{"id":10837,"date":"2021-08-06T08:29:20","date_gmt":"2021-08-06T11:29:20","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=10837"},"modified":"2021-08-06T08:29:20","modified_gmt":"2021-08-06T11:29:20","slug":"sobre-fomes-apetites-desesperos-e-gulodices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/sobre-fomes-apetites-desesperos-e-gulodices\/","title":{"rendered":"SOBRE FOMES, APETITES, DESESPEROS E GULODICES"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">SOBRE FOMES, APETITES, DESESPEROS E GULODICES<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Marcelo Teixeira<\/span><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-EcbbqGRgol0\/YOCNm3QMaWI\/AAAAAAAASZQ\/dLaHzey-QxM0a6a7o56HLygb0vKi-mzigCLcBGAsYHQ\/w640-h316\/captura-de-tela-2021-06-25-acc80s-09.51.13.png\" width=\"304\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, dois amigos de movimento esp\u00edrita se casaram. A cerim\u00f4nia foi no s\u00edtio da fam\u00edlia do noivo, em uma cidade distante cerca de 100km de Petr\u00f3polis (RJ), onde moro. Decidimos fretar um \u00f4nibus. Assim, todos os convidados da Cidade Imperial iriam juntos. E chegariam com mais seguran\u00e7a ao local, j\u00e1 que nem todos conhecem a cidade, e o s\u00edtio est\u00e1 situado na zona rural. A fam\u00edlia da noiva \u00e9 de Petr\u00f3polis; a do noivo, de outra cidade vizinha. E havia tamb\u00e9m convidados de outras cidades, inclusive da capital.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia civil estava marcada para o meio-dia, se n\u00e3o me engano. Em seguida, seria servido um op\u00edparo almo\u00e7o, j\u00e1 que a fam\u00edlia do noivo \u00e9 propriet\u00e1ria de v\u00e1rios restaurantes. Para que todos chegassem a tempo ao s\u00edtio, tiveram de acordar cedo e se produzir como conv\u00e9m \u00e0 ocasi\u00e3o. E todo mundo tomou caf\u00e9 da manh\u00e3 bem cedo tamb\u00e9m. Eu, inclusive.<\/p>\n<p>Era um s\u00e1bado de feriado nacional, n\u00e3o me lembro qual. Casamento em zona rural, ou seja, nada de mercados, lanchonetes e afins. E se houvesse, talvez estivessem fechados. Tudo pronto para a cerim\u00f4nia. Noivo e convidados a postos. Deram 12h, 13h, 13h30 e nada da noiva. Motivo: s\u00f3 havia um cabeleireiro e v\u00e1rias mulheres para serem penteadas. Al\u00e9m da nubente, havia a m\u00e3e e a sogra dela, al\u00e9m das madrinhas.<\/p>\n<p>Uma agita\u00e7\u00e3o se instalou entre os convidados. Todos haviam tomado caf\u00e9 da manh\u00e3 muito cedo e ningu\u00e9m conhecia a regi\u00e3o para sair em busca de algum lanche. Mesmo porque, n\u00e3o havia nada por perto. E era feriado, ainda por cima. Quem poderia garantir se encontrar\u00edamos algo funcionando? A agita\u00e7\u00e3o foi se transformando em desespero causado pela fome; e nada da noiva chegar.<\/p>\n<p>Foi quando o pai do noivo mandou improvisar uma tenda, na qual foram colocadas dezenas de p\u00e3es franceses, al\u00e9m de fatias e mais fatias de queijo prato e presunto. Devem ter vindo de alguma padaria da regi\u00e3o. Foi um Deus nos acuda! Os convidados, todos devidamente engalanados, maquiados e penteados, se acotovelaram, na disputa por um sandu\u00edche.<\/p>\n<p>Eu e os amigos de movimento esp\u00edrita apenas observ\u00e1vamos. Ali\u00e1s, tiro o chap\u00e9u para a turma esp\u00edrita que estava presente. Nenhum de n\u00f3s, apesar da fome, avan\u00e7ou na tenda. Patr\u00edcia, uma amiga, pediu para que eu, de forma civilizada, fosse at\u00e9 l\u00e1 e fizesse um sandu\u00edche para ela. Aquiesci e me aproximei tranquilamente. \u00c0 minha frente, uma elegante senhora, entre desesperada e esbaforida, terminava de colocar v\u00e1rias fatias de queijo e presunto no p\u00e3o. N\u00e3o me arrisquei a entrar no embate. Preferi aguardar um pouquinho que fosse. Subitamente, s\u00f3 eu fiquei no local. Todos j\u00e1 haviam preparado suas iguarias improvisadas e se afastado. Havia sobrado meia banda de p\u00e3o franc\u00eas. Achei curioso como tanta gente faminta havia deixado aquela metade de p\u00e3o para tr\u00e1s. Ser\u00e1 que algu\u00e9m montou o sanduba s\u00f3 com a outra banda do p\u00e3o? Vali-me, ent\u00e3o, de um guardanapo que tamb\u00e9m sobrara, peguei aquele p\u00e3o, levei at\u00e9 Patr\u00edcia e disse que era o que havia restado para contar a hist\u00f3ria. Como ela preferiu n\u00e3o comer meia banda de p\u00e3o seco, coloquei a iguaria de volta na mesa da tenda. Vai que algu\u00e9m ainda \u00e0 cata de uma migalha pudesse se interessar? Felizmente, minutos depois, a noiva chegou, o casamento se concretizou, o almo\u00e7o foi servido e todo mundo se refestelou.