A omissão e as suas consequências espirituais

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Toda criatura humana retorna à ribalta da vida material carregando em seu átrio um conjunto de metas a cumprir, isto é, fracassos e desajustes a reparar, virtudes e capacitações a desenvolver, aprendizados para aperfeiçoar o comportamento e os sentimentos, lições de vida para assimilar e situações de testemunho, que aferirão, por fim, o seu real progresso espiritual. As experiências redentoras serão mais ou menos acentuadas a depender dos seus compromissos e débitos perante as leis divinas.

Nesse sentido, cada um de nós tem a sua própria história de erros e desacertos. E por não termos alcançado a necessária elevação, tropeçamos, não raro, em nossas imperfeições e defeitos milenares.

No decorrer da vida, a maioria das pessoas tende a internalizar o dever de não praticar o mal e realizar o bem. Ocorre que, entre esses dois extremos, há um estágio intermediário representado pela omissão comportamental. Trata-se de uma postura igualmente comprometedora à evolução das criaturas, embora muito praticada, conforme atestam as evidências. Aliás, cabe destacar que muitas atrocidades foram cometidas ao longo da trajetória humana devido à omissão dos atores envolvidos. O próprio Jesus, nas horas mais pungentes do seu messianato, sentiu-a através do abandono dos seus seguidores e beneficiados.

O assunto merece profunda reflexão, já que vivemos num mundo onde a noção do bem não foi devidamente instalada não apenas por causa da prevalência do mal, mas também pela nossa omissão em sufocá-lo. Allan Kardec explorou o tema na questão 642 d’O Livro dos Espíritos ao indagar as entidades espirituais o seguinte: “Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal? Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem”. Notem que a neutralidade aqui em nada contribuí para o bem-estar espiritual do indivíduo claudicante.

O assunto é retomado na obra O Céu e o Inferno no trecho: “[…] Não fazer o bem quando podemos é, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre”. Segue daí, portanto, que a ausência de atitudes concretas na direção do bem provoca consideráveis infortúnios ao Espírito tergiversante. Assim sendo, consoante a conclusão do Codificador, “A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra — tal é a lei da Justiça divina”.

Quando olhamos a abundante imperfeição presente nas instituições, nos governos, nos ambientes de trabalho, no funcionamento das sociedades e sobretudo nas relações humanas, identificamos também que o imperativo do bem não é uma prioridade. Infelizmente, deixamos de praticá-lo em situações e contextos onde a nossa boa vontade e empatia são altamente requeridas. Não cogitamos que pequenas ações e iniciativas de nossa parte poderiam ser implementadas, o que certamente redundariam em benefícios aos nossos semelhantes. Com efeito, o nosso engajamento em fazer o bem, além de ajudar em nossa própria autoiluminação, atenua as agruras dos nossos irmãos. Desse modo, evitar a prática maléfica constitui apenas um dos nossos desafios. Mas não é suficiente à nossa evolução.

Por isso, alerta-nos com propriedade o Espírito Emmanuel, no livro Justiça Divina (psicografia de Francisco Cândido Xavier):

“Asseveras não haver praticado o mal; contudo, reflete no bem que deixaste a distância.

“Não permitas que a omissão se erija em teu caminho, por chaga irremediável.

“Imagina-te à frente do amigo necessitado a quem podes favorecer.

“Não te detenhas a examinar processos de auxílio.

“[…]

“Não percas a divina oportunidade de estender a alegria.

“[…]

“Faze, em cada minuto, o melhor que puderes.”

Contudo, deixamos de fazer por inúmeras razões – até por pura indiferença, ou casuísmo – coisas boas e positivas que, em muitas ocasiões, estão ao nosso alcance e não exigem nenhum grande esforço de nossa parte em realiza-las. Mais ainda: não percebemos que elas poderiam aliviar a cruz dos nossos irmãos de jornada. Desperdiçamos, devido à nossa incúria e imaturidade espiritual, oportunidades excepcionais de fazer brilhar a nossa luz através dos sublimes mecanismos da solidariedade, compaixão e boa-fé. Não cogitamos que nessas ocasiões estamos sendo efetivamente testados pela providência divina. Não lembramos – muito menos deduzimos – que concordamos em assumir e executar tarefas benéficas em prol dos outros. No entanto, diante da oportunidade sagrada normalmente fracassamos. Lamentavelmente, o comportamento omisso continua causando consideráveis aflições em nosso mundo.

O Espírito Joanna de Ângelis, na obra Celeiro de Bênçãos (psicografia de Divaldo Pereira Franco), faz observações contundentes a respeito. Por exemplo, a elevada entidade afirma que “A omissão, no entanto, é responsável pelo desmoronamento de ideais enobrecedores com que a Humanidade sempre foi contemplada, porquanto estimula a desordem, no silêncio conivente; açula a ira, pela morbidez que dissemina; favorece a fuga dos dubitativos que se resolvem pela atitude mais fácil. Omissão, é, também, ausência de firmeza de caráter, covardia moral”.

