{"id":13005,"date":"2023-05-13T10:13:47","date_gmt":"2023-05-13T13:13:47","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=13005"},"modified":"2023-05-13T10:13:47","modified_gmt":"2023-05-13T13:13:47","slug":"o-erro-de-nietzsche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/o-erro-de-nietzsche\/","title":{"rendered":"O erro de Nietzsche"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">O erro de Nietzsche<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><em><span style=\"color: #008000;\">Humberto Schubert Coelho<\/span><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/www.espiritismo.net\/sites\/default\/files\/artigos\/54677145_605.jpg\" \/><\/p>\n<p>Um dos problemas capitais enfrentados pela filosofia hodierna \u00e9 o de definir sua pr\u00f3pria fase de exist\u00eancia. Afinal, o que significam as divis\u00f5es em filosofia moderna e contempor\u00e2nea, tal como se no-las apresentam no quadro did\u00e1tico do magist\u00e9rio? Seria a filosofia contempor\u00e2nea marcada pela p\u00f3s-metaf\u00edsica, ou p\u00f3s-modernidade; mas nesse caso, o que exatamente resta de filos\u00f3fico na filosofia, se ela assumidamente renuncia ao esfor\u00e7o de remontar \u00e0s causas \u00faltimas e sintetizar o real numa f\u00f3rmula compreens\u00edvel?<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o prec\u00e1ria a divis\u00e3o da filosofia em etapas que os especialistas discutem ainda seriamente onde come\u00e7a e termina a Era Moderna. Certamente a Modernidade cultural se inicia no s\u00e9culo XVII com Bruno, Descartes, Bacon, Galileu, Cop\u00e9rnico (a recep\u00e7\u00e3o dele, pois a pessoa viveu antes) e Kepler, ou melhor dizendo, com a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, que acompanhou tamb\u00e9m o processo est\u00e9tico-cultural de forma\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas nacionais. Bem mais dif\u00edcil \u00e9 saber se a filosofia acompanhou imediatamente esta revolu\u00e7\u00e3o, ou se, como pensam alguns, permaneceu escol\u00e1stica e subordinada \u00e0 teologia at\u00e9 Hume e Kant, mais de um s\u00e9culo depois. E isto \u00e9 essencial para definir de quem a filosofia contempor\u00e2nea quer se diferenciar.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o mais ortodoxa a modernidade filos\u00f3fica se enquadra entre Descartes e Hegel, aproximadamente, per\u00edodo marcado pela metaf\u00edsica da subjetividade. Cum grano salis, os pensadores deste per\u00edodo compartilham o ponto de vista subjetivo da fundamenta\u00e7\u00e3o do saber e do ser, terminando por identificar a ambos. A partir do positivismo, do marxismo, da psican\u00e1lise e, com mais propriedade filos\u00f3fica e profundidade, de Nietzsche, inicia-se o processo de cr\u00edtica antropol\u00f3gica da metaf\u00edsica moderna, substituindo-se as certezas metaf\u00edsicas por explica\u00e7\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, lingu\u00edsticas, psicol\u00f3gicas, etc. Se com Comte e Marx a filosofia foi \u201csubstitu\u00edda\u201d pela \u201cci\u00eancia\u201d social &#8211; ou, mais corretamente, um primeiro esbo\u00e7o dela -, ocorrendo o mesmo em rela\u00e7\u00e3o a Freud, com Nietzsche vemos a implos\u00e3o da filosofia a partir de sua pr\u00f3pria autoan\u00e1lise, ainda que com forte comprometimento do reducionismo antropol\u00f3gico. Nietzsche decretou o erro de Descartes como sendo a absolutiza\u00e7\u00e3o do sujeito em uma forma pura, imaterial, e extramundana, e a metaf\u00edsica que se lhe seguiu nada mais seria do que uma insist\u00eancia nessa eleva\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica da subjetividade ao estado divino, puro.