{"id":12145,"date":"2022-08-28T09:19:24","date_gmt":"2022-08-28T12:19:24","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=12145"},"modified":"2022-08-28T09:19:24","modified_gmt":"2022-08-28T12:19:24","slug":"a-materia-obscura-do-materialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/a-materia-obscura-do-materialismo\/","title":{"rendered":"A mat\u00e9ria obscura do materialismo"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">A mat\u00e9ria obscura do materialismo<\/span><\/strong><\/h2>\n<p>Escrito por <strong><span style=\"color: #008000;\">Cesar Boschetti<\/span><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/www.geae.net.br\/images\/IMAGENS\/Imagens_Artigos-site\/a-materia-obscura-do-materialismo.jpg\" alt=\"a materia obscura do materialismo\" width=\"280\" height=\"183\" \/><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 de l\u00f3gica elementar que o cr\u00edtico conhe\u00e7a, n\u00e3o superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o qu\u00ea, sua opini\u00e3o n\u00e3o tem valor. Para combater um c\u00e1lculo \u00e9 necess\u00e1rio opor-se-lhe outro c\u00e1lculo, o que exige saber calcular. O cr\u00edtico n\u00e3o se deve limitar a dizer que tal coisa \u00e9 boa ou m\u00e1; \u00e9 preciso que justifique a opini\u00e3o por uma demonstra\u00e7\u00e3o clara e categ\u00f3rica, baseada sobre os princ\u00edpios da arte ou ci\u00eancia a que pertence o objeto da cr\u00edtica. Como poder\u00e1 faz\u00ea-lo, quando n\u00e3o conhecer esses princ\u00edpios?\u201d(O que \u00e9 o espiritismo \u2013 Allan Kardec)<\/p>\n<p>Ainda nessa obra, Kardec acrescenta o seguinte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;em sua acep\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e segundo a etimologia, ela significa julgar, apreciar. A cr\u00edtica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa. Fazer a cr\u00edtica de um livro n\u00e3o \u00e9 necessariamente conden\u00e1-lo; quem empreende essa tarefa, deve faz\u00ea-lo sem ideias preconcebidas; por\u00e9m, se antes de abrir o livro, j\u00e1 o condena em pensamento, o exame n\u00e3o pode ser imparcial.\u201d<\/p>\n<p>Essas coloca\u00e7\u00f5es de Kardec ocorreram em seu di\u00e1logo com o cr\u00edtico que pretendia criticar, no sentido de censurar, e n\u00e3o de apreciar, o espiritismo, baseado apenas no acompanhamento de uma ou duas reuni\u00f5es. Percebe-se, contudo, que o que disse Kardec tem ampla aplica\u00e7\u00e3o em todos os setores das atividades humanas.<\/p>\n<p>Kardec foi um grande cr\u00edtico do materialismo de sua \u00e9poca. Mas precisamos atentar com muito cuidado qual era a compreens\u00e3o do materialismo \u00e0 \u00e9poca de Kardec. Como era a Paris de Kardec. Que movimentos sociais, pol\u00edticos, filos\u00f3ficos e cient\u00edficos estavam em curso na Fran\u00e7a e no mundo daquela \u00e9poca. Sem um m\u00ednimo de exame desse contexto, ca\u00edmos no achismo. Ca\u00edmos no erro da opini\u00e3o preconceituosa sobre algo que n\u00e3o temos mais que um mero vislumbre. E tanto faz qual seja essa opini\u00e3o. Contra ou a favor ser\u00e1 sempre uma opini\u00e3o desqualificada. Ser\u00e1 sempre uma opini\u00e3o que, em lugar de alargar os horizontes da filosofia esp\u00edrita, acaba promovendo o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se estou \u00e0 altura dos requisitos de conhecimento de causa prescritos por Kardec, sou um simples aprendiz, mas consegui reunir algumas informa\u00e7\u00f5es que julgo apropriado compartilhar.