{"id":10660,"date":"2021-06-17T08:55:35","date_gmt":"2021-06-17T11:55:35","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=10660"},"modified":"2021-06-17T08:55:35","modified_gmt":"2021-06-17T11:55:35","slug":"escravagismo-visceral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/escravagismo-visceral\/","title":{"rendered":"ESCRAVAGISMO VISCERAL"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif; color: #3366ff;\">ESCRAVAGISMO VISCERAL<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Marcelo Teixeira<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-mTObDYEuL18\/YKpOnwse-oI\/AAAAAAAASPM\/wpR8QGJEzwAn8Tr3D2ZpSjrJhYl4aZMEQCLcBGAsYHQ\/w640-h360\/mtbabpe.webp\" width=\"345\" height=\"194\" \/><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">A 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o do programa \u201cBig Brother Brasil\u201d (BBB \u2013 TV Globo, 2021) levou ao ar, em uma das competi\u00e7\u00f5es, uma cena que bem evidencia o t\u00edtulo deste artigo. Os participantes selecionados para uma das diversas provas tinham de abrir portas de arm\u00e1rios de cozinha. Quem abrisse a porta correta, ganhava um pr\u00eamio e escapava do temido pared\u00e3o. Por mais de uma vez, o apresentador do programa teve de chamar a aten\u00e7\u00e3o de um dos competidores. Motivo: ele n\u00e3o fechava as portas que escolhera abrir. Ao ser advertido pela terceira vez, o rapaz \u2013 um galalau de corpo sarado, 26 anos \u2013, disse, de forma sorridente e despretensiosa, que tinha esse h\u00e1bito em casa. Trocando em mi\u00fados: no dia a dia, ele abre o arm\u00e1rio para pegar, por exemplo, uma lata de leite em p\u00f3 e n\u00e3o o fecha. Isso quer dizer que o arm\u00e1rio fica com uma porta aberta e quem quiser que a feche. Em geral, a empregada ou, na aus\u00eancia dela, aquela servi\u00e7al popularmente conhecida como m\u00e3e. Ele \u00e9 o bar\u00e3o; a genitora, av\u00f3 ou similar \u00e9 a escrava, que sai arrumando a desordem por ele deixada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">J\u00e1 falei sobre a escravid\u00e3o arraigada na alma do brasileiro em outros artigos. Mas sempre me vejo no dever de voltar ao assunto, pois, em minha modesta opini\u00e3o, ele \u00e9 algo que nos infelicita como na\u00e7\u00e3o e impede saltos qualitativos em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, mercado de trabalho, direitos sociais, viv\u00eancia cotidiana etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Utilizo a palavra visceral para dar t\u00edtulo e corpo a estas linhas. Ela significa algo profundamente entranhado, dif\u00edcil de ser dissipado, como se estivesse colado \u00e0s nossas v\u00edsceras. Assim \u00e9 a escravid\u00e3o que ainda nos assola. Est\u00e1 t\u00e3o enraizada em nosso modus operandi que n\u00e3o nos damos conta de como reproduzimos esse comportamento cotidianamente. Est\u00e1 presente tanto em fatos mais graves como nos mais triviais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">O exemplo do BBB \u00e9 trivial. Assim como \u00e9 o h\u00e1bito que muitos empres\u00e1rios e empres\u00e1rias (sejam de pequeno, m\u00e9dio ou grande porte) possuem de colocar o funcion\u00e1rio da empresa para fazer servi\u00e7os particulares. Exemplo: ir \u00e0 joalheria levar para consertar o fecho do colar da patroa ou ao plano de sa\u00fade pegar autoriza\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o da ultrassonografia do patr\u00e3o. J\u00e1 vi muito disso. E, \u00e9 claro, esse funcion\u00e1rio nada recebe por esse servi\u00e7o extra para o qual n\u00e3o foi contratado. E h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas outras trivialidades, como pedir para o empregado trabalhar al\u00e9m do expediente e n\u00e3o pagar hora extra. E ai dele ou dela se reclamar. O patr\u00e3o dir\u00e1 que ele pode sair caso n\u00e3o esteja satisfeito e que h\u00e1 outros tantos milhares de candidatos para ocupar o lugar vago. Uma esp\u00e9cie de senhor de engenho amea\u00e7ando o escravo com o tronco do desemprego.