{"id":15582,"date":"2023-12-19T10:52:43","date_gmt":"2023-12-19T13:52:43","guid":{"rendered":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=15582"},"modified":"2023-12-19T10:52:43","modified_gmt":"2023-12-19T13:52:43","slug":"ninguem-nunca-viu-a-deus-para-a-mistica-a-verdade-e-sempre-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/ninguem-nunca-viu-a-deus-para-a-mistica-a-verdade-e-sempre-interior\/","title":{"rendered":"&#8220;Ningu\u00e9m nunca viu a Deus&#8221; Para a m\u00edstica a verdade \u00e9 sempre interior"},"content":{"rendered":"<h2><strong><span style=\"color: #000080;\">&#8220;Ningu\u00e9m nunca viu a Deus&#8221;<\/span><\/strong><\/h2>\n<h2><em><span style=\"color: #993300;\">Para a m\u00edstica a verdade \u00e9 sempre interior.<\/span><\/em><\/h2>\n<p><span style=\"color: #008000;\">M\u00e1rcia Junges e Ricardo Machado\u00a0<\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/d\/d5\/Marco-vannini-2011.jpg\/220px-Marco-vannini-2011.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>O italiano Marco Vannini discute a m\u00edstica, trazendo a experi\u00eancia do nada e do mist\u00e9rio como elementos importantes para pensar a problem\u00e1tica<\/em><\/p>\n<p><strong><em><span style=\"color: #993300;\">Marco Vannini<\/span><\/em><\/strong>, um dos principais nomes sobre o tema no mundo, n\u00e3o considera que a m\u00edstica seja uma experi\u00eancia do mist\u00e9rio. \u201cO assim chamado mist\u00e9rio \u00e9 colocado por n\u00f3s, e a n\u00f3s s\u00e3o dadas as respostas. Certamente, h\u00e1 coisas que ignoramos, e a realidade de Deus \u00e9 uma delas, pelo que podemos falar sempre e em qualquer caso somente da nossa experi\u00eancia, evitando como a peste a tenta\u00e7\u00e3o de dizer que ela \u00e9 a \u2018experi\u00eancia de Deus\u2019\u201d, sustenta Vannini em entrevista por e-mail \u00e0 IHU On-Line. \u201cA experi\u00eancia do esp\u00edrito \u00e9 o conhecimento da nossa mais real ess\u00eancia, que \u00e9 a ess\u00eancia humana, al\u00e9m de cada distin\u00e7\u00e3o acidental de cultura, religi\u00f5es, modos de vida, todos relacionados com a conting\u00eancia espa\u00e7o-temporal, e tamb\u00e9m al\u00e9m da diferen\u00e7a de g\u00eanero, que subsiste em n\u00edvel corp\u00f3reo e, em certa medida, tamb\u00e9m em n\u00edvel ps\u00edquico, mas \u00e9 inexistente no n\u00edvel espiritual\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Marco Vannini, a experi\u00eancia da aus\u00eancia \u00e9, na realidade, a mesma do \u201cnada\u201d. \u201cA experi\u00eancia do nada n\u00e3o \u00e9 somente negativa, tr\u00e1gica, mas pode ser sim extremamente frut\u00edfera, como purificadora de todos os \u00eddolos, de toda a pretensa certeza\u201d, considera. Para o pensador, vivemos em momento hist\u00f3rico em que a hist\u00f3ria e a ci\u00eancia erodiram a cren\u00e7a que a f\u00e9 proporcionava. \u201c\u2018O deserto cresce\u2019, Nietzsche j\u00e1 advertia h\u00e1 um s\u00e9culo e meio que cada parte \u00e9 respons\u00e1vel pela a aus\u00eancia de prop\u00f3sito, o nada no seu sentido mais tr\u00e1gico\u201d, sustenta. \u201cQuando v\u00e1rias correntes m\u00edsticas compreendem cada uma o espec\u00edfico da outra, entendem que s\u00e3o gotas do mesmo mar\u201d, avalia o entrevistado.