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a do s\u00e9culo XIX era um dos principais centros da cultura europeia e mundial. Paris era uma esp\u00e9cie de capital do mundo ocidental. Tudo que era importante na cultura, na filosofia, na pol\u00edtica, na ci\u00eancia e na economia tinha como um dos principais polos, sen\u00e3o o principal, Paris. E n\u00e3o era para menos. O iluminismo, uma revolu\u00e7\u00e3o do pensamento, sobretudo na pol\u00edtica, na filosofia e na economia, iniciado na Europa do s\u00e9culo XVIII, ganhou grande express\u00e3o na Fran\u00e7a com Diderot, Rousseau e Voltaire, este \u00faltimo, um dos principais inspiradores da revolu\u00e7\u00e3o francesa de 1789. Esse evento foi um marco na hist\u00f3ria da humanidade. P\u00f4s fim \u00e0 monarquia absolutista, depondo e decapitando Luis XVI e instituindo a primeira rep\u00fablica francesa. Algo in\u00e9dito na hist\u00f3ria. O iluminismo franc\u00eas teve profunda repercuss\u00e3o no mundo. Inspirou a independ\u00eancia Americana, inclusive, com a Fran\u00e7a apoiando com tropas a guerra de independ\u00eancia dos Estados Unidos contra a Inglaterra. A inconfid\u00eancia Mineira, aqui no Brasil, tamb\u00e9m teve inspira\u00e7\u00e3o iluminista. At\u00e9 a distante R\u00fassia sofreu grande influ\u00eancia francesa. As obras de Dostoi\u00e9vski e Tolstoi, dois gigantes russos da literatura mundial, t\u00eam seus romances fartamente recheados de dizeres e reflex\u00f5es franceses. Mas a revolu\u00e7\u00e3o francesa n\u00e3o foi exatamente o fim de uma era. O s\u00e9culo XIX que se seguiu foi um per\u00edodo dos mais complexos e tumultuados da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a e da Europa. Foi um per\u00edodo recheado de revolu\u00e7\u00f5es, conflitos, crises, guerras, avan\u00e7os e retrocessos sociais e pol\u00edticos. S\u00f3 para ilustrar houve em 1830 uma nova revolu\u00e7\u00e3o de import\u00e2ncia e impacto similar \u00e0 do final do s\u00e9culo XVIII. Tamb\u00e9m em 1848 e em 1872 duas outras revolu\u00e7\u00f5es com impacto por toda a Europa. Isso tudo permeado por ondas de desemprego e uma epidemia de c\u00f3lera em 1832. Sem falar na guerra franco prussiana de 1870 que resultou na derrota de Napole\u00e3o III, sua queda e a institui\u00e7\u00e3o da terceira rep\u00fablica francesa. Al\u00e9m da derrota, a Fran\u00e7a saiu do conflito com enormes preju\u00edzos financeiros e geopol\u00edticos como a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, por exemplo. N\u00e3o podemos esquecer que o s\u00e9culo XIX foi tamb\u00e9m um per\u00edodo de grandes avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos em quase todas as \u00e1reas do conhecimento, sendo marcado principalmente pela segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial na metade do s\u00e9culo. Todo esse complexo conjunto de fatores, nos autoriza supor que a escolha da Fran\u00e7a como ber\u00e7o do espiritismo n\u00e3o foi algo feito \u00e0s pressas sem qualquer planejamento.<\/p>\n<p>Evidentemente, Kardec n\u00e3o deveria estar imune a todas essas circunst\u00e2ncias sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas que afetavam a vida de toda a sociedade francesa. \u00c9 dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, avaliar o quanto e de que forma, eventos externos tiveram influ\u00eancia sobre Kardec, sobre os m\u00e9diuns e at\u00e9 sobre as orienta\u00e7\u00f5es dos esp\u00edritos superiores. O que \u00e9 importante notar \u00e9 que o espiritismo n\u00e3o \u00e9 uma filosofia dogm\u00e1tica, engessada em seu contexto hist\u00f3rico. O espiritismo foi estruturado como uma filosofia din\u00e2mica, aberta \u00e0s novas ideias, sem contudo sacrificar seus princ\u00edpios fundamentais. Sua origem em uma Fran\u00e7a tumultuada por revolu\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e filos\u00f3ficas, quase certo, n\u00e3o foi algo fortuito desconexo da realidade do ser humano. E se o espiritismo n\u00e3o vingou na Fran\u00e7a p\u00f3s Kardec, n\u00e3o parece ter sido por conta de conflitos, pois ele nasceu em meio aos conflitos. \u00c9 importante pesar todos esses fatores se quisermos obter uma compreens\u00e3o mais ampla da filosofia esp\u00edrita e vivenciar uma experi\u00eancia de f\u00e9 raciocinada mais profunda e significativa.