{"id":13483,"date":"2023-10-21T10:06:46","date_gmt":"2023-10-21T13:06:46","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=13483"},"modified":"2023-10-21T10:06:46","modified_gmt":"2023-10-21T13:06:46","slug":"a-lagosta-de-sartre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/a-lagosta-de-sartre\/","title":{"rendered":"A Lagosta de Sartre"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">A Lagosta de Sartre<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><em><span style=\"color: #008000;\">Jos\u00e9 Herculano Pires<\/span><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/a\/AVvXsEggZXdshpe2DzGJL0rSdt_HNEnfzSxGaccPJgF98oa-VE9Jifmu98uXj6csnYFfllTm9wLyfQxUgPFzsTtbQuv3v783gOnhO1pH3z2RXHM5izMop5KpdK1vrYYcMBsGfZ0tpOlWigo7xZc85A3cKPaRhZ46j5ajqU9a4l3Q3hQCMrT2C9FinbDO7OTpC9KG=w400-h284\" \/><\/p>\n<p>A morte nos espera na sala de partos, quando n\u00e3o se precipita a ir buscar-nos no ventre. Costuma-se dizer que come\u00e7amos a morrer ao nascer e essa \u00e9 uma verdade biol\u00f3gica. Mas, apesar dessa naturalidade milen\u00e1ria da morte, n\u00e3o nos acostumamos com ela, por uma raz\u00e3o muito simples, que \u00e9 o gosto pela vida. Entretanto, quando a vida se prolonga demais, perde pouco a pouco o seu gosto.<\/p>\n<p>O envelhecimento \u00e9 uma forma de expuls\u00e3o. A velhice n\u00e3o \u00e9 uma ceifadora esquel\u00e9tica, mas uma bruxa que nos enxota da vida com sua vassoura voadora. A situa\u00e7\u00e3o do velho atirado como que num dep\u00f3sito de autom\u00f3veis gastos e enferrujados \u00e9 a de um pinguim na Praia Grande: a temperatura o castiga, as juntas lhe doem, a saudade o oprime, a \u00e1gua do mar parece \u00e1gua choca de lagoa tropical, ele quer arrancar-se dali e gritar que est\u00e1 vivo, mas falecem-lhe as energias e a disposi\u00e7\u00e3o. Ele se acaba, mas ainda n\u00e3o se acabou e a chamazinha t\u00eanue da esperan\u00e7a, a \u00faltima a apagar-se, bruxuleia ir\u00f4nica em seu cora\u00e7\u00e3o de casa assombrada.<\/p>\n<p>E ainda surgem os poetas gozadores que, como Bilac, dizem coisas assim: \u201cEnvelhe\u00e7amos rindo, como as \u00e1rvores fortes envelhecem, agasalhando os p\u00e1ssaros nos ramos, dando sombra e consolo aos que padecem\u201d. \u00c9 demais! Eles n\u00e3o t\u00eam mais ramos, nem for\u00e7a, nem capacidade para rir ou sorrir, sua sombra \u00e9 esquel\u00e9tica e seu consolo mal d\u00e1 para o consumo pr\u00f3prio. Contam que Victor Hugo envelheceu trotando na sala com os netos nas costas, que o faziam feliz.<\/p>\n<p>Conta Simone de Beauvoir, nas suas mem\u00f3rias da maturidade, que Jean Paul Sartre, ao sentir que envelhecia, preferiu enlouquecer e come\u00e7ou a ser perseguido por enorme lagosta que o acompanhava por toda parte, amedrontando-o. Ele, que n\u00e3o gostava dos psicanalistas, pois um deles j\u00e1 o havia convencido de que era uma personalidade mutilada, pois n\u00e3o possu\u00eda o superego, preferiu assim mesmo um tratamento anal\u00edtico. Simone arranjou-lhe uma jovem enfermeira e esta se engra\u00e7ou com o doente e o doente com ela. Isso provava que a velhice n\u00e3o estava t\u00e3o pr\u00f3xima; restavam for\u00e7as ao fil\u00f3sofo para conquistas amorosas. Mulher decidida e pr\u00e1tica, apesar de fil\u00f3sofa, Simone mandou a enfermeira embora, espantou a lagosta e tomou conta do companheiro antes que fosse tarde. Sartre continuou a envelhecer, gastou suas \u00faltimas energias na sua volumosa obra Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Dial\u00e9tica e acabou perdendo o seu \u00fanico olho, pois foi picego desde crian\u00e7a e sempre viu o mundo enviesado, com um olho s\u00f3. A velhice o abateu e ele hoje confessa que n\u00e3o vai bem das pernas, como nunca foi da bola.