O Suicida não é Covarde nem Herói

Por 

Em uma conversa franca e corajosa sobre o suicídio do marido, a psicóloga mineira Luciana Rocha, hoje especialista no tema, nos ajuda a entender, sem culpa ou condenação, o gesto extremo de quem tira a própria vida.

Era pouco mais de meia-noite e, enquanto se preparavam para dormir, Luciana e Marden tiveram uma conversa corriqueira sobre os planos para o dia seguinte: a agenda de trabalho dos dois, uma festinha escolar dos filhos. Deram-se um beijo de boa noite. Luciana e as crianças dormiam quando Marden abriu a janela da sala e se jogou do 15º andar.

O salto para a morte aos 47 anos, depois de 15 de um casamento amoroso e harmônico, com dois filhos de 10 e 5 anos, lançou a família no absurdo vazio da dor e na vertigem da ausência auto-imposta e aparentemente inexplicável. Luciana tinha 41 anos, era psicóloga há 20 e decidiu então estudar o tema e se especializar em suicídio. Hoje, passados três anos daquela noite, é capaz de entender à luz da ciência o que aconteceu com Marden e com tantas pessoas que, como ele, tiram a própria vida, vítimas de um ou mais transtornos mentais subestimados por eles mesmos e invisíveis aos olhos de quem os cercam. Nesta conversa, a psicóloga mineira fala com enorme carinho do marido e nos explica por que o suicida não é nem covarde nem herói.

O que você se lembra do dia da morte do seu marido?

Eu e o Marden tínhamos conversado sobre os planos do dia seguinte: haveria uma festa na escola das crianças e eu não poderia comparecer, mas ele falou que iria. Me deu um beijo e disse que ia dormir no quarto do nosso filho mais novo. Fui acordada pela minha irmã, que mora no mesmo prédio. Quando cheguei na sala a encontrei chorando e me dizendo que alguma coisa horrível tinha acontecido com o Marden. Na hora eu não entendi nada e disse que ele estava em casa, no quarto do nosso filho. Abri a porta do quarto e ele não estava. Na sala, a janela estava aberta e a rede de proteção havia sido cortada. Ele deixou a tesoura bem à mostra no batente e se jogou do 15º andar. Os pedaços cortados da rede ficaram no bolso dele. Acredito que tenha feito isso para não haver dúvidas de que ele próprio a cortara antes de se jogar. Deixou também uma longa carta, páginas e páginas com instruções minuciosas sobre questões práticas e sobre o que devíamos fazer depois da sua partida.

A última conversa deu alguma pista do que ele estava prestes a fazer?

Nenhuma. Eu sabia que estava passando por dificuldades na empresa (ele trabalhava no ramo de entretenimento) mas, nada que não pudéssemos superar. O Marden sempre foi uma pessoa muito alegre, animada, divertida. Nós sabíamos que havia algo de bipolar no seu comportamento, uma doença que ele subestimou e descuidou. Não se tratou como devia. Chegou a se medicar, mas sem a devida constância. Parecia sempre muito bem disposto, otimista. Hoje, depois de estudar o assunto, identifico nele características que o classificariam como um suicida potencial. Ele tinha o que chamamos de “depressão sorridente”. Sabe-se que 100% das pessoas que se suicidam tem um ou mais transtornos psicológicos. E meu marido tinha esses fatores de risco. Um deles é não enxergar uma solução para um problema. Há uma rigidez que os impede de pedir ajuda. Eles acham que tem que resolver sozinhos um obstáculo que acreditam intransponível.

Você se lembra dos seus primeiros pensamentos após o ocorrido?

O que lembro, dentro do choque, foi de pensar em como eu poderia contar para as crianças. O pai era muito amoroso, presente e carinhoso com eles. Assim como comigo. Ele os colocou na cama para dormir e simplesmente não estava mais lá no dia seguinte…

Eu não os acordei no meio da noite. Deixei que acordassem de manhã e então me sentei com eles no sofá e contei que o pai havia sofrido um acidente. Na mesma hora o meu filho mais novo perguntou: “O papai morreu?”. Eu respondi que sim, o papai morreu. Disse que ele fora consertar a rede da janela e se desequilibrou e caiu. Foi horrível: os dois choraram, saíram correndo. Me disseram que era minha culpa, que eu não tinha segurado o pai. Eu contei que não pude ajudá-lo porque também estava dormindo. Um ano depois, minha filha mais velha me questionou sobre a veracidade do acidente e eu contei a verdade: o pai se suicidara. Foi muito triste e naquele momento ela disse que a culpa era dela, porque às vezes ela não aceitava os convites do pai para jantar. Eu disse, imagine, vocês foram muito amigos, sempre juntos. Disse a ela que o pai morreu porque estava doente, mas nós não sabíamos, ele não sabia. Ele estava muito doente e foi a sua doença que o matou.

Como foi para você enfrentar a culpa que por perder alguém amado por suicídio?

Não me senti culpada em nenhum momento. Hoje, com o conhecimento que tenho acho que poderia ter ajudado, mas naquele momento não tinha.

Eu sigo a filosofia budista há 20 anos e graças a ela, tenho uma aceitação maior dos fatos. Entendi, desde o início, que não adiantava me revoltar. Tratei de focar nas qualidades do Marden e nas coisas boas que vivemos, nós e nossos filhos. Tenho a convicção de que as coisas boas foram muito maiores do que o fim trágico.

Você concorda com a teoria que diz que, no caso do suicídio, assassino e vítima são a mesma pessoa e os sobreviventes tem que lidar com esse sentimento ambíguo em relação a quem partiu?

Não concordo. O suicídio é multifatorial. Quando a pessoa decide se matar, ela simplesmente não vê outra solução. Mesmo quem, como o meu marido, poderia ter tratado seus transtornos e não o fez não pode ser culpado: nossa sociedade sofre de psicofobia, que é o preconceito contra a doença mental. A gente tem que entender que é difícil para a pessoa aceitar o transtorno. O que podemos fazer como sociedade é combater o tabu e o preconceito. A primeira coisa seria mostrar que é comum, até banal, ter um transtorno. Não tem que ter vergonha. O suicida se sente envergonhado do que passa. Acha que tem que ser feliz e tem vergonha de procurar ajuda.

Você já o perdoou?

Não tive que perdoá-lo porque nunca o condenei. Entendo que fez o que fez porque estava em um estado desesperador. E que na cabeça dele, a morte era a única saída. Nunca tive raiva. Minha escolha foi a de continuar vivendo e buscando a felicidade. Uma semana depois da sua morte eu estava no meu grupo de meditação. Aos prantos, mas presente.

O suicídio é previsível?

Uma das coisas terríveis que a gente ouve é: “mas você não viu o que estava acontecendo?”. Quem diz isso a alguém no momento do luto não tem noção da gravidade das suas palavras. O suicídio pode ser prevenido, mas não pode ser previsto. O suicídio é uma ideia planejada. A pessoa pensou nisso mais de uma vez e não apenas no momento daquele ato. Quem tenta uma vez, tem 50% de chance de tentar de novo. E ser bem-sucedido.

Como os familiares devem agir nesse caso?

É muito difícil. Essas famílias que tentam proteger um potencial suicida de si mesmo ficam esgotadas. A maior parte delas, sem assistência, tem que se organizar em rodízios. É muito sacrificado. Para essas famílias eu diria que há um limite para nos sentirmos responsáveis pela vida do outro.

Qual é o peso do estigma para a família?

Se falar sobre o luto é tabu, o luto por suicídio de alguém próximo é maior ainda. Por muito tempo eu imaginava que, onde quer que eu fosse as pessoas estariam me olhando e pensando: “ela é aquela que o marido se matou…” O que se pensa, geralmente, é que uma família em que acontece um suicídio não pode ser normal. É compreensível que se pense assim. Para nós que temos uma pulsão de vida, é difícil entender a pulsão de morte. Por outro lado, o drama acentua a compaixão. Recebi muito carinho e conforto por parte da minha família e dos amigos mais queridos. Alguns não conseguem lidar com isso e se afastam. É compreensível.

No exato dia da morte, como havia aquela festa na escola sobre a qual falamos na nossa última conversa, vi, de repente minha casa cheia de pais de colegas das crianças, as pessoas me cercando de cuidado, trazendo comida, oferecendo-se para levá-los para passear. Tive uma rede de grande proteção e solidariedade.

Como foi retomar a vida?

Minha família foi fundamental. Meus pais, maravilhosos. Minha mãe me estimulava muito a voltar a sair, a reencontrar os amigos e me divertir. Confesso que nas primeiras vezes em que saí, quase um ano depois, achava que tinha sempre alguém me olhando e me julgando: ‘Olha aí a viúva alegre”. Mesmo assim, eu me esforcei para seguir em frente. As pessoas me ligavam queriam saber como eu estava, mas nunca que convidavam pra nada, constrangidas. Eu tive que pedir que me chamassem. Mesmo que eu não quisesse e não fosse, eu queria ser chamada. Lembro do meu constrangimento de pegar o elevador à noite, arrumada e com um vinho na mão… Mas concluí que não podia me guiar pelo que eu achava que os outros iriam pensar, mas pelo que eu mesma pensava.

Você gosta de falar do seu marido?

Eu adoro falar sobre o Marden. No primeiro ano eu falava dele e também com ele o tempo todo. Olhava para nossa foto ao lado da cama e dizia: “Ei Salabim (eu o chamava assim e ele a mim), veja a situação em que você me deixou”. Falava e chorava tanto que dormia e acordava chorando. Meus filhos me diziam de manhã: “mãe, você ainda está chorando?”. E eu respondia: ‘Não filhos, eu dormi e voltei a chorar agora” (risos).

Como você, enlutada, ajuda as crianças com o luto pelo pai?

O budismo me ajuda. Vivemos o presente e eu os ensino a não pensar em como poderia ter sido diferente. Aqui em casa não tem “e se?”. As coisas são o que são e temos que lidar com o que estamos vivendo.

Como você decidiu estudar o tema do suicídio?

Quando meu marido morreu, eu ainda trabalhava na empresa da minha família, apesar de ser psicóloga há 20 anos e nunca ter deixado de atender no consultório. Mas naquele momento eu senti que era importante me desligar do trabalho na empresa e fui estudar tanatologia e suicídio. Depois segui com os estudos e me especializei em cuidados paliativos. Desde então venho tratando do tema e participando de congressos, cursos e dado palestras. Atendo muitos enlutados e tem sido muito bom, para mim e meus pacientes, eu estar nesse lugar com o meu próprio luto. O luto é individual e único, mas posso oferecer a escuta e mostrar que é possível seguir a vida.

O que você gostaria de dizer para um enlutado que perdeu alguém por suicídio?

Primeiro, duas coisas têm que ficar claras: o suicídio é consequência de uma ou mais doenças mentais. O suicida não é um covarde e se matar não é um ato de heroísmo. É muito importante entender que a pessoa não se matou. A doença o matou. Em segundo lugar, não devemos culpar o suicida por sua decisão. Ele agiu com as informações de que dispunha naquele momento. Ele não pede ajuda e disfarça muito bem sua condição. Fez o que podia.

É possível encontrar uma razão?

A família não deve procurar o porquê. Não existe essa resposta.

Fonte: http://vamosfalarsobreoluto.com.br/2018/11/01/o-suicida-nao-e-covarde-nem-heroi/

Ajude-nos divulgar a Doutrina!

Publicado em por admin | Deixe um comentário

HOMOSEXUALIDADE

Emmanuel

«Pergunta – Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?»

«Resposta – Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar. » Questão nº 202, de «O LIVRO DOS ESPÍRITOS».

A homossexualidade, também hoje chamada transexualidade, em alguns círculos de ciência, definindo-se, no conjunto de suas características, por tendência da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação.

Observada a ocorrência, mais com os preconceitos da sociedade, constituída na Terra pela maioria heterossexual, do que com as verdades simples da vida, essa mesma ocorrência vai crescendo de intensidade e de extensão, com o próprio desenvolvimento da Humanidade, e o mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em experiência dessa espécie, somando milhões de homens e mulheres, solicitando atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos às criaturas heterossexuais.

A coletividade humana aprenderá, gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez que a individualidade, em si, exalta a vida comunitária pelo próprio comportamento na sustentação do bem de todos ou a deprime pelo mal que causa com a parte que assume no jogo da delinquência.

A vida espiritual pura e simples se rege por afinidades eletivas essenciais; no entanto, através de milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas.

O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculinos ou acentuadamente femininas, sem especificação psicológica absoluta.

À face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice-versa, ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias.

Obviamente compreensível, em vista do exposto, que o Espírito no renascimento, entre os homens, pode tomar um corpo feminino ou masculino, não apenas atendendo-se ao imperativo de encargos particulares em determinado setor de ação, como também no que concerne a obrigações regenerativas.

O homem que abusou das faculdades genésicas, arruinando a existência de outras pessoas com a destruição de uniões construtivas e lares diversos, em muitos casos é induzido a buscar nova posição, no renascimento físico, em corpo morfologicamente feminino, aprendendo, em regime de prisão, a reajustar os próprios sentimentos, e a mulher que agiu de igual modo é impulsionada à reencarnação em corpo morfologicamente masculino, com idênticos fins. E, ainda, em muitos outros casos, Espíritos cultos e sensíveis, aspirando a realizar tarefas específicas na elevação de agrupamentos humanos e, consequentemente, na elevação de si próprios, rogam dos Instrutores da Vida Maior que os assistem a própria internação no campo físico, em vestimenta carnal oposta à estrutura psicológica pela qual transitoriamente se definem. Escolhem com isso viver temporariamente ocultos na armadura carnal, com o que se garantem contra arrastamentos irreversíveis, no mundo afetivo, de maneira a perseverarem, sem maiores dificuldades, nos objetivos que abraçam.

Observadas as tendências homossexuais dos companheiros reencarnados nessa faixa de prova ou de experiência, é forçoso se lhes dê o amparo educativo adequado, tanto quanto se administra instrução à maioria heterossexual. E para que isso se verifique em linhas de justiça e compreensão, caminha o mundo de hoje para mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da vida eterna, os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos domínios do sexo e do amor, são analisados pelo mesmo elevado gabarito de Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um.

Emmanuel

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro: Vida e Sexo – 21

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Consequências Espirituais da Pornografia

Jéssica Araújo

A pornografia existe há milhares de séculos, segundo relatos históricos de pesquisadores e historiadores. É definida como qualquer material que desperte pensamentos sexuais de maneira vulgar e explícita. A palavra pornografia deriva do grego pórne, ‘’ prostituta’’.

