{"id":13500,"date":"2023-10-29T05:42:23","date_gmt":"2023-10-29T08:42:23","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=13500"},"modified":"2023-10-29T05:42:23","modified_gmt":"2023-10-29T08:42:23","slug":"paulo-e-tiago-a-etica-da-alteridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/paulo-e-tiago-a-etica-da-alteridade\/","title":{"rendered":"Paulo e Tiago: A \u00c9tica da Alteridade"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">Paulo e Tiago: A \u00c9tica da Alteridade<\/span><\/strong><\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/blogger.googleusercontent.com\/img\/b\/R29vZ2xl\/AVvXsEgDg8M6SoJNN5cuuNnbnEW3HhbTgykj4uAmyj9_R_wvwhtX2V0PiRCxdZpMC9BSB1iWBJhnjtKjHKWBGeZTUfCucOcdMjNK0vKc8ksdhUSdoZs9yxb4_S7JPOSWsyeH57Pt7Rz_ylJ9lJn4JmMfYvIpyHx9ZzIpqGUxb8i0y5v6QYiWHsrOnrm5cAVakQ\/w320-h240\/orgulho.jpg\" width=\"188\" height=\"141\" \/><\/p>\n<p>Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como o Cristo vos perdoou, assim fazei v\u00f3s tamb\u00e9m. E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que \u00e9 o v\u00ednculo da perfei\u00e7\u00e3o.\u201d Cl 3,13-14<\/p>\n<p>Uma s\u00e9ria crise abateu-se sobre o movimento crist\u00e3o dos primeiros dias. Tiago e v\u00e1rios seguidores eram partid\u00e1rios da circuncis\u00e3o apoiados na lei mosaica, enquanto Paulo e outros defendiam a total independ\u00eancia do Evangelho.<\/p>\n<p>A circuncis\u00e3o era um rito exterior, um \u201csinal de pacto\u201d, a ser posto em todos os descendentes masculinos de Abra\u00e3o, a fim de ficar como memorial da Alian\u00e7a que Yahweh, assim, estabelecia com seu povo. Significava um compromisso tanto com o povo de Israel, como com o pr\u00f3prio Deus de Israel. Rejeitar a circuncis\u00e3o resultava em ser \u201cexpulso\u201d do seu povo (Gn 17,10-14). Os estrangeiros que desejassem entrar na comunh\u00e3o com o povo de Israel e com o seu Deus, bem como celebrar a P\u00e1scoa e participar de outras b\u00ean\u00e7\u00e3os, tinham de submeter-se a este rito, a circuncis\u00e3o, qualquer que fosse a sua idade (Gn 34,14-17, 22; Ex 12,48). A circuncis\u00e3o foi tornada um requisito obrigat\u00f3rio da lei mosaica. \u201cE, no oitavo dia, se circuncidar\u00e1 ao menino a carne do seu prep\u00facio\u201d (Lv 12,13). Isso era t\u00e3o importante que, se o oitavo dia ca\u00edsse no altamente respeitado S\u00e1bado, ainda assim se devia realizar a circuncis\u00e3o (Jo 7, 22-23). Jo\u00e3o Batista, Jesus e Paulo foram circuncidados ao \u201coitavo dia\u201d (Lc 1,59; 2,21; Fl 3,5).<\/p>\n<p>Paulo compreendeu a quest\u00e3o com rara profundidade e manteve viva preocupa\u00e7\u00e3o, observando as pol\u00eamicas que surgiam em torno desse assunto, bem como dos alimentos puros e impuros, e a determina\u00e7\u00e3o dos judeus crist\u00e3os de n\u00e3o se sentarem \u00e0 mesa de refei\u00e7\u00f5es comuns com os crist\u00e3os gregos, nem frequentar-lhes os lares. Como ele temia, o problema amea\u00e7ava de ruptura a comunidade crist\u00e3 e colocava em perigo o trabalho que vinha realizando entre os gentios. (1)<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os de Jerusal\u00e9m, que nunca tinham sa\u00eddo de sua terra e n\u00e3o compreendiam a situa\u00e7\u00e3o dos gentios, n\u00e3o consideravam os conversos do gentilismo como verdadeiros crist\u00e3os, afirmando que n\u00e3o poderiam ter sido aceitos sem antes admitir a lei mosaica.<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o n\u00e3o preocupava os judeus convertidos, tampouco os pros\u00e9litos (2) convertidos. Entretanto, na comunidade de Antioquia, que era constitu\u00edda, em sua grande maioria, por crist\u00e3os com origem no paganismo (3), cujos la\u00e7os com o juda\u00edsmo eram muito fracos, surgiam s\u00e9rias dificuldades.