{"id":886,"date":"2013-05-09T09:16:47","date_gmt":"2013-05-09T12:16:47","guid":{"rendered":"http:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/?p=886"},"modified":"2013-05-09T09:19:57","modified_gmt":"2013-05-09T12:19:57","slug":"886","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/xn--regeneraoplanetria-dsb6a7f.com.br\/index.php\/886\/","title":{"rendered":"O Maravilhoso e o Sobrenatural"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">O LIVRO DOS M\u00c9DIUNS &#8211; CAP\u00cdTULO II<\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u00a0<\/b><b>O MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL<\/b><\/p>\n<p>\u00a07. Se a cren\u00e7a nos Esp\u00edritos e nas suas manifesta\u00e7\u00f5es representasse uma concep\u00e7\u00e3o singular, fosse produto de um sistema, poderia, com visos de raz\u00e3o, merecer a suspeita de ilus\u00f3ria. Digam-nos, por\u00e9m, por que com ela deparamos t\u00e3o vivaz entre todos os povos, antigos e modernos, e nos livros santos de todas as religi\u00f5es conhecidas? E, respondem os cr\u00edticos, porque, desde todos os tempos, o homem teve o gosto do maravilhoso. &#8211; Mas, que entendeis por maravilhoso? &#8211; O que \u00e9 sobrenatural. &#8211; Que entendeis por sobrenatural? &#8211; O que \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0s leis da Natureza. &#8211; Conheceis, porventura, t\u00e3o bem essas leis, que possais marcar limite ao poder de Deus? Pois bem! Provai ent\u00e3o que a exist\u00eancia dos Esp\u00edritos e suas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0s leis da Natureza; que n\u00e3o \u00e9, nem pode ser uma destas leis. Acompanhai a Doutrina Esp\u00edrita e vede se todos os elos, ligados uniformemente \u00e0 Cadeia, n\u00e3o apresentam todos os caracteres de uma lei admir\u00e1vel, que resolve tudo o que as filosofias at\u00e9 agora n\u00e3o puderam resolver. O pensamento \u00e9 um dos atributos do Esp\u00edrito; a possibilidade, que eles t\u00eam, de atuar sobre a mat\u00e9ria, de nos impressionar os sentidos e, por conseguinte, de nos transmitir seus pensamentos, resulta, se assim nos podemos exprimir, da constitui\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica que lhes \u00e9 pr\u00f3pria. Logo, nada h\u00e1 de sobrenatural neste fato, nem de maravilhoso. Tornar um homem a viver depois de morto e bem morto, reunirem-se seus membros dispersos para lhe formarem de novo o corpo, sim, seria maravilhoso, sobrenatural, fant\u00e1stico. Haveria a\u00ed uma verdadeira derroga\u00e7\u00e3o da lei, o que somente por um milagre poderia Deus praticar. Coisa alguma, por\u00e9m, de semelhante h\u00e1 na Doutrina Esp\u00edrita.<\/p>\n<p>8. Entretanto, objetar\u00e3o, admitis que um Esp\u00edrito pode suspender uma mesa e mant\u00ea-la no espa\u00e7o sem ponto de apoio. N\u00e3o constitui isto um a derroga\u00e7\u00e3o da lei de gravidade? &#8211; Constitui, mas da lei conhecida; por\u00e9m, j\u00e1 a Natureza disse a sua \u00faltima palavra? Antes que se houvesse experimentado a for\u00e7a ascensional de certos gases, quem diria que uma m\u00e1quina pesada, carregando muitos homens, fosse capaz de triunfar da for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o? Aos olhos do vulgo, tal coisa n\u00e3o pareceria maravilhosa, diab\u00f3lica? Por louco houvera passado aquele que, h\u00e1 um s\u00e9culo, se tivesse proposto a transmitir um telegrama a 500 l\u00e9guas de dist\u00e2ncia e a receber a resposta, alguns minutos depois. Se o fizesse, toda gente creria ter ele o diabo \u00e0s suas ordens, pois que, \u00e0quela \u00e9poca, s\u00f3 ao diabo era poss\u00edvel andar t\u00e3o depressa. Porque, ent\u00e3o, um fluido desconhecido n\u00e3o poderia, em dadas circunst\u00e2ncias, ter a propriedade de contrabalan\u00e7ar o efeito da gravidade, como o hidrog\u00eanio contrabalan\u00e7a o peso do bal\u00e3o? Notemos, de passagem, que n\u00e3o fazemos uma assimila\u00e7\u00e3o, mas apenas urna compara\u00e7\u00e3o, e unicamente para mostrar, por analogia, que o fato n\u00e3o \u00e9 fisicamente imposs\u00edvel. Ora, foi exatamente por quererem, ao observar estas esp\u00e9cies de fen\u00f4menos, proceder por assimila\u00e7\u00e3o que os s\u00e1bios se transviaram. Em suma, o fato a\u00ed est\u00e1. N\u00e3o h\u00e1, nem haver\u00e1 nega\u00e7\u00e3o que possa fazer n\u00e3o seja ele real, porquanto negar n\u00e3o \u00e9 provar. Para n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 coisa alguma sobrenatural. \u00c9 tudo o que, por agora, podemos dizer.<\/p>\n<p>9. Se o fato ficar comprovado, dir\u00e3o, aceit\u00e1-lo-emos; aceitar\u00edamos mesmo a causa a que o atribu\u00eds, a de um fluido desconhecido. Mas, quem nos prova a interven\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos? A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o maravilhoso, o sobrenatural. Far-se-ia mister aqui uma demonstra\u00e7\u00e3o completa, que, no entanto, estaria deslocada e, ao demais, constituiria uma repeti\u00e7\u00e3o, visto que ressalta de todas as outras partes do ensino. Todavia, resumindo-a nalgumas palavras, diremos que, em teoria, ela se funda neste princ\u00edpio: todo efeito inteligente h\u00e1 de ter uma causa inteligente e, do ponto de vista pr\u00e1tico, na observa\u00e7\u00e3o de que, tendo os fen\u00f4menos ditos esp\u00edritas dado provas de intelig\u00eancia, fora da mat\u00e9ria havia de estar a causa que os produzia e de que, n\u00e3o sendo essa intelig\u00eancia a dos assistentes &#8211; o que a experi\u00eancia atesta &#8211; havia de lhes ser exterior. Pois que n\u00e3o se via o ser que atuava, necessariamente era um ser invis\u00edvel. Assim foi que, de observa\u00e7\u00e3o em observa\u00e7\u00e3o, se chegou ao reconhecimento de que esse ser invis\u00edvel, a que deram o nome de Esp\u00edrito, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a alma dos que viveram corporalmente, aos quais a morte arrebatou o grosseiro inv\u00f3lucro vis\u00edvel, deixando-lhes apenas um envolt\u00f3rio et\u00e9reo, invis\u00edvel no seu estado normal. Eis, pois, o maravilhoso e o sobrenatural reduzidos \u00e0 sua mais simples express\u00e3o. Uma vez comprovada a exist\u00eancia de seres invis\u00edveis, a a\u00e7\u00e3o deles sobre a mat\u00e9ria resulta da natureza do envolt\u00f3rio rio flu\u00eddico que os reveste. \u00c9 inteligente essa a\u00e7\u00e3o, porque, ao morrerem, eles perderam t\u00e3o-somente o corpo, conservando a intelig\u00eancia que lhes constitui a ess\u00eancia mesma. A\u00ed est\u00e1 a chave de todos esses fen\u00f4menos tidos erradamente por sobrenaturais. A exist\u00eancia dos Esp\u00edritos n\u00e3o \u00e9, portanto, um sistema preconcebido, ou uma hip\u00f3tese imaginada para explicar os fatos: \u00e9 o resultado de observa\u00e7\u00f5es e conseq\u00fc\u00eancia natural da exist\u00eancia da alma. Negar essa causa \u00e9 negar a alma e seus atributos. Dignem-se de apresent\u00e1-la os que pensem em poder dar desses efeitos inteligentes uma explica\u00e7\u00e3o mais racional e, sobretudo, de apontar a causa de <i>todos os fatos, <\/i>e ent\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel discutir-se o m\u00e9rito de cada uma.<\/p>\n<p>10. Para os que consideram a mat\u00e9ria a \u00fanica pot\u00eancia da Natureza, <i>tudo o que n\u00e3o pode ser explicado pelas leis da mat\u00e9ria \u00e9 maravilhoso, ou sobrenatural, <\/i>e, para eles, <i>maravilhoso <\/i>\u00e9 sin\u00f4nimo de <i>supersti\u00e7\u00e3o. <\/i>Se assim fosse, a religi\u00e3o, que se baseia na exist\u00eancia de um princ\u00edpio imaterial, seria um tecido de supersti\u00e7\u00f5es. N\u00e3o ousam diz\u00ea-lo em voz alta, mas dizem-no baixinho e julgam salvar as apar\u00eancias concedendo que uma religi\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ao povo e \u00e0s crian\u00e7as, para que se tornem ajuizados. Ora, uma de duas, ou o princ\u00edpio religioso \u00e9 verdadeiro, ou falso. Se \u00e9 verdadeiro, ele o \u00e9 para toda gente, se falso, n\u00e3o tem maior valor para os ignorantes do que para os instru\u00eddos.<\/p>\n<p>11. Os que atacam o Espiritismo, em nome do maravilhoso, se apoiam geralmente no princ\u00edpio materialista, porquanto, negando qualquer efeito extramaterial, negam, <i>ipso facto, <\/i>a exist\u00eancia da alma. Sondai-lhes, por\u00e9m, o fundo das consci\u00eancias, perscrutai bem o sentido de suas palavras e descobrireis quase sempre esse princ\u00edpio, se n\u00e3o categoricamente formulado, germinando por baixo da capa com que o cobrem, a de uma pretensa filosofia racional. Lan\u00e7ando \u00e0 conta do maravilhoso tudo o que decorre da exist\u00eancia da alma, s\u00e3o, pois, consequentes consigo mesmos: n\u00e3o admitindo a causa, n\u00e3o podem admitir os efeitos. Da\u00ed, entre eles, uma opini\u00e3o preconcebida, que os torna impr\u00f3prios para julgar lisamente do Espiritismo, visto que o princ\u00edpio donde partem \u00e9 o da nega\u00e7\u00e3o de tudo o que n\u00e3o seja material. Quanto a n\u00f3s, dar-se-\u00e1 aceitemos todos os fatos qualificados de maravilhosos, pela simples raz\u00e3o de admitirmos os efeitos que s\u00e3o a consequ\u00eancia da exist\u00eancia da alma? Dar-se-\u00e1 sejamos campe\u00f5es de todos os sonhadores, adeptos de todas as utopias, de todas as excentricidades sistem\u00e1ticas? Quem o supuser, demonstrar\u00e1 bem minguado conhecimento do Espiritismo. Mas, os nossos advers\u00e1rios n\u00e3o atentam nisto muito de perto. O de que menos cuidam \u00e9 da necessidade de conhecerem aquilo de que falam. Segundo eles, o maravilhoso \u00e9 absurdo; ora, o Espiritismo se apoia em fatos maravilhosos, logo o Espiritismo \u00e9 absurdo. E consideram sem apela\u00e7\u00e3o esta senten\u00e7a. Acham que op\u00f5em um argumento irretorqu\u00edvel quando, depois de terem procedido a eruditas pesquisas acerca dos convulsion\u00e1rios de Saint-M\u00e9dard, dos fan\u00e1ticos de Cevenas, ou das religiosas de Loudun,\u00a0 chegaram \u00e0 descoberta de patentes embustes, que ningu\u00e9m contesta. Semelhantes hist\u00f3rias, por\u00e9m, ser\u00e3o o evangelho do Espiritismo? Ter\u00e3o seus adeptos negado que o charlatanismo h\u00e1 explorado, em proveito pr\u00f3prio, alguns fatos? que outros sejam frutos da imagina\u00e7\u00e3o? que muitos tenham sido exagerados pelo fanatismo? T\u00e3o solid\u00e1rio \u00e9 ele com as extravag\u00e2ncias que se cometam em seu nome, quanto a verdadeira ci\u00eancia com os abusos da ignor\u00e2ncia, ou a verdadeira religi\u00e3o com os excessos do sectarismo. Muitos cr\u00edticos se limitam a julgar do Espiritismo pelos contos de fadas e pelas lendas populares que lhe s\u00e3o as fac\u00e7\u00f5es. O mesmo fora julgar da Hist\u00f3ria pelos romances hist\u00f3ricos, ou pelas trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>12. Em