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">H\u00e1, entretanto, os casos graves. Bem mais graves, ali\u00e1s. \u00c9 terrivelmente comum jovens negros serem assassinados pela pol\u00edcia simplesmente por serem negros. O tom da pele j\u00e1 os transforma em suspeitos ou, pior, r\u00e9us. N\u00e3o \u00e0 toa, o percentual de homens negros encarcerados \u00e9 superior ao dos brancos. Triste realidade de um pa\u00eds em que o preconceito racial e social ainda permanece entranhado nas v\u00edsceras. H\u00e1 tamb\u00e9m fatos que causam profunda revolta. Em junho de 2020, o menino Miguel Ot\u00e1vio, de 8 anos, negro e filho de Mirtes de Souza, empregada dom\u00e9stica, caiu do alto de um pr\u00e9dio de luxo no Recife. A m\u00e3e dele havia sa\u00eddo para passear com o cachorro da patroa \u2013 Sari Corte Real. Ser\u00e1 que isso fazia parte das atribui\u00e7\u00f5es da m\u00e3e do menino ou a patroa n\u00e3o queria ir \u00e0 rua para n\u00e3o se expor ao coronav\u00edrus? Ela, esposa do prefeito de uma cidade da regi\u00e3o, temia se contaminar, tudo leva a crer. Mas a empregada, pelo visto, podia estar exposta. Afinal, a vida dos subalternos vale menos que a dos patr\u00f5es, ainda mais se os primeiros forem negros. H\u00e1 outro agravante: a empregada e seu filho eram para estar em casa, seguindo as orienta\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias de isolamento social. Se ela foi trabalhar \u00e9 porque a madame n\u00e3o a liberou. E levou o menino junto porque as creches estavam fechadas, cumprindo o estabelecido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Como Miguel sentiu falta da m\u00e3e e come\u00e7ou a chorar e reclamar, a dona do im\u00f3vel, para se livrar do inc\u00f4modo, permitiu que ele sa\u00edsse. Ato cont\u00ednuo, Miguel Ot\u00e1vio entrou no elevador, e ela mesma se encarregou de apertar os bot\u00f5es dos andares para que o garoto a deixasse em paz. Depois, voltou para o apartamento e n\u00e3o se importou mais com o destino da crian\u00e7a. Miguel desceu num andar mais alto, escalou uma grade, caiu e veio a \u00f3bito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Segundo a historiadora Luciana da Cruz Brito, professora da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), em mat\u00e9ria publicada, na ocasi\u00e3o, no site da BBC News, no Brasil \u201ctemos o princ\u00edpio de que algumas pessoas s\u00e3o mais humanas que outras\u201d. Por isso, empregados n\u00e3o t\u00eam o direito de se proteger da Covid19, j\u00e1 que devem servir aos patr\u00f5es. Funcion\u00e1rios de lojas e cong\u00eaneres t\u00eam de ir trabalhar e se expor ao v\u00edrus apinhados em \u00f4nibus e trens, os filhos dos empregados n\u00e3o merecem o cuidado e a prote\u00e7\u00e3o que os filhos dos patr\u00f5es e por a\u00ed vai. Tudo isso e muito mais, resqu\u00edcio de um tempo escravagista que durou oficialmente quatro s\u00e9culos mais que ainda ecoa nas nossas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Em \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d, na quest\u00e3o 684, Allan Kardec pergunta o que se deve pensar dos que abusam da autoridade para impor excesso de trabalho aos inferiores. O plano espiritual responde que tal atitude \u00e9 uma das piores que pode haver. Afinal, dizem os amigos espirituais, quem imp\u00f5e tarefas excessivas a seus subordinados \u00e9 respons\u00e1vel por tal, j\u00e1 que est\u00e1 transgredindo a lei de Deus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Ningu\u00e9m, portanto, \u00e9 obrigado a trabalhar al\u00e9m das for\u00e7as e das fun\u00e7\u00f5es, principalmente em tempos dif\u00edceis como estes pelo qual passamos. Mas como o brasileiro adora fazer o pr\u00f3ximo de boy de luxo, mucama, moleque de recados e afins, temos uma escravid\u00e3o perpetuada que muito nos deprecia como na\u00e7\u00e3o. E isso vale tanto para as quest\u00f5es complexas como para as triviais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Na mesma obra, na quest\u00e3o 830, Kardec pergunta: \u201cQuando a escravid\u00e3o faz parte dos costumes de um povo, s\u00e3o censur\u00e1veis os que dela aproveitam, embora s\u00f3 o fa\u00e7am conformando-se com um uso que lhes parece natural?