{"id":12761,"date":"2023-03-01T07:00:01","date_gmt":"2023-03-01T10:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=12761"},"modified":"2023-03-01T07:00:01","modified_gmt":"2023-03-01T10:00:01","slug":"agostinho-e-kardec-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/agostinho-e-kardec-i\/","title":{"rendered":"Agostinho e Kardec I"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">Agostinho e Kardec I<\/span><\/strong><\/h2>\n<p>Autor: <strong><span style=\"color: #008000;\">Humberto Schubert Coelho<\/span><\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/www.espiritismo.net\/sites\/default\/files\/artigos\/Saint_Augustine_by_Philippe_de_Champaigne.jpg\" \/><\/p>\n<p>Aur\u00e9lio Agostinho, Agostinho de Tagaste, Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho, como \u00e9 mais conhecido, foi uma das personalidades marcantes da hist\u00f3ria humana. O Cristianismo seria irreconhec\u00edvel sem a express\u00e3o de seu g\u00eanio. Cat\u00f3licos, protestantes, ortodoxos e mesmo esp\u00edritas, estes dissidentes t\u00e3o distantes de seus primos da tradi\u00e7\u00e3o, todos t\u00eam em Agostinho um guia e referencial da pureza crist\u00e3, do zelo na defesa da f\u00e9, dos cuidados com a vig\u00edlia incessante das obscuridades da alma e de um ardor po\u00e9tico no louvor a Deus<\/p>\n<p>Falar de Agostinho significa assumir diversos riscos; riscos que preferir\u00edamos evitar se n\u00e3o fosse t\u00e3o grande a necessidade de traz\u00ea-lo mais para perto de n\u00f3s. Sem medo de sermos prolixos, dividimos este artigo em tr\u00eas partes, referentes respectivamente \u00e0 vida e convers\u00e3o, \u00e0s Confiss\u00f5es e uma \u00faltima referente \u00e0 Cidade de Deus e a presen\u00e7a dele na Codifica\u00e7\u00e3o do Espiritismo. \u00c9 que Agostinho n\u00e3o nos permite um gasto menor de espa\u00e7o e esfor\u00e7o para apresenta\u00e7\u00e3o de suas ideias, nem pode seu pensamento, como o da maioria, ser separado para fins did\u00e1ticos, com o que se mataria sua ess\u00eancia rica de prop\u00f3sitos e refer\u00eancias cruzadas. Em outras palavras, s\u00f3 se compreende sua doutrina atrav\u00e9s de um contato com sua biografia.<\/p>\n<p>Agostinho era um cidad\u00e3o romano, pertencente a uma classe m\u00e9dia. Numa sociedade complexa e diversificada, sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o distava muito da dos jovens de hoje, com seus divertimentos coletivos, ca\u00e7a \u00e0s garotas e total despreocupa\u00e7\u00e3o com o futuro. Sem serem ricos, Agostinho e os seus n\u00e3o tinham preocupa\u00e7\u00f5es materiais. O pai era um ad\u00faltero assumido, e vivia conforme um homem de boa posi\u00e7\u00e3o na sociedade romana. A m\u00e3e, sendo crist\u00e3, esperava sem ressentimentos ou perturba\u00e7\u00f5es, convencida de que Deus iria converter o filho pervertido e compens\u00e1-la pelos seus desgostos ap\u00f3s a morte.<\/p>\n<p>Agostinho via no pai a for\u00e7a e a liberdade do estilo de vida romano, com sua consci\u00eancia desimpedida, e na m\u00e3e a figura dos fracos de esp\u00edrito, com sua cren\u00e7a de escravos e perdedores. Apesar disso, uma parte de si a admirava na sua resigna\u00e7\u00e3o estoica e na sua perseveran\u00e7a nos seus simpl\u00f3rios ideais.