A POSVENÇÃO NA OCORRÊNCIA DO SUICÍDIO

Por Wellington Balbo

É chamado de posvenção os cuidados e atenções dedicados aos familiares e amigos de alguém que interrompeu a existência ao cometer o suicídio.

O suicídio é um evento traumático e que atinge um bom número de pessoas que estão no entorno de quem cometeu o ato. É algo que marca familiares e amigos pela vida toda. Na questão que envolve a morte, o que a torna mais ou menos dolorosa é o seu contexto. Uma coisa é a partida de um ente querido por doença de longo curso. Outra coisa é a morte por suicídio.

Portanto, quando se fala em posvenção, está, também, tratando do tema prevenção, pois cuidar dos enlutados, dedicar-lhes atenção, é prevenir outros suicídios e diminuir a dor da família e amigos abalados pelo contexto da morte do familiar.

Por isso, diante do preâmbulo e de como a posvenção é uma prática significativa, escrevo aos amigos espíritas para compartilhar ideias que surgiram após a pesquisa de campo que venho realizando há alguns anos sobre a referida temática.

Quero aqui falar sobre os cuidados ao abordar os familiares e amigos enlutados e que, por questões naturais, haja vista que o Espiritismo aborda muito bem os temas referentes à vida e à morte, procuram o centro espírita para receber o tão esperado consolo e paz ao coração.

Compreendo a boa vontade de alguns amigos espíritas que, ao se depararem com familiares enlutados pelo suicídio de algum afeto, indicam a literatura espírita como bálsamo à alma. De fato, por ser consolador, o Espiritismo tem em sua literatura bons livros para serem indicados no trabalho de posvenção.

Contudo, alguns livros espíritas podem causar mais mal do que bem ao familiar enlutado, e é neste ponto que o espírita deve prestar bem atenção. Livros que trazem alta carga de dramaticidade, com relatos dolorosos dos Espíritos que cometeram o ato do suicídio devem ser evitados, assim como deve ser evitada aquela visão muito próxima do inferno católico, vale dos suicidas e tantas outras coisas que podem causar dor ao familiar enlutado.

Antes de sugerir alguma leitura ou de proferir frases de efeito, recorde-se que você está atendendo alguém que passa por uma dor muito grande que é a do luto pelo suicídio. Lembre-se, portanto, que o objetivo é acalmar o familiar ou amigo e não assustar.

No trabalho de posvenção é importante destacar o Espiritismo que valoriza a vida e a esperança, a mostrar que não há penas eternas e nenhum Espírito está perdido, sem o amor de Deus.

Este perfil de consolo e esperança necessita ser trabalhado para que as famílias enlutadas vejam que apenas o corpo morreu, mas o Espírito é imortal, o que, certamente, ao menos diminuirá a dor pela forma da partida e a natural saudade advinda da separação, além de, é claro, colaborar para que outros suicídios não venham a ocorrer no seio da família enlutada.

Wellington Balbo
Fonte: Agenda Espírita Brasil
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LEI DE AÇÃO E REAÇÃO NÃO É A LEI DA CAUSA E EFEITO

O primeiro procedimento adotado por Allan Kardec na abertura da gigantesca obra da Codificação foi se preocupar com as questões filosóficas, desta forma, o mestre inaugura a Doutrina dos Espíritos em seu primeiro parágrafo:

“Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.” O Livro dos Espíritos – Introdução.

Pode-se notar que evitar ambiguidades era uma das tarefas a ser cumpridas.

Para minha surpresa, ao pesquisar para este artigo, não encontrei, formalmente, em nenhuma parte da Codificação ou na Revista Espírita a definição Lei de causa e efeito. Encontramos o axioma (*): para todo efeito existe uma causa e não há causa sem efeito. Essa máxima vulgarizada nas obras do mestre como um princípio, foi transformada em lei por espíritos pós-codificação, isto é, a partir deste axioma se torna, facilmente, dedutível a lei implícita. A Lei de causa e efeito, ensinada por alguns espíritos tem um caráter moral e também físico; ao agirmos no universo, cada ato tem uma consequência, cada gesto, cada pensamento se reflete no universo micro e macro cósmico. O fato de refletir não traz a ideia de uma reação imediata e implacável, por exemplo, quando alguém deseja um mal, o objeto receptor, não tem a obrigação de devolver o mal na mesma moeda, desta forma, uma ação pode desencadear infinitas possibilidades de consequências.

Confunde-se a 3ª Lei de Newton, que é uma restrita lei física, já que as leis de Newton não valem nos limites quânticos nem relativísticos, com o princípio de causa e efeito. Define Newton, em sua obra Principia, o princípio da Ação e reação:

A qualquer ação se opõe uma ação igual, ou ainda, as ações mútuas de dois corpos são sempre iguais e se exercem em sentidos opostos.

Se um dedo aperta uma pedra, a pedra apertará o dedo, se um cavalo puxa uma corda, a corda puxará o cavalo. Aplicado ao pé da letra, em todas as situações ocorreriam da mesma forma; como exemplo, se uma pessoa te feriu, ela deverá ser, por você, ferida da mesma forma e com a mesma intensidade. Outra questão é que a lei de ação e reação atua em corpos diferentes e nunca se anulam. A reação sendo “positiva ou negativa” nunca poderia anular a ação, logo, o mal nunca poderia anular o bem.