l\u00f3gica elementar, para se discutir uma coisa, preciso se faz conhec\u00ea-la, porquanto a opini\u00e3o de um cr\u00edtico s\u00f3 tem valor, quando ele fala com perfeito conhecimento de causa. Ent\u00e3o, somente, sua opini\u00e3o, embora err\u00f4nea, poder\u00e1 ser tomada em considera\u00e7\u00e3o Que peso, por\u00e9m, ter\u00e1 quando ele trata do que n\u00e3o conhece? A legitima cr\u00edtica deve demonstrar, n\u00e3o s\u00f3 erudi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m profundo conhecimento do objeto que versa, ju\u00edzo reto e imparcialidade a toda prova, sem o que, qualquer menestrel poder\u00e1 arrogar-se o direito de julgar Rossini e um pinta-monos o de censurar Rafael.<\/p>\n<p>13. Assim, o Espiritismo n\u00e3o aceita todos os fatos considerados maravilhosos, ou sobrenaturais. Longe disso, demonstra a impossibilidade de grande n\u00famero deles e o rid\u00edculo de certas cren\u00e7as, que constituem a supersti\u00e7\u00e3o propriamente dita. \u00c9 exato que, no que ele admite, h\u00e1 coisas que, para os incr\u00e9dulos, S\u00e3o puramente do dom\u00ednio do maravilhoso, ou por outra, da supersti\u00e7\u00e3o. Seja. Mas, ao menos, discuti apenas esses pontos, porquanto, com rela\u00e7\u00e3o aos demais, nada h\u00e1 que dizer e pregais em v\u00e3o. Atendo-vos ao que ele pr\u00f3prio refuta, provais ignorar o assunto e os vossos argumentos erram o alvo. Por\u00e9m, at\u00e9 onde vai a cren\u00e7a do Espiritismo? perguntar\u00e3o. Lede, observai e sab\u00ea-lo-eis. S\u00f3 com o tempo e o estudo se adquire o conhecimento de qualquer ci\u00eancia. Ora, o Espiritismo, que entende com as mais graves quest\u00f5es de filosofia, com todos os ramos da ordem social, que abrange tanto o homem f\u00edsico quanto o homem moral, \u00e9, em si mesmo, uma ci\u00eancia, uma filosofia, que j\u00e1 n\u00e3o podem ser aprendidas em algumas horas, como nenhuma outra ci\u00eancia. Tanta puerilidade haveria em se querer ver todo o Espiritismo numa mesa girante, como toda a f\u00edsica nalguns brinquedos de crian\u00e7a. A quem n\u00e3o se limite a ficar na superf\u00edcie, s\u00e3o necess\u00e1rios, n\u00e3o algumas horas somente, mas meses e anos, para lhe sondar todos os arcanos. Por a\u00ed se pode apreciar o grau de saber e o valor da opini\u00e3o dos que se atribuem o direito de julgar, porque viram uma ou duas experi\u00eancias, as mais das vezes por distra\u00e7\u00e3o ou divertimento. Dir\u00e3o eles com certeza que n\u00e3o lhes sobram lazeres para consagrarem a tais estudos todo o tempo que reclamam. Est\u00e1 bem; nada a isso os constrange. Mas, quem n\u00e3o tem tempo de aprender uma coisa n\u00e3o se mete a discorrer sobre ela e, ainda menos, a julg\u00e1-la, se n\u00e3o quiser que o acoimem de leviano. Ora, quanto mais elevada seja a posi\u00e7\u00e3o que ocupemos na ci\u00eancia, tanto menos escus\u00e1vel \u00e9 que digamos, levianamente, de um assunto que desconhecemos.<\/p>\n<p>14. Resumimos nas proposi\u00e7\u00f5es seguintes o que havemos expendido:<\/p>\n<p>1\u00ba Todos os fen\u00f4menos esp\u00edritas t\u00eam por principio a exist\u00eancia da alma, sua sobreviv\u00eancia ao corpo e suas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>2\u00ba Fundando-se numa lei da Natureza, esses fen\u00f4menos nada t\u00eam de <i>maravilhosos, <\/i>nem de <i>sobrenaturais. <\/i>no sentido vulgar dessas palavras.<\/p>\n<p>3\u00ba Muitos fatos s\u00e3o tidos por sobrenaturais, porque n\u00e3o se lhes conhece a causa; atribuindo-lhes uma causa, o Espiritismo os rep\u00f5e no dom\u00ednio dos fen\u00f4menos naturais.<\/p>\n<p>4\u00ba Entre os fatos qualificados de sobrenaturais, muitos h\u00e1 cuja impossibilidade o Espiritismo demonstra, incluindo-os em o n\u00famero das cren\u00e7as supersticiosas.<\/p>\n<p>5\u00ba Se bem reconhe\u00e7a um fundo de verdade em muitas cren\u00e7as populares, o Espiritismo de modo algum d\u00e1 sua solidariedade a todas as hist\u00f3rias fant\u00e1sticas que a imagina\u00e7\u00e3o h\u00e1 criado.<\/p>\n<p>6\u00ba Julgar do Espiritismo pelos fatos que ele n\u00e3o admite \u00e9 dar prova de ignor\u00e2ncia e tirar todo valor \u00e0 opini\u00e3o emitida.<\/p>\n<p>7\u00ba A explica\u00e7\u00e3o dos fatos que o Espiritismo admite, de suas causas e conseq\u00fc\u00eancias morais, forma toda uma ci\u00eancia e toda uma filosofia, que reclamam estudo s\u00e9rio, perseverante e aprofundado.<\/p>\n<p>8\u00ba O Espiritismo n\u00e3o pode considerar cr\u00edtico s\u00e9rio, sen\u00e3o aquele que tudo tenha visto, estudado e aprofundado com a paci\u00eancia e a perseveran\u00e7a de um observador consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instru\u00eddo; que haja, por conseguinte, haurido seus conhecimentos algures, que n\u00e3o nos romances da ci\u00eancia; aquele a quem n\u00e3o se possa opor <i>fato algum <\/i>que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que j\u00e1 n\u00e3o tenha cogitado e cuja refuta\u00e7\u00e3o fa\u00e7a, n\u00e3o por mera nega\u00e7\u00e3o, mas por meio de outros argumentos mais perempt\u00f3rios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos averiguados, causa mais l\u00f3gica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal cr\u00edtico ainda est\u00e1 por aparecer.<\/p>\n<p>15. Pronunciamos h\u00e1 pouco a palavra <i>milagre; <\/i>uma ligeira observa\u00e7\u00e3o sobre isso n\u00e3o vir\u00e1 fora de prop\u00f3sito, neste cap\u00edtulo que trata do maravilhoso. Na sua acep\u00e7\u00e3o primitiva e pela sua etimologia, o termo <i>milagre <\/i>significa coisa <i>extraordin\u00e1ria, coisa admir\u00e1vel de se ver. <\/i>Mas como tantas outras, essa palavra se afastou do seu sentido origin\u00e1rio e hoje, por milagre, se entende (segundo a Academia) <i>um ato do poder divino, contr\u00e1rio \u00e0s leis comuns da Natureza. <\/i>Tal, com efeito, a sua acep\u00e7\u00e3o usual e apenas por compara\u00e7\u00e3o e por met\u00e1fora \u00e9 ela aplicada \u00e0s coisas vulgares que nos surpreendem e cuja causa se desconhece. De nenhuma forma entra em nossas cogita\u00e7\u00f5es indagar se Deus h\u00e1 julgado \u00fatil, em certas circunst\u00e2ncias, derrogar as leis que Ele pr\u00f3prio estabelecera; nosso fim \u00e9, unicamente, demonstrar que os fen\u00f4menos esp\u00edritas, por mais extraordin\u00e1rios que sejam, de maneira alguma derrogam essas leis, que nenhum car\u00e1ter t\u00eam de miraculosos, do mesmo modo que n\u00e3o s\u00e3o maravilhosos, ou sobrenaturais. O milagre n\u00e3o se explica; os fen\u00f4menos esp\u00edritas, ao contr\u00e1rio, se explicam racionalissimamente. N\u00e3o s\u00e3o, pois, milagres, mas simples efeitos, cuja raz\u00e3o de ser se encontra nas leis gerais. O milagre apresenta ainda outro car\u00e1ter, o de ser ins\u00f3lito e isolado. Ora, desde que um fato se reproduz, por assim dizer, \u00e0 vontade e por diversas pessoas, n\u00e3o pode ser um milagre. Todos os dias a ci\u00eancia opera milagres aos olhos dos ignorantes. Por isso \u00e9 que, outrora, os que sabiam mais do que o vulgo passavam por feiticeiros; e, como se entendia, ent\u00e3o, que toda ci\u00eancia sobre-humana vinha do diabo, queimavam-nos. Hoje, que j\u00e1 