos seres divinos e imortais. Suas id\u00e9ias v\u00e3o de encontro \u00e0s necessidades do povo, mas geralmente colidem com os interesses pol\u00edticos vigentes. \u00c9 um confronto inevit\u00e1vel no qual raramente houve acordos e coopera\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as em choque. Eram tempos em que a emo\u00e7\u00e3o ofuscava a raz\u00e3o. A morte, antes vista como um acontecimento natural, foi adquirindo significados ritual\u00edsticos, cuja magia serviu para manipular, para o bem ou para mal, esse medo do desconhecido[22]:<\/p>\n<div>\u201cMedo da morte, admira\u00e7\u00e3o diante da causa das coisas e dos acontecimentos inintelig\u00edveis, esperan\u00e7a de aux\u00edlio divino e gratid\u00e3o pelo bom que acontece, tudo isso contribui para gerar a f\u00e9 religiosa. Admira\u00e7\u00e3o e mist\u00e9rio ligavam-se em especial ao sexo e aos sonhos, e \u00e0 misteriosa influ\u00eancia dos corpos celestes sobre a Terra e o homem. Os primitivos maravilhavam-se diante dos fantasmas que viam durante o sono e aterrorizavam-se quando lhes apareciam a imagem de parentes e amigos mortos. Enterravam os mortos a fim de que n\u00e3o voltassem \u00e0 Terra; com eles enterravam seus pertences e v\u00edveres, de medo que viessem persegu\u00ed-los; \u00e0s vezes deixavam o cad\u00e1ver em casa e mudavam-se; em alguns lugares o corpo era retirado por um buraco aberto na parede e conduzido rapidamente, por tr\u00eas vezes, ao redor da casa, para que o esp\u00edrito esquecesse a entrada e nunca viesse assombr\u00e1-la.Tais experi\u00eancias convenceram o homem primitivo de que cada criatura possu\u00eda uma alma, ou vida secreta dentro de si, a qual se separava do corpo na doen\u00e7a, no sono ou na morte.\u00a0 \u2018N\u00e3o desperteis ningu\u00e9m abruptamente\u2019, diz um dos Upanishads da antiga \u00cdndia, \u201cporque pode acontecer que a alma n\u00e3o encontre meio de voltar ao corpo\u201d. N\u00e3o s\u00f3 o Homem, mas todas as coisas\u00a0 tinham alma; o mundo externo n\u00e3o era insens\u00edvel ou morto, mas intensamente vivo; se n\u00e3o fosse assim, pensava a antiga filosofia, a natureza seria incompreens\u00edvel, no movimento do Sol, no raio; murm\u00fario das \u00e1rvores. O meio pessoal de conceber objetos e eventos precedeu o impessoal e abstrato; a religi\u00e3o veio antes da filosofia. Tal animismo constitui a poesia da religi\u00e3o, e a religi\u00e3o da poesia.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\u201c(&#8230;) Havendo concebido um mundo de esp\u00edritos, cuja natureza e prop\u00f3sitos ignorava, o homem primitivo procurou propici\u00e1-los, para captar-lhes a benevol\u00eancia. Ai animismo, que \u00e9 a ess\u00eancia da religi\u00e3o primitiva, foi adicionada a m\u00e1gica, que \u00e9 a ess\u00eancia dos primeiros rituais.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>(&#8230;) O fil\u00f3sofo aceita resignado e de bom grado esta humana necessidade do aux\u00edlio ou conforto sobrenatural, e consola-se observando que, assim como o animismo criou a poesia, a m\u00e1gica gerou a ci\u00eancia. Frazer demonstrou como as gl\u00f3rias da ci\u00eancia\u00a0 se radicam nos absurdos da m\u00e1gica. Porque, como a m\u00e1gica falhasse muito, o m\u00e1gico esfor\u00e7ou-se por descobrir causas naturais, a fim de coloc\u00e1-las a servi\u00e7o de seus prop\u00f3sitos. Lentamente os meios naturais predominaram, embora o m\u00e1gico, para preservar sua posi\u00e7\u00e3o diante do povo cr\u00e9dulo, ocultasse as causas naturais e tudo atribu\u00edsse ao milagre. Disso saiu o m\u00e9dico, o qu\u00edmico, o metalurgista e o astr\u00f4nomo.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>Outro filho da m\u00e1gica foi o sacerdote. Gradualmente os sacerdotes foram suplantando o homem comum em conhecimento e habilidade, at\u00e9 que passaram a constituir uma classe especial apta a conduzir as cerim\u00f4nias religiosas. Por meio da inspira\u00e7\u00e3o, do transe ou da prece esot\u00e9rica, o sacerdote m\u00e1gico influenciava os esp\u00edritos ou deuses e os adaptava aos prop\u00f3sitos humanos. E como esse conhecimento e essa habilidade pareciam aos primitivos amais valiosa de todas as coisas, o poder dos sacerdotes passou a ser t\u00e3o grande quanto o do Estado; e at\u00e9 nos tempos modernos o sacerdote se vem alternando com o guerreiro na domina\u00e7\u00e3o e disciplina do homem comum. A Hist\u00f3ria do Egito, da Jud\u00e9ia e da Idade M\u00e9dia constituem os melhores exemplos.O sacerdote n\u00e3o criou a religi\u00e3o, apenas utilizou-se dela, como o estadista se utiliza dos impulsos e costumes da humanidade; a religi\u00e3o n\u00e3o emerge da inven\u00e7\u00e3o, ou da chicana sacerdotal, mas da persistente admira\u00e7\u00e3o, do medo, da inseguran\u00e7a, da fraqueza do homem na Terra. O sacerdote causou males, tolerando a supersti\u00e7\u00e3o e monopolizando certas formas de conhecimento; mas deu aos povos rudimentos da educa\u00e7\u00e3o, agiu como reposit\u00f3rio e ve\u00edculo da heran\u00e7a cultural da ra\u00e7a, consolou os fracos explorados pelos fortes e tornou-se agente atrav\u00e9s do qual a religi\u00e3o nutriu a arte e deu aux\u00edlio sobrenatural \u00e0 prec\u00e1ria estrutura da moralidade humana. Se o sacerdote n\u00e3o aparecesse, o povo o inventaria.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>A verdade \u00e9 que nunca aceitamos o fato da morte biol\u00f3gica. Progredimos em muitos aspectos e situa\u00e7\u00f5es da vida, mas neste terreno ainda patinamos sem sair do lugar. Em todas \u00e9pocas desenvolvemos formas de fuga e adapta\u00e7\u00e3o para encarar o fen\u00f4meno que p\u00f5e fim \u00e0s nossas exist\u00eancias. Na Pr\u00e9-hist\u00f3ria, quando \u00e9ramos n\u00f4mades, algu\u00e9m do grupo morria e o defunto simplesmente ficava para tr\u00e1s, juntamente com os restos das coisas que comemos e da fogueira que acendemos para nos aquecer. Dali segu\u00edamos numa caminhada para o futuro, que era algum lugar onde encontr\u00e1ssemos alimento e abrigo. A id\u00e9ia de futuro ainda n\u00e3o nos preocupava pois era o somente o dia seguinte e a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a era\u00a0 conseguir que o est\u00f4mago ficasse cheio. O defunto que surgia durante a caminhada n\u00e3o representava nenhum inc\u00f4modo sen\u00e3o por r\u00e1pidos e indiferentes olhares de incompreens\u00e3o e alguns segundos de d\u00favidas sem respostas que logo abandon\u00e1vamos juntamente com o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que a Consci\u00eancia foi se verticalizando, os defuntos passaram ser objetos de intranq\u00fcilidade. Percebemos que com eles morriam tamb\u00e9m algumas coisas que nos diziam respeito: a mem\u00f3ria, as experi\u00eancias e os sentimentos. A sedentariza\u00e7\u00e3o da sociedade humano, advinda com a agricultura e da pecu\u00e1ria, e obtida pela necessidade de cuidar das coisas necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia que estavam ao nosso redor, deram um novo significado para a morte de membros do grupo. Eles agora tamb\u00e9m precisam ficar por perto, juntamente com a lavoura e\u00a0 com os animais dom\u00e9sticos. O apodrecimento do cad\u00e1ver \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda que ser\u00e1 solucionada pelo sepultamento na terra e o t\u00famulo vai representar a sua mem\u00f3ria, a lembran\u00e7a simb\u00f3lica de quando estava vivo. As sepulturas dom\u00e9sticas passam ent\u00e3o a ter propor\u00e7\u00f5es de necr\u00f3poles quando a urbaniza\u00e7\u00e3o passa a ser o meio social comum. Essa rela\u00e7\u00e3o sagrada que estabelecemos com a morte, para cultivar a mem\u00f3ria dos que se foram, quando a sociedade humana torna-se sedent\u00e1ria, mudou o sentido da nossa caminhada para o tempo futuro, deslocando-a do mundo exterior e geol\u00f3gico para o nosso mundo interior e psicol\u00f3gico. Essa invers\u00e3o de percurso veio acompanhada de um medo irracional pelo desconhecido, representado pela morte do outro. Como entender e aceitar a nossa morte se temos como par\u00e2metro somente a morte do outros? As fugas que empreendemos para adaptar-nos a essa situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria s\u00e3o vis\u00edveis nas representa\u00e7\u00f5es macabras da arte f\u00fanebre g\u00f3tica da Idade M\u00e9dia, no erotismo barroco da Idade Moderna. Na Idade Contempor\u00e2nea, com o advento da industrializa\u00e7\u00e3o e da sociedade de massas, ocorre uma banaliza\u00e7\u00e3o da morte, quando as trag\u00e9dias que antes causavam esc\u00e2ndalos e impactos s\u00e3o reduzidas a not\u00edcias repetitivas dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Mas a racionaliza\u00e7\u00e3o da vida social e do espa\u00e7o geogr\u00e1fico novamente transformam os defuntos em objetos inc\u00f4modos. A morte s\u00fabita, que antes causava expectativa e choque, agora pode ser prolongada ou abreviada pela ci\u00eancia m\u00e9dica. \u00c9 uma forma de mant\u00ea-la distante do ambiente dom\u00e9stico, pequeno e restrito, nos hospitais e vel\u00f3rios p\u00fablicos. Dessa forma somos menos atingidos quando algu\u00e9m morre. As lembran\u00e7as e a saudade talvez ser\u00e3o mais brandas se n\u00e3o tivermos contato muito \u00edntimo com os defuntos. Como se v\u00ea, n\u00e3o progredimos quase nada.<\/p>\n<p><big><big>15. O Homem Racional<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cN\u00e3o podemos aproximar-nos de Deus a ponto de alcan\u00e7\u00e1-lo com a nossa vista e toc\u00e1-lo com nossas m\u00e3os&#8230; Pois Deus n\u00e3o possui uma cabe\u00e7a ligada ao tronco, e de seus ombros n\u00e3o pendem dois bra\u00e7os como se fossem galhos; n\u00e3o tem p\u00e9s, nem joelhos, nem partes peludas. N\u00e3o; ele \u00e9 s\u00f3 esp\u00edrito, sagrado e inef\u00e1vel esp\u00edrito, a lan\u00e7ar por todo o universo a r\u00e1pida fa\u00edsca dos pensamentos.\u201d &#8211; Emp\u00e9docles<\/div>\n<p>O percurso do Homem Biol\u00f3gico ao Homem Teol\u00f3gico caracterizou-se inicialmente pela descoberta do pr\u00f3prio corpo e uma profunda integra\u00e7\u00e3o m\u00e1gica com a Natureza, at\u00e9 que esses tra\u00e7os de comportamento recebessem um tratamento m\u00edstico e fossem transformados em rituais dogm\u00e1ticos das pr\u00e1ticas sacerdotais. Essa fase entre a inf\u00e2ncia da Humanidade at\u00e9 o in\u00edcio da sua adolesc\u00eancia, na quinta ra\u00e7a, seria rompida quando os povos\u00a0 da Antiguidade atingissem o seu z\u00eanite existencial. Este \u00e9 o momento em que a \u00c1sia ser\u00e1 substitu\u00edda pela Europa como centro da Civiliza\u00e7\u00e3o, quando o p\u00eandulo do tempo humano marca a decad\u00eancia do Oriente e a lenta ascens\u00e3o hist\u00f3rica do Ocidente. O cen\u00e1rio\u00a0 dessa mudan\u00e7a \u00e9 a Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica, especificamente a Gr\u00e9cia, que ser\u00e1 a depos it\u00e1ria da maioria dos conhecimentos e experi\u00eancias das civiliza\u00e7\u00f5es das ra\u00e7as atlantes (civiliza\u00e7\u00e3o creto-mic\u00eancica). A partir do s\u00e9culo XX a.C. ,\u00a0 chegam\u00a0 as primeiras levas migrat\u00f3rias das tribos arianas. Ali vai acontecer uma das mais fascinantes transforma\u00e7\u00f5es da natureza humana, a descoberta da psiqu\u00ea, na qual o Homem vai perceber o sentido original das coisas e de si mesmo. Atrav\u00e9s dela vai estabelecer-se a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre o ser e o objeto de sua observa\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7a esta que fez dos gregos seres humanos diferentes dos eg\u00edpcios e mesopot\u00e2mios. Para eles o mundo estava dividido entre os helenos, homens livres e aut\u00f4nomos,\u00a0 e os homens \u201cb\u00e1rbaros\u201d, escravos dos outros porque eram escravos de si mesmos; porque n\u00e3o possu\u00edam auto-estima, senso de dignidade e n\u00e3o valorizavam o livre-arb\u00edtrio. Os primeiros gregos acreditavam , portanto, que n\u00e3o eram pessoas comuns e que descendiam dos deuses. Ao julgar os erros da humanidade e decidir o destino dos homens, Zeus, o pai de todos os deuses, escolheu o justo Deucali\u00e3o e sua virtuosa esposa Pirra para garantir a perpetua\u00e7\u00e3o da Humanidade. Os gregos s\u00e3o descendentes de Heleno, um dos filhos de Deucali\u00e3o.\u00a0 Essa \u00e9 a forma como essa civiliza\u00e7\u00e3o observa o mundo e as coisas, medindo a tudo e a todos\u00a0 pela r\u00e9gua do ponto de vista antropol\u00f3gico. Para eles, at\u00e9 mesmo os deuses\u00a0 do Olympo eram homens, cujos defeitos e virtudes teciam as tramas do destino humano. Se o Homem \u00e9 a medida de todas as coisas, a medida mais verdadeira \u00e9 a raz\u00e3o, que \u00e9 a virtude (aret\u00ea) essencial, para eles , mais confi\u00e1vel e menos suspeita. \u00c9 por isso que na mitologia grega encontramos todas as refer\u00eancias poss\u00edveis e imagin\u00e1veis da cultura humana a tual. Se o juda\u00edsmo deu in\u00edcio \u00e0 nossa \u00e9tica e \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com \u00e0s nossas origens e o destino; se o cristianismo potencializou os nossos valores, sentimentos e emo\u00e7\u00f5es, no helenismo est\u00e1 toda a s\u00edntese do nosso pensamento[23]:<\/p>\n<div>\u201cExcetuando a maquinaria, com dificuldade encontramos algo secular em nossa cultura que n\u00e3o tenha vindo da Gr\u00e9cia. Escolas, gin\u00e1sios, aritm\u00e9tica, geometria, hist\u00f3ria, ret\u00f3rica, f\u00edsica, biologia, anatomia, higiene, terapia, cosm\u00e9ticos, poesia, m\u00fasica, trag\u00e9dia, com\u00e9dia, filosofia, teologia, agnosticismo, ceticismo, estoicismo, epicurismo, \u00e9tica, pol\u00edtica, idealismo, filantropia, cinismo, tirania, plutocracia, democracia: todas s\u00e3o palavras gregas para designar formas de cultura raramente originadas, mas quase sempre amadurecidas, para o bem ou para o mal, pela exuberante energia dos gregos. Todos os problemas que hoje nos preocupam \u2013 o desflorestamento e a eros\u00e3o do solo; a emancipa\u00e7\u00e3o da mulher e a limita\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia; o conservantismo dos estabelecidos e o experimentalismo dos deslocados, na moral,\u00a0 na m\u00fasica e no governo; as corrup\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica e as pervers\u00f5es da conduta; o conflito entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia e o enfraquecimento dos esteios sobrenaturais da moralidade; as guerras de classes e de na\u00e7\u00f5es e continentes; as revolu\u00e7\u00f5es dos pobres contra o poder econ\u00f4mico dos ricos, e dos ricos contra o poder pol\u00edtico dos pobres; as lutas entre a democracia e a ditadura, entre o individualismo e o comunismo, entre o Oriente e o Ocidente \u2013 todos esses problemas agitaram, como que a nos dar uma li\u00e7\u00e3o, a brilhante e turbulenta vida da antiga H\u00e9lade&#8230; N\u00e3o h\u00e1 nada na civiliza\u00e7\u00e3o grega que n\u00e3o ilumine a nossa.\u201d<\/div>\n<p>Nos agitados tempos de ocupa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria da Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica, do long\u00ednquo s\u00e9culo XX, antes de Cristo, at\u00e9 o s\u00e9culo V, de P\u00e9ricles, o homem descobriu que era Homem, que na sua imagem, refletida no olhar sobre si mesmo, est\u00e1 a sua semelhan\u00e7a com Deus.\u00a0 Conta a historiografia que os aqueus, os e\u00f3lios e algum tempo depois os j\u00f4nios, penetraram na regi\u00e3o que seria o novo centro mundo atrav\u00e9s de uma integra\u00e7\u00e3o pac\u00edfica com os povos aut\u00f3ctones, os pel\u00e1gios. Mais tarde eles absorveram admiravelmente importantes elementos culturais da lend\u00e1ria sociedade da Ilha de Creta, dando origem \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o creto-mic\u00eanica.\u00a0 A \u00faltima leva migrat\u00f3ria veio com a for\u00e7a destruidora dos d\u00f3rios, cuja \u00edndole guerreira provo cou a primeira dispers\u00e3o dos povos gregos pelo Mediterr\u00e2neo. Essa primeira di\u00e1spora, iniciada pelo arrasamento das cidades, empurrou as gentes para a vida rural, longe dos perigos do litoral, dando origem ao Genos, a base social mais antiga da grande H\u00e9lade.\u00a0 Esses pequenos n\u00facleos familiares dirigidos por um chefe cl\u00e2nico, o Pater Fam\u00edlias, se espalharam por toda aquela complexa e atraente paisagem, tornando-se o eixo fundamental da civiliza\u00e7\u00e3o hel\u00eanica.<\/p>\n<p>O universo geogr\u00e1fico da Gr\u00e9cia continua, desde a antiguidade, um grande espet\u00e1culo natural, uma trama de acidentes f\u00edsicos que ainda seduz os olhos de qualquer viajante A parte continental exibe um suntuoso relevo de montanhas e vales quase impenetr\u00e1veis, protegidos por abismos de pedras; colado a elas, encontra-se um litoral totalmente recortado por in\u00fameras ba\u00edas e enseadas. Na parte insular, o mar foi curiosamente pulverizado por incont\u00e1vel n\u00famero de pequenas ilhas. Foi dessa mistura de elementos das tr\u00eas \u00e1reas f\u00edsicas dessa parte do sul da Europa que nasceu a principal marca geogr\u00e1fica da Gr\u00e9cia, que \u00e9 o seu isolamento natural e que influiu profundamente na forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica desses povos. Tal isolamento imp\u00f4s a eles um car\u00e1ter introspectivo, motivado pela contempla\u00e7\u00e3o das coisas que poderiam estar sempre al\u00e9m das montanhas, bem c omo a sensa\u00e7\u00e3o de infinito que vem do horizonte azul marinho do Egeu. O toque final dessa trama entre a geologia e a psicologia foi dado pela inevit\u00e1vel de solid\u00e3o que sentem os habitantes das ilhas gregas e que os tornam perpetuamente insatisfeitos consigo mesmos. Na misteriosa combina\u00e7\u00e3o entre a introspec\u00e7\u00e3o do habitante dos vales e montanhas, a postura reflexiva do homem litor\u00e2neo e a solid\u00e3o do morador insular est\u00e3o as origens da filosofia e do individualismo da cultura grega.\u00a0 Foi nesse cen\u00e1rio, no per\u00edodo pr\u00e9-hom\u00e9rico, que surgiu o Homem L\u00f3gico-Racional, atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o da mentalidade mito-po\u00e9tica para a mentalidade sist\u00eamico-teorizante. A ruptura com o universo m\u00e1gico e a racionaliza\u00e7\u00e3o das coisas divinas, incluindo a humaniza\u00e7\u00e3o de Zeus\u00a0 e sua corte, foi um momento cr\u00edtico na evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana. Estabeleceu-se nesse momento uma divis\u00e3o de caminhos na busca da verdad e: uma vereda metaf\u00edsica e espiritualista, influenciada pela tradi\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica orientalista; e outra f\u00edsica e materialista, fundada na escola racionalista ocidental. A primeira foi produto do contato de s\u00e1bios gregos com o conhecimento sacerdotal de antigas civiliza\u00e7\u00f5es, incluindo as desaparecidas Lem\u00faria e Atl\u00e2ntida; j\u00e1 a segunda teria suas origens num curioso perfil rebelde e anti-religioso das tribos arianas que se espalharam na Europa. Essa grande mudan\u00e7a da \u00f3tica m\u00edtica para a \u00f3tica racionalista \u00e9 at\u00e9 hoje um grande enigma para os historiadores humanos e algumas d\u00favidas permanecem no ar: por que os somente os gregos conseguiram romper esse limite? Como esse tipo humano descobriu a especula\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e interessou-se pela investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?