Atualmente, o comércio pornográfico é um dos mais ricos do mundo. Países como Estados Unidos, Japão, Brasil e China são os maiores consumidores desse tipo de material.

Com a globalização e o avanço tecnológico, qualquer informação em qualquer lugar do mundo pode ser acessada com um toque. O apelo sexual imposto pela sociedade influencia as pessoas a procurarem, cada vez mais, conteúdos de conotação sexual, e as utilizam como estímulo no relacionamento, para saciar seus próprios desejos e prazeres físicos. São sentimentos primitivos e egoístas perante o verdadeiro valor do ato.

O sexo é um ato sagrado. Através da relação é concebida uma nova vida. É o momento de maior intimidade e maior troca energética entre duas pessoas. Ao ter contato com conteúdos vulgares, vibra-se nessa mesma baixa frequência, pois intimamente o que se precisa alimentar é a total satisfação carnal, os prazeres físicos, o ego e a vaidade, e não verdadeiramente o amor.

Todos esses desejos e pensamentos acabam por atrair inconscientemente espíritos que vibram e se alimentam da energia de quem está a assistir pornografia. O vício de observar imagens eróticas induz ao desequilíbrio das vibrações, abrindo um grande campo de troca energética, onde quem sai perdendo forças é o ser físico, sendo obsidiado e vampirizado por espíritos de ordem inferior, criando assim um círculo vicioso.

Esses espíritos em falanges, agrupamentos, vivem em cidades espirituais no umbral, onde os ‘’líderes’’ mantém os ‘’moradores’’ na escravidão sexual e de seus desejos, os humilhando, desvalorizando-os moralmente e ferindo os bons costumes.

Pode-se observar que, da mesma maneira que no plano físico, a pornografia, a luxúria, os abusos sexuais, entre tantos outros vícios, continuam mesmo após o desencarne, pois o espírito não consegue se desprender das tentações terrenas, e essa sintonia se reflete no plano espiritual e vice-versa. Um influencia o outro na mesma proporção que se vibra.

Com a grande quantidade de acessos a vídeos, imagens, aplicativos, e principalmente o desejo e os pensamentos com energias semelhantes, cada vez mais se alimentam lugares, colônias dessa mesma faixa vibracional. Cabe, então, uma reavaliação da moral e dos verdadeiros sentimentos, pois não deve ser esquecido que pornografias viciam, e é uma das doenças que mais crescem no mundo.

‘’Pois tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens – não provem do Pai, mas do mundo.

O mundo e sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre’’. 1 João 2:16-17.

Nessa passagem bíblica se apresenta tudo o que há no mundo. Vícios, egoísmo, inveja, ódio, são contrários a Lei de Deus. O homem e suas faltas são passageiros, mas o que segue são os desejos de Deus, o amor fraterno, e estarão sempre presentes.

Que se possa sempre rogar a presença de Deus em todas as vidas, passando por grandes transformações para a regeneração. Este é o momento de nutrir o espírito com boas leituras, boas músicas, preces por todos. A evolução é a cada dia, poia a vida não cessa, ela sempre continua.

Jéssica Araújo

Referencias:

https://www.bibliaonline.com.br/acf/rm/12 (acesso em 11 maio de 2020)

Fonte: Blog Letra Espírita

Publicado em por admin | Deixe um comentário

ESPIRITISMO E POLÍTICA

Um ensaio sobre Espiritismo e Política

Resultado de imagem para política e espiritismo imagens

Osman Neves Albuquerque

…Kardec recomendou aos centros que deixassem de lado as questões políticas. Mas essa afirmação significa que não devemos trazer para o centro espírita as campanhas e militâncias partidárias, pois o lugar para o seu exercício é no seio das agremiações e locais respectivos.

Prefácio

A transformação íntima só se torna efetiva e verdadeira quando ela é irradiada para a coletividade em que estamos inseridos. O Espiritismo nos fala da realidade do espírito e do seu processo evolutivo, ensinando-nos que a felicidade é uma construção individual e coletiva. Ninguém conseguirá ser feliz com o seu derredor emitindo gritos de carências e lágrimas de dores. Ninguém será feliz sozinho ou rodeado de poucos. O IPEPE – Instituto de Intercâmbio do Pensamento Espírita de Pernambuco, que tem como missão interligar o pensamento espírita às diversas áreas do conhecimento humano, colaborando para a cidadania e a paz, estará presente onde o homem estiver para, junto com este, melhorar as condições espirituais e sociais da humanidade. O trabalho que ora se apresenta com o título “Um Ensaio sobre Espiritismo e Política” preparado pela CASP – Coordenadoria da Área Sócio-Política do IPEPE, é um convite aberto para todos nós espíritas, para que possamos fazer uma reflexão corajosa sobre o nosso atual estágio de cidadania. A questão não é deixar de fazer algo que esteja sendo feito, mas sim, analisarmos se não estamos deixando de fazer algo que já deveríamos estar fazendo. Bom, falar mais já estaria privando o leitor de iniciar este estudo e reflexão para, sem maiores perda de tempo, iniciarmos as necessárias ações.

Gezsler Carlos West

Coordenador Geral do IPEPE

A TÍTULO DE REFLEXÃO

Deve o espírita esforçar-se para cumprir os seus deveres de cidadão e exercer os seus direitos políticos? – A Doutrina Espírita conscientiza a criatura humana, levando-a a tornar-se um “homem de bem” no sentido global? – Que têm feito as Instituições Espíritas para favorecer o processo de conscientização sócio política dos seus frequentadores? – O que você acha de realizarmos um ciclo de estudos e debates sobre o assunto desta apostila? – Se Você despertou maior interesse sobre o assunto, leia esta apostila.

EM TORNO DO CONCEITO DE POLÍTICA

Algumas pessoas, no meio espírita, reagem de maneira negativa e, às vezes, até assustadas quando se fala em política, demonstrando desinformação e preconceito. Existe até um tabu de que Política entra em confronto com o zelo doutrinário. Na realidade a Política é bem mais abrangente e está presente em tudo que o homem realiza. Todos nós somos políticos. Há mais de 2000 anos o filósofo grego Aristóteles escreveu que o homem é um “animal político” e não estava brincando. Estava dizendo uma coisa seriíssima, que permanece válida até hoje. Política é toda atividade que as pessoas praticam com o objetivo de influenciar os acontecimentos, o pensamento e sobretudo as decisões da sociedade em que vivem. No quotidiano confirma-se a natureza política do homem, uma vez que a vida em comum e as formas de coexistência são ordenadas segundo os sistemas de governo e, nessas condições, querendo ou não participar, podendo ou não atuar na vida política, o homem recebe direta ou indiretamente os efeitos desses sistemas e paga pelas conseqüências. Os líderes religiosos têm forte papel político. E mesmo nós, cidadãos comuns, fazemos política com muita freqüência, mesmo não tendo consciência disso. Na feira, quando falamos mal do governo, ou nas reuniões sociais, quando falamos mal ou bem do partido tal ou do ministro tal, estamos tentando fazer a cabeça dos outros, que por sua vez tentarão fazer a de outros. Ou seja, estamos contribuindo para formar a chamada “opinião pública”. Mesmo se o peso desses atos é pequeno, o fato é que, ao praticá-los, estamos participando do processo político. O Evangelho apresenta, igualmente, a mais elevada fórmula de vida político-administrativa aos povos da Terra: O Reino do Amor. O Espiritismo em seus aspectos científico, filosófico e religioso tem muito a ver com a compreensão e organização da sociedade, a fim de que ela seja mais justa e amorosa e, através de seus adeptos, atue na realização do Reino de Jesus — Reino da Verdade, do Amor e da Justiça — sobre a face da Terra.

UM ENSAIO SOBRE ESPIRITISMO E POLÍTICA

“Para nós, a política é a ciência de criar o bem de todos e nesse princípio nos firmaremos”.
Deputado Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

Reflexão Preliminar

Haverá alguma relação entre Espiritismo e Política? Sobre o aspecto filosófico, o Espiritismo tem a ver e muito com a Política, já que esta deve ser a arte de administrar a sociedade de forma justa. Conseqüentemente, o espírita não pode declinar da sua cidadania e deve vivenciá-la de forma consciente e responsável. O Brasil sempre foi alvo de muitas esperanças. Falava-se em país do futuro, em berço da nova civilização e, nos meios espíritas, em “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho.” O grande problema é que os brasileiros nunca demonstraram grande empenho para alcançar concretamente esses títulos. Boa parte dos trabalhos de ciência política no Brasil trazem uma característica marcante: a constatação de que a sociedade brasileira é dependente do Estado e que não tem apego a valores como democracia, liberdade e igualdade. Não tem tradição de participação, de reivindicar seus direitos. A sociedade é uma das maiores responsáveis pelos males que a atingem. Somos um País que não se conscientizou de que depende da sociedade colaborar na resolução de muitos problemas dos quais o Estado não consegue dar conta. O Brasil só vai poder dizer-se Pátria do Evangelho quando der os primeiros passos na construção de uma sociedade realmente democrática, justa e fraterna. Quando, enfim, os brasileiros olharem para a sociedade e perceberem que fazem parte dela. Se uma pessoa está sofrendo, em um determinado local, todos sofremos, pois os problemas dela acabam nos atingindo de uma maneira ou de outra, seja por meio da violência ou dos mecanismos econômicos mais complexos. E o que tem a ver o Espiritismo com isso? O espírita tem em suas mãos instrumentos poderosos de participação (e de transformação) da sociedade: as federativas, os centros espíritas, as instituições específicas, os órgãos de comunicação. Podem, no mínimo, auxiliar na mudança de mentalidade de seus adeptos. Sabemos que Kardec recomendou aos centros que deixassem de lado as questões políticas. Mas essa afirmação significa que não devemos trazer para o centro espírita as campanhas e militâncias partidárias, pois o lugar para o seu exercício é no seio das agremiações e locais respectivos. Assim, jamais o Espiritismo, como Doutrina, e o Movimento Espírita, como prática, poderão dar guarida a um partido político em seu seio, por exemplo: Partido Social Espírita, Partido Espírita Cristão, etc. As questões políticas decorrem dos próprios princípios do Espiritismo. A partir do momento em que se fala em reforma moral, em mudança de visão do mundo, em desapego dos bens materiais, prática da caridade, etc. fala-se sobre política. Principalmente, quando se fala em transformação da sociedade, como aparece a todo momento na Codificação (particularmente no capítulo final da Gênese), estamos falando de política. “Em que consiste a missão dos Espíritos Encarnados? – Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais”. (Questão n º 573 de O Livro dos Espíritos). De se entender, então, que não pode o espírita alienar-se no seio da sociedade em que vive, com a desculpa de que Espiritismo e Política não têm nada que ver, pois é preciso lembrar que a vida material e a vida espiritual são dimensões contínuas da própria Vida. O homem tem que progredir, e isolado ele não tem condições disso, já que seu progresso depende dos bens que lhes são oferecidos pela família, pela escola, pela religião e demais agências sociais. Para o espírita, essa ação política deve ser sempre inspirada nos princípios expressos pelo aspecto filosófico do Espiritismo, que o levam a amar e, nesse caso, amar é desejar o bem; logo, a exteriorização política do Amor é a expressão do querer bem e do agir para o bem de todos. A ação política dos bons é um imperativo na hora atual. O Espiritismo apresenta conceitos claros e precisos para essa atuação. “A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as idéias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento a que houver chegado. Avançando para o mesmo alvo e realizando seus objetivos, o Espiritismo se encontrará com ela no mesmo terreno. Aos homens progressistas se deparará nas idéias espíritas poderosa alavanca e o Espiritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo”. (A Gênese). “O Espiritismo não cria a renovação social; a madureza da humanidade é que fará dessa renovação uma necessidade. Pelo seu poder moralizador, por suas tendências progressistas, pela amplitude de suas vistas, pelas generalidades das questões que abrange, o Espiritismo é mais apto do que qualquer outra doutrina a secundar o movimento de regeneração; por isso, é ele contemporâneo desse movimento. Surgiu na hora em que podia ser de utilidade, visto que também para ele os tempos são chegados”. (A Gênese). O Espiritismo trabalha com a educação. Esta é a base da própria Doutrina pois, para praticá-la, temos de nos educar. E a educação tem um conteúdo extremamente político, pois muda nossa forma de ver o mundo e de agir nele. Assim, é cada vez mais importante que os centros espíritas percebam a importância de discutir os assuntos da realidade concreta. Não estaremos fazendo política no aspecto partidário, mas sim auxiliando na conscientização dos espíritas sobre como entender a sociedade e agir nela de uma forma crítica e consciente. Com uma visão crítica baseada nos princípios espíritas. Qual o posicionamento de um espírita frente a questões como violência, menores abandonados, educação, desemprego, racismo, discriminação social. O que podemos fazer em nosso âmbito para combater esses problemas? Não adianta querer ser espírita no plano espiritual. Podemos e devemos estudar a moral espírita em sua teoria. Mas não há como fugir: a sua aplicação prática será, quer queiramos ou não, na realidade concreta, enfrentando esses problemas do cotidiano. Segundo J. Herculano Pires, em O Centro Espírita, “O Espiritismo se liga a todos os campos das atividades humanas, não para entranhar-se neles, mas para iluminá-los com as luzes do Espírito. Servir o mundo através de Deus é a sua função e não servir a Deus através do mundo (…).” Por tudo isso, devemos entender que são fundamentais o Espiritismo e a Política para a construção de Uma Nova Sociedade.