O princípio de causa e efeito, ensinado pelos espíritos, diz que quando há abuso do livre-arbítrio, a causa e o efeito estão na pessoa; quando se faz o bem, a causa está em na pessoa, e o efeito também. Quando afirma-se: Aquilo que plantar, isso mesmo irá colher. O que significa colher? Sofrer as consequências do ato, sendo este bom ou mau. Sabemos da misericórdia Divina que perdoa e ensina, não sendo necessário que uma pessoa que matou tenha que morrer nas mesmas circunstâncias. Mesmo se fosse, não seria uma aplicação da lei de ação e reação, sendo a lei de Talião, proclamada por Moisés, mais próxima deste princípio.

Causa e efeito material: Poderia usar infinitos exemplos, porém, contentar-me-ei apenas com um: se uma pessoa de tez branca ficar exposta à irradiação solar, sem proteção alguma, por horas e horas, ela estaria sujeita a dois tipos de efeitos possíveis: os efeitos determinísticos que são os que aparecem imediatamente, como queimadura e insolação, e os efeitos estocásticos que podem se manifestar ou não, como o câncer.

Causa e efeito moral: sabemos que os efeitos estocásticos podem estar relacionados com os problemas morais, pois somos seres trinos (espírito, perispírito, corpo-físico). Uma pessoa que matou não tem a necessidade de morrer, podendo passar por dificuldades e saldar sua dívida. Quando alguém nos deseja o mal, podemos anular os efeitos, em nós, pela oração e prática no bem, mas os efeitos no agente cabe, a ele mesmo, minimizá-lo pela reforma interior.

Lei do Carma: Alguns espíritos espíritas, como Bezerra de Menezes, utilizaram essa expressão, mas não é um termo do vocabulário Kardequiano, visto que o codificador conhecia a expressão, mas não utilizou devido às suas formas de serem interpretadas. Ensina-nos Herculano Pires:

A palavra carma (em sânscrito karma ou karman e em pali kamma) utilizada na Índia e por muitas correntes filosóficas religiosas, significa em primeira instância “ação”, “trabalho” ou “efeito”. No sentido secundário, o efeito de uma ação, ou se preferirmos, a soma dos efeitos de ações (vidas) passadas se refletindo no presente. Na concepção hindu, carma quer dizer “destino” (canga) determinado ou fixo, ou seja, aqueles cujos atos foram corretos, depois de mortos renascerão através de uma mulher brâmane (virtuosa), ao passo que aqueles cujos os atos foram maus, renascerão de uma mulher pária (castas inferiores) e sofrerão muitas desgraças, acabando como simples escravos. (2)

A lei do carma aproxima-se da interpretação da Lei de ação e reação, porém, mesmo essa “lei”, nunca será igual à lei Newtoniana.

Nós, espíritas brasileiros, temos facilidade em aceitar conceitos novos e sofrermos influência das novidades ou tendência a agregar a nossa cultura a termos estrangeiros ou alienígenas à codificação. Esse é um erro que cometemos, muitas vezes repetimos frases de efeito, máximas e nem nos detemos em reflexões, para após essas reflexões e um estudo baseado na codificação tirarmos consequências. Mesmo que esses termos sejam velhos como a história, devemos ter cuidado. O cuidado não significa um vão preciosismo, sendo um zelo sem sectarismo.

A Lei de causa e efeito é totalmente conforme o Espiritismo, já a lei de ação e reação está totalmente disforme aos princípios que o Espiritismo veio proclamar. Fujamos dos modismos e abracemos a simplicidade, para, desta forma, errarmos menos.

(*) O termo axioma é originário da palavra grega αξιωμα (axioma), que significa algo que é considerado ajustado ou adequado, ou que tem um significado evidente. A palavra axioma vem de αξιοειν (axioein), que significa considerar digno. Esta, por sua vez, vem de αξιος (axios), significando digno. Entre os filósofos gregos antigos, um axioma era uma reivindicação que poderia ser vista como verdadeira sem nenhuma necessidade de prova.

– Lei, no sentido científico, é uma regra que descreve um fenômeno que ocorre com certa regularidade.

– Princípio: Lei fundamental.

Jorge Medeiros

estudante de Física (UFRJ)

Referências bibliográficas
1. Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O que é o espiritismo, A Gênese, O Livro dos médiuns, O Céu e o Inferno, Obras póstumas, o Evangelho segundo o espiritismo, O principiante espírita, Manual prático de médiuns e evocadores, O espiritismo na sua mais simples expressão, Revista Espírita – 12 volumes.
2. O Verbo e a carne – Herculano Pires

3. Sabedoria do Evangelho – 8 volumes – Carlos Torres Pastorino.

4. Física básica – Lucie, Pierre. Editora Campus Ltda.

5. SIR Isaac Newton – Os pensadores. Editora abril cultural.

6. Ação e reação – André Luiz FEB.

7. http://pt.wikipedia.org/wiki/Axioma

8. Lei científica – Wikipédia, a enciclopédia livre

Fonte: Luz Espírita
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OBSESSÃO ANESTESIANTE

Aos dardos morbíficos que se destinam a retardar a ação do bem na Terra devemos contrapor a oração.

“E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam carregados.” (Mateus, 26.43)

Segundo o Espírito Camilo (1), os Espíritos inimigos da Luz, “(…) uma vez que não conseguiram impedir que muitas criaturas aceitassem e desejassem servir na Seara do Cristo, não se dão por vencidos com a primeira perda e atuam no sentido de obstaculizar a ação desses indivíduos a fim de que não se movimentem no bem, que tem caráter de premência e que depende tão somente da boa vontade dos lidadores. Estão no movimento do bem, mas, por influência dessas Entidades infelizes não atuam no bem, o que é lastimável”.

