{"id":1415,"date":"2013-08-04T22:19:37","date_gmt":"2013-08-05T01:19:37","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=1415"},"modified":"2013-08-04T22:21:32","modified_gmt":"2013-08-05T01:21:32","slug":"a-psicologia-redescobrira-a-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/a-psicologia-redescobrira-a-sexualidade\/","title":{"rendered":"A Psicologia Redescobrir\u00e1 a Sexualidade?"},"content":{"rendered":"<p><b>(Extra\u00eddo do site outrascrateras.blogspot.com.br\/ . . .)<\/b><\/p>\n<p><b>domingo, 27 de fevereiro de 2011<\/b><\/p>\n<p><b>O senso comum indica o psic\u00f3logo como o profissional mais preparado para dar conta da sexualidade. Pelo menos assim pensam os colegas formados em outras disciplinas, com quem trabalhamos na escola, nos servi\u00e7os de sa\u00fade ou nas empresas. Ser\u00e1?<\/b> Parafraseando um texto cl\u00e1ssico da antrop\u00f3loga Carole Vance (1991\/1995), nesse ensaio quero sugerir que as psicologias, e o ensino de psicologia no Brasil, precisam redescobrir a sexualidade interpelados pela fecundidade da abordagem construcionista adotada nos artigos desse dossi\u00ea neste volume 13, n\u00famero 4 da Psicologia em Estudo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel? No momento em que eu peguei o v\u00edrus da AIDS, eu n\u00e3o estava ali me\u00a0contaminando&#8230; era muita paix\u00e3o! Foi um momento de alegria, de prazer, tanto tempo\u00a0desejado&#8230; Prazer corporal, mas espiritual tamb\u00e9m. Queria viver aquele meu amor, repetir outros momentos, iguais \u00e0quele\u201d (L., 1987).<\/p>\n<p>A pesquisa social e epidemiol\u00f3gica nos informava desde 1985 que uma cena como a de L. poderia ser masculina ou uma hist\u00f3ria feminina, de amor heterossexual ou homossexual, de algu\u00e9m bem jovem ou de pessoas na meia idade&#8230; n\u00e3o sei como o leitor a imaginou. J\u00e1 sab\u00edamos que o v\u00edrus n\u00e3o escolhe sexo, idade, religi\u00e3o, classe social, pa\u00eds ou continente, e se expande em contextos de maior vulnerabilidade social. \u201cQuando pegamos Aids n\u00e3o estamos pegando Aids, estamos fazendo outra coisa&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Depoimentos como estes ilustrariam cenas t\u00edpicas \u201cda transmiss\u00e3o do HIV\u201d, embora o discurso da preven\u00e7\u00e3o do HIV\/Aids raramente se refira ao momento da infec\u00e7\u00e3o pelo HIV nestes termos. <b>Fala-se de comportamentos e pr\u00e1ticas sexuais de risco, sem sentido, sem contexto, sem pessoa.<\/b> Como discutiremos a seguir, a abordagem \u201csexol\u00f3gica\u201d afirmou-se respondendo a \u201cproblemas\u201d demogr\u00e1ficos ou de sa\u00fade (mental ou sexual), contribuindo para produzir os discursos que Foucault chamou de bio-poder. A abordagem construcionista definiu como quest\u00e3o compreender a sexualidade como fen\u00f4meno social, a desigualdade entre os sexos, a subordina\u00e7\u00e3o das mulheres, a discrimina\u00e7\u00e3o sexual; nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas dedicou-se fortemente a compreender a epidemia da Aids e a viola\u00e7\u00e3o de direitos sexuais.<\/p>\n<p>Durante todo esse per\u00edodo, coexistiram nos discursos tecno-cient\u00edficos concep\u00e7\u00f5es sobre \u201ca\u201d sexualidade ancoradas nas no\u00e7\u00f5es de impulso, de for\u00e7a natural de imenso poder, poder que se opunha \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura. Culturas e sociedades apenas respondiam a essa for\u00e7a essencial, natural, essencialmente diferente entre homens e mulheres, considerada normal quando heterossexual. Com algumas nuances, esses te\u00f3ricos de diferentes disciplinas concordavam que, se a ci\u00eancia produzisse teorias sobre a sexualidade e revelasse sua natureza, a humanidade seria beneficiada por um maior equil\u00edbrio entre indiv\u00edduo e sociedade ou para rela\u00e7\u00f5es sexuais naturais e saud\u00e1veis,\u00a0a normalidade biol\u00f3gica teria sido \u201crevelada\u201d pelo laborat\u00f3rio e a normalidade\u00a0estat\u00edstica pelas pesquisas sobre cren\u00e7as, atitudes ou pr\u00e1ticas sexuais de popula\u00e7\u00f5es e grupos.