{"id":13100,"date":"2023-06-13T10:13:29","date_gmt":"2023-06-13T13:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=13100"},"modified":"2023-06-13T10:16:19","modified_gmt":"2023-06-13T13:16:19","slug":"espiritismo-na-matta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/espiritismo-na-matta\/","title":{"rendered":"Espiritismo na Matta"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #0000ff;\">Espiritismo na Matta<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgYBHe-eq9roK7y8gH0_fISiSoALw6f2CzzMFpMDZPn_S3BjYp7Pzxg4tYUq8ScvH8jNtJJm2q7eWklskhlQFoSJNKmHHus8vIUUEtA-_L_X2pCU1fjHIAZa-ssNR8qGvSyMH-vpzAZc4qllrbHk2Qsqv7qIwmpYafyWmDb6jJ3XuvNZyjga31nPYMOfw\/w400-h235\/artigo%20O%20Espiritismo%20na%20Matta%20Leonardo%20Rodrigues.jpeg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Espiritismo na Matta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por Leonardo Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Do que me chamaram, mudou quem fui?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Do que me chamarem, mudar\u00e1 quem sou?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Espiritismo? Esp\u00edrita? Chamem do que quiser!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Mas por favor, olhem pra ess\u00eancia!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Ana L\u00facia<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Era uma quinta-feira, de 5 de janeiro de 2023, v\u00e9spera em que a igreja cat\u00f3lica comemora o Dia de Reis, ou Festa de Santos Reis, em refer\u00eancia aos magos que visitaram o menino Yeshua, para reverenciar sua vinda, sua apari\u00e7\u00e3o neste mundo,\u00a0no entanto, a palavra rei, ou reis, n\u00e3o consta em nenhum dos evangelhos. O termo usado \u00e9 simplesmente magos, que vieram, diz o evangelista Mateus, do oriente, trazendo para o menino e seus pais, entre outras coisas, ervas para incenso.<\/p>\n<p>Pouco sabemos sobre esses magos e que magias praticavam. Sabemos que as magias, e entre elas o uso de incensos, utilizados por certas pessoas, especialmente por um tipo de mulher, seria proibida com pena de morte, por homens, que s\u00e9culos depois daqueles dias, diziam-se seguidores do mesmo menino, nascido, nas cercanias\u00a0de\u00a0Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Naquela festa, no distrito de Mata Velha, pertencente a Dom Pedro, no Maranh\u00e3o, na antiga regi\u00e3o da<strong>\u00a0Matta<\/strong>, encontrei um padre, ou melhor, um bispo concluindo o seu ritual celebrativo. O p\u00fablico era variado, uma cena linda de se ver, algumas senhoras e meninas usavam turbantes e homens com faixas de panos na cabe\u00e7a, muitos de p\u00e9s descal\u00e7os e outras com crian\u00e7as para serem batizadas, tornadas crist\u00e3s na tradi\u00e7\u00e3o dos que ali estavam e do homem vestido em panos longos, e com a mesa cheia de aparatos, como \u00f3leos, \u00e1gua benta. O rito que era realizado no meio da rua, com pouca ilumina\u00e7\u00e3o e na frente de uma casa que continha a inscri\u00e7\u00e3o: \u00a0<em>Tenda Santa B\u00e1rbara<\/em>. Laise, uma amiga, integrante do Centro Esp\u00edrita Jesus de Nazar\u00e9, que foi conhecer aquela experi\u00eancia, tira a foto e manda por watsapp para a companheira Zelina, que tinha ficado na cidade e me mostra sorrindo a sua resposta, que questiona: \u201cMas voc\u00eas n\u00e3o tinham ido pra uma festa de terreiro? E esse padre?\u201d.