{"id":12055,"date":"2022-08-05T08:48:05","date_gmt":"2022-08-05T11:48:05","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=12055"},"modified":"2022-08-05T08:48:05","modified_gmt":"2022-08-05T11:48:05","slug":"apuros-de-um-morto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/apuros-de-um-morto\/","title":{"rendered":"Apuros de um morto"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">Apuros de um morto<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/a\/AVvXsEiIIgTEmciuSkUyjxSgokqNYm0GZNXUL0kl2VNjaRT-A_pTEAbuFxgtqJY-HzozEY23e3i4oWOzJC_8qPTYuhZksLlMJhLGoiFClS_i3mtLWFdr6QOZi2caosJoZsTiwN3528mU5j_jffk4g6PZPtF3kHZBR304jdDzwjvcz7IUTupqQR9DBfJ75AIvwg=w400-h194\" \/><\/p>\n<p>Quando Apolin\u00e1rio Rezende acordou, al\u00e9m da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emo\u00e7\u00e3o. Ouvia a esposa, Dona Francina, a cham\u00e1-lo em gritos estertorosos. E qual se fosse transportado a casa por guindaste magn\u00e9tico, reconheceu-se, de chofre, diante dela, que se descabelava chorosa.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cIngrato! Ingrato!\u201d \u2013 era o que a vi\u00fava dizia em pensamento, embora apenas tartamudeasse interjei\u00e7\u00f5es lamentosas com a boca.<\/p>\n<p>Julgando no corpo de carne, Rezende, em v\u00e3o, se fazia sentir. Gritava pela companheira. Pedia explica\u00e7\u00f5es. Esmurrava a mesa em que a senhora apoiava os cotovelos. Dona Francina, entretanto, procedia como quem lhe ignorava a presen\u00e7a.<\/p>\n<p>O infeliz, no primeiro instante, julgou-se dementado. Acreditava em pesadelo e queria retornar \u00e0 vida comum, despertar&#8230; Beliscava-se inutilmente.<\/p>\n<p>Nisso, escutou o pr\u00f3prio nome no andar t\u00e9rreo. Despencou-se e encontrou Maria Iza, a copeira que se habituara a estimar como sendo sua pr\u00f3pria filha, em conversa\u00e7\u00e3o discreta com o advogado que lhe era amigo \u00edntimo.<\/p>\n<p>O Dr. Joaquim Curado ouvia, atento a mo\u00e7a, que lhe confidenciava uma inf\u00e2mia. A empregada, que sempre lhe recolhera a melhor aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pejava de acus\u00e1-lo, afirmando que o pequeno Samuel, o menino que lhe nascera, quatro anos antes, do cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e solteira, era filho dele, Rezende.<\/p>\n<p>A servi\u00e7al, no extremo da cal\u00fania, dramatizava em pranto. Dizia, despudorada, que seu filhinho Samuel n\u00e3o podia privar-se da heran\u00e7a, que ela, em outros tempos, vivia sofrendo injuriosas cenas de ci\u00fame, por parte da patroa, e que estava agora resolvida a colocar a quest\u00e3o em pratos limpos.<\/p>\n<p>Apolin\u00e1rio cerrou os punhos e dispunha-se a esbofete\u00e1-la, quando o caus\u00eddico asseverou: \u201cBem, desde que o Rezende morreu&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O pobre Esp\u00edrito liberto sofreu tremendo choque.<\/p>\n<p>Morrera ent\u00e3o? Que significava tudo aquilo?<\/p>\n<p>Sentia-se louco&#8230; Gritou desesperado, lembrando fera aguilhoada no circo, mas os dois interlocutores nem de leve lhe perceberam a rea\u00e7\u00e3o, e o entendimento continuou&#8230;<\/p>\n<p>Chorando copiosamente, Apolin\u00e1rio ficou sabendo que o invent\u00e1rio dos seus bens seguia em meio, que Maria Iza alegava-se seduzida por ele e exigia mais de dois milh\u00f5es de cruzeiros, parte igual ao montante que se reservava a cada um de seus filhos.<\/p>\n<p>O Dr. Joaquim falava em exame de sangue e pedia provas. A mo\u00e7a notificou que Renato, o filho ca\u00e7ula de Dona Francina, fora testemunha da experi\u00eancia infeliz a que se submetera, em acedendo \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es que lhe haviam sido movidas pelo morto.<\/p>\n<p>Aterrado, Rezende viu seu pr\u00f3prio filho mais novo entrar, a chamado, no parlat\u00f3rio dom\u00e9stico, apoiando a invencionice. O jovem, que ultrapassara os vinte e dois de idade, preocupava-o sempre, pelo car\u00e1ter leviano; contudo, n\u00e3o foi sem espanto que passou a escut\u00e1-lo, confirmando a den\u00fancia.<\/p>\n<p>Perante o advogado, surpreendido, Renato anunciou que, simplesmente tocado pela compaix\u00e3o, deliberara ajudar Maria Iza, declarando que o pai, pilhado por ele em v\u00e1rios encontros com ela, resolvera confiar-lhe a verdade, salientando que, um dia, quando viesse a falecer, o menino Samuel n\u00e3o devia ser esquecido, de vez que lhe devia a paternidade.<\/p>\n<p>Rezende, tomado de repugn\u00e2ncia, desmentia tudo, at\u00e9 que lhe pareceu ouvir os pensamentos do filho, compreendendo, por fim, que Renato se mancomunara com a copeira, de modo a senhorear metade da import\u00e2ncia que a ela fosse atribu\u00edda pela Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Entendeu a chantagem. O rapaz pretendia o maior quinh\u00e3o e, para isso, n\u00e3o vacilava enxovalhar-lhe o nome. Abatido, procurou Reinaldo, o filho mais velho, mo\u00e7o de comportamento exemplar; entretanto, foi ach\u00e1-lo no gabinete, conformado com a situa\u00e7\u00e3o. O irm\u00e3o desfechara habilmente o golpe e o primog\u00eanito preferia perder parte da heran\u00e7a a desrespeitar a mem\u00f3ria do pai.