<\/p>\n<p>Esse nov\u00edssimo epis\u00f3dio da Hist\u00f3ria da Filosofia mostra-nos que o gosto pela vida \u00e9 de uma resist\u00eancia a toda prova. Mas h\u00e1 outros fatos que provam o contr\u00e1rio. Por exemplo: o fil\u00f3sofo argentino Jos\u00e9 Ingenieros temia mais a velhice do que a morte e dizia n\u00e3o querer passar dos quarenta anos. Como passou, suicidou-se. Mas \u00e9 claro que a prefer\u00eancia pela morte foi for\u00e7ada e n\u00e3o volunt\u00e1ria. O certo, o normal, \u00e9 o velho apagar-se naturalmente como lamparina que esgotou o azeite. Os que se preveniram no suic\u00eddio ou na loucura ainda conservavam mais mocidade do que podiam supor.<\/p>\n<p>Estas par\u00e1bolas servem para mostrar que, embora nos acompanhando desde o nascimento, a morte \u00e9 uma companheira indesej\u00e1vel. Heidegger lembra que at\u00e9 na linguagem comum usamos o reflexivo se para afugentar a morte, como na express\u00e3o: \u201cMorre-se\u201d, onde o se transfere a morte para os outros. Morremos, mas sempre a contragosto. Mas quando nos convencemos realmente de que a morte \u00e9 apenas uma mudan\u00e7a, como dizia Victor Hugo depois de suas experi\u00eancias esp\u00edritas com Madame de Girardin, recebemos a morte com alegria, pois ela nos tira o fardo das costas e nos leva ao encontro dos amigos e seres queridos que foram antes de n\u00f3s para o outro mundo. Talvez tenha sido por essa certeza que Hugo se divertia com os netos enquanto a esperava.<\/p>\n<p>Os romanos, particularmente na Rep\u00fablica, gostavam de exaltar a velhice. A senectude j\u00e1 naquele tempo dava os frutos geralmente balofos ou amargos das subgera\u00e7\u00f5es de senadores. C\u00edcero insistia na import\u00e2ncia da maturidade que dava repouso \u00e0 alma, amortecendo as inquieta\u00e7\u00f5es da carne. Casos como o de Marco Ant\u00f4nio e Cle\u00f3patra ilustravam bem o perigo das fases heroicas da juventude. Com essa teoria conseguiram envelhecer Roma, que se afundou na pervers\u00e3o da velhice impotente, mas ainda de fogo aceso, em homenagem aos deuses. Passaram, com o tempo, a confiar mais nos gansos do Capit\u00f3lio do que em suas legi\u00f5es aguerridas e acabaram massacrados pelos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos enfeitar a velhice com sugest\u00f5es ilus\u00f3rias. Ela \u00e9 simplesmente o processo natural de desgaste das coisas materiais no decorrer do tempo. Por isso diz o vagabundo de Knut Amsun: \u201cA velhice n\u00e3o nos d\u00e1 experi\u00eancias nem sabedoria, mas cabelos grisalhos e rugas\u201d. E acrescenta, lembrando a emp\u00e1fia e as tolices dos s\u00e1bios em todo o mundo: \u201cDeus me livre de ser um s\u00e1bio\u201d. Sartre n\u00e3o \u00e9 s\u00e1bio, mas fil\u00f3sofo, ou seja, amante da Sabedoria. Na posi\u00e7\u00e3o de amante dessa divindade et\u00e9rea, sempre se manteve em guarda contra o carrancismo dos homens casados com divindades de carne e osso, geralmente demasiado exigentes. Aceitou que Juliette Grecco se fizesse Musa do Existencialismo no Caf\u00e9 de Fiore, onde gostava de escrever. Considerou a seriedade como falsa categoria filos\u00f3fica e, mesmo agora, depois dos sessenta anos e cego, declara \u00e0s revistas parisienses que n\u00e3o gosta de conversar com pessoas de mais de 30 anos de idade. Era natural que arranjasse, ao sentir que envelhecia, uma companheira sem compromissos para o acompanhar na velhice.