{"id":1760,"date":"2013-10-13T20:07:28","date_gmt":"2013-10-13T23:07:28","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=1760"},"modified":"2013-10-13T20:07:28","modified_gmt":"2013-10-13T23:07:28","slug":"culpa-e-responsabilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/culpa-e-responsabilidade\/","title":{"rendered":"Culpa e Responsabilidade"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><i>D\u00e9cio Iandoli J\u00fanior<\/i><\/p>\n<\/div>\n<p>Segundo o dicion\u00e1rio, <b>culpa<\/b> \u00e9:<\/p>\n<p><i>\u201cFalta <b><span style=\"text-decoration: underline;\">volunt\u00e1ria<\/span><\/b> a uma obriga\u00e7\u00e3o, ou a um princ\u00edpio \u00e9tico\u201d<\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o vamos nos deter aqui aos aspectos jur\u00eddicos que o termo possa vir a ter, vamos analisar apenas esta abordagem que nos remete de maneira mais clara ao cerne da quest\u00e3o \u00e0 qual pretendemos analisar.<\/p>\n<p>No dicion\u00e1rio <b>responsabilidade<\/b> \u00e9:<\/p>\n<p><i>\u201cQualidade ou condi\u00e7\u00e3o de respons\u00e1vel\u201d<\/i><\/p>\n<p>E <b>respons\u00e1vel<\/b> \u00e9:<\/p>\n<p><i>\u201cQue d\u00e1 lugar a, que \u00e9 <b><span style=\"text-decoration: underline;\">causa<\/span><\/b> de (algo)<\/i><\/p>\n<p>Creio que fica bastante claro, como ponto de partida, a diferen\u00e7a entre culpa e responsabilidade, diferen\u00e7a que se estabelece no momento em que inserimos a id\u00e9ia de consci\u00eancia, por isso grifamos a palavra \u201cvolunt\u00e1ria\u201d na defini\u00e7\u00e3o do dicion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a que parece bastante simples segundo uma vis\u00e3o mais etimol\u00f3gica dos termos, se confunde e perde a nitidez de seus limites quando passamos a aplic\u00e1-las em nosso cotidiano.<\/p>\n<p>Acredito ser bastante significativa a express\u00e3o muito utilizada pelos crist\u00e3os, de maneira geral, que diz: \u201cTenho <span style=\"text-decoration: underline;\">temor<\/span> a Deus\u201d.<\/p>\n<p>A palavra temor significa ato ou efeito de temer, ter medo, receio diante de uma amea\u00e7a, pois bem, seria Deus causa de medo, seria Deus uma amea\u00e7a?<\/p>\n<p>Esta express\u00e3o acabou por significar tamb\u00e9m respeito ou zelo, mas \u00e9 na sua origem o mesmo que ter medo, medo do poder supremo de um deus vingativo e implac\u00e1vel diante dos erros cometidos, confundindo justi\u00e7a com intoler\u00e2ncia, \u00e9 a heran\u00e7a da culpa judaico-crist\u00e3 que trazemos atavicamente.<\/p>\n<p>Os grandes vultos no cristianismo nascente foram quase todos m\u00e1rtires, dando a id\u00e9ia de que s\u00f3 se pode conquistar o \u201creino dos c\u00e9us\u201d com o sacrif\u00edcio extremo e a abnega\u00e7\u00e3o absoluta.<\/p>\n<p>Os tempos s\u00e3o outros, os esp\u00edritos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Toco neste assunto por acreditar ser ele de fundamental import\u00e2ncia na compreens\u00e3o do que considero a mais importante de todas as mensagens do Cristo, ou seja, somos respons\u00e1veis por nossos atos e pensamentos, somos respons\u00e1veis por nossas vidas, nossas felicidades ou infelicidades, mas nem sempre, somos culpados por nossos erros ou pelas conseq\u00fc\u00eancias funestas que nossos atos possam ter, acusando aqui como limite de uma coisa e de outra, o grau de consci\u00eancia que temos quando atuamos em nossas vidas e quando notamos a repercuss\u00e3o daquilo que falamos ou fazemos.<\/p>\n<p>As leis naturais, universais ou divinas \u2013 chame como quiser &#8211; atribuem a cada um, na medida de sua evolu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de seu livre arb\u00edtrio, a responsabilidade de seus atos enquanto n\u00f3s dirigimos nossas atitudes, mais verdadeiramente quanto maior for nossa consci\u00eancia daquilo que se passa ao nosso redor. Entretanto, estamos suscet\u00edveis \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias de nossas a\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o nos mostrando por tentativa e erro, os caminhos que escolhemos no exerc\u00edcio daquilo que podemos chamar livre arb\u00edtrio, visto que, n\u00e3o raro, aquilo que \u201cdecidimos\u201d \u00e9 muito mais a a\u00e7\u00e3o do meio sobre n\u00f3s do que propriamente uma escolha.