<\/p>\n<p>Voltou Rezende ao quarto da esposa e debalde quis confort\u00e1-la. Dona Francina ensopara o len\u00e7o de l\u00e1grimas. N\u00e3o chorava tanto o dinheiro de que deveria dispor. Lastimava a suposta infidelidade do falecido marido. Recordava todos os dias felizes, em que ambos haviam desfrutado confian\u00e7a perfeita&#8230; Era preciso ser desumano para que lhe mentisse, qual o fizera, dentro do pr\u00f3prio lar. Ansiava conserv\u00e1-lo puro, na lembran\u00e7a, viver o resto da exist\u00eancia preparando-se para reencontr\u00e1-lo; entretanto&#8230;<\/p>\n<p>Esfor\u00e7ava-se Rezende para consol\u00e1-la, a procurar em si mesmo a raz\u00e3o por que sofria semelhante prova, quando lhe ocorreu um estalo na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Via-se recuar, recuar&#8230; Sim, sim, Maria Iza recebera dele t\u00e3o somente considera\u00e7\u00f5es respeitosas; contudo, Julieta surgia-lhe agora&#8230; Fora-lhe a companheira da juventude, quarenta anos antes&#8230; Menina de condi\u00e7\u00e3o modesta aguentara-lhe a ingratid\u00e3o. Cedera aos seus caprichos de mo\u00e7o impulsivo e passara a aguardar-lhe um filhinho, confiando no casamento. Examinando, por\u00e9m, as pr\u00f3prias conveni\u00eancias, obrigara Julieta a sujeitar-se a vergonhoso processo abortivo e, em seguida, ao v\u00ea-la frustrada, abandonou-a na vala do meretr\u00edcio.<\/p>\n<p>Rezende, atormentado em dolorosas reminisc\u00eancias, inquiria a si pr\u00f3prio se a cal\u00fania de Maria Iza seria a resposta do destino ao sarcasmo em que lan\u00e7ara Julieta&#8230; Onde encontrar a v\u00edtima de outra \u00e9poca? Por outro lado, ali estava Dona Francina, a reclamar-lhe assist\u00eancia, e Maria Iza, a quem devia perdoar a seu turno.<\/p>\n<p>Tateava o cr\u00e2nio em fogo.<\/p>\n<p>Atravessava o primeiro dia de consci\u00eancia acordada, depois da morte, e parecia estar no \u00ednfero mental, desde muito tempo.<\/p>\n<p>Caiu a noite e Rezende permaneceu aflito junto da esposa, tentando, em v\u00e3o, falar-lhe durante o sono&#8230; Manh\u00e3 cedo, Dona Francina levantou-se, orou \u00e0 frente da pr\u00f3pria imagem dele, na foto de cabeceira, tomou grande ramo de flores e saiu na dire\u00e7\u00e3o de um templo. Apolin\u00e1rio seguiu-a, reconhecendo, emocionado, que a esposa encomendara um of\u00edcio religioso, a benef\u00edcio da sua felicidade. Findas as preces, Dona Francina tocou para o cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o Rezende veio saber que a leal companheira comemorava o sexto m\u00eas de sua partida.<\/p>\n<p>Cento e oitenta e tr\u00eas dias de inconsci\u00eancia na vida espiritual!<\/p>\n<p>Assombrado, fitou a esposa, que se ajoelhara \u00e0 frente do seu pr\u00f3prio t\u00famulo. Entre angustiado e curioso, inclinou-se para a l\u00e1pide e soletrou espantadi\u00e7o: \u201cAqui jaz Apolin\u00e1rio Rezende.\u201d E, em letras menores: \u201cOrai pelo descanso eterno de sua alma\u201d.<\/p>\n<p>Quando leu as palavras \u201cdescanso eterno\u201d, Rezende passou a refletir sobre as agonias morais a que era submetido, desde a v\u00e9spera, e, embora sentindo imenso desejo de chorar, esqueceu a quietude do campo santo e desferiu, em desespero, enorme gargalhada&#8230;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #993300;\">Extra\u00eddo do livro Contos desta e doutra vida, obra psicografada pelo m\u00e9dium Francisco C\u00e2ndido Xavier.<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apuros de um morto Quando Apolin\u00e1rio Rezende acordou, al\u00e9m da morte, viu-se terrivelmente sacudido por estranha emo\u00e7\u00e3o. Ouvia a esposa, Dona Francina, a cham\u00e1-lo em gritos estertorosos. E qual se fosse transportado a casa por guindaste magn\u00e9tico, reconheceu-se, de chofre, &hellip; <a href=\"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/apuros-de-um-morto\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"aside","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,1,23,16,27,19],"tags":[],"class_list":["post-12055","post","type-post","status-publish","format-aside","hentry","category-a-familia","category-artigos","category-ciencia","category-espiritismo","category-sociedade","category-transicao","post_format-post-format-aside"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12055"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12055\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12056,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12055\/revisions\/12056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}