Para ela ainda, “O cristão omisso é alguém em vias de decomposição emocional, que está em processo de morte sem o perceber. Desse modo, constrói sempre e convictamente o bem em toda parte, comunicando entusiasmo e otimismo, descobrindo, por fim, que o contágio do amor e da esperança…”

Por outro lado, é comum nos queixarmos dos problemas e obstáculos que surgem desafortunadamente em nosso caminho. São experiências – perfeitamente evitáveis, em muitos casos – sofríveis que adicionam mais transtorno às nossas vidas. Sendo essa a realidade, meditemos se, de nossa parte, também nós contribuímos para isso devido à nossa omissão e silêncio diante das coisas erradas. Vivendo num mundo onde a imperfeição tudo abarca, podemos, pelo menos em nossa esfera de ação, averiguar se o comportamento omisso ainda nos inspira. Com efeito, chegar no plano espiritual carregando tal passivo só nos fará mal.

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Fonte: Espiritismo na Rede

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Parentes Complexos

Meimei

Parece questão simples, mas não é: os parentes complexos.

Discutimos, deblateramos no assunto.

Entretanto, exceção feita aos portadores de moléstias congênitas, somente erradicáveis nos tratamentos da reencarnação, se encontramos um parente difícil, a verdade é que também seremos para ele um parente difícil, pelo menos, durante o período de tempo, em que se nos perdure o desacordo.

Conservemos serenidade e paciência, a frente dos familiares que se nos mostrem irritadiços ou intolerantes.

Quem de nós na Terra, não terá tido determinados momentos de perplexidade ou inquietação?

O olhar amargurado de um pai ou um semblante materno toldado de tristeza, talvez nos escondam graves preocupações para que não nos faltem reconforto e alegria.

O irmão desorientado, a irmã queixosa, o esposo que se patenteie acabrunhado ou a esposa que se revele fatigada e abatida, terão motivos para isso, tanto quanto, mantínhamos as nossas razões para enfado ou aborrecimento, quando no estágio terrestre.

Saibamos respeitar sempre os entes queridos, notadamente quando atravessam tempestades na vida íntima, cujas minudências não nos será lícito investigar. Esperemos que saibam vencer por si mesmos as tribulações que os visitam, evitando os interrogatórios indesejáveis e as perguntas fora de tempo, que estimaríamos dispensar igualmente se estivéssemos no lugar deles.

Compreendamos que, no mundo físico, bastas vezes, somos impelidos a seguir adiante, através de veredas empedradas, em benefício de nossas próprias experiências. E, sobretudo, estejamos convencidos de que não teremos parentes-enigmas e nem seremos familiares-problemas para ninguém se cultivarmos a paz e se tivermos amor.

Meimei, do livro Esperança e Vida de Chico Xavier e Carlos A. Bacelli.

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Paulo e Tiago: A Ética da Alteridade

Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como o Cristo vos perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que é o vínculo da perfeição.” Cl 3,13-14

Uma séria crise abateu-se sobre o movimento cristão dos primeiros dias. Tiago e vários seguidores eram partidários da circuncisão apoiados na lei mosaica, enquanto Paulo e outros defendiam a total independência do Evangelho.

A circuncisão era um rito exterior, um “sinal de pacto”, a ser posto em todos os descendentes masculinos de Abraão, a fim de ficar como memorial da Aliança que Yahweh, assim, estabelecia com seu povo. Significava um compromisso tanto com o povo de Israel, como com o próprio Deus de Israel. Rejeitar a circuncisão resultava em ser “expulso” do seu povo (Gn 17,10-14). Os estrangeiros que desejassem entrar na comunhão com o povo de Israel e com o seu Deus, bem como celebrar a Páscoa e participar de outras bênçãos, tinham de submeter-se a este rito, a circuncisão, qualquer que fosse a sua idade (Gn 34,14-17, 22; Ex 12,48). A circuncisão foi tornada um requisito obrigatório da lei mosaica. “E, no oitavo dia, se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio” (Lv 12,13). Isso era tão importante que, se o oitavo dia caísse no altamente respeitado Sábado, ainda assim se devia realizar a circuncisão (Jo 7, 22-23). João Batista, Jesus e Paulo foram circuncidados ao “oitavo dia” (Lc 1,59; 2,21; Fl 3,5).

Paulo compreendeu a questão com rara profundidade e manteve viva preocupação, observando as polêmicas que surgiam em torno desse assunto, bem como dos alimentos puros e impuros, e a determinação dos judeus cristãos de não se sentarem à mesa de refeições comuns com os cristãos gregos, nem frequentar-lhes os lares. Como ele temia, o problema ameaçava de ruptura a comunidade cristã e colocava em perigo o trabalho que vinha realizando entre os gentios. (1)

Os irmãos de Jerusalém, que nunca tinham saído de sua terra e não compreendiam a situação dos gentios, não consideravam os conversos do gentilismo como verdadeiros cristãos, afirmando que não poderiam ter sido aceitos sem antes admitir a lei mosaica.

Essa questão não preocupava os judeus convertidos, tampouco os prosélitos (2) convertidos. Entretanto, na comunidade de Antioquia, que era constituída, em sua grande maioria, por cristãos com origem no paganismo (3), cujos laços com o judaísmo eram muito fracos, surgiam sérias dificuldades.

