{"id":761,"date":"2013-05-01T19:16:44","date_gmt":"2013-05-01T22:16:44","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?page_id=761"},"modified":"2013-05-01T19:16:44","modified_gmt":"2013-05-01T22:16:44","slug":"15-joana-de-cusa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/boa-nova-1\/15-joana-de-cusa\/","title":{"rendered":"15 &#8211; Joana de Cusa"},"content":{"rendered":"<p>15 &#8211; JOANA DE CUSA<\/p>\n<p>(Da obra &#8220;Boa Nova&#8221;)<\/p>\n<p>Entre a multid\u00e3o que invariavelmente acompanhava a Jesus nas prega\u00e7\u00f5es do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedica\u00e7\u00e3o e nobre car\u00e1ter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. Tratava-se de Joana, consorte de Cusa, intendente de \u00c2ntipas, na cidade onde se conjugavam interesses vitais de comerciantes e de pescadores.<\/p>\n<p>Joana possu\u00eda verdadeira f\u00e9; contudo, n\u00e3o conseguiu forrar-se \u00e0s amarguras dom\u00e9sticas, porque seu companheiro de lutas n\u00e3o aceitava as claridades do Evangelho. Considerando seus dissabores \u00edntimos, a nobre dama procurou o Messias, numa ocasi\u00e3o em que ele descansava em casa de Sim\u00e3o, e lhe exp\u00f4s a longa s\u00e9rie de suas contrariedades e padecimentos. O esposo n\u00e3o tolerava a doutrina do Mestre. Alto funcion\u00e1rio de Herodes, em perene contato com os representantes do Imp\u00e9rio, repartia as suas prefer\u00eancias religiosas, ora com os interesses da comunidade judaica, ora com os deuses romanos, o que lhe permitia viver em tranquilidade f\u00e1cil e rendosa. Joana confessou ao Mestre os seus temores, suas lutas e desgostos no ambiente dom\u00e9stico, expondo suas amarguras em face das diverg\u00eancias religiosas existentes entre ela e o companheiro.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ouvir-lhe a longa exposi\u00e7\u00e3o, Jesus lhe ponderou:<\/p>\n<p>&#8211; Joana, s\u00f3 h\u00e1 um Deus, que \u00e9 o Nosso Pai, e s\u00f3 existe uma f\u00e9 para as nossas rela\u00e7\u00f5es com o seu amor. Certas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, no mundo, muitas vezes n\u00e3o passam de v\u00edcios populares nos h\u00e1bitos exteriores. Todos os templos da Terra s\u00e3o de pedra; eu venho, em nome de Deus, abrir o templo da f\u00e9 viva no cora\u00e7\u00e3o dos homens. Entre o sincero disc\u00edpulo do Evangelho e os erros milen\u00e1rios do mundo, come\u00e7a a travar-se o combate sem sangue da reden\u00e7\u00e3o espiritual. Agradece ao Pai o haver-te julgado digna do bom trabalho, desde agora. Teu esposo n\u00e3o te compreende a alma sens\u00edvel? Compreender-te-\u00e1 um dia. Leviano e indiferente? Ama-o, mesmo assim. N\u00e3o te acharias ligada a ele se n\u00e3o houvesse para isso raz\u00e3o justa. Servindo-o com amorosa dedica\u00e7\u00e3o, estar\u00e1s cumprindo a vontade de Deus. Falas-me de teus receios e de tuas d\u00favidas. Deves, pelo Evangelho, am\u00e1-lo ainda mais. Os s\u00e3os n\u00e3o precisam de m\u00e9dico. Al\u00e9m disso, n\u00e3o poderemos colher uvas nos abrolhos, mas podemos amanhar o solo que produziu cardos envenenados, a fim de cultivarmos nele mesmo a videira maravilhosa do amor e da vida.<\/p>\n<p>Joana deixava entrever no brilho suave dos olhos a \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o que aqueles esclarecimentos lhe causavam; mas, patenteando todo o seu estado d\u2019alma, interrogou:<\/p>\n<p>&#8211; Mestre, vossa palavra me alivia o esp\u00edrito atormentado; entretanto, sinto dificuldade extrema para um entendimento rec\u00edproco no ambiente do meu lar. N\u00e3o julgais acertado que lute por impor os vossos princ\u00edpios? Agindo assim, n\u00e3o estarei reformando o meu esposo para o c\u00e9u e para o vosso reino?