<\/p>\n<p><b>Em outras palavras, embora atuem com base em sua autoridade t\u00e9cnica e cient\u00edfica &#8211; de psic\u00f3logos, educadores, m\u00e9dicos, assistentes sociais, enfermeiros, professores de primeiro e segundo grau &#8211; raramente foram formados para lidar com a sexualidade em contextos que n\u00e3o sejam propriamente terap\u00eauticos. Normatizam o sexo desej\u00e1vel, nomeando-o como \u201cmais saud\u00e1vel\u201d, baseados em valores e no\u00e7\u00f5es pessoais que reinterpretam a sofisticada teoriza\u00e7\u00e3o sexol\u00f3gica do s\u00e9culo XX.<\/b><\/p>\n<p>No final dos anos 60, o sexo inicia sua emancipa\u00e7\u00e3o da essencialidade e da reprodu\u00e7\u00e3o. A verdade sobre o sexo como vida instintiva ou impulsiva come\u00e7ou a ser questionada por te\u00f3ricos dos movimentos feminista e homossexual que contribu\u00edram definitivamente para a explos\u00e3o de estudos no campo das ci\u00eancias humanas e sociais, aprofundando a crise do paradigma sexol\u00f3gico. Essa perspectiva cr\u00edtica tem sido chamada de construcionista (contructionism) &#8211; o<b> discurso construcionista1 re-definiu o g\u00eanero e a identidade sexual, separou a identidade das pr\u00e1ticas sexuais, questionou o determinismo biol\u00f3gico, construiu a hist\u00f3ria da homossexualidade e da origem da domina\u00e7\u00e3o masculina.<\/b><\/p>\n<p>A categoria g\u00eanero, contribui\u00e7\u00e3o definitiva da teoria feminista, foi consagrada no final do s\u00e9culo XX como relevante categoria de an\u00e1lise social. Bastante citada, a historiadora Joan Scott (1995) definiu-a como constituinte das rela\u00e7\u00f5es sociais e de poder fundadas sobre as percep\u00e7\u00f5es das diferen\u00e7as entre os sexos.<\/p>\n<p>Chama de \u201cSexo\u201d (mai\u00fascula) o termo descritivo para as diferen\u00e7as anat\u00f4micas b\u00e1sicas, internas e externas, que diferenciam o homem da mulher; chama de \u201cg\u00eanero\u201d a diferencia\u00e7\u00e3o social entre homens e mulheres; de \u201csexualidade\u201d uma \u201cdescri\u00e7\u00e3o geral para s\u00e9rie de cren\u00e7as, comportamentos, rela\u00e7\u00f5es e identidades socialmente constru\u00eddas e historicamente modeladas relacionadas ao que Foucault denominou \u201co corpo e seus prazeres\u201d (Foucault, 1984).<\/p>\n<p><b>Ao inv\u00e9s de pensar que o sexo teria prioridade na explica\u00e7\u00e3o do comportamento, da cultura, da civiliza\u00e7\u00e3o e da sociedade (interpretado com base em regras de parentesco, libido, repress\u00e3o e tabus) passou se se a pensar como a atividade sexual (f\u00edsica e simb\u00f3lica) poderia configurar outras atividades sociais, expressando conjugalidade, trabalho, pol\u00edtica, neg\u00f3cio ou religi\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p>Como insistiu J. Weeks ao longo de sua obra: qualquer coisa pode ser sexualizada, nada seria intrinsecamente sexual.<\/p>\n<p>Os modelos te\u00f3ricos de constru\u00e7\u00e3o social do g\u00eanero e da sexualidade, de qualquer maneira, variam na sua radicalidade. Vance (1991\/1995) observou que <b>o construcionismo mais radical considera que at\u00e9 o desejo sexual \u00e9 constru\u00eddo pela cultura e pela hist\u00f3ria a partir das energias e capacidades do corpo; n\u00e3o existiria, portanto, \u201cimpulso\u201d ou \u201cpuls\u00e3o sexual\u201d, n\u00e3o se assumiria que funcionamentos ou sensa\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas sejam intr\u00ednsecos, nem talvez necess\u00e1rios.<\/b>Uma posi\u00e7\u00e3o mais moderada aceita implicitamente um\u00a0desejo inerente que ser\u00e1 constru\u00eddo em atos, identidade, comunidade e escolha de objeto.<\/p>\n<p>Seria injusto atribu\u00ed-la exclusivamente a Michel Foucault, que certamente produziu nesse processo o trabalho definitivo e mais conhecido sobre a sexualidade (Hist\u00f3ria da Sexualidade, 1976\/1988, 1984\/1990). Abordando a sexualidade no contexto de sua obra sobre saber e poder, Foucault superou o desconforto provocado por essa \u00e1rea de investiga\u00e7\u00e3o quase marginal ao mainstream acad\u00eamico, associada ao feminismo e \u00e0 cr\u00edtica homossexual. (Vance, 1991\/1995) Antes da obra de Foucault, entretanto, o construcionismo social americano de Simon &amp; Gagnon e de Rubin j\u00e1 influenciava a produ\u00e7\u00e3o marginalizada e a hist\u00f3ria da sexualidade em v\u00e1rios continentes era prof\u00edcua<br \/>\ncomo reflex\u00e3o sobre a g\u00eanese da subordina\u00e7\u00e3o feminina ou como hist\u00f3ria da homossexualidade.