Jesus prometera aperfeiçoar a Lei – Para estes, sujeitarem-se ao rito da circuncisão ou à ritualística da lei mosaica constituía-se em fardo inaceitável, reduzindo a experiência da liberdade cristã à estreiteza da sinagoga e negando a universalidade da mensagem de salvação de Jesus.

Havia por trás de tudo isso um grave e duplo problema, um de cunho religioso, outro de caráter social. Se continuasse assim, teríamos cristãos de primeira classe ou cristãos inteiros e meio-cristãos, criando no cristianismo nascente dois agrupamentos: um interior e outro exterior. A visão judaizante, concentrada em Jerusalém e liderada por Tiago, afirmava que Jesus nascera sob a Lei de Moisés, e que dissera não ter vindo anulá-la, mas dar-lhe cumprimento, assim como afirmara que ela se cumpriria até o último til e o último iota (4) (Mt 5, 17-18).

Esqueciam-se de que Jesus havia prometido aperfeiçoar a Lei e que em muitas passagens expressou-se assim: “Os antigos diziam… mas eu vos digo” (Mt 5, 21-22; Jo 8).

Emmanuel resgata e aclara esses momentos na sua magnífica obra Paulo e Estêvão, apresentando-nos no capítulo V – Lutas pelo Evangelho – as discussões mais críticas e decisivas, as quais nos trazem excelente material de reflexão e aprendizado a nós que buscamos estar preparados para os episódios de crise que ocorrem em nossas vidas e mesmo no seio das instituições espíritas, entre seus trabalhadores.

“As reuniões espíritas oferecem grandíssimas vantagens, por permitirem que os que nela tomam parte se esclareçam, mediante a permuta de ideias, pelas questões e observações que se façam, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos os frutos desejáveis, requerem condições especiais, que vamos examinar, porquanto erraria quem as comparasse às reuniões ordinárias.” (O Livro dos Médiuns – cap. XXIX – item 324.)

A proposta destes apontamentos simples é identificarmos nos embates entre os pensamentos de Tiago e Paulo, com a mediação de Simão Pedro, a ética da alteridade.

Ética, segundo o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, é o conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta humana; estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal.

O desafio de conviver com quem pensa diferente – Alteridade é a qualidade ou natureza do que é outro, diferente. Podemos entender que alteridade é colocar-se no lugar do outro numa relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação, e dialogar com o outro. O exercício da alteridade se aplica aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos etc. Portanto, o estabelecimento de uma relação de paz com os diferentes, a capacidade de conviver bem com a diferença da qual o outro é portador, isso é a ética da alteridade.

A prática da alteridade conduz da diferença à soma nas relações interpessoais entre os seres humanos.

Alteridade é uma palavra que vem ganhando uso acentuado nos meios sociais do século XXI, entretanto a palavra em si não serve para nada, se não for acompanhada da prática.

“Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?” (Mt 5, 46-47 – O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XII – item 1.)

O desafio de conviver com os que pensam diferente de nós, com os contrários, e aprender a respeitá-los e amá-los na sua diversidade, constitui, ainda e significativamente, um desafio ético nos centros espíritas e para seus dirigentes e colaboradores.

Para isso não precisamos desistir de nossa visão e de defendê-la, como vemos em Paulo e Estêvão, na página 471, durante a discussão de Barnabé e Paulo:

“O ambiente carregara-se de nervosismo. Os gentios de Antioquia fitavam o orador, enternecidos e gratos. Os simpatizantes do farisaísmo, ao contrário, não es­condiam seu rancor, em face daquela coragem quase audaciosa. Nesse instante, de olhos inflamados por sen­timentos indefiníveis, Barnabé tomou a palavra, enquanto o orador fazia uma pausa, e considerou:

— Paulo, sou dos que lamentam tua atitude neste passo. Com que direito poderás atacar a vida pura do continuador de Cristo Jesus?”

A palestra do ex-rabino era rude e franca – “Isso, inquiria-o ele em tom altamente comovedor, com a voz embargada de lágrimas. Paulo e Pedro eram os seus melhores e mais caros amigos.

Longe de se impressionar com a pergunta, o orador respondeu com a mesma franqueza:

— Temos, sim, um direito: — o de viver com a verdade, o de abominar a hipocrisia, e, o que é mais sagrado — o de salvar o nome de Simão das arremetidas farisaicas, cujas sinuosidades conheço, por constituírem o báratro escuro de onde pude sair para as claridades do Evangelho da redenção.

A palestra do ex-rabino continuou rude e franca. De quando em quando, Barnabé surgia com um aparte, tornando a contenda mais renhida.

Entretanto, em todo o curso da discussão, a figura de Pedro era a mais impressionante pela augusta sere­nidade do semblante tranquilo.”

As diferenças entre os posicionamentos não devem ser, necessariamente, rotuladas de defeitos ou servirem de referências para causar a indiferença ou a separação, somente porque não compreendemos as escolhas e a trajetória do outro, o que certamente conseguiremos equacionar melhor ao adquirirmos a ética da alteridade.

Pela relação alteritária é possível estabelecer uma relação pacífica e construtiva com os diferentes, na medida em que se identifique, entenda e aprenda a aprender com o contrário.