<\/p>\n<p>Jesus prometera aperfei\u00e7oar a Lei &#8211; Para estes, sujeitarem-se ao rito da circuncis\u00e3o ou \u00e0 ritual\u00edstica da lei mosaica constitu\u00eda-se em fardo inaceit\u00e1vel, reduzindo a experi\u00eancia da liberdade crist\u00e3 \u00e0 estreiteza da sinagoga e negando a universalidade da mensagem de salva\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>Havia por tr\u00e1s de tudo isso um grave e duplo problema, um de cunho religioso, outro de car\u00e1ter social. Se continuasse assim, ter\u00edamos crist\u00e3os de primeira classe ou crist\u00e3os inteiros e meio-crist\u00e3os, criando no cristianismo nascente dois agrupamentos: um interior e outro exterior. A vis\u00e3o judaizante, concentrada em Jerusal\u00e9m e liderada por Tiago, afirmava que Jesus nascera sob a Lei de Mois\u00e9s, e que dissera n\u00e3o ter vindo anul\u00e1-la, mas dar-lhe cumprimento, assim como afirmara que ela se cumpriria at\u00e9 o \u00faltimo til e o \u00faltimo iota (4) (Mt 5, 17-18).<\/p>\n<p>Esqueciam-se de que Jesus havia prometido aperfei\u00e7oar a Lei e que em muitas passagens expressou-se assim: \u201cOs antigos diziam&#8230; mas eu vos digo\u201d (Mt 5, 21-22; Jo 8).<\/p>\n<p>Emmanuel resgata e aclara esses momentos na sua magn\u00edfica obra Paulo e Est\u00eav\u00e3o, apresentando-nos no cap\u00edtulo V &#8211; Lutas pelo Evangelho \u2013 as discuss\u00f5es mais cr\u00edticas e decisivas, as quais nos trazem excelente material de reflex\u00e3o e aprendizado a n\u00f3s que buscamos estar preparados para os epis\u00f3dios de crise que ocorrem em nossas vidas e mesmo no seio das institui\u00e7\u00f5es esp\u00edritas, entre seus trabalhadores.<\/p>\n<p>\u201cAs reuni\u00f5es esp\u00edritas oferecem grand\u00edssimas vantagens, por permitirem que os que nela tomam parte se esclare\u00e7am, mediante a permuta de ideias, pelas quest\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es que se fa\u00e7am, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos os frutos desej\u00e1veis, requerem condi\u00e7\u00f5es especiais, que vamos examinar, porquanto erraria quem as comparasse \u00e0s reuni\u00f5es ordin\u00e1rias.\u201d (O Livro dos M\u00e9diuns \u2013 cap. XXIX \u2013 item 324.)<\/p>\n<p>A proposta destes apontamentos simples \u00e9 identificarmos nos embates entre os pensamentos de Tiago e Paulo, com a media\u00e7\u00e3o de Sim\u00e3o Pedro, a \u00e9tica da alteridade.<\/p>\n<p>\u00c9tica, segundo o dicionarista Aur\u00e9lio Buarque de Holanda, \u00e9 o conjunto de normas e princ\u00edpios que norteiam a boa conduta humana; estudo dos ju\u00edzos de aprecia\u00e7\u00e3o referentes \u00e0 conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal.<\/p>\n<p>O desafio de conviver com quem pensa diferente &#8211; Alteridade \u00e9 a qualidade ou natureza do que \u00e9 outro, diferente. Podemos entender que alteridade \u00e9 colocar-se no lugar do outro numa rela\u00e7\u00e3o interpessoal, com considera\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o, identifica\u00e7\u00e3o, e dialogar com o outro. O exerc\u00edcio da alteridade se aplica aos relacionamentos tanto entre indiv\u00edduos como entre grupos culturais religiosos, cient\u00edficos, \u00e9tnicos etc. Portanto, o estabelecimento de uma rela\u00e7\u00e3o de paz com os diferentes, a capacidade de conviver bem com a diferen\u00e7a da qual o outro \u00e9 portador, isso \u00e9 a \u00e9tica da alteridade.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da alteridade conduz da diferen\u00e7a \u00e0 soma nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais entre os seres humanos.