{"id":13415,"date":"2023-09-23T11:08:00","date_gmt":"2023-09-23T14:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=13415"},"modified":"2023-09-23T11:08:00","modified_gmt":"2023-09-23T14:08:00","slug":"sobre-os-perigos-da-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/sobre-os-perigos-da-leitura\/","title":{"rendered":"Sobre os perigos da leitura"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">Sobre os perigos da leitura<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><em><span style=\"color: #008000;\">Rubem Alves<\/span><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/sinapse\/images\/sps18_rube.jpg\" \/><\/p>\n<p>Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comiss\u00e3o encarregada da sele\u00e7\u00e3o dos candidatos ao doutoramento, o que \u00e9 um sofrimento.<\/p>\n<p>Dizer &#8220;esse entra, esse n\u00e3o entra&#8221; \u00e9 uma responsabilidade dolorida da qual n\u00e3o se sai sem sentimento de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas n\u00e3o havia alternativas. Essa era a regra.<\/p>\n<p>Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. A\u00ed tive uma id\u00e9ia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que far\u00edamos a todos os candidatos uma \u00fanica pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava tr\u00eamulo e se esfor\u00e7ando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: &#8220;Fale-nos sobre aquilo que voc\u00ea gostaria de falar!&#8221;.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 claro! N\u00e3o nos interess\u00e1vamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas t\u00eam boa mem\u00f3ria. Interess\u00e1vamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procur\u00e1vamos as id\u00e9ias que corriam no seu sangue!<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dos candidatos, no entanto, n\u00e3o foi a esperada. Aconteceu o oposto: p\u00e2nico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da inf\u00e2ncia. Mas falar sobre os pr\u00f3prios pensamentos \u2014ah, isso n\u00e3o lhes tinha sido ensinado!<\/p>\n<p>Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabe\u00e7a que algu\u00e9m pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabe\u00e7a que os seus pensamentos pudessem ser importantes.<\/p>\n<p>Uma candidata teve um surto e come\u00e7ou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta n\u00e3o era para valer. N\u00e3o era poss\u00edvel que estiv\u00e9ssemos falando a s\u00e9rio. Deveria ser uma dessas &#8220;pegadinhas&#8221; s\u00e1dicas cujo objetivo \u00e9 confundir o candidato. Por vias das d\u00favidas, ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. A\u00ed eu a interrompi e lhe disse: &#8220;Eu j\u00e1 li esse livro. Eu sei o que est\u00e1 escrito nele. E voc\u00ea est\u00e1 repetindo direitinho. Mas n\u00f3s n\u00e3o queremos ouvir o que j\u00e1 sabemos. Queremos ouvir o que n\u00e3o sabemos. Queremos que voc\u00ea nos conte o que voc\u00ea est\u00e1 pensando, os pensamentos que a ocupam&#8230;&#8221;. Ela n\u00e3o conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.<\/p>\n<p>Parece que esse processo de destrui\u00e7\u00e3o do pensamento individual \u00e9 consequ\u00eancia natural das nossas pr\u00e1ticas educativas. Quanto mais se \u00e9 obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consci\u00eancia disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.<\/p>\n<p>O que se toma por \u00f3bvio e evidente \u00e9 que o pensamento est\u00e1 diretamente ligado ao n\u00famero de livros lidos. Tanto assim que se criaram t\u00e9cnicas de leitura din\u00e2mica que permitem ler &#8220;Grande Sert\u00e3o: Veredas&#8221; em pouco mais de tr\u00eas horas. Ler dinamicamente, como se sabe, \u00e9 essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os cl\u00e1ssicos &#8220;fichamentos&#8221; exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contr\u00e1rio: &#8220;\u00c9 por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de n\u00e3o ler \u00e9 sumamente importante&#8221;.<\/p>\n<p>Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e \u00e9 preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: &#8220;Quando lemos, outra pessoa pensa por n\u00f3s: s\u00f3 repetimos o seu processo mental&#8221;. Quanto a isso, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade n\u00e3o lemos. Nossa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no texto. Ele continua: &#8220;Durante a leitura, nossa cabe\u00e7a \u00e9 apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Da\u00ed se segue que aquele que l\u00ea muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta pr\u00f3pria. Esse, no entanto, \u00e9 o caso de muitos eruditos: leram at\u00e9 ficar est\u00fapidos. Porque a leitura cont\u00ednua, retomada a todo instante, paralisa o esp\u00edrito ainda mais que um trabalho manual cont\u00ednuo&#8221;.<\/p>\n<p>Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos s\u00f3 faziam uma coisa: passar as p\u00e1ginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. &#8220;Se n\u00e3o est\u00e3o virando as p\u00e1ginas de um livro, eles n\u00e3o conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles est\u00e3o, na realidade, simplesmente respondendo a um est\u00edmulo \u2014o pensamento que leram&#8230; Na verdade eles n\u00e3o pensam; eles reagem. (&#8230;) Vi isso com meus pr\u00f3prios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manh\u00e3 cedo, quando o dia nasce, quando tudo est\u00e1 nascendo, ler um livro \u00e9 simplesmente algo depravado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma \u00fanica coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><span style=\"color: #008000;\">Rubem Alves<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\">Rubem Alves, 70, \u00e9 escritor e educador, autor de &#8220;Conversas sobre a Educa\u00e7\u00e3o&#8221; (Verus), &#8220;Quando Eu Era Menino&#8221; (Papirus) e &#8220;Livro sem Fim&#8221; (Loyola), entre outros.<\/span><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/sinapse\/ult1063u687.shtml\">FOLHA<span style=\"color: #993300;\">ONLINE<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre os perigos da leitura Rubem Alves Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comiss\u00e3o encarregada da sele\u00e7\u00e3o dos candidatos ao doutoramento, o que \u00e9 um sofrimento. 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