<\/p>\n<p>Invariavelmente, o erro nos remete \u00e0 responsabilidade que tivemos, j\u00e1 que nos reconhecemos como causa, por\u00e9m vem de arrebate a culpa que nos martiriza.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos aqui a entrar no ponto principal da quest\u00e3o, pois a culpa s\u00f3 poderia ser atribu\u00edda \u00e0quele que tinha plena consci\u00eancia do erro em curso, assim como das conseq\u00fc\u00eancias dele, e \u00e9 tanto menor quanto menor for a vontade de prejudicar, de causar dano.<\/p>\n<p>A falta de culpa n\u00e3o exime ningu\u00e9m das conseq\u00fc\u00eancias que causa, mas a culpa tolhe suas possibilidades de recupera\u00e7\u00e3o na medida em que provoca a auto-condena\u00e7\u00e3o e leva ao mart\u00edrio que n\u00e3o produz efeito ben\u00e9fico nem a ele, autor da a\u00e7\u00e3o, tampouco \u00e0quele ou \u00e0queles que sofreram o dano, assim, a percep\u00e7\u00e3o do erro posterior ao seu cometimento, deve provocar sim, a conscientiza\u00e7\u00e3o seguida da a\u00e7\u00e3o de reparo que se possa ter, e da preven\u00e7\u00e3o da recidiva que possa ocorrer.<\/p>\n<p>O complexo de culpa \u00e9 que nos condena ao sofrimento in\u00fatil, que nos paralisa diante da vida e das pessoas, que nos amedronta diante das novas possibilidades, engessando nossa vida e desativando todo o cabedal de virtudes que possu\u00edmos e que poderiam estar trabalhando a nosso favor e a favor dos que nos cercam.<\/p>\n<p>A responsabilidade faz evoluir, a culpa faz sofrer, por isso \u00e9 que acredito que a necessidade de desenvolver nossa capacidade de perdoar o outro, tem muito a ver com o auto-perd\u00e3o evitando o complexo de culpa.<\/p>\n<p>Acredito que perdoar o outro \u00e9 mais f\u00e1cil do que perdoar-se, sendo assim, o exerc\u00edcio do perd\u00e3o ao outro alarga nossa toler\u00e2ncia e nossa compreens\u00e3o, diminuindo nosso sentimento de culpa diante dos erros diagnosticados no outro e, conseq\u00fcentemente, em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de nossa falibilidade \u00e9 que nos d\u00e1 as ferramentas para desenvolvermos a capacidade de perdoar, o que eu colocaria como sendo a capacidade de eximir de culpa, mas n\u00e3o de responsabilidade.<\/p>\n<p>Evitar as conseq\u00fc\u00eancias de nossos erros n\u00e3o \u00e9 did\u00e1tico e n\u00e3o produz evolu\u00e7\u00e3o; tal qual a culpa paralisante n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>O entendimento das causas do erro alheio leva \u00e0 percep\u00e7\u00e3o da falta de culpa e nos estimula ao entendimento da nossa pr\u00f3pria, facilitando sua dissipa\u00e7\u00e3o, e aqui, cito o questionamento de Tolstoy que, acredito, traduza de maneira cristalina o que tento demonstrar:<\/p>\n<p><i>\u201cOnde est\u00e1 o livro da lei mais claro para o homem do que aquele que est\u00e1 escrito em seu cora\u00e7\u00e3o?\u201d<\/i><\/p>\n<p>Escrita essa que vamos aperfei\u00e7oando a cada experi\u00eancia, boa ou m\u00e1, a cada viv\u00eancia que nos acrescenta recursos para ver com clareza a realidade que rege nossas vidas e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vou utilizar aqui um exemplo que considero fundamental.<\/p>\n<p>Na condena\u00e7\u00e3o que fazemos ao aborto, muitas vezes sentimos aflorar o complexo de culpa daquelas que j\u00e1 o cometeram, e que j\u00e1 foi bem estudado pela psicologia moderna sendo identificado como uma das mais agressivas e brutais de todas as experi\u00eancias traum\u00e1ticas que podem acometer a mulher.<\/p>\n<p>A pesquisa realizada na universidade de Oslo na Noruega e publicada em 2005<a>[1]<\/a> identificou o grande trauma ps\u00edquico para as mulheres que provocaram o aborto, e que \u00e9 significativamente maior do que no grupo de mulheres que sofreram um aborto espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>Mesmo para aquelas que t\u00eam um discurso de aprova\u00e7\u00e3o do aborto e que n\u00e3o referem culpa por terem-no praticado, apresentam sinais e sintomas de trauma psicol\u00f3gico e sofrimento, que foi acompanhado no referido trabalho por at\u00e9 cinco anos. Fica como uma marca profunda a experi\u00eancia do aborto devido ao sentimento de culpa que gera, impactando seu equil\u00edbrio emocional e social.