{"id":10812,"date":"2021-07-30T08:30:12","date_gmt":"2021-07-30T11:30:12","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=10812"},"modified":"2021-07-30T08:30:12","modified_gmt":"2021-07-30T11:30:12","slug":"comida-e-egoismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/comida-e-egoismo\/","title":{"rendered":"COMIDA E EGO\u00cdSMO"},"content":{"rendered":"<h1><strong><span style=\"color: #000080;\">Comida e Ego\u00edsmo<\/span><\/strong><\/h1>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Marcelo Teixeira<\/span><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-sOrs-rO3_iw\/YM5x4pPYjGI\/AAAAAAAASVU\/UXM_4UgYPN83RMft8FG-5lmfh7YxP7l_ACLcBGAsYHQ\/w640-h426\/cadeia-produtiva-do-cacau-na-bahia-e-no-para-passa-por-contratos-e-estrutura-desfavoraveis-ao-trabalhador-1598469738121_v2_1600x1067.webp\" width=\"335\" height=\"223\" \/><\/p>\n<p>Em um artigo escrito anteriormente (\u201cNem pera, nem uva, nem ma\u00e7\u00e3\u201d), prometi que voltaria a tratar do assunto comida\/fome. Eis-me aqui novamente.<\/p>\n<p>Decidi abordar a quest\u00e3o pelo vi\u00e9s do ego\u00edsmo porque comida e ego\u00edsmo, como diz o t\u00edtulo, parecem andar de m\u00e3os dadas. Muito do que tenho observado e presenciado, seja nos assuntos mais complexos (fome no mundo, exporta\u00e7\u00e3o de alimentos, alta de pre\u00e7os de produtos como arroz e leite) como nos mais triviais (\u201cFarinha pouca, meu pir\u00e3o primeiro\u201d) tem sua origem na mais humana de todas as imperfei\u00e7\u00f5es. A mais dif\u00edcil de ser desenraizada, j\u00e1 que \u201cderiva da influ\u00eancia da mat\u00e9ria, influ\u00eancia de que o homem, ainda muito pr\u00f3ximo de sua origem, ainda n\u00e3o p\u00f4de libertar-se e para cuja manuten\u00e7\u00e3o tudo concorre: suas leis, sua organiza\u00e7\u00e3o social, sua educa\u00e7\u00e3o\u201d como bem evidencia Allan Kardec na quest\u00e3o 917 de \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d.<\/p>\n<p>Uma educa\u00e7\u00e3o voltada para o ego\u00edsmo \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o em que meus interesses e necessidades v\u00eam primeiro. E quando falo de interesses, enfatizo, englobo tanto fatos que envolvem a economia mundial quanto trivialidades da vida cotidiana. Vou come\u00e7ar por uma escandalosa e terr\u00edvel quest\u00e3o complexa: a explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra para produ\u00e7\u00e3o de chocolate.<\/p>\n<p>O site Rep\u00f3rter Brasil, em mat\u00e9ria publicada em 20 de agosto de 2020, denunciou que pelo menos 148 pessoas foram resgatadas, entre 2005 e 2020, de trabalho escravo em fazendas de cacau, boa parte delas na Bahia e no Par\u00e1. Al\u00e9m da suprema viola\u00e7\u00e3o ao direito humano \u2013 trabalho escravo \u2013, os agentes do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho encontraram, no rastro, outras tantas \u2013 e igualmente revoltantes \u2013 viola\u00e7\u00f5es: amea\u00e7as dos patr\u00f5es, condi\u00e7\u00f5es degradantes de moradia e higiene, servid\u00e3o por d\u00edvidas, sal\u00e1rios que n\u00e3o chegam \u00e0 metade do m\u00ednimo, falta de acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel e, infelizmente, trabalho infantil. Tudo isso para favorecer uma cadeia de neg\u00f3cios que envolve fazendeiros, atravessadores, gigantes do agroneg\u00f3cio, al\u00e9m dos fabricantes dos bombons e barras de chocolate que adoramos consumir.<\/p>\n<p>As fronteiras dessa grave realidade se expandem at\u00e9 a \u00c1frica, onde a Costa do Marfim se vale da explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra infantil vinda de um pa\u00eds vizinho e bem empobrecido: Burkina Fasso. \u201cEssas planta\u00e7\u00f5es constituem a maior fonte mundial de cacau e servem como cen\u00e1rio a uma epidemia de trabalho infantil que as grandes companhias mundiais de chocolate prometeram erradicar quase 20 anos atr\u00e1s\u201d, diz reportagem publicada pelo jornal \u201cFolha de S\u00e3o Paulo\u201d em 17 de julho de 2019. Nela, Abou, um menino de 15 anos, declara que foi para a Costa do Marfim h\u00e1 cinco anos para poder ir \u00e0 escola, mas est\u00e1 pelo mesmo per\u00edodo