Para que o processo de aprendizado da alteridade aconteça, contudo, devemos atentar para alguns aspectos das diferenças:

a) Identificação – para isso devemos eliminar quaisquer preconceitos e ater-nos na real identificação dos posicionamentos do outro, sabendo que dependem da sua estrutura psíquica, formada ao longo das múltiplas experiências desta e de outras vidas;

b) Entendimento – procurarmos entender as razões conscientes e, até mesmo, as inconscientes (medos, anseios e motivações), para que não façamos avaliações superficiais ou definitivas e fechadas, que nos impeçam de ampliar a compreensão da postura do outro e da diferença identificada;

c) Aprendizado – esta fase permite-nos a acessibilidade mútua, a receptividade aos sentimentos do outro, facultando-nos uma relação de aprendizado e a aproximação pelos aspectos que nos unem, permitindo que o esclarecimento e o amadurecimento pelas experiências vividas ao longo do tempo tragam–nos a sabedoria.

Pedro tinha diante de si um dilema difícil – Podemos aprender muito sobre a identificação das diferenças neste relato de Emmanuel sobre os pensamentos de Simão Pedro:

“Naqueles rápidos instantes, o Apóstolo galileu con­siderou a sublimidade da sua tarefa no campo de batalha espiritual, pelas vitórias do Evangelho. De um lado es­tava Tiago, cumprindo elevada missão junto do judaísmo; de suas atitudes conservadoras surgiam incidentes felizes para a manutenção da igreja de Jerusalém, erguida como um ponto inicial para a cristianização do mundo; de outro lado estava a figura poderosa de Paulo, o amigo desassombrado dos gentios, na execução de uma ta­refa sublime; de seus atos heroicos derivava toda uma torrente de iluminação para os povos idólatras. Qual o maior a seus olhos de companheiro que convivera com o Mestre e dele recebera as mais altas lições? Naquela hora, o ex-pescador rogou a Jesus lhe concedesse a inspiração necessária para a fiel observância dos seus deveres.”

Pedro também ajuda-nos na experiência do entendimento do outro:

“Era preciso ser justo, sem parcialidade ou falsa inclinação, O Mestre amara a todos, indistintamente. Repartira os bens eternos com todas as criaturas. Ao seu olhar compassivo e magnânimo, gentios e judeus eram irmãos. Experimentava, agora, singular acuidade para examinar conscienciosamente as circunstâncias. Devia amar a Tiago pelo seu cuidado generoso com os israeli­tas, bem como a Paulo de Tarso pela sua dedicação extraordinária a todos quantos não conheciam a ideia do Deus justo.

O ex-pescador de Cafarnaum notou que a maioria da assembleia lhe dirigia curiosos olhares. Os compa­nheiros de Jerusalém deixavam perceber cólera íntima, na extrema palidez do rosto. Todos pareciam convocá-lo à discussão. Barnabé tinha os olhos vermelhos de chorar e Paulo parecia cada vez mais franco, verberando a hipocrisia com a sua lógica fulminante. O Apóstolo preferiria o silêncio, de modo a não perturbar a fé ardente de quantos se arrebanhavam na igreja sob as luzes do Evangelho; mediu a extensão da sua respon­sabilidade naquele minuto inesquecível. Encolerizar-se seria negar os valores do Cristo e perder suas obras; inclinar-se para Tiago seria a parcialidade; dar abso­luta razão aos argumentos de Paulo não seria justo. Procurou arregimentar na mente os ensinamentos do Mestre e lembrou a inolvidável sentença: — o que dese­jasse ser o maior fosse o servo de todos. Esse pre­ceito proporcionou-lhe imenso consolo e grande força espiritual.”

Pedro então se levantou e pediu a palavra – O aprendizado da alteridade demonstrado por Pedro, ao longo dos anos, foi determinante para o equacionamento da questão fundamental:

“Quando o ex-pescador reconheceu que as divergên­cias prosseguiriam indefinidamente, levantou-se e pediu a palavra, fazendo a generosa e sábia exortação de que os Atos dos Apóstolos (capítulo 15º, versículos 7 e 11) fornecem notícia:

— Irmãos — começou Pedro, enérgico e sereno —, bem sabeis que, de há muito, Deus nos elegeu para que os gentios ouvissem as verdades do Evangelho e cressem no seu Reino.

O Pai, que conhece os corações, deu aos circuncisos e aos incircuncisos a palavra do Espírito Santo. No dia glorioso do Pentecostes as vozes falaram na praça pública de Jerusalém, para os filhos de Israel e dos pagãos. O Todo-Poderoso determinou que as verdades fossem anunciadas indistintamente. Jesus afirmou que os cooperadores do Reino chegariam do Oriente e do Ocidente. Não compreendo tantas contro­vérsias, quando a situação é tão clara aos nossos olhos.