<\/p>\n<p>Dito isso podemos passar a analisar a situa\u00e7\u00e3o da seguinte maneira:<\/p>\n<p>Mesmo que nos fosse poss\u00edvel criticar ou condenar quem quer que seja, coisa que temos a mais profunda consci\u00eancia de que n\u00e3o podemos fazer (quem nunca pecou que atire a primeira pedra), e mesmo tendo plena consci\u00eancia de que, estiv\u00e9ssemos n\u00f3s na situa\u00e7\u00e3o das mulheres que fizeram o aborto, talvez ag\u00edssemos da mesma forma, temos a obriga\u00e7\u00e3o de esclarecer, com rela\u00e7\u00e3o ao aborto, a responsabilidade do ato e as conseq\u00fc\u00eancias do mesmo para o feto abortado e para a mulher que abortou, assim como foi t\u00e3o bem demonstrado na pesquisa acima citada. Portanto, n\u00e3o atribu\u00edmos culpa, mas lembramos a responsabilidade que leva \u00e0 dor e ao sofrimento.<\/p>\n<p>Sendo assim a condena\u00e7\u00e3o do aborto n\u00e3o \u00e9 acompanhada da condena\u00e7\u00e3o das mulheres que o provocaram, mas \u00e9 a a\u00e7\u00e3o consciente de preven\u00e7\u00e3o do ato, porquanto tentamos evitar os efeitos da responsabilidade, na mesma medida em que esperamos dissipar seus complexos de culpa e mostrar-lhes que n\u00e3o h\u00e1 porque continuar mantendo a dor de um ato muitas vezes desprovido de reflex\u00e3o, ou cometido devido \u00e0 condu\u00e7\u00e3o do meio ou das pessoas que os cercavam. Aos que praticaram tal ato cabe aux\u00edlio e esclarecimento, n\u00e3o condena\u00e7\u00e3o, pois apesar de respons\u00e1veis, nem sempre s\u00e3o culpados.<\/p>\n<p>Como nos asseverou Harry Weinberger (1888\u20131944):<\/p>\n<p>\u201cO maior direito no mundo \u00e9 o direito de errar\u201d<\/p>\n<p>Mesmos os culpados tem direito ao arrependimento e \u00e0 mudan\u00e7a de postura.<\/p>\n<p>De nada adianta deixar a ferrugem da culpa corroer nossas for\u00e7as, coisa que em nada vai reparar ou reconstruir nossas vidas, \u00e9 necess\u00e1rio sim reconhecer nossos erros para evit\u00e1-los no futuro, mas trabalhar conscientes de nossa falibilidade, e certos de nosso melhoramento.<\/p>\n<p>Um Deus infinitamente bom e justo nunca poderia condenar, pois Ele, e s\u00f3 Ele, tem todo o conhecimento e a percep\u00e7\u00e3o, e por isso mesmo n\u00e3o condena, auxilia, n\u00e3o pune, esclarece, Deus ama, e por isso educa.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de nos livrarmos da culpa, \u00e9 hora de trabalho, n\u00e3o de lamenta\u00e7\u00e3o, assim como \u00e9 hora de assumirmos nossas responsabilidades, pois j\u00e1 somos sabedores das leis e suas conseq\u00fc\u00eancias, resta trabalhar para ser feliz.<\/p>\n<p>Nunca dever\u00edamos nos esquecer do s\u00e1bio Chico Xavier que lembrou certa vez:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o podemos mudar o in\u00edcio, mas podemos, a partir de hoje, construir um final mais feliz\u201d<\/p>\n<p><a>[1]<\/a> Broen A N, Moum T, Bodtker A S, Ekeberg O: <b>The course of mental health after miscarriage and induced abortion: a longitudinal, Five-year follow-up study.<\/b> <i>BMC Medicine<\/i> 2005, <b>3<\/b>:18.<\/p>\n<div>\n<p>\u00a0<strong>D\u00e9cio Iandoli J\u00fanior\u00a0(Santos\/SP)<\/strong><\/p>\n<p>Prof. Dr. D\u00e9cio Iandoli Jr. \u2013 Com doutorado em medicina pela UNIFESP-EPM, \u00e9 professor titular da cadeira de Fisiologia nos cursos de Fisioterapia, Farm\u00e1cia e Biologia da Universidade Santa Cec\u00edlia (UNISANTA), respons\u00e1vel pela disciplina de Envelhecimento e Espiritualidade do curso de Gerontologia da UNISANTA, atual vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Esp\u00edrita de Santos (AME-Santos), e autor dos livros \u201cFisiologia Transdimensional\u201d, \u201cSer M\u00e9dico e Ser Humano\u201d e \u201cA Reencarna\u00e7\u00e3o Como Lei Biol\u00f3gica\u201d editados pela FE. Apresenta o programa \u201cCi\u00eancia e Espiritualidade\u201d pela TV Mundo Maior. 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