{"id":12874,"date":"2023-04-02T08:05:57","date_gmt":"2023-04-02T11:05:57","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=12874"},"modified":"2023-04-02T08:05:57","modified_gmt":"2023-04-02T11:05:57","slug":"tao-perto-tao-longe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/tao-perto-tao-longe\/","title":{"rendered":"T\u00e3o perto, t\u00e3o longe"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">T\u00e3o perto, t\u00e3o longe<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Wilson Garcia<\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.expedienteonline.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/fotoFerranFlickr.jpg?resize=300%2C204\" alt=\"fotoFerranFlickr\" \/><\/p>\n<p>O poeta falava ao jornalista sobre seu assunto mais \u00edntimo: a poesia. Tornara-se a pouco imortal, quase ao mesmo tempo em que a mat\u00e9ria fr\u00e1gil lhe anunciara seus oitenta anos de perfeita destrutibilidade. O jornalista matreiro e experiente esquenta a conversa lhe recordando: voc\u00ea n\u00e3o acredita em nada al\u00e9m da vida, n\u00e3o \u00e9? Sorrindo um riso quase natural, espont\u00e2neo, o poeta rec\u00e9m-empossado na Academia Brasileira de Letras reflete brevemente e confirma: n\u00e3o, n\u00e3o acredito; at\u00e9 gostaria de crer, dizem que \u00e9 melhor acreditar do que n\u00e3o acreditar, mas eu n\u00e3o consigo mesmo. Aqui se aplica bem a frase de Vinicius: \u201cque seja imortal enquanto dure\u201d.<\/p>\n<p>Alguns minutos antes, o poeta revelara o seu processo de composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e deixara no ar uma interroga\u00e7\u00e3o a respeito das ideias, dos temas e mesmo das motiva\u00e7\u00f5es para compor suas consagradas obras. Tudo vinha simplesmente, sem planejamento pr\u00e9vio. Eu n\u00e3o planejei a minha vida, nada, tudo veio naturalmente, diz. O jornalista contrap\u00f5e, ent\u00e3o: mas a inspira\u00e7\u00e3o depende muito da transpira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Sim, afirma o poeta, mas eu n\u00e3o fa\u00e7o muito esfor\u00e7o, n\u00e3o. Claro, cabe a mim dar o tom, o estilo, apurar, trabalhar o texto. As coisas chegam e acho que esse \u00e9 o caso, porque a pessoa n\u00e3o \u00e9 poeta, escritor etc., se n\u00e3o nasceu com o dom. N\u00e3o adianta querer ser uma coisa se o dom n\u00e3o est\u00e1 presente, se ele n\u00e3o nasceu com aquilo. O poeta fala de algo que para ele est\u00e1 no DNA, com a certeza de todas as certezas, porque \u00e9 isso que o alimenta, \u00e9 nisso que acredita.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 um ser limite. N\u00e3o digo limitado, apenas, mas digo que vive na fronteira da vida e da morte, do esp\u00edrito e da mat\u00e9ria e de forma geral n\u00e3o tem a percep\u00e7\u00e3o clara disso. Est\u00e1 sempre esbarrando num e noutro lado da fronteira, muito pr\u00f3ximo do crer e do crer, quase a descobrir o que um e outro lado apresenta, sem, contudo, ultrapassar a linha t\u00eanue que separa a mat\u00e9ria do esp\u00edrito. Ele n\u00e3o \u00e9 nem completamente um corpo, nem completamente um esp\u00edrito. Isso vale tanto para o homem material, feito o poeta a crer no fim, na extin\u00e7\u00e3o total da vida ou t\u00e9rmino do ciclo, como vale tamb\u00e9m para o homem espiritual, que cr\u00ea na continuidade, no depois, mas est\u00e1 sempre esbarrando nas d\u00favidas da vida material.<\/p>\n<p>N\u00e3o me agrada a ideia da exist\u00eancia de algu\u00e9m que n\u00e3o cr\u00ea; penso que o ser humano \u00e9 aquele que cr\u00ea sempre em alguma coisa e por crer, age, sonha, pensa, descortina. O poeta que revela sua incapacidade de crer em algo ap\u00f3s a morte, na verdade cr\u00ea na inutilidade da vida, na sua finitude total. Cr\u00ea na imortalidade apenas da dura\u00e7\u00e3o, daquilo que \u00e9 v\u00e1lido viver, mas sem a perspectiva da repeti\u00e7\u00e3o, do renascimento ou da perman\u00eancia para al\u00e9m do limite da vida material. O futuro nele est\u00e1 sempre pressionado pela morte e s\u00f3 \u00e9 v\u00e1lido pensar neste futuro at\u00e9 o horizonte pr\u00f3ximo, ap\u00f3s o qual n\u00e3o h\u00e1 nada mais.