sem frequentar uma. \u00c9 o cacau que ele e outros meninos colhem que ir\u00e1 abastecer as grandes marcas europeias de chocolate. Um chocolate que Abou e seus colegas t\u00eam muito pouca chance de provar. At\u00e9 quando essa avidez incessante por lucro e alimentos far\u00e1 o dito Primeiro Mundo esmagar o Terceiro Mundo? Ego\u00edsmo entranhado em nossa viciada organiza\u00e7\u00e3o social, como bem aponta Kardec. Gente sendo explorada, vilipendiada e passando fome para que chocolates sejam consumidos e saboreados tanto na mesa de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia como em sofisticadas lojas de pa\u00edses como B\u00e9lgica, Fran\u00e7a e Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Saio do complexo e entro no trivial, ou seja, no ego\u00edsmo na hora de, digamos, encher o pr\u00f3prio prato (ou o pr\u00f3prio bucho). Sou doceiro. Adoro ir para a cozinha preparar bolos e sobremesas variadas. E publico as fotos nas redes sociais, o que costuma causar furor. Alguns amigos do centro esp\u00edrita do qual fa\u00e7o parte viviam me cobrando levar um bolo para a cantina, que sempre funciona nos dias de reuni\u00f5es p\u00fablicas doutrin\u00e1rias. Um dia, sem avisar, apareci com um bolo de manga numa ter\u00e7a-feira \u00e0 noite, hor\u00e1rio em que tamb\u00e9m h\u00e1 grupos de estudos. Em tr\u00eas tempos, o bolo acabou. Algumas pessoas compraram um ou mais peda\u00e7os para levar para casa, outras consumiram a iguaria ali mesmo. Resultado: dobrei o faturamento da cantina, o que me deixou satisfeito e sem jeito ao mesmo tempo, confesso.<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira seguinte, eu n\u00e3o fui ao centro. Quinze dias depois de o bolo de manga ter sido apreciado, mal eu ponho o p\u00e9 na cantina, ou\u00e7o do respons\u00e1vel o seguinte: \u201cMarcelo, na semana passada, o povo estava ind\u00f3cil aguardando a tua chegada. Estavam ansiosos para ver se voc\u00ea traria bolo novamente e pedindo para reservar duas, tr\u00eas e at\u00e9 quatro fatias para levarem para casa.\u201d Fiquei mais chateado que lisonjeado. Alguns colaboradores do centro gostaram tanto do bolo que queriam levar para casa boa parte de um prov\u00e1vel segundo exemplar. Mas e a pessoa que quer comer apenas um peda\u00e7o no balc\u00e3o da cantina? Como ela ficaria? Comida, para mim, tem muito a ver com partilha e congra\u00e7amento. Eu n\u00e3o havia assado um bolo para ser loteado por quatro ou cinco companheiros de ideal, mas para que o m\u00e1ximo poss\u00edvel de pessoas pudesse provar das suas cerca de 20 fatias. Confesso que n\u00e3o liguei mais de levar bolo para a cantina depois desse fato.<\/p>\n<p>Constrangimento semelhante causou um companheiro de centro a quem chamarei de Vit\u00f3rio. Foi planejado um almo\u00e7o beneficente com o objetivo de angariar fundos para um evento. Eu, Vit\u00f3rio e outros amigos ficamos encarregados da organiza\u00e7\u00e3o. Por for\u00e7a da profiss\u00e3o (sou publicit\u00e1rio, al\u00e9m de jornalista), estou acostumado a captar patroc\u00ednio. Por isso, consegui, com as confeitarias locais, cerca de 10 tortas para o buffet de sobremesas. Pouco antes de o centro abrir as portas para o p\u00fablico, Vit\u00f3rio disse o seguinte para a esposa: \u201cMelinda, separa quatro fatias da torta da confeitaria XYZ para levarmos para casa! Vamos aproveitar que aqui, o pre\u00e7o \u00e9 mais em conta!\u201d<\/p>\n<p>Eu e os demais integrantes da equipe organizadora olhamos para ele, entre at\u00f4nitos e incomodados. Felizmente, ele percebeu e cancelou a reserva. N\u00e3o teria o menor cabimento o p\u00fablico chegar e j\u00e1 encontrar uma torta mutilada. Detalhe: Vit\u00f3rio \u00e9 da alta classe m\u00e9dia; mora numa bel\u00edssima casa. Tem dinheiro de sobra para comprar uma torta inteira e lev\u00e1-la para casa. Al\u00e9m disso, as tortas que foram doadas n\u00e3o estavam l\u00e1 para serem consumidas primeiramente por n\u00f3s, mas pelos que pagaram para almo\u00e7ar. Quando chegasse a nossa vez de comer, nos servir\u00edamos do que ainda l\u00e1 estivesse. Simples assim. S\u00f3 que o ego\u00edsmo sempre d\u00e1 um jeito de aparecer e tentar estragar a festa confraternativa. Afinal, nossa educa\u00e7\u00e3o (ou falta de) tamb\u00e9m concorre para isso, como bem explicita Kardec na j\u00e1 citada quest\u00e3o de \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d.