<\/p>\n<p>O Cristo sorriu serenamente e retrucou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem sentir\u00e1 mais dificuldade em estender as m\u00e3os fraternas, ser\u00e1 o que atingiu as margens seguras do conhecimento com o Pai, ou aquele que ainda se debate entre as ondas da ignor\u00e2ncia ou da desola\u00e7\u00e3o, da inconst\u00e2ncia ou da indol\u00eancia do esp\u00edrito? Quanto \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias &#8211; continuou Jesus, acentuando a import\u00e2ncia de suas palavras -, por que motivo Deus n\u00e3o imp\u00f5e a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que n\u00e3o fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a mis\u00e9ria e a destrui\u00e7\u00e3o, com as for\u00e7as sinistras da guerra? A sabedoria celeste n\u00e3o extermina as paix\u00f5es: transforma-as. Aquele que semeou o mundo de cad\u00e1veres desperta, \u00e0s vezes, para Deus, apenas com uma l\u00e1grima. O Pai n\u00e3o imp\u00f5e a reforma a seus filhos: esclarece-os no momento oportuno. Joana, o apostolado do Evangelho \u00e9 o de colabora\u00e7\u00e3o com o c\u00e9u, nos grandes princ\u00edpios da reden\u00e7\u00e3o. S\u00ea fiel a Deus, amando o teu companheiro do mundo, como se fora teu filho. N\u00e3o percas tempo em discutir o que n\u00e3o seja razo\u00e1vel. Deus n\u00e3o trava contendas com as suas criaturas e trabalha em sil\u00eancio, por toda a Cria\u00e7\u00e3o. Vai! &#8230; Esfor\u00e7a-te tamb\u00e9m no sil\u00eancio e, quando convocada ao esclarecimento, fala o verbo doce ou en\u00e9rgico da salva\u00e7\u00e3o, segundo as circunst\u00e2ncias! Volta ao lar e ama o teu companheiro como o material divino que o c\u00e9u colocou em tuas m\u00e3os para que talhes uma obra de vida, sabedoria e amor! &#8230;<\/p>\n<p>Joana de Cusa experimentava um brando al\u00edvio no cora\u00e7\u00e3o. Enviando a Jesus um olhar de carinhoso agradecimento, ainda lhe ouviu as \u00faltimas palavras:\u00a0 &#8211; Vai, filha! &#8230; S\u00ea fiel!<\/p>\n<p>Desde esse dia, memor\u00e1vel para a sua exist\u00eancia, a mulher de Cusa experimentou na alma a claridade constante de uma resigna\u00e7\u00e3o sempre pronta ao bom trabalho e sempre ativa para a compreens\u00e3o de Deus. Como se o ensinamento do Mestre estivesse agora gravado indelevelmente em sua alma, considerou que, antes de ser esposa na Terra, j\u00e1 era filha daquele Pai que, do C\u00e9u, lhe conhecia a generosidade e os sacrif\u00edcios. Seu esp\u00edrito divisou em todos os labores uma luz sagrada e oculta. Procurou esquecer todas as caracter\u00edsticas inferiores do companheiro, para observar somente o que possu\u00eda ele de bom, desenvolvendo, nas menores oportunidades, o embri\u00e3o vacilante de suas virtudes eternas. Mais tarde, o c\u00e9u lhe enviou um filhinho, que veio duplicar os seus trabalhos; ela, por\u00e9m, sem olvidar as recomenda\u00e7\u00f5es de fidelidade que Jesus lhe havia feito, transformava suas dores num hino de triunfo silencioso em cada dia.<\/p>\n<p>Os anos passaram e o esfor\u00e7o perseverante lhe multiplicou os bens da f\u00e9, na marcha laboriosa do conhecimento e da vida. As persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas desabaram sobre a exist\u00eancia do seu companheiro. Joana, contudo, se mantinha firme. Torturado pelas id\u00e9ias odiosas de vingan\u00e7a, pelas d\u00edvidas insolv\u00e1veis, pelas vaidades feridas, pelas mol\u00e9stias que lhe verminaram o corpo, o ex-intendente de \u00c2ntipas voltou ao plano espiritual, numa noite de sombras tempestuosas. Sua esposa, todavia, suportou os dissabores mais amargos, fiel aos seus ideais divinos edificados na confian\u00e7a sincera. Premida pelas necessidades mais duras, a nobre dama de Cafarnaum procurou trabalho para se manter com o filhinho que Deus lhe confiara. Algumas amigas lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o, tomadas de respeito humano. Joana, no entanto, buscou esclarec\u00ea-las, alegando que Jesus igualmente havia trabalhado, calejando as m\u00e3os nos serrotes de modesta carpintaria e que, submetendo-se ela a uma situa\u00e7\u00e3o de subalternidade no mundo, se dedicara primeiramente ao Cristo, de quem se havia feito escrava devotada.