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos deixar de levar em conta duas importantes correntes filos\u00f3ficas surgidas no s\u00e9culo XIX na Europa. A saber, o positivismo de Auguste Comte, na Fran\u00e7a, na primeira metade do s\u00e9culo, e o Darwinismo, na Inglaterra, na segunda metade do s\u00e9culo. Essas duas correntes de pensamento representaram a consolida\u00e7\u00e3o de um processo que havia se iniciado no s\u00e9culo passado com o iluminismo. A ci\u00eancia natural tornou-se mais natural e menos filos\u00f3fica. Teologia e ci\u00eancias foram substancialmente separadas. A argumenta\u00e7\u00e3o que Deus podia ser deduzido da natureza, era agora uma quest\u00e3o para os te\u00f3logos apenas. A linguagem da f\u00edsica passou a restringir-se \u00e0s medidas e \u00e0 matem\u00e1tica. A ci\u00eancia passou a descrever o mundo e a natureza em seus pr\u00f3prios termos e n\u00e3o mais com refer\u00eancia aos prop\u00f3sitos de um Criador. Isso ensejou o surgimento de uma vis\u00e3o materialista, um tanto quanto radical e dogm\u00e1tica, do mundo.<\/p>\n<p>Para Comte, o positivismo era uma doutrina filos\u00f3fica e pol\u00edtica com aplica\u00e7\u00f5es e implica\u00e7\u00f5es sociais. Em linhas gerais, ele propunha valores completamente humanos para a exist\u00eancia humana. Comte refutava radicalmente a teologia e a metaf\u00edsica, defendendo a ideia de que o conhecimento cient\u00edfico, baseado exclusivamente na observa\u00e7\u00e3o, era a \u00fanica forma de conhecimento verdadeiro. Se hoje achamos complicada a situa\u00e7\u00e3o do Brasil e do mundo, a \u00e9poca de Comte e, portanto, de Kardec, era um verdadeiro caos. Comte perseguia o objetivo de compreender as leis que regiam as rela\u00e7\u00f5es dentro da sociedade de sua \u00e9poca. Uma sociedade complexa, filha de revolu\u00e7\u00f5es, conflitos, avan\u00e7os e retrocessos pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Ele pretendia obter a compreens\u00e3o e trazer alguma ordem e estrutura para a sociedade a partir das leis da natureza. \u00c9 considerado o pai da sociologia. Na verdade, ele deu o nome de f\u00edsica social a essa nova ci\u00eancia, tal era sua convic\u00e7\u00e3o na capacidade das ci\u00eancias naturais explicarem e possibilitarem o planejamento da sociedade. O lema de Comte era \u201cO amor por princ\u00edpio, a ordem por base e o progresso por fim\u201d.<\/p>\n<p>Vale notar que Marx, que tamb\u00e9m tinha como ideal o progresso da sociedade humana, entendia que isso s\u00f3 seria poss\u00edvel por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o armada do prolet\u00e1rio contra os burgueses. Comte, entedia que o progresso deveria vir por meio de uma reforma social tendo por base a ordem. Percebemos aqui uma analogia com Kardec, que tamb\u00e9m ansiava pelo progresso da humanidade, mas a partir da compreens\u00e3o que a vida humana n\u00e3o se restringe ao mundo material. Ao contr\u00e1rio de Marx e Comte, Kardec propunha a compreens\u00e3o da sociedade humana em dois planos, o material e o espiritual.<\/p>\n<p>O positivismo teve grande influ\u00eancia no mundo. Teve inclusive impacto maior no Brasil que na pr\u00f3pria Fran\u00e7a. A nossa Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica com um golpe militar derrubando o imp\u00e9rio \u00e9 fruto de ideias positivistas no ex\u00e9rcito. O lema \u201cOrdem e Progresso\u201d de nossa bandeira \u00e9 um lema positivista.<\/p>\n<p>Apesar da completa refuta\u00e7\u00e3o dos valores teol\u00f3gicos, Comte n\u00e3o era contra a religi\u00e3o. Ele inclusive percebeu a import\u00e2ncia dos princ\u00edpios religiosos para o progresso da sociedade, mas entendia que esses princ\u00edpios deveriam apoiar-se na ci\u00eancia, nas leis observ\u00e1veis da natureza e n\u00e3o em conceitos transcendentais. Por isso Comte prop\u00f4s a religi\u00e3o da humanidade. Existe hoje no Brasil o templo positivista do Rio de Janeiro (<a href=\"http:\/\/templodahumanidade.org.br\/\">http:\/\/templodahumanidade.org.br\/<\/a>) e outro no Rio Grande do Sul (<a href=\"https:\/\/templopositivista.org.br\/\">https:\/\/templopositivista.org.br\/<\/a>), marcas da influ\u00eancia positivista em nossa cultura.