Assim, não raro, surpreendemos companheiros invigilantes na vanguarda espírita, líderes em suas comunidades que se enviscam nos ínvios cipoais do desentendimento, da irreflexão e da mágoa, perdendo tempo precioso a digladiarem na arena da discórdia e do azedume contumazes.

Continua o nobre mentor do médium fluminense (1):

“(…) variados têm sido os que se deixam conduzir pelas influências narcóticas de muitas mentes atreladas ao mal ou ao marasmo do Mundo Invisível, naturalmente desleixados com relação à vigilância íntima, realizando afazeres, quando os realizam, como que se desincumbe de um fardo pesado e difícil, mas não como quem participa do alevantamento espiritual da humanidade. Encontram-se elementos que se acostumaram a deixar tudo para que seja feito amanhã, quando o dia de hoje pede disposição e não adiamento…

Ninguém pode, em sanidade de consciência, afirmar que estará no corpo somático no dia seguinte. Temos aí, então, maior razão para que não retardemos os labores que têm regime de urgência em nossa pauta de tarefas.

Diversos irmãos da Terra, portadores de enorme cota de má vontade ou deixando as próprias mentes mergulhadas na displicência, são envolvidos nos vapores letárgicos, paralisantes, que impedem a continuidade dinâmica da obra sob seus cuidados.

Há sempre uma providência que se pode procrastinar… Surgem problemas a solucionar na esfera da renovação do Espírito, sempre postergados, sem que os companheiros se deem conta de que poderão estar sendo minados por fluidos anestesiantes da vontade.

É importante cuidar do corpo, repousar, quando os trabalhos imponham desgastes. É da Lei Divina… O que não nos cabe fomentar ou aplaudir é a postura dos que estão sempre esgotados, por pouco ou nada que façam, exigindo largos períodos de estacionamento e, quando se decidem por algo fazer, francamente embriagados por energias anestesiantes que, ameaçadoramente, têm tomado em seu bojo a muitos seareiros irrefletidos, preparando-lhes grandes tormentos de remorsos e angústias para logo mais, quando a hora propícia e ideal para o trabalho do bem já houver passado.

Quando sintas que, inobstante o repouso, não tens ânimo para as leituras e quefazeres edificantes, ou quando a sonolência tornar-se presença comum em tuas horas de estudo ou de necessária atenção aos chamados do Infinito, ergue a tua oração e roga dos Benfeitores Celestes o socorro, a assistência de que careças a fim de te desviares desses dardos morbíficos que se destinam a retardar a ação do bem na Terra, produzindo narcose nos combatentes invigilantes, exatamente porque esse bem, em última análise, é a atuação de Jesus Cristo reafirmando o Seu amor a todos nós, ovelhas desgarradas do Seu rebanho, da esperança e da ação.”

Rogério Coelho

Referências Bibliográficas:

(1) Teixeira, Raul. Correnteza de Luz. Pelo Espírito Camilo – cap. 24.

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CARTA DO ALÉM

Minha irmã,

Estou feliz, quanto é possível, em minha situação de trabalhador que não aproveitou o dia.

Lastimo que o egoísmo de homem não me tivesse permitido receber as graças do Céu, que me coroavam o caminho.

Que fazer agora, senão ajoelhar-me de mãos postas e suplicar as bênçãos de Deus?

Estou aprendendo que não possuímos bem algum sem preparação, assim como o lavrador nada colhe sem dedicação à sementeira.

Por que razão é preciso morrer para ver?

Hoje reconheço que era um cego. Estou ligado a imensas responsabilidades, mas espero desobrigar-me delas com seu amoroso amparo. Continue brilhando na sua fé, porque seu devotamento para mim, hoje, é uma estrela a guiar-me na viagem.

Como é rápida a experiência humana! Ontem, projetos a se expandirem para o futuro, com a falsa convicção de que o corpo de carne superaria todos os obstáculos, hoje, porém, a ausência dele, com problemas enormes no espírito.

Tanto quanto pode estar feliz um aluno atrasado no curso repentinamente tocado pela boa vontade, vejo-me reconfortado para seguir adiante.

Graças a Deus refugia-me na fé quando a tormenta de recordações me fustiga a alma, e, desse modo, vou reconquistando as próprias forças para lutar na vida verdadeira.

Ah! Se eu pudesse recuar no tempo, como seria diferente a minha conduta! Somente aqui conseguimos aquilatar o tempo perdido na procura de fantasias brilhantes e, com lágrimas tardias, reconhecemos que muito poderíamos ter feito, no erguimento de nossa própria felicidade nas sendas eternas.

Feliz quem sabe renunciar e não espera a morte do corpo para confiar-se à própria renovação!

A verdadeira fortuna é justamente essa – a da alma que se consagra ao Senhor, buscando-lhe os divinos desígnios.

Continuemos beneficiando a todos.

Quando as nossas obrigações para com os nossos se acham cumpridas, a nossa casa é o mundo inteiro e a nossa Família é a Humanidade.

Hoje entendo que a vitória maior é sempre a daqueles que sabem confiar, amar, perdoar, ajudar e esperar.

Sem o espírito de amor e perdão, que Jesus nos legou, a caminhada para o Alto é difícil, quando não verdadeiramente impraticável.

Trabalhemos na plantação do bem. Nossos corações agora se dirigem para o novo lar sem a dor e sem a sombra, que invadem na Terra o santuário da afeição mais sublime.