<\/p>\n<p>Alteridade \u00e9 uma palavra que vem ganhando uso acentuado nos meios sociais do s\u00e9culo XXI, entretanto a palavra em si n\u00e3o serve para nada, se n\u00e3o for acompanhada da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cPorque, se s\u00f3 amardes os que vos amam, qual ser\u00e1 a vossa recompensa? N\u00e3o procedem assim tamb\u00e9m os publicanos? Se apenas os vossos irm\u00e3os saudardes, que \u00e9 o que com isso fazeis mais do que os outros? N\u00e3o fazem outro tanto os pag\u00e3os?\u201d (Mt 5, 46-47 \u2013 O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XII \u2013 item 1.)<\/p>\n<p>O desafio de conviver com os que pensam diferente de n\u00f3s, com os contr\u00e1rios, e aprender a respeit\u00e1-los e am\u00e1-los na sua diversidade, constitui, ainda e significativamente, um desafio \u00e9tico nos centros esp\u00edritas e para seus dirigentes e colaboradores.<\/p>\n<p>Para isso n\u00e3o precisamos desistir de nossa vis\u00e3o e de defend\u00ea-la, como vemos em Paulo e Est\u00eav\u00e3o, na p\u00e1gina 471, durante a discuss\u00e3o de Barnab\u00e9 e Paulo:<\/p>\n<p>\u201cO ambiente carregara-se de nervosismo. Os gentios de Antioquia fitavam o orador, enternecidos e gratos. Os simpatizantes do farisa\u00edsmo, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o es\u00adcondiam seu rancor, em face daquela coragem quase audaciosa. Nesse instante, de olhos inflamados por sen\u00adtimentos indefin\u00edveis, Barnab\u00e9 tomou a palavra, enquanto o orador fazia uma pausa, e considerou:<\/p>\n<p>\u2014 Paulo, sou dos que lamentam tua atitude neste passo. Com que direito poder\u00e1s atacar a vida pura do continuador de Cristo Jesus?&#8221;<\/p>\n<p>A palestra do ex-rabino era rude e franca &#8211; &#8220;Isso, inquiria-o ele em tom altamente comovedor, com a voz embargada de l\u00e1grimas. Paulo e Pedro eram os seus melhores e mais caros amigos.<\/p>\n<p>Longe de se impressionar com a pergunta, o orador respondeu com a mesma franqueza:<\/p>\n<p>\u2014 Temos, sim, um direito: \u2014 o de viver com a verdade, o de abominar a hipocrisia, e, o que \u00e9 mais sagrado \u2014 o de salvar o nome de Sim\u00e3o das arremetidas farisaicas, cujas sinuosidades conhe\u00e7o, por constitu\u00edrem o b\u00e1ratro escuro de onde pude sair para as claridades do Evangelho da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A palestra do ex-rabino continuou rude e franca. De quando em quando, Barnab\u00e9 surgia com um aparte, tornando a contenda mais renhida.<\/p>\n<p>Entretanto, em todo o curso da discuss\u00e3o, a figura de Pedro era a mais impressionante pela augusta sere\u00adnidade do semblante tranquilo.\u201d<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre os posicionamentos n\u00e3o devem ser, necessariamente, rotuladas de defeitos ou servirem de refer\u00eancias para causar a indiferen\u00e7a ou a separa\u00e7\u00e3o, somente porque n\u00e3o compreendemos as escolhas e a trajet\u00f3ria do outro, o que certamente conseguiremos equacionar melhor ao adquirirmos a \u00e9tica da alteridade.<\/p>\n<p>Pela rela\u00e7\u00e3o alterit\u00e1ria \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para que o processo de aprendizado da alteridade aconte\u00e7a, contudo, devemos atentar para alguns aspectos das diferen\u00e7as:<\/p>\n<p>a) Identifica\u00e7\u00e3o \u2013 para isso devemos eliminar quaisquer preconceitos e ater-nos na real identifica\u00e7\u00e3o dos posicionamentos do outro, sabendo que dependem da sua estrutura ps\u00edquica, formada ao longo das m\u00faltiplas experi\u00eancias desta e de outras vidas;<\/p>\n<p>b) Entendimento \u2013 procurarmos entender as raz\u00f5es