<\/p>\n<p>Termino esta cr\u00f4nica voltando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de chocolate na Costa do Marfim, pa\u00eds que \u00e9 um dos maiores exportadores de cacau do mundo. Trata-se de uma ind\u00fastria milion\u00e1ria, que movimenta bilh\u00f5es por ano e divide o mundo entre glut\u00f5es e pedintes por um motivo bem lament\u00e1vel: as pessoas que trabalham nas planta\u00e7\u00f5es de cacau daquele pa\u00eds nunca haviam comido chocolate, ou seja, nunca haviam provado do produto que ajudam a fabricar.<\/p>\n<p>Uma emissora de TV da Holanda, ao saber disso, enviou uma equipe de reportagem \u00e0 Costa do Marfim. E com dezenas de barras de chocolate na bagagem. \u00c9 tocante ver aquela gente extremamente simples e mal cuidada, morando em casas de taipa, secando sementes de cacau ao sol, provando chocolate pela primeira vez. D\u00e1 um misto de tristeza, revolta e vergonha. Aquele povo esquecido pelas benesses da sociedade de consumo nem sabia o nome da iguaria que ajuda a produzir. Alguns, inclusive, acreditavam que a semente do fruto era utilizada na produ\u00e7\u00e3o de vinho. Uns se espantam com o dul\u00e7or, outros, ao provarem, concluem que \u00e9 por causa do chocolate que os brancos s\u00e3o t\u00e3o saud\u00e1veis. H\u00e1 barras de chocolate na Costa do Marfim? H\u00e1. S\u00f3 que elas custavam, \u00e0 \u00e9poca da reportagem, o equivalente a R$ 6,00, e um campon\u00eas do cacau recebe por dia o correspondente a R$ 14,00 para sustentar a si e \u00e0 fam\u00edlia. Eis por que o ego\u00edsmo secular no qual nossa sociedade est\u00e1 estruturada precisa ser substitu\u00eddo por novas bases justi\u00e7a, amor, caridade, igualdade e outras tantas sobre as quais lemos tanto, mas nem sempre sabemos como praticar ou sequer lutar por elas de forma racional e objetiva.<\/p>\n<p>P.S.: minha fome de escrever sobre este assunto ainda n\u00e3o se esgotou. Aguarde mais cr\u00f4nicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #008000;\">Marcelo Teixeira<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/blogabpe.org\/\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pedagogia Esp\u00edrita (ABPE)<\/a><\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<ul>\n<li>AWEBIC \u2013 Produtores de cacau experimentam chocolate pela primeira vez. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LBdqK8dMJiE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LBdqK8dMJiE<\/a><\/li>\n<li>CAMPOS, Andr\u00e9; DIAZ, Jo\u00e3o C\u00e9sar \u2013 Chocolate com trabalho escravo: as viola\u00e7\u00f5es trabalhistas na ind\u00fastria do cacau no Brasil. Rep\u00f3rter Brasil, 27\/08\/20. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2020\/08\/chocolate-com-trabalho-escravo-as-violacoes-trabalhistas-na-industria-do-cacau-no-brasil\/\">https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2020\/08\/chocolate-com-trabalho-escravo-as-violacoes-trabalhistas-na-industria-do-cacau-no-brasil\/<\/a><\/li>\n<li>KARDEC, Allan \u2013 O Livro dos Esp\u00edritos, 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1986, Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira (FEB), Bras\u00edlia, DF.<\/li>\n<li>WHORISKEY, Peter; SIEGEL, Rachel \u2013 Boa parte do chocolate que voc\u00ea compra come\u00e7a com trabalho infantil, Folha de S\u00e3o Paulo, 17\/07\/19. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2019\/07\/boa-parte-do-chocolate-que-voce-compra-comeca-com-trabalho-infantil.shtml?origin=uol\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2019\/07\/boa-parte-do-chocolate-que-voce-compra-comeca-com-trabalho-infantil.shtml?origin=uol<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comida e Ego\u00edsmo Marcelo Teixeira Em um artigo escrito anteriormente (\u201cNem pera, nem uva, nem ma\u00e7\u00e3\u201d), prometi que voltaria a tratar do assunto comida\/fome. Eis-me aqui novamente. 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