\u00a0 Que tipo de experi\u00eancia deu a pensadores como Zenon a afirmarem que \u201ca raz\u00e3o \u00e9 a\u00a0 suprema conquista do homem, \u00e9 uma semente do Logos Spermatikos, ou Raz\u00e3o Seminal, que criou e governa o mundo\u201d?<\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos VII e VI aC, na transi\u00e7\u00e3o do per\u00edodo hom\u00e9rico para o arcaico, o antigo Genos entra ent\u00e3o em processo de agonia social, causada pelo aumento da popula\u00e7\u00e3o. As conseq\u00fcentes lutas entre o coletivismo e o individualismo, pela posse da riqueza agr\u00e1ria, faz explodir no mundo grego uma nova dispers\u00e3o, a segunda di\u00e1spora, espalhando o helenismo por todo o Mediterr\u00e2neo. A vit\u00f3ria do individualismo das aristocracias, atrav\u00e9s do conceito conservador da propriedade privada, vai transformando gradualmente o n\u00facleo gent\u00edlico em tribos, fr\u00e1trias, vilas, at\u00e9 que essas \u00faltimas se constituam na p\u00f3lis, as c\u00e9lebres cidades-Estado.\u00a0 Elas eram compostas pela parte alta, da Acr\u00f3pole, destinada ao cultos dos imortais deuses e her\u00f3is do Olimpo;\u00a0 e a parte baixa, da \u00c1gora e o Asty, pontos de encontro e neg\u00f3cios dos mortais.\u00a0 As p\u00f3lis ser\u00e3o povoadas pelos cidad\u00e3os, a quem Arist\u00f3teles denominou apropriadamente \u201canimais pol\u00edticos\u201d ou \u201czoopolitycon\u201d. O isolamento natural n\u00e3o inibiu totalmente o contato com o mundo exterior, mas foi respons\u00e1vel pelo desenvolvimento de fronteiras culturais, mais r\u00edgidas e resistentes do que os limites geogr\u00e1ficos. Conceitos de exclusividade social ou cidadania pela linhagem de nascimento deram origem a curiosos mecanismos de defesa ou \u201canticorpos pol\u00edticos\u201d dessas cidades. Em Esparta, por exemplo, o mito de Licurgo e a xenofobia afastavam a indisciplina e os v\u00edrus dos costumes estrangeiros. Em Atenas legisladores como Dr\u00e1con, S\u00f3lon e Cl\u00edstenes, para garantir a ordem, tiveram que inibir os abusos da escravid\u00e3o por d\u00edvidas, o regime de maioria da demos e o\u00a0 ostracismo, anticorpo que bania pelo ex\u00edlio de dez anos os inimigos do regime de liberdade participativa.<\/p>\n<p>No per\u00edodo cl\u00e1ssico, a partir do s\u00e9culo V, das cerca de 160 p\u00f3lis espalhadas nos Balc\u00e3s e dezenas de outras, atrav\u00e9s da coloniza\u00e7\u00e3o do Mediterr\u00e2neo, logicamente fizeram hist\u00f3ria o modelo aristocr\u00e1tico-militar de Esparta e o modelo democr\u00e1tico-civil de Atenas.\u00a0 Esparta, sempre fechada e exclusivista, foi fundada pelos descendentes dos guerreiros d\u00f3rios e permaneceu estacionada na homogeneidade social; Atenas, mais flex\u00edvel\u00a0 aos novos habitantes, surgiu dos descendentes dos e\u00f3lios e j\u00f4nios e foi enriquecida pela heterogeneidade.\u00a0 A primeira deu \u00e0 Humanidade homens fortes de corpo e dotados de uma coragem existencial biol\u00f3gica e f\u00edsica insup er\u00e1vel, por\u00e9m pobres de imagina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a segunda nos deu homens de grande for\u00e7a mental reflexiva e art\u00edstica, dotados de uma coragem existencial psicol\u00f3gica e metaf\u00edsica.\u00a0 Esparta nos deu homens admir\u00e1veis como o general Le\u00f4nidas e os seus 300 soldados, que morreram bravamente no desfiladeiro das Term\u00f3philas, lutando durante uma semana com mais de dois mil soldados persas. Atenas nos deu homens incompar\u00e1veis como S\u00f3crates, que soube morrer com uma espantosa serenidade, encerrando com hero\u00edsmo \u00edmpar, uma luta que travara durante toda sua exist\u00eancia, contra si mesmo.<\/p>\n<p><big>A Escola Inici\u00e1tica Pitag\u00f3rica<\/big><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica que chegou at\u00e9 n\u00f3s pelo Ocidente veio, em grande parte, atrav\u00e9s de s\u00e1bios gregos. Mais do que um costume, tornou-se uma necessidade existencial entre eles quebrar o isolamento e viajar em busca de conhecimentos incomuns\u00a0 em outros n\u00facleos inici\u00e1ticos na Europa e fora dela.\u00a0 Um dos primeiros exemplos dessas iniciativas, &#8211; imitado mais tarde por tantos outros &#8211; foi Pit\u00e1goras de Samos (580-500 a.C.), cujo nome possu\u00eda um significado especial: \u201cporta-voz do or\u00e1culo P\u00edtio, de Delfos. Suas viagens em busca do saber\u00a0 estrangeiro abrangeu lugares considerados importantes centros do saber no mundo antigo: a Ar\u00e1bia, Fen\u00edcia, S\u00edria, Cald\u00e9ia, \u00cdndia, G\u00e1lia e principalmente o Egito, onde aperfei\u00e7oou-s e em astronomia e geometria. De volta \u00e0 Gr\u00e9cia, depois de tr\u00eas d\u00e9cadas de excurs\u00f5es, estabeleceu-se em Crotona, fundando ali uma das mais famosas escolas inici\u00e1ticas, onde homens e mulheres eram tratados em regime de igualdade sexual e rigor absoluto no trato pedag\u00f3gico, como nos relata Will Durant [24]:<\/p>\n<div>\u201cPara os estudantes em geral, Pit\u00e1goras estabelecia um regime que quase transformava a escola em mosteiro. Os membros prestavam juramento de lealdade tanto para com o Mestre como de uns para com os outros. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime em afirmar que enquanto viviam na comunidade pitag\u00f3rica adotavam a comunh\u00e3o de bens. N\u00e3o podiam comer carne, ovos ou favas. O vinho era proibido, e a \u00e1gua recomendada \u2013 o que seria uma perigosa prescri\u00e7\u00e3o na baixa It\u00e1lia de hoje. (&#8230;) Os membros da escola n\u00e3o tinham permiss\u00e3o para matar animais, agredir seus semelhantes ou destruir uma \u00e1rvore plantada. Eram obrigados a vestir-se com simplicidade e portar-se modestamente, \u2018n\u00e3o se entregando jamais ao riso, sem, entretanto, se mostrarem carrancudos\u2019. N\u00e0o podiam jurar pelos deuses, pois \u2018todo homem deve organizar sua vida de modo a que lhe d\u00eaem cr\u00e9dito sem haver necessidade de juramentos\u2019. N\u00e3o podiam ofertar v\u00edtimas em sacrif\u00edcio, mas podiam orar em altares n\u00e3o maculados pelo sangue. Ao fim de cada dia faziam exame de consci\u00eancia para verificar se haviam cometido erros, quais os deveres negligenciados e quais as boas a\u00e7\u00f5es praticadas.O pr\u00f3prio Pit\u00e1goras, a n\u00e3o ser que fosse um \u00f3timo comediante, seguia esses regulamentos com o maior rigor do que qualquer aluno. Seu m\u00e9todo de vida conquistou tal respeito e autoridade entre os disc\u00edpulos que nenhum ousava queixar-se daquela ditadura pedag\u00f3gica e o autus epha (ipse dixt \u2013 (\u201cele o disse\u201d) tornou-se a f\u00f3rmula por eles adotada como ponto final em quase todos os campos do comportamento ou da teoria. Conta-se, com tocante respeito, que o Mestre jamais tomou vinho durante o dia, que se alimentava quase s\u00f3 de p\u00e3o e mel, adotando os vegetais como sobremesa; que sua t\u00fanica mantinha-se sempre alva e imaculada e que nunca se soube que ele de houvesse excedido na mesa, ou praticado o amor (sexo f\u00fatil); que nunca cedia ao riso, \u00e0 galhofa ou \u00e0 tagarelice; que nunca sua m\u00e3o se ergueu contra algu\u00e9m, nem mesmo contra um escravo. Tim\u00e3o de Atenas imaginou-o \u2018um prestigitador de serm\u00f5es solenes, empenhado na pesca de homens\u2019, mas entre os seus mais dedicados adeptos achavam-se sua esposa Teano e sua filha Damo, que podiam facilmente cotejar sua filosofia com sua vida real. A Damo, diz Di\u00f3genes La\u00e9rcio, \u2018confiou ele os seus Coment\u00e1rios, recomendando-lhe que n\u00e3o os divulgasse a ningu\u00e9m fora de casa. E ela, que podia ter vendido esses discursos por muito dinheiro, n\u00e3o o fez, pois considerava a obedi\u00eancia \u00e0s ordens do pai mais valiosa do que o ouro \u2013 embora fosse mulher.\u2019<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>A inicia\u00e7\u00e3o para a sociedade pitag\u00f3rica exigia, al\u00e9m da purifica\u00e7\u00e3o do corpo pela abstin\u00eancia e pelo dom\u00ednio de si pr\u00f3prio, a purifica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito pelo estudo cient\u00edfico. O novo disc\u00edpulo deveria manter durante os cinco primeiros anos o \u2018sil\u00eancio pitag\u00f3rico\u2019, aceitar os ensinamentos sem perguntas ou obje\u00e7\u00f5es \u2013 antes de ser considerado membro definitivo, ou lhe ser permitido \u2018ver\u2019 Pit\u00e1goras. (Este \u2018ver\u201d, ao que parece, significa beber as li\u00e7\u00f5es diretamente dos l\u00e1bios do Mestre.) Os estudantes eram divididos em exoterici, ou alunos externos, e esoterici, ou membros internos. Estes tinham direito \u00e0 sabedoria secreta e pessoal do Mestre. Quatro mat\u00e9rias formavam o curr\u00edculo: geometria, aritm\u00e9tica, astronomia e m\u00fasica.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>(&#8230;) O universo, diz Pit\u00e1goras, \u00e9 uma esfera viva, cujo centro \u00e9 a Terra (para o o observador). A Terra tamb\u00e9m \u00e9 uma esfera, girando, como os planetas, do oeste para o leste. A Terra, ali\u00e1s, todo o universo, se divide em cinco zonas \u2013 \u00e1rtica, ant\u00e1rtica, inverno e equatorial. A lua torna-se ora mais ou menos invis\u00edvel conforme sua parte iluminada pelo sol se ache mais ou menos voltada para a Terra. os eclipses da lua s\u00e3o causados pela posi\u00e7\u00e3o da Terra, ou outro corpo, entre alua e o sol. Pit\u00e1goras, diz Di\u00f3genes La\u00e9rcio,, \u2018foi a primeira pessoa que atribuiu forma redonda \u00e0 Terra, e que deu ao mundo o nome de kosmos\u2019.Tendo, com essas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 matem\u00e1tica e \u00e0 astronomia, feito mais do que qualquer outro homem para estabelecer a ci\u00eancia na Europa, Pit\u00e1goras passou \u00e0 filosofia. A palavra em si \u00e9 ao que parece uma de suas cria\u00e7\u00f5es. Rejeitou ele o termo sophia, ou sabedoria, como pretensioso, e denominou a seu sistema de busca de conhecimentos, philosophia \u2013 amor da sabedoria. No s\u00e9culo VI aC. fil\u00f3sofo e pitag\u00f3rico eram sin\u00f4nimo.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>O historiador que escreveu essas linhas sobre Pit\u00e1goras, assim como suas fontes contempor\u00e2neas, embora admiravelmente eruditos, n\u00e3o possu\u00edam a maturidade da dimens\u00e3o espiritual para avaliar o car\u00e1ter e o aspecto esot\u00e9rico da obra do grande Mestre grego. Percebemos isso claramente quando ele fala da disciplina inici\u00e1tica e das id\u00e9ias pitag\u00f3ricas sobre evolu\u00e7\u00e3o espiritual e tamb\u00e9m quando confunde a lei da reencarna\u00e7\u00e3o com a cren\u00e7a na metempsicose. A metempsicose sempre foi usada no Oriente como forma de terrorismo m\u00edtico-sacerdotal para com as massas ignorantes. Essa confus\u00e3o de conceitos pode ter sido utilizada de forma proposital na escola de Pit\u00e1goras, para testar os novos alunos sobre a receptividade da id\u00e9ia de reencarna\u00e7\u00e3o, conceito ainda hoje complexo para esp\u00edritos imaturos, e prepar\u00e1-los para a transi\u00e7\u00e3o entre o conhecimento ex ot\u00e9rico (externo e aparente) ao esot\u00e9rico (interno e real). Mesmo assim, Durant nos d\u00e1 curiosas informa\u00e7\u00f5es\u00a0 sobre ele:<\/p>\n<div>\u201cNesse ponto a m\u00edstica de Pit\u00e1goras, haurida no Egito e no Oriente Pr\u00f3ximo entregou-se aos mais\u00a0 livres devaneios. A alma, acreditava ele, dividia-se em tr\u00eas partes: sentido, intui\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o. O sentido centralizava-se no cora\u00e7\u00e3o; a intui\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, no c\u00e9rebro. Sentido e intui\u00e7\u00e3o encontram-se tanto nos animais como nos homens; a raz\u00e3o s\u00f3 ao homem pertence e \u00e9 imortal. Depois da morte a alma passa por um per\u00edodo de purga\u00e7\u00e3o no Hades; em seguida regressa \u00e0 Terra e penetra em outro corpo, numa cadeia de transmigra\u00e7\u00e3o que s\u00f3 termina com uma exist\u00eancia perfeitamente virtuosa. Pit\u00e1goras divertia-se, ou talvez maravilhasse, seu adeptos contando-lhes que nas precedentes encarna\u00e7\u00f5es ele fora, primeiro, uma cortes\u00e3 e, depois, o her\u00f3i Euforbo; dizia lembrar-se nitidamente de suas aventuras no cerco de Tr\u00f3ia, e reconheceu num templo de Argos, a armadura que havia usado na exist\u00eancia anterior.\u00a0 Ouvindo o ganir de um c\u00e3o espancado, correu-lhe em socorro, afirmando Ter reconhecido em seus uivos a voz de um amigo morto.\u201d<\/div>\n<p><big>OS VERSOS DE OURO DE PIT\u00c1GORAS<\/big><\/p>\n<ol>\n<li>Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.<\/li>\n<li>A seguir, reverencia o juramento que fizeste.<\/li>\n<li>Depois os her\u00f3is ilustres, cheios de bondade e luz.<\/li>\n<li>Homenageia, ent\u00e3o, os esp\u00edritos terrestres e manifesta por eles o devido respeito.<\/li>\n<li>Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua fam\u00edlia.<\/li>\n<li>Entre os outros, escolhe como amigo o mais s\u00e1bio e virtuoso.<\/li>\n<li>Aproveita seus discursos suaves, e aprende com os atos dele que s\u00e3o \u00fateis e virtuosos.<\/li>\n<li>Mas n\u00e3o afasta teu amigo por um pequeno erro.<\/li>\n<li>Porque o poder \u00e9 limitado pela necessidade.<\/li>\n<li>Leva bem a s\u00e9rio o seguinte: Deves enfrentar e vencer as paix\u00f5es.<\/li>\n<li>Primeiro a gula, depois a pregui\u00e7a, a lux\u00faria, e a raiva.<\/li>\n<li>N\u00e3o faz junto com outros, nem sozinho, o que te d\u00e1 vergonha.<\/li>\n<li>E, sobretudo, respeita a ti mesmo.<\/li>\n<li>Pratica a justi\u00e7a com teus atos e com tuas palavras.<\/li>\n<li>E estabelece o h\u00e1bito de nunca agir impensadamente.<\/li>\n<li>Mas lembra sempre um fato, o de que a morte vir\u00e1 a todos.<\/li>\n<li>E que as coisas boas do mundo s\u00e3o incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.<\/li>\n<li>Suporta com paci\u00eancia e sem murm\u00fario a tua parte, seja qual for.<\/li>\n<li>Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lan\u00e7a sobre os seres humanos.<\/li>\n<li>Mas esfor\u00e7a-te por aliviar a tua dor no que for poss\u00edvel.<\/li>\n<li>E lembra que o destino n\u00e3o manda muitas desgra\u00e7as aos bons.<\/li>\n<li>O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora \u00e9 algo bom, em seguida \u00e9 algo mau.<\/li>\n<li>Portanto, n\u00e3o aceita cegamente o que ouves, nem o rejeita de modo precipitado.<\/li>\n<li>Mas se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paci\u00eancia.<\/li>\n<li>Cumpre fielmente, em todas as ocasi\u00f5es, o que te digo agora.<\/li>\n<li>N\u00e3o deixa que ningu\u00e9m, com palavras ou atos,<\/li>\n<li>Te leve a fazer ou dizer o que n\u00e3o \u00e9 melhor para ti.<\/li>\n<li>Pensa e delibera antes de agir, para que n\u00e3o cometas a\u00e7\u00f5es tolas.<\/li>\n<li>Porque \u00e9 pr\u00f3prio de um homem miser\u00e1vel agir e falar impensadamente.<\/li>\n<li>Mas faze aquilo que n\u00e3o te trar\u00e1 afli\u00e7\u00f5es mais tarde, e que n\u00e3o te causar\u00e1 arrependimento.<\/li>\n<li>N\u00e3o faze nada que sejas incapaz de entender.<\/li>\n<li>Por\u00e9m, aprende o que for necess\u00e1rio saber; deste modo, tua vida ser\u00e1 feliz.<\/li>\n<li>N\u00e3o esquece de modo algum a sa\u00fade do corpo.<\/li>\n<li>Mas d\u00e1 a ele alimento com modera\u00e7\u00e3o, o exerc\u00edcio necess\u00e1rio e tamb\u00e9m repouso \u00e0 tua mente.<\/li>\n<li>O que quero dizer com a palavra modera\u00e7\u00e3o \u00e9 que os extremos devem ser evitados.<\/li>\n<li>Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem lux\u00faria.<\/li>\n<li>\u00a0Evita todas as coisas que causar\u00e3o inveja.<\/li>\n<li>\u00a0E n\u00e3o comete exageros. Vive como algu\u00e9m que sabe o que \u00e9 honrado e decente.<\/li>\n<li>\u00a0N\u00e3o age movido pela cobi\u00e7a ou avareza. \u00c9 excelente usar a justa medida em todas estas coisas.<\/li>\n<li>\u00a0Faze apenas as coisas que n\u00e3o podem ferir-te, e decide antes de faz\u00ea-las.<\/li>\n<li>\u00a0Ao deitares, nunca deixe que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,<\/li>\n<li>\u00a0Enquanto n\u00e3o revisares com a tua consci\u00eancia mais elevada todas as tuas a\u00e7\u00f5es do dia.<\/li>\n<li>\u00a0Pergunta: &#8220;Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?&#8221;<\/li>\n<li>Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.<\/li>\n<li>Pratica integralmente todas estas recomenda\u00e7\u00f5es. Medita bem nelas. Tu deves am\u00e1-las de todo o cora\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>\u00a0S\u00e3o elas que te colocar\u00e3o no caminho da Virtude Divina.<\/li>\n<li>\u00a0Eu o juro por aquele que transmitiu \u00e0s nossas almas o Quatern\u00e1rio Sagrado.<\/li>\n<li>\u00a0Aquela fonte da natureza cuja evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 eterna.<\/li>\n<li>Nunca come\u00e7a uma tarefa antes de pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o e a ajuda dos Deuses.<\/li>\n<li>\u00a0Quando fizeres de tudo isso um h\u00e1bito,<\/li>\n<li>\u00a0Conhecer\u00e1s a natureza dos deuses imortais e dos homens,<\/li>\n<li>\u00a0Ver\u00e1s at\u00e9 que ponto vai a diversidade entre os seres, e aquilo que os cont\u00e9m, e os mant\u00e9m em unidade.<\/li>\n<li>\u00a0Ver\u00e1s ent\u00e3o, de acordo com a Justi\u00e7a, que a subst\u00e2ncia do Universo \u00e9 a mesma em todas as coisas.<\/li>\n<li>Deste modo n\u00e3o desejar\u00e1s o que n\u00e3o deves desejar, e nada neste mundo ser\u00e1 desconhecido de ti.<\/li>\n<li>\u00a0Perceber\u00e1s tamb\u00e9m que os homens lan\u00e7am sobre si mesmos suas pr\u00f3prias desgra\u00e7as, voluntariamente e por sua livre escolha.<\/li>\n<li>\u00a0Como s\u00e3o infelizes! N\u00e3o v\u00eaem, nem compreendem que o bem deles est\u00e1 ao seu lado.<\/li>\n<li>Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.<\/li>\n<li>Este \u00e9 o peso do destino que cega a humanidade.<\/li>\n<li>Os seres humanos andam em c\u00edrculos, para l\u00e1 e para c\u00e1, com sofrimentos intermin\u00e1veis,<\/li>\n<li>Porque s\u00e3o acompanhados por uma companheira sombria, a desuni\u00e3o fatal entre eles, que os lan\u00e7a para cima e para baixo sem que percebam.<\/li>\n<li>Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!<\/li>\n<li>Oh Deus nosso Pai, livra a todos eles de sofrimentos t\u00e3o grandes.<\/li>\n<li>Mostrando a cada um o Esp\u00edrito que \u00e9 seu guia.<\/li>\n<li>\u00a0Por\u00e9m, tu n\u00e3o deves ter medo, porque os homens pertencem a uma ra\u00e7a divina.<\/li>\n<li>\u00a0\u00a0a natureza sagrada tudo revelar\u00e1 e mostrar\u00e1 a eles.<\/li>\n<li>\u00a0Se ela comunicar a ti os teus segredos, colocar\u00e1s em pr\u00e1tica com facilidade todas as coisas que te recomendo.<\/li>\n<li>\u00a0E ao curar a tua alma a libertar\u00e1s de todos estes males e sofrimentos.<\/li>\n<li>\u00a0Mas evita as comidas pouco recomend\u00e1veis para a purifica\u00e7\u00e3o e a liberta\u00e7\u00e3o da alma.<\/li>\n<li>\u00a0Avalia bem todas as coisas,<\/li>\n<li>\u00a0Buscando sempre guiar-te pela compreens\u00e3o divina que tudo deveria orientar.<\/li>\n<li>\u00a0Assim, quando abandonares teu corpo f\u00edsico e te elevares no \u00e9ter.<\/li>\n<li>\u00a0Ser\u00e1s imortal e divino, ter\u00e1s a plenitude e n\u00e3o mais morrer\u00e1s.