A Lei de Adoração e a Política

“Tem Deus preferência pelos que o adoram desta ou daquela maneira? – Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes”. (Questão nº 654 de O Livro dos Espíritos). Para se fazer o bem e evitar o mal é necessário que o homem seja participante da sociedade em que vive, através de ações que preservem os próprios direitos naturais, como, também, dentro de suas possibilidades, defenda os direitos naturais do seu semelhante. A adoração a Deus, no conceito espírita, tem uma ação política dentro da sociedade, ou de forma mais ampla, no planeta em que se vive: fazer o bem e evitar o mal. Para fazer o bem e evitar o mal é necessário procurar extinguir o orgulho, a inveja, o egoísmo, a vaidade e a prepotência, não só de si mesmo, como também das instituições e grupos sociais. Tal conceito de adoração a Deus leva não só à reforma íntima, ou seja, à auto-educação da pessoa, como à reforma da sociedade em seus padrões de egoísmo e orgulho, em nome dos quais se justificam as desigualdades e as injustiças. Conseqüentemente, no conceito de adoração a Deus expresso pelo Espiritismo, há todo um comprometimento de participação na sociedade, reiteradamente manifestado pelos espíritos a Allan Kardec. Assim, vemos claramente tal ligação: Deus, Homem e Sociedade na questão nº 657 de O Livro dos Espíritos. “Têm, perante Deus, algum mérito os que se consagram à vida contemplativa, uma vez que nenhum mal fazem e só em Deus pensam? – Não, porquanto, se é certo que não fazem o mal, também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que o homem pense nele, mas não quer que só nele pense, pois que lhe impôs deveres a cumprir na terra. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive toda uma vida pessoal e inútil à humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito”. Da mesma forma, a atitude comodista e passiva, expressa pela omissão diante dos problemas humanos em estruturas sociais injustas e materialistas é por Ele reprovada. Pois o comodista ainda que não pratique o mal, dele se aproveita. Portanto, o espírita para não ser omisso e assim indiretamente aproveitar-se do mal, deve se esforçar para que o conceito espírita de adoração a Deus seja efetivamente aplicado na sociedade humana, de forma conveniente, oportuna e adequada, em consonância com a própria Ética ou Moral Espírita.

A Lei do Trabalho e a Política

“Por trabalho só se devem entender as ocupações materiais? – Não; o Espírito trabalha, assim como o corpo. Toda ocupação útil é trabalho”. (Questão nº 675 de O Livro dos Espíritos) A civilização cria multiplicidades de trabalhos; nenhum deles, porém, poderá servir como meio de exploração do homem com o objetivo do lucro, nem ferir sua dignidade como ser humano. Quando isso acontece, surge a pobreza e a marginalização, evidenciando flagrante injustiça social. A Doutrina Espírita denuncia, de forma veemente, tal situação. Esclarece que, todo aquele que tem o poder de mandar é responsável pelo excesso de trabalho que imponha aos que lhe são subordinados, abusando da autoridade e transgredindo as leis de Deus. É preciso que se reconheça a participação do homem através do trabalho na sociedade, criando o bem comum, aumentando o patrimônio da grande família humana. Por isso, dessa sociedade ele deve participar de maneira justa e criativa, jamais dela podendo ser marginalizado. A sociedade deve ser organizada de forma a que todos possam trabalhar e os que estão doentes ou impossibilitados ao labor recebam desta mesma sociedade os meios necessários à sua subsistência de maneira justa e digna. Não adianta dizer ao homem que ele tem o dever de trabalhar; é preciso que a sociedade lhe ofereça a oportunidade do trabalho, o que nem sempre acontece. A maior preocupação deste final de milênio tem um nome: desemprego. Num mundo globalizado, cada vez mais dependente da economia e das variações financeiras, o problema do desemprego está se tornando muito grave. O Espiritismo valoriza o trabalho como uma ação social e espiritual, pois o homem dele participa com seu corpo e espírito, não importando seja a atividade chamada manual ou intelectual. Portanto, nenhum homem, em boas condições físicas e mentais, pode ser alijado do trabalho. Por isso, o desemprego não é um problema que será resolvido por uma “lei histórica” ou “divina”. Os homens é que tem de resolvê-lo. É bom que os espíritas reservem um pouco da sua preocupação para os debates que se travam no mundo a respeito do desemprego. Precisamos perceber que quando se trata desta questão, fala-se da evolução do homem.

A Lei de Reprodução e a Política

“Será contrário à lei da Natureza o aperfeiçoamento das raças animais e vegetais pela Ciência? Seria mais conforme a essa lei deixar que as coisas seguissem seu curso normal? – Tudo se deve fazer para chegar à perfeição e o próprio homem é um instrumento de que Deus se serve para atingir seus fins. Sendo a perfeição a meta para que tende a Natureza, favorecer essa perfeição é corresponder às vistas de Deus”. (Questão nº 692 de O Livro dos Espíritos). O homem em sua participação política, ou seja, em sua ação na sociedade, deve agir para o equilíbrio da própria espécie, como da vida que o circunvolve, pois tudo ele deve fazer para chegar à perfeição e ele é um instrumento do qual Deus também se serve. Em sua participação política na sociedade, o espírita não poderá perder de vista o aspecto ético ou moral da questão. A reprodução no ser humano está ligada à tutela do casamento, cujo surgimento representa um dos primeiros progressos da sociedade humana, pois estabelece a solidariedade fraterna. O espírita, de forma individual, e o Movimento Espírita, de maneira coletiva, precisam estar atentos à defesa dos fundamentos morais que preservem a nobre e elevada instituição do casamento. A ação espírita de preservação dos laços de família não pode ficar limitada às quatro paredes do Centro Espírita, mas deve ser uma participação na sociedade. Para isso utilizará os meios e instrumentos lícitos e morais, associando-se a outras instituições e organizações que tenham o mesmo objetivo. Assim poderá se contrapor à onda avassalante de sensualidade que varre os órgãos de comunicação, como a televisão, a revista, o jornal, o cinema, o teatro e que mantêm a mulher apenas como um objeto sexual, sob a aparência de libertação.

A Lei de Conservação e a Política

“O uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens? – Esse direito é consequente da necessidade de viver. Deus não imporia um dever sem dar ao homem o meio de cumpri-lo”. (Questão nº 711 de O Livro dos Espíritos). No entanto, nas organizações sociais injustas a maioria dos homens é impedida do uso dos bens da terra por aqueles que não só usam tais bens como, ainda, os dilapidam no gasto supérfluo. Não respeitam o limite das necessidades que a Natureza traçou. Todos os seres vivos possuem o instinto de conservação, qualquer que seja o grau de inteligência, pois a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres. Por isso a Terra produz de modo a proporcionar o necessário aos que a habitam, visto que só o necessário é útil. O supérfluo nunca o é. (Veja a Questão nº 704 de O Livro dos Espíritos). Esclarece o Espiritismo que para todos há um lugar ao sol, mas com a condição de que cada um ocupe o seu lugar e não o dos outros. A Natureza não pode ser responsável pelos defeitos da organização social, nem pelos efeitos da ambição e do egoísmo. O uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens. O Espiritismo não justifica aqueles que vivem da exploração do semelhante, que pretendem os benefícios da civilização só para si. Aponta-lhes a hipocrisia e a falsidade. O Homem não merece censura por desejar o seu bem-estar. É natural esse desejo. Ele não é condenável, desde que não seja conseguido com o prejuízo do outro e não prejudique as forças físicas ou morais. Todo ser humano tem direito ao bem-estar. Logo, está errada e é injusta a sociedade em que apenas alguns gozam do bem-estar. Também não está certa para o Espiritismo a sociedade que elege padrões de felicidade em termos de CONSUMIR (feliz é quem tem dinheiro para comprar) e não de SER (desenvolvendo sua capacidade de conhecer e amar), pois apela somente para a satisfação dos impulsos ou instintos. O espírita deve, mesmo com sacrifício, agir conscientemente para que, na sociedade humana, todos tenham o necessário para o seu progresso. Sabendo que o uso dos bens da Terra é um direito de todos os homens, conforme os postulados do Espiritismo, o espírita deve participar pelos meios lícitos que tenha ao seu dispor para que esse direito seja indistintamente aplicado.

A Lei de Destruição e a Política

“Se a regeneração dos seres faz necessária a destruição, por que os cerca a Natureza de meios de preservação e conservação? – A fim de que a destruição não se dê antes do tempo. Toda destruição antecipada obsta ao desenvolvimento do princípio inteligente. Por isso foi que Deus fez que cada ser experimentasse a necessidade de viver e se reproduzir”. (Questão nº 729 de O Livro dos Espíritos). Quando a destruição ultrapassa os limites que a necessidade e a segurança estabelecem, aparece o domínio da materialidade sobre a natureza espiritual. “Toda destruição que excede os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus”. (Questão nº 735 de O Livro dos Espíritos). Há, pois, necessidade de o homem organizar a sociedade de forma a ser previdente, somando conhecimentos e experiências, encontrando a solução dos males ao remover as causas. Para isso concorrem a ciência e a técnica. No entanto, se flagelos como inundações, epidemias, secas levam a dor e o sofrimento a grande parte das populações, é porque o egoísmo, traduzido no privilégio de minorias, impede que recursos avançados da ciência e da técnica sejam aplicados de forma a eliminar ou diminuir seus danosos e dolorosos efeitos. Para que haja harmonia numa sociedade humana é imperioso que a justiça se faça junto a cada um de seus componentes. Porém, a realidade, atualmente ainda não é essa. Nações mais desenvolvidas econômica e tecnicamente procuram explorar as nações pobres. Agem de maneira a mantê-las em permanente dependência econômica, política e até mesmo militar. A destruição e a violência não se manifestam somente de forma física e ostensiva; mais terríveis e perigosas elas são quando se manifestam de forma sutil e disfarçada provocando o aniquilamento e a degradação do meio ambiente em que o homem vive. Todas as vezes que o espírita constatar a destruição da natureza em função do lucro que os sistemas econômicos exigem, deverá associar-se às vozes que clamam contra tal destruição. Para isso dará apoio e participação ao partido político, aos movimentos ecológicos, às organizações estudantis e outras que lutam contra a destruição desregrada. Diz a Constituição do Brasil no artigo 5º: “LXXIII – qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise anular ato lesivo do patrimônio público (…) ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”.

A Lei de Sociedade e a Política

“A vida social está em a Natureza? – Certamente, Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação”. (Questão nº 766 de O Livro dos Espíritos). A pessoa tem um compromisso com a sociedade em que vive. Nela deve participar, dando sua contribuição, de acordo com suas possibilidades intelectuais e sentimentais. O espírita, pelo conhecimento que tem da Doutrina Social Espírita, consubstanciada nas Leis Morais de O Livro dos Espíritos, tem o dever de participar ativa e conscientemente na sociedade em que vive, agindo para que os princípios expressos em tais leis se efetivem na sociedade humana. Conseqüentemente, a omissão e a ociosidade que venham a alimentar qualquer tipo de isolamento social, produzirão sempre a inutilidade, o fanatismo ou o egoísmo rotulado de pureza ou santidade. O homem tem necessidade de progredir, de desenvolver suas potencialidades e isso ele só pode fazer vivendo em sociedade e é necessário que a sociedade esteja estruturada a fim de que todos que a compõem tenham tal possibilidade. O espírita deve estar atento, à vista dos conceitos espíritas sobre sexo, família, dignidade humana, para denunciar as ações e movimentos que subvertam os valores espirituais. Conclui-se, assim, que o homem não é um ser independente. Pelo contrário, ele depende de seus semelhantes ao mesmo tempo que é impulsionado ao progresso; por isso impõe-se-lhe a necessidade de aprender a amar o seu próximo e não explorá-lo física, intelectual e sentimentalmente. Esse amor deve ser traduzido de forma concreta. Não apenas dar esmola ao pobre e pedir-lhe paciência, acolher o velho desamparado no asilo, agasalhar a criança órfã ou abandonada, mas agir para que o AMAI-VOS UNS AOS OUTROS se efetive através do direito que todo ser humano tem de possuir o necessário: alimentação, vestuário, casa, saúde, trabalho, lazer e desenvolvimento espiritual.

             A Lei do Progresso e a Política

“A força para progredir, haure-a o homem em si mesmo, ou o progresso é apenas fruto de um ensinamento? – O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente. Mas, nem todos progridem simultaneamente e do mesmo modo. Dá-se então que os mais adiantados auxiliam o progresso dos outros, por meio do contato social”. (Questão nº 779 de O Livro dos Espíritos). O progresso é da própria condição humana, por isso o homem não pode opor-se-lhe. A ignorância e a maldade e até mesmo leis injustas, podem retardar seu desenvolvimento, mas não anulá-lo. Segundo o Espiritismo, as revoluções morais, como as revoluções sociais infiltram-se nas idéias pouco a pouco. Elas como que germinam durante longo tempo e subitamente irrompem desmoronando instituições, leis e costumes do passado. As revoluções morais e sociais são condições para a realização do progresso. São idéias novas, conceitos novos que se chocam com os existentes, os quais já não mais satisfazem as necessidades e aspirações. (Veja questão nº 783 de O Livro dos Espíritos). Encontramos no comentário de Allan Kardec à Questão nº 789 de O Livro dos Espíritos, esclarecimento de grande valia sociológica: “A humanidade progride, por meio dos indivíduos que pouco a pouco se melhoram e instruem. Quando estes preponderam pelo número, tomam a dianteira e arrastam os outros. De tempos a tempos, surgem no seio dela homens de gênio que lhe dão impulso; vêm depois, como instrumentos de Deus, os que têm autoridade e, nalguns anos, fazem-na adiantar-se de muitos séculos”. Compreende-se, por tudo isso, a importância da participação dos espíritas na sociedade, de uma forma esclarecida e consciente. O espírita precisa conhecer os conceitos e fundamentos da Doutrina Espírita para, com os meios que lhe sejam possíveis, colocá-los na organização social em que vive. Para o aprimoramento da sociedade deve-se trabalhar a fim de aumentar o número das pessoas esclarecidas, justas e amorosas de maneira a que suas ações preponderem sobre a dos maus. Daí a reforma íntima não ser condição para isolamento ou alienação, mas compromisso de união com os outros que têm o mesmo ideal de amor e justiça, agindo deliberada e responsavelmente a benefício de todos. O Espiritismo tem sua contribuição para dar, pois basta analisar seus princípios filosóficos para ver que ele propõe o que a humanidade deseja: o reino da justiça, obstando os abusos que impedem o progresso e a moralização das massas. Como vemos, a proposição espírita da Lei do Progresso é um intenso e profundo desafio aos espíritas para que trabalhem pelo progresso intelectual e moral da humanidade. Com tal objetivo devem agir sobre a sociedade humana a fim de que haja hábitos espiritualizados, desenvolvimento da inteligência, da liberdade, elaboração de leis justas a benefício de todos, amparo ao fraco para que ele não seja explorado pelo forte, respeito às crenças e opiniões, direito ao necessário a todos (bem comum). Como fazer isso? Agindo não só no Movimento Espírita como, também, de conformidade com a vocação e aptidão de cada um, nas organizações e movimentos que, baseados em tais valores, procuram estruturar e organizar a sociedade. A Lei de Igualdade e a Política. “É lei da natureza a desigualdade das condições sociais? – Não; é obra do homem e não de Deus”. (Questão nº 806 de O Livro dos Espíritos). Conseqüentemente, o espírita não deve compactuar com toda situação que promova a desigualdade entre os homens: a riqueza e a pobreza, o luxo e a miséria, o elitismo intelectual e a ignorância. Deve lutar contra o egoísmo e o orgulho, identificando os múltiplos disfarces com que eles se apresentam. Apoiará os movimentos que objetivem a igualdade dos direitos humanos, reconhecendo apenas como válida a desigualdade pelo merecimento decorrente do grau de aprimoramento intelectual e espiritual. O Espiritismo brada veementemente contra a injustiça social, demonstrando a necessidade de se agir por um mundo de Amor e Justiça. Para a Doutrina Espírita, a desigualdade das riquezas pode se originar na desigualdade das faculdades, como também pode ser fruto da velhacaria e do roubo. Considerando a diversidade das faculdades intelectuais e os caracteres, não é possível a igualdade absoluta das riquezas, no entanto, isso não é impedimento à igualdade de bem-estar. Logo, é importante que cada ser humano tenha as condições mínimas para desenvolver suas potencialidades. Isto não será possível enquanto grande parte das pessoas estiver submetida à opressão, à exploração, à injustiça dos que desejam manter ou possuir a riqueza o mais depressa possível. A riqueza, sob o aspecto ético ou moral, jamais deverá originar, manter ou estimular a exploração do homem pelo homem. Diz o Espiritismo: “Os homens se entenderão quando praticarem a lei da justiça”. E isso será possível quando os direitos humanos forem devidamente respeitados pelas sociedades políticas em que o homem vive. Portanto, a justiça deve exercer sua tutela a fim de que cada um tenha o que é seu de direito. Não se pode, desta forma, justificar com os conceitos espíritas a miséria como sendo apenas prova ou expiação de espíritos que foram ricos e poderosos no passado. A própria evidência sociológica demonstra o absurdo de tal generalização. O orgulho e o egoísmo de homens e instituições é que têm ditado a miséria e a pobreza sobre a face da terra. A miséria sempre foi muito maior do que a riqueza, em todos os tempos vividos pela humanidade, até a presente época. Os ricos têm sido minoria e os pobres maioria, numa grande desproporção. Isso não permite pensar logicamente numa inversão tão simplista como querem alguns: “O pobre de hoje é o rico de ontem” . Trata-se de uma acomodação injusta diante de uma sociedade dirigida, ainda, pelo egoísmo e pelo orgulho. Acomodação que deturpa o sentido da reencarnação, conforme o conceito que lhe é dado pelo Espiritismo.

