Continuidade da vida

vida Maria José

Por algum motivo que ele desconhecia, naquela manhã, ele acordou bem mais disposto, como há muito tempo não se sentia. Calçou os chinelos, saiu pela porta aberta do quarto e viu a enfermeira Fernanda no posto de enfermagem, em frente a um computador, digitando. Passou por ela e deu um sonoro bom dia, mas ela estava tão concentrada que nem respondeu.

O doutor Rodrigo, médico que supervisionava seu tratamento vinha pelo largo corredor conversando com outro médico, tão compenetrado, que nem se virou para cumprimentá-lo. Ele preferiu não chamar o médico pelo nome, como sempre fazia, pra não atrapalhar a conversa, pois andavam pelo corredor verificando uns exames com cara de muito preocupados.

A manhã estava com céu aberto e o dia prometia. Ele, de longe, tinha acordado muito melhor. Nada de enjoo ou vômitos, diarreia ou fadiga. Na verdade, ele estava tão bem que queria sair correndo e pulando pelos corredores do hospital. Melhor não, pensou.

Naquela manhã parecia que ninguém o via. Aos 19 anos ele já tinha se acostumado aos olhares de admiração das pessoas. Alto, forte, bonito e extremamente simpático, ele não tinha dificuldade em se comunicar e cativar as pessoas. Mesmo estando bem mais magro, careca e pálido, ele chamava a atenção ao passar pelos corredores do hospital quando dava suas “caminhadas” para relaxar a tensão e diminuir a angústia que esmagava seu peito.

O tratamento de quimioterapia daquela semana o deixou bem debilitado, tanto que teve que ser internado. Ele tinha que fazer muita força para manter o humor e se fazer de forte, principalmente perto dos pais e da irmã mais nova. Já estava bem desgastado pelo tratamento, cansado de lutar para viver.

Tudo aconteceu muito rapidamente. Começou com dores fortes na cabeça há alguns meses e então, do nada, um diagnóstico terrível: câncer no cérebro. No início parecia um lance surreal, que estava acontecendo com outra pessoa, nada a ver com a vida que se abria todinha diante dele, só esperando para ele realizar seus sonhos.

Só que não. Pânico na família, perguntas para as quais as respostas demoravam ou não tinham muitas certezas, sigilo na escola, saída das aulas, afastamento dos colegas e toda a reviravolta que sua vida sofreu. Literalmente, ele estava perdido.

E aí as perguntas começaram a aparecer. Devagarinho. Uma a uma foram se esgueirando entre um exame e outro, entre um diagnostico ruim e outro pior. À medida que a porta da esperança ia se fechando mais elas apareciam. E ele sem coragem pra verbalizar nenhuma : O que vai acontecer comigo? Vou deixar de existir? Se não, pra onde vou? O que vou ser? Alma penada? Mas o que é uma alma penada? Será que sou bom o suficiente para ir para o céu? Tem céu mesmo? Se não tem, o que me espera?

Tinha dias que a barra ficava mais leve e ele até se esquecia delas. Elas davam uma sumida e ele ficava sempre grato. Mas toda vez que era internado e saia para caminhar no corredor elas logo apareciam… Ultimamente com mais frequência.

Caminhou até a área do grande jardim interno, onde muitas vezes se sentara com seus familiares e amigos no horário de visitas. Era o lugar preferido dos pacientes. Ali eles meio que esqueciam um pouco das doenças que marcavam suas vidas. Resgatavam momentos de alegria.

Naquela hora não havia ninguém lá e ele achou isso muito bom. Ia ficar mais à vontade. Sentou-se no banco, virou a cara pra cima, sentiu o sol queimando a pele de forma gostosa e respirou profundamente.

Era tão bom estar vivo! Por que ele não podia ter uma chance? Por que tinha que morrer daquela doença horrorosa? Por que deixar seus pais, sua irmã e todos que ele amava? Ele era tão novo!  Gente nova não devia morrer! Não está certo isso.

Ao ter esses pensamentos ele começou a se sentir mal. Os sintomas começaram a reaparecer e ele teve uma leve tontura. Olhou em volta e viu que uma jovem enfermeira caminhava diretamente para ele. Devia ser nova, pois ele nunca a tinha visto por ali.

Com um suave sorriso ela falou:

_Bom dia, João!

_Bom dia!

-Posso me sentar com você?

_Claro!

_Meu nome é Ermance. Tudo bem?

_Estava, né. Até agora a pouco, quando comecei a passar mal outra vez.

_É. Deu para notar a sua mudança vibratória. Por isso eu vim. Sou a instrutora responsável pelo seu caso.

_Só achei que você iria querer curtir a beleza revigorante do jardim por mais um tempo, mas parece que eu me enganei.

_Mudança vibratória? O que você quer dizer?

_Você chegou até aqui se sentindo muito bem, não foi? Praticamente sem os sintomas que te acompanharam nos últimos tempos. – Mas ao começar a se questionar sobre as “perdas” que estava sofrendo, seu padrão mental baixou e você começou a passar mal outra vez.

_Por que você fez aspas com os dedos quando falou das “perdas”? Por acaso elas não são reais e evidentes?

_Isso depende do ponto de vista de quem vê os acontecimentos.

_E morrer de um câncer violento aos 19 anos, tendo uma vida toda pela frente, não é uma perda inquestionável, independente do ponto de vista de quem quer que seja?

_Nem sempre!

_Como assim? Você deve estar despreparada para ser instrutora de alguém… Seja lá instrutora do que seja. Vejo que é tão jovem quanto eu.

_Sou uma veterana! Trabalho como Instrutora de Readaptação há mais de 20 anos.

_Mas você ainda nem tem cara de quem tem essa idade!

_Para você ver como as coisas por aqui são boas. Sempre que trabalho com jovens escolho essa aparência. Facilita meu trabalho.

_Seu trabalho?

_Sim, como disse sou Instrutora de Readaptação e ao perceber a queda do seu padrão mental achei melhor me aproximar.

_Queda de padrão mental? O que é isso? O que tem a ver comigo e minha doença?

_Calma! Uma pergunta de cada vez! Então vamos lá!

_Bom, ao ficar se perguntando os “por quês” da sua doença, da falta de tratamento e das suas perdas, sua mente passou a vibrar em uma faixa de pessimismo e revolta, atraindo para você todos os sintomas dos quais você já estava livre essa manhã. A mudança de pensamentos de um estado bom para um com sofrimento é o que chamamos de queda do padrão mental. Entendeu?

_Mais ou menos. O que você quer dizer é que se eu estou bem e tranquilo tenho um padrão mental melhor e, quando não estou, entro em um padrão pior. É isso!

_Aprende rápido, em?

_Mas o que isso tem a ver com a volta dos sintomas? E por que eu acordei me sentindo tão bem? E por que …

_Muita calma nessa hora! Respira! Isso.

_Antes de continuar nossa conversa preciso te apresentar O Desafio. Pode ser?

_E eu lá estou em condições de aceitar desafio? Olha meu estado. É ruim, em?

_Sei que seu espírito desportivo é alto. Não é à toa que você é o capitão do time de basquete da sua escola.

_Mas como você sabe disso?  Essa informação não está no meu relatório clínico daqui do hospital.

_Tenho um relatório minucioso a seu respeito, e não é só dessa atual. Mas falamos disso depois. Vamos ao que interessa. Quero ver você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

João olhou para aquela jovem e alegre enfermeira. Por alguma razão ele se sentia muito bem em sua companhia. Inexplicavelmente, sentia que podia confiar nela.

Será que era um tratamento novo para paciente terminais? Será que foi o doutor Rodrigo que solicitou aquela supervisão psicológica para que ele ficasse um pouco melhor? Seus pais certamente estariam de acordo, não é?

Como se lesse seus pensamentos Ermance falou:

_João, sossegue sua mente. Ela está tagarelando demais e tirando sua atenção do que é mais importante agora.

_E o que seria?

_Você vencer O Maior Desafio dessa sua vida.