E que o Senhor nos proteja sempre em nossos novos propósitos de renovação para a eternidade.

 

Pelo Espírito André Luiz

Do livro: Cartas do Coração

Médium: Francisco Cândido Xavier

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REFLEXÕES – Joanna de  Ângelis

REFLEXÃO: "Momento mágico da alma" por Fernando Vidya

Antes de iniciar-se o processo de tua reencarnação, estabeleceste condições delicadas e de alta significação para o teu êxito na Terra, e, considerando-se as graves responsabilidades que te seriam outorgadas, desfrutas as bênçãos da anuência divina.

Reflexiona com cuidado, realizando comparações com outras experiências humanas de viandantes do mesmo caminho ao teu lado.

Desejaste um corpo saudável, harmônico, possuidor de campos vibratórios produtores de simpatia e o conseguiste.

Anelaste por um lar saudável para renascer, onde fossem possíveis a compreensão e a fraternidade e conseguiste um ninho doméstico, no qual os deveres e os sentimentos emocionais poderiam exteriorizar-se com naturalidade.

Necessitaste de uma educação e uma instrução compatíveis com o processo de evolução da Humanidade, e foste aquinhoado com a bênção programada.

Chegaste à idade adulta, experienciando os favores juvenis e desfrutaste das alegrias compatíveis com as circunstâncias da época.

Pretendias construir uma família, na qual o equilíbrio se caracterizasse pelas concessões dos anjos protetores e foste beneficiado com os rebentos da carne que enfloram a família.

Atravessaste a floresta da convivência social com recursos e instrumentos próprios para uma existência feliz.

Foram equacionados desafios complexos e dificuldades que remanesciam no quadro da reencarnação; para tanto, encontraste solução própria sem deixar no passado um saldo de misérias de quaisquer denominações.

A fé religiosa chegou-te canora e instalou-se na harpa dos teus sentimentos e inteligência, por meio de almas abnegadas, mansas, que te fascinam e aprendeste a conversar com Deus.

Toda vez, quando as preocupações se tornaram graves, no momento adequado recebeste o auxílio do Alto, quase inesperado, mantendo-te no ritmo do trabalho e no labor dignificante.

Pudeste superar armadilhas de inimigos que te não perdoam o progresso que conseguiste, sem maior soma de sacrifícios.

Encontraste abertas as portas da edificação da Humanidade e estás em campo, qual habilidoso lutador que não teme os combates.

Concomitantemente, os instrumentos com que foste equipado para o triunfo existencial tornaram-se perigosos recursos que também atraíram presenças perigosas, semelhantes à flor fascinante e perfumada que, mediante esses tesouros, é atacada ferozmente pelos inimigos naturais.

Titubeaste, vezes sem conta, em razão da afetividade tumultuada pelo prazer superficial do novo e do diferente, tornando-se necessária a interferência dos teus guias espirituais que ajudaram a deslindar-te da hipnose devastadora, que poderia destruir os belos planos transcendentais.

* * *

Felizmente estás desperto para os deveres mais elevados, a fim de os atender com todos esses recursos com que estás aquinhoado. Saíste de situações embaraçosas que iriam tragar-te, lançando-te no abismo da sua perversa atração. Conseguiste perceber a tempo a cilada espiritual que te estava expondo à perda da oportunidade ímpar.

Mantém-te vigilante e cuidadoso, não permitindo que novas fascinações te arrebatem as emoções anunciando prazeres, que já conheces, mas que a vulgaridade do momento transforma em projeção social e alucinação nos relacionamentos sociais e morais.

A felicidade não ergue o seu edifício de paz sobre os escombros daqueles que foram derrubados.

Não se pode navegar com sorrisos, na barca da ilusão, sobre a torrente das lágrimas alheias de que se faz responsável.

A alegria somente é verdadeira, quando as suas nascentes não são as mesmas dos minadouros do sofrimento de outrem.

Quando as criaturas humanas compreenderem que a renúncia em benefício de alguém é conquista de alto preço, os rumos da sociedade serão muito diversos destes que vêm sendo percorridos.

Porque tal conduta ainda não foi conseguida, as enfermidades cruéis e dilaceradoras se encarregam de mudar as faces da beleza, da juventude e do encanto de um momento para o outro.

Não contes sempre com a aparência, que se altera a cada instante e joga para fora as aflições asfixiadas no oceano íntimo das necessidades reais ou imaginárias.

Sempre se considera a feiura, a dor, a ausência de recursos financeiros, a solidão, o abandono como provações ultrizes, com o que anuímos seguramente. Entretanto, é de considerar-se que tudo de bom que se recebe da Vida, na condição de empréstimo para a vitória, também é de caráter provacional, exatamente pelas facilidades que proporciona e os comprometimentos graves e infelizes a que dão lugar depois do seu mau uso.

O dinheiro, tão disputado, é um artefato muito perigoso, porque, se favorece a prática do bem, também empurra a comportamentos nos escusos campos da desgraça moral e de outros aspectos.

A beleza é uma concessão cheia de gravames, porque, se não se apoia em elementos interiores de expressões morais, torna-se portadora de tragédia como a da Medusa…

A saúde é patrimônio sublime que deve ser preservada, porque também é transitória, e quando escasseia torna-se um tormento sem nome.

Reflexiona, pois, em tudo com que tens sido aquinhoado e abençoa as tuas horas com respostas de amor e de caridade, assinalando a tua passagem no mundo com a gratidão e a ternura.

* * *

Se renasceste com deficiência desses recursos a que nos referimos, oh! agradece a Deus o corpo desfigurado, os problemas complexos e inibidores, as decepções sofridas e o descaso experimentado, porque lograrás ser um herói, vencendo-te a ti mesmo pela glória da imortalidade em plenitude.

Reflexiona sempre, coração amigo, na alegria ou na dor, porque Deus está sempre contigo.

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na sessão da noite de 13 de maio de 2020, na Mansão do Caminho, em Salvador, Bahia.

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A síndrome do vício do prestígio

Rogério Coelho

O trabalhador em busca de reconhecimento pessoal não serve à causa de Jesus

“(…) Grande virtude é verdadeiramente necessária para que alguém renuncie à sua personalidade em proveito dos outros.” – Fénelon [1]

Bastante espinhosa (difícil mesmo) é a tarefa que compete ao diretor de divulgação doutrinária de uma Casa Espírita séria. Inúmeras vezes ele é abordado por “oradores” que se oferecem para fazer “palestras”, além de receber o impacto vibracional daqueles outros que são preteridos, (evidentemente quase sempre por razões óbvias).

Não sem razão já dizia um amigo muito querido e sadiamente engajado no movimento espírita: “oradores existem muitos, mas oradores verdadeiramente espíritas são raros!”.

Por outro lado, não são raras as criaturas vítimas da síndrome do vício do prestígio, vício esse dinamizado (como dizem os franceses) pelo excesso de “moi-je”,[2] personalismo, egoísmo, orgulho, vaidade, empáfia… Em tais corações não existe espaço para a humildade, qualidade essencial que deve exornar o caráter de todo trabalhador do Cristo.

O ínclito Mestre Lionês ensinou [3] que “a abnegação da personalidade, o desinteresse moral e material, a prática da lei de amor e de caridade serão sempre os sinais distintivos daqueles para quem o Espiritismo não é somente uma crença estéril, nesta vida e na outra, mas uma fé produtiva”.

A esse respeito, analisemos o pensamento de Ermance Dufaux [4]: “(…) acostumamos enunciar nos meios espíritas que somos orgulhosos. Admitimos essa imperfeição, mas temos que reconhecer que ainda somos inaptos para detectar seus traços em nossa personalidade. Façamos então uma singela análise em uma de suas mais variadas manifestações sutis. Escolhamos a esfera da vaidade! O perfil moral dos habitantes da Terra guarda uma feição comum que é a necessidade de valorização e reconhecimento pessoal, o que seria muito natural não fosse nossa paixão no egoísmo. Entanto, essa necessidade tem constituído uma tormenta social: considerando que todos querem ser prestigiados, quem ficará para prestigiar? Pouquíssimos são os que se encontram sensibilizados para a arte da alteridade, dispostos a destacar conquistas e valores no outro. Esse é o choque do egoísmo a que se refere Fénelon1: ‘cada um querendo que o outro pense nele sem se preocupar com os demais’.

Se você, por exemplo, iniciar uma narrativa que destaque seus valores individuais ou algum episódio de êxito na sua existência, quem o estiver ouvindo logo iniciará um processo similar, sem sequer ocupar-se em ouvir sua história ou dela tirar algum proveito. É como diz Fénelon na obra citada em epígrafe: ‘notando que os outros pensam em si próprios e não nele, ei-lo levado a ocupar-se consigo, mais do que com os outros’.

O vício de prestígio consome a criatura em disputas inglórias e imaginárias por apreço e consideração… O mundo mental desses viciados desgasta-se em busca da aprovação de todos, e, quando alguém não lhe rende as homenagens e tributos esperados, é considerado um opositor ou indiferente. Seu principal malefício é essa espera de aceitação e consideração incondicionais, como se todas as pessoas tivessem a obrigação de enaltecê-lo, de reverenciá-lo…

Como é portador de muita suscetibilidade, pequenas desatenções e discordâncias são recebidas pelo viciado com revolta e mágoa suficientes para instalar um ‘pânico de revolta íntima’, como se mentalmente indagasse: ‘por que esse súdito não me homenageou?’.

Assim como existe a dependência química de tóxicos, existe a dependência psíquica de evidência e reconhecimento individual. Esse tipo de viciado é escravo da autoimagem exacerbada que faz de si mesmo… As causas desse vício podemos verificar na infância, quando a criança é levada a níveis abusivos de repressão no lar, dependendo de aprovação para tudo, tornando-se insegura, sem autoconfiança, crescendo como um adulto frustrado; outro tanto, de forma mais intensa ainda, verificamos as raízes desse mal nas pregressas existências, quando a alma acostumou-se aos faustosos títulos sociais e às honras individualistas que sempre lhe alimentavam o ego insaciável, na sedimentação da ‘cultura do melhor em tudo’.

A educação na sociedade moderna destina-se ao aplauso, ao êxito, e raramente educa-se para saber perder ou lidar bem com derrotas e críticas. Treina-se para a passarela do sucesso e a necessidade de aprovação e reconhecimento social, sem se preparar para o autoamor. O vício de prestígio é um sintoma claro de que não nos plenificamos conosco, de ausência de autorrealização, de amor a si próprio. Se nos amássemos, não teríamos tanta dependência de opiniões e atitudes alheias.

O que impulsiona esse vício, mais que a necessidade de ser aceito, é o medo da rejeição: um dos sentimentos mais camuflados e comuns da humanidade, que pode ser estimulado pelas causas acima citadas.

Esse cenário moral é um convite imperioso para que trabalhemos pela formação de um ‘perímetro’ de relações sinceras, onde se possa forjar o caráter objetivando a aquisição dos hábitos altruístas e o desprendimento dessa neurótica necessidade de tributos personalísticos. Recordemos a oportuna recomendação de Jesus [5] para convidarmos coxos e estropiados quando dermos um banquete…

Tal quadro de indigência espiritual e afetiva induz-nos a grave reflexão: estariam nossos círculos de Espiritismo Cristão atendendo a essa construção do ambiente regenerativo de nossas almas? Ou será que, mesmo nas frentes de serviços com Jesus, estaríamos cultivando as amizades de conveniência que nos garantam a ‘nutrição da bajulação’, mantendo os feudos de glórias pessoais?!

O momento de transição da humanidade é instante de árduas comoções. O egoísmo precisa ser extirpado e para isso somos todos convidados, de uma ou de outra forma, a descer dos ‘tronos’ da falsa superioridade ou sair da ‘cabeceira’ das decisões individualistas.

É tempo de abnegação e renúncia!… Convenhamos: nossa parcela de personalismo é enorme, mesmo nas lições de amor às quais nos afeiçoamos junto aos labores doutrinários. Anotemos assim algumas de suas rotineiras formas de se apresentar, a fim de nos matricularmos numa autoavaliação sobre a possibilidade de ainda nos encontrarmos prazerosos com o vício do prestígio pessoal: aversão à crítica; mendicância de reverência; gosto pela pompa; imposição de pontos de vista; melindre nas discordâncias; mágoa alimentada; importância conferida ao nosso nome; apego a tarefas; vício do elogio…

Com todo o respeito que devemos uns aos outros, não podemos deixar de assinalar que, entre nós, os profitentes da causa espírita, encontram-se lamentáveis episódios de vaidade. Alguns corações, mais doentes que mal-intencionados, não conseguiriam ‘manter-se espíritas’ sem a reverência coletiva.

Contudo, a ‘vitrine da fama’ não foi feita para os discípulos do Cristo, e nossa maior conquista espiritual é o poder de negar a si mesmo. O trabalhador em busca de reconhecimento pessoal efetivamente não serve à causa de Jesus.

Fénelon refere-se à força moralizadora do exemplo como forma de renovar as relações de homem a homem. Certamente essa indicativa é admirável receita para nossa recuperação frente ao descontrolado vício de ser valorizado. E para iniciarmos um processo educativo nesse sentido, deixamos uma dica preciosa na mudança dos nossos hábitos: comecemos a falar menos de nós e estejamos mais atentos em prestigiar o outro” …

Rogério Coelho

[1] – KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 83. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2002, q. 917.

[2] – Expressão francesa que significa: Eu + eu. (Egoísta, personalista, vaidade excessiva, presunção.)

[3] – KARDEC, Allan. Revue Spirite. Maio de 1863. Araras: IDE, 2000, p. 164.

[4] – OLIVEIRA, Wanderley S. Mereça ser feliz. BHte: INEDE, 2003, cap. 18, p. 95-98.

[5] – Lucas, 14:12 a 14.

Postado há 13th August por

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Visitas Espíritas entre Pessoas Vivas

Artigo do Jornal: Jornal Agosto 2019

Por Cláudio Conti

A afirmação de que encarnados se visitam durante o sono, seja natural ou induzido, pode causar consternação, pois não costumamos pensar em nós mesmos como espíritos. Temos a tendência a não considerar que tudo aquilo que a Doutrina diz com relação aos espíritos, todos os fenômenos, também se aplica aos encarnados. Contudo, é imperioso termos a certeza de que somos todos espíritos, encarnados ou não, e, inclusive, há a possibilidade de um encarnado em desdobramento se manifestar, por um processo mediúnico, através de um médium.

Léon Denis, muito sabiamente, disse:

“(…) o homem é para si mesmo um mistério vivo. De seu ser não se conhece nem utiliza senão a superfície. Há em sua personalidade profundezas ignoradas em que dormitam forças, conhecimentos, recordações acumuladas no curso das anteriores existências, um mundo completo de ideias, de faculdades, de energias, que o envoltório carnal oculta e apaga, mas que despertam e entram em ação no sono normal e no sono magnético”[1].

A emancipação da alma, durante o sono, ocorre com todos os encarnados por ser mesmo uma necessidade, um refúgio das agruras da encarnação. Diante disso, Kardec questionou os espíritos se essa aparente dualidade seriam duas existências simultâneas. Uma, ligada ao corpo físico, permitindo uma vida de relação mais ostensiva e outra, liberta do corpo, proporcionando a vida de relação oculta. A resposta, no entanto, foi muito clara: “No estado de emancipação, prima a vida da alma. Contudo, não há, verdadeiramente, duas existências. São antes duas fases de uma só existência (…)”[2].

Nesse contexto, tomemos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro, com mais de seis milhões de habitantes. Quantos desses se conhecem e mantêm um laço afetivo? Quantos possuem interesses em comum? Podemos considerar que, à noite, a maior parte se encontra em desdobramento. Como não mantemos relações com outros encarnados apenas no estado de vigília, muitos que não se conhecem enquanto encarnados, podendo, inclusive, encontrar-se nos caminhos da vida e não se reconhecer, quando emancipados, são grandes amigos ou conservam profundo laço afetivo.