       A Lei de Liberdade e a Política

“Em que condições poderia o homem gozar de absoluta liberdade? – Nas do eremita no deserto. Desde que juntos estejam dois homens, há entre eles direitos recíprocos que lhes cumprem respeitar; não mais, portanto, qualquer deles goza de liberdade absoluta”. (Questão nº 826 de O Livro dos Espíritos). Para o Espiritismo, o homem não goza de absoluta liberdade quando vivendo em sociedade, porque uns precisam dos outros. A liberdade depende da fraternidade e da igualdade. Onde houver uma convivência fraterna, exteriorizada em amor e respeito, acatando-se o direito do próximo, haverá a prática da justiça e conseqüentemente existirá liberdade. O egoísmo que tudo quer para si, e o orgulho, a expressar o desejo de domínio, são inimigos da liberdade. Allan Kardec comenta: “A liberdade pressupõe confiança mútua. Ora, não pode haver confiança entre pessoas dominadas pelo sentimento exclusivista da personalidade. Não podendo cada uma satisfazer-se a si própria senão à custa de outrem, todas estarão constantemente em guarda umas com as outras. Sempre receosas de perderem o que chamam seus direitos, a dominação constitui a condição mesma da existência de todas pelo que armarão continuamente ciladas à liberdade e a coarctarão quanto puderem”. (In Obras Póstumas, Capítulo Liberdade, Igualdade e Fraternidade). O espírita deve combater o orgulho e o egoísmo em si mesmo e na sociedade em que vive. A liberdade não se confunde com a devassidão que solta as rédeas dos instintos. A liberdade de consciência é uma característica da civilização em seu mais avançado estágio de progresso. Todavia, é evidente que uma sociedade para manter o equilíbrio, a harmonia e o bem-estar precisa estabelecer normas, leis e regulamentos portadores de sanções. A título de respeitar a liberdade de consciência não vai-se admitir a propagação de idéias e doutrinas prejudiciais à sociedade. Nada se lhes deve opor através da violência e da força, mas através dos princípios do direito. Para o Espiritismo, os meios fazem parte dos fins; não se pode pretender o amor, a justiça, a liberdade, agindo por meios violentos, odiosos, injustos e coativos. Esse conceito de liberdade deve levar o espírita à ação para implantar o bem na sociedade em que vive para que o mal gradativamente desapareça. Para isso é preciso atuar conscientemente, com amor e determinação.

                               A Lei de Justiça, Amor e Caridade e a Política

“Como se pode definir a justiça? – A justiça consiste em cada um respeitar os direitos dos demais”. (Questão nº 875 de O Livro dos Espíritos). Para o Espiritismo, justiça é: cada um respeitar os direitos dos demais. Também para ele, duas coisas determinam tais direitos: A lei humana e a lei natural. Esclarece, no entanto, que as leis humanas são formuladas de conformidade com os costumes e caracteres de uma determinada época e sociedade, por isso são mutáveis. Essas leis regulam algumas relações sociais, ao passo que a lei natural rege até mesmo o que ocorre no foro da consciência de cada um. Dentre os direitos de que o ser humano dispõe destaca o Espiritismo que o primeiro de todos é o direito de viver. Isto está fundamentado na resposta à Questão nº 880 de O Livro dos Espíritos: “Por isso é que ninguém tem o direito de atentar contra a vida de seu semelhante, nem fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal”. Compreende-se que as afirmações “atentar contra a vida” e “comprometer-lhe a existência” são muito amplas, envolvendo tudo aquilo que seja prejudicial à vida humana física e espiritual. Toda ação que atente contra a vida não deve ser praticada pelo espírita, bem como a esse tipo de ação ele deverá se opor, onde observe sua manifestação. O Espiritismo nos diz que o amor e a caridade completam a lei de justiça, pois quando amamos o próximo desejamos fazer-lhe todo o bem que nos seja possível, da mesma forma como gostaríamos que nos fosse feito. Sob tal enfoque, afirmou Jesus: “Amai-vos uns aos outros”. Segundo Jesus, a caridade não se restringe à esmola, ela abrange todo o relacionamento humano. É de se ver a amplitude que, assim, assume a caridade, impondo para seu aparecimento o exercício da lei de justiça. Depreende-se, pois, que sem justiça não há caridade. Na Questão nº 888 de O Livro dos Espíritos encontramos: “Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na Lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns”. Ressalta, assim, aos espíritas, a imperiosidade de trabalhar para que a sociedade se baseie, cada vez mais na lei de Deus e na justiça, a fim de que o direito à vida, à dignidade e ao respeito humano seja reconhecido a todos indistintamente. É indispensável que, embasados nos princípios espíritas, trabalhe-se para remover as causas geradoras da miséria, da ignorância e dos vícios. A Renovação do Ser humano e da política “Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações? – Sim, e, freqüentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! quão poucos dentre vós fazem esforços!”. (Questão nº 909 de O Livro dos Espíritos). O egoísmo expressando-se através de uma pessoa, ou de grupos de pessoas, é o sentimento centralizador do interesse próprio em detrimento dos outros. Preocupado com seu enquistamento no ser humano, perquiriu Allan Kardec: “Fundando-se o egoísmo no sentimento do interesse pessoal, bem difícil parece extirpá-lo no coração humano. Chegar-se-á a consegui-lo? – À medida que os homens se instruem acerca das coisas espirituais, menos valor dão às coisas materiais. Depois, necessário é que se reformem as instituições humanas que o entretêm e excitam. Isso depende da educação”. (Questão nº 914 de O Livro dos Espíritos). A orientação é no sentido de que a compreensão da vida espiritual liberta o homem da escravização às coisas materiais, isto é, elas deixam de ser um fim em si mesmas para se tornarem instrumentos do seu progresso espiritual. Por outro lado, denunciam claramente a necessidade de se transformarem as instituições humanas que geram, motivam e estimulam o egoísmo. O procedimento adequado a se intentar essa transformação é a educação no sentido amplo, ou seja, a conscientização e prática individual e coletiva dos princípios da justiça, da igualdade, da liberdade, do amor e da caridade. É imperioso, pois, que se combata o egoísmo, indo às causas que o geram no homem e nas instituições. Nessa linha de raciocínio, comenta Allan Kardec: “Louváveis esforços indubitavelmente se empregam para fazer que a humanidade progrida. Os bons sentimentos são animados, estimulados e honrados mais do que em qualquer outra época. Entretanto, o egoísmo, verme roedor, continua a ser a chaga social. É um mal real, que se alastra por todo mundo e do qual cada homem é mais ou menos vítima. Cumpre, pois, combatê-lo, como se combate uma enfermidade epidêmica”. (Comentário à Questão nº 917 de O Livro dos Espíritos). É evidente que nesse combate torna-se imperiosa a análise das “chagas da sociedade”, ou seja, de órgãos, de instituições, organizações, sistemas econômicos e políticos que entretecem e excitam o egoísmo de forma individual ou coletiva. Mais uma vez fica claro que o aprimoramento do ser humano não pode ser feito apenas com a auto-educação como processo de isolamento e não participação consciente dentro da sociedade.

A Política e a Ação Social Espírita

“Por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons? – Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão”. (Questão nº 932 de O Livro dos Espíritos). Por todos os conceitos e princípios contidos em O Livro dos Espíritos, até aqui analisados, observamos quanto essas idéias regeneradoras tocam a sociedade humana em sua estrutura, organização e funcionamento. Conceitos que em todas as circunstâncias e situações concretizam a aplicação da verdade, da justiça e do amor. Há, pois, uma inequívoca contribuição Política, sob o aspecto filosófico que o Espiritismo oferece à sociedade humana, a fim de que ela se estruture, organize e funcione em termos de verdade, justiça e amor. Disseram os Espíritos: “Quando bem compreendido, se houver identificado com os costumes e as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações sociais”. (Questão nº 917 de O Livro dos Espíritos). Preocupado com a possível felicidade humana, Allan Kardec questionou: “A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, alguma soma de felicidade comum a todos os homens? A resposta dada pelos Espíritos, em sua primorosa síntese, encerra não só lúcido esclarecimento, como um grande desafio à efetiva participação dos espíritas para promoção da felicidade, ao afirmarem: “Com relação à vida material é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro”. (Questão nº 922 de O Livro dos Espíritos). Ampliando esclarecimentos na Questão nº 927 da mesma obra, aditaram: “Verdadeiramente infeliz o homem só o é quando sofre da falta do necessário à vida e à saúde do corpo”. É de se entender, então, que o espírita tem uma ação social, pois deve estar atento à prática da justiça e do amor a fim de que todos tenham a posse do necessário e a saúde do corpo, o que necessariamente implica em propugnar para que todos tenham alimentação adequada, vestuário, habitação, educação, assistência médica, educação sanitária e até mesmo lazer. Advertiram os Espíritos na Questão nº 930 do livro em estudo: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome”. Adita Allan Kardec: “Com uma organização social criteriosa e previdente, ao homem só por sua culpa pode faltar o necessário. Porém, suas próprias faltas são freqüentemente resultado do meio onde se acha colocado. Quando praticar a lei de Deus, terá uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade e ele próprio também será melhor”. Portanto, o espírita tem que participar e influenciar na sociedade em que vive, procurando levar às instituições que a estruturam os valores e normas do Espiritismo. Isso é uma participação política. Não pode preocupar-se apenas com a reforma íntima, isolando-se em um “oásis de indiferentismo” pela sociedade em que vive. É verdade que essa ação política conflitará com os interesses dos egoístas e orgulhosos, individualmente ou em grupos. O Espírito Lázaro, no Capítulo IX, item 8, de O Evangelho Segundo o Espiritismo nos alerta que “Cada época é, assim, marcada pelo cunho da virtude ou do vício que a devem salvar ou perder. A virtude da vossa geração é a atividade intelectual, seu vício é a indiferença moral”. Assim, essa ação política deve objetivar o bem comum. Aqueles que pretendem o bem não podem se omitir e essa participação liga-se profundamente com a caridade, pois amar é querer o bem. Destarte, a expressão política do amor é querer fazer o bem para todos. A participação do espírita, inclusive do jovem, no processo político, social, cultural e econômico deve ser consciente e responsável, tendo como diretriz os princípios e normas contidas em O Livro dos Espíritos. Participação Política do Espírita. “… Sirva de base às instituições sociais, às relações legais de povo a povo e de homem a homem o princípio da caridade e da fraternidade e cada um pensará menos na sua pessoa, assim veja que outros nela pensaram. Todos experimentarão a influência moralizadora do exemplo e do contato”. (Questão nº 917 de O Livro dos Espíritos).

COMO O ESPÍRITA NÃO DEVE ATUAR NA POLÍTICA:

Levar a política partidária para dentro do Centro, das Entidades ou do Movimento Espírita;

Utilizar-se de médiuns e dirigentes espíritas para apoiar políticos partidários a cargos eletivos aos Poderes Executivo e Legislativo;

Catar votos para políticos que, às vezes, dão alguma “verbinha” para asilos, creches e hospitais, mas cuja conduta política não se afina com os princípios éticos ou morais do Espiritismo;

Apoiar políticos que se dizem espíritas ou cristãos, mas aprovam as injustiças, as barganhas, a “politicagem” (usar a política partidária para interesses egoísticos pessoais ou de grupos a que se ligam);

Participar da política partidária apenas por interesse pessoal, para melhorar a sua vida e de sua família, divorciado em sua militância político-partidária dos princípios e normas da Filosofia Espírita.