<\/p>\n<p><b>Um indiv\u00edduo ser\u00e1 sempre produto da intera\u00e7\u00e3o rec\u00edproca de muitos outros.<br \/>\n<\/b>O alcance da auto-consci\u00eancia se d\u00e1 por meio do outro, requer se colocar no lugar do \u201coutro generalizado\u201d, do surgimento do outro no self. A inova\u00e7\u00e3o ser\u00e1 fruto do fluxo ininterrupto da consci\u00eancia espont\u00e2nea da individualidade3 (do \u201cI\u201d) relacionada \u00e0 individualidade que foi configurada ou moldada pela sociedade (ao \u201cMe\u201d). O self \u00e9 processo que ocorre na rela\u00e7\u00e3o do Me (mim) com o I (eu). <b>Vivemos a pluralidade do sujeito que deve multiplicar sua agilidade na mobiliza\u00e7\u00e3o de scripts distintos, em diferentes cenas.<\/b><\/p>\n<p>Enrique Malo, por exemplo, ao pensar nas subjetividades de classe articuladas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, discutir\u00e1 que <b>n\u00e3o haveria apenas um \u201coutro generalizado\u201d, mas v\u00e1rios \u201coutros generalizados que constituem nossos audit\u00f3rios interiorizados<\/b>, aos quais replicamos\u201d (Malo, 2007, p. 17).<\/p>\n<p>Em recente entrevista, J. Gagnon afirmou que reduzir as coisas a textos e discursos seria um erro de Foucault, na medida em que a vida social consiste de atua\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es, de pessoas atuando em espa\u00e7os sociais. Indicou que <b>a no\u00e7\u00e3o de scripts para a conduta sexual que sua obra introduziu \u201caproxima-se mais do performativo que do discurso<\/b>\u201d (Gagnon, 2006, p. 416). Ao pensar a atividade sexual o autor come\u00e7ou pela situa\u00e7\u00e3o psicossexual, pensando-a como um processo em cujas conting\u00eancias as pessoas assimilam estilos de vida e, ao coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica, modificam o eu. Num segundo momento, abordou o mundo intersubjetivo da cultura, os \u201ccen\u00e1rios culturais\u201d definidos por ele como \u201co sistema semi\u00f3tico de instru\u00e7\u00f5es que \u00e9 o espa\u00e7o intersubjetivo do s\u00f3ciocultural\u201d.<\/p>\n<p>Os arranjos sociais onde a sexualidade se realiza comporiam uma matriz que teria, num eixo, os eventos roteirizados (\u201cscripts\u201d) e, em outro eixo, os \u201catores\u201d.<\/p>\n<p>Prefiro atualmente n\u00e3o traduzir a palavra script como roteiro. Script, palavra inclu\u00edda nos dicion\u00e1rios da l\u00edngua portuguesa, indica mais diretamente a inspira\u00e7\u00e3o dramat\u00fargica e ao mesmo tempo a no\u00e7\u00e3o de \u201cprescri\u00e7\u00e3o\u201d que mant\u00e9m em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Como discutimos mais detalhadamente em outros textos (Paiva, 2000, 2006), cenas densamente descritas s\u00e3o um valioso recurso metodol\u00f3gico que pode ser coproduzido numa entrevista, na resposta a um question\u00e1rio, narradas ou dramatizadas em abordagens individuais ou em grupo, em reda\u00e7\u00f5es e trabalhos escolares, compartilhada num encontro cl\u00ednico com um nutricionista, ginecologista, infectologista ou num centro.<br \/>\n<b>Uma comunica\u00e7\u00e3o efetiva permitir\u00e1 que o pensar informado pela normalidade t\u00e9cnica dialogue com a normatividade compartilhada em cada local, dialogue com \u201coutros generalizados\u201d.<\/b><\/p>\n<p>Vera Paiva<br \/>\nhttp:\/\/www.scielo.br\/pdf\/pe\/v13n4\/v13n4a02.pdf<\/p>\n<p>Postado por <a title=\"author profile\" href=\"http:\/\/www.blogger.com\/profile\/02396280985816174791\">Marcela <\/a>\u00e0s <a title=\"permanent link\" href=\"http:\/\/outrascrateras.blogspot.com.br\/2011\/02\/psicologia-redescobrira-sexualidade.html\">05:52<\/a> <a href=\"http:\/\/outrascrateras.blogspot.com.br\/2011\/02\/psicologia-redescobrira-sexualidade.html#comment-form\">Nenhum coment\u00e1rio: <\/a><\/p>\n<p>Marcadores: <a href=\"http:\/\/outrascrateras.blogspot.com.br\/search\/label\/educa%C3%A7%C3%A3o%20sexual\">educa\u00e7\u00e3o sexual<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Extra\u00eddo do site outrascrateras.blogspot.com.br\/ . . .) domingo, 27 de fevereiro de 2011 O senso comum indica o psic\u00f3logo como o profissional mais preparado para dar conta da sexualidade. 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