<\/p>\n<p>De outro lado, na Inglaterra, Charles Darwin publicava em 1859 a \u201cA Origem das Esp\u00e9cies\u201d que veio a causar profundo impacto \u00e9tico e religioso na sociedade. Vale notar que o zo\u00f3logo Alfred Russel Wallace, esp\u00edrita, havia chegado a conclus\u00f5es muito pr\u00f3ximas de Darwin que foi alertado a apressar a publica\u00e7\u00e3o de seu livro antes que Wallace anunciasse seus estudos.<\/p>\n<p>Todos esses acontecimentos marcaram profundamente a maneira como o ser humano passava a compreender a vida, a sociedade e a natureza. Como consequ\u00eancia surgiram em v\u00e1rios meios acad\u00eamicos, vis\u00f5es materialistas carregadas de radicalismo. Eram correntes que n\u00e3o aceitavam outras perspectivas e vis\u00f5es de mundo. Queriam impor a todo custo sua verdade como verdade \u00fanica, depreciando e combatendo qualquer coisa que n\u00e3o estivesse alinhada com sua vis\u00e3o. Era esse grupo de materialistas dogm\u00e1ticos que Kardec precisou enfrentar e combater. Kardec n\u00e3o era contra a vis\u00e3o positiva ou materialista da ci\u00eancia. N\u00e3o era isso que incomodava Kardec. Kardec via nesse aspecto apenas uma atitude racional. Era o dogmatismo materialista que Kardec precisou combater.<\/p>\n<p>Vale a pena uma leitura bastante atenta das palavras de Kardec em seu artigo na Revista Esp\u00edrita de agosto de 1868. N\u00e3o vamos replicar esse texto na \u00edntegra, mas alguns trechos merecem destaque. Os grifos s\u00e3o meus.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cO Materialismo e o Direito:- Exibindo-se como n\u00e3o o tinha feito em nenhuma outra \u00e9poca e se apresentando como supremo regulador dos destinos morais da Humanidade, o materialismo teve por efeito apavorar as massas pelas consequ\u00eancias inevit\u00e1veis de suas doutrinas para a ordem social. Por isto mesmo provocou, em favor das ideias espiritualistas, uma en\u00e9rgica rea\u00e7\u00e3o, que deve provar-lhe que est\u00e1 longe de ter simpatias t\u00e3o gerais quanto sup\u00f5e, e que se ilude singularmente se espera um dia impor suas leis ao mundo&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c&#8230;Seguramente as cren\u00e7as espiritualistas dos tempos passados s\u00e3o insuficientes para este s\u00e9culo; elas n\u00e3o est\u00e3o no n\u00edvel intelectual de nossa gera\u00e7\u00e3o; <span style=\"color: #993300;\">sobre muitos pontos est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os dados positivos da Ci\u00eancia<\/span>; deixam no esp\u00edrito um vazio incompat\u00edvel com a necessidade do positivo, que domina na sociedade moderna; al\u00e9m disso, <span style=\"color: #993300;\">cometem o erro imenso de se imporem pela f\u00e9 cega<\/span> e de proscreverem o livre-exame\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c&#8230;Mas em vez de apresentar algo de melhor que o velho espiritualismo cl\u00e1ssico, <span style=\"color: #993300;\">o materialismo preferiu tudo suprimir<\/span>, o que o dispensava de procurar, e parecia mais c\u00f4modo \u00e0queles a quem importuna a ideia de Deus e do futuro\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c&#8230;O que \u00e9 de admirar \u00e9<span style=\"color: #993300;\"> encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna esse esp\u00edrito de intoler\u00e2ncia<\/span> levado aos \u00faltimos limites, logo eles que reivindicam sem cessar o direito de liberdade de consci\u00eancia. Seus pr\u00f3prios correligion\u00e1rios pol\u00edticos acham-se sem gra\u00e7a diante deles, assim que fazem profiss\u00e3o de espiritualismo, como o Sr. Jules Favre, a prop\u00f3sito de seu discurso na Academia (F\u00edgaro de 8 de maio de 1868), e como o Sr. Camille Flammarion, afrontosamente ridicularizado e denegrido, num outro jornal, cujo nome esquecemos, porque ousou