<\/p>\n<p>O padre, a mais de uma d\u00e9cada celebra a missa naquele festejo, \u00e9 amigo e compadre de M\u00e3e Rita, uma senhora de 74 anos, que acompanhava a missa de p\u00e9s descal\u00e7os, usando uma linda saia verde de seda e uma blusa branca, com um len\u00e7o na cabe\u00e7a, rezando e seguindo todo o rito do sacerdote presente. \u00c9 ela (ou\u00a0Tereza L\u00e9gua), que ao fim da celebra\u00e7\u00e3o, entra na tenda, enfeitada com fitas e \u00a0santos cat\u00f3licos, pouqu\u00edssimas cadeiras para sentar, ch\u00e3o de cimento queimado, uma janela para mirar uma lua, que naquela noite era cheia, e alumiava o tambor feito de oco de Pau D\u00b4arco e couro de boi, sendo esquentado na fogueira. Essa senhora de voz firme, pega o microfone e brada:\u00a0<em>Vai come\u00e7ar o Espiritismo<\/em>! Os amigos do Centro Esp\u00edrita Jesus de Nazar\u00e9, de Dom Pedro, se entreolham, eu provoco, claro! Onde estamos? Que Espiritismo \u00e9 esse? Sorrimos todos!<\/p>\n<p>Quem interromperia aquela for\u00e7a, vinda das matas, herdeira dos africanos escravizados, que ali fora em quantidade maior que todo o pa\u00eds, para lhe desmentir a qualifica\u00e7\u00e3o de espiritismo o que ia acontecer?<\/p>\n<p>Ali, na Tenda Santa Barbara, estavam presentes outras representa\u00e7\u00f5es de terreiros, em sua maioria mulheres, m\u00e3es de santo e seus filhos iniciados e em processo de inicia\u00e7\u00e3o. Funcionava o encontro como um semin\u00e1rio, onde cada uma levava a sua comunidade, esp\u00e9cie de confer\u00eancia aberta dentro da mata onde tudo era relacional, e os encantados, incorporados, tamb\u00e9m conversam entre si e com os dan\u00e7antes, tanto quanto com os visitantes, que podem pedir um dedinho de prosa com a entidade: \u201c Quando meu guia incorporar, voc\u00ea pode conversar melhor com ele, e ele vai te explicar tudo o que est\u00e1 acontecendo aqui\u201d, me disse uma das m\u00e3es de santo, conversando comigo na cal\u00e7ada, antes de entrar no sal\u00e3o. \u00c9 uma acessibilidade de dois tipos, ao portador da mediunidade, e ao guia espiritual. Penso na acessibilidade no outro contexto, quando fui para um congresso esp\u00edrita e vi o medianeiro e conferencista cercado de prote\u00e7\u00e3o, leio a atitude, posso estar equivocado, como um esquema de coloc\u00e1-lo distante e de preservar uma aura de ser extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Observando as dan\u00e7as circulares, um amigo questiona:<strong>\u00a0<\/strong>Pra que dan\u00e7ar? N\u00e3o entendo o sentido disso!<\/p>\n<p>Rumi poderia responder:\u00a0<strong>\u201c<\/strong>O amor eleva aos c\u00e9us nossos corpos terrenos, e faz at\u00e9 os montes dan\u00e7arem de alegria!\u201d. Acostumados a mesas postas em destaque para que um tipo de autoridade, cadeiras enfileiradas, privando a rela\u00e7\u00e3o, estranha-se quando desaparece o palco e a mesa, e acrescenta-se tambor, dan\u00e7as, gente pobre e negra como protagonistas do processo. E se isso for chamado de espiritismo, talvez fique ainda mais estranho. Por ser diferente as formas de fazer, tamb\u00e9m de acolher, ser\u00e1 menos espiritismo?<\/p>\n<p>Allan Kardec, confesso a voc\u00eas que naquela noite, em estado de ora\u00e7\u00e3o, o convidei para ir na Mata Velha, ver tudo o que acontecia ali, traz um conceito de espiritismo muito interessante:<\/p>\n<p><em>\u201cTanto a hist\u00f3ria sagrada quanto a profana provam a\u00a0<\/em><strong><em>antiguidade e a universalidade<\/em><\/strong><em>\u00a0dessa cren\u00e7a, que se perpetuou atrav\u00e9s de todas as vicissitudes por que tem passado o mundo, e se mostra, entre os mais\u00a0<\/em><strong><em>selvagens povos<\/em><\/strong><em>, no estado de ideias inatas e intuitivas, e t\u00e3o gravadas no pensamento como a do Ente supremo e a da exist\u00eancia futura.