<\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> \u00e9 um dos maiores estudiosos italianos da m\u00edstica especulativa. Al\u00e9m de ter editado Mestre Eckhart e muitos outros m\u00edsticos, ele \u00e9 autor de La morte dell\u2019anima. Dalla mistica alla psicologia (Ed. Le Lettere, 2004); Storia della mistica occidentale (Ed. Mondadori, 2005); Mistica e filosofia (Ed. Le Lettere, 2007); La mistica delle grande religioni (Ed. Le Lettere, 2010); Prego Dio che mi liberi da Dio (Ed. Bompiani, 2010), dentre outros. Em portugu\u00eas, foi traduzida a sua Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00edstica (Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2005).<\/p>\n<p>Neste ano Marco Vannini publicou os seguintes livros: Lessico M\u00edstico. Le parole della saggezza (Le Lettere: Firenze, 2013), Oltre il Cristianesimo. Da Eckhart a Le Saux (Bompiani: Mil\u00e3o, 2013) e, juntamente com Corrado Augias, Inchiesta su Maria. La storia vera della fanciulla che divenne mito (Rizzoli: Mil\u00e3o, 2013).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em que sentido a m\u00edstica \u00e9 uma experi\u00eancia do Mist\u00e9rio? Como a modernidade compreende essa viv\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; N\u00e3o direi absolutamente que a m\u00edstica seja a experi\u00eancia do mist\u00e9rio. O assim chamado mist\u00e9rio \u00e9 colocado por n\u00f3s, e a n\u00f3s s\u00e3o dadas as respostas. Certamente, h\u00e1 coisas que ignoramos, e a realidade de Deus \u00e9 uma delas (Deum nemo vidit unquam, diz S\u00e3o Jo\u00e3o)\u00a0 , pelo que podemos falar sempre e em qualquer caso somente da nossa experi\u00eancia, evitando como a peste a tenta\u00e7\u00e3o de dizer que ela \u00e9 a \u201cexperi\u00eancia de Deus\u201d. Podemos, todavia, dizer que \u00e9 experi\u00eancia de uma profundidade \u2014 ou de uma altura \u2014 vertiginosa que vivemos como experi\u00eancia da realidade mais essencial de n\u00f3s mesmos, e, juntamente, como experi\u00eancia de uma bem-aventuran\u00e7a de outra maneira absolutamente desconhecida. Por certo, ela se refere implicitamente \u00e0 luz eterna, ao Bem, ou seja, ao que chamamos comumente Deus, mas n\u00e3o podemos, a rigor, deduzir nenhuma teologia e, nesse sentido, o mist\u00e9rio permanece um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Acredito que a modernidade n\u00e3o aceita \u2014 e com raz\u00e3o \u2014 as afirma\u00e7\u00f5es dos te\u00f3logos, ou dos que se dizem m\u00edsticos, de apresentar sua pr\u00f3pria viv\u00eancia como experi\u00eancia de conhecimento de Deus, experi\u00eancia de Deus, mas, em vez disso, compreende perfeitamente, e at\u00e9 aceita de bom grado, por seu car\u00e1ter de verdadeiro conhecimento mil vezes superior ao das psicologias superficiais, a experi\u00eancia m\u00edstica como experi\u00eancia de n\u00f3s mesmos, no sentido rec\u00e9m-indicado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o as palavras fundamentais, o l\u00e9xico que pode descrever a m\u00edstica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; No meu L\u00e9xico M\u00edstico, publicado este ano, descrevi umas sessenta palavras importantes para a m\u00edstica, mas tamb\u00e9m poder\u00edamos acrescentar outras. Elas s\u00e3o todas importantes, pelo menos no sentido de que a realidade \u00e9 uma s\u00f3, pelo que todas as palavras e os conceitos est\u00e3o indissoluvelmente ligados uns aos outros, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel isol\u00e1-los, por assim dizer, e descrev\u00ea-los isoladamente, sem, em conjunto, referirem-se tamb\u00e9m \u00e0s outras. Se eu devo fazer uma hierarquia, direi que algumas das principais palavras-chave s\u00e3o: amor, desapego, humildade, Uno, vazio.