provar Deus pela Ci\u00eancia. <span style=\"color: #993300;\">Segundo o autor dessa diatribe, n\u00e3o se pode ser s\u00e1bio sen\u00e3o com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o crer em Deus&#8230;;<\/span>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u201c&#8230;Ningu\u00e9m contesta a esse partido o direito de ter a sua opini\u00e3o, de discutir as opini\u00f5es contr\u00e1rias, <span style=\"color: #993300;\">mas o que n\u00e3o se lhe poderia conceder \u00e9 a pretens\u00e3o, no m\u00ednimo singular para homens que se apresentam como ap\u00f3stolos da liberdade, de impedir que os outros creiam \u00e0 sua maneira e de discutir as doutrinas que n\u00e3o partilham&#8230;\u201d<\/span><\/p>\n<p>Segue-se na sequ\u00eancia dos trechos introdut\u00f3rios acima, uma r\u00e9plica do artigo publicado pelo jornal Droit que vale a pena ler. N\u00e3o caberia replic\u00e1-lo aqui, mas o artigo \u00e9 riqu\u00edssimo e esclarecedor.<\/p>\n<p>Fica claro nas coloca\u00e7\u00f5es acima, que a oposi\u00e7\u00e3o de Kardec era contra os materialistas dogm\u00e1ticos que queriam impor pela for\u00e7a, pela f\u00e9 cega, os seus princ\u00edpios. Kardec n\u00e3o combatia o materialismo cient\u00edfico. Ao contr\u00e1rio, Kardec respeitava a ci\u00eancia e adotava sua metodologia para suas pesquisas.<\/p>\n<p>O dogmatismo materialista da \u00e9poca chegou ao ponto de combater o pr\u00f3prio positivismo de Comte. Julgavam que Comte n\u00e3o era suficientemente materialista. A r\u00e9plica abaixo da Revista Esp\u00edrita de outubro de 1868 ilustra bem esse ponto. Tamb\u00e9m aqui replico apenas alguns trechos mais importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cProfiss\u00e3o de F\u00e9 Materialista (o texto abaixo \u00e9 de A. Regnard, antigo interno dos hospitais):- A filosofia de A. Comte teve a sua utilidade e a sua gl\u00f3ria no tempo em que o <span style=\"color: #993300;\">\u2018cousinismo*\u2019<\/span> reinava como senhor. Hoje que a bandeira do materialismo foi erguida na Alemanha por nomes ilustres, na Fran\u00e7a por gente mo\u00e7a, em cujo meio tenho orgulho e pretens\u00e3o de me contar, <span style=\"color: #993300;\">\u00e9 bom que o positivismo se recolha ao modesto papel que lhe conv\u00e9m<\/span>. \u00c9 bom, sobretudo, que n\u00e3o afete por mais tempo, a respeito do materialismo, seu mestre e seu antepassado, um desd\u00e9m ou retic\u00eancias que s\u00e3o, no m\u00ednimo, inoportunas&#8230;\u201d<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">* Filosofia espiritualista devida a Victor Cousin<\/span><\/p>\n<p>Agora sim, temos os coment\u00e1rios de Kardec sobre o texto acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cComo se v\u00ea, <span style=\"color: #993300;\">o materialismo tamb\u00e9m tem o seu fanatismo<\/span>. H\u00e1 alguns anos apenas, ele n\u00e3o teria ousado exibir-se t\u00e3o audaciosamente; hoje traz abertamente o desafio ao espiritualismo, e o positivismo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, aos seus olhos, suficientemente radical.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cTem suas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e \u00e9 ensinado publicamente \u00e0 juventude; tem a mais o que censura nos outros: <span style=\"color: #993300;\">a intoler\u00e2ncia, que vai at\u00e9 a intimida\u00e7\u00e3<\/span>o. Imagine-se o estado social de um povo imbu\u00eddo de semelhantes doutrinas!