<\/p>\n<p>A enorme lagosta que o seguia pelas ruas de Paris era um fantasma desinibido, explorado e devorado impiedosamente pelos franceses, que na loucura por lagostas chegaram quase a provocar uma guerra de lagostas com o Brasil. Isso mostra que Sartre, inimigo de mitos e mit\u00f3logos, fugia com sua lagosta das terr\u00edveis homenagens que os be\u00f3cios costumam prestar aos s\u00e1bios que envelhecem \u2013 glorificadores de si mesmos \u00e0s custas da gl\u00f3ria alheia. Nenhum desses aproveitadores se sentiria bem numa solenidade acad\u00eamica em que a enorme lagosta aparecesse nas costas do fil\u00f3sofo, como o bacalhau nas costas do antigo propagandista de Emuls\u00e3o de Scott.<\/p>\n<p>Talvez a \u00fanica vantagem da velhice seja o agu\u00e7amento da cr\u00edtica e da irrever\u00eancia nos velhos inteligentes, que afiaram no correr dos anos a sua l\u00e2mina de ironia. O sorriso ir\u00f4nico de Voltaire contribuiu mais para a liberta\u00e7\u00e3o dos homens das garras da moral burguesa do que o sorriso suspeito e enganador da Mona Lisa. Os burgueses n\u00e3o se livraram at\u00e9 hoje da subservi\u00eancia dos burgos medievais. A ironia brota da intelig\u00eancia, e quando tr\u00e1s ainda o cheiro da terra n\u00e3o corta ao l\u00e9u, mas poda. Podar a burguesia da sua ramagem de subservi\u00eancia \u00e9 semear no solo as sementes de um novo mundo, livre de milion\u00e1rios e mendigos. Ele viveu com um p\u00e9 na cova e o outro na plataforma de foguetes do Cabo Canaveral.<\/p>\n<p>Todos envelhecemos, mas Voltaire soube transformar o seu desgaste org\u00e2nico em refinamento do esp\u00edrito afiando-o como l\u00e2mina de navalha. Os cl\u00e9rigos o amaldi\u00e7oaram por toda parte e o consideraram morto e enterrado, mas Kardec provou a sua sobreviv\u00eancia em suas pesquisas medi\u00fanicas da Passage Saint\u2019Anne, em Paris.<\/p>\n<p>S\u00f3 h\u00e1 uma maneira de fugirmos ao envelhecimento, que \u00e9 preservando a nossa liberdade espiritual, pois o esp\u00edrito n\u00e3o envelhece. Os que se fazem independentes em meio \u00e0 servid\u00e3o geral podem sorrir como Voltaire da arrog\u00e2ncia dos est\u00fapidos, covardes e venais, que esmagam os indefesos com os recursos de suas castas exploradoras, em nome de Deus e das institui\u00e7\u00f5es criadas pelos ego\u00edstas.<\/p>\n<p>O sorriso de Voltaire salvou o soneto de Bilac, pois se pudermos envelhecer como ele, usando o sorriso ir\u00f4nico ante a far\u00e2ndola dos falsificadores da esp\u00e9cie humana, ajudaremos o mundo a se livrar das aves de rapina. A lagosta de Sartre foi uma encena\u00e7\u00e3o inconsciente com esse mesmo sentido. O envelhecimento org\u00e2nico est\u00e1 tamb\u00e9m sujeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o do psiquismo. A vontade de cada um pode acelerar ou retardar os processos do desgaste org\u00e2nico. Simone mesmo, apesar de sua posi\u00e7\u00e3o agn\u00f3stica, reconhece