_Ah! O Desafio. Muito bem. Parece que o tratamento aqui do hospital vai além do que eu poderia imaginar. Mas se você está aqui isso significa que tudo ocorre dentro do programado.

_E põe programado nisso!

_Então vamos ao Maior Desafio da minha vida.

_Me acompanhe.

João e Ermance se levantaram do banco, caminharam tranquilamente pelo extenso jardim e entraram de volta no corredor. Foram andando em silencio por algum tempo. Ao se aproximarem do setor no qual o quarto de João estava ele percebeu uma movimentação fora do comum no dia a dia. No corredor mais adiante, bem em frente à porta do seu quarto havia uma equipe médica conversando baixo e as enfermeiras do setor entravam e saiam em absoluto silêncio.

João olhou para Ermance sem entender o que estava acontecendo. Ela estava serena e fez um sinal para que ele entrasse no quarto.

A primeira coisa que ele viu foi uma pessoa deitada na cama que ele havia ocupado, coberta dos pés à cabeça com um lençol. Perguntou:

_Colocaram outro paciente no quarto que eu estava usando?

_Não – a resposta veio calma.

_Então quem é que está deitado ali na minha cama e coberto desse jeito?

_Ali está um recurso temporário que lhe foi permitido usar por determinado tempo e para um objetivo específico.

_O que você quer dizer com isso?

_Que ali está, digamos assim, uma vestimenta que você usou até hoje e da qual não precisa mais.

_Não estou entendendo nada.

_Vou te ajudar a entender. Sabe quando você cresce e a roupa não te serve mais? Você não cabe mais nela, certo? E aí você a dispensa de seu uso pessoal. Então, foi isso que aconteceu.

_Estamos falando de roupa?

_De certa forma, sim.

_Uma roupa que eu não vou usar mais porque cresci?

_Simbolicamente sim. Você está deixando uma veste física que te serviu até hoje pela manhã e agora não precisa mais dela.

_Veste física? O que é isso?

_Um corpo físico.

João olhou para Ermance de boca aberta.

Será que ele estava entendendo o que ela havia dito? Será que ela havia dito que ali estava deitado o seu corpo? Como assim? – ele se perguntou passando a mão pela cabeça, pelo tórax e barriga, sentindo a si mesmo.

O corpo dele estava ali com ele, de pé e não deitado na cama e coberto por um lençol. Lançou um olhar indagativo que logo foi respondido por Ermance:

_A vida continua, João. O que há depois da matéria é a plena continuidade dela. Só que em planos diferentes.  Bem-vindo a sua pátria de origem!

_Então eu morri? Mas como posso ter morrido se estou aqui falando com você, andando e sentindo meu corpo normalmente?

_Sim, você morreu hoje bem cedo, de forma tranquila, tanto que nem percebeu. Isso é maravilhoso. Você não faz ideia de como casos iguais ao seu são raros.

_Maravilhoso? Como o fato de eu ter morrido pode ser maravilhoso? Você já parou para pensar nas consequências? Na minha família e amigos? E em mim?

Assim que disse essas palavras, profundo mal-estar envolveu João. Parecia que ele estava em uma crise aguda a sua doença. Suando frio, com muitas dores na cabeça e uma sensação de fraqueza tão forte que ele teve a sensação de que ia desmaiar.

Ermance o pegou pelos ombros e o encaminhou para uma poltrona do quarto.

Em profundo silencio e concentração, espalmou as mãos sobre a testa e coração dele e transmitiu energias calmantes e revigorantes a fim de que ele ficasse bem. Com vontade firme e intenção de ajuda ela doou energias que foram, aos poucos, reequilibrando o campo mental e emocional de João.

Após alguns minutos desse aporte energético, João começou a sentir um pouco melhor, mas ainda distante de se sentir bem e lúcido o suficiente para entender o que estava acontecendo.

Ermance falou decidida:

_Agora é hora de só pensarmos em você. Deixe aos que ficam na vida física a oportunidade de viverem as experiencias de desapego que necessitam e de fortalecimento da fé que este momento lhes reserva.

_Mantenha a calma que é tudo o que você precisa para vencer o desafio de entender que a morte é simples continuidade da vida. Vida que precisa ser aceita nesse momento, uma vez que a que te aguarda aqui no plano astral

_Mas vamos deixar as explicações mais amplas para depois. Agora você precisa descansar.

Fonte: Blog Dufox

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Adulterações nas Obras Básicas

Aryanne   Karine

No dia 18 de abril de 1857, Allan Kardec lançou o Livro dos Espíritos, tornando esta data um marco histórico para os adeptos e simpatizantes da doutrina trazida pelos nossos irmãos espirituais que tanto esclarece e norteia nossos passos, tirando-nos dúvidas há tantos séculos viventes em nossas consciências e iniciando a compreensão doutrinária, religiosa e científica de questões antes sem razão nem lógica, baseadas apenas pela fé puramente cega. No dia 06 de janeiro de 1868, faltando pouco para fechar o ciclo de três anos, Kardec lança livro que posteriormente iria, até os dias atuais, ser considerado como a quinta obra básica da codificação espírita, o livro A Gênese. Essas cinco obras inicias, tratam de trazer à tona a fé raciocinada, aquela que, com o amparo da ciência, faz sentido e baseia-se na mesma, para comprovar suas lições, caminhando sempre de mãos dadas com a razão, onde Kardec inclusive, por muitas vezes, orientando-nos a reconhecer a doutrina espírita como uma vertente científica, pelo seu poder de observação e pesquisa, do que compete ao plano da espiritualidade, bem como o nosso plano material.

Isso porque, assim como muitos contrários a doutrina Espírita na época de sua codificação, Allan Kardec também era cético nos efeitos mediúnicos e vida após a morte, criando ele, uma metodologia científica própria para conseguir validar os ensinos dos espíritos, onde conforme foi trabalhando nas questões, recebeu do alto que assim como os bons espíritos, que trabalham para nós instruir e auxiliar, existem também os que ainda não possuem um nível de evolução tão honroso, e poderiam, assim como ainda podem, utilizar do médium ou material usado na comunicação mediúnica para atrapalhar o trabalho proposto.

É um fato irrevogável a qualidade e veracidade do trabalho árduo que Allan Kardec teve para presentear-nos com as lições da espiritualidade, criando-o, uma metodologia séria que nunca abriu, dentre as pesquisas espíritas, precedentes a dúvidas ou controvérsias. Porém, justamente o último livro da codificação espírita, a muitos anos está envolvido em uma polêmica no meio editorial, a de adulterações da obra original.

Essa constatação foi feita, quando o escritor espirita Carlos de Brito Imbassahy, por volta do início dos anos 2000, levantou a polemica do então recém-chegado a sua 5º edição, o livro ‘A Gênese’, onde ao consultar terceira edição do original francês, constatou entre algumas alterações, sendo a mais grave, a retirada de um item que fez parte da obra até a sua quarta edição, item este que mencionava o desaparecimento do corpo físico de Jesus. Na época, Carlos, chegou a concluir que as adulterações foram feitas pelo então tradutor da FEB Guilon Ribeiro, pois esta edição teria sido feita após o desencarne de Allan Kardec, gerando por muitos, a constatação de adulteração.