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201cEsses excessos, no entanto, t\u00eam a sua utilidade, a sua raz\u00e3o de ser; amedrontam a sociedade, e <span style=\"color: #993300;\">o bem sempre sai do mal<\/span>. \u00c9 preciso o excesso do mal para fazer sentir a necessidade do melhor, sem o que o homem n\u00e3o sairia de sua in\u00e9rcia; <span style=\"color: #993300;\">ficaria impass\u00edvel diante de um mal que se perpetuaria em favor de sua pouca import\u00e2ncia,<\/span> ao passo que u<span style=\"color: #993300;\">m grande mal desperta sua aten\u00e7\u00e3o<\/span> e lhe faz buscar os meios de o remediar. Sem os grandes desastres ocorridos no in\u00edcio das estradas de ferro, e que apavoravam, j\u00e1 que os pequenos acidentes isolados passavam quase despercebidos, ter-se-iam desprezado as medidas de seguran\u00e7a. No moral \u00e9 como no f\u00edsico: quanto mais excessivos os abusos, mais pr\u00f3ximo est\u00e1 o termo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u201c<span style=\"color: #993300;\">A causa primordial<\/span> do desenvolvimento <span style=\"color: #993300;\">da incredulidade<\/span> est\u00e1, como temos dito muitas vezes, na insufici\u00eancia das cren\u00e7as religiosas, em geral, para satisfazer a raz\u00e3o, e no seu princ\u00edpio de imobilidade, que lhes interdita toda concess\u00e3o sobre os seus dogmas, mesmo diante da evid\u00eancia. <span style=\"color: #993300;\">Se, em lugar de ficarem na retaguarda, elas tivessem seguido o movimento progressivo do esp\u00edrito humano, mantendo-se sempre no n\u00edvel da Ci\u00eancia, por certo difeririam um pouco do que eram no princ\u00edpio,<\/span> como um adulto difere da crian\u00e7a de ber\u00e7o, mas a f\u00e9, em vez de se extinguir, teria crescido com a raz\u00e3o, porque \u00e9 uma necessidade para a Humanidade, e elas n\u00e3o teriam aberto a porta \u00e0 incredulidade que vem sapar o que delas resta; recolhem o que semearam.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"color: #993300;\">\u201cO materialismo \u00e9 uma consequ\u00eancia da \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o em que estamos; n\u00e3o \u00e9 um progresso, longe disso, mas um instrumento de progresso<\/span>. Desaparecer\u00e1, provando a sua insufici\u00eancia para a manuten\u00e7\u00e3o da ordem social e para a satisfa\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos s\u00e9rios, que procuram o porqu\u00ea de cada coisa; para isto era necess\u00e1rio que o vissem em a\u00e7\u00e3o. A Humanidade, que precisa crer no futuro, jamais se contentar\u00e1 com o vazio que ele deixa atr\u00e1s de si, e procurar\u00e1 algo de melhor para o compensar.\u201d<\/p>\n<p>Aqui tamb\u00e9m fica claro que n\u00e3o \u00e9 a premissa materialista da ci\u00eancia que deve ser combatida. Essa premissa, \u00e9 uma ferramenta de trabalho compreendida e respeitada por Kardec. Hoje, o radicalismo materialista praticado no s\u00e9culo XIX n\u00e3o se extinguiu completamente, mas j\u00e1 est\u00e1 bem mais contido. Hoje j\u00e1 temos diversos setores acad\u00eamicos dedicando-se a pesquisas em temas relacionando espiritualidade com sa\u00fade (<a href=\"https:\/\/www.ufjf.br\/nupes\/\">https:\/\/www.ufjf.br\/nupes\/<\/a>), e temas relacionados \u00e0s experi\u00eancias de quase morte \u00a0(<a href=\"https:\/\/med.virginia.edu\/perceptual-studies\/our-research\/near-death-experiences-ndes\/\">https:\/\/med.virginia.edu\/perceptual-studies\/our-research\/near-death-experiences-ndes\/<\/a>). Essa tem\u00e1tica ainda divide os neurocientistas, mas s\u00e3o cada vez maiores os indicativos de que a consci\u00eancia (esp\u00edrito) n\u00e3o necessita do c\u00e9rebro para existir.<\/p>\n<p>N\u00e3o poder\u00edamos encerrar nossas considera\u00e7\u00f5es sem apontarmos uma certa contradi\u00e7\u00e3o existente no movimento esp\u00edrita. Contradi\u00e7\u00e3o essa, possivelmente inconsciente, mas que precisa ser examinada. O materialismo continua sendo combatido e acusado como o grande vil\u00e3o do progresso moral e espiritual do ser humano. Continua sendo apontado como a causa de todos os males existentes na sociedade humana. Continua sendo acusado de causa direta do ego\u00edsmo, do orgulho, do individualismo e da ambi\u00e7\u00e3o desmedida do ser humano.