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Antes de comentar a resposta, conv\u00e9m analisar a pergunta \u00e0 luz dos fatos que marcam a nossa Hist\u00f3ria. Oficialmente, a escravid\u00e3o foi abolida em 13 de maio de 1888. Mas os exemplos citados neste artigo, assim como milhares de outros, evidenciam que ela ainda faz parte dos costumes do povo brasileiro. Por isso, muitos ainda se aproveitam dela, como se fosse natural enxergarmos pessoas negras ou subalternas como inferiores ou possuidoras de menos direitos. A escravid\u00e3o, reitero, ainda pauta a forma como nos relacionamos, infelizmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">A resposta \u00e0 pergunta 830 diz que \u201ca responsabilidade do mal \u00e9 relativa aos meios de que o homem disponha para compreend\u00ea-lo\u201d. Isso significa que, quanto mais avan\u00e7amos, mais devemos ter olhos de ver que toda essa estrutura social pautada na explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra alheia precisa come\u00e7ar a ruir. Trata-se de um longo trabalho que envolve justi\u00e7a social, pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o, revis\u00e3o da grade curricular a fim de que a escola forme cidad\u00e3os com consci\u00eancia de classe e politicamente participativos etc.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">A 830 diz ainda que, pelo fato de a escravid\u00e3o ter se introduzido nos costumes de um povo, \u00e9 comum que as pessoas dela se utilizassem como se fosse algo normal. Contudo, \u00e0 medida que a sociedade progride (Sim, ela progride!) e as pessoas v\u00e3o se tornando mais esclarecidas \u2013 inclusive pelas luzes do Cristianismo \u2013 n\u00e3o h\u00e1 mais desculpas para que os homens se tratem como desiguais, j\u00e1 que os outrora senhores e escravos s\u00e3o iguais perante Deus. E nada como a reencarna\u00e7\u00e3o \u2013 que p\u00f5e abaixo as divis\u00f5es de ra\u00e7a, credo religioso, orienta\u00e7\u00e3o sexual e classe social \u2013, para nos mostrar o quanto \u00e9 urgente o Brasil deixar para tr\u00e1s o visceral ran\u00e7o escravagista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">At\u00e9 quando teremos de insistir no assunto para que todos percebam que n\u00e3o se avan\u00e7a como sociedade enquanto n\u00e3o derrubamos gradativamente certos alicerces para construirmos outros? At\u00e9 quando o esp\u00edrita fingir\u00e1 n\u00e3o perceber que \u00e9 imposs\u00edvel construir um mundo regenerado tendo como base pilares erguidos num mundo de provas e expia\u00e7\u00f5es? E at\u00e9 quando esse mesmo esp\u00edrita continuar\u00e1 crendo que a doutrina esp\u00edrita s\u00f3 existe para tratar de assuntos das nuvens para cima?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif; color: #008000;\">Marcelo Teixeira<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fonte:<a href=\"https:\/\/blogabpe.org\/\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pedagogia Esp\u00edrita (ABPE)<\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">Bibliografia:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">1. COSTA, Camilla \u2013 Caso Miguel: morte de menino no Recife mostra \u2018como supremacia branca funciona no Brasil\u2019, diz historiadora. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-52932110<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri, sans-serif;\">2. KARDEC, Allan \u2013 O livro dos esp\u00edritos, 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1984, Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira (FEB), Bras\u00edlia, DF.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESCRAVAGISMO VISCERAL Marcelo Teixeira A 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o do programa \u201cBig Brother Brasil\u201d (BBB \u2013 TV Globo, 2021) levou ao ar, em uma das competi\u00e7\u00f5es, uma cena que bem evidencia o t\u00edtulo deste artigo. 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