<\/p>\n<p>Confesso a voc\u00eas que foi um experimento e tanto ver como a fome faz muita gente descer do salto. E isso num caso de fome moment\u00e2nea! Fico imaginando como deve ser com quem padece de fome cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u00c9 bem interessante notar como a comida que \u00e9 ofertada causa a mais variada gama de rea\u00e7\u00f5es. No caso que narrei, tratava-se de uma cerim\u00f4nia formal. Um enlace matrimonial. Ningu\u00e9m foi l\u00e1 para comer, embora soubesse que haveria almo\u00e7o seguido de mesa de doces, bolo de casamento etc. E de fato foi uma tarde bem farta e variada. Mas como todos estavam h\u00e1 muitas horas sem comer, os sandu\u00edches improvisados \u2013 e nos quais muitos dos presentes n\u00e3o tocariam se fizessem parte do menu oficial \u2013 se transformaram num manjar dos deuses a saciar a fome de adultos e crian\u00e7as solenemente trajados para a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Festas de casamento, ali\u00e1s, s\u00e3o excelentes ensejos para observamos a rela\u00e7\u00e3o que temos com fartura de comidas e bebidas. J\u00e1 presenciei cenas que foram do divertido ao pat\u00e9tico. Entre elas, casamentos em que os convidados depenaram a mesa de doces logo no in\u00edcio da festa. De nada adiantou as fam\u00edlias dos noivos pedirem para os convivas deixarem a mesa intacta at\u00e9 o momento das fotos e de cortar o bolo. As trufas, \u201cfondants\u201d, bem-casados e afins foram atacados sem d\u00f3, nem piedade. E isso com o jantar sendo servido! Creio que a profus\u00e3o de cores, aromas e sabores faz a turma comer com os olhos. E como o olho \u00e9 maior que a barriga, l\u00e1 se vai a mesa de doces para o tombo! E tem a ver com falta de educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, convenhamos! Tem gente que n\u00e3o pode ver comida bonita, arrumada e em profus\u00e3o. \u00c0s vezes n\u00e3o sobram nem os objetos de decora\u00e7\u00e3o que pertencem ao local onde a festa aconteceu. J\u00e1 ouvi de um cerimonialista que ele teve de cobrar dos noivos por alguns jarros que os convidados levaram para casa. Jarros que eram propriedade da empresa de cerimonial.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos, contudo, de um casamento com pompa e circunst\u00e2ncia para atestarmos como do ego\u00edsmo derivam todos os males que assolam a humanidade, como diz a quest\u00e3o 913 de \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d, de Allan Kardec. Falarei sobre dois que t\u00eam a ver com o assunto em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro mal \u00e9 a gulodice, que faz o cidad\u00e3o pensar s\u00f3 em si na hora de se servir. Certa vez, num restaurante a quilo, uma senhora se deparou com dois pratos \u00e0 base de camar\u00e3o. Um deles era chuchu com camar\u00e3o. Do outro, n\u00e3o me lembro. Eu estava imediatamente atr\u00e1s dela. A mulher ficou maravilhada e come\u00e7ou a falar para si mesma (e para mim tamb\u00e9m, creio) que adorava camar\u00e3o, que era uma iguaria estupenda e coisa e tal. Em seguida, pegou todo o camar\u00e3o que havia nos dois pratos. O chuchu com camar\u00e3o virou chuchu com chuchu. O outro prato tamb\u00e9m ficou desprovido do apreciado fruto do mar. A mim n\u00e3o afetou, e por um motivo bem simples: detesto camar\u00e3o! Mas os clientes que vinham em seguida a mim decerto gostariam de se servir de t\u00e3o badalada iguaria. N\u00e3o puderam porque a l\u00e9pida senhorinha de classe m\u00e9dia sequestrou o camar\u00e3o s\u00f3 para si.