conscientes e, at\u00e9 mesmo, as inconscientes (medos, anseios e motiva\u00e7\u00f5es), para que n\u00e3o fa\u00e7amos avalia\u00e7\u00f5es superficiais ou definitivas e fechadas, que nos impe\u00e7am de ampliar a compreens\u00e3o da postura do outro e da diferen\u00e7a identificada;<\/p>\n<p>c) Aprendizado \u2013 esta fase permite-nos a acessibilidade m\u00fatua, a receptividade aos sentimentos do outro, facultando-nos uma rela\u00e7\u00e3o de aprendizado e a aproxima\u00e7\u00e3o pelos aspectos que nos unem, permitindo que o esclarecimento e o amadurecimento pelas experi\u00eancias vividas ao longo do tempo tragam\u2013nos a sabedoria.<\/p>\n<p>Pedro tinha diante de si um dilema dif\u00edcil &#8211; Podemos aprender muito sobre a identifica\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as neste relato de Emmanuel sobre os pensamentos de Sim\u00e3o Pedro:<\/p>\n<p>\u201cNaqueles r\u00e1pidos instantes, o Ap\u00f3stolo galileu con\u00adsiderou a sublimidade da sua tarefa no campo de batalha espiritual, pelas vit\u00f3rias do Evangelho. De um lado es\u00adtava Tiago, cumprindo elevada miss\u00e3o junto do juda\u00edsmo; de suas atitudes conservadoras surgiam incidentes felizes para a manuten\u00e7\u00e3o da igreja de Jerusal\u00e9m, erguida como um ponto inicial para a cristianiza\u00e7\u00e3o do mundo; de outro lado estava a figura poderosa de Paulo, o amigo desassombrado dos gentios, na execu\u00e7\u00e3o de uma ta\u00adrefa sublime; de seus atos heroicos derivava toda uma torrente de ilumina\u00e7\u00e3o para os povos id\u00f3latras. Qual o maior a seus olhos de companheiro que convivera com o Mestre e dele recebera as mais altas li\u00e7\u00f5es? Naquela hora, o ex-pescador rogou a Jesus lhe concedesse a inspira\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a fiel observ\u00e2ncia dos seus deveres.\u201d<\/p>\n<p>Pedro tamb\u00e9m ajuda-nos na experi\u00eancia do entendimento do outro:<\/p>\n<p>\u201cEra preciso ser justo, sem parcialidade ou falsa inclina\u00e7\u00e3o, O Mestre amara a todos, indistintamente. Repartira os bens eternos com todas as criaturas. Ao seu olhar compassivo e magn\u00e2nimo, gentios e judeus eram irm\u00e3os. Experimentava, agora, singular acuidade para examinar conscienciosamente as circunst\u00e2ncias. Devia amar a Tiago pelo seu cuidado generoso com os israeli\u00adtas, bem como a Paulo de Tarso pela sua dedica\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria a todos quantos n\u00e3o conheciam a ideia do Deus justo.<\/p>\n<p>O ex-pescador de Cafarnaum notou que a maioria da assembleia lhe dirigia curiosos olhares. Os compa\u00adnheiros de Jerusal\u00e9m deixavam perceber c\u00f3lera \u00edntima, na extrema palidez do rosto. Todos pareciam convoc\u00e1-lo \u00e0 discuss\u00e3o. Barnab\u00e9 tinha os olhos vermelhos de chorar e Paulo parecia cada vez mais franco, verberando a hipocrisia com a sua l\u00f3gica fulminante. O Ap\u00f3stolo preferiria o sil\u00eancio, de modo a n\u00e3o perturbar a f\u00e9 ardente de quantos se arrebanhavam na igreja sob as luzes do Evangelho; mediu a extens\u00e3o da sua respon\u00adsabilidade naquele minuto inesquec\u00edvel. Encolerizar-se seria negar os valores do Cristo e perder suas obras; inclinar-se para Tiago seria a parcialidade; dar abso\u00adluta raz\u00e3o aos argumentos de Paulo n\u00e3o seria justo. Procurou arregimentar na mente os ensinamentos do Mestre e lembrou a inolvid\u00e1vel senten\u00e7a: \u2014 o que dese\u00adjasse ser o maior fosse o servo de todos. Esse pre\u00adceito proporcionou-lhe imenso consolo e grande for\u00e7a espiritual.