O Mestre exemplificou a necessidade de harmonização constante: palestrava com os doutores do Templo; fre­quentava a casa dos publicanos; tinha expressão de bom ânimo para todos os que se baldavam de esperança; aceitou o derradeiro suplício entre os ladrões. Por que motivo devemos guardar uma pretensão de isolamento daqueles que experimentam a necessidade maior? Outro argumento que não deveremos esquecer é o da chegada do Evangelho ao mundo, quando já possuíamos a Lei. Se o Mestre no-lo trouxe, amorosamente, com os mais pesados sacrifícios, seria justo enclausurarmo-nos nas tradições convencionais, esquecendo o campo de trabalho? Não mandou o Cristo que pregássemos a Boa Nova a todas as nações? Claro que não poderemos desprezar o patrimônio dos israelitas. Temos de amar nos filhos da Lei, que somos nós, a expressão de profundos sofrimentos e de elevadas experiências que nos chegam ao coração através de quantos precederam o Cristo, na tarefa mi­lenária de preservar a fé no Deus único; mas esse reco­nhecimento deve inclinar nossa alma para o esforço na redenção de todas as criaturas.”

A alteridade nos ensina a tratar bem a todos – “Abandonar o gentio à própria sorte seria criar duro cativeiro, ao invés de pra­ticar aquele amor que apaga todos os pecados. É pelo fato de muito compreendermos os judeus e de muito esti­marmos os preceitos divinos, que precisamos estabelecer a melhor fraternidade com o gentio, convertendo-o em elemento de frutificação divina. Cremos que Deus nos purifica o coração pela fé e não pelas ordenanças do mundo. Se hoje rendemos graças pelo triunfo glorioso do Evangelho, que instituiu a nossa liberdade, como impor aos novos discípulos um jugo que, intimamente, não podemos suportar? Suponho, então, que a circuncisão não deva constituir ato obrigatório para quantos se con­vertam ao amor de Jesus-Cristo, e creio que só nos sal­varemos pelo favor divino do Mestre, estendido genero­samente a nós e a eles também.”

Podemos aprender muito com esses embates entre Paulo e Tiago nas “Lutas pelo Evangelho” e, principalmente, com a segura e experiente liderança de Simão Pedro.

“A exortação do ex-pescador dava margem a nume­rosas interpretações; se falava no respeito amoroso aos judeus, referia-se também a um jugo que não podia suportar. Ninguém, todavia, ousou negar-lhe a prudên­cia e bom senso indubitáveis. (…) Havia em tudo, agora, uma nota de satisfação geral. As observações de Pedro calaram fundo em todos os companheiros.”

Não nos esqueçamos de que não temos mérito nenhum em tratar bem a quem nos trata bem também, mas sim em tratar bem a quem não nos trata bem. Pela relação de alteridade é possível tratarmos bem a todos, independentemente de como nos tratam. O crescimento é eminente quando lidamos com aqueles que pensam, sentem e agem diferentemente da gente, numa relação alteritária.

Somente atingiremos a alteridade se nos dispusermos a, diante do diferente, parar, olhar, ouvir com atenção, ponderar com calma e, somente, após isso, agir com equilíbrio e determinação, sempre apoiados no bom senso e na fé raciocinada à luz do Consolador Prometido.

ANTONIO AUGUSTO NASCIMENTO

Fonte: Espiritismo na Rede

Notas:

(1) Gentios: povos ou nações não israelitas.

(2) Prosélito: converso, isto é, alguém que abraçou o judaísmo, sendo circuncidado, se homem.

(3) Paganismo: é um termo geral, normalmente usado para se referir a tradições religiosas politeístas.

(4) Iota: é a nona letra do alfabeto grego.

Fontes:

XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 36.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 112. ed. Rio [de Janeiro]:FEB, 1996. cap. III – item 2.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. – ed. 112. ed. Rio [de Janeiro]:FEB,. cap. XXIX. item 324.

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Espíritas não praticantes?

“Nem todos os que me dizem. Senhor! Senhor! Entrará no reino dos céus”. (MATEUS, 7:21-23) – O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. XVIII, Item 6

Que conceito afinal devemos ter sobre “ser espírita”? Será coerente e proveitoso admitimos, junto aos roteiros educativos da Doutrina Espírita, a figura tradicional do “religioso não praticante”?

Será que devemos oficializar essa expressão a fim de prestigiar aqueles que ainda não se julgam espíritas? Essas são mais algumas indagações a cogitar na formação de uma ideia mais lúcida sobre a natureza da proposta educativa do Espiritismo para a humanidade.

Ouve-se, com certa frequência nos ambientes doutrinárias, algumas frases que expressam dúbias interpretações sobre o que seja “ser espírita”. Companheiros que ainda não se sentem devidamente ajustados aos parâmetros propostos pelos roteiros da codificação dizem: “ainda não sou espírita, estou tentando”, outros, desejosos em amealhar algum crédito de aceitação nos grupos, dizem: “quem sou eu para ser espírita?”, “Quem sabe um dia serei!”.

Com todo respeito a quaisquer formas de manifestar sobre o assunto, não podemos deixar de alertar que somente uma incoerência de conceitos pode ensejar ideias dessa natureza, agravadas pela possibilidade de estarmos prestigiando o indesejável perfil do “ativista não praticante”, aquele que adere a filosofia mas não assume em si mesmo os compromissos que ela propõe.