<\/p>\n<p>Tal diagn\u00f3stico se cercou n\u00e3o apenas de toda a vasta cr\u00edtica antropol\u00f3gica dispon\u00edvel, como da an\u00e1lise do pr\u00f3prio Nietzsche sobre os processos de abafamento cultural empreendidos pela tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Com sua invulgar erudi\u00e7\u00e3o, Nietzsche discerniu perfeitamente os movimentos da arte, da religi\u00e3o e da ci\u00eancia na Antiguidade cl\u00e1ssica e em sua muta\u00e7\u00e3o no ideal asc\u00e9tico est\u00f3ico-crist\u00e3o, vendo nisso um processo de decad\u00eancia, o que n\u00e3o \u00e9 de todo incorreto.<\/p>\n<p>Nesse particular a afirma\u00e7\u00e3o cartesiana de um purismo da subjetividade soou-lhe como retrocesso ou continua\u00e7\u00e3o acr\u00edtica do pensar medieval, pelo que a condenou duramente. Nietzsche viu em Descartes a desumana separa\u00e7\u00e3o entre esp\u00edrito e corpo, entre intelecto e vida, entre sujeito e mundo, reivindicando um retorno \u00e0 vitalidade de uma filosofia comprometida com esta exist\u00eancia, a concreta. Segundo o c\u00e9lebre teocida, ao contr\u00e1rio de uma alma matem\u00e1tica, puramente abstrata e em oposi\u00e7\u00e3o ao corpo, era preciso resgatar o ideal heroico grego de uma alma dotada de paix\u00f5es, de puls\u00f5es vitais, de amor pelo corpo e pelo mundo. O esp\u00edrito para Nietzsche \u00e9 o regulador da sa\u00fade humana, a sensibilidade absolutamente encarnada que frui ao m\u00e1ximo a dor e a alegria, a beleza e a trag\u00e9dia da exist\u00eancia. Por isso mata ele o Deus arquiteto, o puro intelecto, em prol de um retorno dos deuses gregos da m\u00fasica e da dan\u00e7a, do sorriso e da l\u00e1grima, deuses, enfim, que afirmem a vida humana, ao inv\u00e9s de a negar.<\/p>\n<p>A bel\u00edssima contribui\u00e7\u00e3o de Nietzsche \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o dos erros do cristianismo cultural convive, entretanto, com um erro capital, a saber, o de malbaratar a compreens\u00e3o correta da subjetividade cartesiana e, por consequ\u00eancia, de toda a metaf\u00edsica moderna. Enquanto Nietzsche e seus parceiros, os soci\u00f3logos e psic\u00f3logos reducionistas, viam na metaf\u00edsica da subjetividade um mero rearranjo das concep\u00e7\u00f5es escol\u00e1sticas e plat\u00f4nicas, a cr\u00edtica mais moderna resgata j\u00e1 em Plat\u00e3o e especialmente na metaf\u00edsica moderna o sentido preciso da subjetividade, n\u00e3o como elemento isolado, mas regi\u00e3o distanciada ou profunda da vida mental.<\/p>\n<p>O que incomodava aos cr\u00edticos do s\u00e9culo XIX e XX era naturalmente a concep\u00e7\u00e3o de imortalidade da alma e a sua oposi\u00e7\u00e3o ao corpo, bem como a consequ\u00eancia \u00e9tica de que a vida n\u00e3o se justificava na exist\u00eancia atual, mas somente em refer\u00eancia a uma outra. Ora, os soci\u00f3logos queriam esgotar o drama da exist\u00eancia na realidade socioecon\u00f4mica atual, o mesmo valendo para a psicologia em seu campo de a\u00e7\u00e3o. O que a nova vis\u00e3o da metaf\u00edsica demonstra, no entanto, \u00e9 que esse medo materialista n\u00e3o tem raz\u00e3o de ser diante da vis\u00e3o mais completa e acabada da subjetividade, vis\u00e3o esta que estava impl\u00edcita em toda a tradi\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a na imortalidade da alma, ou sua defesa racional, n\u00e3o \u00e9 mais do que um momento secund\u00e1rio da percep\u00e7\u00e3o