que n\u00e3o podemos chamar a Humanidade de esp\u00e9cie humana, porque ela supera as condi\u00e7\u00f5es da animalidade em suas transforma\u00e7\u00f5es incessantes para um vir a ser imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>As rea\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas provocadas pelo envelhecimento s\u00e3o as mais variadas. Nas pessoas que temem a morte os sintomas da velhice geralmente provocam p\u00e2nico e sensa\u00e7\u00e3o de marginaliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 os que se revoltam e procuram todos os disfarces poss\u00edveis para manterem apar\u00eancia juvenil. Os que encaram com realismo o problema procuram apenas os recursos da gerontologia, tentando apenas evitar o aceleramento do processo. E h\u00e1 os que, \u00e0 maneira dos antigos romanos, entregam-se ao prazer de uma vida crepuscular, mais contemplativa do que ativa, gozando a perigosa placidez da aposentadoria real ou emocional. O temperamento de Sartre n\u00e3o se adapta a essas formas de acomoda\u00e7\u00e3o. De certa maneira ele se compensou com a evoca\u00e7\u00e3o da lagosta gigante, que lhe dava a sensa\u00e7\u00e3o do perigo, \u00e0 beira da loucura, que lhe garantia, ao mesmo tempo, a sensa\u00e7\u00e3o juvenil de pendurar-se na boca de um abismo e a possibilidade de sentir-se gal\u00e3 ao lado da enfermeira. Simone confessa que se ralou de ci\u00fames, o que deve ter refor\u00e7ado a perman\u00eancia psicol\u00f3gica da lagosta.<\/p>\n<p>O caso mais curioso de entrega ativa \u00e0 velhice ocorreu com o famoso escritor colombiano Vargas Villa, que passou a maior parte de sua vida na Europa, considerando-se intelectualmente franc\u00eas e emocionalmente italiano. No pref\u00e1cio de sua novela \u00cdbis, sucesso rococ\u00f3 entre os anos 20 e 30 em todo o mundo, encarava a velhice como a fase fant\u00e1stica da vida, que lhe tirava as possibilidades do real mas o compensava com a possibilidade de evocar suas antigas lutas e paix\u00f5es num clima de paz e encantamento. Figurava-se dotado de \u201cumas asas t\u00eanues e leves\u201d que lhe permitiam voar ao crep\u00fasculo sobre os campos de seus antigos combates, cheios dos destro\u00e7os de suas vit\u00f3rias passadas.<\/p>\n<p>Nem tudo \u00e9 dor nas dores do mundo. A imagina\u00e7\u00e3o humana \u00e9 capaz de doirar com reflexos de um sol interior as paisagens cinzentas. Vargas Villa se dizia capaz de evocar suas antigas emo\u00e7\u00f5es, fazendo-as ressuscitar do estado catal\u00e9ptico que haviam ca\u00eddo, com a vantagem de n\u00e3o se apresentarem com as trepida\u00e7\u00f5es inquietantes do passado. Muitos jovens sonharam, ao l\u00ea-lo, com as del\u00edcias do envelhecimento, mas poucos conseguiram passar pelos arcos de triunfo dessa vis\u00e3o legend\u00e1ria.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #008000;\">Jos\u00e9 Herculano Pires<\/span><\/em>, do livro:<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O mist\u00e9rio do Ser ante a dor e a Morte<\/span><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Lagosta de Sartre Jos\u00e9 Herculano Pires A morte nos espera na sala de partos, quando n\u00e3o se precipita a ir buscar-nos no ventre. Costuma-se dizer que come\u00e7amos a morrer ao nascer e essa \u00e9 uma verdade biol\u00f3gica. 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