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Em outra entrevista \u00e0 nossa publica\u00e7\u00e3o , o senhor afirmou que a experi\u00eancia do esp\u00edrito vai muito al\u00e9m das distin\u00e7\u00f5es espa\u00e7o-temporais e de g\u00eanero. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de se pensar uma m\u00edstica para al\u00e9m dessas categorias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Como dizia acima, a experi\u00eancia do esp\u00edrito \u00e9 o conhecimento da nossa mais real ess\u00eancia, que \u00e9 a ess\u00eancia humana, al\u00e9m de cada distin\u00e7\u00e3o acidental de cultura, religi\u00f5es, modos de vida, todos relacionados com a conting\u00eancia espa\u00e7o-temporal, e tamb\u00e9m al\u00e9m da diferen\u00e7a de g\u00eanero, que subsiste em n\u00edvel corp\u00f3reo e, em certa medida, tamb\u00e9m em n\u00edvel ps\u00edquico, mas \u00e9 inexistente no n\u00edvel espiritual. \u00c9 evidente que esse conhecimento estabelece uma comunh\u00e3o entre todos os seres humanos, em todos os lugares (e em todos os tempos), infinitamente superior \u00e0quela que se desejaria fundar sobre categorias de car\u00e1ter pol\u00edtico-social (por exemplo, a do direito) ou moral-religioso (por exemplo, o assim chamado ecumenismo), pois est\u00e3o elas mesmas sujeitas ao condicionamento espa\u00e7o-temporal.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que \u00e9 preciso partir da antropologia cl\u00e1ssica para compreender a m\u00edstica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini <\/strong>&#8211; Porque a antropologia cl\u00e1ssica \u2014 bem como a crist\u00e3 que dela se deriva \u2014 tem a experi\u00eancia do ser humano como corpo, alma, esp\u00edrito, enquanto aquela que prevalece em nossos tempos ignora simplesmente a realidade espiritual, e permanece no dualismo corpo-alma, de fato, corpo-psique. Assim o esp\u00edrito, em vez de ser o que \u00e9, ou seja, o constituinte essencial do homem, desaparece em meio \u00e0 n\u00e9voa da indetermina\u00e7\u00e3o \u2014 tamb\u00e9m em n\u00edvel teol\u00f3gico (o Esp\u00edrito Santo). \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, primeiro ter uma experi\u00eancia do esp\u00edrito, e isso somente \u00e9 poss\u00edvel ao se recuperar a conex\u00e3o entre filosofia e misticismo, sem o que essa se perde no sentimentalismo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Por que a institui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica sempre suspeitou da m\u00edstica enquanto tal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Em primeiro lugar, porque a m\u00edstica \u00e9 como a filosofia \u2014 na verdade, a m\u00edstica \u00e9 filosofia, como acertadamente revela Pierre Hadot\u00a0 \u2014 e, como tal, n\u00e3o reconhece nenhuma autoridade acima da correta raz\u00e3o. Em segundo lugar, porque para a m\u00edstica a verdade \u00e9 sempre interior, e o pr\u00f3prio Deus interior intimo meo, como disse Agostinho , para o qual a rela\u00e7\u00e3o com Deus existe somente na interioridade, sem media\u00e7\u00e3o alguma, e isso, obviamente, tira n\u00e3o s\u00f3 o peso da Igreja, como tamb\u00e9m da Escritura. Em terceiro lugar, enfim, para a m\u00edstica, a experi\u00eancia paulina da unidade e da liberdade do esp\u00edrito \u00e9 intr\u00ednseca: quid adhaeret domino, unus spiritus est, e ubi spiritus domini, ibi libertas\u00a0 , e esse segundo elemento, a liberdade, \u00e9 sempre percebido como perigoso, tanto pela autoridade eclesi\u00e1stica, quanto pela civil.