<\/p>\n<p>Aos 18 anos viu-se pai de um filho, ao qual chamava jocosamente \u201cfilho dos meus pecados\u201d. Aos 29, h\u00e1bil nas letras e na ret\u00f3rica, decidiu mudar-se para Roma, em busca de melhores vencimentos e prest\u00edgio. A m\u00e3e, receosa de que isto agravasse seus desregramentos, decidiu ir junto. Agostinho fingiu aceitar, e no dia da viagem, enganou-a, deixando-a numa capela enquanto partia \u00e0s pressas.[1] Ela, por\u00e9m, n\u00e3o desistira de resgatar a alma corrompida do filho, e anos depois o alcan\u00e7ou em Mil\u00e3o.<\/p>\n<p>Abra\u00e7ou a doutrina do manique\u00edsmo, que deixaria marcas permanentes na sua e na vis\u00e3o de muitos outros crist\u00e3os. Adorava C\u00edcero e os fil\u00f3sofos de seu tempo. N\u00e3o fazia muitos coment\u00e1rios sobre os poetas, mas a julgar pela sua pr\u00f3pria habilidade l\u00edrica deveria conhec\u00ea-los razoavelmente bem. Como retor era imbat\u00edvel.<\/p>\n<p>O problema de Agostinho com o Cristianismo era todo filos\u00f3fico. N\u00e3o admitia que aquele modelo simpl\u00f3rio de descri\u00e7\u00e3o do mundo pudesse competir com a l\u00f3gica da filosofia e o rigor das ci\u00eancias e das artes liberais. Desde sua estadia em Roma j\u00e1 n\u00e3o era mais o hedonista e c\u00ednico da adolesc\u00eancia, nem o maniqueu esot\u00e9rico da casa dos 20 anos, mas, enxergando seus erros, voltava a cair no mesmo abismo ao qual estava acostumado.<\/p>\n<p>A vida de Agostinho era tudo menos mon\u00f3tona. Convencido pela m\u00e3e, cuja f\u00e9 simples e sincera admirava, ouvia as prega\u00e7\u00f5es de santo Ambr\u00f3sio em Mil\u00e3o. A seguir fugia desses flertes com o Cristianismo para n\u00e3o despertar o deboche dos colegas da academia. Mantinha diversos credos sem poder abra\u00e7ar nenhum definitivamente.<\/p>\n<p>Enfim o encontro com o platonismo e o neoplatonismo lhe propiciaram o contato com uma filosofia que ansiava pela proximidade com a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um ambiente intelectualmente agitado, foi Paulo quem aos poucos conquistou seu esp\u00edrito. Nos textos do velho convertido Agostinho reconhecia o pecador com quem podia se identificar; o arrependido que abandonara o orgulho da ci\u00eancia do mundo e se transformara em santo.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">Will Durant nos d\u00e1 a seguinte descri\u00e7\u00e3o de suas crises psicol\u00f3gicas e de sua solu\u00e7\u00e3o:<\/span><\/em><\/p>\n<ul>\n<li>Cortejou durante algum tempo o ceticismo da academia. Era um homem de emo\u00e7\u00f5es fortes, portanto n\u00e3o demorava muito em pender por um ou por outro julgamento. Estudou Plat\u00e3o e Plotino em Roma; o neoplatonismo integrou-se profundamente em sua filosofia e, por interm\u00e9dio dele, dominou a teologia crist\u00e3 at\u00e9 o tempo de Abelardo. Tornou-se para Agostinho a porta de entrada para o Cristianismo&#8230; Certo dia, estando sentado num jardim de Mil\u00e3o com seu amigo Al\u00edpio, pareceu-lhe ouvir uma voz a repetir-lhe muitas vezes no ouvido: \u201cl\u00ea, l\u00ea\u201d Agostinho p\u00f4s-se a ler um trecho de Paulo: \u201cN\u00e3o vos entregueis a orgias e liba\u00e7\u00f5es, n\u00e3o sejais ambicioso nem estroina, n\u00e3o sejais belicoso nem invejoso; entregai-vos a Nosso Senhor Jesus Cristo e n\u00e3o procureis satisfazer os desejos carnais.\u201d Esta passagem trouxe a Agostinho uma grande transforma\u00e7\u00e3o de sentimentos e ideais; havia alguma coisa naquela f\u00e9 que era mais ardente e mais profunda que toda a l\u00f3gica da filosofia. O Cristianismo lhe surgiu dando-lhe uma satisfa\u00e7\u00e3o profundamente emotiva. Renunciando ao ceticismo de sua intelig\u00eancia, encontrou, pela primeira vez em sua vida, um est\u00edmulo moral e paz para o esp\u00edrito.