<\/p>\n<p>Algo n\u00e3o muito diferente se passa com o homem espiritualista, que acredita na continuidade e no retorno, mas vive pressionado pelos conflitos do viver no corpo e anseia sempre colocar os p\u00e9s no outro lado da fronteira, antes mesmo de completar a experi\u00eancia do pr\u00f3prio corpo. Sua d\u00favida maior est\u00e1 em como viver na mat\u00e9ria sem perder a ess\u00eancia do esp\u00edrito, o que o coloca na condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o viver completamente nem a perspectiva do esp\u00edrito nem a do corpo.<\/p>\n<p>Nessa fronteira-limite os dois se esbarram sem perceber, e esbarram permanentemente, porque o homem de Herculano n\u00e3o \u00e9 o homem-corpo, mas o homem-esp\u00edrito, apesar de seus quereres e de suas nega\u00e7\u00f5es. A inspira\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 uma realidade, mas parte consider\u00e1vel de sua origem, de sua fonte \u2013 esta rela\u00e7\u00e3o comunicativa misteriosa, a envolver os de c\u00e1 e os de l\u00e1 \u2013 para o poeta-corpo s\u00f3 alcan\u00e7a quem nasceu com o dom de ser poeta, escritor, dramaturgo, mas, na verdade, alcan\u00e7a a todos, em todas as \u00e1reas, onde a cria\u00e7\u00e3o esteja sendo exercida por qualquer forma de arte, ou onde a vida humana consome-se no existente.<\/p>\n<p>Dois humanos vivem na inspira\u00e7\u00e3o, da inspira\u00e7\u00e3o, com a inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o penso apenas em dois humanos distantes, um aqui, outro al\u00e9m; penso, tamb\u00e9m, em dois humanos vis\u00edveis, t\u00e1teis, que est\u00e3o ou n\u00e3o lado a lado, mas que habitam o mundo do pensamento e n\u00e3o apenas o do DNA. Porque o seu amigo do lado, que o abra\u00e7a e d\u00e1 bom dia \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o; porque o seu olhar capta as imagens da tristeza, sem perceber que for\u00e7as o movem para que se dirija para o lado onde a tristeza se derrama. A sua inspira\u00e7\u00e3o o leva a criar e a cria\u00e7\u00e3o o faz transformar a tristeza em possibilidade de alegria, sonhos, desejos, esperan\u00e7as. Voc\u00ea vive ali, naquela fronteira-limite, t\u00e3o perto e t\u00e3o longe; perto demais para perceber; longe demais para se apropriar. A mat\u00e9ria e o esp\u00edrito escorregam entre nossos dedos, no l\u00edquido fluido das ideias: vivemos no corpo buscando o imaterial, ou vivemos no imaterial desejando o corpo. O conflito \u00e9 a nossa inconst\u00e2ncia di\u00e1ria. N\u00e3o sabemos ainda, n\u00e3o encontramos a seguran\u00e7a do corpo que abra\u00e7a o esp\u00edrito, nem do esp\u00edrito que abra\u00e7a o corpo. A fronteira-limite \u00e9 ainda o nosso mist\u00e9rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #008000;\">Wilson Garcia<\/span><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.expedienteonline.com.br\/tao-perto-tao-longe\/\">Blog do Garcia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o perto, t\u00e3o longe Wilson Garcia O poeta falava ao jornalista sobre seu assunto mais \u00edntimo: a poesia. Tornara-se a pouco imortal, quase ao mesmo tempo em que a mat\u00e9ria fr\u00e1gil lhe anunciara seus oitenta anos de perfeita destrutibilidade. O &hellip; <a href=\"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/tao-perto-tao-longe\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"aside","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,1,23,16,27,19],"tags":[],"class_list":["post-12874","post","type-post","status-publish","format-aside","hentry","category-a-familia","category-artigos","category-ciencia","category-espiritismo","category-sociedade","category-transicao","post_format-post-format-aside"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12874"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12874\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12875,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12874\/revisions\/12875"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}