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 o legado m\u00edstico de Etty Hillesum , \u00c2ngela de Foligno\u00a0 e Marguerite Porete ? Quais s\u00e3o as peculiaridades da rela\u00e7\u00e3o dessas mulheres com a transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Trata-se de tr\u00eas figuras femininas muito distantes n\u00e3o somente no tempo \u2014 \u00c2ngela e Marguerite do s\u00e9culo XIII ao s\u00e9culo XIV, Etty do s\u00e9culo XX \u2014 mas tamb\u00e9m de caracter\u00edsticas pessoais, meio ambiente, cultura, at\u00e9 mesmo religi\u00e3o, visto que Etty era de fam\u00edlia judia. Diria em primeiro lugar que elas, juntas, mostram como a experi\u00eancia m\u00edstica tem sempre elementos essenciais comuns, n\u00e3o obstante as diferen\u00e7as espa\u00e7o-temporais, como disse anteriormente. Com a transcend\u00eancia h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o apenas no sentido da aus\u00eancia que poder\u00edamos expressar, utilizando as palavras de outra grande mulher m\u00edstica de nosso tempo, Simone Weil : \u201cO contato com as criaturas nos \u00e9 dado pelo sentido da presen\u00e7a, o contato com Deus nos \u00e9 dado pelo sentimento da aus\u00eancia. Em compara\u00e7\u00e3o com essa aus\u00eancia, no entanto, a presen\u00e7a \u00e9 mais ausente que a aus\u00eancia\u201d. Essa \u00e9 tamb\u00e9m a heran\u00e7a mais importante que recebemos delas.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 a import\u00e2ncia do Nada na m\u00edstica dessas tr\u00eas mulheres? E qual \u00e9 a atualidade dessa compreens\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o com a transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; A resposta a essa pergunta est\u00e1, pelo menos implicitamente, j\u00e1 contida na precedente. A experi\u00eancia da aus\u00eancia \u00e9, na realidade, \u201ca mesma do nada e n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que ela seja de singular atualidade no tempo presente, quanto o era na \u00e9poca do niilismo\u201d. Essas mulheres mostraram que a experi\u00eancia do nada n\u00e3o \u00e9 somente negativa, tr\u00e1gica, mas pode ser sim extremamente frut\u00edfera, como purificadora de todos os \u00eddolos, de toda a pretensa certeza. Acontece, portanto, que se mant\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, de toda a alma, em dire\u00e7\u00e3o ao Absoluto, ou seja, a f\u00e9. Como n\u00e3o lembrar o que ensina S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz ? A f\u00e9 n\u00e3o produz certezas, mas conduz na noite, isto \u00e9, no nada, mas \u00e9 precisamente nessa noite, nesse nada, que resplandece a luz.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como tais experi\u00eancias m\u00edsticas podem inspirar e dar sentido \u00e0 exist\u00eancia em nosso tempo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Tamb\u00e9m essa pergunta conecta-se \u00e0s duas precedentes, e a resposta \u00e9 similar. Estamos realmente em um momento em que a hist\u00f3ria e a ci\u00eancia erodiram a cren\u00e7a de que a f\u00e9 proporcionava at\u00e9 ontem. \u201cO deserto cresce\u201d, Nietzsche\u00a0 j\u00e1 advertia h\u00e1 um s\u00e9culo e meio que cada parte \u00e9 respons\u00e1vel pela a aus\u00eancia de prop\u00f3sito, o nada no seu sentido mais tr\u00e1gico. Eis ent\u00e3o que um testemunho como o de Etty, que descobre a presen\u00e7a de Deus no meio do campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista onde ela mesma est\u00e1 trancada por ajudar os seus compatriotas, e naquele horror foi capaz de pensar e escrever que estava bem assim, que tudo estava bem, assume um relevo verdadeiramente extraordin\u00e1rio, muito mais aut\u00eantico e convincente do que tanta teologia, para n\u00e3o falar das psicologias.