\u00a0<\/em><strong><em>O Espiritismo, pois, n\u00e3o \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o moderna<\/em><\/strong><em>; tudo prova que os\u00a0<\/em><strong><em>antigos o conheciam t\u00e3o bem, ou talvez melhor que n\u00f3s<\/em><\/strong><em>\u201d. \u00a0\u00a0<\/em>( KARDEC, 2013 P.66)<\/p>\n<p>Tr\u00eas palavras me chamam a aten\u00e7\u00e3o, quatro na verdade, mas vamos come\u00e7ar por essas tr\u00eas:\u00a0<strong>antiguidade<\/strong>,\u00a0<strong>universalidade<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>moderna<\/strong>. De que antiguidade estava ele falando. Qual o alcance dessa antiguidade, a idade antiga, que pode ser entendida entre uns 4.000 anos antes de Cristo? Esse tempo pode estar ligado \u00e0s pr\u00e1ticas de comunicabilidade com os esp\u00edritos, como vai nos informar Leon Denis\u00a0na sua obra Depois da Morte, ocorridas na \u00cdndia, Egito, Gr\u00e9cia, G\u00e1lia, como podemos verificar em suas palavras:\u00a0<em>Os druidas comunicavam-se com o mundo Invis\u00edvel; mil testemunhas o atestam. Nos recintos de pedra evocavam os mortos. As druidesas e os bardos proferiam or\u00e1culos (&#8230;) A\u00a0<\/em><strong><em>ci\u00eancia<\/em><\/strong><em>\u00a0do mundo invis\u00edvel constitu\u00eda um dos ramos mais importantes &#8211; do ensino reservado. Por ela se havia sabido deduzir, do conjunto dos fen\u00f4menos, a lei das rela\u00e7\u00f5es que unem o mundo terrestre ao mundo dos Esp\u00edritos<\/em>;<\/p>\n<p>Antiguidade pode tamb\u00e9m referir-se as \u00a0comunidades crist\u00e3s, como escreve Artur Conan Doyle:\u00a0<em>A primitiva igreja crist\u00e3 viveu\u00a0<\/em><strong><em>saturada de Espiritismo<\/em><\/strong><em>\u00a0e n\u00e3o parece que tenha atendido \u00e0s proibi\u00e7\u00f5es do Velho Testamento, as quais objetivavam reservar esses poderes para uso e proveito do clero<\/em>.<\/p>\n<p>O outro termo, o moderno, foi usado por boa parte de investigadores do s\u00e9culo XIX, para designar o conjunto das manifesta\u00e7\u00f5es, e comunicabilidade com os\u00a0Esp\u00edritos.\u00a0\u201cModerno Espiritualismo\u201d \u00e9 a terminologia que vamos encontrar em v\u00e1rios livros daquele tempo. Mas, na publica\u00e7\u00e3o de O Livro dos Esp\u00edritos em 1857, Kardec argumenta que o termo espiritualismo seria muito gen\u00e9rico e prop\u00f4s chamar de Espiritismo, ciente de que para coisas novas, como ele dizia, precis\u00e1vamos de termos novos. Dois anos depois, na obra O Que \u00e9 o Espiritismo, Kardec reconhece que n\u00e3o se tratava de coisa nova, moderna, mas de coisa antiga e universal. Ou seja, n\u00e3o pertencia ao dom\u00ednio de uma cultura e de um tempo, e cada povo o vivenciou conforme seu entendimento. E que caracteriza o moderno, \u00e9 o m\u00e9todo usado para investigar os fen\u00f4menos e uma pr\u00e1tica, conforme a cultural racional cient\u00edfica do seu tempo, fortemente influenciada pelas ideias iluministas, um movimento importante para uma ruptura de um dom\u00ednio de um tipo religioso, que emperrava o livre pensamento e o desenvolvimento das ci\u00eancias, mas que n\u00e3o deixou de lan\u00e7ar preconceitos sobre outros fazeres e formas de pensar o mundo, fora de um eixo de uma criticidade eminentemente europeia, qualificando como atrasado o pensamento de outras culturas, principalmente as culturas.