O historiador Felipe Gonçalves por volta de 2009, resolveu então, ir em busca da veracidade dos fatos e descobrir se realmente Guilon era o responsável pela adulteração depois de muitas especulações na época. Onde relata que:

Munido desse material e motivado pelo interesse em desvendar o assunto, reuni-me com o espírita João Donha, do Paraná, e iniciamos uma minuciosa pesquisa. A primeira coisa que fizemos foi comparar as quatro primeiras edições da obra, publicadas por Kardec em 1868, e constatamos que elas eram idênticas. Depois, passamos para a análise da 5ª edição, publicada em 1872 (após o desencarne de Allan Kardec), e apresentada pelos editores como revue, corrigée et augmentée (revista, corrigida e aumentada). Ao analisar a obra, constatamos o que os editores anunciaram: a 5ª edição aparecia com muitas diferenças em relação às edições anteriores. Isso isentava Guillon Ribeiro das acusações precipitadas de Carlos Imbassahy. Mas, e quanto às alterações? Quem as teria feito? Mergulhamos de cabeça no assunto, consultamos diversas fontes do período, mas, na ausência de provas materiais que nos permitissem chegar à autoria das alterações, não pudemos chegar à uma conclusão. ¹

O fato é que desde o princípio do levante dessas informações, há muita especulação não somente sobre o responsável por tais alterações posteriores ao desencarne de Kardec, bem como se não foi o próprio quem revisou e alterou alguns trechos de sua própria obra, o que é comum no lançamento de novas edições no ramo editorial, ainda mais se tratando de uma obra recente, onde se descobria e ainda se descobre muito do que a espiritualidade tem a nos oferecer.

Em seu livro Doutrina Espírita Sem Segredos, a autora Evelyn Freire nos traz referências envolventes desse tema, onde nos elucida com a seguinte reflexão:

“(…) A Gênese foi adulterada, inclusive com a exclusão de conceitos doutrinários firmados por Allan Kardec. Esses conceitos ficaram desconhecidos por 150 anos. Em vida, Kardec publicou quatro edições idênticas à primeira, no decurso do ano de 1868. Entretanto, desencarnou em março do ano seguinte e, em 1872, comandando a continuidade das obras de Allan Kardec, Pierre Gaetan Leymarie, dissidente inconformado com os conceitos fundamentais apresentados em A Gênese, acabou realizando exclusões ao texto original e publicando uma quinta edição revisada, corrigida e aumentada que não correspondia à original’²

É importante salientar que, talvez o problema maior não esteja em descobrir o autor das alterações, mas compreender o que levou a nova edição a mudar o seu conteúdo que até então permanecia fiel à primeira edição, sem nem ao menos expor uma nota no rodapé ou esclarecer o motivo das alterações pós desencarne do autor, o que, automaticamente, abriu precedentes á muitas especulações, pois não se trata de uma obra qualquer, e sim, conceitos doutrinários de uma obra que aborda a vertente científica da doutrina espírita, e é uma das bases de pesquisa e divulgação da mesma.

Como se somente essa polêmica em torno de uma obra tão significativa não fosse o suficiente, temos ainda a recente descoberta oriunda de uma grande pesquisa do escritor e também pesquisador Paulo Henrique de Figueiredo que após um trabalho minucioso com arquivos originais, constatou não só o que já havia sido exposto, mas também, a adulteração na penúltima obra da codificação espírita, o livro O Céu e o Inferno. Em uma entrevista, o escritor comenta:

‘Desde julho de 2019, vários grupos de pesquisa tiveram acesso aos documentos da Biblioteca Nacional da França e dos Arquivos Nacionais quanto às edições da obra O céu e o inferno. Na pesquisa efetuada pelo coautor de minha obra, Lucas Sampaio, nos grandes e empoeirados livros de mais de um século, nos Arquivos de Paris, ele encontrou o depósito legal n. 5.819, da quarta edição de O céu e o inferno, registrado em 19/7/1869, à página 117 do documento F/18(III)/124. Sendo após a morte de Rivail, trata-se de adulteração. Na França, como ocorreu com A Gênese, a União Francesa, responsável pela publicação da obra, já voltou à edição original de Kardec, assim como na Argentina. No Brasil, estamos preparando a edição em português. O mundo inteiro está restaurando a verdadeira voz de Kardec. São alterações seríssimas. O adulterador tinha em vista implantar as ideias de castigo divino, carma, sofrimento como pena divina, queda e outros dogmas, implantando textos jamais escritos por Kardec em O céu e o inferno. Também retiraram ideias fundamentais quanto à moral autônoma, responsabilidade moral, a liberdade como lei divina. Será um resgate trabalhoso, exigindo estudo e dedicação dos espíritas. Mas será a restauração da verdade’³

Nesta mesma entrevista, Figueiredo menciona que as outras três obras da codificação espírita estão em suas versões originais, portanto não possuem a mesma problemática quanto ao trabalho de Leymarie pós desencarne de Kardec. Importante mencionar também, que existe uma lei moral, quando após o óbito do escritor, não tendo ninguém o direito de alterar suas obras em seu nome.

O que talvez seja de imensa relevância para nossa reflexão é, quantos séculos a humanidade viveu controlada por uma fé cega, de um Deus castigador, onde os que detinham os grandes conhecimentos, acabavam limitando o acesso ou deturpando as mensagens conforme a comodidade de seus interesses. Assim de mesmo modo, podemos trazer uma fala ainda do escritor e pesquisador Figueiredo que nos elucida não só a refletir sobre essa possível intenção nas adulterações, bem como a descoberta de suas pesquisas de trechos retirados da obra de Kardec mesmo após seu retorno ao plano espiritual:

‘Foram muitos trechos significativos retirados de O céu e o inferno que demonstram as conclusões de Kardec quanto à doutrina moral espírita. Neles, ele explica que o Espiritismo supera os dogmas presentes em sistemas criados pelos homens, pelos conceitos baseados nas leis naturais deduzidas das milhares de comunicações dos Espíritos, em diversos estágios evolutivos. Isso faz da metafísica e da moral uma ciência, pelo método de pesquisa espírita. Ficamos privados desses ensinamentos em virtude da adulteração. Logo no segundo item das Leis da Justiça Divina, capítulo 8 da edição original (que se tornou o 7 na versão adulterada), Kardec havia escrito: “Sendo todos os Espíritos perfectíveis, em virtude da lei do progresso, trazem em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade futura e os meios de adquirir uma e de evitar a outra trabalhando em seu próprio adiantamento”. Essa é a mais clara e profunda definição da autonomia moral espírita. Desse modo, a felicidade não é uma concessão ou graça divina, mas uma conquista do próprio ser. Também a infelicidade não é um castigo, mas uma condição criada quando o Espírito desenvolve uma imperfeição, e termina quando ele próprio a desfaz. As vicissitudes do mundo material não são jamais castigos, mas, sim, oportunidades para o desenvolvimento do Espírito. Este mundo, portanto, não é uma prisão, e sim uma escola de aplicação.’⁴

Mas qual a relevância dessas informações em nosso meio espírita? As obras básicas são os pilares centrais de toda a doutrina dos espíritos, nelas são embasadas todas as obras posteriores doutrinárias, romances, ou qualquer conteúdo produzido de acordo com as lições dos espíritos. Deturpar a mensagem dessas obras ou então remover itens que seriam de auxílio para nosso progresso, torna um pouco mais árdua nossa jornada.

Obviamente, temos que ter o discernimento de que não é porque a pessoa é espírita que é perfeita, bem como, os que possuíram, possuem e possuirão poderes e status em altos cargos no movimento espírita não estão ilesos a erros, apesar de, enquanto encarnados, termos a tendência de tornar maiores os que trabalham em prol da doutrina, somos todos irmãos e iguais, e assim como os que alguns que estão no meio podem ter o intelecto mais desenvolvido que a moral, muitos que não são detentores de cargos ou status, podem possuir uma moral mais evoluída que o intelecto, quando não os dois estando na escala evolutiva talvez até a frente dos que se dispõe a ‘grandes atividades’.

Nós ainda estamos sujeitos a erros, assim como outrora, ou os responsáveis por essas adulterações pós-desencarne de Kardec, não podemos julgar o nosso próximo, pois se estamos vivendo no mesmo orbe dos que aqui erraram, é porque também somos falhos e o que nos difere é somente a falta de nossos erros. Afinal, não seria então esse o maior mandamento? Amar o próximo como a si mesmo?

Que ao invés de findar nossa energia em procurar motivos ou culpados, que busquemos voltar ao foco principal que é a mensagem tão bem elaborada na codificação das obras básicas e tomar não só para ganho de conhecimento, mas para uma nova forma de pensar e agir, vivendo as lições e mensagens em nosso íntimo, transformando-nos em seres melhores a cada amanhecer, para que não sejamos apenas acumuladores de conhecimento, mas a doutrina viva a evangelizar e espalhar os frutos dessa boa nova através de nossos exemplos.