“Ser espírita” é algo muito dinâmico e pluridimensional; tentar enquadrar esse conceito em padrões rígidos é repetir velhos procedimentos das práticas exteriores do religiosismo milenar. Nossas vivências nesse setor levaram-nos a adotar, como “critério de validade”, alguns parâmetros muito vagos e dogmáticos para aferir quem seria verdadeiramente seguidor do bem e da mensagem do Cristo. Parâmetros com os quais, procuramos fugir das responsabilidades através da criação de artifícios para a consciência, gerando facilidades de toda espécie através de rituais e cerimônias que entronizaram o menor esforço nos caminhos da espiritualização humana.

Ser espírita é ser melhor hoje do que ontem, e buscar amanhã ser melhor do que hoje, é errar menos e acertar mais, é esforçar pelo domínio das mais inclinações e transformar-se moralmente, conforme destaca Kardec. Nessa ótica, temos que admitir uma classificação muitíssimo maleável para considerar quem é e quem não é espírita.

Façamos assim algumas reflexões puramente didáticas sobre esse tema, sem qualquer pretensão de concluí-lo, mas com intenção cristalina de “problematizar” nossos debates fraternos. Tornemos por base o tema da transformação íntima, o qual deve sempre se a referência prioritária na melhor assimilação do que propôs a finalidade do Espiritismo.

Em primeira etapa, a criatura chega à casa espírita. Em uma segunda etapa, o conhecimento doutrinário penetra os meandros da inteligência, e na terceira fase, a mais significativa, o Espiritismo brota de dentro dela para espraiar-se no meio onde atua, gerando crescimento e progresso. São três etapas naturais que obedecem ao espírito de sequência da qual ninguém escapa. Fases para as quais jamais poderemos definir critérios de tempo e expectativa para alguém, a não ser para nós próprios. Fases que geram responsabilidades a cada instante de contato com as verdades imortais, mas que são determinadas, única e exclusivamente, pela consciência individual, não sendo prudente estabelecer o que se espera desse ou daquele coração, porque cada qual enfrentará lutas muito diversificadas nos campos da vida interior.

Portanto, o critério moral deve preponderar a qualquer noção pela qual essa ou aquela pessoa utilize para se considerar espírita. Nessa ótica encontramos “o espírito da ação”, aquele batalhador, tarefeiro, doador de bênçãos, estudioso, que movimenta em torno das práticas. Temos também o “espírito da reação”, aquele que reage de modo renovado aos testes da vida em razão de estar aplicando-se afanosamente à melhoria de si mesmo sem desejar criar rótulos e limitação indesejáveis, digamos que o primeiro está conectado com o movimento espírita, enquanto o segundo com a mensagem espírita. O movimento é a ação dos homens na comunidade, enquanto a mensagem é a essência daquilo que podemos fazer para a intimidade a partir dessa movimentação com o meio. O ideal é que, através da “escola” da ação do bem, se consolide o aprendizado das reações harmonizadas na formação da personalidade ajustada com a lei natural do amor.

O espírita não é reconhecido somente nos instantes em que encanta a multidão com a sua fala ou quando arrecada gêneros na campanha do quilo, ou ainda por sua lavra inspirada na divulgação, ou mesmo pela tarefa de direção. Essas são ações espíritas salutares e preparatórias para o desenvolvimento de valores na alma, mas o serviço transformador do campo íntimo, que qualifica o perfil moral do autêntico espírita, é medido pelo modo de reagir a circunstâncias da existência pelo qual testemunha a intensidade dos esforços renovadores de progresso e crescimento a que se tem ajustado.

Pelas reações mensuramos se estamos ou não assimilando no mundo íntimo as lições preciosas da espiritualização. A ação avalia nossas disposições periféricas da melhoria, todavia somente as reações são resultados das mudanças profundas que, somente em situações adversas ou na convivência com os contrários, temos como aquilatar em que níveis se encontram.

Melhor seria que não aderíssemos à ideia incoerente do espírita não praticante para não estimular as fantasias do menor esforço que ainda são fortes tendências em nossas vivências espirituais. A definição por um posicionamento transparente nessa questão será uma forma de estimular nossa caminhada. Razão pela qual devemos ser claros e sem subterfúgios ao declarar nossa posição frente aos imperativos da vivência espírita. A costumeira expressão: “estou tentando ser espírita” na maioria das ocasiões, é mecanismo psicológico de fuga da responsabilidade, é a criatura que sabe que não está fazendo tanto que deveria, conforme seus ditames conscienciais, se justificando perante si mesmo e aos outros.

Libertemo-nos das capas e máscaras e cultivemos nas agremiações kardequianas o mais límpido diálogo sobre nossas necessidades e qualidades nas lutas pelo aperfeiçoamento. Formaremos assim uma “corrente de autenticidade e luz” que se reverterá em rigorosa fonte de estímulo e consolo às angústias do crescimento espiritual.

Deixemos de lado essa necessidade insensata de definirmos conceitos estreitos e “padrões engessados” que não auxiliam a sermos melhores do que somos. Aceitemos nossas imperfeições e devotemo-nos com sinceridade e equilíbrio ao processo renovador. Estejamos convictos de um ponto em matéria de melhoria espiritual: só faremos e seremos aquilo que conseguimos, nem mais nem menos. O importante é que sejamos o que somos, sem a necessidade injustificável de ficar criando rótulos para nossos estilos ou formas de ser.