\u201d<\/p>\n<p>Pedro ent\u00e3o se levantou e pediu a palavra &#8211; O aprendizado da alteridade demonstrado por Pedro, ao longo dos anos, foi determinante para o equacionamento da quest\u00e3o fundamental:<\/p>\n<p>\u201cQuando o ex-pescador reconheceu que as diverg\u00ean\u00adcias prosseguiriam indefinidamente, levantou-se e pediu a palavra, fazendo a generosa e s\u00e1bia exorta\u00e7\u00e3o de que os Atos dos Ap\u00f3stolos (cap\u00edtulo 15\u00ba, vers\u00edculos 7 e 11) fornecem not\u00edcia:<\/p>\n<p>\u2014 Irm\u00e3os \u2014 come\u00e7ou Pedro, en\u00e9rgico e sereno \u2014, bem sabeis que, de h\u00e1 muito, Deus nos elegeu para que os gentios ouvissem as verdades do Evangelho e cressem no seu Reino.<\/p>\n<p>O Pai, que conhece os cora\u00e7\u00f5es, deu aos circuncisos e aos incircuncisos a palavra do Esp\u00edrito Santo. No dia glorioso do Pentecostes as vozes falaram na pra\u00e7a p\u00fablica de Jerusal\u00e9m, para os filhos de Israel e dos pag\u00e3os. O Todo-Poderoso determinou que as verdades fossem anunciadas indistintamente. Jesus afirmou que os cooperadores do Reino chegariam do Oriente e do Ocidente. N\u00e3o compreendo tantas contro\u00adv\u00e9rsias, quando a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o clara aos nossos olhos.<\/p>\n<p>O Mestre exemplificou a necessidade de harmoniza\u00e7\u00e3o constante: palestrava com os doutores do Templo; fre\u00adquentava a casa dos publicanos; tinha express\u00e3o de bom \u00e2nimo para todos os que se baldavam de esperan\u00e7a; aceitou o derradeiro supl\u00edcio entre os ladr\u00f5es. Por que motivo devemos guardar uma pretens\u00e3o de isolamento daqueles que experimentam a necessidade maior? Outro argumento que n\u00e3o deveremos esquecer \u00e9 o da chegada do Evangelho ao mundo, quando j\u00e1 possu\u00edamos a Lei. Se o Mestre no-lo trouxe, amorosamente, com os mais pesados sacrif\u00edcios, seria justo enclausurarmo-nos nas tradi\u00e7\u00f5es convencionais, esquecendo o campo de trabalho? N\u00e3o mandou o Cristo que preg\u00e1ssemos a Boa Nova a todas as na\u00e7\u00f5es? Claro que n\u00e3o poderemos desprezar o patrim\u00f4nio dos israelitas. Temos de amar nos filhos da Lei, que somos n\u00f3s, a express\u00e3o de profundos sofrimentos e de elevadas experi\u00eancias que nos chegam ao cora\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de quantos precederam o Cristo, na tarefa mi\u00adlen\u00e1ria de preservar a f\u00e9 no Deus \u00fanico; mas esse reco\u00adnhecimento deve inclinar nossa alma para o esfor\u00e7o na reden\u00e7\u00e3o de todas as criaturas.\u201d<\/p>\n<p>A alteridade nos ensina a tratar bem a todos \u2013 \u201cAbandonar o gentio \u00e0 pr\u00f3pria sorte seria criar duro cativeiro, ao inv\u00e9s de pra\u00adticar aquele amor que apaga todos os pecados. \u00c9 pelo fato de muito compreendermos os judeus e de muito esti\u00admarmos os preceitos divinos, que precisamos estabelecer a melhor fraternidade com o gentio, convertendo-o em elemento de frutifica\u00e7\u00e3o divina. Cremos que Deus nos purifica o cora\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 e n\u00e3o pelas ordenan\u00e7as do mundo. Se hoje rendemos gra\u00e7as pelo triunfo glorioso do Evangelho, que instituiu a nossa liberdade, como impor aos novos disc\u00edpulos um jugo que, intimamente, n\u00e3o podemos suportar? Suponho, ent\u00e3o, que a circuncis\u00e3o n\u00e3o deva constituir ato obrigat\u00f3rio para quantos se con\u00advertam ao amor de Jesus-Cristo, e creio que s\u00f3 nos sal\u00advaremos pelo favor divino do Mestre, estendido genero\u00adsamente a n\u00f3s e a eles tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>Podemos aprender muito com esses embates entre Paulo e Tiago nas \u201cLutas pelo Evangelho\u201d e, principalmente, com a segura e experiente lideran\u00e7a de Sim\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>\u201cA exorta\u00e7\u00e3o do ex-pescador dava margem a nume\u00adrosas interpreta\u00e7\u00f5es; se falava no respeito amoroso aos judeus, referia-se tamb\u00e9m a um jugo que n\u00e3o podia suportar. Ningu\u00e9m, todavia, ousou negar-lhe a prud\u00ean\u00adcia e bom senso indubit\u00e1veis. (&#8230;) Havia em tudo, agora, uma nota de satisfa\u00e7\u00e3o geral. As observa\u00e7\u00f5es de Pedro calaram fundo em todos os companheiros.