Fé racional

Artigo do Jornal: Jornal Setembro 2019

Por Guaraci Silveira

Queremos encontrar meios que nos leve de fato a um perfeito relacionamento com o nosso Criador. A fé é um instrumento que nos interliga a Ele. Mas, há que encontrarmos um caminho válido e, de preferência sem intermediários. Jesus nos aconselhou entrarmos no silêncio dos nossos quartos e orarmos, buscando essa interligação. Immanuel Kant, filósofo do Século XVIII, nos indica: “a liberdade da vontade, a imortalidade da alma e a existência de Deus”.  Três fatores de grande importância para que alcancemos uma melhor identificação com a fé raciocinada, ínsita no Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XIX. Emmanuel nos diz que: “Ter fé é guardar no coração a luminosa certeza em Deus, certeza que ultrapassou o âmbito da crença religiosa, fazendo o coração repousar numa energia constante de realização divina da personalidade. Conseguir a fé é alcançar a possibilidade de não mais dizer eu creio, mas afirmar eu sei, com todos os valores da razão, tocados pela luz do sentimento.”

Importante sempre nos lembrarmos de que estamos num extraordinário ciclo evolutivo. Saídos de Deus, encontramo-nos nos primeiros processos de aprendizagem para que um dia possamos adentrar os planos superiores da Criação. Para tanto, dúvidas, dogmas e fanatismos não corroboram com a busca pertinaz e inteligente de uma ligação permanente com o Pai e Criador. Quando Kant propõe a liberdade da vontade ele nos indica que a razão tem como corolário a vontade. Leon Denis nos informa que a vontade é a maior potência da alma. Com ela buscamos os fundamentos da vida como a imortalidade da alma, também proposto por Kant. Ora, sendo imortais, todos os nossos atos devem ser direcionados para a busca de uma melhor adequação a essa imortalidade. Não vale fazer para ver no que dá. É necessário racionalizar nossos desejos transformando-os em vontade equilibrada e saudável. A existência de Deus “… Só pode encontrar-se na razão”, como nos diz Paulo Figueiredo em seu livro: Revolução Espírita. Os que ficam para trás, um dia terão que entender e seguir, pois não vale a estagnação. Tudo é progresso como nos informa o Livro dos Espíritos, Q. 781.

É necessário buscarmos a fé racional. Somente ela nos permitirá resolver grandes questões que jazem em nossos arquivos do inconsciente. Quantas vezes esses arquivos nos perturbam não nos deixando ver a realidade, enxergar o belo, aprimorando-se para o bom. Naquele passado histórico quando alguém propunha e todos faziam sem os devidos questionamentos não fomos eficazes e tampouco felizes. A liberdade de pensar é apanágio para a liberdade de crescer em paz para Deus. Houve um tempo em que as chamas crepitaram em praças públicas na tentativa de calar os defensores dessa liberdade. Agora estamos num outro momento em que o pensar significa agir e o bom pensar é, portanto, a ação ideal que consolida a liberdade para agir de forma correta porque refletida.

Immanuel Kant define a liberdade de pensamento como “fundamental para o estabelecimento da religião natural, ao permitir o exercício da fé racional”. Eis aí um bom caminho. A Doutrina Espírita é toda pautada nesta fé racional porque ela propõe um debate aberto sobre tudo o que já consideramos como verdade. Partindo dos axiomas que são premissas consideradas necessariamente evidentes e verdadeiras, caminhamos para a abertura de novas evidências, pois assim Allan Kardec agiu e nos indica a fazer. É um andar consciente, perscrutativo, consolidado na certeza de que o Universo é uma mansão a ser explorada de forma tranquila e elegante.

Deus não pune, não é vingativo e nem raivoso. É justo e dá a cada um segundo suas obras. Todo o caminhar de Jesus na face do mundo foi uma demonstração de total confiança em si e no Pai. Esta deve ser a lição para o nosso agir. Jesus é o Mestre, que sejamos, pois, seus leais discípulos.

Guaraci Silveira

Correio Espírita

Bibliografia:

Livro Revolução Espírita de Paulo Figueiredo 3.4

O Livro dos Espíritos – Leis Morais – Lei do Progresso

Livro O Consolador Pergunta 354

Livro: O Problema do Ser do Destino e da Dor – Terceira Parte – XX

Evangelho de Mateus 16:27

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A VIOLÊNCIA INTERIOR DE TODOS NÓS

Ivan René Franzolim

A violência do mundo se combate com as armas do bem apontadas em nossa própria direção.

A palavra violência exprime todo pensamento, complementado ou não por palavras e ações, que exteriorize um sentimento contrário à lei do amor e da caridade. No mundo atual acompanhamos muitas vezes com o requinte de detalhes, as notícias e reportagens sobre os atos mais violentos da humanidade. Esse contato diário com os atos extremados do ser humano toma as pessoas mais insensíveis, levando-as a desconsiderar suas pequenas atitudes de violência, esquecendo de colocá-las no rol daquelas que devem sofrer o esforço de transformação no trabalho constante de auto-aprimoramento.

A propensão à violência é característica dos Espíritos vinculados ao planeta Terra, variando apenas quanto a intensidade e aos estímulos necessários para desencadear a ação violenta. Daí o “não julgueis”, induzindo-nos pelo raciocínio, a buscarmos maior prudência ao julgar o próximo, porque não sabemos se guardamos em nosso íntimo o mesmo grau de violência que condenamos, esperando apenas as condições propícias para despertar.

Segundo o Espírito da Verdade (perg. 785), o maior obstáculo ao progresso moral é o orgulho e o egoísmo. Ambos caracterizam o sentimento ainda muito imperfeito que aliado à ignorância das leis naturais e seus mecanismos de atuação, originam as ações contrárias a essas mesmas leis constituindo a violência. Essa ignorância, no entanto, não nos exime de culpa e responsabilidade pelos nossos atos uma vez que a lei de Deus está escrita na consciência de cada um (perg. 621), permitindo ao homem discernir sobre o bem e o mal. As imprudências cometidas sem intenção negativa ou consciência perfeita da situação estariam livres de culpa (perg. 954), embora o Espírito mais adiantado se sinta naturalmente compelido a auxiliar àqueles envolvidos pela sua imprudência. (Consultar “O Livro dos Espíritos”)

Devemos combater a nossa violência interior em todas as suas formas e intensidades, porque, com ela e através da Lei de Sintonia contribuímos para a sua manutenção entre nós. Muitas vezes achamos que não fazemos mal a ninguém (pelo menos diretamente), apesar de fazermos mal a nós próprios diariamente, agredindo nosso corpo com fumo, bebidas, remédios e alimentos inadequados ou exagerados, agredindo nosso campo emocional e psíquico com impaciência, irritação e pensamentos infelizes.

Parece lógico supor que os pequenos atos de violência sejam mais fáceis de eliminar e que o conjunto desses atos favorecem perigosamente o aumento gradativo da tendência de agir com violência. Logo, convém priorizar a eliminação das pequenas atitudes inconvenientes, bem como evitar que elas se transformem em hábitos, o que dificultaria sua constatação e eliminação pelo seu portador.

O conhecimento espírita oferece diversas medidas preventivas imprescindíveis para evitar que o sofrimento surja em consequência da lei de ação e reação. Eis alguns deles: fixar objetivos de aperfeiçoamento moral, conhecer melhor a si mesmo, enriquecer dia-a-dia o seu conhecimento espiritual, estimular continuamente o bem interior, trabalhar pelo seu auto-aprimoramento, fazer o bem, evitar o mal, orar.

Estando a evolução do homem subordinada ao relacionamento com outros seres, pode-se concluir que os atos de violência surgem do conflito entre pessoas. O remédio auxiliar para prevenir conflitos maiores é a busca da compreensão pela prática da empatia, procurando sentir o que sentiria se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por outra pessoa. Este exercício proporciona ótimos resultados, mas requer muita boa vontade para desempenhar o papel de advogado de defesa, inclusive especulando sobre os possíveis componentes espirituais que possam estar influenciando o contexto analisado.

A consciência das dificuldades do processo de melhoria interior não deve ser causa de desânimo e sim de desafio a ser vencido. O fato de se possuir algum conhecimento das leis naturais não assegura a ninguém manter um comportamento equilibrado. É preciso entender, aceitar, enfrentar situações difíceis utilizando o conhecimento, para reavaliar os resultados num ciclo que se repete indefinidamente. No início nem nos lembramos do conhecimento ao começarmos uma ação violenta, mas temos a chance de identificá-lo e analisá-lo depois. A prática dessa conduta leva a um estágio mais adiantado, em que a exata consciência de estar procedendo mal surge no meio da ação, possibilitando algum reparo antes de sua finalização. O estágio seguinte permite detectar a tendência para agir negativamente antes de tomar qualquer atitude. No último estágio conseguimos responder automaticamente com boas ações e pensamentos, aos estímulos recebidos.

Existe a influência das ondas de pensamentos com as quais nos sintonizamos segundo o princípio que o semelhante atrai o semelhante, fortalecendo os pensamentos e sentimentos próprios da faixa vibratória em que nos situamos.

O Espiritismo oferece os meios para aceleração do sistema natural de evolução, exigindo, porém, vontade firme, melhoria contínua do conhecimento e prática incessante do bem. Ao absorver e procurar adotar o conhecimento espírita, o homem acerta as bases racionais do seu intelecto facilitando o trabalho de transformação dos seus impulsos emotivos inferiores.

O exame de consciência periódico é instrumento útil, não só de identificação dos erros cometidos, mas também como registro dos acertos e sucessos obtidos visando alimentar a motivação necessária para a continuidade da tarefa de melhoria interior. Tudo isso o homem pode fazer com o governo consciente de sua vida. Nada melhor do que poder conduzir com segurança a própria trajetória rumo à realização plena. É hora de agradecer a oportunidade e trabalhar pela própria felicidade.

Ivan René Franzolim

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A DOR EM NOSSAS VIDAS

Mauro Falaster

Do ponto de vista espiritual, a dor transforma. No entanto, tal transformação vai depender de como vivemos a dor.

Passar incólume ao sofrimento é a grande meta que todos perseguem, ou, ao menos, diminuir-lhe a intensidade. Temos uma visão imediatista, interessa-nos o hoje, sem visão do futuro. Assim, o sofrimento tem sido considerado vingança ou castigo divino.

A dor pode ter causas em vidas anteriores quando violamos as leis de Deus, ou nessa vida, quando de forma invigilante caímos nas armadilhas de nossa imprevidência, orgulho ou ambição e, por consequência, sofremos imediatamente ou acumulamos novos débitos para o futuro.

Tudo gerado pelo nosso mal proceder.

Você já parou para pensar na razão da existência da dor, do sofrimento, em nossas vidas? Talvez num daqueles momentos de extrema angústia, em que o coração parece apertar forte, você tenha pensado em Deus, na vida, e gritado intimamente: por quê?! Isso porque, não a entendemos e não nos achamos merecedor dela.

O sofrimento pode e deve ser considerado uma doença da alma, onde optamos pelas direções e ações que produzem desequilíbrio.

Nessa fase, todo um emaranhado de paixões primitivas impulsiona o ser na direção do gozo, sem ética ou sentimento superior, e o leva aos conflitos que geram a desarmonia das defesas orgânicas, as quais cedem à invasão de micróbios e vírus que lhe destroem a imunidade, instalando-se, insaciáveis, devoradores da saúde.

Como podemos ver, o sofrimento não é imposto por Deus, constituindo-se eleição de cada criatura. Fugir, escamotear, anestesiar o sofrimento são métodos ineficazes. Pelo contrário, uma atitude corajosa de examiná-lo e enfrentá-lo representa valioso recurso para sua superação e propiciador de paz.

As reações de ira, violência e rebeldia ao sofrimento mais o ampliam, pelo desencadear de novas desarmonias em áreas antes não afetadas.

Pode-se dizer, portanto, que a sua presença resulta do distanciamento do amor, que lhe é o grande e eficaz antídoto.

DOR

Ela se revela a cada um de modo diferente, mas a todos visita.

Os pobres sofrem pela incerteza quanto à manutenção de sua família.

Os doentes experimentam padecimento físico.

Os idealistas se angustiam pelo bem que tarda em se realizar.

Os ricos que tudo podem possuir, não conseguem comprar a felicidade, a saúde e a paz.

Qualquer que seja a posição social de um homem, ele vive a experiência do sofrimento. A universalidade da dor chama a atenção dos homens para o fato de que são essencialmente iguais.

NECESSIDADE DA DOR

A dor é, ao mesmo tempo, um problema para os seres humanos e um termômetro indispensável para a nossa proteção dos perigos, riscos, acidentes e mesmo das doenças. Que paradoxo! Pensar que o mesmo sintoma que indica uma doença é também a nossa salvação. A dor informa.

E, do ponto de vista espiritual, a dor transforma. No entanto, tal transformação vai depender de como vivemos a dor.

A dor, fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo, melhorá-lo e para torná-los dóceis.

A dor é o remédio amargo que desperta no ser a necessidade de transformação. Mas, a dor será sempre proporcional ao estrago que fizermos em nós mesmos pelo mau uso do nosso livre-arbítrio.

Ninguém, sofre sem merecer. Se sofre muito é porque erra ou errou muito. Se soubéssemos por que sofremos, o mundo seria mais ditoso.

Sua serenidade perante a dor fará com que outros repensem a forma com que vivem.

CONCLUSÃO

Seja forte e corajoso. Não se deixe vencer pela dor, pelas dificuldades, pela doença. Procure entender o significado dos seus sofrimentos. Nunca se esqueça que é filho de Deus e Ele não desampara nenhum de seus filhos.

Coragem, bom ânimo e refúgio na prece são nossas melhores armas no momento de dor.

Mauro Falaster

Palestrante e monitor na Nova Era
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PANDEMIA DO DESAMOR

Divaldo Pereira Franco

Passando os olhos pelo Facebook, um título chamou-me a atenção: “Jovem empurra namorada ao ônibus”.

A moça tomba quase que sob as rodas do veículo, mas salvou-se, levantando-se e buscando auxílio.

O mais impressionante foram a frieza e desfaçatez do psicopata, que tentou abraçá-la como se nada houvesse acontecido… Ela saiu manquejando.

Não me havia superado a emoção derivada do ato perverso, quando encontrei mais duas cenas equivalentes: dois novos pares caminhando, e os companheiros, ante aproximação de ônibus, empurram suas respectivas companhias, tornando o odiento crime como tentativa de homicídio algo banal.

A perda da sensibilidade humana está chegando a um ponto que ultrapassa os mais estranhos comportamentos.

Como se pode estar ao lado de alguém cuja atenção afetiva foi despertada e ao mesmo tempo ser detestada, ao limite de ser cometido um crime com todas as características da perversidade e da indiferença. O mais surpreendente é a ausência de sentimento de humanidade, num momento em que o amor pelas florestas e pelos animais atinge índices os mais elevados que se pode imaginar.

Repassamos mentalmente os hediondos crimes do nazismo e equivalentes no mundo, quando as pessoas eram assassinadas como insetos danosos que não faziam parte do concerto social.

A pandemia da Covid-19 preocupa a humanidade que ainda lhe sofre o aguilhão cruel e destruidor, enquanto as criaturas atormentam-se pelo medo dos relacionamentos domésticos, das agressões e enfrentam insensivelmente “paredões” e semelhantes, nos quais o contágio se torna volumoso e suicida, ampliando os quadros dos contaminados e dificultando o seu desaparecimento.

O ser humano, infelizmente, permanece o lobo devorador da velha tradição, para o qual o sentido da vida é o prazer servil, filho especial do egoísmo alucinado.

A decadência da ética moral, substituída pelas paixões amesquinhantes, exibida nos campeonatos da luxúria e da agressividade, vem governando, cada dia, o homem e a mulher, que se transformaram em objeto de prazer, a prejuízo da nobreza do caráter, dos sentimentos de solidariedade e da cultura tecnológica, que proporciona comodidades e bem-estar.

Os instintos que lhes predominam ainda se encontram nas fases básicas do comer, dormir e reproduzir-se, sem o acompanhamento luminoso e libertador das emoções superiores, que respondem pelas aspirações da inteligência.

Numa comparação estranha, a epidemia de desamor e a que diz respeito à saúde física, a Covid-19 parece menos danosa, porque a ciência médica vem vencendo-a com larga margem de triunfo, enquanto o crime de toda espécie domina imensa fatia da sociedade em desespero malcontido.

Artigo de Divaldo Pereira Franco

Publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 01/10/2020

Fonte: Intelitera

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ESQUECIMENTO DE PRETÉRITO

Joanna de Ângelis

Conquanto estejas informado a respeito da ação do passado sobre o presente, deixas-te dominar quase sempre por dúvidas atrozes que espezinham tuas convicções, fazendo-te sofrer.

Conjecturas quanto ao esquecimento que acompanha o espírito na reencarnação, e supões que esse olvido, de certo modo se faz obstáculo ao discernimento entre amigos e adversários da tua felicidade.

Seria mais justo que, assim pensas, em momentos de rudes provanças, os centros da memória anterior fossem libertados e a censura que frena as recordações deixasse fluir os rios do conhecimento de modo a agires com acerto.

Confessas intimamente o tormento que te consome por caminhares sem o conhecimento do destino, tendo em vista a ignorância do pretérito, assinalando desolação e dor.

E concluis, apressado, que a reencarnação, em tais bases, não expressa condignamente o amor de Nosso Pai, afirmando que, em ti mesmo não encontras, na memória, os fundamentos que favoreçam a segurança que gostarias de possuir para levares de vencida a experiência evolutiva.

Pensas, e, no entanto, desconheces a mecânica do raciocínio a nascer nos centros cerebrais.

Ages sob impulsos desconhecidos, e ignora a razão deles.

Vives governado por automatismos fisiológicos que te mantém a harmonia orgânica sem lhes conheceres a procedência…

….Vês, ouves, sentes, falas, distingues gostos, no que se refere aos débeis órgãos dos sentidos físicos sem indagações, sem exigências e, todavia, deixas-te conduzir tranquilamente.

Observa a dificuldade que experimenta uma criatura excepcional aprendendo a falar, comer, controlar os movimentos…

Entenderás, então, que se não te é lícito recordar o passado, a outros espíritos mais esclarecidos e fortes que o teu é permitido navegar no oceano das recordações com alguma segurança e naturalidade….

Ao invés de castigo, o esquecimento das vidas passadas é dádiva celeste.

Desejarias identificar os sicários da tua paz e os cooperadores da tua alegria. Examina, no entanto, as afinidades, considera as emoções junto aos que te cercam, medita e conclui com o auxílio do tempo.

Abre, todavia, os braços, a quantos se acercam de ti, procurando envolvê-los nas vibrações do entendimento e da cordialidade, para fruíres afeição e simpatia.

* * *

Encontras obstáculos afetivos no lar entre os membros da família e experimentas, não raro, asco senão revolta por aqueles a quem deverias amar nas amarras do sangue.

Reações indomáveis, a se manifestarem como animosidade, alquebram o teu ânimo em casa, levando-te a desesperos e atritos lamentáveis.

Acalentas, ou és vítima de idiossincrasias, senão aversões, por filhos ou irmãos, lutando tenazmente por vencer a força negativa que te assoma na presença deles, sem resultados positivos.

A estada na intimidade doméstica se constitui penoso período, encontrando, todavia, motivos de júbilos sob tetos alheios…

….E desejarias recordar o ontem!…

Se em ignorância quanto ao mal que te hajam feito, eles os teus familiares, te sentes incapaz de fitá-los, entendê-los, ajudá-los e amá-los, oferecendo-lhes compreensão e simpatia, como te portarias se, na filha revel identificasses antiga companheira que o adultério arrastou, no irmão consangüíneo o destruidor do antigo ninho de venturas que o tempo não consumiu, no pai ou mãe, no filho ou noutro parente o arquiteto da tua ruína ou a vítima da sua sandice?

Esquecer o mal para agir com acerto é luz de amor na lâmpada da oportunidade.

Ignorar os maus para ajudá-los, significa ensejar-lhes, com igualdade de condições, ocasião de repararem os males que tenham praticado.

Lutar contra a antipatia, procurando ignorar as causas da aversão representa valioso esforço de libertação íntima.

Considerando a pequenez e a inferioridade moral de quantos se encontram na Terra, o abençoado Hospital-Escola para os recalcitrantes, os Excelsos Promotores dos renascimentos fazem que a mente espiritual mergulhe no olvido, a fim de que as lembranças dos atos infelizes não os enlouqueçam e as evocações abençoadas não os paralisem em recordação insensata ou improfícua.

* * *

Jesus, o Egrégio Coordenador da Vida na Orbe, lecionando sobre a necessidade do bem atuante, não poucas vezes exortou ao amor puro e simples com o esquecimento do mal, para que este não se corporificasse em sombra tenebrosa acompanhando nossa consciência. E desejando imprimir com sulcos profundos o ensino sublime, conclamou os que O seguissem a duplicar a bondade em relação aos que nos peçam algo, mandando oferecer a outra face ao agressor para que não fôssemos os promotores do mal ou vitalizadores da impiedade.

E assim o fez por conhecer o abismo que a ignorância da verdade representa e a balisa de luz que significa o amor no caminho da evolução, amor que nos faz esquecer o mal para somente nos lembrarmos do bem…

Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco
Livro: Dimensões da Verdade – 11

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CEMITÉRIO NO DIA DOS FINADOS

O hábito de visitar os mortos, como se o cemitério fosse sala de visitas do Além, é cultivado desde as culturas mais remotas. Mostra a tendência em confundir o indivíduo com seu corpo. Há pessoas que, em desespero ante a morte de um ente querido, o “visita” diariamente. Chegam a deitar-se no túmulo. Desejam “estar perto” do familiar. Católicos, budistas, protestantes, muçulmanos, espíritas – somos todos espiritualistas, acreditamos na existência e sobrevivência do Espírito. Obviamente, o ser etéreo (espírito) não reside no cemitério.

Muitos preferem dizer que perderam o familiar, algo que mostra falta de convicção na sobrevivência do Espírito. Quem admite que a vida continua jamais afirmará que perdeu alguém. Ele simplesmente partiu. Quando dizemos “perdi um ente querido”, estamos registrando sérios prejuízos emocionais. Se afirmarmos que ele partiu, haverá apenas o imposto da saudade, abençoada saudade, a mostrar que há amor em nosso coração, o sentimento supremo que nos realiza como filhos de Deus. Em datas significativas, envolvendo aniversário de casamento, de morte, finados, Natal, Ano Novo, dia dos Pais, dia das Mães, sempre pensamos neles.

PODEMOS CHORAR? Podemos chorar, é claro. Mas saibamos chorar. Que seja um choro de saudade e não de inconformação e revolta. O choro, a lamentação exagerada dos que ficaram causam sofrimento para quem partiu, porque eles precisam da nossa prece, da nossa ajuda para terem fé no futuro e confiança em Deus. Tal comportamento pode atrapalhar o reencontro com os que foram antes de nós. Porque se eles nos visitar ou se nós os visitarmos (através do sono) nosso desequilíbrio os perturbará. Se soubermos sofrer, ao chegar a nossa vez, nos reuniremos a eles, não há dúvida nenhuma.

ENTÃO OS ESPÍRITAS NÃO VISITAM O CEMITÉRIO? Nós espíritas não visitamos os cemitérios porque homenageamos os “vivos desencarnados” todos os dias. Mas a posição da Doutrina Espírita, quanto as homenagens (dos não espíritas), prestadas aos “MORTOS” neste Dia de Finados, ao contrário do que geralmente se pensa, é favorável, DESDE QUE SINCERAS E NÃO APENAS CONVENCIONAIS.

Compilação de Rudymara retirada de respostas de Richard Simonetti / Divaldo Franco

Fonte: Kardec Rio Preto

G. E. Casa do Caminho de S. Vicente

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O BOM ESPÍRITA E O ESPIRITÃO

Marcelo Teixeira

O item 2 do capítulo 20 de “O Evangelho segundo o espiritismo”, de Allan Kardec, tem uma frase na qual passei a prestar a atenção e da qual passei a gostar muito quando li o livro “Celebrando o Evangelho segundo o espiritismo”, da historiadora e escritora fluminense Sônia Campos. Essa frase abre o último parágrafo do referido item, é da autoria do espírito Constantino e diz o seguinte: “Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos trabalhadores da última hora”.

Sônia ressalta que não basta ser espírita; é preciso ser um bom espírita! E isso, acrescento, é porque o dito de Constantino está em um livro espírita. Se fosse num livro importante de outra religião, lá estaria escrito bons católicos, bons muçulmanos, bons evangélicos, bons judeus etc. E os ateus? Bem, acredito que, se houvesse uma espécie de livro sagrado dos ateus, estaria lá grafado: bons ateus.

Saindo do âmbito religioso, se dermos uma boa lida no código de ética de várias profissões, encontraremos não de forma explícita, mas nas entrelinhas, o seguinte: bons médicos, bons assistentes sociais, bons jornalistas, bons pedagogos, bons psicólogos… E mesmo nas profissões de saber não acadêmico, mas técnico, encontraremos contida, no dia a dia do profissional, algo similar a bons motoristas, bons encanadores, bons eletricistas e por aí vai. Isso porque, segundo a questão 621 de “O livro dos espíritos”, também de Kardec, a lei de Deus está escrita na consciência. Ninguém, portanto, precisa ser espírita para saber o que é agir corretamente dentro da profissão, sem dores de consciência. Isso significa amor ao próximo, um dito do Cristo que está implícito no modus operandi da nossa sociedade, quer percebamos, quer não.

Voltando ao tema que dá título a esse artigo, religião não é salvo conduto para ninguém, muito menos para os espíritas, que, muitas vezes, se acham uma espécie de povo escolhido por ter mais acesso às verdades além-túmulo. Não somos uma confraria de eleitos pelo Senhor porque somos espíritas. Isso não existe. Ser espírita não é suficiente. É preciso ser um bom espírita.

E como se reconhece o bom espírita? “Pela sua transformação moral e pelo esforço que empreende para domar as más tendências”, como diz o item 4 (não por acaso intitulado ‘Os bons espíritas’) do capítulo 17 também de “O Evangelho segundo o espiritismo”.

O bom espírita é, desse modo, alguém que está tentando melhorar a si próprio, não aos outros.

Resolvi escrever a esse respeito porque já vi muitos espíritas deveras preocupados em policiar o comportamento alheio para ficar se comparando – e se achando melhor – do que esse ou aquele trabalhador ou frequentador do centro. É o espírita que se acha mais espírita que o outro espírita.

Depois de muito pensar a respeito, criei um personagem chamado João, o espiritão. Trata-se daquela figura folclórica, caricata até, que inventou um modelo de espírita a ser seguido e acredita piamente que se encaixa nele com perfeição. João, o espiritão, e os que em torno dele gravitam costumam pensar da seguinte forma:

– João tem 10 tarefas no centro espírita. Vítor tem duas. Ah, então João é muito mais espírita que Vítor!

– João é heterossexual. Leonardo é gay. Ah, então João é muuuito mais espírita que Leonardo!

– João está casado há mais de 30 anos com a mesma mulher. Fábio é divorciado. Ah, então João é muuuuito mais espírita que Fábio!

– João não põe uma gota de álcool na boca. Maurício é apreciador de bons vinhos. Ah, então João é muuuuuuito mais espírita que Maurício!

– João, no carnaval, participa dos encontros de mocidade e da família que o movimento espírita promove. Samuel, há muitos anos, junto com um grupo de amigos, desfila no Salgueiro. Ah, aí não tem nem comparação! João é muuuuuuuuuuuito mais espírita que Samuel!

Quem disse que é assim que a banda toca? Quem disse que existe uma receita de bolo prontinha para seguirmos à risca a fim de nos tornarmos modelos de espírita a serem seguidos? E quem disse que ser um bom espírita implica em ser um modelo a ser seguido? Pelo que sei, modelo não é o presidente do centro, o médium famoso ou a palestrante badalada. Modelo, só o Cristo. Para mim, ele está de ótimo tamanho.

Que bom que João consegue ser muito dedicado ao movimento espírita! Que bom também que o casamento dele deu certo e que ele é bem sucedido em se desviar de hábitos que podem resultar em vícios! Deus o conserve assim! Ao mesmo tempo, ele não tem o direito de ficar se comparando com os companheiros de lida espírita. Ele não é impoluto. Ele não está acima de ninguém. Ele só é chato, sectário e arrogante com esse comportamento.

Se o verdadeiro espírita é aquele que se esforça para se melhorar, é bom deixar claro: todos nós estamos neste barco do esforço pessoal. E todos, incluindo João, estão sujeitos a altos e baixos.

Além disso, como estabelecer um parâmetro de comparação? Em que somos mais ou menos espíritas que esse ou aquele trabalhador do centro do qual fazemos parte? Não sejamos descaridosos. Cada um é espírita do jeito que pode e consegue. E nisso está o grande barato da doutrina espírita. Ela dá as coordenadas para que cada um trilhe o próprio caminho da forma que melhor lhe convier, desde que isso implique burilar a si mesmo, respeitar o próximo e contribuir para um mundo socialmente justo e equânime.

No entanto, João, o espiritão, ainda é comum de encontrar. Já deparei com vários. Desde o sujeito que ficou falando meses a fio do grupo, que foi a um congresso espírita na Europa e aproveitou a viagem pelo Velho Continente para degustar alguns vinhos, à dama que ficou escandalizada porque um dos jovens da mocidade – aluno de belas artes – havia conseguido um estágio como assistente de um conhecido carnavalesco do Rio de Janeiro. Isso sem falar dos que acham o fim da picada haver homossexuais fazendo palestra, evangelizando mocidade ou atuando em reuniões mediúnicas. É bom ter cuidado com o julgamento. No momento em que julgamos, abrimos um perigoso precedente para também sermos julgados, conforme alerta Jesus.

Certa vez, li algo muito interessante sobre o Super-homem, famoso super-herói norte-americano. Conta-se que, tão logo os gibis do Homem de Aço foram lançados, em meados do século 20, o sucesso foi imediato. Tempos depois, as vendas inexplicavelmente despencaram. A editora, então, encomendou uma pesquisa e descobriu o seguinte: os leitores estavam cansando do personagem. Motivo: perfeito demais, invencível demais; estava ficando sem graça. Foi então que surgiu a ideia de criar a kriptonita. Trata-se de fragmentos de rocha do planeta natal do herói – Kripton. A kriptonita tem o poder de tirar as forças do Super-homem, deixando-o frágil como qualquer um de nós.

Moral da história: não banque o perfeito, o espiritão. Muito menos o exemplo a ser seguido. Senão, mais dia, menos dia, a tua kriptonita aparece e você irá ao chão como ser humano imperfeito que é.

Sei de uma história muito boa, envolvendo um espiritão. No próximo artigo, eu conto. Até lá!

Marcelo Teixeira

Referências:
CAMPOS, Sônia. Celebrando o Evangelho segundo o espiritismo. Edição independente, 2015, Rio de Janeiro, RJ. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. 2ª edição, 8ª impressão, 2018, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.

O livro dos espíritos. 60ª edição, 1984, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF. MORRIS, Matt; MORRIS, Tom. Super-heróis e a filosofia – Verdade, justiça e o caminho socrático. Ed. Madras. 1ª Ed., 2006, São Paulo, SP.

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NA APRESENTAÇÃO DO NOSSO LAR

Por Orson Peter Carrara

Na página Novo Amigo, assinada por Emmanuel em 03 de outubro de 1943, no conhecido livro Nosso Lar, que já se transformou em filme, entre as valiosas considerações ali constantes, há uma frase marcante: “(…) Os que colhem as espigas maduras, não devem ofender os que plantam a distância, nem perturbar a lavoura verde, ainda sem flor (…)”.

O contexto da afirmação inclui situação específica do pseudônimo adotado pelo Espírito autor da obra em referência, muito própria das grandes almas que não se preocupam em identificar- se, mas sim com o objetivo de somar forças para o bem geral da coletividade. Sugiro mesmo ao leitor que busque a obra e leia a página de Emmanuel para empolgar-se com o raciocínio do conhecido benfeitor que assina a apresentação da obra.

O que ocorre é que somos ávidos e ansiosos por forçar que outros pensem como nós, entendam ou percebam como nós, mas o “acordar” é individual, devido a fatores variados, mas a fraterna advertência citada convida-nos a aguardar a percepção alheia, que não ocorre em nosso ritmo, como também ainda estamos cegos e distraídos com outras percepções já conquistadas por pessoas de nossa convivência.

O que já conquistamos, o que já percebemos, talvez não tenha ainda sido percebido ou conquistado por outros. Por isso não temos o direito de ofender, forçar ou perturbar o estágio em que se situa cada pessoa, embora possamos colaborar com isso na divulgação ou compartilhamento saudável de informações que possam beneficiar muita gente.

Muitos ainda plantam, outros já colhem, em todos os sentidos. Outros ainda talvez estejamos sem flor, em lavoura verde e outros já desfrutam dos resultados dos frutos maduros.

Estamos todos neste caminho de aprendizado, cada um em seu estágio próprio. Isso abre imensa perspectiva de análise e percepção, sofrendo e exercendo enorme influência sobre vários aspectos, que devem ser considerados. Amplie o assunto e pense comigo na força de expressão: “colhem espigas maduras” ou “lavoura verde ainda sem flor”.

Por Orson Peter Carrara
Fonte: Agenda Espírita Brasil

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RAZÃO DE VIVER

Divaldo Pereira Franco

No tumulto gigantesco destas horas de tempestade viral e moral, não poucos indivíduos estamos podendo manter uma diretriz de segurança que nos faculte uma existência harmônica.

As incomparáveis conquistas da inteligência em todas as áreas, especialmente na tecnologia de ponta, facultam-nos horizontes abençoados, concedendo-nos comodidades dantes jamais sonhadas, nada obstante, não equacionaram os desafios do sentimento, os problemas dos relacionamentos sociais e afetivos.

Prolongaram a vida física, abriram caminhos para realizações de beleza e divertimento, facilitaram o manejo dos instrumentos de trabalho, propuseram regras para a dignidade humana, trabalham para fazer desaparecer os preconceitos de qualquer procedência, diminuíram as distâncias e derrubaram algumas fronteiras…

Mas não foram suficientes para tornarem a sociedade mais feliz, eliminando os bolsões de intolerância e de ódio, os movimentos anarquistas e devastadores, as sublevações das massas esmagadas ante leis injustas e incapazes de trabalhar em favor do bem, tornando este um período de transição dolorosa, sem que se saiba quais as novas éticas que dignifiquem o indivíduo. Teorias rasteiras conclamam os descontentes a viverem o momento conforme suas necessidades, sem qualquer controle das emoções que visam apenas ao prazer, como se esse fosse a razão única de se viver.

Ao longo da cultura e da civilização, saímos do primarismo do instinto para os altos significados da emoção, e saturados de deveres e de prazeres, estamos sendo convocados a descer à vala das paixões servis e novamente nos afogarmos no paul dos tormentos.

A maioria das propostas sociológicas e filosóficas, não se levando em conta as dificuldades financeiras e as dificuldades para a conquista do trabalho edificante e honorável, traz o amargo conceito da rebelião contra Deus e os Seus missionários de amor que estiveram na Terra, vivendo e ensinando plenitude através do autoconhecimento e do mergulho nos arcanos originais da vida.

A rebelião busca destruir figuras de líderes honoráveis, a começar por Jesus Cristo, numa fúria assustadora, como se eles fossem os impedimentos para a libertinagem e a perversidade de todos os matizes.

O profano vem assumindo posturas de sagrado, enquanto este se transforma no responsável pelas misérias que desorganizam as criaturas.

Jamais uma proposta filosófica tendo por base o amor e o bem que se deve fazer ao próximo produz desarmonia nos delicados equipamentos mentais e emocionais do ser humano.

A História é um manancial de documentação a esse respeito. Ante o contubérnio extravagante e devastador das teorias destruidoras, seja o amor a nossa razão de viver.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 17.9.2020

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A chance à paz

9 de outubro:  John Winston Lennon.

Marcelo Henrique

All we are saying is give peace a chance
(Tudo o que eles dizem é dar à paz uma chance)
John Winston Lennon (1940-1980)

A paz continua sendo uma angustiante busca. Tanto a que se abriga dentro de nós, quanto a que ocupa nossos nichos de convivência pessoal, em ambientes múltiplos e, também, aquela que deve povoar o planeta azul.

Mas, os dias andam bem turvos. As polaridades – que é certo fazem parte da vida, diante da faculdade individual de pensar e decidir o que se quer, para si – estão bem acirradas e é muito difícil, praticamente em todos os setores e quadrantes da existência, diante das mais diferentes paixões ou preferências, conversar amistosamente.

Parece que vivemos um hiato de temperança e compreensão. Há tentativas, de todos os lados, de colonização de mentes, porque já não se pode mais escravizar corpos, prendendo-os por correntes pesadas, e o que resta, para os que querem impor suas convicções, é o bombardeio psíquico e a bravata.

Grita-se! E os gritos não são mais (tanto) orais, presenciais, que seriam estridentes mas ecoariam até desaparecer – porque até a reverberação do som tem fim, por princípios físicos – mas, são, do contrário, escritos, sobretudo os expressos nas redes sociais que aproximaram – e distanciaram – as pessoas.

É fato que o diálogo é uma ferramenta necessária, porquanto nenhum homem sobrevive apenas das suas (próprias) ideologias. Desde tempos imemoriais, ainda nômades e, depois, já sedentários, desenvolvendo os primeiros rudimentos da propriedade (privada) sobre terras, cavernas, cabanas ou palafitas, a dialética se fez entre os iguais e a persuasão, pelas capacidades cognitivas ou pela força física, cooptou colaboradores para as revoluções possíveis.

                “….A dialógica conduz à maiêutica, porque é necessário perquirir, questionar, provocar, buscar conhecer… Os maiores ícones da história não foram os que apresentaram respostas prontas, como bulas ou receitas para a felicidade, mas os que provocaram, nos homens, o desejo de sair de seus mundinhos, zonas de conforto e cascas protetivas, na direção do “algo mais”…..”

Não raro, estes personagens da História que merecem ser lembrados e cujos exemplos – mais do que as meras palavras ditas ou escritas – são diretrizes ou rotas, todos se caracteriza(ra)m por questionar seus interlocutores, propor a escolha entre várias alternativas possíveis e direcionar cada ser ao autoexame e à caminhada por suas próprias pernas.

Vamos lembrar, neste 9 de outubro, de um dos maiores compositores e cantores que se materializou nesta Terra: John Winston Lennon que, vivo fosse, estaria completando 80 primaveras (pois esta é a estação deste mês).

Música, aliás, que foi o seu principal megafone para influenciar gerações. Aos 15, o adolescente, que já crescera no contato com as palavras cruzadas, a música e a literatura, e tocava banjo, ouvindo os discos de Elvis Presley, ganhou seu primeiro instrumento. Com ela e o baixo de Paul, e mais dois amigos, criaram The Quarrymen.

Depois, ele e John mais George e Stuart foram os “quatro fantásticos”, ainda que este último tivesse ficado pouco, sendo substituído por Ringo. Os Fab4, The Beatles, fizeram a maior banda de rock do planeta. Referindo-se ao conjunto, no início da década de 60, Lennon disse que os besouros canoros de Liverpool eram mais populares que Jesus de Nazaré, naqueles dias. Talvez tenham sido mesmo naquele “flash” do tempo infinito, dada a amplitude de suas canções e, mais do que isso, o conteúdo de muitas de suas letras.

O quarteto inglês, aliás, vaticinou: Tudo do que precisamos é o amor (“All you need is love”, 1967) e o amor que você recebe é igual ao que você dá (“The end”, 1969). Neste ponto, entendemos, Lennon & McCartney reproduzem Yeshua, porque a mensagem deste último sempre foi relacionada (e direcionada) ao amor.

                   “….Mas muitos falam de Jesus e não agem como Jesus. Então, em 1966, no auge da banda, John afirmou sem qualquer peso na consciência e, de fato, separando o “Cristianismo do Cristo e o de seus vigários” – título, aliás, de um livro que ressalta as diferenças entre a mensagem originária do homem Jesus e as prédicas das religiões instituídas em “seu nome”, nestes termos: “O cristianismo irá embora. Vai desaparecer e encolher. Eu não preciso discutir sobre isso; eu estou certo e ficará provado que estou certo. Somos mais populares que Jesus agora. Eu não sei quem vai acabar primeiro, o rock’n roll ou o cristianismo. Jesus era legal, mas seus discípulos são grossos e medíocres. São eles distorcendo isso o que estraga, pra mim”….”

O homem que ousou IMAGINAR não haver nem Céu nem Inferno, nem as distinções relativas à pátria; nenhum motivo (para matar ou morrer) e nenhuma religião. Não haverem posses e, por isso, ganância ou fome forem inexistentes. Todos vivendo o presente, compartilhando o mundo e gozando a vida em paz (“Imagine”, 1971).

E, ainda, houve tempo para, nesta canção, ele afirmar e convidar os demais que sonhassem um mundo assim. Porque ele não era o único!

Lennon esteve bem pouco entre nós, já que um fanático religioso que o fulminou em frente ao apartamento em que vivia em Nova Iorque, declarando que, de fã dos trabalhos desde os The Beatles, havia se indignado contra afirmações do cantor sobre Deus e a religião. Quarenta anos, apenas!

Ativista político e “embaixador” da paz, afirmou: “Nossa sociedade é controlada por pessoas insanas com objetivos insanos. Acho que estamos sendo administrados por maníacos para fins maníacos e acho que sou passível de ser colocado como louco por expressar isso. Isto que é insano sobre a situação”.

                 “….. O grande contributo de John para a contemporaneidade está correlacionado à sua crença – e afirmação, em suas falas e músicas – que o poder do povo será capaz de mudar o mundo, dentro da ideia de corresponsabilidade para a edificação de cenários sociais mais favoráveis, igualitários e progressistas…..”

Ele repetia sempre que não deveríamos apenas ser pessimistas, achando que o planeta estava cada vez pior. O planeta são as pessoas e estas apenas repetem os mesmos erros, para ele.

Por detrás de seus inconfundíveis óculos arredondados (“afinal, o que é rock-n roll? os óculos de John e o olhar do Paul – comporia e cantaria Humberto Gessinger, Engenheiros do Hawaii), a paz sempre foi a obsessiva luta do poeta inglês, que asseverou: “Todos falam de paz, mas ninguém faz nada por ela. A paz só pode ser atingida com métodos pacíficos. Combater o sistema com armas é errado. Eles são milhares e ganhariam sempre”.

Num autorretrato, Lennon se imaginava um palhaço. Gostava de rir, abundantemente e fazer rir. A esse respeito, Elton John, outro dos maiores músicos de 1960 para cá, muito próximo do cantor e dos demais besouros, disse que amava estar com John justamente pela incrível capacidade dele em fazer os outros rirem e se divertirem. Foi, aliás, eleito pelos críticos americanos da música como o “Palhaço do Ano”. O beatle riu disto também e concordou, criticamente: “Somos humoristas. Todas as pessoas sérias, como Kennedy, Luther King e Gandhi foram assassinadas. Queremos ser os palhaços do mundo”.

Que ironia, não! Ao que parece, o levaram a sério e o colocaram neste panteão, naquele 8 de dezembro de 1980, com quatro balas à queima-roupa…

O anseio pela paz, todavia, não morreu! Será que daremos chance a ela

Marcelo Henrique

Fonte: Nova Era

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