<\/li>\n<\/ol>\n<p>(Os Versos de Ouro de Pit\u00e1goras. Hierocles de Alexandria. Vers\u00e3o de 1707 por N. Rowe traduzida em portugu\u00eas por Carlos Cardoso Avelino \u2013 revista Planeta, dezembro de 2002)<\/p>\n<p><big><big>16. A Verdade de S\u00f3crates<\/big><\/big><\/p>\n<p>\u00c9 certo que o mundo grego foi o mais importante cen\u00e1rio do desenvolvimento da consci\u00eancia racional. Os prot\u00f3tipos que ali apareceram n\u00e3o s\u00f3 fizeram importantes descobertas nesse terreno vivencial, mas ampliaram tamb\u00e9m nessa fase o h\u00e1bito da reflex\u00e3o, da sistematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento, bem como seus principais modelos de \u00e9tica e comportamento. A s\u00edntese da enigm\u00e1tica sabedoria sacerdotal eg\u00edpcia, da ci\u00eancia dos caldeus, da magia dos persas\u00a0 e do ocultismo dos hindus vai manifestar-se na Pen\u00ednsula Balc\u00e2nica na forma de uma cosmogonia inquieta, inconformista e investigativa. Religi\u00e3o, mitologia, ci\u00eancia e filosofia\u00a0 formam ali uma unidade, um s\u00f3 universo em conjunto.\u00a0 Essa s\u00edntese est\u00e1 presente no importa nte conceito de Moira ou Destino, que representou para os gregos uma lei universal, um princ\u00edpio que conduz a tudo e a todos:<\/p>\n<div>\u00a0\u201c &#8230;ali estava a id\u00e9ia da lei, t\u00e3o superior ao imprevis\u00edvel arb\u00edtrio pessoal, lei que haveria de marcar a diferen\u00e7a principal entre a ci\u00eancia e a mitologia, tanto quanto entre o despotismo e a democracia. Os homens tornaram-se livres quando reconheceram que estavam sujeitos \u00e0 lei. Que os gregos, o quanto pudemos averiguar, foram os primeiros a atingir essa compreens\u00e3o e essa liberdade, tanto no terreno filos\u00f3fico como no governamental, constitui o segredo de suas realiza\u00e7\u00f5es e de sua import\u00e2ncia na hist\u00f3ria.(&#8230;) Duas correntes atravessavam paralelas a hist\u00f3ria da filosofia grega: uma naturalista, a outra m\u00edstica. Esta nasceu com Pit\u00e1goras, e vai atrav\u00e9s de Parm\u00eanides, Her\u00e1clito, Plat\u00e3o e Cleanto at\u00e9 Plotino e S\u00e3o Paulo; a naturalista teve o seu primeiro representante em Tales, e prosseguiu, atrav\u00e9s de Anaximandro, Xen\u00f3fanes, Prot\u00e1goras, Hip\u00f3crates e Dem\u00f3crito, at\u00e9 \u00c9picuro e Lucr\u00e9cio. De quando em quando algum esp\u00edrito \u2013 S\u00f3crates, Arist\u00f3teles ou Marco Aur\u00e9lio \u2013 misturava as duas correntes, numa tentativa de devassar a informul\u00e1vel complexidade da vida. Mas mesmo nesses homens a for\u00e7a dominante, caracter\u00edstica do pensamento grego, era o amor e a busca da raz\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>S\u00f3crates era filho de uma parteira com um escultor. Essas habilidades dos seus pais dariam ao mais pol\u00eamico de todos os fil\u00f3sofos a marca \u00fanica de um constante facilitador da sabedoria, nunca assumindo a postura de s\u00e1bio ou mestre. Seu estilo decepcionava aqueles que buscavam nele respostas prontas e modelos acabados de filosofia. Seu h\u00e1bito de responder uma pergunta fazendo outra pergunta irritava os que, como H\u00edpias, n\u00e3o podiam conceber a id\u00e9ia de que o verdadeiro conhecimento \u00e9 sempre uma experi\u00eancia pessoal intransfer\u00edvel e que s\u00f3 pode ser compartilhado em alguns aspectos e n\u00e3o na sua integralidade:<\/p>\n<div>\u201cPor Zeus, S\u00f3crates, n\u00e3o saber\u00e1s responder-me enquanto tu mesmo n\u00e3o declarares o que pensas da justi\u00e7a; porque n\u00e3o \u00e9 bastante que te rias dos outros, interrogando e confundindo a todos, enquanto te recusas a dar explica\u00e7\u00f5es a quem quer que seja ou a declarar tua opini\u00e3o sobre qualquer assunto.\u201d<\/div>\n<p>Os disc\u00edpulos de S\u00f3crates, gr\u00e1vidos de id\u00e9ias e conceitos ainda mal formulados, passavam por um doloroso trabalho de parto e conseq\u00fcentemente tinham que aperfei\u00e7oar suas concep\u00e7\u00f5es at\u00e9 que elas atingissem uma estrutura segura de sobreviv\u00eancia. Era uma dupla arte de fazer parir e criar:<\/p>\n<div>\u201c\u00c9 muito justa a queixa constantemente lan\u00e7ada contra mim de que fa\u00e7o perguntas aos outros e sou incapaz de respond\u00ea-las. A raz\u00e3o est\u00e1 em que o deus me obriga a ser parteiro, mas pro\u00edbe-me de dar \u00e0 luz.\u201d<\/div>\n<p>Sua coragem de lidar serenamente com os dilemas existenciais foi resultado, n\u00e3o de teorias, mas de experi\u00eancias reais e cotidianas. Perdeu o medo de viver porque fez uma op\u00e7\u00e3o de\u00a0 buscar e ter somente o que era essencial. Certa vez, ao visitar o mercado de Atenas, S\u00f3crates constatou com simplicidade e lucidez: \u201cComo s\u00e3o numerosas as coisas de que eu n\u00e3o preciso\u201d. Perdeu o medo da morte lutando como hoplita na Guerra do Peloponeso. Ao contr\u00e1rio do covarde e fanfarr\u00e3o Dem\u00f3stenes, que ao estrear num batalha e ouvir os primeiros gritos de combate, largou seus equipamentos\u00a0 fugiu horrorizado.\u00a0 S\u00f3crates destacou-se bravamente nas batalhas de P otid\u00e9ia e D\u00e9lio, contra os ferozes espartanos, passando frio, fome e toda sorte de necessidades. Era um homem grego comum nos h\u00e1bitos culturais, nos defeitos e nas apar\u00eancias, mas de um car\u00e1ter e de uma autenticidade rara e not\u00e1vel, muitas vezes desconcertante: \u201cFoi ele, realmente, o mais s\u00e1bio, o mais justo e o melhor de todos os homens que conheci\u201d, escreveu Plat\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas sua franqueza e total despreocupa\u00e7\u00e3o com os interesses menos dignos o colocava sempre em perigo. A lista de inimigos foi t\u00e3o grande e gratuita como a dos seus inimigos, pois S\u00f3crates era a pr\u00f3pria express\u00e3o e o espelho da torturante contradi\u00e7\u00e3o humana, com a diferen\u00e7a que se assumiu como tal e desenvolveu\u00a0 uma inc\u00f4moda, para os outros, auto- aceita\u00e7\u00e3o. Era ao mesmo tempo a ordem e o caos, a harmonia e o desequil\u00edbrio, a raz\u00e3o e o contra-senso, o ser e o n\u00e3o ser. Xenofonte afirmava que o contato pessoal com o fil\u00f3sofo era um prazer inigual\u00e1vel e que tal conversa, em qualquer circunst\u00e2ncia ou sobre qualquer assunto, s\u00f3 trazia benef\u00edcios ao interlocutor. Quem conversava com S\u00f3crates sofria o impacto de quem nunca se viu num esp elho. Naquele instante tinha in\u00edcio o despertar da consci\u00eancia, um caminho sem retorno que poderia ser experimentado pelo prazer ou pela revolta. Ao relatar sua experi\u00eancia com S\u00f3crates, o belo e vol\u00favel Alceb\u00edades deixa transparecer que sofrera um dano irrevers\u00edvel:<\/p>\n<div>\u201cQuando ouvimos qualquer outro homem falar, ainda que seja tido como h\u00e1bil dial\u00e9tico, suas palavras, em compara\u00e7\u00e3o com as tuas, n\u00e3o produzem o m\u00ednimo efeito em nosso esp\u00edrito; entretanto, at\u00e9 os fragmentos de tuas palavras, S\u00f3crates, ainda que de segunda m\u00e3o e imperfeitamente transmitidos, assombram e arrebatam as almas de todos os homens, mulheres e crian\u00e7as que as ouvem&#8230;E estou certo de que se n\u00e3o tivesse tapado os ouvidos e fugido \u00e0 sua voz de sereia, Ter-me-ia conservado preso a seus p\u00e9s at\u00e9 a velhice&#8230; Senti em minha alma, ou em meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;a maior das \u00e2nsias, mais violenta na ing\u00eanua mocidade do que a picada das serpentes \u2013 a \u00e2nsia da filosofia&#8230; E v\u00f3s, Fedro, Ag\u00e1ton, Erix\u00edmaco, Paus\u00e2nias, Aristodemo, Arist\u00f3fanes, v\u00f3s todos , sim, e n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer que S\u00f3crates tamb\u00e9m, todos v\u00f3s haveis experimentado a mesma loucura e a mesma paix\u00e3o pela filosofia.\u201d<\/div>\n<p>Para alguns, S\u00f3crates era a cura e para outros a doen\u00e7a, pois sua sabedoria era como concupisc\u00eancia sugerida pela Serpente, um perigo que amea\u00e7ava sempre as bases fr\u00e1geis da cultura mitol\u00f3gica e da tradi\u00e7\u00e3o policiada pelo stablishment. Sua ousadia em \u201ccorromper\u201d as mentes juvenis e \u201csubverter\u201d os costumes pol\u00edticos s\u00f3 poderia ser punida, mesmo que simbolicamente, com algo \u00e0 altura do seu veneno filos\u00f3fico: a cicuta. S\u00f3crates era um eterno problema para os atenienses, inconveniente at\u00e9 mesmo para ser eliminado. Seu ex\u00edlio pelo ostracismo poderia despertar no povo o desejo de buscar novos ares e esvaziar\u00a0 a ind\u00fastria e o com\u00e9rcio local. Sua pris\u00e3o poderia ser uma prova de que o Estado era um erro e a democracia um equ\u00edvoco. Deram-lhe, inclusive, a op\u00e7\u00e3o de fuga, mas S\u00f3crates se rec usou, pois n\u00e3o gostaria de fugir de si mesmo. Ent\u00e3o, o condenaram \u00e0 morte. Mas como matar algu\u00e9m que n\u00e3o teme a morte e zomba dos incr\u00e9dulos at\u00e9 os \u00faltimos instantes da exist\u00eancia? Jos\u00e9 Am\u00e9rico da Motta Pessanha[25] nos conta como foi esse hist\u00f3rico confronto final entre a Tradi\u00e7\u00e3o e a Verdade e como foram os inesquec\u00edveis os \u00faltimos momentos de S\u00f3crates entre os mortais:<\/p>\n<div>\u00a0\u2018N\u00e3o foi por falta de discursos que fui condenado, mas por falta de aud\u00e1cia e porque n\u00e3o quis que ouv\u00edsseis o que para v\u00f3s teria sido mais agrad\u00e1vel, S\u00f3crates lamentando-se, gemendo, fazendo e dizendo uma por\u00e7\u00e3o de coisas que considero indignas de mim, coisas que estais habituados a escutar de outros acusados\u2019.<\/div>\n<p>Sustenta-o uma certeza: mais dif\u00edcil do que evitar a morte \u00e9 \u2018evitar o mal, porque ele corre mais depressa que a morte\u2019. Quanto a esta, apenas pode ser uma destas duas coisas:<\/p>\n<div>\u2018Ou aquele que morre \u00e9 reduzido ao nada e n\u00e3o tem mais qualquer consci\u00eancia, ou ent\u00e3o, conforme ao que se diz, a morte \u00e9 uma mudan\u00e7a, uma transmigra\u00e7\u00e3o da alma do lugar onde nos encontramos para outro lugar. Se a morte \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o de todo o sentimento e assemelha-se a um desses sonos nos quais nada se v\u00ea, mesmo em sonho, ent\u00e3o morrer \u00e9 um ganho maravilhoso. (&#8230;) Por outro lado, se a morte \u00e9 como uma passagem daqui para outro lugar, e se verdade como se diz, que todos os mortos a\u00ed se re\u00fanem, pode-se, senhores ju\u00edzes, imaginar maior bem?<\/div>\n<p>Apoiado nessas hip\u00f3teses \u2013 as \u00fanicas existentes a respeito de um fato que n\u00e3o permite certezas racionais &#8211;\u00a0 o setuagen\u00e1rio S\u00f3crates despede-se, tranquilo, de seus concidad\u00e3os: \u2018Mas eis a hora de partirmos, eu para a morte, v\u00f3s para a vida. Quem de n\u00f3s segue o melhor rumo, ningu\u00e9m o sabe, enceto o deus\u201d.<\/p>\n<p>A execu\u00e7\u00e3o da pena teve de ser adiada por trinta dias. Como acontece todos os anos, um navio oficial havia sido enviado ao santu\u00e1rio de Delos para comemorar a vit\u00f3ria de Teseu, o her\u00f3i mitol\u00f3gico ateniense, sobre o Minotauro, o terr\u00edvel monstro que habitava o labirinto de Creta e se alimentava de carne humana. Enquanto o navio n\u00e3o regressasse de sua miss\u00e3o sagrada, nenhum condenado podia ser executado.<\/p>\n<div>(&#8230;) Mas o barco est\u00e1 prestes a retornar de Delos. Na v\u00e9spera de sua chegada, um dos amigos avisa S\u00f3crates: \u2018Amanh\u00e3 ter\u00e1s de morrer\u2019. O mestre n\u00e3o se perturba: \u2018Em boa hora, se assim desejarem os deuses, assim seja\u2019. Suplicam-lhe que aceite a fuga que os amigos haviam preparado. S\u00f3crates recusa e explica: a \u00fanica coisa que importa \u00e9 viver honestamente, sem cometer injusti\u00e7as, nem mesmo em retribui\u00e7\u00e3o a uma injusti\u00e7a recebida. Ningu\u00e9m, nem os amigos consegue convenc\u00ea-lo a abdicar de sua consci\u00eancia. Entra a mulher de S\u00f3crates, Xantipa, trazendo os filhos para a despedida. S\u00f3crates permanece sereno. Finalmente chega o carcereiro com a cicuta. Imperturb\u00e1vel, S\u00f3crates toma o vaso que lhe \u00e9 oferecido de um s\u00f3 gole bebendo todo o veneno. Os amigos solu\u00e7am. Mas ele ainda os anima:<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\u00a0\u2018N\u00e3o, amigos, tudo deve terminar com palavras de bom arg\u00fario: permanecei, pois, serenos e fortes\u2019.<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>Ao sentir os primeiros efeitos da cicuta, S\u00f3crates se deita. Aquele que sempre indagara sobre o significado das palavras e dos valores que regiam a conduta humana e investigara o sentido dos costumes e das leis que governavam a cidade buscava a consci\u00eancia nas a\u00e7\u00f5es e nas afirmativas, mas n\u00e3o pretendia se subtrair \u00e0s normas estabelecidas e \u00e0s exig\u00eancias dos preceitos e das institui\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticos. Porque n\u00e3o tra\u00edra sua consci\u00eancia, preferira a morte a declarar-se culpado. Mas porque respeitava a lei n\u00e3o quisera fugir da pris\u00e3o. Suas \u00faltimas palavras ainda um testemunho dessa dupla fidelidade: a si mesmo e aos compromissos assumidos. Dirige-se a um dos amigos presentes, lembrando-lhe que deviam um sacrif\u00edcio ao deus Ascl\u00e9pio. E morre.\u201d<\/div>\n<p><big><big>17. O Homem Metaf\u00edsico<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u00a0\u201cOxal\u00e1&#8230;fosse capaz de revelar a natureza do Homem como descrevo a sua figura.\u201d \u2013 Leonardo Da Vinci<\/div>\n<p>Sob a influ\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o greco-romana o Homem atingiu um grau mediano de verticaliza\u00e7\u00e3o do seu corpo espiritual, uma gradua\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos classificar, grosso modo, de 45 graus da sua consci\u00eancia potencial. Entre a recuada \u00e9poca de S\u00f3crates e o tempo de Apol\u00f4nio de Tiana, provavelmente um contempor\u00e2neo de Jesus, podemos afirmar que demos uma grande passo na longa conquista de virtudes\u00a0 rumo ao nosso Reino Interior.\u00a0 Isso se deu atrav\u00e9s das mais sublimes experi\u00eancias do conhecimento racional, na filosofia, nas ci\u00eancias, nas artes e na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos helenos.\u00a0\u00a0 Mas a heran\u00e7a biol\u00f3gica e o comportamento teol\u00f3gico ainda falavam alto na sua natureza \u00edntima e os pr\u00f3prios gregos dera m in\u00edcio aos abusos e limites dessa raz\u00e3o cujo \u00e1pice seria expressada na civiliza\u00e7\u00e3o romana. O esp\u00edrito cooperativo do genos e do pather familias tamb\u00e9m teve seus dias gloriosos na simplicidade da vida rural romana, mas, na It\u00e1lia, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica fez um percurso bem mais r\u00e1pido e inquieto: da monarquia para o Estado republicano e deste para o Imp\u00e9rio. Roma tornou-se uma poderosa m\u00e1quina de guerra e de escravid\u00e3o. Nessa civiliza\u00e7\u00e3o o Homem conheceu o seu ponto alto, na medida em que cultivava o modelo cultural grego, mas tamb\u00e9m a sua mais curiosa express\u00e3o de decad\u00eancia, a guerra e o imperialismo. Segundo a lenda, os fundadores de Roma s\u00e3o descendentes de En\u00e9as, que saiu de Tr\u00f3ia para refazer a vida na pen\u00ednsula que os gregos chamavam de Magna Gr\u00e9cia, a parte oriental da It\u00e1lia. Roma n\u00e3o dava um passo sem antes consultar a sabedoria e a tradi\u00e7\u00e3o gregas. Os melhores preceptores dos filhos da aristocracia patr\u00edcia eram os pedagogos escravos helenos. Quando a plebe iniciou suas revoltas em busca de direitos sociais, o senado romano apressou-se a pesquisar como os gregos tinham solucionado o problema no tempo dos famosos legisladores atenienses. Quem n\u00e3o se lembra da semelhan\u00e7a entre os deuses gregos e os seus similares na mitologia romana?\u00a0\u00a0 Quem n\u00e3o compara as tricas forenses de Dem\u00f3stenes e \u00c9squines com acusa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas entre C\u00edcero e Catilina? \u00c9 claro que a civiliza\u00e7\u00e3o romana optou pelo pragmatismo e por uma supremacia mais forte do Estado sobre o indiv\u00edduo. Isso inibiu ali o surgimento de talentos raros como S\u00f3crates, Arist\u00f3teles ou Plat\u00e3o, mas Roma tamb\u00e9m deu ao mundo personagens com S\u00eaneca, Ov\u00eddio,T\u00e1cito, Virg\u00edlio, Hor\u00e1cio, Quintiliano e Tito L\u00edvio. Seus estadistas s\u00e3o at\u00e9 hoje os melhores modelos de exemplar integridade e efici\u00eancia ou ent\u00e3o de vergonhosa corrup\u00e7\u00e3o e incompet\u00eancia no trato com a \u201ccoisa p\u00fablica\u201d.\u00a0\u00a0 Como disse um dos evange listas, Roma conquistou o mundo, mas perdeu a pr\u00f3pria alma caminhando inevitavelmente para a decad\u00eancia. Um dos lances mais interessantes da sua queda\u00a0 seria\u00a0 o choque com o advento do Cristianismo. Roma n\u00e3o poderia suportar uma ideologia vinda das camadas baixas da popula\u00e7\u00e3o, algo t\u00e3o inteligente e avan\u00e7ado, a ponto de comprometer a ordem estabelecida com tanto esfor\u00e7o nos s\u00e9culos anteriores. O orgulho romano era o reflexo mais aut\u00eantico da pr\u00e9-adolesc\u00eancia da Humanidade e tal caracter\u00edstica manifestou-se na viol\u00eancia insensata contra Jesus e os m\u00e1rtires crist\u00e3os, cujo comportamento pac\u00edfico e diferenciado era visto como uma afronta aos seus valores agressivos e impiedosos. O choque do sistema escravista romano com o humanismo crist\u00e3o teve o resultado que todos n\u00f3s conhecemos: o lento decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o e o recuo inevit\u00e1vel \u00e0 vida feudal, visando a preserva\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia romana. Mas cristia nismo primitivo, cuja simplicidade de conceitos e coragem dos m\u00e1rtires conquistaram as massas desorientadas logo sofreu o golpe da coopta\u00e7\u00e3o institucional. A experi\u00eancia pol\u00edtica sacerdotal romana apropriou-se da filosofia de Jesus e das id\u00e9ias eclesi\u00e1sticas dos seus primeiros seguidores para estruturar um novo modelo de clero e de religi\u00e3o. A id\u00e9ia era a fus\u00e3o, numa estrutura de dogmas, do carisma crist\u00e3o com\u00a0 o espet\u00e1culo est\u00e9tico das cerim\u00f4nias romanas. O toque final desse perverso sincretismo[26] seria dado pelos costumes e rituais das tribos b\u00e1rbaras que iam sendo convertidas ao novo sistema de cren\u00e7as. Foi assim que a figura humilde d o ap\u00f3stolo Pedro foi transformada na arrogante imagem do Pontifex M\u00e1ximus; Pedro, depois de morto, tornou-se S\u00e3o Pedro, o primeiro\u00a0 papa de uma igreja que ele nunca conheceu quando vivo.\u00a0 As cartas de Paulo para as comunidades crist\u00e3s passaram a ser vistas, n\u00e3o como fonte de ensinamentos, mas como objetos de autentica\u00e7\u00e3o do novo instituto do sacerd\u00f3cio oficial. Paulo tamb\u00e9m foi transformado em S\u00e3o Paulo, o ide\u00f3logo principal da Igreja Cat\u00f3lica Apost\u00f3lica Romana. Roma caiu, mas a sua\u00a0 religi\u00e3o e seu corpo clerical permaneceram quase que intactos.<\/p>\n<p>Agora a sociedade ocidental ficaria longos s\u00e9culos sob a tutela da Igreja Cat\u00f3lica. A Roma crist\u00e3 transfigurou-se numa institui\u00e7\u00e3o religiosa totalit\u00e1ria e dogm\u00e1tica, cuja fun\u00e7\u00e3o era substituir o antigo Estado no controle social e domar as feras b\u00e1rbaras que buscavam ref\u00fagio nas terras mais pr\u00f3speras do Ocidente. As intelig\u00eancias brilhantes desapareceram por um longo per\u00edodo de cativeiro rural e cederam espa\u00e7o para as mentes mais perversas e med\u00edocres, protegidas por um grande sistema pol\u00edtico-sacerdotal.