Certamente em razão disso o baluarte dos gentios asseverou em sua carta aos Coríntios, capítulo 15, versículo 9 e 10:

“Não sou digno de ser chamado apóstolo, mas pela graça de Deus, já sou o que sou”.

Ermance Dufaux por Wandenley S. Oliveira do livro:  Reforma Íntima sem Martírio

Fonte: Espiritismo na Rede

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ENERGIA – A consciência escolhe!

Milton Moura

A ciência tem dificuldade em definir a energia. A visão mecanicista que confere o caráter de máquina ao ser humano diz que tudo é máquina. “O corpo é uma máquina! A mente é uma máquina! A alma é uma máquina!” (Jacque Monod) – eminente Prêmio Nobel. Pois bem, como podemos entender a energia acreditando apenas em um “fantasma” dentro de uma máquina? A palavra “energia” aponta para muito além dela mesma. Não precisamos nos identificar com o “rótulo” que a palavra tenta representar. A energia é muito mais que aquilo que tentamos explicar sobre ela. Em termos matemáticos, a energia sempre estará sendo definida segundo outros parâmetros. A mais importante de todos os tempos sem dúvida é a tão conhecida expressão: E = m.c2. Energia é o produto da massa pela velocidade da luz ao quadrado. Nesse exemplo, energia é um “ente” observável que depende de outros “entes”. No caso, energia depende da massa e da velocidade da luz. Vejamos o que outro eminente físico tem a dizer sobre a questão: “É importante perceber que, na física atual, não temos o conhecimento do que é energia. Entretanto existem fórmulas para calcular certas quantidades numéricas. É algo abstrato no sentido que não nos informa o mecanismo ou a razão para as várias fórmulas” (Richard Feynman). Energia seria uma certa abstração matemática que não tem existência fora da relação funcional com outras variáveis ou coordenadas, que de fato tem interpretação física e que pode ser medida. Sabe-se que a energia não pode ser criada e nem destruída obedecendo a tão pesquisada e confirmada lei da conservação da energia. Então, o que é energia? Podemos ficar com a clássica definição de energia como sendo a capacidade de realizar trabalho, ou a que eu prefiro, a capacidade de “fazer algo acontecer” (David Watson). Dentro da física quântica, energia assim como sua correlata matéria são ondas de possibilidades. Possibilidades de escolha da consciência em “fazer algo acontecer” e esse “algo” é a realidade. Você cria a sua realidade!

Quando estudamos nosso corpo físico percebemos que o mesmo é constituído por cerca de 70 trilhões de células. Essas células são formadas por moléculas que são constituídas por átomos. Nesse reducionismo mental, podemos imaginar a quantidade de átomos que fazem parte do nosso corpo físico. Podemos imaginar a complexidade de funcionalidade biológica que cada órgão possui ao incluir essa infinidade de átomos na constituição dos mesmos. Cada átomo é uma unidade composta. Cada átomo apresenta em sua constituição muito mais “espaço” que “matéria” propriamente dita. A “energia” contida no espaço que delimita o átomo é que dá oportunidade ao mesmo de existir. Sem o espaço não haveria a forma. Sem a forma não perceberíamos o espaço. Seria uma natureza indivisa e una. Uma natureza repleta de energia e possibilidades. Algo fora do sistema tem que “causar” uma perturbação nessa natureza una e indivisa capaz de manifestar a forma e o espaço simultaneamente. O nosso corpo físico está inundado por espaço. O corpo físico aponta naturalmente para além dele mesmo com o simples pensar na constituição dos elementos que o compõem. O corpo físico manifesto aponta para o não manifesto que o sustenta e da-lhe a forma. Há um campo de energia sutil que envolve cada átomo, cada individualidade composta e esse campo pode ser “sentido” quando desenvolvemos uma certa sensibilidade para que o percebamos. Um campo único de energia mantém a forma e podemos entrar em contato com essa energia se focarmos a atenção nesse campo sutil que envolve o corpo físico.

O espaço que “permeia” os meus átomos é o mesmo espaço que “permeia” os seus átomos. A realidade fundamental una e indivisa une tudo o que pode se manifestar no espaço-tempo eisteniano. O mundo externo é formado pelos mesmos constituintes do mundo interno. O grosseiro e o sutil são feitos da mesma substância. A separação aparente entre o que é interno e o que é externo – acreditem – é aparente! Necessitamos dessa separação, necessitamos do espaço-tempo para obtermos conhecimento. Precisamos conhecer. Sem a aparente separação não haveria percepção e sem percepção não haveria memória e sem memória não haveria aprendizado. O problema está em não compreender a separação como aparência e o comportamento refletir essa compreensão. Podemos entender a separação como uma necessidade para a evolução e desenvolvermos uma capacidade de comportamento baseado na unidade que envolve a todos os seres sencientes. Todos os corpos físicos que estão separados são unidos pela natureza una e indivisa de uma mesma realidade não local e fundamental. Mesmo após a morte do corpo físico, ainda assim, permanece um corpo sutil que ainda é mantido pela energia dessa natureza una e indivisa sob o comando da consciência, porém agora sob uma plasticidade maior onde o externo e o interno ainda existem, mas em “frequências” diferentes e, nessa dinâmica, campos dentro de campos, uma infinidade de “moradas” podem surgir refletindo o avanço da consciência rumo a “alturas” cada vez maiores. Espaço e forma coexistem e são necessários para o aprendizado. Mas até quando? Até sermos um com o Pai. Vivemos em uma diversidade rumo a unidade. Vivemos em uma polaridade rumo a unidade.