Aryanne   Karine

REFERÊNCIAS:

¹ Espiritualidade e sociedade, A polêmica da Gênese. Disponível em: {http://www.espiritualidades.com.br/Artigos/i_autores/INCONTRI_Dora_tit_Polemica_da_Genese-A.htm} Acesso 11/01/2021

² CARVALHO, Evelyn Freire de. Doutrina Espírita Sem Segredos – Série Conhecendo o Espiritismo, Editora Letra Espírita – Campos dos Goytacazes RJ; 2019 pág 83

³ Folha Espírita, Adulteração em o céu e o inferno de Kardec. Disponível em {https://www.folhaespirita.com.br/jornal/pesquisa-indica-adulteracao-em-o-ceu-e-o-inferno-de-kardec/} Acesso: 11/01/2021

⁴ Folha Espírita, Adulteração em o céu e o inferno de Kardec. Disponível em {https://www.folhaespirita.com.br/jornal/pesquisa-indica-adulteracao-em-o-ceu-e-o-inferno-de-kardec/} Acesso: 11/01/2021

Fonte: Blog Letra Espírita

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Você Tem Medo do Umbral?

Fernanda Oliveira

“O pensamento escolhe. A ação realiza. O homem conduz o barco da vida com os remos do desejo, e a vida conduz o homem ao porto que ele aspira chegar. Eis porque, segundo as Leis que nos regem, ‘a cada um será dado segundo as suas obras”. (XAVIER, 2004).

Segundo a definição do dicionário (UMBRAL, 2021), umbral é a soleira da porta, portal ou entrada. Segundo André Luiz (XAVIER, 2006) no livro “Nosso Lar”, é “estado ou lugar transitório por onde passam as pessoas que não souberam aproveitar a oportunidade de evolução em sua vida na Terra.”

Pode ser entendido como o local que os Espíritos ainda estão ligados às coisas materiais, muito endurecidos e teimosos. O umbral começa na crosta terrestre, é uma dolorosa região densa de sombras, erguida e cultivada pela mente humana, local de dor e sofrimento. No umbral, os Espíritos continuam geralmente apegados às formas do mundo material, local onde não existe a noção de justiça, solidariedade, convivência, fraternidade, beleza, harmonia e equilíbrio; muitas vezes o Espírito desencarna e passa anos ignorando sua condição de desencarnado. Nessa região, habitualmente, as paixões reinam soberanas, a vida moral é quase nula e os seres são fisicamente e moralmente inferiores.

A Justiça Divina se faz pelo tribunal da consciência, dotado de livre arbítrio, ou seja, da liberdade de escolha, é o Espírito o construtor de seu destino. Somos julgados por nosso próprio julgamento. Nossos sofrimentos são resultados de nossas condutas errôneas e indevidas no mundo terreno: “a cada um segundo as suas obras.”

Tudo na criação está conectado, todos os Espíritos possuem livre arbítrio. Nossos pensamentos formam um campo vibratório ao nosso redor, todo Espírito é um núcleo radiante de forças que criam e são capazes de transformar, destruir e modificar.

Nada se perde na criação, Deus não pune ou castiga seus filhos, vivemos experiências para o nosso crescimento. Colhemos na vida espiritual nossas prioridades na vida terrena. Há diferentes divisões no mundo espiritual, de acordo com o estado espiritual, intelectual e moral que o Espírito se encontra.

“O teu trabalho é a oficina em que podes forjar a tua própria luz”. (XAVIER e BACELLI, 1986).

O Universo é a casa de Deus, e ele sabiamente povoou de seres vivos todos os mundos. Os Espíritos passam por inúmeras existências em diferentes mundos conforme o seu grau evolutivo. O Espírito vive onde situa seus pensamentos e suas ações. De tempos em tempos, a humanidade atinge um momento de depuração, que é precedido de um expurgo planetário, os Espíritos que não conseguirem modificar a sua moral e intelecto serão relegados a mundos inferiores. O ser humano deixa os mundos inferiores por mundos mais felizes conforme vai se curando de suas enfermidades morais. É uma recompensa passar de um mundo inferior para um mundo de ordem mais elevada, como é uma consequência das escolhas prolongarem sua permanência em um mundo infeliz ou ser relegado a mundos inferiores onde viverá provas mais duras.

Não existem castigos, punições ou injustiça, temos que ter consciência que somos o que escolhemos ser. Tudo principia na própria pessoa. O que há é a reação a uma causa anterior, os Espíritos se agrupam por afinidade vibratória de acordo com o seu grau evolutivo. Cada Espírito, quando separado do seu corpo material, vai para o meio que para si próprio preparou; juntando aos que lhe assemelham, ficam na região que estão acostumados e se acham a vontade; sua futura morada está na sintonia das suas escolhas, conforme a lei da afinidade representada na expressão: “semelhante atrai semelhante”.

O objetivo maior da reencarnação é a capacidade que o ser possui de discernir e de fazer escolhas válidas para o seu próprio progresso. Kardec (2000) nos diz que só a reparação do que fizemos anula a sua causa, quando praticamos atitudes boas, generosas e caridosas caminhamos no sentido de nosso aperfeiçoamento. Aquele que se elevar de maneira a aprender toda uma série de existências, verá que a cada um é atribuída a parte que lhe compete. Toda e qualquer situação que enfrentamos é opção inteiramente nossa, fruto de nossas escolhas. Ninguém define nossos passos, a não ser nós mesmos.

O tempo de cada criatura despertar é único e será o tempo certo; quando o ser estiver pronto para compreender e conhecer, terá o discernimento para realizar tarefas benéficas para o seu crescimento e desenvolvimento.

A morte não dá início a uma nova realidade que nada tem a ver com o que vivemos na Terra, quando a morte do corpo nada mais faz do que dar continuidade à vida, que é sempre a mesma; não existe divisão de vida no corpo e de vida após a morte. Recolhemos da vida, que é sempre única, a semeadura realizada livremente no plano material. A vida não acaba, como muitos pensam, e vamos colher o resultado dessa semeadura.

Quando estamos na Terra, vivemos uma constante escolha entre o bem e o mal. Ao retornarmos para o lado espiritual da existência, iniciamos a colheita do que semeamos. A prioridade do Espírito é a conquista dos valores morais da existência, a evolução necessita desse vai e vem no corpo físico. A vida espiritual é igual à nossa vida terrena: estudo, trabalho, convivências, desafios, relações e conexão com nossos pensamentos e atos, fazendo com que as nossas ligações sejam com nossos semelhantes, com os espíritos que vibram na mesma sintonia. Conforme esclarecimento oportuno de O Evangelho segundo o Espiritismo (KARDEC, 2000): “No espaço, os Espíritos formam grupos unidos pela afeição, simpatia e pela semelhança das inclinações, buscando trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelos pensamentos. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, deram mais um passo no caminho da perfeição. Somente as afeições espirituais são duráveis; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Quando às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas realmente nada são umas para as outras: a morte as separa na Terra e no céu.”

A lei natural é a lei de Deus e é a única verdadeira para a felicidade e evolução do ser humano. A lei divina é neutra e lhe devolve o que você dá. A justiça consiste no respeito aos direitos de cada um. Somos donos da nossa mente e temos o livre arbítrio para fazer e manter conversas saudáveis, leituras edificantes, ter cuidado e atenção com o que falamos, escolher com consciência os programas de televisão aos quais daremos atenção, as músicas que escutamos, os locais que frequentamos, a maneira que nos comportamos, a forma como procuramos tratar os nossos semelhantes, vigiar os nossos pensamentos e atitudes. Somos responsáveis pelo nosso padrão mental.