<\/p>\n<p>O mundo antigo nem \u00e9 sin\u00f4nimo de atraso, nem o moderno de evolu\u00eddo, temos que refletir melhor o que temos chamado de evolu\u00e7\u00e3o e se ela acontece numa linearidade de tipo cronol\u00f3gica. Uma pr\u00e1tica antiga n\u00e3o \u00e9 necessariamente um erro, nem uma pratica moderna \u00e9 necessariamente um acerto. N\u00e3o\u00a0devemos\u00a0pautar uma pr\u00e1tica como verdadeira ou falsa, baseada na sua antiguidade e nem t\u00e3o pouco na sua localidade, seja ela a cidade, ou a\u00a0<strong>selva,<\/strong>\u00a0a quarta palavra que eu queria trazer, para irmos concluindo essas provoca\u00e7\u00f5es. A cidade por apresentar um aparato de constru\u00e7\u00f5es diferenciadas, e interven\u00e7\u00f5es que pudessem \u201cmelhorar\u201d as condi\u00e7\u00f5es de vida dos seus habitantes, com facilidades no deslocamento, na comunicabilidade entre as pessoas, foi chamada de evolu\u00edda, e a selva ficou como sin\u00f4nimo de atraso. Apenas hoje, vamos percebendo as tecnologias selvagens, como as das \u00e1rvores, que podem sinalizar o seu estado de sa\u00fade e adoecimento, para uma outra \u00e1rvore que se encontra a mais de 5 mil quil\u00f4metros do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Chamamos de colonialismo, n\u00e3o s\u00f3 o processo de invas\u00e3o da Europa sobre outros continentes, n\u00e3o para desenvolver, mas para explorar e se apropriar de riquezas naturais dos continentes africanos e pindor\u00e2micos\u00a0, mas tamb\u00e9m a sua imposi\u00e7\u00e3o de cren\u00e7a e cultura, sufocando e exterminando os saberes dos povos colonizados. Uma das estrat\u00e9gias do posseiro colonizador era dar nome \u00e0s coisas j\u00e1 nomeada, apagar a l\u00edngua local e implementar a sua, e apenas a sua. Como j\u00e1 nascemos sobre o imp\u00e9rio colonial, n\u00e3o percebemos que estamos colonizados de diferentes modos, achamos natural chamar essa terra de Brasil, quando em alguns lugares em tupi se chamava Pindorama, a terra das palmeiras (nome de um clube recreativo em Dom Pedro, que nunca soube o sentido e de onde vinha), chamamos genericamente de \u00edndios, povos que possuem seus nomes pr\u00f3prios, como Anac\u00e9, Kanind\u00e9, Tapeba, Gujajara, Yanomame. Se diz que a l\u00edngua oficial do Brasil \u00e9 o portugu\u00eas, e \u00e9 porque foi imposto, embora se fale mais de trezentos idiomas em Pindorama.<\/p>\n<p>Esse processo foi t\u00e3o danoso \u00e0s nossas vidas, com um tipo de pensar unilateral, de uma verdade \u00fanica, e de um poder que se imp\u00f5e sobre outros saberes e culturas, que vamos encontrar uma grande dificuldade na comunidade dita Esp\u00edrita Kardecista em aceitar que os termos Espiritismo e Esp\u00edrita, sejam adotados fora de um tipo de pr\u00e1tica convencional e pertencente a determinadas institui\u00e7\u00f5es formais denominadas centros esp\u00edritas. E dizendo isso, n\u00e3o quero carimbar as pr\u00e1tica de outras tradi\u00e7\u00f5es, e com esse carimbo impor um tipo de entendimento, \u00e9 saber a relev\u00e2ncia de um conceito de tipo sint\u00e9tico, que pode expressar a ess\u00eancia de uma coisa, embora possa ela manifestar-se diferente. \u00c9 quando a coisa tem natureza pr\u00f3pria, e sem dono e da\u00ed\u00a0podemos chamar com nomes diferentes, ou com nomes iguais, sem que isso tire a natureza da coisa em si mesma.<\/p>\n<p>A quem pertence o poder de nomear? \u00a0Ser\u00e1 poss\u00edvel um tipo de autoridade legitimada para dar nomes \u00e0s coisas materiais e imateriais? Que poder autoriza Hypolite L\u00e9on Denizard a chamar as tradi\u00e7\u00f5es de M\u00e3e Rita de Espiritismo, herdeira da ancestralidade afro-pindor\u00e2mica e, ao mesmo tempo, a desautoriza a reconhecer a sua pr\u00e1tica como Esp\u00edrita?