estamos muito mais civilizados, eles apenas s\u00e3o mandados para os hosp\u00edcios. Se um homem realmente morto, como dissemos em come\u00e7o, ressuscitar por interven\u00e7\u00e3o divina, haver\u00e1 a\u00ed verdadeiro milagre, porque isso \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0s leis da Natureza. Se, por\u00e9m, tal homem s\u00f3 aparentemente est\u00e1 morto, se ainda h\u00e1 nele um resto de <i>vitalidade latente <\/i>e a ci\u00eancia ou uma a\u00e7\u00e3o magn\u00e9tica consegue reanim\u00e1-lo, um fen\u00f4meno natural \u00e9 o que isso ser\u00e1 para pessoas instru\u00eddas. Todavia, aos olhos do vulgo ignorante, o fato passar\u00e1 por milagroso, e o autor se ver\u00e1 perseguido a pedradas, ou venerado, conforme o car\u00e1ter dos indiv\u00edduos. Solte um f\u00edsico, em campo de certa natureza, um papagaio el\u00e9trico e fa\u00e7a, por esse meio, cair um raio sobre uma \u00e1rvore e o novo Prometeu ser\u00e1 tido certamente como senhor de um poder diab\u00f3lico. E, seja dito de\u00a0passagem, Prometeu nos parece, muito singularmente, ter sido um precursor de Franklin; mas, Josu\u00e9, detendo o movimento do Sol, ou, antes, da Terra, esse teria operado verdadeiro milagre, porquanto n\u00e3o conhecemos magnetizador algum dotado de t\u00e3o grande poder, para realizar tal prod\u00edgio. De todos os fen\u00f4menos esp\u00edritas, um dos mais extraordin\u00e1rios \u00e9, incontestavelmente, o da escrita direta e um dos que demonstram de modo mais patente\u00a0a a\u00e7\u00e3o das intelig\u00eancias ocultas. Mas, da circunst\u00e2ncia de ser esse fen\u00f4meno produzido por seres ocultos, n\u00e3o se segue que seja mais miraculoso do que qualquer dos outros fen\u00f4menos devidos a agentes invis\u00edveis, porque esses seres ocultos, que povoam os espa\u00e7os, s\u00e3o uma das pot\u00eancias da Natureza, pot\u00eancias cuja a\u00e7\u00e3o \u00e9 incessante, assim sobre o mundo material, como sobre o mundo moral. Esclarecendo-nos com rela\u00e7\u00e3o a essa pot\u00eancia, o Espiritismo nos d\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplic\u00e1veis por qualquer outro meio e que, \u00e0 falta de toda explica\u00e7\u00e3o, passaram por prod\u00edgios, nos tempos antigos. Do mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, se n\u00e3o desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, mais acertadamente, de uma lei que se desconhecia, embora se lhe conhecessem os efeitos, visto que estes sempre se produziram em todos os tempos, tendo a ignor\u00e2ncia da lei gerado a supersti\u00e7\u00e3o. Conhecida ela, desaparece o maravilhoso e os fen\u00f4menos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que, fazendo que uma mesa se mova, ou que os mortos escrevam, os esp\u00edritas n\u00e3o operam maior milagre do que opera o m\u00e9dico que restitui \u00e0 vida um moribundo, ou o f\u00edsico que faz cair o raio. Aquele que pretendesse, por meio desta ci\u00eancia, <i>realizar milagres, <\/i>seria ou ignorante do assunto, ou embusteiro.<\/p>\n<p>16. Os fen\u00f4menos esp\u00edritas, assim como os fen\u00f4menos magn\u00e9ticos, antes que se lhes conhecesse a causa, tiveram que passar por prod\u00edgios. Ora, como os c\u00e9pticos, os esp\u00edritos fortes, isto \u00e9, os que gozam do privil\u00e9gio exclusivo da raz\u00e3o e do bom-senso, n\u00e3o admitem que uma coisa seja poss\u00edvel, desde que n\u00e3o a compreendam, de todos os fatos considerados prodigiosos fazem objeto de suas zombarias. Pois que a religi\u00e3o conta grande n\u00famero de fatos desse g\u00eanero, n\u00e3o creem na