\u00a0 A raz\u00e3o estava sob vigil\u00e2ncia policial constante, pois era vista como a respons\u00e1vel pela situa\u00e7\u00e3o de castigos e puni\u00e7\u00f5es que Deus havia estabelecido na Terra. O Dem\u00f4nio, antes uma mera faceta neutra da personalidade humana, assume agora ares de entidade de grande import\u00e2ncia, tanto no imagin\u00e1r io popular quanto na teologia da classe sacerdotal. De simples figurante no cen\u00e1rio da mitologia celeste, Sat\u00e3 passa a ter um papel de grande destaque no enredo hist\u00f3rico das mis\u00e9rias humanas. Ele ser\u00e1 a figura central do epis\u00f3dio do Pecado Original e este a base de toda a estrutura de manipula\u00e7\u00e3o e escraviza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana.\u00a0 A intelig\u00eancia integral est\u00e1 acuada.\u00a0 Para as pessoas de talento e imagina\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa sen\u00e3o ingressar nas lides do sacerd\u00f3cio para fugir da marginaliza\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, havia riscos grav\u00edssimos para a integridade f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Viver nesse momento hist\u00f3rico era perigoso; pensar poderia ser fatal.\u00a0 Nessa \u00e9poca, na chamada Idade M\u00e9dia, o mundo ocidental estava isolado por dois inimigos bem definidos: um inimigo externo, projetado nas amea\u00e7as pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas das civiliza\u00e7\u00f5es bizant ina e mu\u00e7ulmana, contaminadas pelas heresias e pela infidelidade; e um inimigo interno, projetado na figura mitol\u00f3gica de Sat\u00e3, que assumia todas as culpas das desgra\u00e7as naturais e conseq\u00fc\u00eancias nefastas dos atos humanos, causadas pelas id\u00e9ias pecaminosas.\u00a0 A Inquisi\u00e7\u00e3o e o Tribunal do Santo Of\u00edcio foram criados nos moldes totalit\u00e1rios romanos exatamente para funcionar como anticorpos pol\u00edticos desse universo obscuro.\u00a0 O Homem L\u00f3gico-racional n\u00e3o existe mais e dele s\u00f3 restaram lembran\u00e7as\u00a0 e algumas experi\u00eancias que foram incorporadas na pr\u00e1tica social, como as do Homem Biol\u00f3gico e do Homem Teol\u00f3gico. As lembran\u00e7as mais significativas do Homem L\u00f3gico-racional foram depositadas nos livros e estes se tornaram segredos guardados a setes chaves nos mosteiros medievais. Apenas algumas mentes privilegiadas tinham acesso a essas preciosidades e, quando conven iente, esses conhecimentos eram criminosamente adulterados pelos copistas engajados na nova ordem teoc\u00eantrica.<\/p>\n<p>Mas as crises tamb\u00e9m s\u00e3o impiedosas e n\u00e3o toleram a rotina do tempo e a mesmice do comportamento humano. O feudalismo foi sendo corro\u00eddo pela fome, pela peste, pelas guerras e tamb\u00e9m pela for\u00e7a expansionista do capitalismo nascente. Os duzentos anos em que se empreenderam as Cruzadas foi o ponto de apoio para o surgimento de uma nova mentalidade que iria quebrar o isolamento da Europa. O com\u00e9rcio, comandado pela cultura pragm\u00e1tica dos judeus e logo assimilada pelo desejo de prosperidade da pequena burguesia, daria ao mundo ocidental um novo tipo humano, liberto dos dogmas e dos pesadelos da raz\u00e3o. \u00c9 o Homem Metaf\u00edsico, o renascimento e ao mesmo tempo a ressurrei\u00e7\u00e3o do Homem Racional, trazendo consigo o acr\u00e9scimo das marcas do universo m\u00e1gico pr\u00e9-hist\u00f3rico e\u00a0 o misticismo teol\u00f3gico das primeiras civiliza\u00e7\u00f5es.\u00a0 Se a It\u00e1lia havia sido cen\u00e1rio da morte da Raz\u00e3o ela tamb\u00e9m seria o palco da volta \u00e0 carne e do ressurgimento de um novo\u00a0 ser, agora transformado e mais experiente. Este \u00e9 o ser t\u00edpico da longa transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo, uma dos mais empolgantes momentos da trajet\u00f3ria humana, cujos prot\u00f3tipos encontramos\u00a0 mais tarde em figuras geniais da Ranascen\u00e7a. Leonardo da Vinci busca decifrar os enigmas da perfei\u00e7\u00e3o humana; Rafael de S\u00e2nzio, Michel\u00e2ngelo, El Grecco e Caravaggio deixam-se levar pela intui\u00e7\u00e3o e pintam as mais belas express\u00f5es da nossa imagem e semelhan\u00e7a com Deus;\u00a0 Shakspeare desvenda o psiquismo nos conflitos dos seus c\u00e9lebres personagens consigo mesmos; Lu\u00eds de Cam\u00f5es &#8211; a quem Erasmo de Roterd\u00e3 deu a honra de aprender portugu\u00eas para ler seus texto no original &#8211; can ta como Homero,\u00a0 a inquieta\u00e7\u00e3o dos luzitanos\u00a0 em diminuir as dist\u00e2ncias geogr\u00e1ficas do planeta; Jan Huss e Giordano Bruno perdem suas exist\u00eancias, mas salvam suas vidas em nome da liberdade de consci\u00eancia; Guttemberg e Aldo Man\u00fazio enchem os olhos humanos de cultura e conhecimento com suas letras impressas em livros;\u00a0 Miguel de Servet\u00a0 estuda \u00e1vidamente a m\u00e1quina do corpo humano; Kepler , Galileu, Isaac Newton observam, deslumbrados, a grandeza e a perfei\u00e7\u00e3o do Cosmos; Com\u00eanius preocupa-se com os mist\u00e9rios que rondam o universo da inf\u00e2ncia, no tocante ao problema do ensino e da aprendizagem. Todos eles e muitos outros, cada qual no seu campo de conhecimento e de atua\u00e7\u00e3o social,\u00a0 causariam profundas mudan\u00e7as no meio em que viveram, avan\u00e7ando mais alguns graus na verticaliza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Dentre todos, Leonardo da Vinci foi talvez o mais inquieto, aquele que buscava a verdade sob os mais diversos aspectos e caminhava em m\u00e3o dupla: aquilo que n\u00e3o podia compreender atrav\u00e9s da pesquisa transformava-se em express\u00e3o art\u00edstica e vice-versa. Sua vis\u00e3o metaf\u00edsica do ser humano, bem como e seu fasc\u00ednio tecnol\u00f3gico e est\u00e9tico pela nossa m\u00e1quina f\u00edsica, podem ser admirados tanto nos quadros, quanto nos ensaios registrados em manuscritos, como este:<\/p>\n<div>\u201cO homem foi chamado pelos antigos de um mundo menor, e de fato o termo \u00e9 corretamente aplicado, vendo-se que o homem \u00e9 composto de terra , \u00e1gua, ar e fogo, esse corpo da Terra \u00e9 o mesmo. E como o homem tem dentro de si ossos como sustent\u00e1culo e estrutura para a carne, tamb\u00e9m o mundo tem a s rochas que s\u00e3o os sustent\u00e1culos da Terra; e como o homem tem dentro de si uma po\u00e7a de sangue com a qual os pulm\u00f5es quando ele respira se expandem e contraem, tamb\u00e9m o corpo da terra tem o seu oceano, que tamb\u00e9m sobe e desce a cada seis horas com a respira\u00e7\u00e3o do mundo. Como da dita po\u00e7a de sangue v\u00eam as veias que espalham suas ramifica\u00e7\u00f5es pelo corpo humano, da mesma forma o oceano enche o corpo da Terra com um n\u00famero infinito de veios d\u2019\u00e1gua\u201d.<\/div>\n<p>Em outro trecho Leonardo j\u00e1 revela sua inequ\u00edvoca intui\u00e7\u00e3o sobre o papel do c\u00e9rebro e sua fun\u00e7\u00e3o de instrumento de comando, pela mente, de todas as atividades org\u00e2nicas:<\/p>\n<div>\u201cOs tend\u00f5es, com seus m\u00fasculos, servem aos nervos como os soldados servem aos seus chefes; e os nervos servem ao sensorium commune[27] como os chefes a seus capit\u00e3es; e o sensorium commune serve \u00e0 alma como o capit\u00e3o ao seu senhor. Assim, por conseguinte, a articula\u00e7\u00e3o dos ossos obedece ao tend\u00e3o, e o tend\u00e3o ao m\u00fasculo, e o m\u00fasculo ao nervo, e o nervo ao sensorium commune, e o sensorium commune \u00e9 a sede da alma,\u00a0 a mem\u00f3ria seu monitor, e a faculdade de receber impress\u00f5es serve como seu padr\u00e3o de refer\u00eancia.&#8221;<\/div>\n<p>Atrav\u00e9s de ousadas incurs\u00f5es te\u00f3ricas feitas por esses g\u00eanios da Renascen\u00e7a, a perspectiva racional foi enriquecida pela vis\u00e3o metaf\u00edsica e pela possibilidade de acesso, ainda que restrito, aos mist\u00e9rios do mundo oculto, al\u00e9m da mat\u00e9ria densa.\u00a0 \u00c9 claro que esse pre\u00e7o foi pago pela ousadia e pela intelig\u00eancia de alguns poucos que possu\u00edam, numa sociedade ainda obscura e profundamente desigual, as caracter\u00edsticas do mundo do futuro. Muitos pagaram esse pre\u00e7o com a pr\u00f3pria exist\u00eancia, como se devessem testemunhar a imortalidade que traziam estampada em suas obras, com o pr\u00f3prio sangue.\u00a0 Foi desse momento emblem\u00e1t ico da Hist\u00f3ria humana que mais tarde sairiam os mais\u00a0 importantes conceitos de \u00e9tica e liberdade delineados pelos fil\u00f3sofos iluministas. Eles eram os seres de transi\u00e7\u00e3o do Homem Metaf\u00edsico da Idade Moderna para o Homem Positivo da Era Contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p><big><big>18. O Homem Positivo<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cToda efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente est\u00e1 na raz\u00e3o da grandeza do efeito.\u201d \u2013 Allan Kardec<\/div>\n<p>A velocidade dos tempos modernos e a competi\u00e7\u00e3o capitalista trouxeram de volta o individualismo greco-romano, tanto no seu sentido cr\u00edtico como no seu aspecto pr\u00e1tico.\u00a0 A Fran\u00e7a e a Inglaterra\u00a0 ser\u00e3o os dois principais modelos de Estados Modernos, cultos e racionalizados\u00a0 ao extremo. Desde a Renascen\u00e7a seus fil\u00f3sofos\u00a0 vieram conspirando silenciosamente contra os resqu\u00edcios do universo feudo-clerical. N\u00e3o foi coincid\u00eancia que dessas duas civiliza\u00e7\u00f5es tenham brotado os dois mais significativos eventos da modernidade. Primeiro, a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, o motor econ\u00f4mico impulsionador da sociedade burguesa e respons\u00e1vel pela consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo. Os\u00a0 pragm\u00e1ticos inventores\u00a0 e suas m\u00e1quinas geniais surgiram da necessidade de maior produ\u00e7\u00e3o, da sede de lucros e do reconhecimento social de uma classe que h\u00e1 muito vinha sendo desprezada pela nobreza. Estava em jogo , inclusive, a salva\u00e7\u00e3o da alma. Segundo a mais antiga tradi\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os protestantes, o trabalho e a prosperidade seriam fortes ind\u00edcios de que Deus estaria escolhendo os seus eleitos modernos.\u00a0 O segundo evento foi a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o movimento pol\u00edtico da burguesia contra o autoritarismo do Antigo Regime, ou seja, a injusta e desequilibrada sociedade dos tr\u00eas estamentos: o clero, a nobreza e o \u201cresto\u201d (burguesia e povo). As diferen\u00e7as n\u00e3o estavam apenas nas anomalias dos privil\u00e9gios sociais, mas claramente nos dados num\u00e9ricos da popula\u00e7\u00e3o. Os monarcas absolutistas governavam sentados sobre um barril de p\u00f3lvora que poderia explo dir a qualquer instante: No s\u00e9culo XVIII cerca de 98% da popula\u00e7\u00e3o francesa vivia submetida aos caprichos de uma minoria de 2%.\u00a0 Como a Fran\u00e7a era a mais influente vitrine do absolutismo, os efeitos da revolu\u00e7\u00e3o seriam catastr\u00f3ficos em toda Europa, bem como no mundo colonial. Tudo estava a favor da devasta\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria: povo faminto e insatisfeito, armas acess\u00edveis e, sobretudo, id\u00e9ias muito explosivas.\u00a0 Dessas duas rupturas que destru\u00edram o Antigo Regime (as monarquias absolutas, os estamentos sociais, o mercantilismo e o sistema colonial) surge o novo tipo humano, cujo papel era trazer de volta ao ch\u00e3o os p\u00e9s do Homem Metaf\u00edsico, um ser em fuga, geralmente deslumbrado com a grandeza do universo. Os iluministas ainda possu\u00edam fortes tra\u00e7os metaf\u00edsicos e viviam em permanente estado de conflito entre a Utopia e a Raz\u00e3o, entre o sonho aristocr\u00e1tico a dura realidade capitalista burguesa. Ap\u00f3s os anos explosivos da Bastilha e da expans\u00e3o napole\u00f4nica surge um s\u00e9culo bastante diferente dos anteriores e muito marcante para as d\u00e9cadas futuras: o s\u00e9culo 19 foi o s\u00e9culo perigoso, o s\u00e9culo da Ci\u00eancia, do materialismo, do desencanto e do absinto. A burguesia venceu sua batalha racional e dela nasceria o Homem Positivo, o demolidor de tradi\u00e7\u00f5es m\u00edstico-religiosas, empunhando a marreta da pesquisa cient\u00edfica e da l\u00f3gica de causa e efeito. Como personagens do Apocalipse, eles surgem dos laborat\u00f3rios e dos gabinetes dispostos a varrer os escombros da demoli\u00e7\u00e3o iniciada por Voltaire e os subversivos da ilustra\u00e7\u00e3o. Darwin e Spencer, prot\u00f3tipos positivos,\u00a0 fecham a B\u00edblia nas p\u00e1ginas iniciais da G\u00eanese Mosaica e afirmam que Ad\u00e3o nunca existiu e que somos produtos de uma evolu\u00e7\u00e3o seletiva da qual Deus foi apenas um espectador. Niestzche vai al\u00e9m e diz que Deus est\u00e1 morto. Marx demonstra que a Hist\u00f3ria \u00e9 um jogo dial\u00e9tico de classes sociais domi nantes e dominadas. Os socialistas ut\u00f3picos s\u00e3o substitu\u00eddos pelos cient\u00edficos, que pretendem inverter \u00e0 for\u00e7a essa perversa rela\u00e7\u00e3o social. A Igreja reage e retrocede ainda mais no dogmatismo dizendo que o Papa \u00e9 o\u00a0 \u00fanico representante da Divindade e que, portanto, \u00e9 um ser infal\u00edvel e acima dos homens comuns. Est\u00e1 instalada a confus\u00e3o entre a f\u00e9\u00a0 e a raz\u00e3o. \u00c9 uma inimizade antiga na qual o clero, por exercer o status de estamento superior, havia acumulado vantagens e \u00f3dios massacrando in\u00fameras intelig\u00eancias independentes. Mas a raz\u00e3o preparou um revide \u00e0 altura desses abusos e deseja que a agonia da religi\u00e3o seja levada ao extremo da asfixia. Essa polariza\u00e7\u00e3o da arrog\u00e2ncia clerical e do orgulho dos fil\u00f3sofos e cientistas materialistas era a raz\u00e3o de ser do Homem Positivo. Sua vida era uma investiga\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, incessante. Tudo tinha uma raz\u00e3o de ser e merecia uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O que \u00e9 o sobrenatural? O que significam o oculto e o esot\u00e9rico?\u00a0 Eram meras hip\u00f3teses e estas precisavam ser submetidas ao teste positivo da ci\u00eancia. Antes a ci\u00eancia e o seu objeto de investiga\u00e7\u00e3o se confundiam e acabavam confundindo o observador dos fen\u00f4menos, cujas explica\u00e7\u00f5es continuavam obscuras. Agora ela se separa do objeto e o pesquisador tenta estar o mais neutro poss\u00edvel. As quest\u00f5es sagradas e sobrenaturais do universo transcendente devem ser filtradas e trazidas para a esfera banal e natural da realidade do mundo imanente. Da\u00ed a necessidade da postura r\u00edgida, fria, calculista, c\u00e9tica, sem envolvimento emocional. As massas est\u00e3o confusas, por\u00e9m as elites continuam atentas. Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX as batalhas\u00a0 entre a f\u00e9 a e raz\u00e3o ser\u00e3o de provoca\u00e7\u00f5es\u00a0 inconseq\u00fcentes, mas ao que tudo indica elas ser\u00e3o mais\u00a0 agressivas e contundentes na medida que o tempo avan\u00e7a para o futuro incerto. Entre 1815 e 1850, do Congresso de Viena at\u00e9 ao in\u00edcio da segunda metade do s\u00e9culo, no terreno pol\u00edtico internacional, predominou uma relativa calmaria em rela\u00e7\u00e3o aos tumultuados anos anteriores. Mas no terreno ideol\u00f3gico havia uma efervesc\u00eancia constante nas disputas entre o socialismo e liberalismo, nacionalismo e rea\u00e7\u00e3o conservadora. Antes que explodissem os conflitos de 1848 e que se estenderiam at\u00e9 duas grandes guerras mundiais do s\u00e9culo seguinte, a guerra de id\u00e9ias entre a f\u00e9 a raz\u00e3o prosseguia indiferente aos acontecimentos. Eram posturas extremistas, sem possibilidade de equil\u00edbrio: dogmas de f\u00e9 versus dogmas de ci\u00eancia. A diferen\u00e7a era apenas no colorido das paix\u00f5es. Auguste Comte tentou sobreviver a esse caos ideol\u00f3gico, mas caiu na pr\u00f3pria armadilha que armara para iludir religiosos falsos e falsos cientistas. Sua Igreja Positivista era a s\u00edntese pat\u00e9tica dessa fus\u00e3o h orrorosa entre o ceticismo e cren\u00e7a vazia das tradi\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas. Mas os eventos de Hydesville dariam um novo rumo a esse acontecimento. Uma invas\u00e3o organizada de intelig\u00eancias invis\u00edveis lan\u00e7ariam no cen\u00e1rio dessa guerra um fato novo, um paradoxo insofism\u00e1vel.\u00a0 Sir Arthur Conan Doyle na sua \u201cHistory of Spiritualism\u201d relata que, tanto as mentes viciadas nas superti\u00e7\u00f5es e misticismos quanto aquelas protegidas pelo ceticismo, ficaram estupefatas com os fatos ocorridos inicialmente na resid\u00eancia dos Fox, uma fam\u00edlia cujo chefe era um tranq\u00fcilo praticante metodista. Esp\u00edritos de \u201cdefuntos\u201d estavam fazendo den\u00fancias de crimes, como o assassinato de Charles B. Rosma, morto e emparedado num por\u00e3o da casa para onde os Fox haviam se mudado. O fil\u00f3sofo J. Herculano Pires [28] interpreta esse per\u00edodo hist\u00f3rico como uma revolu\u00e7\u00e3o no relacionamento e entre a esp\u00e9cie humana e a natureza:<\/p>\n<div>\u201cSomente na era moderna, por\u00e9m, essa compreens\u00e3o ir\u00e1 se tornar efetiva. Por que s\u00f3 ent\u00e3o o esp\u00edrito humano amadureceu o suficiente, para que a promessa do Consolador, do Par\u00e1clito, do Esp\u00edrito da Verdade, possa se cumprir. \u00c9 por isso que o esp\u00edrito de Charles Rosma, ao comunicar-se em Hydesville, atrav\u00e9s da mediunidade das irm\u00e3s Fox, numa fam\u00edlia metodista, n\u00e3o \u00e9 mais tomado como dem\u00f4nio ou deus, mas como o esp\u00edrito de um homem. Assim aceito, Rosma pode falar do seu estado, do seu passado, e dar indica\u00e7\u00f5es de sua passagem ocasional pela resid\u00eancia em que foi morto, bem como das condi\u00e7\u00f5es dessa morte e dos ind\u00edcios existentes no subsolo, que ser\u00e3o encontrados mais tarde.Rosma pode ser tomado como um exemplo do fen\u00f4meno da transcend\u00eancia humana, que assinala o aparecimento da mediunidade positiva. N\u00e3o encontramos mais em Hydesville, o profeta b\u00edblico, nem o or\u00e1culo ou o pag\u00e9, mas o m\u00e9dium, ou seja, o indiv\u00edduo humano que se tornou capaz de servir de intermedi\u00e1rio entre seres espirituais e carnais, ambos da mesma natureza. Rosma, o mascate, morto na casinha de Hydesville, transcende sua condi\u00e7\u00e3o material humana, mas continua humano no plano espiritual. De mascate, passa a esp\u00edrito, e como esp\u00edrito se comunica, gra\u00e7as \u00e0 mediunidade das meninas Fox. J\u00e1 n\u00e3o estamos mais no plano m\u00edstico e misterioso do mediunismo, mas no plano cient\u00edfico, racional, da mediunidade positiva.