<\/p>\n<p>A senhora da mata, a guardi\u00e3 da pr\u00e1tica median\u00edmica, herdeira daquela luta de que o pr\u00f3prio Kardec falou, resistiu bravamente \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es e apagamentos, est\u00e1 investida de autoridade de aceitar ou n\u00e3o o nome que se lhe d\u00e1, o termo novo, para sua pr\u00e1tica antiga e o seu reconhecimento revela que a sua compreens\u00e3o \u00e9 sint\u00e9tica e remete a ess\u00eancia esp\u00edrita. Se a ado\u00e7\u00e3o do nome, \u00e9 um processo de tipo sint\u00e9tico, e n\u00e3o colonizado, se parte do olhar do estranhado e perseguido e n\u00e3o da imposi\u00e7\u00e3o do colonizador, dever\u00edamos antes nos alegrar com tal nomina\u00e7\u00e3o, que pode igualmente ser um convite para um dialogo intermundos.<\/p>\n<p>Mas para tanto, precisamos superar o espanto. Se a m\u00fasica de Sebastian Bach, que tocou em missas nas igrejas da Alemanha, no s\u00e9culo XVIII \u00a0\u00e9 reproduzida nos centros esp\u00edritas, parece tudo bem, todos fecham os olhos e se recolhem. Os corpos, se aconchegam nas cadeiras, em movimentos suaves, mas em movimentos. Mas se for Maria dos Anjos, uma negra, que tamb\u00e9m canta com voz melodiosa e abre os trabalhos na tenda, acompanhada de tambores, que remete \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es da \u00c1frica e dos povos de Pindorama, e os corpos tamb\u00e9m se movimentam, em movimentos outros, que estranho!<\/p>\n<p>O que chamamos de estranhamento tamb\u00e9m podemos chamar de preconceito e em alguns momentos mais graves, qualifica-lo de racismo. Formamos o nosso olhar baseado em heran\u00e7as diferentes e entre elas est\u00e1 aquele de tipo colonial de que falamos, em que o saber \u00e9 a verdade de tipo \u00fanica e que deve se sobrepor \u00e0 outras verdades, e o movimento esp\u00edrita brasileiro n\u00e3o est\u00e1 isento dessa heran\u00e7a, por ser feito de gente, tamb\u00e9m de gente colonizada. Essa estranheza bem pode ser colonial, de verniz religioso, \u00e9tnico, filos\u00f3fico, cient\u00edfico, expressa em termos como m\u00edstico, esot\u00e9rico, atrasado, primitivo, selvagem. Temos que reconsiderar o lugar em que nos posicionamos, e admitir que o espiritismo n\u00e3o tem o nome para tudo, a \u00faltima palavra para conceituar os saberes imanentes ou transcendentes, do contr\u00e1rio estaremos numa posi\u00e7\u00e3o muito perigosa para dialogar com outros mundos, tanto os imanentes e oriundos da experi\u00eancia da imers\u00e3o do esp\u00edrito na condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica desta terra, como os transcendentes que transem a diversidade de experi\u00eancias dos esp\u00edritos em condi\u00e7\u00f5es transist\u00f3rica. Nesse sentido, \u00e9 bom refletir com Boaventura, que tamb\u00e9m faz uma revis\u00e3o de um lugar que foi ocupado pela na\u00e7\u00e3o onde encarnou:\u00a0<em>\u201cO drama do universo cultural que se considera historicamente vencedor \u00e9 n\u00e3o querer aprender nada dos universos culturais que se acostumou a derrotar e a ensinar\u201d<\/em><\/p>\n<p>Que nos reserva ainda os saberes da selva? H\u00e1 mundos diferentes, universos culturais constru\u00eddos tamb\u00e9m por desencarnados, como o da Encantaria e n\u00e3o apenas das\u00a0Col\u00f4nias Espirituais? (olha o termo col\u00f4nia aparecendo de novo!). \u00a0\u00c9 poss\u00edvel uma ci\u00eancia das macumbas? Um que o passe, ado\u00e7\u00e3o de terapia pelos fluidos, seja dado em forma de giro ou soprado com fuma\u00e7a como nos terreiros?