Nas mudanças terrestres a sociedade atual está testando novos modelos e meios de se alcançar a felicidade, liberdade, harmonia, igualdade e amor – questões de respeito e de segurança mental, física e emocional. Conforme nos elucida “A Gênese” (KARDEC, 2020): “O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque, se as novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro acerca de um ponto, ele se modificara nesse ponto; se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”

A existência é um chamado à ação, seja essa de responsabilidade, solidariedade, cuidado, renovação ou transformação do caráter.

“Quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele”. (KING, 2021).

As leis divinas se cumprem e o livre arbítrio nos convida a subir degraus no uso da nossa capacidade intelectual. Estudar, pesquisar, questionar e reaprender continua sendo o caminho mais seguro e necessário quando temos vontade de caminhar na verdade e na luz.

Vamos caminhando com muitas energias positivas, com bom senso e equilíbrio e os pensamentos sempre elevados.

“Reconhece-se o verdadeiro Espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”. (KARDEC, 2000).

Fernanda Oliveira

REFERÊNCIAS:

KARDEC, Allan. A Gênese. 1ª ed. Capivari: Editora EME, 2020.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1ª ed. Capivari: Editora EME, 2000.

KING, Martin Luther. Pensador, 2021. Disponível em: < https://www.pensador.com/busca.php?q=Quem+aceita+o+mal+sem+protestar>. Acesso em: 14 mar. 2021.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso lar. Pelo Espírito André Luiz. 56. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.

Ação e reação. Pelo Espírito André Luiz. 26. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

BACCELLI, Carlos A. Crer e Agir. Pelos Espíritos Emmanuel e Irmão José. 2. ed. São Paulo: Editora Ideal, 1986.

UMBRAL. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Disponível em: <https://www.dicio.com.br/umbral/>. Acesso em: 14 mar. 2021.

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MATÉRIA MENTAL E NÍVEL EVOLUTIVO

Dr. Ricardo Di Bernardi

Nosso Universo é um todo de forças dinâmicas. André Luiz, na obra Mecanismos da Mediunidade (1), lembra-nos que o elétron é a expressão basilar de toda oscilação e de todo fluxo de energia que ocorre na dimensão física, isto é, em nosso universo material, o que inclui matéria de outras dimensões.

É, também, conhecimento dos estudiosos da fenomenologia espírita que a base fornecedora de toda matéria, e energia, existentes no Cosmo é o fluido universal, este seria o veículo para a expressão onipresente do “pensamento do criador” (2).

No macro e no microcosmo sempre ocorreram as manifestações do Amor Universal, que atua através das inteligências espirituais ou “Potências Angélicas”, mobilizadas para a organização de formas e de funções com variabilidade infinita.

Neste oceano de energia cósmica, navega a matéria mental humana, capaz de gerar formas-pensamento dotadas de fluido vital. Essas ideoplastias tem duração variável, conforme a persistência da onda mental que nós produzimos. Somos, por isto, cocriadores em plano menor.

A eletricidade e o magnetismo, derivações do fluido cósmico (universal), são constantemente modificadas e direcionadas pela matéria mental humana, ou seja, pelo nosso pensamento. O fluxo energético provindo do campo psíquico de cada Espírito encarnado ou desencarnado é muito individual, específico, mas, Dr. André Luiz ensina-nos que raios ultracurtos se projetam dos seres angélicos que são sábios, plenos de amor e inteligência, atuantes no micro e macrocosmo como representantes do Amor Universal –Deus, esses seres sábios geram condições adequadas para a expansão e sustentação da vida nas infinitas variações da natureza deste planeta, bem como nos demais astros do universo.

Nós, humanos terráqueos, emitimos matéria mental variável. Os corpúsculos mentais, que irradiamos, vibram em ondas curtas nos momentos de reflexão quando unimos sentimentos profundos e inteligência. Emanamos, outrossim, ondas médias nas aquisições de experiências e de conhecimentos, e, mais comumente, ondas longas, quando nos dedicamos às necessidades básicas de sustentação e manutenção da nossa existência física.

O homo sapiens, tanto aqui como no plano espiritual, esclarece-nos o eminente médico do plano extrafísico, expressa seu pensamento como onda, que, embora sutil, ainda é matéria. A onda do pensamento, emitida por nós, projeta-se em minúsculos corpúsculos mentais, terminologia utilizada por André Luiz.

Quanto aos animais, por serem princípios espirituais com menor tempo percorrido na longa estrada da evolução infinita, pensam fragmentariamente, normalmente seus pensamentos são descontínuos, daí suas ondas mentais serem fragmentárias, pensam em laivos ou fagulhas, são almas simples, mas “não são simples máquinas como supondes” (3).

As partículas mentais, projetadas por cada Espírito, tem a qualidade da indução mental sobre o campo psíquico de outras criaturas que sintonizem com o mesmo tipo de pensamento ou se coloquem submissas em termos de receptividade, por exemplo, animais ou seres simples e ignorantes. A intensidade da indução mental dependerá da intensidade da concentração, da persistência do pensamento e da clareza no rumo dos objetivos.

Somos seres que já amealhamos grande acervo de experiências, foram inúmeros acertos e equívocos que registramos, em nosso inconsciente, como estímulos ao progresso. Hoje, se somos amparados pelas correntes mentais dos iluminados, embora captemos muito pouco de suas induções mentais, também somos cocriadores de formas-pensamento e indutores mentais sobre seres menos desenvolvidos, não só os fisicamente próximos, mas todos os seres da Natureza com quem devemos intercambiar amor e respeito, pois, como nos diz Emmanuel, o que nos diferencia deles é apenas a maior ou menor distância do caminho percorrido.

 

Dr. Ricardo Di Bernardi*

*Médico, escritor e conferencista espírita, rhdb11@gmail.com

*Escritor com 5 livros pela Intelítera

Fonte:  Medicina e Espiritualidade

 

Referências:

  1. Xavier, Francisco C. Mecanismos da Mediunidade Pelo Espírito André Luiz. 7ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
  2. Mecanismos da Mediunidade, cap. 4, Matéria Mental.
  3. Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. [1857] Questão 595
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SONHOS LÚCIDOS E O ESPIRITISMO

Carla Silvério

A questão dos sonhos é, desde a antiguidade, de interesse universal e intensamente estudado por filósofos, psicanalistas, psicólogos, e grandes pensadores da humanidade.

Sonho lúcido é o termo que se refere à percepção consciente que temos de um determinado estado enquanto sonhamos uma experiência da qual temos uma recordação muito clara (“lúcida”) e nítida, com controle sobre as ações praticadas nos sonhos e todo o desenvolver da narrativa vivenciada no conteúdo do sonho.

Sob o ponto de vista médico, a neurociência já atestou a veracidade dos sonhos lúcidos, enquanto fenômenos psicofísicos no campo da neurofisiologia dos sonhos, sendo resultantes da atividade cerebral humana quando em estado do chamado sono REM ou estado mais profundo do sono, classificando os sonhos lúcidos como fenômenos da “proctociência”.

Stephen LaBerge, renomado pesquisador do assunto, definiu o sonho lúcido como “sonhando enquanto sabemos que estamos sonhando.”

O mesmo entendimento é encontrado já nas obras de Aristóteles, posteriormente em Santo Agostinho e mais adiante em Tomás de Aquino.

A consciência sabe que tudo ali é um sonho. Mantém a capacidade de reflexão e senso crítico e, a partir dessa percepção, pode literalmente dirigir o seu próprio sonho criando e ampliando ou mesmo mudando totalmente a realidade projetada no mesmo.

No sonho lúcido, você deixa de ser um personagem inconsciente da narrativa experimentada e subitamente acorda nela com capacidade de raciocínio, memória e percepção da estrutura do sonho, pois sabe que está sonhando.

Nesses momentos, pode-se descobrir mais de si mesmo, de sua personalidade, medos e sentimentos profundos, que em situação diversa não seriam encaradas. Pode-se também encontrar soluções ou respostas para muitas das questões que quando consciente e desperto não encontraria, pois, guardados nos porões da alma.