Falamos de seis milhões de pessoas apenas na cidade do Rio de Janeiro, contudo, quando consideramos o planeta como um todo, esse número ultrapassa sete bilhões de pessoas. É impossível precisar quantas se conhecem enquanto espíritos, mas não como encarnados.

Os espíritos responsáveis pela Codificação Kardequiana dizem que: “Muitos que julgam não se conhecerem costumam reunir-se e falar-se. Podes ter, sem que o suspeites, amigos em outro país. É tão habitual o fato de irdes encontrar-vos, durante o sono, com amigos e parentes, com os que conheceis e que vos podem ser úteis, que quase todas as noites fazeis essas visitas”[3].

Em decorrência, podemos conceber o quanto nossa existência é rica em experiências, pois, durante o sono, não temos as limitações de trânsito imposta pela matéria. Assim, um deslocamento de um país para outro pode se realizar com a velocidade do pensamento, sem necessidade de aeroporto, passagens, tarifas, translado etc. Os espíritos percorrem o espaço com a rapidez do pensamento [4], pois a matéria densa impõe limitação ao corpo, mas não à alma [4].

Um fato interessante é que o espírito não necessariamente percebe a distância que percorre. Assim, uma “viagem longa”, transcorrendo com a rapidez do pensamento, é instantânea e, se não for consciente, pode não ser percebida pelo viajante. Em contrapartida, nas “viagens conscientes” o espírito poderá se aperceber de todo o trajeto. A possibilidade, ou melhor, capacidade de realizar as “viagens conscientes” está atrelada ao entendimento do espírito e ao seu nível evolutivo. Isto é informado na Codificação, ao dizerem que “o espírito pode perfeitamente, se o quiser, inteirar-se da distância que percorre, mas também essa distância pode desaparecer completamente, dependendo isso da sua vontade, bem como da sua natureza mais ou menos depurada”[5].

Parafraseando Léon Denis [1], o homem realmente é um mistério para si mesmo. Em decorrência da pouca capacidade de entendimento, ou de interesse, pois a pouca capacidade pode ser compensada pelo interesse em entender, o espírito compatível com um mundo de expiações e provas, tende a se ocupar com o que, de alguma forma, sensibiliza os sentidos físicos, acreditando, desta forma, ser tudo o que existe. Assim, em O Livro dos Espíritos encontramos o que ocorre no íntimo da maioria dos espíritos ligados à Terra: “entregam-se às paixões que os escravizaram, ou se mantêm inativos. Pode, pois, suceder, tais sejam os motivos que a isso o induzem, que o espírito vá visitar aqueles com quem deseja encontrar-se. Mas, não constitui razão, para que semelhante coisa se verifique, o simples fato de ele o querer quando desperto”[6].

Em contrapartida, para aqueles mais conscientes da sua realidade como espíritos, cientes da sua natureza mais básica, “adormecendo o homem, seu espírito desperta e, muitas vezes, nada disposto se mostra a fazer o que o homem resolvera, porque a vida deste pouco interessa ao seu espírito, uma vez desprendido da matéria”[6].

O conhecimento apresentado pela Codificação Espírita é fundamental para espíritos ligados a um mundo de expiações e provas como a Terra, somos equivocados por definição e, portanto, precisamos trabalhar pela própria transformação.

Notas bibliográficas:

  1. Léon Denis. No Invisível, pg. 131.
  2. Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, Questão 413.
  3. Idem. Questão 414.
  4. Idem. Questão 89.
  5. Idem. Questão 91.
  6. Idem. Questão 90.
  7. Idem. Questão 416.

Fonte: Correio Espírita

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PAZ INTERIOR

Divaldo Pereira Franco

Se desejarmos qualificar a questão de mais importância da existência humana, teremos algumas dificuldades em razão da diversidade das aspirações e daquilo que cada qual lhe atribui esse significado.

Eliminando-se os valores normalmente considerados de maior expressão, tais o dinheiro, o destaque social, o poder político ou de outra ordem, existem conquistas outras que proporcionam plenitude e nem sempre são detectadas pelos lutadores e ambiciosos.

Há incontáveis exemplos de indivíduos que se esfalfam por ganhar e projetar-se, que vivem enclausurados nos seus castelos de ilusão, procurando superar os outros, mesmo ao preço de muita amargura e desar.

Há aqueles que se cercam de admiradores da sua juventude venturosa, das suas façanhas algo estranhas, do seu nome nas redes sociais mais famosas, dando a ideia de que as suas são as jornadas mais fascinantes e invejáveis a que se deve aspirar…

Observamos, às vezes, pessoas idosas amarguradas, agressivas, instáveis emocionalmente, porque lhes parece haver perdido com a idade que acumularam os tesouros mais valiosos, tais o prazer sexual, as viagens coloridas, os jogos nas bolsas, o corre-corre instável dos juros que os reduziram a uma situação econômica desagradável.

Em outras ocasiões detectamos pessoas jovens umas e maduras outras, gananciosas e avaras, com os sentidos fixados nas situações relevantes da sociedade, tentando organizar família reluzente ou desfazerem-se da que possuem, para saltos mais audaciosos, vivenciando situações íntimas desesperadoras e sempre insatisfeitos com os próprios feitos, acompanhando com mágoa as glórias alheias.

Encontramos religiosos fanáticos que pretendem viver o esplendor dos Céus na Terra sofredora, assim como céticos que se aferram ao materialismo e vivem como se cada dia fosse o último, necessitando de fruí-lo ao máximo, consumindo-se em condutas extravagantes e com vazios íntimos como resultado de uma vida sem sentido e de breve duração…

Há de tudo na multidão humana sem rumo, assim como naquela que acredita ser a sua a melhor maneira de encarar os acontecimentos e a própria caminhada, vivendo entre contínuas aflições.