religi\u00e3o e da\u00ed \u00e0 incredulidade absoluta o passo \u00e9 curto. Explicando a maior parte deles, o Espiritismo lhes assina uma raz\u00e3o de ser. Vem, pois, em aux\u00edlio da religi\u00e3o, demonstrando a possibilidade de muitos que, por perderem o car\u00e1ter de miraculosos, n\u00e3o deixam, contudo, de ser extraordin\u00e1rios, e Deus n\u00e3o fica sendo menor, nem menos poderoso, por n\u00e3o haver derrogado suas leis. De quantas gra\u00e7olas n\u00e3o foi objeto o fato de S\u00e3o Cupertino se erguer nos ares! Ora, a suspens\u00e3o et\u00e9rea dos corpos graves \u00e9 um fen\u00f4meno que a lei esp\u00edrita explica. Fomos dele <i>pessoalmente testemunha ocular, <\/i>e o Sr. Home, assim como outras pessoas de nosso conhecimento, repetiram muitas vezes o fen\u00f4meno produzido por S\u00e3o Cupertino. Logo, este fen\u00f4meno pertence \u00e0 ordem das coisas naturais.<\/p>\n<p>17. Entre os deste g\u00eanero, devem figurar na primeira linha as apari\u00e7\u00f5es, porque s\u00e3o as mais frequentes a de Salette, sobre a qual divergem as opini\u00f5es no seio do pr\u00f3prio clero, nada tem para n\u00f3s de ins\u00f3lita. Certamente n\u00e3o podemos afirmar que o fato se deu, porque n\u00e3o temos disso prova material; mas, consideramo-lo poss\u00edvel, atendendo a que conhecemos milhares de outros an\u00e1logos, <i>recentemente ocorridos. <\/i>Damos-lhes cr\u00e9dito n\u00e3o s\u00f3 porque lhes verificamos a realidade, como, sobretudo, porque sabemos perfeitamente de que maneira se produzem. Quem se reportar \u00e0 teoria, que adiante expomos, das apari\u00e7\u00f5es, reconhecer\u00e1 que este fen\u00f4meno se mostra t\u00e3o simples e plaus\u00edvel, como um sem-n\u00famero de fen\u00f4menos f\u00edsicos, que s\u00f3 parecem prodigiosos por falta de uma chave que permita explic\u00e1-los. Quanto \u00e0 personagem que se apresentou na Salette, \u00e9 outra quest\u00e3o. Sua identidade n\u00e3o nos foi absolutamente demonstrada. Apenas reconhecemos que pode ter havido uma apari\u00e7\u00e3o; quanto ao mais, escapa \u00e0 nossa compet\u00eancia. A esse respeito, cada um est\u00e1 no direito de manter suas convic\u00e7\u00f5es, nada tendo o Espiritismo que ver com isso. Dizemos t\u00e3o-somente que os fatos que o Espiritismo produz nos revelam leis novas e nos d\u00e3o a explica\u00e7\u00e3o de um mundo de coisas que pareciam sobrenaturais. Desde que alguns dos que passavam por miraculosos encontram, assim, explica\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, motivo \u00e9 este bastante para que ningu\u00e9m se apresse a negar o que n\u00e3o compreende. Algumas pessoas contestam os fen\u00f4menos esp\u00edritas precisamente porque tais fen\u00f4menos lhes parecem estar fora da lei comum e porque n\u00e3o logram achar-lhes qualquer explica\u00e7\u00e3o. Dai-lhes uma base racional e a d\u00favida desaparecer\u00e1. A explica\u00e7\u00e3o, neste s\u00e9culo em que ningu\u00e9m se contenta com palavras, constitui, pois, poderoso motivo de convic\u00e7\u00e3o. Da\u00ed o vermos, todos os dias, pessoas, que nenhum fato testemunharam, que n\u00e3o observaram uma mesa agitar-se, ou um m\u00e9dium escrever, se tornarem t\u00e3o convencidas quanto n\u00f3s, unicamente porque leram e compreenderam. Se houv\u00e9ssemos de somente acreditar no que vemos com os nossos olhos,\u00a0a bem pouco se reduziriam as nossas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O LIVRO DOS M\u00c9DIUNS &#8211; CAP\u00cdTULO II \u00a0O MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL \u00a07. 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