Sob o ponto de vista da Doutrina Espírita, os sonhos de um modo geral (e aqui incluem-se os sonhos lúcidos), são resultado da atividade do Espírito no período em que se encontra desprendido do corpo material, quando se conecta com mais intensidade ao plano espiritual.

A Questão nº 401 do Livro dos Espíritos esclarece que o espírito jamais está inativo. Assim, durante o repouso do corpo material, a alma se emancipa e tem a possibilidade de atuar no plano espiritual, em contato direto com outros espíritos.

E não é só. Da Questão 400 a 418, ainda do LE, os Espíritos Codificadores esclarecem que todos sonham, contudo nem todo aquele que sonha se recorda da experiência vivida durante o repouso do corpo material.

Os sonhos lúcidos são vistos sob essa perspectiva como sendo o presente dado aos homens pela Espiritualidade Elevada, de se recordarem das experiências vividas durante o sono, por serem úteis e/ou necessárias tais recordações.

Ensinam os Espíritos, ainda, no O Evangelho Segundo o Espiritismo que “o sono é o repouso do corpo, mas o Espírito não tem necessidade de repouso. Enquanto os sentidos estão entorpecidos, a alma se liberta em parte da matéria e goza de suas faculdades de Espírito”.

Ainda no O Evangelho Segundo o Espiritismo consta “o sono foi dado ao homem para a reparação das forças orgânicas e para reparação das forças morais. Enquanto o corpo recupera os elementos que perdeu pela atividade de vigília, o Espírito vai retemperar entre outros Espíritos”.

Carlos Bernardo, em sua obra “A Visão Espírita do Sono e dos Sonhos”, coloca que os sonhos lúcidos são por vezes pressentimentos do futuro ou entendimentos do passado, permitidos por Deus, ou ainda, a visão de algo que se passa em local diverso de onde o Espírito emancipado pelo sono do corpo físico se encontra e para onde este se transporta.

Durante o sono, ficamos com todas as potencialidades do Espírito de forma amplificada e latente, o que resulta por vezes, quando há autorização do plano espiritual superior, de se recordar toda a trajetória percorrida no sono, consciente de todos os momentos, de forma lúcida.

Sob o ponto de vista da Doutrina Espírita, os sonhos lúcidos muito se assemelham aos desdobramentos recordados.

Os sonhos lúcidos são, portanto, oportunidades de utilização das ferramentas psico-espirituais para o desenvolvimento de uma maior consciência astral, uma vez que se conhece a si mesmo, nos seus mais profundos e íntimos rincões da alma, conectando-se como Eu interior e com o plano espiritual, encontrando as respostas para as questões de maior relevância para a própria consciência, bem como captando as lições necessárias à reforma íntima e aprimoramento moral.

“…ele aure no que vê, no que ouve e nos conselhos que lhe são dados, ideias que reencontra, ao despertar…” – O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVIII.

Carla Silvério

Fonte: Blog Letra Espírita

Referências Bibliográficas:

BERNARDO, Carlos. A Visão Espírita do Sono e dos Sonhos. Casa Editora O Clarim. 3ª edição. 2018.

MEDREIS, Renata. Sonhos Lúcidos (artigo publicado para o blog www.vinhadeluz.wordpress.com). Acesso em 04/03/2020.

KARDEC. Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 358ª edição. Editora Instituto de Difusão Espírita – IDE. Araras-SP.1978.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª edição Comemorativa do Sesquicentenário (bolso). FEB. Brasília-DF. 2007.

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IMORTAL

Rodrigo Ferretti

Quantas vezes já te perguntaste, quem eu sou?

Tu és um Espírito imortal, responderá a tua consciência.

Acessa teu Eu profundo e ouve de dentro de ti, quem és verdadeiramente.

Tudo indica o que precisas se te mantiveres em silêncio mental para perceber.

Buscas incessantemente te ajustares à vida. Para isso, trabalhas, planejas, fazes cursos, viagens, convive com teus familiares e irmãos de experiências. Mas muitas vezes o sentimento de que falta algo a preencher-te ainda existe dentro de ti.

É que ainda não te conectou contigo de modo mais profundo e talvez ainda não estejas realizando o proposto por ti mesmo para este momento existencial.

É necessário estar inteiro para acessar e usufruir dos potenciais conquistados. Saibas que tens um Eu real, um Eu espiritual, que carrega tuas conquistas e também as sementes de um porvir glorioso. Há um anjo escondido dentro de ti, aguardando ser despertado, pleno de potenciais que surgirão através do esforço da conquista de valores nobres.

Mas para isso é preciso desbastar, abrir espaços interiores para que ele gradativamente surja. Prepara a terra interior de teus sentimentos, porque a semente quando em ambiente propício sempre frutificará.

O convite para o despertamento já está registrado em tua alma. Então por que ainda tens dúvida? Saibas que o momento chegou, pois a hora é agora!

Estás vivendo a última hora deste Ciclo da Bendita Escola Terrestre. É necessário apresentares as características dos valores conquistados por meio de tuas atitudes nobres. Não há mais tempo para distrações, porque os dias correm céleres.

Desperta tua consciência e assume o comando de ti mesmo. Conhece o desconhecido que és e abre teu coração aos valores reais da vida. Lembra-te que és imortal. Tu és um Espírito imortal, filho e herdeiro de Deus.

A vida material é a bendita oportunidade de aprendizados e recomeços. A reencarnação é o perdão de Deus que fala em ti sobre a tua própria renovação. A hora é agora e em toda parte. Neste momento a vida grita, desperta!

Quem tem ouvidos de ouvir, escuta o chamado e presta a atenção para seguir adiante para os postos a que se comprometeu.

Ninguém vem ao mundo sem um motivo que seja de se melhorar e se transformar. A hora chegou, assume o que comprometeste antes de nascer.

Estando ainda na erraticidade, ao conscientizar-te do momento histórico que o planeta já estava vivendo, e vendo a grande oportunidade, consideraste digno do trabalho, mesmo sabendo das dificuldades. Vislumbraste a ascensão de ti mesmo a estados conscienciais mais felizes, superiores e nobres. Soubeste da programação desta hora em que vive o planeta e te alistastes nas frentes de combate ao egoísmo, ao materialismo, como o soldado corajoso que se permite ir a campo arriscar-se em missão digna que é a de viver os ensinamentos da Boa Nova.

Assume a vivência nobre daquilo que já conheces e já te conscientizas-te.

Lembra-te que és um Espírito imortal e porta-te como tal. Nada levarás da vida física, senão as conquistas dos valores e aprendizados, experiências e sentimentos.

Sabias de antemão dos momentos auspiciosos que o planeta viveria, como últimos haustos de um esforço inútil de manter-se aprisionado à retaguarda evolutiva, por parte de entidades rebeldes que se utilizam de instrumentos encarnados que aceitam as influências nefastas nas diversas áreas da vida material.

Desperta e raciocina, não só enxerga, mas vê. Não só ouve, mas escuta o que te chega. Para que consigas discernir mais lucidamente sobre as informações e desinformações que te chegam. Lembra-te de orar e vigiar como Jesus ensinou.

O materialismo está com os dias contados, mas como o momento é de grandes provas, qualquer invigilância pode te levar a quedas e ninguém está isento disso.

Provas, adoecimentos, envelhecimento, fazem parte da vida e alcançam a todos. Portanto, não esperes os últimos momentos da vida para te vinculares ao que veio realizar. Assume teu posto de trabalho frente a regeneração desde agora e lembra-te que no plano espiritual não há aposentadoria.

Seja através de família, amigos, vizinhos, trabalho, tarefas, a vida sempre nos aproxima daqueles seres que temos a necessidade de trabalhar os sentimentos. Cumpre o teu papel com serenidade. Não és o salvador do mundo, então, não carregues o peso que cabe a cada um, mas também não deixe a mochila de tuas necessidades de experiências na porta de outro.

És um Espírito em trabalho de aquisição de valores imortais para sentir a própria felicidade.

Neste percurso, a vida lhe trará bençãos e também sofrimentos.