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>Anos antes, numa comunidade protestante da Costa Leste, almas de \u00edndios pele-vermelha tomavam de assalto os corpos de mulheres e meninas shakers, para fazer profecias sobre essa invas\u00e3o de seres invis\u00edveis no mundo inteiro. Na Europa eles come\u00e7aram atirando pedras em transeuntes nas ruas e depois passaram a imitar as reuni\u00f5es das meninas Fox, na qual\u00a0 comunicavam-se por meios de raps em mesas girantes. As batidas nas mesas funcionavam como telegramas vindos do Al\u00e9m. Em Paris, antes envolvida pela febre do magnetismo,\u00a0 o assunto virou coqueluche e alvo da futilidade das reuni\u00f5es sociais. Aquilo que o c\u00e9lebre Jacques Cazotte fazia nos c\u00edrculos festivos da aristocracia, profetizando o destino tr\u00e1gicos dos convidados, agora era feito por qualquer grupo de pessoas sentadas em torno de mesa. Eles falavam com os Esp\u00edritos e estes tinham uma antiga fama de saber o passado e o futuro com a mesma habilidade.\u00a0 Gente famosa como a escritora George Sand e o grande Victor Hugo participavam dessas reuni\u00f5es sem o m\u00ednimo constrangimento e delas tiravam proveito diferenciado; com a ajuda de Madame de Girardin, iniciada nesses mist\u00e9rios, travavam di\u00e1logo\u00a0 aberto e reflexivo com aquilo que consideravam seus g\u00eanios protetores, como os antigos or\u00e1culos.\u00a0 O que estava acontecendo? O mundo estava virando e ficando de cabe\u00e7a para baixo?\u00a0 Os tempos eram chegados?\u00a0 Como ficaria a luta entre a f\u00e9 a raz\u00e3o se a ess\u00eancia desse novo paradigma era um misto dessas duas coisas aparentemente antag\u00f4nicas?\u00a0 Como reagiriam os remanescentes do Homem Metaf\u00edsico? E os Homens Teol\u00f3gicos do mundo clerical? E , finalmente, como se comportariam os Homens Positivos da Ci\u00eancia materialista?\u00a0 O Homem Racional greco-romano havia atingido 45 graus na escala da consci\u00eancia\u00a0 e os seus sucessores Metaf\u00edsicos da Renascen\u00e7a e do Iluminismo talvez tenham avan\u00e7ado alguns pontos. Mas, no geral, havia acontecido uma estagna\u00e7\u00e3o. O desenvolvimento das ci\u00eancias j\u00e1 deveria ter acelerado esse processo de auto-consci\u00eancia, mas esse confronto com clero talvez tenha provocado um recuo aos 45 graus. Desde o s\u00e9culo XV havia um impasse a ser solucionado e a equa\u00e7\u00e3o do problema estava centralizado num debate entre a afirma\u00e7\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o da mente. O c\u00e9rebro reinava com todo o aparato acad\u00eamico da poderosa Biologia darwiniana enquanto a mente permanecia est\u00e1tica no terreno da utopia e da fic\u00e7\u00e3o. Nem B\u00e9rgson nem Freud haviam entrado em cena para definir, desenhar\u00a0 e refletir sobre organismo mental humano. No entanto, os fen\u00f4menos iniciados nos Estados Unidos em 1848 e espalhados pelo mundo levantavam um outro problema\u00a0 que deslocava as discuss\u00f5es sobre esse assunto para um outro n\u00edvel de investiga\u00e7\u00e3o e debates. Os esp\u00edritos s\u00e3o consci\u00eancias inteligentes cujo comportamento procurava demonstrar sua sobreviv\u00eancia ap\u00f3s a morte do corpo. Portanto, a discuss\u00e3o entre c\u00e9ticos e m\u00edsticos\u00a0 tornara-se totalmente in\u00fatil e\u00a0 roubava a cena para outra discuss\u00f5es mais imediatas: o que s\u00e3o e quem s\u00e3o esses esp\u00edritos? Como e onde eles vivem? Quais as leis que regulam suas manifesta\u00e7\u00f5es? Porque eles se manifestam agora com tanta intensidade. Os Homens Positivos estavam acuados: ou mentiam para si mesmos e negavam que tudo aquilo n\u00e3o existia ou ent\u00e3o cairiam em si e direcionavam toda sua bagagem cient\u00edfica para explicar tais fen\u00f4menos. Quem se arriscaria?\u00a0 E o prest\u00edgio acad\u00eamico? E a persegui\u00e7\u00e3o clerical? Quem estava disposto a correr esses riscos? \u00c9 claro que a Igreja j\u00e1 n\u00e3o era mais a mesma que n\u00e3o haveria uma fogueira inquisitorial a queimar o corpo, afinal\u00a0 o Conde Cagliostro havia sido a \u00faltima v\u00edtima desses abusos\u00a0 em conluio com os Estados absolutistas. Mas o clero ainda mantinha grande influ\u00eancia sobre as institui\u00e7\u00f5es culturais que davam empregos a maioria dos pesquisadores. Alguns nomes tiveram essa ousadia de enfrentar o an\u00e1tema clerical e deram provas p\u00fablicas de amor incondicional\u00a0 \u00e0 Verdade, custasse o que custasse. A lista come\u00e7ava por conhecidos magnetizadores como Anton Mesmer, Du Potet, Puissegur, e percorria uma grande constela\u00e7\u00e3o de g\u00eanios acad\u00eamicos: Willian Crookes, Sir Oliver Lodge, Alexander Aksakof, Cesare Lombrozo, Camille Flamarion, Ernesto Bozzano, Charles Richet, s\u00f3 para citar os mais celebrados. Muitos deles n\u00e3o desenvolveram v\u00ednculos filos\u00f3ficos com o\u00a0 Neo-espiritualismo e o Espiritismo, como mais tarde outros o fizeram, mas n\u00e3o recuaram diante dos fatos e das evid\u00eancias que tinham pela frente. Enquanto algumas personalidades tidas como g\u00eanios das Ci\u00eancias deram provas de imaturidade emocional e despreparo ideol\u00f3gico, esses nomes citados deram um importante passo em suas vidas porque perceberam que o que estava em jogo n\u00e3o eram suas reputa\u00e7\u00f5es\u00a0 mas suas consci\u00eancias. Todos eles j\u00e1 haviam superado a marca dos 45 graus e queriam avan\u00e7ar muito al\u00e9m dos seus limites pessoais. N\u00e3o estavam mais satisfeitos com suas caracter\u00edsticas positivas e buscavam uma nova pedra filosofal que se delineava nos seus projetos \u00edntimos para o futuro. Queriam amadurecer o fruto de um conhecimento que perseguiam h\u00e1 s\u00e9culos e que s\u00f3 agora estavam compreendendo a sua devida import\u00e2ncia. Mas nenhum deles teve um amadurecimento t\u00e3o r\u00e1pido com o Professor\u00a0 L.H. Denizard Rivail, um pedagogo franc\u00eas nascido em Lyon e educado no instituto de Yverdon, na Su\u00ed\u00e7a, sob os cuidados de Jean-Henri Pestalozzi. Rivail era mais que um pedagogo: dominava os mais influentes idiomas e as principais atividades cient\u00edficas do seu tempo. Muito antes que a grande maioria desses nomes citados se interessasse pelos estranhos fen\u00f4menos dos raps e das \u201cmesas-girantes\u201d Rivail j\u00e1 demonstra ser neste assunto um expert, assunto este que levava t\u00e3o a s\u00e9rio, ou mais, do que a pr\u00f3pria profiss\u00e3o que havia escolhido para ganhar a vida. Nas suas \u201cObras P\u00f3stumas\u201d ele relata como foi a sua inicia\u00e7\u00e3o ao \u201cEspiritismo\u201d, palavra nova que ele criou especialmente para conceituar essa nova vis\u00e3o de mundo surgida a partir de fen\u00f4menos aparentemente sobrenaturais:<\/p>\n<div>\u201cFoi em 1854 que ouvi falar pela primeira vez das mesas girantes. Um dia encontrei-me com o Sr. Fortier, magnetizador que eu conhecia desde longo tempo. Disse-me ele: \u201cSabe o senhor da singular propriedade que acabam de descobrir no magnetismo? Parece que n\u00e3o s\u00e3o unicamente os indiv\u00edduos que se magnetizam, mas tamb\u00e9m as mesas, que podemos fazer girar e andar \u00e0 vontade.\u201d \u2013 \u00c9 extraordin\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida\u201d, respondi-lhe. \u201cMas, em rigor, n\u00e3o \u00e9 um fato que n\u00e3o me parece radicalmente imposs\u00edvel. O fluido magn\u00e9tico, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de eletricidade, pode muito bem atuar sobre os corpos inertes e faz\u00ea-los mover-se\u201d. Os relatos publicados pelos jornais sobre as experi\u00eancias feitas em Nantes, em Marselha e algumas outras cidades, n\u00e3o podiam deixar d\u00favida quanto \u00e0 realidade do fen\u00f4meno.Pouco tempo depois, tornei-me a encontrar-me com o Sr. Fortier, que me disse: \u201cO fato \u00e9 bem mais extraordin\u00e1rio. N\u00e3o somente fazem girar a mesa, quando a magnetizam, mas fazem-na falar. Interrogam-na e ele responde.\u201d<\/p>\n<p>\u201cIsto, retruquei eu, j\u00e1 \u00e9 uma outra quest\u00e3o. S\u00f3 acreditarei vendo, e quando me provarem que a mesa tem c\u00e9rebro para pensar, nervos para sentir e que pode tornar-se son\u00e2mbula. At\u00e9 l\u00e1, permita-me que considere isso um conto para fazer-nos dormir em p\u00e9.<\/p>\n<p>Este racioc\u00ednio \u00e9 l\u00f3gico. Eu aceitava a possibilidade do movimento por uma for\u00e7a mec\u00e2nica, mas, ignorando a causa e a lei do fen\u00f4meno, parecia-me absurdo atribuir intelig\u00eancia a uma coisa puramente material. Estava na posi\u00e7\u00e3o dos incr\u00e9dulos de nossos dias, que negam porque apenas presenciam\u00a0 um fato que n\u00e3o compreendem.<\/p>\n<p>(&#8230;) No ano seguinte, no in\u00edcio de 1855, encontrei o Sr. Carlotti, meu amigo h\u00e1 25 anos, que me falou desses fen\u00f4menos por cerca de uma hora com o entusiasmo que lhe despertavam todas as id\u00e9ias novas. O Sr. Carlotti era corso, de natureza ardente e en\u00e9rgica. Eu sempre havia apreciado nele as qualidades que distinguem uma grande e bela alma , mas desconfiava da sua exalta\u00e7\u00e3o. Foi o primeiro a falar-me da interven\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos e contou-me tantas coisas surpreendentes que, em vez de me convencer, aumentou minhas d\u00favidas. \u201cUm dia ser\u00e1s um dos nossos\u201d, disse-me. Ao que respondi: \u201cN\u00e3o digo que n\u00e3o. Veremos mais tarde.\u201d<\/p>\n<p>Algum tempo depois, em maio de 1858, eu estava em casa da son\u00e2bula Sra. Roger, com O Sr. Fortier, seu magnetizador. Ali encontrei o Sr. P\u00e2ntier e a Sra Plainemaison, que me falaram sobre aqueles fen\u00f4menos a que se referia o Sr. Carlotti, mas em outro tom. O Sr. P\u00e2ntier era um funcion\u00e1rio p\u00fablico de meia idade, homem muito instru\u00eddo, s\u00e9rio, frio e calmo. Sua linguagem pausada, isenta de quaisquer entusiasmos, causou-me viva impress\u00e3o e, quando me convidou para assistir \u00e0s experi\u00eancias que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, \u00e0 rua Grande-Bateli\u00e8re, n\u00ba 18, aceitei pressuroso. O encontro foi marcado\u00a0 para uma ter\u00e7a-feira, \u00e0s 8 horas da noite.<\/p>\n<p>Ali, pela primeira vez, fui testemunha do fen\u00f4meno das mesas que giravam, saltavam e corriam, em condi\u00e7\u00f5es tais que n\u00e3o era poss\u00edvel haver mais d\u00favidas. Presenciei igualmente alguns ensaios, bastante imperfeitos, da escrita medi\u00fanica numa ard\u00f3sia, com o aux\u00edlio de uma cesta. Minhas id\u00e9ias ainda n\u00e3o estavam definidas, mas ali estava um fato que devia ter uma causa. Entrevi, debaixo da aparente futilidade e da esp\u00e9cie de divers\u00e3o que faziam com aqueles fen\u00f4menos, algo s\u00e9rio e como que a revela\u00e7\u00e3o de uma nova lei que prometi a mim mesmo investigar a fundo.<\/p>\n<p>Dentro de pouco tempo surgiu-me a ocasi\u00e3o de observar mais atentamente do que houvera podido faz\u00ea-lo antes. Numa das reuni\u00f5es da Sra Plainemaison conheci a fam\u00edlia Baudin, que morava ent\u00e3o \u00e0 Rua Rochechouart. O Sr. Baudin convidou-me para assistir \u00e0s sess\u00f5es semanais que se realizavam em sua casa e \u00e0s quais passei a ser, desde ent\u00e3o, muito ass\u00edduo.<\/p>\n<p>Estas reuni\u00f5es eram muito freq\u00fcentadas; al\u00e9m dos assistentes habituais, admitiam sem dificuldades quem quer que o pedisse. Os dois m\u00e9diuns eram as Srtas. Baudin, que escreviam numa ard\u00f3sia com o aux\u00edlio da cesta, chamada pi\u00e3o, descrita no \u201cLivro dos M\u00e9diuns\u201d. Este m\u00e9todo, que exige o concurso de duas pessoas, exclui qualquer possibilidade de participa\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias do m\u00e9dium. Assim presenciei comunica\u00e7\u00f5es seguidas de respostas dadas a quest\u00f5es propostas, \u00e0s vezes mesmo a perguntas feitas mentalmente, que faziam entrever, de modo evidente, a interven\u00e7\u00e3o de uma intelig\u00eancia estranha.<\/p>\n<p>Os assuntos tratados eram, geralmente, fr\u00edvolos. Ocupavam-se principalmente de tudo o que se referia \u00e0 vida material, ao futuro, em suma, a nada de verdadeiramente importante. A curiosidade e o entretenimento eram o principal m\u00f3vel dos assistentes. O Esp\u00edrito que habitualmente se manifestava dava o nome de Z\u00e9phir, que estava perfeitamente de acordo com seu car\u00e1ter e o da reuni\u00e3o. Todavia, era muito bom, e declarara-se protetor da fam\u00edlia. Se muitas vezes sabia fazer rir, dava, quando necess\u00e1rio, bons conselhos e fazia uso, oportunamente, do dito mordaz e espirituoso. Em pouco travamos rela\u00e7\u00f5es, dando-me ele, constantemente provas de grande simpatia. N\u00e3o era um Esp\u00edrito muito adiantado, por\u00e9m, mais tarde, assistido por Esp\u00edritos superiores, ajudou-me nas minhas primeiras obras. Depois disse-me que ia reencarnar e nunca mais ouvi falar dele.<\/p>\n<p>Foi ali que fiz meus primeiros estudos s\u00e9rios sobre Espiritismo, mais pelas observa\u00e7\u00f5es que pelas revela\u00e7\u00f5es. Apliquei \u00e0 nova ci\u00eancia, como sempre fizera, o m\u00e9todo da experimenta\u00e7\u00e3o. Jamais utilizei teorias preconcebidas; observava atentamente, comparava e deduzia as conseq\u00fc\u00eancias. Atrav\u00e9s dos efeitos procurava chegar \u00e0s causas pela dedu\u00e7\u00e3o e o encadeamento l\u00f3gico dos fatos, s\u00f3 admitindo uma conclus\u00e3o como v\u00e1lida quando esta conseguia resolver todas as dificuldades da quest\u00e3o. Foi assim que sempre procedi em meus trabalhos anteriores desde a idade de 24 a 26 anos. Compreendi, logo \u00e0 primeira vista, import\u00e2ncia da pesquisa que iria fazer. Vislumbrei naqueles fen\u00f4menos a chave do problema do passado e do futuro da Humanidade, t\u00e3o confuso e t\u00e3o controvertido, a solu\u00e7\u00e3o daquilo que eu havia buscado toda a minha vid a. Era, em suma, uma revolu\u00e7\u00e3o total nas id\u00e9ias e nas cren\u00e7as existentes. Era preciso, pois, agir com circunspec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o levianamente. Ser positivo, n\u00e3o idealista, para n\u00e3o me deixar levar por ilus\u00f5es.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p><big><big>19. O Homem Psicol\u00f3gico<br \/>\n<\/big><\/big><\/p>\n<div>\u201cA\u00a0 n\u00e3o-viol\u00eancia \u00e9 o primeiro artigo de f\u00e9. E tamb\u00e9m o \u00faltimo artigo de meu credo. Mas tive de fazer a escolha. Ou submeter-me a ela. Ou submeter-me a um sistema que considero um mal irrepar\u00e1vel para o meu pa\u00eds, ou incorrer no risco de que o furor do povo irrompesse ao ouvir a verdade de meus l\u00e1bios.\u201d \u2013 Mohandas Gandhi.<\/div>\n<p>O advento do sexto ser j\u00e1 \u00e9 visto equivocadamente como a realiza\u00e7\u00e3o plena da Humanidade, isto porque os seus prot\u00f3tipos se destacaram pelo alto esp\u00edrito de altru\u00edsmo e desprendimento dos interesses materiais. Na verdade todos esses seres experimentaram uma intensa luta interior entre o ego e a personalidade. Muitos deles, embora n\u00e3o demonstrassem, ainda identificavam em si mesmos alguns resqu\u00edcios da presen\u00e7a do grande inimigo da evolu\u00e7\u00e3o espiritual humana: o ego\u00edsmo. Obviamente com um senso auto-cr\u00edtico muito mais agu\u00e7ado, j\u00e1 tratavam essa tend\u00eancia pessoal de forma mais harm\u00f4nica, com uma aceita\u00e7\u00e3o t\u00e3o convicta que pareciam ter completo dom\u00ednio sobre o problema. O Narciso que traziam dentro de si h\u00e1 muito j\u00e1 agonizava e dava os \u00faltimos suspiros no esfor\u00e7o derradeiro de sobreviv\u00eancia.\u00a0 N\u00e3o podiam mais resistir ao impulso da transforma\u00e7\u00e3o que movimenta o mundo interior dos seres. Mesmo assim, essa auto-admira\u00e7\u00e3o, que era vinha sendo tratada com muito rigor, n\u00e3o merecia o desprezo que normalmente damos aos nossos defeitos nem a bajula\u00e7\u00e3o que damos \u00e0s nossas poss\u00edveis virtudes. Ao perceberem alguma rea\u00e7\u00e3o ou atitude que lembra o comportamento ego\u00edsta, geralmente numa situa\u00e7\u00e3o altamente contradit\u00f3ria e de prova, esses seres buscam imediatamente o ref\u00fagio na humildade e na humilha\u00e7\u00e3o. Para eles esses s\u00e3o ant\u00eddotos t\u00e3o naturais e infal\u00edveis como qualquer mecanismo de defesa adotado pelas formas vivas mais primitivas at\u00e9 as mais sofisticadas. Se a presa animal se paralisa bruscamente para frustrar o ataque do predador, o ser humano brando e pac\u00edfico geralmente desarma o seu agressor adotando uma inesperada forma de rea\u00e7\u00e3o ao gesto agressivo e contundente: o amor e o perd\u00e3o.\u00a0 Para desenvolver essa habilidade intrapessoal \u00e9 necess\u00e1rio muito esfor\u00e7o para impedir que o Ego se manifeste antes da personalidade. Trata-se de um controle obtido por esfor\u00e7os repetitivos, at\u00e9 que se transforme numa rea\u00e7\u00e3o natural e n\u00e3o mais planejada. Como bem explicou e exemplificou Santo Agostinho, \u00e9 assim que um defeito se transforma numa virtude.<br \/>\nOs grandes inimigos do ser humano da Era Digital \u00e9 o narcisismo e o niilismo. O excessivo culto ao Eu e indiferen\u00e7a p\u00e1rea com a espiritualidade s\u00e3o os novos v\u00edrus mentais que o afastam da experi\u00eancia transcendental.\u00a0 Por\u00e9m, livre dos exageros do ascetismo hip\u00f3crita ou das metodologias complexas da auto-ajuda, o ser humano atual pode trabalhar essa mudan\u00e7a de forma mais inteligente e pr\u00e1tica, com a mesma simplicidade com que os mais antigos faziam. Humildade e humilha\u00e7\u00e3o n\u00e3o significam sen\u00e3o uma aparente anula\u00e7\u00e3o de si mesmo. Como nos ensinou um s\u00e1bio Esp\u00edrito, humildade \u00e9 obedi\u00eancia, que \u00e9 \u201cuma concess\u00e3o da raz\u00e3o\u201d, e a humilha\u00e7\u00e3o \u00e9 a resigna\u00e7\u00e3o, \u201c que \u00e9 uma concess\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 Para fazer essas concess\u00f5es \u00e9 necess \u00e1rio ter muita coragem e disposi\u00e7\u00e3o para vencer o mundo vencendo a si mesmo. Essas vit\u00f3rias se d\u00e3o atrav\u00e9s do amadurecimento gradual da consci\u00eancia, fen\u00f4meno psicol\u00f3gico cuja dura\u00e7\u00e3o depende da potencialidade de matura\u00e7\u00e3o do ser. Para uns s\u00e3o necess\u00e1rias muitas exist\u00eancias para que ocorra a transforma\u00e7\u00e3o essencial; para outros, basta uma.<\/p>\n<p>Jesus viveu numa \u00e9poca em que o racionalismo greco-romano ainda era a marca dominante da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Mesmo tendo nascido e vivido numa sociedade teocr\u00e1tica e refor\u00e7ada pelo monote\u00edsmo, ele manifestava caracter\u00edsticas do Homem Psicol\u00f3gico que come\u00e7a surgir no Terceiro Mil\u00eanio e, em determinados momentos, as de um S\u00e9timo Ser, cujas experi\u00eancias j\u00e1 haviam ultrapassado os limites humanos conhecidos\u00a0 n\u00e3o s\u00f3 naquela \u00e9poca como tamb\u00e9m ainda hoje.\u00a0 Encontramos outros seres nessa condi\u00e7\u00e3o em plena Idade M\u00e9dia, como Francisco de Assis. Dos ap\u00f3stolos de Jesus, Jo\u00e3o Evangelista j\u00e1 possu\u00eda tal perfil psicol\u00f3gico, condi\u00e7\u00e3o que lhe permitia a manifesta\u00e7\u00e3o de diversos tipos de percep\u00e7\u00e3o extra-sensorial ou habilidades medi\u00fanicas. Isso m ostra que a evolu\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia humana n\u00e3o seguiu rigidamente uma linearidade hist\u00f3rica obrigat\u00f3ria, e sim caso a caso, revelando que alguns\u00a0 seres mais avan\u00e7ados poderiam\u00a0 realizar tais experi\u00eancias em outros mundos. No mundo contempor\u00e2neo, especificamente no s\u00e9culo XX, encontramos v\u00e1rios prot\u00f3tipos desse Homem Psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 a sensibilidade metaf\u00edsica sen\u00e3o uma tecnologia mental,\u00a0 reflexo da evolu\u00e7\u00e3o espiritual? Mesmo em casos de prova, em que seres ainda atrasados s\u00e3o portadores provis\u00f3rio dessa faculdade, n\u00e3o se trata um conhecimento que vem sendo utilizado como ferramentas de atua\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas como a pesquisa cient\u00edfica, para a cura de males f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, para o exerc\u00edcio da arte e ajuda ao pr\u00f3ximo?