<\/p>\n<p>Trata-se de estrat\u00e9gia completamente equivocada. \u00c9 ineg\u00e1vel que o materialismo cient\u00edfico ou filos\u00f3fico serve muito bem como desculpa a essa conduta nefasta do ser humano, assim como o cristianismo da idade m\u00e9dia serviu muito bem como desculpa para as fogueiras da inquisi\u00e7\u00e3o. N\u00f3s esp\u00edritas precisamos estudar e ponderar com muito cuidado o que \u00e9 causa e o que \u00e9 efeito no que se refere \u00e0 conduta humana. Precisamos fazer a leitura correta da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica o materialismo, historicamente, foi associado ao Marxismo que tamb\u00e9m era ate\u00edsta e seguidor de Epicuro, erroneamente vinculado ao hedonismo, isto \u00e9, o culto dos prazeres. Isso reflete a leitura preconceituosa da hist\u00f3ria feita por muitos esp\u00edritas e, n\u00e3o apenas isto, resulta numa invers\u00e3o de valores. Combate-se o socialismo por ser materialista e defende-se o capitalismo pelo seu car\u00e1ter liberal, deixando de considerar que o capitalismo liberal \u00e9 o maior estimulante que existe para o ego\u00edsmo, o individualismo, a ambi\u00e7\u00e3o, as mazelas sociais e a degrada\u00e7\u00e3o da natureza. Estes sim os grandes vil\u00f5es do progresso humano.<\/p>\n<p>Que fique claro que n\u00e3o h\u00e1 aqui defesa de nenhuma ideologia de esquerda nem de direita. Esse assunto j\u00e1 foi abordado em artigo anterior ((<a href=\"https:\/\/www.geae.net.br\/publicacoes\/artigos-gerais\/1225-as-utopias-nao-morrem\">https:\/\/geae.net.br\/publicacoes\/artigos-gerais\/1225-as-utopias-nao-morrem<\/a>). Nem socialismo, nem capitalismo s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o para os problemas da humanidade. Somente a conscientiza\u00e7\u00e3o efetiva de que somos todos irm\u00e3os e dependentes uns dos outros \u00e9 que nos levar\u00e1 ao futuro. Socialismo imposto resultar\u00e1, como j\u00e1 ocorreu, em fracasso. O capitalismo liberal selvagem, aparente mola de progresso, nos cobrar\u00e1 alto pre\u00e7o para que, finalmente, despertemos nossa consci\u00eancia de que o progresso da sociedade requer a fraternidade e a liberdade respons\u00e1vel dentro de um ambiente de coopera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de competi\u00e7\u00e3o selvagem. Kardec parece ter previsto isso. Veja seus coment\u00e1rios acima, relativos aos excessos materialistas combatendo at\u00e9 o positivismo de Comte. A frase de Kardec cai como luva para nossa realidade atual \u2013 \u201cO materialismo (leia-se capitalismo) \u00e9 uma consequ\u00eancia da \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o em que estamos; n\u00e3o \u00e9 um progresso, longe disso, mas um instrumento de progresso\u201d<\/p>\n<p>Esp\u00edritas! F\u00e9 raciocinada! Bom senso e bons estudos!<\/p>\n<p>Nossa luta n\u00e3o \u00e9 contra o materialismo. Mas sim contra o deus Mercantilista.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #008000;\">Cesar Boschetti<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Sobre o autor:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.geae.net.br\/images\/IMAGENS\/Imagens_Escritores\/cesarBoschetti2.gif\" \/><\/p>\n<p>Cesar Boschetti: Graduado em F\u00edsica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (1978), com mestrado e doutorado na \u00e1rea de tecnologia de materiais semicondutores. Atuou como pesquisador, tecnologista e coordenador de setor de P&amp;D englobando materiais especiais, f\u00edsica de plasmas, computa\u00e7\u00e3o aplicada e combust\u00e3o do INPE &#8211; Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de 1979 a 2019 quando se aposentou.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.geae.net.br\/publicacoes\/203-artigos-gerais\/1232-a-materia-obscura-do-materialismo\">geae.net.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mat\u00e9ria obscura do materialismo Escrito por Cesar Boschetti \u201c\u00c9 de l\u00f3gica elementar que o cr\u00edtico conhe\u00e7a, n\u00e3o superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o qu\u00ea, sua opini\u00e3o n\u00e3o tem valor. 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