Tem sempre claro em tua mente que vieste das Esferas Espirituais e para lá retornarás.

Coloca o melhor de tuas energias para promover em ti mesmo a vivência em forma de atitudes daquilo que desejas para o planeta. Semeia amor e luz por onde passares e logo mais colherás grande felicidade de modo que não imaginas, multiplicadas vezes, o esforço bendito de agora.

Rodrigo Ferretti

Fonte: Editora Dufaux

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SEXO E COMPROMISSO

Joanna de Ângelis

O problema do sexo é, invariavelmente problema do Espírito.

Reencarnado para o superior desiderato de recuperações morais, em face dos impositivos da evolução, o espírito elabora, com os recursos de que dispõe, o domicílio de células que se torna valioso instrumento para as operações de resgate e crédito na esfera física.

Abusos de ontem surgem como limitações de hoje.

Desgastes do passado aparecem como carência de agora.

Emboscado nos tecidos carnais, o espírito imprime por imperiosa necessidade de crescimento frustrações e ansiedades, distúrbios e falsas necessidades genésicas nas telas mentais responsáveis pelas aspirações e investidas que o atormentam inexoravelmente.

Por esse motivo, a questão essencial no panorama do sexo não diz respeito à continência ou à concessão emocional, mas à maneira como se cultiva uma ou outra condição.

Nesse particular, é urgente o processo de educação mental em relação ao aparelho genésico, sublime santuário de perpetuação da espécie na Terra.

Muitas escolas, fascinadas pelo assunto, sugerem a abstinência matrimonial através do celibato, sem o respeito, no entanto, à castidade.

Diversas outras prescrevem a castidade sem o amor disciplinante e educativo, e ambas as correntes, por constrição, criam desajustes e aflições dificilmente abordáveis.

Outras mais, ainda insistem no “amor-livre”, convocando o corpo e a mente ao retorno à selvageria instintiva, condimentada com toda sorte de concessões amesquinhantes, em que o homem se corrompe e perverte, impondo futuros renascimentos marcados pela desventura e anormalidade…

Todavia, no celibato sem a abstinência sexual o homem se despudora; na castidade sem a educação moral desequilibra, e no abuso se compromete…

Qualquer atitude extremista opera desarmonias e perturbações com lamentáveis consequências que se estendem após o decesso carnal, em processos de sombras e aflições indescritíveis…

* * *

As águas que, embora represadas recebam um continuo fluxo das suas nascentes, transbordam com graves consequências, quando as comportas não lhes franqueiam o vasto campo para espraiar-se.

A chama indisciplinada que saltita irresponsável pode tornar-se causa de incêndios calamitosos e devoradores.

O que é desprezado, em estagnação, se converte em abismo de morte que a todos ameaça…

E também o sexo indomado ou incorreto constitui ameaça ao homem que o porta, fazendo-se grave problema sociológico e eugenético como só acontece na tormentosa vida hodierna…

Destinado aos nobres objetivos da vida, degenera-se quando incompreendido, em fator aniquilante, comprometendo gerações inteiras…

Causa de conflitos sem nome, é o sexo em desalinho a geratriz de muitas guerras de extermínio e dos crimes mais hediondos.

No entanto, na Terra, vive-se mais em função dele do que ele em função da vida.

Pensa-se, fala-se, cultiva-se o sexo como se o ser fosse destinado unicamente à função sexual, sem outro objetivo.

Por isso o desespero e a anarquia moral campeiam soberanos…

* * *

Respeita, no altar genésico da câmara física em que enclausuras no renascimento carnal, a excelsa concessão da Divindade para a tua libertação santificante.

Utiliza-te do amor, na elevada expressão do matrimônio e permuta com a alma eleita a tua expressão de saúde, tecendo sonhos de ventura indestrutível para o futuro imortal.

Mas não te deixes conduzir pelas falsas e imaginosas conjeturas da emoção em desequilíbrio, inspirado por atentos verdugos da tua paz, desencarnados que te seguem, a conúbios amorosos de ilicitude, justificando tardios reencontros espirituais, em consequentes deserções do dever. Nem te afastes do compromisso assumido, alegando necessidade de libertação…

Cumprimento de deveres no tálamo conjugal é também castidade libertadora.

A conjuntura afetiva que desfrutas é a que mereces. Aproveitá-la sabiamente é a honra que disputas.

E, se encontraste no ideal que esposas o campo de estímulos fraternais para a nobre preservação dos deveres elevados do sexo que acalentas, cultua o trabalho e o bem, convertendo tuas disponibilidades em energias nervosas revigorantes, para que a virtude da caridade – essa venerável ginástica do espírito – te conceda os louros da vitória sobre a luta que travas nos dédalos íntimos.

No entanto, se o exercício de renúncia a que te afervoras te faz hipocondríaco e triste, não vaciles em obedecer a prescrição do Apóstolo dos Gentios, na primeira epístola aos Coríntios, capítulo 7, versículo 9: “Mas se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”.

Teu sexo pode ser comparado aos teus olhos, requerendo idênticos, especiais cuidados.

Para que vejas é necessário que o raio de luz fira a câmara óptica. Para que vivas equilibrado, servindo a Jesus, nas lides espíritas, deixa que os superiores estímulos do teu equilíbrio sexual, como luz de harmonia interior haurida na dignidade evangélica que o espiritismo restaure, atinjam a câmara da tua visão espiritual, oferecendo-te panoramas jamais antes imaginados, como libertação real e ascensão legítima, a que aspiras.

Joanna de Ângelis

Médium: Divaldo Pereira Franco

Livro: Dimensões da Verdade – 54

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O GRANDE PASSO

Richard Simonetti

Os grandes princípios morais têm características de universalidade e eternidade, isto é, servem para todos os quadrantes do Universo, em todos os tempos.

O exercício do Bem como caminho para a felicidade é um exemplo marcante, sempre evocado em todas as culturas e religiões:

Budismo: O caminho do meio entre os conflitos e a dor está no exercício correto da compreensão, do pensamento, da palavra, da ação, da vida, do trabalho, da atenção e da meditação.

Confucionismo: Não se importe com o fato de o povo não o conhecer, porém esforce-se de modo que possa ser digno de ser conhecido.

Judaísmo: Não faça ao próximo o que não deseja para si.

Islamismo: A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo.

Cristianismo: Faça ao semelhante todo bem que deseja receber.

Espiritismo: Fora da caridade não há salvação.

Há uma dificuldade na vivência desses princípios, caro leitor.

Pedem divina base altruística: a disposição para cuidar dos outros. Contraria a humana base egoística: a vocação para cuidar de si mesmo. Todo o mal do mundo sustenta-se na tendência humana de cada qual resolver-se. Quanto aos outros, que se danem!

Corrupção, adultério, furtos, assaltos, estupros, assassinatos, guerras, massacres, conflitos e todos os demais males que afligem a Humanidade inspiram-se nessa maneira de ser.

E mais, leitor amigo: o egoísmo individual projeta-se no comportamento das nações, que elegem por modus operandi tirar todo proveito possível nas relações internacionais, partindo, não raro, para a agressão, exercitando domínio sobre outras nações.

A História é um suceder de guerras entre países, desde as tribos primitivas que disputavam espaço e domínio com o tacape, aos países que o fazem com sofisticados engenhos de guerra que dizimam populações e espalham o terror.

Isso, supostamente, em nome de melhores condições de vida, em regimes totalitários, ou em nome da liberdade, em países que se dizem democráticos.

Quando esse desvio for corrigido, invertida essa tendência, isto é, quando aprendermos a pensar nos outros e que se danem os interesses pessoais, estaremos construindo na Terra o Reino de Deus.

Essa é a regra de ouro do Cristianismo, esse é o empenho a que somos convocados permanentemente, onde estivermos, junto à família, na vida social, na profissão, na atividade religiosa, fazendo pelo próximo todo o bem que gostaríamos nos fosse feito.

À medida que se dissemine, esse altruísmo individual acabará se projetando na consciência das nações, favorecendo o fim dos conflitos, das loucuras da guerra.