<\/p>\n<p>Uma coisa, pode se ter diversas formas de fazeres, tamb\u00e9m de entendimentos, sem deixar de ser ela mesma? A luz do sol n\u00e3o uma, e no entanto n\u00e3o se apresenta em multicores conforme seja a capacidade de reten\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o de seus raios?<\/p>\n<p>Toda palavra \u00e9 de certo modo uma limitadora da realidade e insuficiente para expressar a sua totalidade. O que foi nomeado de Espiritismo, bem pode conter amplas verdades, ou melhor, uma diversidade de m\u00e9todos, de fazeres, para entender e expressar uma realidade essencial, de centralidade na sobreviv\u00eancia e comunicabilidade da individualidade que continua a existir ap\u00f3s a morte, a desagrega\u00e7\u00e3o de um tipo de corpo.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 complexa, e para alguns mestres sufis, pode ter dezoito mil universos, e para enxerga-los todos, diz-se:<\/p>\n<p><em>Este homem veria os dezoito mil universos atrav\u00e9s de dezoito mil olhos. V\u00ea cada universo com o olho apropriado. O universo dos sentidos, com o olho dos sentidos; as quest\u00f5es da intelig\u00eancia, como olho da intelig\u00eancia; as inten\u00e7\u00f5es, como o olho do cora\u00e7\u00e3o<\/em><em>\u00a0<\/em>(Ibn ARABI, 2012, p\u00e1ginas 26 e 27)<\/p>\n<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel enxergarmos o Espiritismo sob diversas formas e admitir que pode ser ele mais complexo do que o que temos visto at\u00e9 agora? Aprendemos no Brasil que o Espiritismo foi codificado por Allan Kardec, apesar da investiga\u00e7\u00e3o e a produ\u00e7\u00e3o de saber esp\u00edrita, estar acontecendo na Europa, como It\u00e1lia, Russia, Inglaterra e na Fran\u00e7a, e nas Am\u00e9ricas. Dizer isso, n\u00e3o \u00e9 negar a grande influ\u00eancia de Kardec, mas reconhecer que o fen\u00f4meno n\u00e3o era centralizado, e segundo o lugar das manifesta\u00e7\u00f5es, a cultura, \u00a0e um tipo de pesquisador e pesquisa, a produ\u00e7\u00e3o de saber poderia se dar de maneira diferente, n\u00e3o conferindo unicidade, sem anular os conhecimentos elaborados. Em vista disso, \u00e9 poss\u00edvel admitirmos que assim como as ci\u00eancias e as filosofias, podemos ter espiritismos? Ou n\u00e3o temos olhos para tanto?<\/p>\n<p>Olhando da condi\u00e7\u00e3o de desencarnado, ou de encantamento (<em>enchant\u00e9<\/em>\u00a0no franc\u00eas, tem esse sentido de encantamento, talvez bem muito pr\u00f3ximo da encantaria), Kardec refletiu:\u00a0<em>Supondo-se que os seus adeptos humanos desapare\u00e7am, que as obras que o erigiram em corpo de doutrina sejam destru\u00eddas, ele ainda sobreviveria por t\u00e3o longo tempo quanto a exist\u00eancia dos mundos e das leis que os regem.\u00a0<\/em>( Allan Kardec, 1868, p\u00e1gina 431)<\/p>\n<p>Se entendo esse pensamento, o espiritismo seria uma for\u00e7a da natureza, um fen\u00f4meno natural, como o vento que sopra onde quer. Aqueles que sentem o vento, podem estudar sua influ\u00eancia nos fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos, produzir energia el\u00e9trica, ou brincar, dan\u00e7ando e empinando arraia, papagaio, para continuar falando a partir da cultura naquele Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Estou desemba\u00e7ando do meu olhar de tudo que li e vi para v\u00ea a coisa em si mesma, o que ela pode me contar de si. Queria estar\u00a0no Dom Pedro e ter visto que no anivers\u00e1rio de 33 anos do Centro Esp\u00edrita Jesus de Nazar\u00e9, enquanto o atual