compartilhada pelo materialismo de que h\u00e1 uma esfera subjetiva irredut\u00edvel aos processos explicativos da realidade material. O que mesmo o naturalismo mais duro dos dias de hoje admite, uma \u201ccerta dificuldade\u201d de reduzir o subjetivo ao fisiol\u00f3gico, \u00e9 a atesta\u00e7\u00e3o emp\u00edrica de que h\u00e1 uma duplicidade ontol\u00f3gica radical, talvez intranspon\u00edvel. \u00c9 com base nessa percep\u00e7\u00e3o universal que metaf\u00edsicos desde Pit\u00e1goras afirmaram a possibilidade, quando n\u00e3o a certeza da imortalidade, j\u00e1 que a constitui\u00e7\u00e3o da subjetividade \u00e9, aos olhos de todos, distinta da constitui\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria e puramente formal da mat\u00e9ria. Uma vez que o sujeito n\u00e3o est\u00e1 sujeito \u00e0 causalidade mec\u00e2nica, identificando intuitivamente em si o livre-arb\u00edtrio, n\u00e3o tem o seu ser determinado pela sua forma, sentindo-se essencialmente como sens\u00edvel, intencional e referencial, conclui-se t\u00e3o somente quanto a sua n\u00e3o sujei\u00e7\u00e3o \u00e0s regras do corpo, como o ser perec\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas enquanto esta conclus\u00e3o tem for\u00e7a de prova para o racionalismo, de diversos tipos, \u00e9 bem verdade que isto n\u00e3o basta para concluir favoravelmente a sua exist\u00eancia de fato. Nisso religiosos e materialistas est\u00e3o errados. H\u00e1 um argumento racional e imbat\u00edvel em favor da exist\u00eancia da alma, e isto t\u00eam de reconhecer os materialistas, mas esse argumento pode ser puramente v\u00e1lido no \u00e2mbito especulativo, sem que se constate sua vig\u00eancia na realidade, e isto t\u00eam de reconhecer os religiosos.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o ortodoxa da religi\u00e3o foi pressupor, pela f\u00e9, um bom Deus que garante o acerto de nossos ju\u00edzos. A solu\u00e7\u00e3o esp\u00edrita foi buscar uma base emp\u00edrica para a sugest\u00e3o puramente especulativa de imortalidade. Em ambos os casos o materialista pode reagir: negando-se a depositar f\u00e9 no bom Deus, ou questionando a for\u00e7a das evid\u00eancias emp\u00edricas apresentadas pelo Espiritismo e pela pesquisa ps\u00edquica em geral.<\/p>\n<p>O que o materialista n\u00e3o pode fazer, contudo, \u00e9 confundir o recurso do religioso ao argumento de f\u00e9 ou a uma convic\u00e7\u00e3o emp\u00edrica na veracidade do argumento da imortalidade com uma cren\u00e7a ing\u00eanua e\/ou psicol\u00f3gica na sua imortalidade pessoal. Foi precisamente o que Nietzsche fez em rela\u00e7\u00e3o a Descartes. Tal como Marx, Freud e outros pensadores antropol\u00f3gicos, reduziu o argumento filos\u00f3fico \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica externa, depositando n\u00e3o apenas a raz\u00e3o do dualismo cartesiano em motivos culturais e psicol\u00f3gicos, como ignorando a fonte emp\u00edrica, inteiramente n\u00e3o cultural e n\u00e3o psicol\u00f3gica da dupla constitui\u00e7\u00e3o do ser.<\/p>\n<p>(Publicado em 05\/mai\/2023)<\/p>\n<p>Autor: <em><span style=\"color: #008000;\">Humberto Schubert Coelho<\/span><\/em><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.espiritismo.net\/content\/o-erro-de-nietzsche\">espiritismo.net<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O erro de Nietzsche Humberto Schubert Coelho Um dos problemas capitais enfrentados pela filosofia hodierna \u00e9 o de definir sua pr\u00f3pria fase de exist\u00eancia. 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