Então a paz reinará, finalmente, soberana no Mundo.

Certamente, amigo leitor, isso não vai acontecer do dia para a noite. Muita água vai rolar no rio do tempo, até que o altruísmo esteja na consciência dos povos. Mas, enquanto isso não acontece em nível coletivo, podemos fazê-lo tranquilamente em nível individual, sob inspiração da Doutrina Espírita, que nos oferece uma visão muito clara dos tormentos a que estão destinados, no mundo espiritual, os egoístas.

Conscientes de nossas responsabilidades, sejamos, amigo leitor, os vanguardeiros dessa transição do egoísmo para o altruísmo, cultivando o esforço do Bem.

Assim, antes que o Reino de Deus se instale na Terra, haveremos de edificá-lo em nosso próprio coração.

Antes que a paz se estenda aos homens, teremos pacificado a nós mesmos.

Richard Simonetti

Fonte: Kardec Rio Preto

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GRANDE ASPIRAÇÃO

Orson Peter Carrara

O planeta que habitamos não é um vale de lágrimas, como citam alguns, nem tampouco um palco para desfile de turistas. Na verdade, o globo terrestre é um cenário perfeito (já que adequado ao estágio de seus habitantes) para desenvolvimento da alma humana que alcançou esse estágio de evolução, mas que aspira a outras conquistas que inevitavelmente virão com o tempo. A grande aspiração da vida não se confina aos limites do corpo carnal, sempre transitório, mas se projeta nas dimensões do expressivo atributo da imortalidade do espírito.

Muito mais que ocorrências medíocres do cotidiano e experiências limitadas à carência de nosso parco entendimento da vida e suas dimensões está o infinito do universo com sua multidão inumerável de galáxias com seus igualmente infindáveis sistemas planetários que carregam consigo outra multidão de planetas onde habitam os filhos de Deus que vão gradativamente progredindo e alcançando níveis de crescimento para a perfeição, ainda que relativa, onde habita a felicidade plena da disposição de servir. Os atuais atropelos de nossa condição estão de acordo com a evolução já alcançada, que é grande, mas muito aquém do futuro que nos aguarda, promissor e feliz. Obra do esforço próprio, contudo, a ser conquistado. Deus criou para a perfeição, para a felicidade, mas temos que conquistar.

Esta dimensão infinita, imortal, deve alimentar nossa esperança ou, em outras palavras, devemos nos alimentar desse atributo que nos pertence, que nos é inalienável. Somos imortais! Isso, particularmente, me encanta! Sigamos, pois, confiantes e decididos, seguindo as determinações da vida: viver, aprender, desenvolver-se, aprimorar-se cada vez mais!

Por Orson Peter Carrara

Fonte:  

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NINGUÉM É DE NINGUÉM

Simara Lugon Cabral

“Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe.” (MATEUS, 12; 48 a 50).

Todos os seres humanos, ao encarnarem na Terra, são recebidos por uma família consanguínea, que pode ser composta de diferentes formas: mãe, pai, irmãos, avós, tios ou tias. Porém esta família não é necessariamente a família espiritual do indivíduo, que é aquela com a qual o espírito possui maiores afinidades, e que pode se fazer presente por intermédio da adoção, da amizade ou até mesmo do casamento, e é com esta família que os laços de afeto são mais acentuados. Estes laços podem variar de intensidade e ternura ao longo da vida ou até mesmo das encarnações de cada um, e eles são necessários para que os espíritos possam vivenciar situações diferentes para sua evolução.

Portanto, em cada encarnação, os espíritos afins podem se aproximar de diferentes maneiras, e independentemente da forma como se aproximam, eles não pertencem uns ao outros, e sim percorrem a jornada da vida lado a lado para que possam cumprir determinadas provações. Por isso, Jesus pergunta quem é sua mãe e quem são seus irmãos, pois a conexão espiritual que ele mantinha com os seus discípulos era mais forte do que a que havia com sua família consanguínea, tanto que ele afirma que seus discípulos são seus verdadeiros irmãos. Assim, a família espiritual pode vir configurada de forma diferente da convencional, fazendo com que as afinidades apareçam de distintas maneiras, dependendo sempre da similaridade de virtudes, de ideias e do grau de evolução de cada um. De acordo com O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo IV, item 18, Kardec afirma que:

“Os Espíritos formam no espaço grupos ou famílias unidos pelo afeto, simpatia e semelhança. Esses Espíritos, felizes de estarem juntos, procuram-se. A encarnação só os separa momentaneamente, porque, após sua reentrada na erraticidade, reencontram-se, como amigos no retorno de uma viagem. Muitas vezes, até se acompanham na encarnação, na qual são reunidos em uma mesma família ou em um mesmo círculo, trabalhando juntos para o mútuo progresso.”. (KARDEC, 2018, pág. 55).

Isto não quer dizer que não se deve amar a própria família ou honrar os pais, e sim que o amor deve ser praticado entre todos, apesar da compatibilidade espiritual não ser a mesma entre as pessoas: o afeto pode variar de intensidade, porém a caridade, o respeito e a generosidade com o próximo, não.

Apesar deste fato, muitas pessoas se relacionam umas com as outras de forma egoísta, devido ao seu atraso espiritual, acreditando que as pessoas com as quais convivem e com as quais possuem laços afetivos são de sua propriedade, o que causa muito sofrimento ao longo de suas vidas, tais quais durante o divórcio entre cônjuges ou durante o desencarne de um ente querido. Porém, a realidade é que ninguém pertence à ninguém, nem pais, nem maridos, nem esposas, nem filhos. As pessoas não são objetos dos quais pode-se ter a posse, e sim espíritos livres, com sua própria individualidade, que caminham com o propósito de evoluírem até alcançarem a perfeição. O sentimento de posse em relação à vida de outra pessoa é irracional e perigoso, pois é devido à este sentimento que ocorre grande parte dos feminicídios: homens que não aceitam o fim do relacionamento e se acham no direito de tirar a vida da mulher, acreditando que esta pertence à eles. Além disso, o sentimento de posse também faz com que pessoas que possuem familiares doentes, à beira do desencarne, desejem ardentemente que seus entes permaneçam ao seu lado, e não reflitam sobre o quanto eles possam estar sofrendo devido à dores físicas ou moléstias graves, e terminam por atrapalhar o trabalho da espiritualidade no processo do desenlace espiritual do adoentado. Em outros casos, o sentimento de posse pode fazer com que filhos adolescentes ou até mesmo adultos tenham sua liberdade cerceada pelos pais, que julgam que os filhos lhes pertencem e impedem os mesmos de escolherem seus próprios caminhos, através de uma verdadeira prisão psicológica.

O amor deve ser praticado com desapego e livre de egoísmo pois, segundo O Livro dos Espíritos: “O egoísmo é a fonte de todos os vícios, assim como a caridade é a fonte de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, esse deve ser o alvo de todos os esforços do homem, se quer garantir sua felicidade, tanto no mundo terreno como no futuro.” (KARDEC, 2019, pág. 292). Portanto, é importante que se pratique o amor para com o próximo, mas este amor deve ser fraternal, ele precisa ser vivenciado com a certeza de que todos são irmãos e fazem parte de uma grande família universal. Afinal, todos caminham rumo ao mesmo objetivo, o qual será alcançado à medida que cada indivíduo lute para superar seu próprio egoísmo, seu apego e seu sentimento de posse e se disponha a experimentar e viver o verdadeiro amor para com toda a humanidade.

Simara Lugon Cabral

Fonte: Blog Letra Espírita

Bibliografia:

  1. Bíblia Online. Disponível em: htps://www.bibliaonline.com.br/acf/mt/12/48+. Acesso em 25 de Dezembro de 2020.
  2. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Matheus Rodrigues de Carvalho. 43ª reimpressão. Capivari, SP: Editora EME, 2018.
  3. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Carvalho.24ª reimpressão. Capivari, SP: Editora EME, 2019.
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