presidente da Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita do Estado do Maranh\u00e3o, Fabio Carvalho, falava, M\u00e3e Rita, a guardi\u00e3 da Tenda Santa B\u00e1rbara, entrou em cortejo com os seus filhos enfeitados em roupas brancas e turbantes e por alguns instantes, algumas estranhezas abateram-se sobre o p\u00fablico presente. O expositor interrompeu sua fala, desceu do p\u00falpito e abra\u00e7ou a convidada! Dias atr\u00e1s, o sacerdote sa\u00edra da ilha para encontr\u00e1-la na mata para \u00a0comungar em sua tenda. Agora, outro homem, do novo espiritismo, silencia e acolhe o ancestral, que saiu da mata e abra\u00e7ou o novo. S\u00e3o s\u00edmbolos de encontros, qui\u00e7\u00e1 de um novo tempo, de novos espiritismos.<\/p>\n<p>CIta\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>01\u00a0Viv\u00eancia em estado de transe em Ubajara-CE, em que minha irm\u00e3, j\u00e1 desencarnada, se apresentava para mim, indicando que me acompanhava na escrita desse texto. Ela, que foi chamada muitos nomes: doidinha, caridosa, desatenta, alegre, valente&#8230;<\/p>\n<p>02\u00a0Desde muito, o distrito \u00e9 nomeado Pedro II, mas todos conhecem por Mata Velha, acho importante essa resist\u00eancia, acho mais interessante elogiar a mata que ao imperador.<\/p>\n<p>03\u00a0Tereza L\u00e9gua \u00e9 uma encantada, guia de M\u00e3e Rita, em outra ocasi\u00e3o, ao entramos na Tenda Santa B\u00e1rbara, fomos recebidos e envolvidos por cerca de meia hora entre boas vindas e brincadeiras com a constru\u00e7\u00e3o de pontos, terminado o momento, M\u00e3e Rita veio falar com cada uma pessoa visitante, como se n\u00e3o as tivesse cumprimentado no inicio, e n\u00e3o tinha, a recepcionista havia sito Tereza L\u00e9gua.<\/p>\n<p>04\u00a0Me chama a aten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o encontrar nesse espa\u00e7o nenhuma imagem referente \u00e0 cultura afro-brasileiro, como Iemanj\u00e1, Pretos velhos, ou imagens referentes a orix\u00e1s&#8230; Estou escrevendo outra reflex\u00e3o naquele contesto, com o t\u00edtulo: \u201cOnde est\u00e3o os Pretos Velhos?\u201d<\/p>\n<p>05\u00a0\u201cNo Maranh\u00e3o, o termo\u00a0<em>encantado<\/em>\u00a0, \u00e9 usado nos terreiros de Mina, tanto nos fundados por africanos quanto nos mais novos e sincr\u00e9ticos, e nos sal\u00f5es de curadores ou paj\u00e9s. Refere-se a uma categoria de seres espirituais, recebidos em transe medi\u00fanico\u201d. Encantados e Encantarias no folclore brasileiro \u2013 Mundicarmo Ferretti<\/p>\n<p>06\u00a0Maulana Jalaladim Maom\u00e9, conhecido como Al Rumi. Mestre sufi do s\u00e9culo XIII, que criou o sama, um processo de ora\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e transe, atrav\u00e9s da dan\u00e7a circular.<\/p>\n<p>07\u00a0DENIS. Leon. Depois da Morte. S\u00e3o Paulo, 1994<\/p>\n<p>08\u00a0\u00a0Referencia<\/p>\n<p>09\u00a0\u00a0O Que \u00e9 o Espiritismo \u00e9 lan\u00e7ado em junho de 1859. Destaco que \u00e9 importante seguir a flexibilidade do pensamento de Kardec ao longo de suas obras.<\/p>\n<p>10\u00a0\u00a0Pindorama, \u00e9 a terra das palmeiras, nome que alguns povos destas terra adotavam antes que os invasores a chamassem de Brasil. N\u00eago Bispo, chama a aten\u00e7\u00e3o do termo como uma atitude contracolonial, de resist\u00eancia ao colonialismo.<\/p>\n<p>11\u00a0 SANTOS, Boaventura de Sousa.\u00a0<strong>Decolonizar: Abrindo a hist\u00f3ria do presente<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2022<\/p>\n<p>12 \u00c9 significativo como naturalizamos a narrativa do esp\u00edrito Andr\u00e9 Luiz sobre Nosso Lar, um tipo de cidade com perfil europeu constru\u00edda por portugueses desencarnados, a partir de um lugar onde habitava povos origin\u00e1rios do Brasil, tamb\u00e9m desencarnados. Uma narrativa em muito similar ao processo de coloniza\u00e7\u00e3o, com forte no\u00e7\u00e3o de eurocentrismo.\u00a0<em>\u201cOnde se congregam hoje vibra\u00e7\u00f5es delicadas e nobres, edif\u00edcios de fino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos silv\u00edcolas do pa\u00eds e as constru\u00e7\u00f5es infantis de suas mentes rudimentares.<\/em>\u00a0ANDR\u00c9 LUIZ (Esp\u00edrito). Nosso Lar. Psicografado por \u00a0Francisco C\u00e2ndido Xavier. P\u00e1gina 52<\/p>\n<p>13\u00a0El N\u00facleo del N\u00facleo\u00a05\u00aa edici\u00f3n: noviembre 2002. EDITORIAL SIRIO, S.A.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>AHLERT,Martina \u00abCarregado em saia de encantado: transforma\u00e7\u00e3o e pessoa no terec\u00f4 de Cod\u00f3 (Maranh\u00e3o, Brasil)\u00bb, Etnogr\u00e1fica [Online], vol. 20 (2) | 2016, posto online no dia 29 junho 2016, consultado o 09 fevereiro 2022. URL: http:\/\/journals.openedition.org\/etnografica\/4276; DOI: https:\/\/ doi<\/p>\n<p>ANDR\u00c9 LUIZ (Esp\u00edrito). Nosso Lar. Psicografado por Francisco C\u00e2ndido Xavier. Rio de Janeiro. Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira 45\u00aa 1996<\/p>\n<p>IBN ARABI. El N\u00facleo del N\u00facleo 5\u00aa edici\u00f3n: noviembre 2002. EDITORIAL SIRIO, S.A<\/p>\n<p>KARDEC, Allan. O Livro dos Esp\u00edritos. Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira. \u00a093a edi\u00e7\u00e3o 2013<\/p>\n<p>KARDEC, Allan. O Que \u00e9 o Espiritismo. Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira, Bras\u00edlia, FEB, 2013. 56 ed.<\/p>\n<p>Kardec, Allan. Revista Esp\u00edrita 1869. Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Brasileira, Bras\u00edlia (DF) \u00a04\u00aa edi\u00e7\u00e3o 2019<\/p>\n<p>RUMI, Jalaluddin, Masnavi<\/p>\n<p>SANTOS, Boaventura de Sousa. Decolonizar: Abrindo a hist\u00f3ria do presente. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2022<\/p>\n<p>By\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogger.com\/profile\/16295536200126015689\">Grupo \u00c1gora Esp\u00edrita\u00a0<\/a>&#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/grupoagoraespirita.blogspot.com\/2023\/06\/espiritismo-na-matta.html\">junho 12, 2023<\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/grupoagoraespirita.blogspot.com\/2023\/06\/espiritismo-na-matta.html\">\u00c1GORA ESP\u00cdRITA<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Espiritismo na Matta Espiritismo na Matta Por Leonardo Rodrigues Do que me chamaram, mudou quem fui? Do que me chamarem, mudar\u00e1 quem sou? 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Ana L\u00facia \u00a0 Era uma &hellip; <a href=\"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/espiritismo-na-matta\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"aside","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,1,23,16,27,19],"tags":[],"class_list":["post-13100","post","type-post","status-publish","format-aside","hentry","category-a-familia","category-artigos","category-ciencia","category-espiritismo","category-sociedade","category-transicao","post_format-post-format-aside"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13100"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13102,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13100\/revisions\/13102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}