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual \u00e9 a principal peculiaridade sobre a m\u00edstica de Maria, m\u00e3e de Jesus\u00a0 ?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Maria \u00e9 mesmo o arqu\u00e9tipo da m\u00edstica pelos tra\u00e7os que lhe caracterizam a figura \u2014 a \u00fanica testemunhada nos Evangelhos \u2014 ou seja, humildade e desapego. S\u00e3o esses os elementos que comp\u00f5em o vazio na alma, ou seja, matam o amor a si pr\u00f3prio e deixam o espa\u00e7o \u00e0 gra\u00e7a de Deus. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que ela \u00e9, desde o princ\u00edpio, chamada de \u201ccheia de gra\u00e7a\u201d. Os grandes m\u00edsticos de todos os tempos, de Or\u00edgenes\u00a0 a Meister Eckhart a Angelus Silesius , compreenderam muit\u00edssimo bem como o nascimento do Filho, do Logos, n\u00e3o estava somente uma vez no ventre de Maria, mas em todo o tempo, em cada instante, em cada alma humilde e distante, que criou o vazio em si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Que aproxima\u00e7\u00f5es poderiam ser tecidas entre a m\u00edstica crist\u00e3, a brahmane\u00a0 e a budista? Nesse sentido, quais s\u00e3o as sutilezas da m\u00edstica de Mestre Eckhart e Herni Le Saux ?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marco Vannini<\/strong> &#8211; Diria que, se for verdade, como \u00e9 verdade, a m\u00edstica \u00e9 sempre substancialmente igual a si mesma, de modo que os grandes m\u00edsticos de todos os tempos assemelham-se \u201cdesde quase a identidade\u201d, como dizia Simone Weil; por outro lado, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que os v\u00e1rios m\u00edsticos colocam \u00eanfase em diferentes aspectos da experi\u00eancia \u00fanica. Reconhecer a realidade do esp\u00edrito, matar o ego\u00edsmo de apropria\u00e7\u00e3o, extinguir o desejo, tornar vazio a si pr\u00f3prio s\u00e3o elementos presentes em cada m\u00edstica, por\u00e9m desenvolvidos e enfatizados em alguns mais que em outros. Sob esse aspecto diria que o cristianismo, o bramanismo e o budismo s\u00e3o complementares.<\/p>\n<p>Coloquei De Eckhart a Le Saux como subt\u00edtulo do meu \u00faltimo livro Oltre il cristianesimo (Milano: Editora Bompiani, 2013) para evidenciar como, da Idade M\u00e9dia at\u00e9 hoje, a experi\u00eancia de um \u201ceu sou\u201d no fundo da alma, \u00e9 completamente id\u00eantica a das palavras de Jesus: \u201cAntes que Abra\u00e3o existisse, eu sou\u201d, constitu\u00eda o n\u00facleo essencial do cristianismo \u2014 \u201cmais al\u00e9m\u201d o cristianismo como teologia ligada aos tempos e lugares. A import\u00e2ncia de Le Saux n\u00e3o \u00e9 maior que a de Eckhart, mas, para n\u00f3s, talvez, a mais significativa, uma vez que se trata de um nosso contempor\u00e2neo, com uma imagem de mundo que certamente n\u00e3o \u00e9 medieval, e ent\u00e3o passada por interm\u00e9dio da cultura e da espiritualidade da \u00cdndia, que foi a que revelou o verdadeiro significado do cristianismo.<\/p>\n<p>Quando v\u00e1rias correntes m\u00edsticas compreendem cada uma o espec\u00edfico da outra, entendem que s\u00e3o gotas do mesmo mar.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/5325-marco-vannini-2\">ihuonline.unisinos.br\/artigo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Ningu\u00e9m nunca viu a Deus&#8221; Para a m\u00edstica a verdade \u00e9 sempre interior. 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