COMO O ESPÍRITA DEVE ATUAR NA POLÍTICA:

O espírita pode e deve estudar e reflexionar sobre os princípios político-filosófico-espíritas no Centro Espírita, pois eles estão contidos em O Livro dos Espíritos, Parte Terceira, Das Leis Morais;

Através da análise, do estudo e da reflexão das normas e princípios acima referidos, o espírita deve identificar o egoísmo, o orgulho e a injustiça nas instituições humanas, denunciando-as e agindo para que elas desapareçam da sociedade humana;

Confrontar os fundamentos morais e objetivos do Espiritismo com os fundamentos morais e objetivos dos partidos políticos, verificando de forma coerente qual ou quais deve apoiar e até mesmo participar como membro atuante, se tiver vocação para tal, sabendo, no entanto, da responsabilidade que assume nesse campo, já que sua militância deve sempre estar voltada para o interesse do ser humano, em seus aspectos social e espiritual. Para isso, sua ação política deverá estar em harmonia com os valores éticos (morais) do Espiritismo que, em última análise, são fundamentalmente os mesmos do Cristianismo;

Participar de organizações e movimentos que propugnem pela Justiça, pelo Amor, pelo progresso intelectual, moral e físico das pessoas. Exemplos: clubes de serviços, sindicatos, associações de classes, diretórios acadêmicos, movimentos de respeito e defesa dos direitos humanos, etc.;

Fazer do voto um elevado testemunho de amor ao próximo; Considerando que a sociedade humana é dirigida por políticos que saem das agremiações partidárias e suas influências podem ajudar ou atrasar a evolução intelecto-moral da humanidade, o voto, realmente, é uma forma de exprimir o amor ao próximo e à coletividade; Deve, pois, analisar se a conduta do candidato político-partidário tem maior ou menor relação com os princípios morais e políticos (aspecto filosófico) do Espiritismo;

Participar conscientemente da ação política na sociedade, sem relegar o estudo e a reflexão do Espiritismo a plano secundário. Pelo contrário, o estudo e a reflexão dos temas espíritas deverão levá-lo a permanente participação, objetivando a aplicação concreta do Amor e da Justiça ao ser humano, seja individual ou coletivamente.

REFLEXÃO FINAL

“E quem governa seja como quem serve”. Jesus – (Lucas, 22:26) O advento da Nova Era passará, inevitavelmente, pela renovação política. Nada muda se os políticos não mudarem. “A força das coisas possibilita a mudança, mas não construirá uma sociedade mais justa, mais livre, mais feliz, sem que cada família, cada grupo, cada cidade, cada nação elabore seu projeto, organize sua ação para chegar a essa sociedade melhor”. (Questões nº 860 e 1019 de O Livro dos Espíritos). Cristo ensinou a paciência e a tolerância, mas nunca determinou que seus discípulos estabelecessem acordo, tácito ou explícito, com os erros que infelicitam o mundo. Em face dessa decisão foi à cruz e legou o último testemunho de não-violência, mas também de não-acomodação com as trevas em que se compraz a maioria das criaturas. Para o aprimoramento da sociedade deve-se trabalhar a fim de aumentar o número de pessoas esclarecidas, justas e amorosas de maneira que suas ações preponderem sobre a dos maus. Como diz J. Herculano Pires (O Reino. São Paulo: Editora Edicel, p.137) “O chamado de uma nova ordem social está clamando no coração do mundo. E o mundo não pode deixar de atendê-lo, porque é um imperativo do progresso terreno, uma lei maior do que as leis transitórias dos homens, é a expressão da própria vontade de Deus”. Não poderemos esquecer, também, a preocupação de Deolindo Amorim (O Espiritismo e os Problemas Humanos. São Paulo. Editora USE, 2ª edição, p.34) com o espírita e a sociedade: “Para os espíritas, finalmente, o Cristianismo não é apático. Se, na realidade, o cristão ficasse apenas na fé, rezando e contemplando o mundo à grande distância, sem participar do trabalho de transformação do homem e da sociedade, jamais a palavra do Cristo teria a influência ponderável. O verdadeiro cristão, o que tem o Evangelho dentro de si, e não apenas o que repete versículos e sentenças, não pode cruzar os braços dentro de um mundo arruinado e poluído pelos vícios, pela imoralidade e pelo egoísmo”. Alterar essa estrutura social que fomenta o egoísmo em todos os grupos sociais é providência urgente. (Questão nº 573 de O Livro dos Espíritos). Precisamos aproveitar a força das coisas, que está criando possibilidades de mudanças. Isso só pode ser feito, como diz o Codificador, combatendo todas essas causas, senão ao mesmo tempo, pelo menos por parte. Notemos a palavra por parte e não uma de cada vez. Ao interferirmos em um sistema, diz-nos a teoria que não podemos interferir para mudar, sem agir em uma família de coisas. Atuar em uma coisa de cada vez é inócuo, pois o próprio sistema se defenderá eliminando o que o ameaça. No entanto, o caminho parece ser colocar novos princípios em prática nas famílias, instituições, escolas, igrejas, em todos os grupos sociais, de forma que muitos movimentos sociais comecem a demonstrar a viabilidade de novas soluções. (Questões nºs 791 a 793 e 797 de O Livro dos Espíritos). A polêmica idéia de que o Brasil está destinado a cumprir o papel de “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho” sempre foi acompanhada de reflexões muito entusiastas. Se ele realmente tem uma missão histórica a realizar, então é preciso começar a pensar o Brasil de um ponto de vista mais realista. Só assim poderemos cumpri-la. O Evangelho apresenta a mais elevada fórmula de vida político-administrativa aos povos da terra. Os ideais democráticos do mundo não derivam senão do próprio ensinamento de Jesus, nesse particular, acima da compreensão vulgar das criaturas. A magna questão é encontrar o elemento humano disposto à execução do sublime princípio. Quase todos os homens se atiram à conquista dos postos de autoridade e evidência, mas geralmente se encontram excessivamente interessados com as suas próprias vantagens no imediatismo do mundo O grande desafio do espírita consciente é participar ativamente desse movimento de transformação social, alicerçado no conhecimento das Leis Morais contidas em O Livro dos Espíritos, buscando:

– Politizar-se para escolher melhor;

– Esclarecer amigos e familiares sobre o voto consciente;

– Participar de grupos de ação comunitária, além do centro espírita;

– Votar com amor, para eleger os mais moralizados.

Preponderar sobre os maus, como já vimos, é apenas uma questão de vontade. Foi a esta conclusão que chegou Martin Luther King (Os Grandes Líderes – Nova Cultural), ao afirmar: “Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Não posso ficar no meio de todas essas maldades sem tomar uma atitude.” Toda a estrutura da Doutrina Social Espírita está calcada na Codificação e esta deve ser a base para a construção de Uma Nova Sociedade. Assim, a implantação da Política da Fraternidade deve ser para todo espírita consciente UM IDEAL A SER ATINGIDO.

Ensaio elaborado a partir de transcrições do Livro O Espiritismo e a Política para a Nova Sociedade – Aylton Paiva – Lins. Casa dos Espíritas.

  • Outras obras consultadas:

Rumos para Uma Nova Sociedade – O Espiritismo e as Ciências Sociais – Autores Diversos – São Paulo. Edições USE. Estudos de Filosofia Social Espírita – Ney Lobo – FEB
Alma e Luz – Francisco Cândido Xavier/Emmanuel – Instituto de Difusão Espírita.
Jornal Opinião E. de Maio de 1997 – Especial – Eduardo Fernandes.
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec.
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.
A Gênese – Allan Kardec.
Obras Póstumas – Allan Kardec.
O Reino – J. H. Pires/Irmão Saulo – São Paulo. Editora Edicel.
O Espiritismo e Os Problemas Humanos – D. Amorim & H. C.Miranda – São Paulo: Editora USE.
Caminho, Verdade e Vida – Francisco Cândido Xavier/Emmanuel – FEB.
Os Grandes Líderes – Martin Luther King – Nova Cultural.
Como Não Ser Enganado nas Eleições – Gilberto Dimenstein – Editora Ática.
Elementos da Engenharia Social – Décio Silva Barros – Editora do Escritor – SP.

* * *

Pergunta: Será suficiente não se fazer o mal, para ser agradável a Deus e assegurar uma situação futura?
Resposta dos Espíritos: Não: é preciso fazer o bem, no limite das próprias forças, pois cada um responderá por todo o mal que tiver ocorrido por causa do bem que deixou de fazer.

Questão 642 e resposta dos espíritos in O Livro dos Espíritos. Obra codificada por Allan Kardec.

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A Imprensa

Raul TeixeiraResultado de imagem para imagens imprensa

Todas as formas de reprodução, em larga escala, de textos escritos é chamada imprensa.

A partir daí, todos esses movimentos que têm havido, ao longo da História do homem, desde quando o homem começou a escrever suas ideias, seus pensamentos, nas lajes de pedra, no solo, onde quer que tenha sido, passamos a ter a existência de um veículo de comunicação.

É muito importante que uma geração legue a outras a sua produção, a sua cultura, tudo aquilo que aprendeu.

É muito importante que as gerações novas prestem atenção no legado que lhes foi deixado pelas gerações anteriores. A imprensa se presta a isso.

É dessa forma que achamos nos livros, nos opúsculos, nas revistas, nos textos mais variados, a presença do passado investindo no nosso presente.

A imprensa é profundamente importante para a Humanidade. Desde quando passamos a sentir necessidade de saber das coisas, que se sucedem aqui, ali, acolá, lançamos mão da imprensa.

A imprensa tem ajudado nesse grande movimento de alfabetização das criaturas. Seria muito complicado alfabetizar hoje, bilhões e bilhões de almas mundo afora, através da tradição oral, pertencente a muitos povos antigos.

Hoje, graças ao trabalho da imprensa, esse labor de alfabetizar se torna mais fácil.

Mas a imprensa também colaborou bastante, no movimento da democracia, para esse tipo de governança, esse filosofar social, esse sistema de dirigir comunidades, de dirigir o Estado, a cidade-estado grega. Naturalmente se deve à imprensa da época.

Os textos dos grandes democratas apresentados às comunidades e o povo podendo conhecer direitos, deveres, saber quem era nobre, quem era ignóbil, isso tudo vem colaborando para distender no mundo a democracia.

E o que falar das revoluções científicas?

Tudo quanto os cientistas vão adquirindo em conhecimento, vão desenvolvendo na sua lavra de pesquisas, é a imprensa que divulga.

Hoje, conhecemos jornalistas científicos, aqueles que acompanham o trabalho dos cientistas nos laboratórios e tratam de difundi-los para as comunidades. Isso se deve à imprensa.

Mas, curiosamente, temos observado um fenômeno preocupante: a incapacidade de muitos, que fazem imprensa, de divulgar coisas boas.

Será que, sob a justificativa de que a imprensa busca sempre atender ao interesse popular, e isto é verdade, deve procurar atendê-lo, essa comunidade necessita somente de notícias drásticas, de coisas negativas?

Impossível é pensar que não existam notícias boas para os jornais, para as revistas. Coisas boas para a publicação em livros.

Por que esse compromisso nefasto de grandes grupos da imprensa em divulgar somente o negativo?

Quem estaria lucrando com isto? A sociedade não é.

Quem estaria ganhando com esse movimento pessimista que se alastra pela sociedade, a partir de uma imprensa mal forjada?

Ficamos pensando no trabalho que tiveram os homens, desde o começo da civilização, para estruturar uma sistemática que ganhou grande pulso depois de Johannes Gutenberg, com os seus tipos móveis montados, ao invés das pessoas escreverem manualmente os textos.

Tudo isso ganhou dimensão com os novos trabalhos gráficos, com os novos maquinários gráficos. Mas, por que razão a criatura humana penetrou esse descaminho do negativismo?

Qualquer notícia que lemos tem a sua negatividade, traz o escândalo na sua pauta.

Será que é isto que a sociedade do mundo espera da imprensa?

Será que a imprensa não tem mais possibilidades de trazer esperanças às criaturas? Orientá-las? Elucidificá-las?

Quando pensamos em tudo isso, temos que refletir que está chegado o momento de refundirmos todo o trabalho da nova imprensa.

* * *

O interesse popular é pelo bem. Qual é a criatura, qual é a família que gostaria de ler somente tragédias, desastres, infortúnios, infelicidades ao compulsar as páginas de um jornal?

Quem é que gostaria de saber só de escândalos da vida alheia, as intrigas da intimidade dos casais famosos, ao compulsar uma revista?

Quem é que gostaria de ter, nas páginas de um livro, senão aquilo que deleitasse, que ilustrasse, ainda que se narrasse um crime, um desastre passional, mas que fosse para o engrandecimento da vida, para trazer uma mensagem nova?

Todos gostariam. De modo que, quando vemos a imprensa servindo de veículo, exatamente para fazer o oposto daquilo que é a sua missão, informar devidamente, preocupamo-nos com o futuro das comunicações.

Vale a pena pensar nos textos que encontramos redigidos pelos Apóstolos de Jesus, pelos discípulos.

É claro que eles falavam das traições, dos crimes da época, das tragédias sociais. Mas, fundamentalmente, tudo aquilo era para falar da vida, que esplende em toda parte. Da vida que nos concita a amá-la, a respeitá-la, a valorizá-la.

Deveria ser esse o papel da imprensa: divulgar aquilo que é de interesse social, sem qualquer dúvida. Mas o interesse social superior.

Não há nenhum interesse para a sociedade, em tomarmos conhecimento de que, neste exato momento, caiu um ônibus em tal lugar, explodiu um automóvel em outro lugar ou desabou um prédio em qualquer parte do mundo. Há tanta coisa boa para se noticiar.

Lamentavelmente, é raro lermos a respeito de jovens pobres das favelas, que aprenderam a cartilha, a tabuada, que fizeram vestibulares e foram aprovados, que dançam ballet, que foram contratados por empresas internacionais para dançar, para cantar.

E isso diz respeito ao interesse social. Cada criatura pobre, cada menino simples entenderia que, se aquele pôde se superar, ele também poderá. E isso seria incentivo.

Quando vemos a nossa imprensa, em grandes contingentes, preocupada e ocupada tão somente em divulgar o escândalo, é natural refletirmos que também ela estará incentivando as almas frágeis, aos Espíritos débeis, que procurarão, através dos escândalos, um lugar na imprensa.

É por isso que nos lembramos de uma canção, de uma letra de Chico Buarque de Holanda: Meu guri. Ele retrata exatamente isto: ele disse que chegava lá, porque ele via os meninos da favela onde ele vivia, os meninos do morro, do bairro pobre, conseguindo as coisas às custas do roubo, da falcatrua, da criminalidade.

E o poeta popular narra, com riqueza, o que é que vai na alma de um guri que cresce vendo aquilo na imprensa, nos jornais, sem falarmos naquilo que ele vivencia no seu habitat.

Seria tão bom se a imprensa do mundo inteiro se associasse aos interesses do nosso Criador. Trazer luz para as mentes e para os corações.