É relativamente pequeno o número de quem busca a paz interior, seja na posse ou na escassez, na saúde ou na enfermidade, na juventude louçã ou na velhice tranquila.

A paz interior é um tesouro que se encontra ao alcance de toda a Humanidade sem lutas atrozes nem correrias desnecessárias.

Sócrates sugeriu como caminho seguro o roteiro: Conhece-te a ti mesmo.

Jesus estabeleceu a conduta: Do que vos adianta salvar o mundo e perder-se a si mesmo?

E Allan Kardec propôs: Fora da caridade não há salvação.

Não acha que está na sua hora?

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 15.10.2020.

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Como Moisés atravessou o Mar Vermelho

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EXAMINANDO O SOFRIMENTO

Joanna de Ângelis

Fugir da aflição!

Libertar-se da dor! Esquecer…

Esquecer que se sofre! – exclamam os simplistas que pensam em solucionar o magno e palpitante problema do sofrimento não o considerando, como se, ignorando a enfermidade e a dor, a dor e a enfermidade ignorassem o homem.

Muitos dos que se filiaram às diversas correntes religiosas do Cristianismo procuram, por processo de transferência, librar-se acima das águas tumultuadas do sofrer, orando e, na prece, exorando libertação gratuita, como se o papel da Divindade fosse o de arrolar solicitações e atendê-las indiscriminadamente, longe da consideração aos títulos característicos do mérito e do demérito.

Alguns, vinculados às correntes do materialismo filosófico ou científico, fogem em busca do prazer como se este, entorpecendo o caráter, pudesse anular a sede dos registros do passado culposo, libertando os infratores sem a regularização dos seus débitos.

E como o prazer não consegue atender a sede de gozo e o gozo da fuga, fogem, desvairados, para os labirintos das drogas estupefacientes, procurando, na consciência em desalinho e em exaltação, uma felicidade a que não fazem jus, uma paz que não merecem.

E o sofrimento – esse ignoto servidor da alma – continua imperturbável no afã de sacudir e despertar mentes, realizando o impositivo divino de reequilíbrio da Lei.

Reponta aqui e surge adiante, de mil formas, falando vigorosa linguagem que somente raros conseguem escutar e entender.

* * *

Zenão de Cítio, o filósofo grego do IV século antes de Cristo, contemplando o panorama de dor que se apresentava afligente em todo lugar, elaborou o estoicismo, através do qual o desdém às coisas materiais e o culto das virtudes seriam os meios únicos de promover o equilíbrio no homem, desse modo valorizado para vencer a dor, enfrentando-a com nobreza e fé.

Sócrates, o célebre pai da Escola maiêutica e considerado o maior filósofo da Humanidade, encarcerado pela intolerância do ignóbil julgamento dos Heliastas preceituava, mesmo da prisão, o culto da moral e da virtude para vencer o sofrimento, suportando com estoicismo a injusta posição.

Francisco de Assis, o pobrezinho, desdenhando todas as coisas da Terra, experimentou a zombaria e sofreu aflições sem nome, mantendo a força do amor no exercício das virtudes cristãs, como chave do enigma angustiante do sofrimento. E bendizia a dor!

Joana D’Arc, encarcerada por circunstâncias óbvias procurou escutar as suas vozes e, animada pelos amigos espirituais que a norteavam, suportou o cárcere, a humilhação e o opróbrio, queimada, após infamante e arbitrário julgamento, chamando por Jesus e superando a própria dor…

Sofrimento é alta concessão divina.

Dor é moeda de resgate.

Aflição é exercício para fixação do bem.

Sem eles ignoraríamos a paz, desconsideraríamos a alegria, maldiríamos a saúde.

Aquele que sofre está sendo aquinhoado com os exercícios–lições de fixação do bem nas telas mentais. No leito de dor, na cadeira de rodas, nas amarras ortopédicas; sob os acúleos morais, nos tormentos familiares, nos cipós limitativos das aspirações; no corpo, na mente, na alma; na família, em sociedade, no trabalho; onde esteja a arder e queimar a brasa do sofrimento, agradece a Deus a oportunidade sazonada de reaprender e reparar.

Considera que, enquanto doam as tuas chagas abertas, queimadas por ácidos destruidores, outros companheiros desavisados atiram-se impertinentes pelas sendas da irresponsabilidade, dirigidos por irrefreável loucura, e acalma-te, embora a tormenta que te vergasta…

* * *

Jesus, tendo elegido o sofrimento como amigo de todas as horas, ensinou-nos sem verbalismo nem retórica que sofrer é ser feliz, e em todos os instantes, sofrendo, exaltou o amor e a bondade como rota de iluminação, pacífico e excelso, prosseguindo imperturbável.

Mesmo que o teu céu esteja carregado de cúmulos em forma de dores e preocupações, e aparentemente te encontres amesquinhado por angústias ultrizes, caminhando em terrível soledade, levanta, estoico e cristão, a cabeça, descrispa as mãos e torna-as asas de amor para com elas louvar o Senhor no trabalho e no bem com os quais alçarás voo às regiões da liberdade após o resgate que o sofrimento te enseja. Recebe-o, pois, com amor e não desvaries.

Joanna de Ângelis

Divaldo P. Franco

Livro: Dimensões da Verdade – 7

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