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o nos esque\u00e7amos de que n\u00e3o temos m\u00e9rito nenhum em tratar bem a quem nos trata bem tamb\u00e9m, mas sim em tratar bem a quem n\u00e3o nos trata bem. Pela rela\u00e7\u00e3o de alteridade \u00e9 poss\u00edvel tratarmos bem a todos, independentemente de como nos tratam. O crescimento \u00e9 eminente quando lidamos com aqueles que pensam, sentem e agem diferentemente da gente, numa rela\u00e7\u00e3o alterit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Somente atingiremos a alteridade se nos dispusermos a, diante do diferente, parar, olhar, ouvir com aten\u00e7\u00e3o, ponderar com calma e, somente, ap\u00f3s isso, agir com equil\u00edbrio e determina\u00e7\u00e3o, sempre apoiados no bom senso e na f\u00e9 raciocinada \u00e0 luz do Consolador Prometido.<\/p>\n<p>ANTONIO AUGUSTO NASCIMENTO<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/marcoaureliorocha5.blogspot.com\/2022\/12\/paulo-e-tiago-etica-da-alteridade.html\">Espiritismo na Rede<\/a><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">Notas:<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">(1) Gentios: povos ou na\u00e7\u00f5es n\u00e3o israelitas.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">(2) Pros\u00e9lito: converso, isto \u00e9, algu\u00e9m que abra\u00e7ou o juda\u00edsmo, sendo circuncidado, se homem.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">(3) Paganismo: \u00e9 um termo geral, normalmente usado para se referir a tradi\u00e7\u00f5es religiosas polite\u00edstas.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">(4) Iota: \u00e9 a nona letra do alfabeto grego.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">Fontes:<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">XAVIER, Francisco C\u00e2ndido. Paulo e Est\u00eav\u00e3o. Pelo Esp\u00edrito Emmanuel. 36.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 112. ed. Rio [de Janeiro]:FEB, 1996. cap. III \u2013 item 2.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #993300;\">KARDEC, Allan. O Livro dos M\u00e9diuns. &#8211; ed. 112. ed. Rio [de Janeiro]:FEB,. cap. XXIX. item 324.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo e Tiago: A \u00c9tica da Alteridade Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como o Cristo vos perdoou, assim fazei v\u00f3s tamb\u00e9m. E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que &hellip; <a href=\"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/paulo-e-tiago-a-etica-da-alteridade\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"aside","meta":{"footnotes":""},"categories":[18,1,23,16,27,19],"tags":[],"class_list":["post-13500","post","type-post","status-publish","format-aside","hentry","category-a-familia","category-artigos","category-ciencia","category-espiritismo","category-sociedade","category-transicao","post_format-post-format-aside"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13500"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13501,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13500\/revisions\/13501"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}