Ninguém está dizendo que a imprensa não deveria noticiar o crime, a falcatrua, a barbaria. Mas não como algo fundamental. Noticiar en passant para chamar a atenção, não focar a sua venda, a venda de seus produtos no que há de pior.

Ao abrirmos uma revista, um jornal, um periódico qualquer o que encontramos ali é costumeiramente nauseante.

A pornografia, a prostituição, a corrupção política, a corrupção de toda ordem, como se não houvessem outros valores que tivéssemos necessidade de conhecer.

Há tanta gente boa no mundo, há tanta coisa boa na Terra precisando desses spotligths da imprensa. Precisando dessas anotações da imprensa, que jornalistas sensíveis ao progresso do mundo, que periodistas sensíveis à necessidade social de crescer, de se libertar da sombra, não perdessem de vista que, nesses tempos curiosos da Terra, nesses tempos danados do mundo, nessa hora bicuda da Humanidade, todos sentimos necessidade de uma imprensa que sirva o bem, que trabalhe para a luz e nos ajude a crescer.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 197, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. Programa gravado em agosto de 2009

Fonte: G. E. Casa do Caminho de S. Vicente

Publicado em por admin | Deixe um comentário

ESPÍRITOS DE PESSOAS EM COMA

Por Isabel Miranda

Como espíritas, aprendemos que cada encarnação se presta a acrescentar novos aprendizados, reparar erros do passado ou até mesmo cumprir missões importantíssimas ao avanço da humanidade. [1] Viemos ao mundo material para fazer, entender ou experimentar coisas que não nos seriam fáceis ou mesmo possíveis no mundo espiritual.

Nesse sentido, situações como o coma, em que a pessoa aparentemente não participa da vida material, costumam nos causar muitas dúvidas. Haveria um propósito nessas vidas? Como agir nesses casos? Certamente, não existe uma resposta única e definitiva para todas as situações, mas podemos, sim, fazer algumas considerações – em especial, analisando o que ocorre com o espírito da pessoa em estado de coma.

 

A diferença entre coma e morte cerebral

Em primeiro lugar, é importante traçar algumas distinções entre o coma e a morte cerebral.[2]

O coma é considerado uma desordem da consciência. Quando a pessoa está em coma, geralmente, não há indícios de que a pessoa esteja alerta – isto é, a pessoa não abre os olhos, nem tem reflexos básicos como engolir e tossir. Tampouco há indícios de que a pessoa perceba o seu entorno – isto é, que ouça o que as pessoas falam ou entenda o que acontece à sua volta.

No entanto, as desordens de consciência são diferentes da morte cerebral. Na morte cerebral, a pessoa não é capaz de respirar ou manter batimentos cardíacos sem a ajuda de aparelhos. Não há qualquer possibilidade de a pessoa recuperar a consciência, tamanho o dano sofrido. Em alguns casos, a expressão “coma irreversível” é usada como sinônimo de “morte cerebral”, o que contribui para a confusão.

Sem embargo, há distinção essencial entre as duas condições, pois todos já ouviram falar de casos em que a pessoa saiu do coma, mesmo depois de vários anos nesse estado. Um exemplo incrível e recente é o de Munira Abdulla, mulher que permaneceu inconsciente desde o acidente de carro que sofrera em 1991, até 2019 – ou seja, despertou depois de ter passado quase 28 anos nesse estado.[3]

Por outro lado, com a morte cerebral, abre-se a possibilidade da doação de órgãos – que, deve-se destacar, é compatível com a doutrina espírita e incentivada pela espiritualidade superior.[4]

 

Kôma, o sono profundo

A palavra coma vem do grego kôma, que significa “sono profundo”.

Sabemos que, durante o sono, o espírito se desprende das amarras da carne. Portanto, é possível que o espírito se veja livre das eventuais deficiências físicas do corpo, mesmo aquelas de ordem psicológica ou intelectual – nos casos em que a deficiência só existe no corpo, isto é, não decorre de desajustes do corpo espiritual. [5]

Assim, o sono físico pode permitir, por exemplo, que o cego enxergue, que o mudo fale, e que a pessoa em coma recupere a consciência, na forma de espírito, conseguindo realizar as diversas atividades possíveis ao espírito durante o sono [6] – desde as mais nobres, como praticar a caridade e ouvir palestras,[7] passando pelas corriqueiras, como encontrar com amigos e familiares (tanto encarnados quanto desencarnados),[8] até as menos enriquecedoras, como praticar zombarias.[9]

O fato de a pessoa estar em coma, ao contrário do que o nome sugere, não significa que ela esteja dormindo o tempo todo – tal como o sono é averiguado em nosso corpo, com suas fases etc. A literatura médica aponta que, nos casos de coma com melhor prognóstico, verifica-se que o paciente em coma também experiencia o sono.[10]

 

O que acontece com o espírito durante o coma

Finalmente, chegamos à questão – quando a pessoa está em coma e não está propriamente dormindo, o que acontece com seu espírito?

A resposta à Questão 407 do Livro dos Espíritos pode elucidar esse ponto:

“407. É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito?

Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Para se emancipar, ele se aproveita de todos os instantes de trégua que o corpo lhe concede. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo”.[11]

Assim, é possível entender como algumas pessoas que sofreram desordens da consciência, uma vez despertas, recordam-se das pessoas que a visitaram e de coisas que lhe foram ditas – o espírito, desprendido, recupera as faculdades que faltam ao corpo prostrado e, tal como acontece no sono, é capaz de apreender o seu entorno, de forma consciente.

Aplica-se, aqui, a mesma lógica manifestada na resposta à Questão 422 do Livro dos Espíritos que, embora não trate propriamente do coma, trata de situação próxima o suficiente para a analogia ser feita:

“422. Os letárgicos e os catalépticos, em geral, veem e ouvem o que em derredor se diz e faz, sem que possam exprimir que estão vendo e ouvindo. É pelos olhos e pelos ouvidos que têm essas percepções?

Não; pelo Espírito. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar -se.

  1. a) — Por quê?

Porque a isso se opõe o estado do corpo. E esse estado especial dos órgãos vos prova que no homem há alguma coisa mais do que o corpo, pois que, então, o corpo já não funciona e, no entanto, o Espírito se mostra ativo”.

Por outro lado, há casos em que a pessoa esteve em coma e não se recorda de nada desse período, ou mesmo esquece pessoas e fatos da vida anterior ao coma. Sob o aspecto médico, o esquecimento é normal, pode fazer parte do processo de recuperação do paciente [12] e, sob o aspecto espiritual, o esquecimento não significa que o espírito tenha se mantido inerte durante o coma – a mesma lógica se aplica durante o sono, pois estamos em atividade mesmo quando não nos lembramos dos nossos sonhos.[13]

 

Lições trazidas pela doença incapacitante

No romance espírita Vinte Dias em Coma,[14] o leitor acompanha a história de Nestor, um ganancioso homem de negócios, de trato rude com todos os que o cercam, nem mesmo pelos filhos consegue demonstrar carinho. Está casado há 26 anos com Berenice, que, cansada de sua grosseria e prepotência, pensa em se divorciar. O coma de 20 dias traz relevantes transformações na vida de Nestor e dos que o cercam.

Para evitar “spoilers”, ficamos com a reflexão final da obra, mostrando que o coma pode cumprir um papel fundamental de aprendizado:

“Seria de bom proveito, vez ou outra, provocarmos um ‘coma’ em nós mesmos, sem a necessidade de acidentes ou hospitais, mas um ‘coma’ imaginário, onde pudéssemos realizar, nesse exercício mental, uma análise do que nossos familiares, nossos amigos, nossos conhecidos, poderiam dizer a nosso respeito, se oportunidade tivessem, e nós, a de ouvi-los, sem que soubessem. Dessa forma, poderíamos analisar a nossa vida, os nossos atos, os nossos impulsos e as nossas reações, no intuito de exercitarmos melhor os ensinamentos do mestre Jesus que, inevitavelmente, nos proporcionaria a tão desejada felicidade e uma consciência mais tranquila, com a qual, e com o nosso amor, faríamos o nosso próximo mais feliz e seríamos muito mais amados por todos os que nos cercam”.

 

Dilemas dos familiares e profissionais da saúde responsáveis pelo paciente sem perspectiva de melhora

Frequentemente, a família do paciente em coma se vê numa situação angustiante, especialmente nos casos em que o coma tem prognósticos mais pessimistas. É possível que o próprio paciente tenha indicado os cuidados paliativos ou procedimentos que gostaria ou não de receber quando, porventura, não estivesse consciente – caso do coma. Isso nem sempre torna mais brando o fardo dos familiares.

A comunidade médica traça importantes distinções no que tange aos cuidados do paciente terminal ou sem perspectiva de cura.[15] A ortotanásia é admitida no Brasil e se encontra regulamentada da seguinte forma: “Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal”.[16]

Em artigo publicado pela Associação Médico Espírita do Brasil, há uma importante reflexão sobre o tema:

“O kardecismo tem por bem considerar a importância da continuidade do investimento na vida em detrimento da retirada voluntária desta, sendo assim contra a eutanásia. As pesquisas que trouxemos neste artigo são convergentes aos princípios kardecistas e certamente contribuem com a ampliação do conceito de ortotanásia.

Enquanto os métodos que evidenciam a vida e a comunicação espiritual se desenvolvem, as neurociências abrem uma nova possibilidade investigatória sobre a preservação da consciência nos indivíduos em estado vegetativo, em coma ou ECM [estado de consciência mínima]. Espera-se que o acesso aos exames de neuroimagem seja cada vez maior e pesquisas sobre o tema sejam conduzidas no Brasil”.[17]

 

As palavras de Chico Xavier e Emmanuel sobre o espírito da pessoa em coma

Por fim, é sempre bom buscarmos instrução e alento nas palavras de Chico e Emmanuel, que falaram sobre os espíritos dos pacientes em coma:

Pergunta: O que se passa com os espíritos encarnados cujos corpos ficam meses, e até mesmo anos, em estado vegetativo (coma)?

Resposta: Seu estado será de acordo com sua situação mental. Há casos em que o espírito permanece como aprisionado ao corpo, dele não se afastando até que permita receber auxílio dos Benfeitores espirituais. São Pessoas, em geral, muito apegadas à vida material e que não se conformam com a situação. Em outros casos, os espíritos, apesar de manterem uma ligação com o corpo físico, por intermédio do perispírito, dispõem de uma relativa liberdade. Em muitas ocasiões, pessoas saídas do coma descrevem as paisagens e os contatos com seres que os precederam na passagem para a Vida Espiritual. É comum que após essas experiências elas passem a ver a vida com novos olhos, reavaliando seus valores íntimos. Em qualquer das circunstâncias, o Plano Espiritual sempre estende seus esforços na tentativa de auxílio. Daí a importância da prece, do equilíbrio, da palavra amiga e fraterna, da transmissão de paz, das conversações edificantes para que haja maiores condições ao trabalho do Bem que se direciona, nessas horas, tanto ao enfermo como aos encarnados (familiares e médicos)”. [18]

[1] Sobre o tema da reencarnação e seus diferentes objetivos, recomenda-se a leitura da obra de Evelyn Freire de Carvalho, A Imortalidade da Alma, Série Conhecendo o Espiritismo. Ed. Letra Espírita, 2020, pp. 17-19 (O que é reencarnação e qual sua finalidade?) e pp. 26-30 (Quais os tipos de reencarnação?).

[2] A autora não é profissional da saúde, mas buscou informações médicas sobre as diferenças entre esses dois estados nas páginas <https://www.nhs.uk/conditions/coma/> e <https://www.nhs.uk/conditions/brain-death/>.

[3] https://www.nytimes.com/2019/04/24/world/middleeast/woman-coma-27-years.html.

[4] Sobre o assunto, esclarecem Chico Xavier e Emmanuel, com base nos ensinamentos de André Luiz:

Pergunta: O que a Doutrina Espírita pode falar a respeito de doação de órgãos, sabendo-se que o desligamento total do espírito pode às vezes ocorrer em até 24 horas e que, para a medicina, o tempo é muito importante para a eficácia dos transplantes? O Espiritismo é contra ou a favor dos transplantes?

Resposta: O benefício daqueles que necessitam consiste numa das maiores recompensas para o espírito. Desse modo, a Doutrina Espírita vê com bons olhos a doação de órgãos. Mesmo que a separação entre o espírito e o corpo não se tenha completado, a Espiritualidade dispõe de recursos para impedir impressões penosas e sofrimentos aos doadores. A doação de órgãos não é contrária às Leis da Natureza, porque beneficia, além disso, é uma oportunidade para que se desenvolvam os conhecimentos científicos, colocando-os a serviço de vários necessitados” (Francisco Cândido Xavier, com a colaboração do espírito EMMANUEL. Plantão de Respostas Pinga Fogo II, disponível em <http://www.espiritismobrasil.com/e-books/Chico_Xavier_livros/Chico_Xavier_-_Livro_382_-_Ano_1995_-_Plantao_de_Respostas_Pinga_Fogo_II.pdf>).

[5] Na literatura espírita, encontram-se diversos relatos de espíritos deformados por danos sofridos em vida – por exemplo, consumo de drogas, aborto – ou, até mesmo, danos sofridos após a morte, no caso de perseguição por inimigos no umbral. Nesses casos, é possível que, em uma próxima encarnação, o corpo seja afetado pelos danos do espírito – algumas vezes, esse é um passo necessário para a cura do espírito.

[6] Para aprofundamento, veja-se o Livro dos Espíritos, em especial, as respostas às Questões 400 a 406.

[7] No romance espírita Alguém Chorou por Mim, de Fernando do Ó, acompanhamos a intensa atividade espiritual de uma família durante o sono, em prol do bem.

[8] Com relação aos encontros entre encarnados, vejam-se as respostas às Questões 413 a 418 do Livro dos Espíritos.

[9] “Quando encarnados, na Crosta, não temos bastante consciência dos serviços realizados durante o sono físico; contudo, esses trabalhos são inexprimíveis e imensos. Se todos os homens prezassem seriamente o valor da preparação espiritual, diante de semelhante gênero de tarefa, certo efetuariam as conquistas mais brilhantes, nos domínios psíquicos, ainda mesmo quando ligados aos envoltórios inferiores. Infelizmente, porém, a maioria se vale, inconscientemente, do repouso noturno para sair à caça de emoções frívolas ou menos dignas. Relaxam-se as defesas próprias, e certos impulsos, longamente sopitados durante a vigília, extravasam em todas as direções, por falta de educação espiritual, verdadeiramente sentida e vivida” (Francisco Cândido Xavier, pelo espírito ANDRÉ LUIZ, Missionários da Luz, Ed. FEB, 1945, pp. 82-83).