\u00a0 Muitos fil\u00f3sofos da p\u00f3s-modernidade, sobretudo o canadense Marshall McLuhan[29], celebraram os sinais do futuro como sin\u00f4nimo da tecnologia cibern\u00e9tica. Sua teoria de que as m\u00e1quinas s\u00e3o extens\u00f5es do corpo humano ganhou mais for\u00e7a ainda quando a micro-eletr\u00f4nica deu seus primeiros passos nas d\u00e9cadas de 1950 e 1970. Se a roda era uma extens\u00e3o dos p\u00e9s e in\u00fameros outros equipamentos exerceriam o papel dos bra\u00e7os\u00a0 e dos\u00a0 olhos,\u00a0 o advento do microcomputador certamente seria a estrela da apoteoso tecnol\u00f3gica pois este seria o perfeito substituto do c\u00e9rebro. J\u00e1 entramos na Era Digital e a inform\u00e1tica segue na sua miss\u00e3o de impor-se como pe\u00e7a essencial da intelig\u00eancia artificial. H\u00e1 d\u00favidas quanto a isso, sobretudo porque ainda permanece no ar e no calor dos debates cient\u00edficos a diferen\u00e7a entre o c\u00e9rebro e a mente. \u00c9 uma disc uss\u00e3o \u00e9 t\u00e3o in\u00fatil e infantil quanto o debate entre criacionistas\u00a0 e evolucionistas, cujas posturas limitadas distorcem o debate para rumos ideol\u00f3gicos, como se essa quest\u00e3o fosse exclusivamente um problema de guerra entre o darwinismo ortodoxo e o cristianismo fundamentalista. Como discutir e debater de forma inteligente esse assunto se os fen\u00f4menos ps\u00edquicos s\u00e3o dogmaticamente rejeitados pela chamada comunidade cient\u00edfica?\u00a0 No cerne de problema est\u00e1 a mediunidade, uma faculdade mental ou cerebral, n\u00e3o importa, que existe, que se mostra pelos fatos p\u00fablicos e not\u00f3rios, mas que ainda n\u00e3o consegue ser digerida ideologicamente pelo orgulhoso homem contempor\u00e2neo. Admitir a mediunidade \u00e9 o equivalente a admitir que somos essencialmente iguais aos mais selvagens e primitivos seres humanos do passado, tamb\u00e9m dotados dessa faculdade de percep\u00e7\u00e3o extra-sensorial. Para os membros da aristocracia acad\u00eamica \u00e9 inadmiss\u00edvel que um ser civilizado como o homem da Era Digital, portando dons sensitivos, tenha um comportamento semelhante aos supersticiosos membros de uma sociedade tribal. Esquecem os pretensiosos cientistas que , tal como a tecnologia material, a tecnologia medi\u00fanica tamb\u00e9m veio sofrendo transforma\u00e7\u00f5es desde os tempos primitivos. A mediunidade m\u00e1gica e tot\u00eamica evoluiu para as profecias oraculares at\u00e9 chegar \u00e0 fase atual na qual suas manifesta\u00e7\u00f5es representam uma enorme diversidade de caracter\u00edsticas, de acordo com o grau de intelig\u00eancia e sensibilidade do seu portador. A extens\u00e3o tecnol\u00f3gica do c\u00e9rebro n\u00e3o se encontra nos equipamentos de tecnologia material e sim nas possibilidades energ\u00e9ticas e nas habilidades ps\u00edquicas dos m\u00e9diuns. Trata-se, como foi e vem sendo cansativamente pesquisado e ensinado pelos pesquisadores do Al\u00e9m, de uma faculdade inerente a todos os seres humanos cuja potencialidade s\u00f3 depende de treinamento e uso adequado. Ela tanto pode ser utilizada grosseiramente como uma enxada no uso da terra, como ainda fazem os feiticeiros tribais, como pode, de forma sutil, semelhante \u00e0 transmiss\u00e3o digital, promover a troca de id\u00e9ias pela intui\u00e7\u00e3o e telepatia. Em a \u201cGrande S\u00edntese\u201d[30], obra lida e elogiada por Einstein, a intelig\u00eancia espiritual (Sua Voz) que inspirou o autor Pietro Ubaldi assim se expressa quando fala do futuro da mediunidade e das possibilidades humanas nesse terreno da tecnologia mental:<\/p>\n<div>\u201cN\u00e3o vos atemorizeis esta incompreens\u00edvel intui\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ai por deixar de neg\u00e1-la e vos aparecer\u00e1. O grande conceito que a ci\u00eancia afirmou (embora de forma incompleta e com erradas conseq\u00fc\u00eancias), a evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma quimera, e impulsiona vosso sistema nervoso para uma sensibilidade sempre mais apurada, que dela \u00e9 o prel\u00fadio.Assim, \u00e9 que esta psique mais profunda se manifestar\u00e1 por for\u00e7a da lei natural da evolu\u00e7\u00e3o, por via de uma fatal matura\u00e7\u00e3o que est\u00e1 pr\u00f3xima. Deixeis de lado, para os fins da vida pr\u00e1tica, aquela outra psique exterior e de superf\u00edcie, que \u00e9 a raz\u00e3o, porque t\u00e3o-s\u00f3 como esta psique interior, que est\u00e1 na profundeza das coisas. Somente esta \u00e9 a estrada que leva ao conhecimento do absoluto. Somente entre semelhantes \u00e9 poss\u00edvel haver comunica\u00e7\u00e3o e, para compreenderdes o mist\u00e9rio que existe nas coisas, deveis saber descer ao mist\u00e9rio que est\u00e1 dentro de v\u00f3s.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o o ignorais totalmente. Olhais aturdidos para tantas coisas que afloram de uma vossa consci\u00eancia mais profunda, sem conseguir encontrar-lhes as origens: instintos, tend\u00eancias, atra\u00e7\u00f5es, repuls\u00f5es, pressentimentos. A\u00ed nascem, irresistivelmente, todas as maiores afirma\u00e7\u00f5es de vossa personalidade. Ali encontrareis o vosso Eu verdadeiro e eterno, que n\u00e3o deveis confundir com o Eu exterior, aquele Eu que \u00e9 filho da mat\u00e9ria e com a mat\u00e9ria morre.\u00a0 Este Eu exterior, esta consci\u00eancia clara expande-se no cont\u00ednuo fluxo da vida, aprofunda-se em busca daquela outra consci\u00eancia interior latente, que procura emergir e relevar-se. Os dois p\u00f3los do ser, consci\u00eancia exterior clara e consci\u00eancia latente, tendem para a fus\u00e3o. A consci\u00eancia clara experimenta, assimila, imite na late nte os produtos assimilados atrav\u00e9s do movimento da vida: destila\u00e7\u00f5es de valores, automatismos, que constituir\u00e3o os instintos do futuro. Deste modo, por estas permutas incessantes, a personalidade expande-se e atua-se a grande finalidade da vida.\u00a0 Quando a consci\u00eancia latente houver\u00a0 ficado clara e o Eu conhecer-se todo a si mesmo, nesse dia o homem ter\u00e1 vencido a morte. Teremos ocasi\u00e3o de aprofundar mais esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Os estudos das ci\u00eancias ps\u00edquicas \u00e9 o mais importante do que hoje podeis fazer. O novo instrumento de pesquisa que deveis desenvolver e que est\u00e1 naturalmente se desenvolvendo \u00e9, de fato, vossa consci\u00eancia latente. Tendes olhado bastante fora de v\u00f3s; agora, deveis resolver o problema de v\u00f3s mesmos, e tereis resolvido os outros problemas. Acostumais, desde j\u00e1, o vosso pensamento a seguir esta nova ordem de id\u00e9ias e, se souberdes transferir o centro de vossa personalidade para essas estratifica\u00e7\u00f5es profundas, verificareis surgirem em v\u00f3s sentidos novos, uma percep\u00e7\u00e3o an\u00edmica, uma faculdade de vis\u00e3o direta que n\u00e3o mais do que aquela intui\u00e7\u00e3o de que vos tenho falado. Purificai-vos moralmente, afinai a sensibilidade do instrumento, que sois v\u00f3s mesmos, e, s\u00f3 ent\u00e3o, podereis ver.<\/p>\n<p>Os que absolutamente n\u00e3o sentem estas coisas, os que n\u00e3o est\u00e3o maduros, fiquem de lado; voltem, mesmo, a envolver-se na lama de suas baixas aspira\u00e7\u00f5es e n\u00e3o procurem o conhecimento. Este \u00e9 pr\u00eamio concedido somente a quem o tenha duramente merecido.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<p>A grande maioria dos prot\u00f3tipos psicol\u00f3gicos s\u00e3o dotados de habilidades sensitivas naturais, expl\u00edcitas ou impl\u00edcitas. No primeiro caso a sensibilidade funciona como meio e fim; no segundo ela n\u00e3o \u00e9 necessariamente essencial, pois a habilidade pessoal dispensa o contato e o uso da fenomenologia. \u00c9 o caso, por exemplo, do Mahatma Gandhi, cuja intelig\u00eancia intuitiva dispensava qualquer artif\u00edcio medi\u00fanico exterior que pudesse entrar em conflito com a sua proposta de humildade e naturalidade absolutas. Seu sexto sentido, sempre muito agu\u00e7ado, o conduzia irresistivelmente para a exemplifica\u00e7\u00e3o de suas id\u00e9ias j\u00e1 que o seu grande inimigo n\u00e3o era o ceticismo, mas a viol\u00eancia, o orgulho e a arrog\u00e2ncia. Nesse caso o fen\u00f4meno medi\u00fanico tornou-se dispens\u00e1vel, pois o problema era exatamente o contr\u00e1rio, isto \u00e9, o excesso de cren\u00e7a e de ideologia; da\u00ed a sua op\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica por um aspecto que ele mais se impressionou com o cristianismo: o constante exemplo de tranq\u00fcilidade e mansuetude de Jesus.\u00a0 \u00c9, sem d\u00favida, o caso de dimens\u00e3o psicol\u00f3gica que mais chama a aten\u00e7\u00e3o em nosso tempo, tanto pelas suas caracter\u00edsticas incomuns como pela sua repercuss\u00e3o mundial. O grau de consci\u00eancia do Mahatma revelou uma curiosa inter-rela\u00e7\u00e3o de identidade de conceitos, tornando-o uma prova viva da universalidade ou do car\u00e1ter c\u00f3smico que orienta a experi\u00eancia humana.\u00a0 Gandhi \u00e9 tornou-se unanimidade entre todas religi\u00f5es e filosofias humanistas e que pregam a toler\u00e2ncia. Para o pastor protestante Martin Luther King, que seguiu seus passos com f\u00e9 e coer\u00eancia, ele era um exemplo de hero\u00edsmo b\u00edblico\u00a0 \u00e0 altura de um Abra\u00e3o ou de um Mois\u00e9s; para os cat\u00f3licos um caso t\u00edpico de Santidade; para os bud istas, um Iluminado; para os hindu\u00edstas, um raro Avatar; para os esp\u00edritas, um Esp\u00edrito Superior cujas disserta\u00e7\u00f5es poderiam constar em qualquer um dos cap\u00edtulo do Evangelho de Allan Kardec ou nas respostas e coment\u00e1rios de \u201cO\u00a0 Livro dos Esp\u00edritos\u201d.\u00a0 Gandhi \u00e9 o pr\u00f3prio paradoxo: ele \u00e9 a religi\u00e3o e a filosofia de vida que almejamos e ao mesmo tempo a nega\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o e da filosofia que praticamos. Seu brutal assassinato \u00e9 outra prova de como o seu modo de vida e de ver as coisas causavam repugn\u00e2ncia e \u00f3dio ao Homem Biol\u00f3gico que ainda insistimos em conservar em nosso \u00edntimo. Gandhi ainda \u00e9 o Homem do Futuro.<\/p>\n<p><big><br \/>\nO PENSAMENTO VIVO DE GANDHI<\/big><\/p>\n<p>1. O desejo sincero e profundo do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre realizado; em minha pr\u00f3pria vida tenho sempre verificado a certeza disto.<\/p>\n<p>2. Creio poder afirmar, sem arrog\u00e2ncia e com a devida humildade, que a minha mensagem e os meus m\u00e9todos s\u00e3o v\u00e1lidos, em sua ess\u00eancia, para todo o mundo.<\/p>\n<p>3. Acho que vai certo m\u00e9todo atrav\u00e9s das minhas incoer\u00eancias. Creio que h\u00e1 uma coer\u00eancia que passa por todas as minhas incoer\u00eancias assim como h\u00e1 na natureza uma unidade que permeia as aparentes diversidades.<\/p>\n<p>4. As enfermidades s\u00e3o os resultados n\u00e3o s\u00f3 dos nossos atos como tamb\u00e9m dos nossos pensamentos.<\/p>\n<p>5. Satyagraha &#8211; a for\u00e7a do esp\u00edrito &#8211; n\u00e3o depende do n\u00famero; depende do grau de firmeza.<\/p>\n<p>6. Satyagraha e Ahimsa s\u00e3o como duas faces da mesma medalha, ou melhor, como as duas cades de um pequeno disco de metal liso e sem incis\u00f5es. Quem poder\u00e1 dizer qual \u00e9 a certa? A n\u00e3o-viol\u00eancia \u00e9 o meio. A Verdade, o fim.<\/p>\n<p>7. A minha vida \u00e9 um Todo indivis\u00edvel, e todos os meus atos convergem uns nos outros; e todos eles nascem do insaci\u00e1vel amor que tenho para com toda a humanidade.<\/p>\n<p>8. Uma coisa lan\u00e7ou profundas ra\u00edzes em mim: a convic\u00e7\u00e3o de que a moral \u00e9 o fundamento das coisas, e a verdade, a subst\u00e2ncia de qualquer moral. A verdade tornou-se meu \u00fanico objetivo. Ganhou import\u00e2ncia a cada dia. E tamb\u00e9m a minha defini\u00e7\u00e3o dela se foi constantemente ampliando.<\/p>\n<p>9. Minha devo\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade empurrou-me para a pol\u00edtica; e posso dizer, sem a m\u00ednima hesita\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m com toda a humildade que, n\u00e3o entendem nada de religi\u00e3o aqueles que afirmam que ela nada tem a ver com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>10. A minha preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em ser coerente com as minhas afirma\u00e7\u00f5es anteriores sobre determinado problema, mas em ser coerente com a verdade.<\/p>\n<p>11. O erro n\u00e3o se torna verdade por se difundir e multiplicar facilmente. Do mesmo modo a verdade n\u00e3o se torna erro pelo f ato de ningu\u00e9m a ver.<\/p>\n<p>12. O amor \u00e9 a for\u00e7a mais abstrata, e tamb\u00e9m a mais potente, que h\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>13. O Amor e a verdade est\u00e3o t\u00e3o unidos entre si que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel separ\u00e1-los. S\u00e3o como duas faces da mesma medalha.<\/p>\n<p>14. O ahimsa (amor) n\u00e3o \u00e9 somente um estado negativo que consiste em n\u00e3o fazer o mal, mas tamb\u00e9m um estado positivo que consiste em amar, em fazer o bem a todos, inclusive a quem faz o mal.<\/p>\n<p>15. O ahimsa n\u00e3o \u00e9 coisa t\u00e3o f\u00e1cil. \u00c9 mais f\u00e1cil dan\u00e7ar sobre uma corda que sobre o fio da ahimsa.<\/p>\n<p>16. S\u00f3 podemos vencer o advers\u00e1rio com o amor, nunca com o \u00f3dio.<\/p>\n<p>17. A \u00fanica maneira de castigar quem se ama \u00e9 sofrer em seu lugar.<\/p>\n<p>18. \u00c9 o sofrimento, e s\u00f3 o sofrimento, que abre no homem a compreens\u00e3o interior.<\/p>\n<p>19. Unir a mais firme resist\u00eancia ao mal com a maior benevol\u00eancia para com o malfeitor. N\u00e3o existe outro modo de purificar o mundo.<\/p>\n<p>20. A minha natural inclina\u00e7\u00e3o para cuidar dos doentes transformou-se aos poucos em paix\u00e3o; a tal ponto que muitas vezes fui obrigado a descuidar o meu trabalho. . .<\/p>\n<p>21. A n\u00e3o-viol\u00eancia \u00e9 a mais alta qualidade de ora\u00e7\u00e3o. A riqueza n\u00e3o pode consegui-Ia, a c\u00f3lera foge dela, o orgulho devora-a, a gula e a lux\u00faria ofuscam-na, a mentira a esvazia, toda a press\u00e3o n\u00e3o justificada a compromete.<\/p>\n<p>22. N\u00e3o-viol\u00eancia n\u00e3o quer dizer ren\u00fancia a toda forma de luta contra o mal. Pelo contr\u00e1rio. A n\u00e3o-viol\u00eancia, pelo menos como eu a concebo, \u00e9 uma luta ainda mais ativa e real que a pr\u00f3pria lei do tali\u00e3o &#8211; mas em plano moral.<\/p>\n<p>23. A n\u00e3o-viol\u00eancia n\u00e3o pode ser definida como um m\u00e9todo passivo ou inativo. \u00c9 um movimento bem mais ativo que outros e exige o uso das armas. A verdade e a n\u00e3o-viol\u00eancia s\u00e3o, talvez, as for\u00e7as mais ativas de que o mundo disp\u00f5e.<\/p>\n<p>24. Para tornar-se verdadeira for\u00e7a, a n\u00e3o-viol\u00eancia deve nascer do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>25. Creio que a n\u00e3o-viol\u00eancia \u00e9 infinitamente superior \u00e0 viol\u00eancia, e que o perd\u00e3o \u00e9 bem mais viril que o castigo&#8230;<\/p>\n<p>26. A n\u00e3o-viol\u00eancia, em sua concep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, significa sofrimento consciente. N\u00e3o quer absolutamente dizer submiss\u00e3o humilde \u00e0 vontade do malfeitor, mas um empenho, com todo o \u00e2nimo, contra o tirano. Assim um s\u00f3 indiv\u00edduo, tendo como base esta lei, pode desafiar os poderes de um imp\u00e9rio injusto para salvar a pr\u00f3pria honra, a pr\u00f3pria religi\u00e3o, a pr\u00f3pria alma e adiantar as premissas para a queda e a regenera\u00e7\u00e3o daquele mesmo imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>27. O m\u00e9todo da n\u00e3o-viol\u00eancia pode parecer demorado, muito demorado, mas eu estou convencido de que \u00e9 o mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p>28. Ap\u00f3s meio s\u00e9culo de experi\u00eancia, sei que a humanidade n\u00e3o pode ser libertada sen\u00e3o pela n\u00e3o-viol\u00eancia. Se bem entendi, \u00e9 esta a li\u00e7\u00e3o central do cristianismo.<\/p>\n<p>29. S\u00f3 se adquire perfeita sa\u00fade vivendo na obedi\u00eancia \u00e0s leis da Natureza. A verdadeira felicidade \u00e9 imposs\u00edvel sem verdadeira sa\u00fade, e a verdadeira sa\u00fade \u00e9 imposs\u00edvel sem rigoroso controle da gula. Todos os demais sentidos estar\u00e3o automaticamente sujeitos a controle quando a gula estiver sob controle. Aquele que domina os pr\u00f3prios sentidos conquistou o mundo inteiro e tornou-se parte harmoniosa da natureza.<\/p>\n<p>30. A civiliza\u00e7\u00e3o, no sentido real da palavra, n\u00e3o consiste na multiplica\u00e7\u00e3o, mas na vontade de espont\u00e2nea limita\u00e7\u00e3o das necessidades. S\u00f3 essa espont\u00e2nea limita\u00e7\u00e3o acarreta a felicidade e a verdadeira satisfa\u00e7\u00e3o. E aumenta a capacidade de servir.<\/p>\n<p>31. \u00c9 injusto e imoral tentar fugir \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias dos pr\u00f3prios atos. \u00c9 justo que a pessoa que come em demasia se sinta mal ou jejue. \u00c9 injusto que quem cede aos pr\u00f3prios apetites fuja \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias tomando t\u00f4nicos ou outros rem\u00e9dios. \u00c9 ainda mais injusto que uma pessoa ceda \u00e0s pr\u00f3prias paix\u00f5es animalescas e fuja \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias dos pr\u00f3prios atos.<\/p>\n<p>A Natureza \u00e9 inexor\u00e1vel, e vingar-se-\u00e1 completamente de uma tal viola\u00e7\u00e3o de suas leis.<\/p>\n<p>32. Aprendi, gra\u00e7as a uma amarga experi\u00eancia, a \u00fanica suprema li\u00e7\u00e3o: controlar a ira. E do mesmo modo que o calor conservado se transforma em energia, assim a nossa ira controlada pode transformar-se em uma fun\u00e7\u00e3o capaz de mover o mundo. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o me ire ou perca o controle. O que eu n\u00e3o dou \u00e9 campo \u00e0 ira. Cultivo a paci\u00eancia e a mansid\u00e3o e, de uma maneira geral, consigo. Mas quando a ira me assalta, limito-me a control\u00e1-la. Como consigo? \u00c9 um h\u00e1bito que cada um deve adquirir e cultivar com uma pr\u00e1tica ass\u00eddua.<\/p>\n<p>33. O sil\u00eancio j\u00e1 se tornou para mim uma necessidade f\u00edsica espiritual. Inicialmente escolhi-o para aliviar-me da depress\u00e3o. A seguir precisei de tempo para escrever. Ap\u00f3s hav\u00ea-lo praticado por certo tempo descobri, todavia, seu valor espiritual. E de repente dei conta de que eram esses momentos em que melhor podia comunicar-me com Deus. Agora sinto-me como se tivesse sido feito para o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>34. Aqueles que t\u00eam um grande autocontrole, ou que est\u00e3o totalmente absortos no trabalho, falam pouco. Palavra e a\u00e7\u00e3o juntas n\u00e3o andam bem. Repare na natureza: trabalha continuamente, mas em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>35. Aquele que n\u00e3o \u00e9 capaz de governar a si mesmo, n\u00e3o ser\u00e1 capaz de governar os outros.