[2]<\/li>\n<\/ul>\n<p>Essa \u00e9, ali\u00e1s, a hist\u00f3ria de toda a convers\u00e3o espont\u00e2nea. Um fen\u00f4meno que acontece nos rar\u00edssimos momentos em que um ser humano sente aquilo que est\u00e1 lendo de um livro sagrado.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a carreira de escritor e pregador crist\u00e3o, com um brilhantismo que em muito ofuscava sua j\u00e1 reconhecida posi\u00e7\u00e3o de professor de ret\u00f3rica. Os alunos dessa disciplina continuavam a chegar ao longo da vida de Agostinho, mas muitos se converteram ao Cristianismo atrav\u00e9s destas aulas. Poder-se-ia dizer que at\u00e9 ent\u00e3o Agostinho brilhara pelo seu agudo intelecto; agora brilhava ainda mais, atingindo fama mundial com este mesmo intelecto alimentado por um fogo divino do sentimento e da f\u00e9 exaltados.<\/p>\n<p>Caracterizou-se pela defesa mista da liberdade e da gra\u00e7a na economia da salva\u00e7\u00e3o, pelo rigor de seu ascetismo e pela for\u00e7a inflamada com que defendia o Cristianismo de seus in\u00fameros perigos reais ou imagin\u00e1rios. Refor\u00e7ou a doutrina do pecado, e de como a posi\u00e7\u00e3o do homem exigia dele a mais profunda entrega a Deus. Este \u00faltimo tra\u00e7o de manique\u00edsmo o fazia enxergar apenas preto e branco nas quest\u00f5es morais e existenciais, ignorando circunstancias e relativismos culturais ou pessoais numa apolog\u00e9tica irredut\u00edvel de um cristianismo mon\u00e1stico.<\/p>\n<p>De todas as suas disputas a mais malfadada, do ponto de vista espiritual, foi a que travou contra Pel\u00e1gio, o herege que conseguiu furar todas as proibi\u00e7\u00f5es do catolicismo e chegar aos grandes pensadores do Renascimento e do Iluminismo.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">Durant narra da seguinte maneira esta saga:<\/span><\/em><\/p>\n<ul>\n<li>Veio da Inglaterra o mais forte de seus oponentes, Pel\u00e1gio, um monge independente, o qual defendeu com veem\u00eancia a liberdade do homem e o fato de que ele podia salvar-se pela pr\u00e1tica de boas a\u00e7\u00f5es. Na verdade, diz Pel\u00e1gio, Deus nos auxilia, dando-nos Sua lei e mandamentos, o exemplo e preceitos dos santos, purificando-nos com a \u00e1gua do batismo e o sangue de Cristo. Deus n\u00e3o faz pesar a balan\u00e7a contra a nossa salva\u00e7\u00e3o ao fazer a natureza humana inerentemente m\u00e1. N\u00e3o houve pecado original, tampouco a queda do homem; somente aquele que comete o pecado \u00e9 que ser\u00e1 punido; sua culpa n\u00e3o recai nos filhos. Deus n\u00e3o predestina o homem para o c\u00e9u ou o inferno, n\u00e3o escolhe arbitrariamente aquele que ser\u00e1 condenado ou salvo; Ele deixa a n\u00f3s mesmos a faculdade de escolhermos nosso destino. A teoria de que a deprava\u00e7\u00e3o \u00e9 inata na natureza humana, disse Pel\u00e1gio, \u00e9 a maneira covarde de se atribuir a Deus a culpa pelos pecados do homem. O homem \u00e9 dotado de raz\u00e3o e, por isso, respons\u00e1vel pelos seus atos: \u201cse devo fazer uma coisa \u00e9 porque poso faz\u00ea-la.\u201d<\/li>\n<li>Pel\u00e1gio chegou a Roma por volta de 400, viveu com fam\u00edlias religiosas e granjeou a fama de ser muito virtuoso&#8230; Um s\u00ednodo realizado no Oriente julgou o monge e declarou-o ortodoxo; um s\u00ednodo africano, convocado por Agostinho, n\u00e3o aceitou esta decis\u00e3o e apelou para o papa Inoc\u00eancio I, o qual declarou Pel\u00e1gio um her\u00e9tico.