<\/p>\n<p>Cheia de alegria sincera, a vi\u00fava de Cusa esqueceu o conforto da nobreza material, dedicou-se aos filhos de outras m\u00e3es, ocupou-se com os mais subalternos afazeres dom\u00e9sticos, para que seu filhinho tivesse p\u00e3o. Mais tarde, quando a neve das experi\u00eancias do mundo lhe alvejou os primeiros an\u00e9is da fronte, uma galera romana a conduzia em seu bojo, na qualidade de serva humilde.<\/p>\n<p>No ano 68, quando as persegui\u00e7\u00f5es ao Cristianismo iam intensas, vamos encontrar, num dos espet\u00e1culos sucessivos do circo, uma velha disc\u00edpula do Senhor amarrada ao poste do mart\u00edrio, ao lado de um homem novo, que era seu filho.<\/p>\n<p>Ante o vozerio do povo, foram ordenadas as primeiras flagela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Abjura! &#8230; &#8211; exclama um executor das ordens imperiais, de olhar cruel e sombrio.<\/p>\n<p>A antiga disc\u00edpula do Senhor contempla o c\u00e9u, sem uma palavra de nega\u00e7\u00e3o ou de queixa. Ent\u00e3o o a\u00e7oite vibra sobre o rapaz seminu, que exclama, entre l\u00e1grimas:\u00a0 &#8211; &#8220;Repudia a Jesus, minha m\u00e3e! &#8230; N\u00e3o v\u00eas que nos perdemos?! Abjura! &#8230; por mim, que sou teu filho! . . .<\/p>\n<p>Pela primeira vez, dos olhos da m\u00e1rtir corre a fonte abundante das l\u00e1grimas. As rogativas do filho s\u00e3o espadas de ang\u00fastia que lhe retalham o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Abjura! &#8230; Abjura!<\/p>\n<p>Joana ouve aqueles gritos, recordando a exist\u00eancia inteira. O lar risonho e festivo, as horas de ventura, os desgostos dom\u00e9sticos, as emo\u00e7\u00f5es maternais, os fracassos do esposo, sua desespera\u00e7\u00e3o e sua morte, a viuvez, a desola\u00e7\u00e3o e as necessidades mais duras&#8230; Em seguida, ante os apelos desesperados do filhinho, recordou que Maria tamb\u00e9m fora m\u00e3e e, vendo o seu Jesus crucificado no madeiro da inf\u00e2mia, soubera conformar-se com os des\u00edgnios divinos. Acima de todas as recorda\u00e7\u00f5es, como alegria suprema de sua vida, pareceu-lhe ouvir ainda o Mestre, em casa de Pedro, a lhe dizer: &#8211; &#8220;Vai filha! S\u00ea fiel!&#8221; Ent\u00e3o, possu\u00edda de for\u00e7a sobre-humana, a vi\u00fava de Cusa contemplou a primeira v\u00edtima ensanguentada e, fixando no jovem um olhar profundo e inexprim\u00edvel, na sua dor e na sua ternura, exclamou firmemente:<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, meu filho! Jesus era puro e n\u00e3o desdenhou o sacrif\u00edcio. Saibamos sofrer na hora dolorosa, porque, acima de todas as felicidades transit\u00f3rias do mundo, \u00e9 preciso ser fiel a Deus!<\/p>\n<p>A esse tempo, com os aplausos delirantes do povo, os verdugos lhe incendiavam, em derredor, achas de lenha embebidas em resina inflam\u00e1vel. Em poucos instantes, as labaredas lamberam-lhe o corpo envelhecido. Joana de Cusa contemplou com serenidade a massa de povo que lhe n\u00e3o entendia o sacrif\u00edcio. Os gemidos de dor lhe morriam abafados no peito opresso. Os algozes da m\u00e1rtir cercaram-lhe de improp\u00e9rios a fogueira:<\/p>\n<p>&#8211; O teu Cristo soube apenas ensinar-te a morrer?<\/p>\n<p>&#8211; perguntou um dos verdugos.<\/p>\n<p>A velha disc\u00edpula, concentrando a sua capacidade de resist\u00eancia, teve ainda for\u00e7as para murmurar:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o apenas a morrer, mas tamb\u00e9m a vos amar! &#8230;<\/p>\n<p>Nesse instante, sentiu que a m\u00e3o consoladora do Mestre lhe tocava suavemente os ombros, e lhe escutou a voz carinhosa e inesquec\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8211; Joana tem bom \u00e2nimo! &#8230; Eu aqui estou! &#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>15 &#8211; JOANA DE CUSA (Da obra &#8220;Boa Nova&#8221;) Entre a multid\u00e3o que invariavelmente acompanhava a Jesus nas prega\u00e7\u00f5es do lago, achava-se sempre uma mulher de rara dedica\u00e7\u00e3o e nobre car\u00e1ter, das mais altamente colocadas na sociedade de Cafarnaum. 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