[10] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19524464.

[11] Grifou-se.

[12] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/986753.

[13] Conforme resposta à Questão 403 do Livro dos Espíritos.

[14] Wilson Frungilo Jr., Vinte Dias em Coma, Ed. IDE, 2011.

[15] Além da eutanásia ativa, caracterizada pelo ato intencional de proporcionar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por uma doença incurável ou dolorosa, também existe a eutanásia passiva: omitir ou suspender arbitrariamente condutas que ainda seriam indicadas e que poderiam trazer benefícios ao paciente; a ortotanásia: condutas médicas restritivas, lastradas em critérios médicos e científicos de indicação ou não-indicação, optando-se conscienciosamente pela abstenção de algo que serviria somente para prolongar a vida artificialmente, sem proporcionar melhora à existência terminal; e a distanásia: morte decorrente de um abuso na utilização dos recursos médicos, mesmo quando flagrantemente infrutíferos para o paciente, de maneira desproporcional, impingindo-lhe maior sofrimento ao identificar, sem reverter, o processo de morrer já em curso, como definidos pela Dra. Ewalda von Rosen Seeling Stahlke em <https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/pareceres/PR/2010/2285>.

[16] RESOLUÇÃO CFM Nº 1.805/2006. Disponível em:

<http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2006/1805_2006.htm>.

[17] Julio Peres, O indivíduo em estado vegetativo pode estar consciente? Disponível em <http://www.amebrasil.org.br/html/outras_veg.html>.

[18] Francisco Cândido Xavier, com a colaboração do espírito EMMANUEL. Plantão de Respostas Pinga Fogo II, disponível em <http://www.espiritismobrasil.com/e-books/Chico_Xavier_livros/Chico_Xavier_-_Livro_382_-_Ano_1995_-Plantao_de_Respostas_Pinga_Fogo_II.pdf> (grifou-se).

Fonte: Blog Letra Espírita

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Vida em Outros Planetas

Por Diego Falcão

Diante da multiplicidade de pensamentos religiosos e da evolução da ciência, o homem passou a contemplar a imensidade do espaço sideral e, consequentemente, a perquirir questionamentos como: o ser humano estaria realmente só no Universo? Sobre essas e outras questões acerca da vida extraterrena, os Espíritos são categóricos ao afirmarem que, além dos terráqueos não estarem sozinhos no Universo, o Planeta Terra não foi o primeiro e nem será o último palco de suas experiências existenciais. Vejamos o que leciona O Livro dos Espíritos:

Questão 172. Todas as nossas diversas existências corporais realizam-se na Terra?

– Nem todas; vivemo-las em diferentes mundos: a existência no mundo terreno não é a primeira nem a última, e é uma das mais materiais e mais distanciadas da perfeição.

Questão 173. A cada nova existência corporal, a alma passa de um mundo a outro ou pode cumprir diversas existências no mesmo globo?

– Ela pode viver várias vezes no mesmo globo, se não estiver suficientemente adiantada para passar a um mundo superior. (KARDEC, 2019, p. 95).

Portanto, uma vez que os planetas possuem condições muito diversas entre si, convém mencionar que a Terra constitui apenas uma etapa a ser percorrida no somatório das existências corporais. Assim, o progresso das almas na fieira dos mundos está intimamente relacionado ao grau de adiantamento de seus respectivos habitantes. Considerando que Deus jamais deixou de criar, pode-se concluir que sempre houve Espíritos a preencher os diversos níveis da escala evolutiva, mesmo antes do próprio surgimento da Terra (KARDEC, 2020).

Ponderando-se a existência de seres extraterrenos, é válido analisar sob quais condições eles vivem quando imersos na matéria; afinal, cada planeta possui elementos peculiares que delimitam ou mesmo impossibilitam a existência de vida na forma como conhecemos. Portanto, torna-se digno de estudo a afirmação da Espiritualidade de que todos os planetas são habitados. Vejamos o que se segue em O Livro dos Espíritos:

Questão 181. Os seres que habitam os diferentes mundos têm corpos semelhantes aos nossos?

– Sem dúvida eles têm corpos, pois é preciso que o Espírito se revista de matéria para poder agir sobre ela; mas esse envoltório é mais ou menos material segundo o grau de pureza a que chegaram os Espíritos, e é isso que faz a diferença entre os mundos que devemos percorrer; pois há diversas moradas na casa de nosso Pai e, assim, vários graus. Alguns o sabem e têm consciência disso na Terra; com outros, no entanto, o mesmo não acontece. (KARDEC, 2019, p. 96)

Isto posto, há mundos ainda mais inferiores que a Terra, outros que se encontram no mesmo grau, e ainda outros que estão em posição superior (KARDEC, 2018). Na presente classificação assevera O Evangelho Segundo o Espiritismo:

Nos mundos inferiores, a existência é totalmente material, as paixões reinam soberanas, a vida moral é quase nula. À medida que esta se desenvolve, a influência da matéria diminui, de tal modo que nos mundos mais avançados a vida é, por assim dizer, totalmente espiritual. (KARDEC, 2018, p. 43).

Conforme o excerto acima, à proporção que um planeta adquire mais sutileza, a matéria que o compõe fica menos densa e os seres que ali habitam passam a obter necessidades cada vez menos grosseiras. Aos poucos, as paixões animais perdem a sua força e os seres não mais precisam valer-se da autodestruição para se nutrirem, surgindo o sentimento de fraternidade. Com a evolução dessa virtude, as guerras passam a não ter mais razão de existir, uma vez que ninguém mais deseja fazer mal ao seu semelhante (KARDEC, 2019).

Dessarte, nas esferas mais sublimes, a matéria exerce ainda menos influência e o homem não mais se arrasta penosamente sobre o solo. A atmosfera torna-se mais leve e, consequentemente, menos rudes os trabalhos. A vida, não mais sofrendo intensamente as intempéries, torna-se mais duradoura, bem como as guerras e as epidemias não encontram mais razão de existir (DENIS, 2011).

Resta saber se, nos mundos superiores, as almas permanecem circunscritas como os seres terráqueos ou disforme como a luz. Numa palavra, nesses casos, existe perispírito a envolver os seres encarnados e desencarnados? Acerca desse assunto, encontramos guarida em O Livro dos Espíritos:

Questão 186. Há mundos onde o Espírito, deixando de habitar um corpo material, tem por envoltório apenas o perispírito?

– Sim, e mesmo esse envoltório torna-se de tal forma etéreo que, para vós, é como se não existisse. É, portanto, o estado dos Espíritos puros.

Questão 186-A. Parece resultar disso o fato de não haver uma demarcação nítida entre o estado das últimas encarnações e a de um Espírito puro?

– Essa demarcação não existe. Uma vez que a diferença se apaga pouco a pouco, ela se torna imperceptível, como a noite que se desfaz ante as primeiras claridades do dia.

Questão 187. A substância do perispírito é a mesma em todos os globos?

– Não, ela é mais ou menos etérea. Passando de um mundo a outro, o Espírito se reveste da matéria própria de cada um, com a rapidez de um relâmpago. (KARDEC, 2019, p. 97-98).

Assim, quanto aos estágios da natureza, a codificação é uníssona ao demonstrar que não há transição que seja perceptível ao homem e aquilo que se entende por conceito de matéria, além de ter sofrido inúmeras ampliações no decurso do tempo, ainda está bem distante de ser definitivo.

Portanto, de forma harmoniosa, os ensinamentos da Espiritualidade demonstram que “a casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem aos Espíritos encarnados estadas adequadas ao seu avanço” (KARDEC, 2018, p. 42).

Importante mencionar que os habitantes dessa imensa variedade planetária estão em constante transfusão entre mundos, quer individualmente, quer coletivamente, resultando na miscigenação de estágios evolutivos, uma vez que os Espíritos nunca perdem o que adquiriram (KARDEC, 2020).Nesse ponto, identifica-se mais uma máxima da sabedoria divina que, no intercâmbio salutar, não só provas e expiações são concretizadas, mas igualmente o caráter missionário dos povos pode contribuir para a evolução dos seres da família universal.

Diego Falcão

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIAS

DENIS, L. Depois da Morte: Explicação da Doutrina dos Espíritos. Trad. de Maria Lucia Alcantara de Carvalho. 3. ed. Rio de Janeiro: CELD, 2011.

KARDEC. A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. de Matheus Rodrigues de Camargo. 43. reimp. Capivari: EME, 2018.

O Livro dos Espíritos. Trad. de Matheus Rodrigues de Camargo. 24. reimp. Capivari: EME, 2019.

A Gênese. Trad. de Cristina Florez. 1. ed. Capivari: EME, 2020.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Sexo e Espiritismo – Transtornos Sexuais

Fernanda Machado

Prezados irmãos, a Lei de Causa e Efeito não falha e não seria diferente nos casos dos desvios sexuais. Na alma, os centros perispiríticos se desassociam, causando inúmeros problemas àqueles que se envolvem em tais condutas sexuais desregradas.

Parafilia, segundo o dicionário Priberam, é uma “designação genérica para comportamentos sexuais que se desviam do que é geralmente aceite pelas convenções sociais, podendo englobar comportamentos muito diferentes e com diferentes graus de aceitabilidade social”. Já de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – V), utilizado pelos médicos, a parafilia é qualquer interesse sexual intenso que não seja voltado para a prática sexual propriamente dita. O indivíduo satisfaz seu prazer somente com determinado objeto, situação ou lugar, como por exemplo o sadismo (fixação por sexo causando dor a outrem), masoquismo (fixação por sexo sofrendo dor), pedofilia (fixação por sexo com crianças), necrofilia (sexo com cadáveres), estupro (prazer sexual devido à repulsa da vítima), zoofilia (sexo com animais), etc.

Através do crivo da razão, podemos analisar com mais lógica tais comportamentos sexuais. Já vimos, nos artigos anteriores desta série, que o sexo é sublime tesouro criado por Deus. Destarte, será que o Pai nos presenteou com o corpo material para que nós maltratássemos dele nas práticas masoquistas? Será que é vontade Dele que nós causemos dor em nosso parceiro durante o ato sexual? A razão nos responde negativamente a essas duas perguntas. É desnecessário, ainda, refletir a esse respeito sobre as demais parafilias comentadas no parágrafo anterior, pois obviamente elas vão contra a vontade divina.

Analisando mais a fundo, lembremos que Jesus nos ensinou que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é o primeiro e o maior mandamento. O segundo mandamento ensina que não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, e vice-versa. Portanto, tudo o que é feito contra o próximo é o mesmo que fazê-lo contra Deus. Pensemos então nessas máximas com carinho, ponderando se estamos usufruindo do sexo sem violência com o próximo e, consequentemente, com Deus.

Muitas vezes, os transtornos sexuais fazem com que a pessoa se torne uma criminosa, causando fobias sexuais nas suas vítimas, que frequentemente necessitam de várias encarnações para superar esses traumas. Ninguém pode justificar o ato sexual criminoso alegando a famosa frase “a carne é fraca”, pois foi o próprio indivíduo que rebaixou seu pensamento desequilibrado à matéria. Ora, isso nada mais é que o livre arbítrio. Deus nos deu a capacidade de julgar as vantagens e os inconvenientes de cada ação a ser tomada.

Como consequência dos desvios sexuais, os espíritos algozes que aí permanecem, colecionando vítimas, contraem para si um longo período de reparação e expiações. Sua própria consciência os cobrará o reparo das faltas cometidas, após o arrependimento. É necessário haver controle, educação e aperfeiçoamento das energias sexuais, ao longo dos aprendizados de cada reencarnação.

No entanto, queridos irmãos, quem nunca errou? Quem dentre nós pode julgar o erro de um companheiro na jornada evolutiva? Estamos todos neste mundo para aprender e nos ajudar mutuamente, para que juntos possamos chegar ao Criador. Quando nos depararmos com notícias de estupro, pedofilia e afins, cuidemos para não desejar o mal ao agressor, e não julgá-lo. Que possamos orar por ele e desejar sinceramente que melhore, lembrando que todos nós já erramos tanto quanto ou até mais que ele, se não na vida atual, em vidas pregressas.

Que Jesus abençoe a todos vocês, e que nunca olvidemos uma de suas poderosas lições: “Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra”. Com essas palavras, o Mestre nos advertiu da importância da afabilidade, da paciência, da moderação e da caridade para com o próximo.

Fernanda Machado

REFERÊNCIAS:

BARCELOS, W. Sexo e evolução. 3ª ed, FEB, Rio de Janeiro, 1994.

FERNANDES, B. da S., O mundo por trás das parafilias. Ago/2018. Disponível em: https://canalcienciascriminais.com.br/mundo-parafilias/ Acesso em: 17 jul. 2019.

KARDEC, A. O evangelho segundo o espiritismo. FEB, Rio de Janeiro. Edição em formato digital.

KARDEC, A. O Livro dos espíritos. FEB, Rio de Janeiro. Edição em formato digital.

KÜHL, E. Sexo sublime tesouro, 1ªed, Editora espírita cristã Fonte Viva, Belo Horizonte, 1992.

NEILMORIS, L. Sexualidade sob um olhar espírita. Distribuição em formato digital pelo portal Luz Espírita, 2011.

RANIERI, R. A. O Sexo além da morte, orientado pelo espírito André Luiz. 10ªed, Editora da Fraternidade, Guaratinguetá, 1991.

RUIZ, A. L. Esculpindo o próprio destino, pelo espírito Lucius. 1ª ed e-book, Ide Editora, Araras, 2011.

VIEIRA, W. XAVIER, F. C. Evolução em dois mundos, pelo espírito André Luiz.

VIEIRA, W. XAVIER, F. C. Sexo e destino, pelo espírito André Luiz. 12ªed, FEB, 2008.

XAVIER, F. C. No mundo maior, pelo espírito André Luiz. FEB, Rio de Janeiro.

XAVIER, F. C. Vida e sexo, pelo espírito Emmanuel. 1ªed, FEB, 1970.