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A disputa s\u00f3 foi conclu\u00edda alguns anos depois com o Conc\u00edlio de \u00c9feso, em que Pel\u00e1gio e toda a sua doutrina foram condenados para sempre. Essa marca haveria de ser transmitida do catolicismo ao protestantismo, e jamais o Cristianismo aceitaria pacificamente a salva\u00e7\u00e3o pelo esfor\u00e7o e m\u00e9rito, a inoc\u00eancia original do homem e a capacidade da raz\u00e3o de julgar o caminho mais apropriado para a f\u00e9. Gra\u00e7as a Agostinho, raz\u00e3o e f\u00e9 se desenvolveram segundo uma liga\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, mas conturbada na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, contrariamente \u00e0 perfeita acomoda\u00e7\u00e3o de que desfrutavam sob a \u00f3tica mais intelectualista do pensamento grego. Por mais que Agostinho estivesse satisfeito em abandonar sua promiscuidade e vaidade intelectual, esses que ele considerava s\u00e9rios pecados nunca produziriam tanto mal para o mundo quanto a defec\u00e7\u00e3o da salutar doutrina de Pel\u00e1gio.<\/p>\n<p>Seus erros e virtudes se misturam de tal modo que seria imposs\u00edvel, talvez, separ\u00e1-los. Um menor ardor poderia ter arrefecido em excesso a \u00edndole combativa, fonte de sua produtividade; e uma toler\u00e2ncia mais filos\u00f3fica poderia dar um ar pag\u00e3o que desmereceria seus escritos aos olhos do clero, diminuindo seu impacto. Se Agostinho errou muito no que toca a sua intransig\u00eancia, foi o esp\u00edrito necess\u00e1rio num tempo de caos, pluralidade de doutrinas esdr\u00faxulas e decad\u00eancia final da sociedade romana que desaparecia ante as mar\u00e9s b\u00e1rbaras. Um homem menos convicto provavelmente teria sido engolido pelas sombras do olvido, como ocorreu a maioria de seus opositores.<\/p>\n<p>Feita essa aprecia\u00e7\u00e3o, tem todo o crist\u00e3o a obriga\u00e7\u00e3o de votar a ele a mais sincera gratid\u00e3o pelos escritos edificantes que legou ao mundo. Nas Confiss\u00f5es, livro que imita o costume primitivo de se confessarem os crist\u00e3os uns aos outros em p\u00fablico, Agostinho deixa de lado suas in\u00fameras disputas ideol\u00f3gicas para al\u00e7ar v\u00f4os de introspec\u00e7\u00e3o. S\u00e3o esses escritos, certamente, que lhe deram a palma posterior de autoridade m\u00e1xima nos assuntos referentes ao autoconhecimento.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.espiritismo.net\/content\/agostinho-e-kardec-i\">espiritismo.net<\/a><\/p>\n<p>Bibliografia:<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">DURANT, Will. A Hist\u00f3ria da Civiliza\u00e7\u00e3o IV: A Idade da F\u00e9. Rio de Janeiro: Record, 2002.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">[1] Will DURANT. A Hist\u00f3ria da Civiliza\u00e7\u00e3o IV: A Idade da F\u00e9. Pg. 59.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">[2] Will DURANT. A Hist\u00f3ria da Civiliza\u00e7\u00e3o IV: A Idade da F\u00e9. Pg. 59.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agostinho e Kardec I Autor: Humberto Schubert Coelho Aur\u00e9lio Agostinho, Agostinho de Tagaste, Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho, como \u00e9 mais conhecido, foi uma das personalidades marcantes da hist\u00f3ria humana. 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