<\/p>\n<p>36. Quem sabe concentrar-se numa coisa e insistir nela como \u00fanico objetivo, obt\u00e9m, ao cabo, a capacidade de fazer qualquer coisa.<\/p>\n<p>37. A verdadeira educa\u00e7\u00e3o consiste em p\u00f4r a descoberto ou fazer atualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor que o livro da humanidade?<\/p>\n<p>38. N\u00e3o quero que minha casa seja cercada por muros de todos os lados e que as minhas janelas esteja tapadas. Quero que as culturas de todos os povos andem pela minha casa com o m\u00e1ximo de liberdade poss\u00edvel.<\/p>\n<p>39. Nada mais longe do meu pensamento que a id\u00e9ia de fechar-me e erguer barreiras. Mas afirmo, com todo respeito, que o apre\u00e7o pelas demais culturas pode convenientemente seguir, e nunca anteceder, o apre\u00e7o e a assimila\u00e7\u00e3o da nossa. (&#8230;) Um aprendizado acad\u00eamico, n\u00e3o baseado na pr\u00e1tica, \u00e9 como um cad\u00e1ver embalsamado, talvez para ser visto, mas que n\u00e3o inspira nem nobilita nada. A minha religi\u00e3o pro\u00edbe-me de diminuir ou desprezar as outras culturas, e insiste, sob pena de suic\u00eddio civil, na necessidade de assimilar e viver a vida.<\/p>\n<p>40. Ler e escrever, de per si, n\u00e3o s\u00e3o educa\u00e7\u00e3o. Eu iniciaria a educa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, portanto, ensinando-lhe um trabalho manual \u00fatil, e colocando-a em grau de produzir desde o momento em que come\u00e7a sua educa\u00e7\u00e3o. Desse modo todas as escolas poderiam tornar-se auto-suficientes, com a condi\u00e7\u00e3o de o Estado comprar os manufaturados.<\/p>\n<p>Acredito que um tal sistema educativo permitira o mais alto desenvolvimento da mente e da alma. \u00c9 preciso, por\u00e9m, que o trabalho manual n\u00e3o seja ensinado apenas mecanicamente, como se faz hoje, mas cientificamente, isto \u00e9, a crian\u00e7a deveria saber o porqu\u00ea e o como de cada opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os olhos, os ouvidos e a l\u00edngua v\u00eam antes da m\u00e3o. Ler vem antes de escrever e desenhar antes de tra\u00e7ar as letras do alfabeto.<\/p>\n<p>Se seguirmos este m\u00e9todo, a compreens\u00e3o das crian\u00e7as ter\u00e1 oportunidade de se desenvolver melhor do que quando \u00e9 freada iniciando a instru\u00e7\u00e3o pelo alfabeto.<\/p>\n<p>41. Odeio o privil\u00e9gio e o monop\u00f3lio. Para mim, tudo o que n\u00e3o pode ser dividido com as multid\u00f5es \u00e9 &#8220;tabu&#8221;.<\/p>\n<p>42. A desobedi\u00eancia civil \u00e9 um direito intr\u00ednseco do cidad\u00e3o. N\u00e3o ouse renunciar, se n\u00e3o quer deixar de ser homem. A desobedi\u00eancia civil nunca \u00e9 seguida pela anarquia. S\u00f3 a desobedi\u00eancia criminal com a for\u00e7a. Reprimir a desobedi\u00eancia civil \u00e9 tentar encarcerar a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>43. Todo aquele que possui coisas de que n\u00e3o precisa \u00e9 um ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>44. Quem busca a verdade, quem obedece a lei do amor, n\u00e3o pode estar preocupado com o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>45. As diverg\u00eancias de opini\u00e3o n\u00e3o devem significar hostilidade. Se fosse assim, minha mulher e eu dever\u00edamos ser inimigos figadais. N\u00e3o conhe\u00e7o duas pessoas no mundo que n\u00e3o tenham tido diverg\u00eancias de opini\u00e3o. Como seguidor da Gita (Bhagavad Gita), sempre procurei nutrir pelos que discordam de mim o mesmo afeto que nutro pelos que me s\u00e3o mais queridos e vizinhos.<\/p>\n<p>46. Continuarei confessando os erros cometidos. O \u00fanico tirano que aceito neste mundo \u00e9 a &#8220;silenciosa e pequena voz&#8221; dentro de mim. Embora tenha que enfrentar a perspectiva de formar minoria de um s\u00f3, creio humildemente que tenho coragem de encontrar-me numa minoria t\u00e3o desesperadora.<\/p>\n<p>47. Nas quest\u00f5es de consci\u00eancia a lei da maioria n\u00e3o conta.<\/p>\n<p>48. Estou firmemente convencido que s\u00f3 se perde a liberdade por culpa da pr\u00f3pria fraqueza.<\/p>\n<p>49. Acredito na essencial unidade do homem, e, portanto na unidade de tudo o que vive. Por conseguinte, se um homem progredir espiritualmente, o mundo inteiro progride com ele, e se um homem cai, o mundo inteiro cai em igual medida.<\/p>\n<p>50. Minha miss\u00e3o n\u00e3o se esgota na fraternidade entre os indianos. A minha miss\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 simplesmente na liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia, embora ela absorva, em pr\u00e1tica, toda a minha vida e todo o meu tempo. Por meio da liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia espero atuar e desenvolver a miss\u00e3o da fraternidade dos homens.O meu patriotismo n\u00e3o \u00e9 exclusivo. Engloba tudo. Eu repudiaria o patriotismo que procurasse apoio na mis\u00e9ria ou na explora\u00e7\u00e3o de outras na\u00e7\u00f5es. O patriotismo que eu concebo n\u00e3o vale nada se n\u00e3o se conciliar sempre, sem exce\u00e7\u00f5es, com o maior bem e a paz de toda a humanidade.<\/p>\n<p>51. A mulher deve deixar de se considerar o objeto da concupisc\u00eancia do homem. O rem\u00e9dio est\u00e1 em suas m\u00e3os mais que nas m\u00e3os do homem.<\/p>\n<p>52. Uma vida sem religi\u00e3o \u00e9 como um barco sem leme.<\/p>\n<p>53. A f\u00e9 &#8211; um sexto sentido &#8211; transcende o intelecto sem contradiz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>54. A minha f\u00e9, nas densas trevas, resplandece mais viva.<\/p>\n<p>55. Somente podemos sentir deus destacando-nos dos sentidos.<\/p>\n<p>56. O que eu quero alcan\u00e7ar, o ideal que sempre almejei com sofreguid\u00e3o (&#8230;) \u00e9 conseguir o meu pleno desenvolvimento, ver Deus face-a-face, conseguir a liberta\u00e7\u00e3o do Eu.<\/p>\n<p>57. Orar n\u00e3o \u00e9 pedir. Orar \u00e9 a respira\u00e7\u00e3o da alma.<\/p>\n<p>58. A ora\u00e7\u00e3o salvou-me a vida. Sem a ora\u00e7\u00e3o teria ficado muito tempo sem f\u00e9. Ela salvou-me do desespero. Com o tempo a minha f\u00e9 aumentou e a necessidade de orar tornou-se mais irresist\u00edvel&#8230; A minha paz muitas vezes causa inveja. Ela vem-me da ora\u00e7\u00e3o. Eu sou um homem de ora\u00e7\u00e3o. Como o corpo se n\u00e3o for lavado fica sujo, assim a alma sem ora\u00e7\u00e3o se torna impura.<\/p>\n<p>59. O Jejum \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o mais dolorosa e tamb\u00e9m a mais sincera e compensadora.<\/p>\n<p>60. O Jejum \u00e9 uma arma potente. Nem todos podem us\u00e1-la.<\/p>\n<p>Simples resist\u00eancia f\u00edsica n\u00e3o significa aptid\u00e3o para jejum.<\/p>\n<p>O Jejum n\u00e3o tem absolutamente sentido sem f\u00e9 em Deus.<\/p>\n<p>61. Para mim nada mais purificador e fortificante que um jejum.<\/p>\n<p>62. Os meus advers\u00e1rios ser\u00e3o obrigados a reconhecer que tenho raz\u00e3o.<\/p>\n<p>A verdade triunfar\u00e1. . . At\u00e9 agora todos os meus jejuns foram maravilhosos:<\/p>\n<p>n\u00e3o digo em sentido material, mas por aquilo que acontece dentro de mim.<\/p>\n<p>\u00c9 uma paz celestial.<\/p>\n<p>63. Jejum para purificar a si mesmo e aos outros \u00e9 uma antiga regra que durar\u00e1 enquanto o homem acreditar em Deus.<\/p>\n<p>64. Tenho profunda f\u00e9 no m\u00e9todo de jejum particular e p\u00fablico. . . Sofrer mesmo at\u00e9 a morte, e, portanto mesmo mediante um jejum perp\u00e9tuo, e a arma extrema do satyagrahi. \u00c9 o \u00faltimo dever que podemos cumprir. O Jejum faz parte de meu ser, como acontece, em maior ou menor escala, com todos os que procuraram a verdade. Eu estou fazendo uma experi\u00eancia de ahimsa em vasta escala, uma experi\u00eancia talvez at\u00e9 hoje desconhecida pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>65. Quem quer levar uma vida pura deve estar sempre pronto para o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>66. O dever do sacrif\u00edcio n\u00e3o nos obriga a abandonar o mundo e a retirar-nos para uma floresta, e sim a estar sempre prontos a sacrificar-nos pelos outros.<\/p>\n<p>67. Quem venceu o medo da morte venceu todos os outros medos.<\/p>\n<p>68. Os louvores do mundo n\u00e3o me agradam; pelo contr\u00e1rio, muitas vezes me entristecem.<\/p>\n<p>69. Quando ou\u00e7o gritar Mahatma Gandhi Ki jai, cada som desta frase me transpassa o cora\u00e7\u00e3o como se fosse uma flecha. Se pensasse, embora por um s\u00f3 instante, que tais gritos podem merecer-me o swaraj; conseguiria aceitar o meu sofrimento. Mas quando constato que as pessoas perdem tempo e gastam energias em aclama\u00e7\u00f5es v\u00e3s, e passam ao longo quando se trata de trabalho, gostaria que, em vez de gritarem meu nome, me acendessem uma pira f\u00fanebre, na qual eu pudesse subir para apagar uma vez por todas o fogo que arde o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>70. Uma civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 julgada pelo tratamento que dispensa \u00e0s minorias.<\/p>\n<p>71. Sei por experi\u00eancia que a castidade \u00e9 f\u00e1cil para quem \u00e9 senhor de si mesmo.<\/p>\n<p>72. O brahmacharya \u00e9 o controle dos sentidos no pensamento, nas palavras, e na a\u00e7\u00e3o. . . O que a ele aspira n\u00e3o deixar\u00e1 nunca de ter consci\u00eancia de suas faltas, n\u00e3o deixar\u00e1 nunca de perseguir as paix\u00f5es que se aninham ainda nos \u00e2ngulos escuros de seu cora\u00e7\u00e3o, e lutar\u00e1 sem tr\u00e9gua pela total liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>73. O brahmacharya, como todas as outras regras, deve ser observado nos pensamentos, nas palavras e nas a\u00e7\u00f5es. Lemos na Gita e a experi\u00eancia confirma-no-lo todos os dias que quem domina o pr\u00f3prio corpo, mas alimenta maus pensamentos faz um esfor\u00e7o v\u00e3o. Quando o esp\u00edrito se dispersa, o corpo inteiro, cedo ou tarde, o segue na perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>74. Por vezes pensa-se que e muito dif\u00edcil, ou quase imposs\u00edvel conservar castidade. O motivo desta falsa opini\u00e3o e que freq\u00fcentemente, a palavra castidade \u00e9 entendida em sentido limitado demais.<\/p>\n<p>Pensa-se que a castidade \u00e9 o dom\u00ednio das paix\u00f5es animalescas. Esta id\u00e9ia de castidade \u00e9 incompleta e falsa.<\/p>\n<p>75. Vivo pela liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia e morreria por ela, pois \u00e9 parte da verdade.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma \u00cdndia livre pode adorar o Deus verdadeiro. Trabalho pela liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia porque o meu Swadeshi me ensina que, tendo nascido e herdado sua cultura, sou mais apto a servir \u00e0 \u00cdndia e ela tem prioridade de direitos aos meus servi\u00e7os. Mas o meu patriotismo n\u00e3o \u00e9 exclusivo; n\u00e3o tem por meta apenas n\u00e3o fazer mal a ningu\u00e9m, mas fazer bem a todos no verdadeiro sentido da palavra. A liberta\u00e7\u00e3o da \u00cdndia, como eu a concebo, n\u00e3o poder\u00e1 nunca constituir amea\u00e7a para o mundo.<\/p>\n<p>76. Possuo a n\u00e3o-viol\u00eancia do corajoso? S\u00f3 a morte dir\u00e1. Se me matarem e eu com uma ora\u00e7\u00e3o nos l\u00e1bios pelo meu assassino e com o pensamento em Deus, ciente da sua presen\u00e7a viva no santu\u00e1rio do meu cora\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, e s\u00f3 ent\u00e3o, poder-se-\u00e1 dizer que possuo a n\u00e3o-viol\u00eancia do corajoso.<\/p>\n<p>77. N\u00e3o desejo morrer pela paralisa\u00e7\u00e3o progressiva das minhas faculdades, corno um homem vencido. A bala de meu assassino poderia p\u00f4r fim \u00e0 minha vida. Acolh\u00ea-la-ia com alegria.<\/p>\n<p>78. A regra de ouro consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos como uma toda a fam\u00edlia humana. Quem faz distin\u00e7\u00e3o entre os fi\u00e9is da pr\u00f3pria religi\u00e3o e os de outra, deseduca os membros da sua religi\u00e3o e abre caminho para o abandono, a irreligi\u00e3o.<\/p>\n<p>79. A for\u00e7a de um homem e de um povo est\u00e1 na n\u00e3o-viol\u00eancia. Experimentem.<\/p>\n<p>80 .A \u00fanica maneira de castigar quem se ama \u00e9 sofrer em seu lugar.&#8221;<\/p>\n<p>80. N\u00e3o viol\u00eancia \u00e9 a lei de nossa esp\u00e9cie como viol\u00eancia \u00e9 a lei do bruto. O esp\u00edrito mente dormente no bruto, e ele n\u00e3o sabe nenhuma lei mas o de poder f\u00edsico. A dignidade de homem requer obedi\u00eancia a uma lei mais alta &#8211; a for\u00e7a do esp\u00edrito&#8221;.<\/p>\n<p>81.\u00a0 Se o homem s\u00f3 perceber\u00e1 que \u00e9 desumano obedecer leis que s\u00e3o injustas, a tirania de nenhum homem o escravizar\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p>82. N\u00e3o pode haver nenhuma paz dentro sem verdadeiro conhecimento.Para autodefesa, eu restabeleceria a cultura espiritual. O melhor e autodefesa mais duradoura \u00e9 auto-purifica\u00e7\u00e3o &#8220;.<\/p>\n<p>Mas como atingir esse grau de maturidade? Quando e em que \u00e9poca\u00a0 humanidade ter\u00e1 entre seus membros e presente nas suas diversas culturas essas caracter\u00edsticas de um novo ser? Certamente essa mudan\u00e7a tamb\u00e9m ocorrer\u00e1 no meio ambiente: um novo ser humano viver\u00e1 em um novo mundo, uma sociedade diferente daquela que vinha sendo desenvolvida h\u00e1 s\u00e9culos e que est\u00e1 dando os seus \u00faltimos suspiros no planeta. As aristocracias da for\u00e7a e dos privil\u00e9gios, que dominaram nos primeiros mil\u00eanios da experi\u00eancia\u00a0\u00a0 humana j\u00e1 esgotaram suas possibilidades de satisfazer as necessidades sociais e desafios que se apresentam no pr\u00f3ximo mil\u00eanio. N\u00e3o existe mais espa\u00e7o para as desigualdades porque j\u00e1 foi apontado o rumo do respeito pelas diferen\u00e7 as; n\u00e3o h\u00e1 mais clima para as guerras e para viol\u00eancia porque j\u00e1 aprendemos o caminho da\u00a0 aceita\u00e7\u00e3o e solidariedade; j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais justificativa para os tormentos pessoais, para as fugas e auto-destrui\u00e7\u00e3o porque\u00a0 j\u00e1 alcan\u00e7amos a capacidade da auto-ajuda e do conforto do auto-equil\u00edbrio; n\u00e3o h\u00e1 mais a necessidade das trag\u00e9dias existenciais familiares, da dor e da morte do corpo porque p\u00e1 estamos desvendando os segredos t\u00e9cnicos e gen\u00e9ticos e diverso conhecimentos que nos conduzem em caminho seguros e satisfat\u00f3rios no campo da sa\u00fade e do destino.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX pairava entre n\u00f3s a d\u00favida e a incerteza sobre o futuro da humanidade. Nos anos 70 e 80 n\u00e3o v\u00edamos no horizonte sen\u00e3o a escura perspectiva da degenera\u00e7\u00e3o e de uma cat\u00e1strofe nuclear. O sonho de paz e amor dos hippies foi sendo massacrado pela ambi\u00e7\u00e3o desmedida dos jovens yuppies; a liberdade sexual e as experi\u00eancias aparentemente inofensivas do psicodelismo resultaram na devasta\u00e7\u00e3o causada pela coca\u00edna e pela AIDS; uma sucess\u00e3o de guerras e revolu\u00e7\u00f5es no jogo da Guerra Fria das superpot\u00eancias, bem como a gana capitalista colocaram em risco n\u00e3o s\u00f3 o meio ambiente , mas a pr\u00f3pria exist\u00eancia do planeta tal a irresponsabilidade no uso dos recurso naturais e na disputa armamentista. Viv\u00edamos naqueles terr\u00edveis anos de medo e ansiedade, antes da globaliza\u00e7\u00e3o, um clima de apocalipse. O m undo realmente estava acabando e poucas foram as vozes serenas que se arriscaram a dar opini\u00f5es sobre o que estava acontecendo ser correr o risco de serem acusados de falsa profecia e de esp\u00edrito de seita ou dos gurus. Nesses momentos de\u00a0 inseguran\u00e7a e de falta de rumos, as fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e tamb\u00e9m as utopias brotam nos jardins da esperan\u00e7a. Velhos autores da antiguidade cl\u00e1ssica e da renascen\u00e7a; ut\u00f3picos socialistas e vision\u00e1rios do s\u00e9culo XIX; todos reaparecem nas estantes, no cinema e nas s\u00e9ries da TV. Verne, Huxley, Assimov, Mac-Luhan, Tagore, Einstein, Gandhi, King, Rogers, Morin, Rohden e muitos outros , se misturam num grande diversidade de conhecimentos e experi\u00eancias e fazem o papel dos antigos profetas b\u00edblicos. Eles d\u00e3o not\u00edcias de uma \u00e9poca distante, do tempo relativo, da possibilidade do vir a ser. Por isso s\u00e3o compreensivelmente devorados pelos famintos do alimento futuro.\u00a0\u00a0 Nem tudo est\u00e1 perdido. H\u00e1 luz no fim do t\u00fanel e vida intensa para ser vivida nos pr\u00f3ximos mil anos.<\/p>\n<p><big><big>20. O Homem C\u00f3smico Integral\u00a0<\/big><br \/>\n<\/big><br \/>\nO Homem Integral \u00e9 o S\u00e9timo Ser, a s\u00edntese dos seis prot\u00f3tipos anteriores. Nele certamente atingiremos a plenitude da Consci\u00eancia, atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel das tr\u00eas viv\u00eancias da mente: o Pensamento, a A\u00e7\u00e3o e o Sentimento. Tal experi\u00eancia n\u00e3o se limita naturalmente ao planeta Terra, mas tamb\u00e9m nas in\u00fameras possibilidades de exist\u00eancias em outros orbes dos Cosmos.\u00a0 Nisso concentra-se a l\u00f3gica da diversidade de mundos \u2013 as muitas moradas da Casa do Pai \u2013 e a pluralidade das exist\u00eancias.\u00a0 Os cinco sentidos f\u00edsicos, como outras faculdades que abandonamos no passado, ser\u00e3o gradualmente substitu\u00eddos por outras percep\u00e7\u00f5es mais sutis, iniciadas pelo sexto sentido, que \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o extra-sensorial. O dom\u00edn io gradual dessas novas faculdades, t\u00edpicas de mundos superiores e ang\u00e9licos, culmina naquilo que poder\u00edamos denominar, tamb\u00e9m grosso modo, de \u201cS\u00e9timo Sentido\u201d ou \u201cSuperconsciente\u201d. \u00c9 quando se d\u00e1 a conclus\u00e3o da verticaliza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia, dentro dos limites humanos, de noventa graus.\u00a0 S\u00e3o os \u00faltimos degraus da Escada de Jac\u00f3, por\u00e9m s\u00e3o apenas os primeiros passos do ingresso no Reino de Deus, cuja dimens\u00f5es e estado de coisas fogem da nossa compreens\u00e3o atual. Rar\u00edssimas experi\u00eancias foram descritas e, quando relatadas, seus protagonistas n\u00e3o t\u00eam outra alternativa sen\u00e3o apelar para a linguagem dos s\u00edmbolos e par\u00e1bolas. S\u00e3o os Mestres do Esp\u00edrito e da Consci\u00eancia que, em diversos graus de evolu\u00e7\u00e3o, nesta mesma etapa, voltam aos mundos baixos para realizarem uma dupla fun\u00e7\u00e3o: adorar a Deus e se auto-reconhecerem no mundo interior dos semelhantes e ao mesmo tempo auxili\u00e1-los na complexa e dolorosa descoberta de si mesmos.\u00a0 Annie Besant escreveu em 1912 um ensaio sobre esses \u201cIrm\u00e3os mais Velhos da Humanidade\u201d[31] e a eles assim se refere:<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma etapa , na evolu\u00e7\u00e3o humana, imediatamente anterior \u00e0 meta do esfor\u00e7o humano, que, uma vez atravessada, o homem, enquanto homem, n\u00e3o tem mais nada a realizar. Ele torna-se perfeito; sua carreira humana terminou. As grandes religi\u00f5es d\u00e3o nomes diferentes a esse Homem Perfeito, mas, qualquer que seja\u00a0 o nome, o conceito \u00e9 o mesmo; Ele \u00e9 Mitra, Os\u00edris, Krishna, Buda ou Cristo, mas sempre simboliza o Homem que se tornou perfeito. Ele n\u00e3o pertence a uma \u00fanica religi\u00e3o, na\u00e7\u00e3o ou fam\u00edlia humana; n\u00e3o est\u00e1 limitado por um \u00fanico credo; em todo lugar ele \u00e9 o mais nobre, o mais prefeito ideal. Todas as religi\u00f5es o proclamam; todos os credos t\u00eam nele sua justifica\u00e7\u00e3o; ele \u00e9 o ideal pelo qual se esfor\u00e7am todas as cren\u00e7as, e cada religi\u00e3o cumpre sua miss\u00e3o com maior ou menor efici\u00eancia , conforme a claridade com que ilumina e a precis\u00e3o com que ensina o caminho pelo qual ele pode ser alcan\u00e7ado. O Nome do Cristo, atribu\u00eddo ao Homem Perfeito pelos crist\u00e3os, designa mais um estado do que o nome de um homem. \u201cCristo em voc\u00ea, a esperan\u00e7a da gl\u00f3ria\u201d, \u00e9 o pensamento do mestre Crist\u00e3o. Os homens, no longo percurso da evolu\u00e7\u00e3o, atingem o estado de Cristo, pois todos concluem com o tempo a peregrina\u00e7\u00e3o secular, e aquele que especialmente no Ocidente est\u00e1 conectado a esse nome \u00e9 um dos \u201cFilhos de Deus\u201d, que atingiram o objetivo final da humanidade. A palavra sempre trouxe consigo a conota\u00e7\u00e3o de um estado: \u201co sagrado\u201d. Todos devem atingir esse estado: \u201cOlhai dentro de ti; tu \u00e9s Buda\u201d. \u201cAt\u00e9 que o Cristo surja em ti\u201d.<\/p>\n<p>Assim como aquele que deseja tornar-se m\u00fasico, deveria ouvir as obras-primas dessa arte e mergulhar nas melodias dos grandes mestres da m\u00fasica, dever\u00edamos n\u00f3s, filhos da humanidade, erguer nosso olhos e nossos cora\u00e7\u00f5es, em contempla\u00e7\u00e3o constantemente renovada, para as montanhas onde habitam os Homens Perfeitos da nossa ra\u00e7a. O que n\u00f3s somos eles j\u00e1 foram; o que eles s\u00e3o n\u00f3s seremos. Todos os filhos dos homens podem fazer o que um Filho do Homem j\u00e1 fez, e vemos neles a garantia do nosso pr\u00f3prio triunfo; o desenvolvimento de semelhante divindade em n\u00f3s \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Como vimos, a experi\u00eancia do Mahatma Gandhi foi t\u00edpica daqueles seres que est\u00e3o em transi\u00e7\u00e3o para a condi\u00e7\u00e3o sobre-humana. Ao mergulharem na carne realizam as etapas de exist\u00eancia para qual escolheram como meio e logo tomam o rumo da finalidade para qual vieram. Nesse ponto direcionam seus olhares para todos os lados poss\u00edveis em busca das refer\u00eancias que v\u00e3o lhes reativar a mem\u00f3ria espiritual, bem como os\u00a0 modelos de conduta que possam solucionar\u00a0 suas equa\u00e7\u00f5es iniciais sobre o jogo da vida e da morte. Gandhi foi iniciado nas escolas espiritualistas da sua cultura milenar, farta de mestres\u00a0 e avatares, mas s\u00f3 foi despertar para o seu fim principal quando leu o Serm\u00e3o da Montanha e, consequentemente, mais 80 livros sobre o Cristianismo. O contato com as Bem-aventuran\u00e7as repercutiu como um raio devastador na sua alma adormecida pelas leis do mundo f\u00edsico e tal foi o efeito que o jovem advogado saiu pelo mundo em busca de si mesmo, atra\u00eddo pelos milh\u00f5es espelhos humanos que desfilavam diante de seus olhos, como reflexos inc\u00f4modos dos sofrimentos causados pela mis\u00e9ria e pela injusti\u00e7a social. Nesses instantes Gandhi esquecia de\u00a0 si pr\u00f3prio e dizia para si mesmo coisas que no conceito comum eram consideradas est\u00fapidas: \u201cTenho que abrir m\u00e3o daquilo que n\u00e3o \u00e9 essencial, coisas perfeitamente dispens\u00e1veis e que a grande maioria das pessoas pobres n\u00e3o podem ter acesso\u201d.\u00a0 Ou ent\u00e3o, ao ser agredido por um soldado durante uma manifesta\u00e7\u00e3o:\u00a0 \u201cEle atingiu o meu corpo e n\u00e3o o meu esp\u00edrito\u201d.\u00a0 \u00c9 por isso que Will Durant vi u nele o retrato de um \u201csanto\u201d, uma imagem distanciada da realidade e que s\u00f3 poderia ser compreendida pelos rituais exteriores da sacraliza\u00e7\u00e3o, t\u00edpicas dos mitos santificados. \u201cO Serm\u00e3o da Montanha foi incontinenti ao meu cora\u00e7\u00e3o na primeira leitura\u201d, disse Gandhi, descobrindo que ali estava o caminho que tanto procurava desde a mais tenra juventude; a chave da busca pela compreens\u00e3o do seu universo metaf\u00edsico e do v\u00e1cuo que trazia na alma solit\u00e1ria e deslocada do mundo exterior. Ainda jovem, Gandhi n\u00e3o compreendia por que os ingleses, sendo crist\u00e3os, n\u00e3o praticassem os ensinamentos do Cristo. Decidiu ent\u00e3o ler, entender e aplicar em si pr\u00f3prio as id\u00e9ias do Serm\u00e3o da Montanha como uma arma ideol\u00f3gica contra o imperialismo brit\u00e2nico. Era uma nova e moderna batalha entre Cristo e Roma, em pleno s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>No entanto Gandhi estava contradit\u00f3ria e terrivelmente preso ao mundo de C\u00e9sar; era uma miss\u00e3o que o ligava carmicamente aos conflitos pol\u00edticos do seu povo e aos sistemas opressores das castas. Tudo isso colocava em risco a dignidade humana e negava ao povo o direito \u00e0 felicidade, mesmo que em gotas, como a que todos temos no dia-a-dia, a cada p\u00f4r do Sol. Nas suas elucubra\u00e7\u00f5es Gandhi certamente lembrou-se de Buda e de Krishna, mas a experi\u00eancia do Cristo Jesus o havia impressionado na r\u00e1pida leitura daquelas oito pequenas senten\u00e7as de um breve e hist\u00f3rico discurso. Os 32 Caminhos da Sabedoria e as 50 Portas da Intelig\u00eancia, que a Cabala judaica dizia conduzir o homem \u00e0 Deus, haviam sido maravilhosamente simplificadas em nove recomenda\u00e7\u00f5es iniciadas pela singela express\u00e3o \u201cBem-aventurados&#8230;\u201d As Quatro Verdades fundamentais do budismo, bem como suas Oito Trilhas Nobres, antes ensinadas somente a uns poucos escolhidos, foram pronunciadas serenamente em p\u00fablico, aos quatro ventos e cantos do mundo, para quem quisesse ouvir.<\/p>\n<p>O povo da \u00cdndia ainda sofre, assim como todos os povos do mundo. A \u00cdndia n\u00e3o aceitou a mensagem viva de Gandhi, como tamb\u00e9m esqueceu os exemplos de Gautama Buda. Assim tem sido tamb\u00e9m com as demais na\u00e7\u00f5es, com rela\u00e7\u00e3o ao exemplo deixado pelo Cristo. Admiramos, mas n\u00e3o praticamos.\u00a0 Grande tem sido o esfor\u00e7o de muitos comunicadores para espalhar essas verdades e faz\u00ea-las penetrar nos cora\u00e7\u00f5es humanos; os dias passam e as frases encantadoras do Serm\u00e3o da Montanha parecem estar cada vez mais distantes dos nossos ouvidos indiferentes.\u00a0 Tanto o \u201cReino de Deus\u201d como o \u201cNirvana\u201d ainda nos seduzem, mas ainda \u00e9 uma sedu\u00e7\u00e3o pelos olhos do desejo de consumo, igual ao da Serpente (Concupisc\u00eancia) ou de Moha (Ilus\u00e3o).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, j\u00e1 conhecendo pelos olhos do desejo as palavras de Buda e do Cristo, j\u00e1 nos tornamos intelectualmente metaf\u00edsicos e j\u00e1 fomos positivados pela certeza da realidade transcendente. Mas quanto isso tudo significa em termos de graus de consci\u00eancia?\u00a0 Em que ponto estamos da escala? O teste, embora constrangedor e, \u00e0s vezes doloroso,\u00a0 \u00e9 bastante simples: basta olhar para dentro de si mesmo e perguntar como nos comportar\u00edamos diante dessas situa\u00e7\u00f5es de bem-aventuran\u00e7a propostas por Jesus, no serm\u00e3o da Montanha, e pelo Buda, no serm\u00e3o de Benares:<\/p>\n<p>Temos sido pobres de esp\u00edrito? Temos tido uma vis\u00e3o correta para compreender as quatro verdades?[32]<\/p>\n<p>Temos reagido com mansid\u00e3o? Temos mantido o pensamento correto, livre da de lux\u00faria, m\u00e1 vontade, crueldade e mentira?<\/p>\n<p>Termos nos sentido saciado em nossa fome e em nossa sede de justi\u00e7a? Temos usado a palavra correta, sem falsidade, dureza e futilidade?<\/p>\n<p>Temos alcan\u00e7ado a miseric\u00f3rdia, sendo misericordiosos? Temos tido a\u00e7\u00e3o correta, que n\u00e3o furta, n\u00e3o mata,\u00a0 e n\u00e3o se corrompe sexualmente?<\/p>\n<p>Temos visto a Deus, sendo puros de cora\u00e7\u00e3o? Temos tido vida correta, em que o ganha p\u00e3o a nenhum ser vivo prejudica?<\/p>\n<p>Temos sido pac\u00edficos e chamados de filhos de Deus? Temos tido esfor\u00e7o correto, , para evitar os maus pensamentos e domin\u00e1-los, para suscitar bons pensamentos e conserv\u00e1-los? Temos tido aten\u00e7\u00e3o correta,\u00a0 que \u00e9 vigil\u00e2ncia estrita\u00a0 e cont\u00ednua a todos os estados do corpo, dos sentimentos, da mente?<\/p>\n<p>Temos mantido o amor \u00e0 justi\u00e7a e o ideal crist\u00e3o, mesmo diante das persegui\u00e7\u00f5es, inj\u00farias e mentiras? Temos tido concentra\u00e7\u00e3o correta, num objetivo \u00fanico, de forma a atingir estados especiais de consci\u00eancia pela medita\u00e7\u00e3o profunda?<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p><big>Sobre o Autor<\/big><\/p>\n<p>Dalmo Duque dos Santos nasceu em 23 de agosto 1961, paulista de Porto Tibiri\u00e7\u00e1 (atual Presidente Epit\u00e1cio), em fam\u00edlia esp\u00edrita, cresceu freq\u00fcentando grupos de mocidade esp\u00edrita e militando como volunt\u00e1rio e expositor. Iniciou seus estudos superiores na Universidade Cat\u00f3lica de Santos, em 1984, bacharelando-se em Hist\u00f3ria na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo \u2013 PUC, em 1990. Graduou-se tamb\u00e9m em Pedagogia, em 1993, na Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Presidente Venceslau. P\u00f3s-graduou-se em 2002 como Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o, pela Universidade Paulista \u2013 UNIP, cuja tese foi um relato de experi\u00eancia sobre a cria\u00e7\u00e3o e reda\u00e7\u00e3o de um livro sobre a Hist\u00f3ria do Espiritismo. Na \u00e1rea liter\u00e1ria esp\u00edrita criou e adaptou a cole\u00e7\u00e3o de bolso Allan Kardec Dia-a-Dia e escreveu os ensaios A Intelig\u00eancia Espiritual, sobre a revolu\u00e7\u00e3o did\u00e1tica das Escolas de Aprendizes do Evangelho e Voc\u00ea em Busca de Voc\u00ea Mesmo, sobre a crise e as transforma\u00e7\u00f5es do ser humano neste in\u00edcio do 3\u00ba mil\u00eanio.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>[1] A Conspira\u00e7\u00e3o Aquariana \u2013 Transforma\u00e7\u00f5es pessoais nos anos 80. Editora Record<\/p>\n<p>[2] Um novo mundo, uma nova pessoa, in Em busca de vida. Summus Editorial.<\/p>\n<p>[3] Revista Nova Escola. Funda\u00e7\u00e3o Victor Civita.<\/p>\n<p>[4] Os Sete Saberes Necess\u00e1rios \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o do Futuro. Cortez.<\/p>\n<p>[5] Novo Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio. Nova Fronteira.<\/p>\n<p>[6] Segundo Edgard Armond, a mente se classifica em tr\u00eas aspectos de um conjunto: a instintiva, regulando fun\u00e7\u00f5es instintivas do corpo; a intelectual, regulando as fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro; e a espiritual regulando as fun\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito. Ver o cap\u00edtulo\u00a0 \u201c Constitui\u00e7\u00e3o Ps\u00edquica \u201c\u00a0 in O Livre Arb\u00edtrio. Editora Alian\u00e7a<\/p>\n<p>[7] As informa\u00e7\u00f5es aqui expostas sobre individualidade e ambiente foram extra\u00eddas de um estudo feito pelo Dr. Allankardec Gonzalez, professor da Faculdade de Medicina da USP em Ribeir\u00e3o Preto, direcionado especialmente aos volunt\u00e1rios do CVV- Centro de Valoriza\u00e7\u00e3o da Vida.<\/p>\n<p>[8] A s\u00edntese das intelig\u00eancias que apresentamos foi extra\u00edda e adaptada de uma resenha da Dra. Esm\u00e9ria Rovai, professora da PUC de S\u00e3o Paulo sobre a\u00a0 obra de Howard Gardner: \u201cEstruturas da Mente: as intelig\u00eancias m\u00faltiplas\u201d, direcionada aos professores da Rede Estadual de Ensino de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>[10] Conforme consta nos quatro Evangelhos,\u00a0 o profeta Jo\u00e3o Batista assim se expressava sobre Jesus: \u201cEu batizo com \u00e1gua, mas Ele batizar\u00e1 com fogo\u201d; ou ent\u00e3o \u201cEu n\u00e3o sou o Messias, n\u00e3o sou digno de desatar as correias de sua sand\u00e1lia\u201d.<\/p>\n<p>[11] Dicion\u00e1rio Houaiss. Editora Objetiva: 1. Sentimento ou conhecimento que permite o ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior; 2. Sentido ou percep\u00e7\u00e3o que o ser humano possui do que \u00e9 moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais, funcionando como o juiz que ordena acerca de coisas futuras e que se traduz em sentimentos de alegria, satisfa\u00e7\u00e3o, ou de culpa, remorso, acerca das coisa s passadas. (agiu conforme a sua c.; estar em paz com a c.); 3. Sistemas de valores morais que funciona, mais ou menos integradamente, na aprova\u00e7\u00e3o ou desaprova\u00e7\u00e3o das condutas, atos e inten\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias ou de outrem; 4. Conjunto de id\u00e9ias, atitudes, cren\u00e7as de um grupo de indiv\u00edduos relativamente ao que t\u00eam em comum ou ao mundo que os cerca. Consci\u00eancia pessoal ou psicol\u00f3gica; Consci\u00eancia coletiva, de classe ou pol\u00edtica; Consci\u00eancia cr\u00edtica. No Cartesianismo \u00e9 a vida espiritual humana, poss\u00edvel de conhecer a si mesma de modo imediato e integral, estabelecendo dessa maneira uma evid\u00eancia irrefut\u00e1vel de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia e, por extens\u00e3o, da realidade do mundo exterior. Penso, logo existo.<\/p>\n<p>[12] \u201c Um Curso para L\u00edderes\u201d \u2013 Allankardec Gonzalez \u2013 CVV-Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>[13] \u201cAo escalar as alturas sucessivas at\u00e9 atingir o segundo c\u00e9u, habitado por Esp\u00edritos chamados Muralhas, foi tal o meu aturdimento que ap\u00f3s o regresso, ap\u00f3s dez dias, permaneceu o meu corpo f\u00edsico imobilizado, muda a minha l\u00edngua, cerrados os meus olhos. Passado esses dez dias pude descrever a magnific\u00eancia estonteante daquela vis\u00e3o. Vi sete avenidas circulares conc\u00eantricas, ostentando enormes \u00e1rvores luminosas, cobertas de flores das mais diversas cores, que balan\u00e7avam, em vai-e-vem amplo e ondulante, produzindo imensa e suav \u00edssima resson\u00e2ncia harmoniosa e, por essas avenidas, transitavam os formos\u00edssimos seres que formam essa classe de Esp\u00edritos. Disseram-me que nesse segundo c\u00e9u, guarda-se o Livro das Idades, contendo a hist\u00f3ria das civiliza\u00e7\u00f5es mortas e das vidas sucessivas dos homens pertencentes aos diferentes sistemas planet\u00e1rios.\u201d\u00a0 Descri\u00e7\u00e3o feita por desdobramento perispiritual ou proje\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Citado por Edgard Armond. Na\u00a0 Semeadura, vol. I. Ed. Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>[14]\u00a0 \u201cA imagem de Deus \u00e9 inconceb\u00edvel para a intelig\u00eancia dos seres humanos nos graus inferiores e m\u00e9dios da evolu\u00e7\u00e3o. Eis uma imagem que se pode intelectualmente e at\u00e9 certo ponto compreender:<\/p>\n<p>\u2018Um incomensur\u00e1vel anel de luz fulgurante, pendente do qual uma infinidade de la\u00e7os de luz que, em grupos de sete, se abrem em todas as dire\u00e7\u00f5es, levando vida, energia e amor a todos os universos criados. Refundidas em uma s\u00f3 claridade deslumbrante e infinita, milhares de Intelig\u00eancias Divinizadas, formando uma s\u00f3 vibra\u00e7\u00e3o de vida e de amor por toda a eternidade. Dali se alimentam todos os mundos, todos os seres e todas as coisas. N\u00e3o h\u00e1 mais individualidades que pensam e amam de forma separada; tudo \u00e9 um s\u00f3 pensamento, uma s\u00f3 vibra\u00e7\u00e3o de luz, de vida e de amor para toda a eternidade.\u2019<\/p>\n<p>Isso \u00e9 Deus: E al\u00e9m ? Algo haver\u00e1 ? O Mission\u00e1rio , em desdobramento, levado a presenciar esta inaudita vis\u00e3o, permaneceu desacordado muito tempo e levou dez dias para retornar ao equil\u00edbrio do seu corpo\u201d. Edgard Armond. Na Semeadura vol. II.<\/p>\n<p>[15] De \u201cAntroposofia\u201d, teoria do fil\u00f3sofo espiritualista Rudolf Steiner.<\/p>\n<p>[16] \u201cMediunidade\u201d, Editora Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>[17]\u00a0 Segundo Armond,\u00a0 na sua\u00a0 \u201cInicia\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita\u201d\u00a0 o contimente da Lem\u00faria desapareceu sob as \u00e1guas\u00a0 700 mil anos antes do alvorecer da\u00a0 Idade Terci\u00e1ria. Seus habitantes eram homens escuros, robustos, peludos, de bra\u00e7os longos, muito parecidos ainda com os s\u00edmios. J\u00e1\u00a0 o nome Atl\u00e2ntida refere-se a Atlas, o primeiro rei dos atlantes, simbolizado em seu poderio pol\u00edtico pela mitologia grega carregando o mundo sobre os ombros.<\/p>\n<p>[18] Cap\u00edtulo XV. Editora Alian\u00e7a.<\/p>\n<p>[19]\u00a0 Espanha, mar\u00e7o de 1871, in \u201cRoma e o Evangelho\u201d, organizado por D..J. Amig\u00f3 y Pell\u00edcer. FEB Editora<\/p>\n<p>[20] Will Durant &#8211; Nossa Heran\u00e7a Oriental \u2013Record<\/p>\n<p>[21] Os meios de comunica\u00e7\u00e3o como extens\u00f5es do Homem. Editora Cultrix.<\/p>\n<p>[22] Will Durant. M\u00e9todos da Religi\u00e3o, in\u00a0 Elementos da Civiliza\u00e7\u00e3o- Nossa Heran\u00e7a Oriental.<\/p>\n<p>[23]\u00a0 Will Durant: \u201cNossa Heran\u00e7a Cl\u00e1ssica\u201d. Record.<\/p>\n<p>[24] Will Durant, \u201c Nossa Heran\u00e7a Cl\u00e1ssica\u201d, cap\u00edtulo VII.<\/p>\n<p>[25] \u201cS\u00f3crates\u201d- Os Pensadores. Editora Nova Cultural.<\/p>\n<p>[26] Diversos pensadores espiritualistas identificam esse momento hist\u00f3rico no cap\u00edtulo 17 do Apocalipse: \u201cVejo um dos sete anjos que t\u00eam sete ta\u00e7as e falou comigo, dizendo:Vem, mostrar-te-ei o julgamento da\u00a0 grande meretriz que se acha sentada sobre muitas \u00e1guas, com quem se prostitu\u00edram muitos reis da terra; e, com o vinho da sua devassid\u00e3o, foi que se embebedaram os que habitam na terra. Transportou-me o anjo, em esp \u00edrito, a um deserto e vi uma mulher montada numa besta escarlate, besta repleta de nomes de blasf\u00eamia, com sete cabe\u00e7as e dez chifres (&#8230;) Ent\u00e3o eu via mulher embriagada com o sangue dos santos e com o sangue das testemunhas de Jesus; e, quando vi, admirei-me com grande espanto.\u201d<\/p>\n<p>[27] Express\u00e3o criada por Leonardo para definir o local exato onde se encontravam todos os sentidos. Citado por Sherwin B. Nuland em \u201cLeonardo da Vinci\u201d. Objetiva. Rio de Janeiro, 2001.<\/p>\n<p>[28] \u201c O Esp\u00edrito e o tempo \u201d. Editora Pensamento.<\/p>\n<p>[29] \u201cOs Meios de Comunica\u00e7\u00e3o como Extens\u00f5es do Homem\u201d. Cultrix. S\u00e3o Paulo, 1964.<\/p>\n<p>[30] Editora Lake, 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, 1950. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Corboli.<\/p>\n<p>[31] \u201cOs Mestres\u201d, Editora Pensamento.<\/p>\n<p>[32] A exist\u00eancia humana \u00e9 dor; a causa da dor \u00e9 o desejo; o fim da dor \u00e9 obtido pelo fim do desejo; e o fim do desejo se d\u00e1 com a moral reta e a disciplina.<\/p>\n<p>(S\u00e9rie de aulas de um curso ministrado pelo autor e que \u00e9\u00a0reproduzido com a sua autoriza\u00e7\u00e3o)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dalmo Duque dos Santos 1. \u00a0O Governo do Universo A Consci\u00eancia \u00e9 o governo do Universo. \u00c9 ela quem reina e comanda a Vida, em todos os planos e dimens\u00f5es que formam o Infinito. 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