<\/p>\n<p>O outro mal \u00e9 o parco acesso que boa parte da popula\u00e7\u00e3o tem a uma mesa farta, nutritiva e colorida. Por isso, quando se depara com uma situa\u00e7\u00e3o de fartura, a gula fala mais alto. Uma gula que pode ser sin\u00f4nimo de uma fome nunca dantes saciada. E n\u00e3o falo somente sobre barriga vazia, mas sobre barriga que nunca teve acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o rica e variada. A isso, Maria Lu\u00edza, amiga e colega de trabalho por muito tempo, d\u00e1 o nome de fome tardia.<\/p>\n<p>Marilu, como eu a chamo, teve uma empregada que vivia comendo em excesso. At\u00e9 de um vinho de baixa qualidade que minha amiga guardava para temperar a carne de vez em quando, a empregada deu cabo. O mesmo destino tiveram algumas garrafinhas de uma bebida que ela comprou porque iria receber um casal de amigos. Quando abriu a geladeira, dos seis exemplares que Maria Lu\u00edza havia comprado, s\u00f3 restavam dois. A empregada tomara quatro. E fazia a mesma coisa se Marilu comprasse quindins, cocadas, past\u00e9is, caquis, morangos, quibes, p\u00eassegos\u2026 \u00c9 a fome de quem sempre come mal e, ao se deparar com fartura, engole tudo para compensar a fome por uma despensa cheia e por n\u00e3o saber quando haver\u00e1 ensejo de comer bem novamente.<\/p>\n<p>Na mesma quest\u00e3o 913 de \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d, Kardec ressalta que o ego\u00edsmo \u00e9 incompat\u00edvel com a justi\u00e7a, o amor e a caridade. J\u00e1 na quest\u00e3o 875-a, \u00e9 dito que a base dessas tr\u00eas virtudes \u00e9 querermos para os outros o mesmo que queremos para n\u00f3s mesmos. A\u00ed, cabe a pergunta: por que nem sempre queremos para os outros a qualidade do que queremos para n\u00f3s mesmos? Isso me faz lembrar um ent\u00e3o prefeito brasileiro, que sugeriu dar ra\u00e7\u00e3o como merenda escolar. Achar\u00edamos justo se nossos filhos comessem ra\u00e7\u00e3o humana na hora do recreio? Ou ser\u00e1 que pensamos que s\u00f3 nossas crian\u00e7as t\u00eam direito a levar sucos, sandu\u00edches, frutas e bolos na lancheira? Julgamos natural que algumas crian\u00e7as tenham direito a uma merenda farta enquanto outras comem ra\u00e7\u00e3o? Se a resposta \u00e9 positiva, aconselho pesarmos direitinho na balan\u00e7a da nossa consci\u00eancia o que de fato quer dizer a palavra crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Volto a \u201cO Livro dos Esp\u00edritos\u201d. Dessa vez, na quest\u00e3o 803, a primeira do cap\u00edtulo sobre a lei de igualdade. Kardec indaga se todos os homens s\u00e3o iguais perante Deus. Os amigos espirituais respondem que todos tendem para o mesmo fim, que o sol nasce para todos e que todos s\u00e3o submetidos \u00e0s mesmas leis da natureza. Em suma, todos t\u00eam as mesmas necessidades, alegrias, dores f\u00edsicas e morais. Tenhamos em mente que a dor da fome, seja ela cr\u00f4nica ou moment\u00e2nea, \u00e9 imensur\u00e1vel e, antes de tudo, imoral. Afinal, o mundo tem capacidade de sobra para que todos tenham uma alimenta\u00e7\u00e3o rica e saud\u00e1vel. Se o sol nasce para todos, h\u00e1 \u00e1gua, terra, ar, al\u00e9m de frutas, legumes, verduras e cereais para todos. O que atrapalha \u00e9 a proposital m\u00e1 gest\u00e3o dos bens que o planeta produz a fim de que os poderosos de sempre sejam beneficiados. A isso se d\u00e1 o nome de ego\u00edsmo, a maior de todas as chagas morais que aturdem o homem.<\/p>\n<p>P.S.: ainda pretendo fazer esse assunto render. Ele requer uma abund\u00e2ncia de interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #008000;\">Marcelo Teixeira<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/blogabpe.org\/\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pedagogia Esp\u00edrtia (ABPE<\/a><\/p>\n<p>Biblliografia:<\/p>\n<p>KARDEC, Allan \u2013 O Livro dos Esp\u00edritos, 60\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 1986, Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira (FEB), Bras\u00edlia, DF.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRE FOMES, APETITES, DESESPEROS E GULODICES Marcelo Teixeira H\u00e1 alguns anos, dois amigos de movimento esp\u00edrita se casaram. A cerim\u00f4nia foi no s\u00edtio da fam\u00edlia do noivo, em uma cidade distante cerca de 100km de Petr\u00f3polis (RJ), onde moro. 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