“para filia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/para%20filia . Acesso em: 17 jul. 2019.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

ENVELHECIMENTO E ESPIRITUALIDADE

Divaldo P. Franco

Em uma bela obra, intitulada A Sublime Arte de Envelhecer, o psicólogo alemão Anselm Grün afirma que Carl G. Jung assevera: Assim se aproximam do limiar da velhice, com aspirações e desejos irrealizados que, automaticamente, desviam o seu olhar para o passado, […] sendo eternos adolescentes, lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo, consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira. (JUNG, 1967, p. 785/789 apud GRÜN, 2012, p. 9)

Envelhecer é um fenômeno biológico natural pelo qual passa tudo quanto existe. O animal humano, no entanto, não sabe envelhecer e ilude-se como se a juventude fosse de natureza eterna. Nesse período, há um brilho especial em tudo, especialmente no ser humano, a aparelhagem é rica de energia, a visão da vida é imperfeita, porque a própria vivência não se expressou em toda a sua pujança, e quando surgem os primeiros sinais do desgaste dos órgãos e das suas funções, surpreende-se e começa a batalha para negar a realidade ou retardá-la, negando-lhe o existir.

Os recursos mais variados e alguns bastante extravagantes são utilizados para disfarçar o envelhecimento que é odiado como uma verdadeira desgraça. Possuísse a pessoa uma visão da Espiritualidade e dar-se-ia conta da bênção que é esse fenômeno, especialmente pelas consequências das fases iniciais: infância, juventude, maturidade, que foram enriquecedoras, com a certeza de que a morte não é a etapa final da vida, antes uma porta especial que se abre na direção de nova realidade.

Quem na velhice descobre o mistério da vida, a grandeza dos relacionamentos, o júbilo do aprendizado, torna-se belo, com diferente irradiação de felicidade, que o torna um verdadeiro sábio, um ser feliz.

A pessoa nessa fase a tudo vê com profundidade, descobrindo e experienciando os sabores, as delícias do existir. Percebe que todas as oportunidades fruídas, algumas boas outras nem tanto, são valores preciosos que contribuem para o período menos propício às aventuras, às ilusões, reservando-se os prazeres que revigoram e produzem especial encantamento à jornada ditosa.

Podemos afirmar, com o Dr. Grün, que é uma sublime arte o envelhecer.

É necessário aprender o valor do envelhecimento, o seu profundo significado, o prolongamento dos seus dias físicos na Terra e nos entregarmos às Leis da Natureza, aliás, não somente os idosos, mas também os jovens e adultos.

Com a visão espiritual da vida, bem envelhecer é viver por antecipação no paraíso.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, 29/04/2021

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Percepções, sensações e sofrimentos dos espíritos

Por Elio Mollo

O Livro dos Espíritos: Parte Segunda - Capítulo VI - VIDA ESPÍRITA

Estudo com base em O LIVRO DOS ESPÍRITOS

Livro Segundo, qq. de 237 à 256

Mundo Espírita ou dos Espíritos, Capítulo VI, Vida Espírita

Obra codificada por Allan Kardec

Pesquisa: Elio Mollo

A alma, uma vez no mundo dos Espíritos, tem ainda as percepções (1) que tinha nesta vida e outras que não possuía, porque o seu corpo era como um véu que a obscurecia. A inteligência é um atributo do Espírito (2), mas se manifesta mais livremente no mundo dos Espíritos quando não tem entraves.

As percepções e os conhecimentos dos Espíritos quanto mais se aproximam da perfeição mais sabem: se são superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes em todos os assuntos.

O conhecimento dos Espíritos em relação ao princípio das coisas se faz conforme a sua elevação e a sua pureza. Os Espíritos inferiores não sabem mais do que os homens.

Os Espíritos não compreendem a duração do tempo como nós e isso faz que nem sempre os compreendamos, quando se trata de fixar datas ou épocas. (3)

Os Espíritos vivem fora do tempo, tal como o compreendemos. A duração, para eles, praticamente não existe, e os séculos, tão longos para nós, não são aos seus olhos mais do que instantes que desaparecem na eternidade, da mesma maneira que as desigualdades do solo se apagam e desaparecem para aquele que se eleva no espaço.

Os Espíritos fazem do presente uma idéia mais ou menos justa como aquele que vê claramente e tem uma idéia mais justa das coisas, do que o cego. Os Espíritos vêem o que não vemos, e julgam diferentes de nós. Mas isso depende da sua elevação.

O passado para os Espíritos, é um presente, precisamente como a lembrança de uma coisa que os impressionou durante a encarnação. Entretanto, como não têm mais o véu material que obscurece a sua inteligência, lembram-se das coisas que desapareceram para nós. Mas nem tudo os Espíritos conhecem (4), a começar pela sua própria criação.

Os Espíritos tem conhecimento do futuro conforme o progresso espiritual que atingiram, ou melhor, quase sempre, nada mais fazem do que entrevê-lo, mas nem sempre têm a permissão de o revelar. Quando o vêem, ele lhes parece presente. O Espírito vê o futuro mais claramente à medida que se aproxima de Deus. Depois da morte, a alma vê e abarca de relance as suas migrações passadas, mas não pode ver o que Deus lhe prepara. Para isso é necessário que esteja integrada nele, depois de muitas existências.

Quanto ao completo conhecimento do futuro, Deus é o único e soberano Senhor, e ninguém o pode igualar.

Somente os Espíritos superiores vêem a Deus e o compreendem. Os Espíritos inferiores o sentem e adivinham. Quando um Espírito inferior diz que Deus lhe proíbe ou permite uma coisa, ele não vê a Deus, mas sente a sua soberania, e quando uma coisa não deve ser feita ou uma palavra não deve ser dita, ele o sente como uma intuição, uma advertência invisível que o inibe de fazê-lo. Nós, os encarnados, temos pressentimentos que são para nós como advertências secretas, intuição, para fazermos ou não alguma coisa. O mesmo acontece com os Espíritos, mas em grau superior, pois sendo mais sutil do que a dos encarnados a essência dos Espíritos, podem receber mais facilmente as advertências divinas.

A ordem transmitida por Deus, não lhe chega diretamente de Deus, pois para comunicar-se com Ele é preciso merecê-Lo. Deus transmite as suas ordens pelos Espíritos que estão mais elevados em perfeição e instrução. (5)

A vista dos Espíritos não é circunscrita como nos seres corpóreos, para eles é uma faculdade geral.

Os Espíritos vêem pela luz própria, sem necessidade de luz exterior. Para eles não há trevas, a não ser aquelas em que podem encontrar-se por expiação.

Quando os Espíritos precisam transportar-se para ver em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, como o Espírito se transporta com a rapidez do pensamento, podemos dizer que vê por toda parte de uma só vez. Seu pensamento pode irradiar e dirigir-se para muitos pontos ao mesmo tempo (6). Mas essa faculdade depende da sua pureza. Quanto menos puro ele for, mais limitada é a sua vista. Somente os Espíritos superiores podem ter visão de conjunto.

A faculdade de ver dos Espíritos, inerente à sua natureza, difunde-se por todo o seu ser, como a luz num corpo luminoso. E uma espécie de lucidez universal, que se estende a tudo, envolve simultaneamente o espaço, o tempo e as coisas, e para a qual não há trevas nem obstáculos materiais. Compreende-se que assim deve ser, pois no homem a vista funciona através de um órgão que recebe a luz, e sem luz ele fica na obscuridade. Mas, nos Espíritos, a faculdade de ver sendo um atributo próprio que independe de qualquer agente exterior, a vista não precisa de luz.

O Espírito vê as coisas mais distintamente do que os encarnados, porque a sua vista nada a obscurece.

O Espírito percebe os sons mais do que nós os encarnados, até mesmo os que os nossos sentidos obtusos não podem perceber. Todas as percepções são atributos do Espírito e fazem parte do seu ser. Quando ele se reveste do corpo material, eles se manifestam pelos meios orgânicos; mas, no estado de liberdade, não estão mais localizadas.

O Espírito só vê e ouve o que ele quiser. Isto de uma maneira geral, e sobretudo para os Espíritos elevados, porque os imperfeitos ouvem e vêem freqüentemente, queiram ou não, aquilo que pode ser útil ao seu melhoramento.

A nossa música em relação a música celeste, uma é para a outra o que o canto do selvagem é para a suave melodia. Não obstante os Espíritos vulgares podem provar um certo prazer ao ouvir a nossa música terrestre porque não estão ainda capazes de compreender outra mais sublime. A música tem, para os Espíritos, encantos infinitos, em razão de suas qualidades sensitivas muito desenvolvidas. Refiro-me à música celeste, que é tudo quanto a imaginação espiritual pode conceber de mais belo e mais suave.

As belezas naturais dos vários globos são tão diversas que estamos longe de as conhecer, mas os Espíritos são sensíveis a elas, segundo as suas aptidões para as apreciar e as compreender. Para os Espíritos elevados há belezas de conjunto, diante das quais se apagam, por assim dizer, as belezas dos detalhes.

Os Espíritos conhecem as nossas necessidades e os nossos sofrimentos físicos, porque também os sofreram, mas não os experimentam materialmente como nós, porque são Espíritos.

Os Espíritos não podem sentir a fadiga como a entendemos, e, portanto, não necessitam do repouso corporal, pois não possuem órgãos em que as forças tenham de ser restauradas. Mas o Espírito repousa no sentido de não permanecer numa atividade constante. Ele não age de maneira material, porque a sua ação é toda intelectual e o seu repouso é todo moral. Há momentos em que o seu pensamento diminui de atividade e não se dirige a um objeto determinado; este é o verdadeiro repouso, mas não se pode compará-lo ao do corpo. A espécie de fadiga que os Espíritos podem provar está na razão da sua inferioridade, pois quanto mais se elevam, de menos repouso necessitam.

Quando um Espírito diz que sofre, a natureza do seu sofrimento é de angústias morais, que o torturam muito mais dolorosamente que os sofrimentos físicos.

Quando alguns Espíritos se queixam de frio ou calor, essa lembrança é do que sofreram durante a vida, e algumas vezes tão penosa como a própria realidade. Freqüentemente é uma comparação que fazem, para exprimirem a sua situação. Quando se lembram do corpo experimentam uma espécie de impressão, como quando se tira uma capa e algum tempo depois ainda se pensa estar com ela.

NOTAS:

(1) Sobre as sensações e percepções do espírito Kardec in Revista Espírita – janeiro 1866 (A Jovem Cataléptica de Souabe), diz que: “A alma é o ser inteligente; nela está a sede de todas as percepções e de todas as sensações; sente e pensa por si mesma; é individual, distinta, perfectível, pré-existente e sobrevivente ao corpo.

(2) A inteligência é um atributo essencial do espírito, porém, ambos se confundem num princípio comum, de sorte que, para nós, parecem que são a mesma coisa. (LE – 24)

(3) Na Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita de O Livro dos Espíritos, encontramos o seguinte em relação a pensamento:

Item XIV da Introdução: “Livres da matéria, a linguagem de que usam entre si é rápida como o pensamento, porquanto são os próprios pensamentos que se comunicam sem intermediário.”

(4) Em Obras Póstumas, 2ª parte, Minha primeira iniciação no Espiritismo, Allan Kardec diz que: “Um dos primeiros resultados de minhas observações foi que os Espíritos, não sendo outros senão as almas dos homens, não tinham a soberana sabedoria, nem a soberana ciência; que o seu saber estava limitado ao grau de seu adiantamento, e que a sua opinião não tinha senão o valor de uma opinião pessoal. Essa verdade, reconhecida desde o princípio, me preservou do grande escolho de crer em sua infalibilidade, e me impediu de formular teorias prematuras sobre o dizer de um só ou de alguns.”

(5) No O Livro dos Espíritos questão 888ª, o Espírito Vicente de Paulo nos informa para que “Não esqueceis jamais que o Espírito, qualquer que seja o seu grau de adiantamento, sua situação como reencarnado ou na erraticidade, está sempre colocado entre um superior que o guia e aperfeiçoa e um inferior perante o qual tem deveres iguais a cumprir.”

(6) No O Livro dos Espíritos questão 92, e em O Livro dos Médiuns, 2ª parte, item 282, questão 30, encontramos as seguintes informações quanto a ubiquidade dos Espíritos:

Os Espíritos não tem o dom da ubiqüidade, ou, em outras palavras, o mesmo Espírito não pode dividir-se ou estar ao mesmo tempo em vários pontos, pois não pode haver divisão de um Espírito, contudo cada um deles é um centro que irradia para diferentes lados, e é por isso que parecem estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Vês o Sol, que não é mais do que um, e não obstante irradia por toda parte e envia os seus raios até muito longe. Apesar disso, ele não se divide. (LE – 92)

Para responder, ao mesmo tempo, às perguntas que lhe são dirigidas, o Espírito se divide ou tem o dom da ubiquidade?

R – O Sol é um só e, no entanto, irradia ao seu derredor, levando longe seus raios, sem se dividir. Do mesmo modo, os Espíritos. O pensamento do Espírito é como uma centelha que projeta longe a sua claridade e pode ser vista de todos os pontos do horizonte. Quanto mais puro é o Espírito tanto mais o seu pensamento se irradia e se estende, como a luz. Os Espíritos inferiores são muito materiais; não podem responder senão a uma única pessoa de cada vez, nem vir a um lugar, se são chamados em outro.

Um Espírito superior, chamado ao mesmo tempo em pontos diferentes, responderá a ambas as evocações, se forem ambas sérias e fervorosas. No caso contrário, dá preferência à mais séria.

(O Livro dos Médiuns – 62ª. ed. – Allan Kardec (Guia dos Médiuns e dos Evocadores) (Paris – 1861), 2ª parte, item 282, questão 30)

Os Espíritos não irradiam com o mesmo poder, bem longe disso, o poder de irradiação depende do grau de pureza de cada um. (LE – 92a)

Nota de Allan Kardec: Cada Espírito é uma unidade indivisível; mas cada um deles pode estender o seu pensamento em diversas direções, sem por isso se dividir. É somente nesse sentido que se deve entender o dom de ubiqüidade atribuído aos Espíritos. Como uma fagulha que projeta ao longe a sua claridade e pode ser percebida de todos os pontos do horizonte. Como, dada, um homem que, sem mudar de lugar e sem se dividir, pode transmitir ordens, sinais e produzir movimentos em diferentes lugares.

* * *

Fontes:

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos, cap. VI, questões de 237 à 256.

Allan Kardec – Revista Espírita – janeiro 1866 (A Jovem Cataléptica de Souabe).

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos, Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita, itens V, XIII e XIV.

Allan Kardec – Obras Póstumas, 2ª parte. Minha primeira iniciação no Espiritismo.

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos, questão 888ª.

Allan Kardec – O Livro dos Espíritos, questão 92.

Allan Kardec – O Livro dos Médiuns 2ª parte, item 282, questão 30)

FONTE: Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário