{"id":11275,"date":"2021-12-17T06:09:25","date_gmt":"2021-12-17T09:09:25","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=11275"},"modified":"2021-12-17T06:09:49","modified_gmt":"2021-12-17T09:09:49","slug":"dialogando-com-um-espirito-ceptico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/dialogando-com-um-espirito-ceptico\/","title":{"rendered":"Dialogando com um Esp\u00edrito c\u00e9ptico"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">&#8220;DIALOGANDO COM UM ESPIRITO C\u00c9PTICO&#8221;<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Humberto de Campos<\/span><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/img.r7.com\/images\/assustador-fantasma-de-mulher-e-flagrado-visitando-o-proprio-tumulo-25102018141551331?dimensions=771x420&amp;no_crop=true\" alt=\"Assustador! Fantasma de mulher \u00e9 flagrado visitando o pr\u00f3prio t\u00famulo - Fotos - R7 Hora 7\" width=\"326\" height=\"217\" \/><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o me encontro bastante desapegado desse mundo para que n\u00e3o me sentisse tentado a voltar a ele, no dia que assinalou o meu desprendimento da carca\u00e7a de ossos.<\/p>\n<p>Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das sombras, que \u00e9 a vida da\u00ed, o cinco de dezembro representou a minha volta ao pa\u00eds de claridades benditas, cujas portas de ouro s\u00e3o escancaradas pelas m\u00e3os poderosas da morte.<\/p>\n<p>Nessa noite, o ambiente do cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista parecia sufocante. Havia um &#8220;qu\u00ea&#8221; de mist\u00e9rios, entre catacumbas silenciosas, que me enervava, apesar da aus\u00eancia dos nervos tang\u00edveis no meu corpo estranho de esp\u00edrito. Todavia, toquei as flores cariciosas que a saudade me levara, piedosa e compungidamente. O seu aroma penetrava o meu cora\u00e7\u00e3o como um consolo brando, conduzindo-me, num retrospecto maravilhoso, \u00e0s minhas afei\u00e7\u00f5es comovidas, que haviam ficado a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E foi entregue a essas cogita\u00e7\u00f5es, a que s\u00e3o levados os mortos quando penetram o mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um dos companheiros que me ficavam pr\u00f3ximos ao bangal\u00f4 subterr\u00e2neo com que fui mimoseado na terra carioca. .<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 o dono desses ossos que est\u00e3o por a\u00ed apodrecendo? &#8211; interpelou-me.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, e a que vem a sua pergunta?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, \u00e9 que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete subterr\u00e2neo. Recordo-me bem, apesar de sair pouco dessa toca para onde fui relegado h\u00e1 mais de trinta anos&#8230; &#8211; O senhor se lembra? A urna funer\u00e1ria, portadora dos seus despojos, saiu solenemente da Academia de Letras, altas personalidades da pol\u00edtica dominante se fizeram representar nas suas ex\u00e9quias e ouvi sentidos paneg\u00edricos pronunciados em sua homenagem. Muito trabalho tiveram as m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas na camaradagem dos homens da imprensa e tudo fazia sobressair \u00e0 import\u00e2ncia do seu nome ilustre. Procurei aproximar-me de si e notei que as suas m\u00e3os, que tanto haviam acariciado o espadim acad\u00eamico, estavam inermes e que os seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando aprofundar os problemas humanos, estavam reduzidos a um punhado de massa informe, onde apenas os vermes encontrariam algo de \u00fatil.<\/p>\n<p>Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a celebridade, o senhor veio humildemente repousar entre as t\u00edbias e os \u00fameros daqueles que o antecederam na jornada da Morte. Lembra-se o senhor de tudo isso?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me lembro bem&#8230; Tinha o meu esp\u00edrito perturbado pelas dores e emo\u00e7\u00f5es sucessivas.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu me lembro de tudo. Daqui, quase nunca me afasto, como um olho de Argos, avivando a mem\u00f3ria dos meus vizinhos. O senhor conhece as criptas de Palermo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois nessa cidade os monges, um dia, conjugando a piedade com o interesse, inventaram um cemit\u00e9rio bizarro. Os mortos eram mumificados e n\u00e3o baixavam \u00e0 sepultura. Prosseguiam de p\u00e9 a sua jornada de sil\u00eancio e de nudez espantosa. Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha, vestidos ao seu tempo, segundo os seus gostos e opini\u00f5es. Muito rumor causou essa parada de caveiras e de canelas, at\u00e9 que um dia um inspetor da higiene, visitando essa casa de sombras da vida e enojado com a presen\u00e7a dos ratos que ro\u00edam displicentemente as costelas dos traspassados ricos e ilustres que se davam ao gosto de comprar ali um lugar de descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em 1888. Ora bem: eu sou uma esp\u00e9cie dos defuntos de Palermo. Aqui estou sempre de p\u00e9, apesar dos meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se encontraram com os ossos dos que foram meus inimigos.<\/p>\n<p>&#8211; A vida \u00e9 assim -disse-lhe eu; mas, por que se d\u00e1 o amigo a essa ingl\u00f3ria tarefa na solid\u00e3o em que se martiriza? N\u00e3o teria vindo do orbe com bastante f\u00e9, ou com alguma credencial que o recomendasse a este mundo cujas fileiras agora integramos? &#8211;<\/p>\n<p>Credenciais? Trouxe muitas. Al\u00e9m da honorabilidade de velho pol\u00edtico do Rio de Janeiro, trazia as ins\u00edgnias da minha f\u00e9 cat\u00f3lica, apost\u00f3lica romana. Morri com todos os sacramentos da igreja; por\u00e9m, apesar das palavras sacramentais, da liturgia e das felicita\u00e7\u00f5es dos hissopes, n\u00e3o encontrei viva alma que me buscasse para o caminho do C\u00e9u, ou mesmo do inferno. Na minha condi\u00e7\u00e3o de defunto incompreendido, procurei os templos cat\u00f3licos, que certamente estavam na obriga\u00e7\u00e3o de me esclarecer. Contudo, depressa me convenci da inutilidade do meu esfor\u00e7o. As igrejas est\u00e3o cheias de mistifica\u00e7\u00f5es. Se Jesus voltasse agora ao mundo, n\u00e3o poderia tomar um \u00e1tomo de tempo pregando as virtudes crist\u00e3s, na base, luminosa da humildade. Teria de tomar, incontinenti, ao regressar a este mundo, um l\u00e1tego do fogo e trabalhar anos a fio no saneamento de sua casa. Os vendilh\u00f5es est\u00e3o muito multiplicados e a \u00e9poca n\u00e3o comporta mais o Serm\u00e3o da Montanha. O que se faz necess\u00e1rio, no tempo atual, no tocante a esse problema, \u00e9 a creolina de que falava Guerra Junqueiro nas suas blasf\u00eamias.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, o irm\u00e3o est\u00e1 muito c\u00e9tico. \u00c9 preciso esperan\u00e7a e cren\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>-Esperan\u00e7a e cren\u00e7a? N\u00e3o acredito que elas salvem o mundo, com essa gera\u00e7\u00e3o de condenados. Parece que maldi\u00e7\u00f5es infinitas perseguem a moderna civiliza\u00e7\u00e3o. Os homens falam de f\u00e9 e de religi\u00e3o, dentro do esnobismo e da eleg\u00e2ncia da \u00e9poca. A religi\u00e3o \u00e9 para uso externo, perdendo-se o esp\u00edrito nas materialidades do s\u00e9culo. As criaturas parecem muito satisfeitas sob a tutela estranha do diabo. O nome de Deus, na atualidade, n\u00e3o deve ser evocado sen\u00e3o como m\u00e1scara para que os enigmas do dem\u00f4nio sejam resolvidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos n\u00f3s aqui dentro da terra da Guanabara, para\u00edso dos turistas, cidade maravilhosa? Percorra o senhor, ainda depois de morto, as grandes avenidas, as art\u00e9rias gigantescas da capital e ver\u00e1 as crian\u00e7as famintas, as m\u00e3os enauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e p\u00e1lidos das m\u00e3es sofredoras, enquanto o governo remodela os teatros, incentiva as orgias carnavalescas e multiplica regalos e distra\u00e7\u00f5es. V\u00e1 ver como o c\u00e2ncer devora os corpos enfermos no hospital da Gamboa; ande pelos morros, para onde fugiu a mis\u00e9ria e o infort\u00fanio; visite os hosp\u00edcios e lepros\u00e1rios. H\u00e1 de se convencer da inutilidade de todo o servi\u00e7o em favor da esperan\u00e7a e da cren\u00e7a. Em mat\u00e9ria de religi\u00e3o, tente materializar-se e corra aos pr\u00e9dios elegantes e aos bangal\u00f4s ador\u00e1veis de Copacabana e do Leblon, suba a Petr\u00f3polis e grite a verdade. O seu fantasma seria corrido a pedradas. Todos os homens sabem que h\u00e3o de chocalhar os ossos, como n\u00f3s, algum dia, mas um vinho diab\u00f3lico envenenou no ber\u00e7o essa gera\u00e7\u00e3o de infelizes e de descrentes.<\/p>\n<p>&#8211; Por que o amigo n\u00e3o tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa hoje toda nossa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 o fiz. \u00c9 verdade que n\u00e3o compareci em uma reuni\u00e3o de sabedores da doutrina, conhecedores do terreno que perquiriam; mas estive em uma assembl\u00e9ia de adeptos e procurei falar-lhes dos grandes problemas da exist\u00eancia das almas. Exprobrei os meus erros do passado, penitenciando-me das minhas culpas para escarment\u00e1-los; mostrei-lhes as vantagens da pr\u00e1tica do bem, como base \u00fanica para encontrarmos a senda da felicidade, relatando-lhes a verdade terr\u00edvel, na qual me achei um dia, com os ossos confundidos com os ossos dos miser\u00e1veis. Todavia, um dos componentes da reuni\u00e3o interpelou-me a respeito das suas tricas dom\u00e9sticas, acrescentando uma pergunta quanto \u00e0 marcha dos seus neg\u00f3cios. Desiludi-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o tentarei coisa alguma. Desde que temos vida depois da morte, prefiro esperar a hora do Ju\u00edzo Final, hora essa em que deverei buscar um outro mundo, porque, com respeito a Terra, n\u00e3o quero chafurdar-me na sua lama. Por estranho paradoxo vivo depois da morte, serei adepto da congrega\u00e7\u00e3o dos descrentes.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, nada o convence?<\/p>\n<p>&#8211; Nada. Ficarei aqui at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o dos evos, se a m\u00e3o do Diabo n\u00e3o se lembrar, de me arrancar dessa toca de ossos mo\u00eddos e cinzas asquerosas. E, quanto ao senhor, n\u00e3o procure afastar-me dessa misantropia. Continue gritando para o mundo que lhe guarda os despojos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o o farei.<\/p>\n<p>E o singular personagem, recolheu-se \u00e0 escurid\u00e3o do seu canto imundo, enquanto pesava no meu esp\u00edrito a certeza dolorosa da exist\u00eancia dessas almas vazias e incompreendidas na parada eterna dos t\u00famulos silenciosos para onde os vivos levam de vez em quando as flores perfumadas da sua saudade e da sua afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Recebida em Pedro Leopoldo a 13 de dezembro de 1935.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Do livro Palavras do Infinito. Psicografia de Francisco C\u00e2ndido Xavier.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;DIALOGANDO COM UM ESPIRITO C\u00c9PTICO&#8221; Humberto de Campos Ainda n\u00e3o me encontro bastante desapegado desse mundo para que n\u00e3o me sentisse tentado a voltar a ele, no dia que assinalou o meu desprendimento da carca\u00e7a de ossos. 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