A energia é a capacidade de fazer algo acontecer. Quanta coisa pode acontecer? Quantas possibilidades podem se manifestar para que a complexidade da consciência também se manifeste? Infinitas possibilidades. A energia, assim como a matéria (quarks) são ondas de possibilidades. A atualização das possibilidades em fato manifesto se dá pela presença da consciência. Pelo ato psíquico da observação. A sempre presença da essência de cada um de nós está em um eterno aprendizado. Seja em que campo estejamos, isto é, estejamos aqui no espaço-tempo de Einstein ou fora dele após a morte física, estaremos sempre presentes e observando e cocriando a realidade. Átomos sempre existirão a disposição para que a realidade seja cocriada. A atualização descendente das possibilidades ascendentes fará com que a realidade assim formada seja uma certa mistura em dois domínios: possibilidades e fato manifesto. Aonde quer que a consciência esteja, seja no corpo físico colapsando as possibilidades da matéria grosseira, seja no corpo sutil colapsando as possibilidades da matéria sutil, esses dois domínios da realidade sempre estarão presentes. A coerência nos faz pensar até quando existirá dois domínios da realidade? A resposta é a mesma: até o dia em que finalmente conseguirmos sermos um com o Pai. Há ainda outro ponto a ser considerado pela intuição. Parece que há uma necessidade de retorno ao mundo da matéria grosseira para que o aprendizado seja consolidado. Para que as experiências sejam “educadas”, para que o EGO seja transcendido e incluído dentro da consciência. Para que haja nova oportunidade para dar novos significados aos temas dos arquétipos. Para que haja cada vez mais identificação com a “essência” verdadeira dentro de cada um e, dessa forma, o passado seja dissolvido e qualquer outra identificação com a mente e seu oceano interno de atividades (pensamentos, sentimentos, memórias, medos, paixões, vingança e etc e etc.) também seja dissolvido e haja realmente o despertar coerente das ações plenas no momento presente, sem passado e sem futuro. Parece esquisito, mas essa realidade é possível.

Estamos “imersos” na energia que sustenta a forma. Lembrem-se sempre da síntese da evolução da forma e da energia baseado nos estudos de Teilhard Chardin e Ken Wilber: O aumento da complexidade da forma é acompanhada pelo aumento da complexidade de expressão da consciência e a energia vai se “sutilizando” nesse processo. A consciência de maneira criativa utiliza-se das possibilidades ascendentes da matéria e energia e “causa” (causação descendente e transcendente) a realidade concreta e objetiva na qual vivencia. O aprendizado se faz possível em virtude da aparente separação entre sujeito e objeto. Tudo “arquitetado” para que a consciência expresse-se e conheça. Há uma presença capaz de “observar” o conteúdo da mente (conteúdo esse feito da mesma “substância” que qualquer objeto externo e grosseiro). A visão mental é uma ferramenta poderosa, porém insisto mais uma vez que não há necessidade de identificação da “essência” (consciência) com o conteúdo da mente. Nós não somos os pensamentos, sentimentos, emoções, medo e etc da mesma forma que não somos nossos carros, casas e etc. Somos muito mais. Quanto mais nos despertarmos para a realidade transcendente, mais plenos e felizes nos tornaremos. Quanto mais conseguirmos viver o momento atual e agora, mais plenos e felizes ficaremos. Equilibrar o interno com o externo é tarefa fundamental e urgente para o momento atual. Que o nosso comportamento possa refletir essa compreensão. Coerência. É isso!

Abraços fraternos

Milton Moura

Cardiologista – Eletrofisiologista, Ativista Quântico e Facilitador Psych-K

Postado por Sérgio Vencio – Medicina e Espiritualidade

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Reencarnar para viver

Sobre escolher a nossa casa antes de reencarnar

Quando a morte parece próxima, vêm-nos algumas preocupações. A possibilidade da extinção do corpo físico traz-nos dúvidas, incertezas, vazios, angústias e expectativas.

Minha amiga Neusa foi tomada de surpresa e aos 42 anos de vida viu-se fora do corpo. Os laços fluídicos se desligaram, de repente, numa tarde-noite de uma terça-feira comum. Como boa espírita, ela já havia pensado e conversado, muitas vezes, sobre viver e morrer, mas nunca sobre ela própria vir a desencarnar.

Ao ver-se na nova situação, uma impotência assomou-lhe o espírito: Neusa não podia mais retomar o corpo como tantas e tantas vezes o fizera depois de cada sono. A dor, incontrolável e a também incontrolável vontade de manter os laços físicos deram lugar a uma apatia psicológica tão grande que Neusa deixou-se conduzir pela cegueira e pela surdez, de tal modo que nada ouvia nem enxergava, senão a vida que lhe parecia retirada antes do tempo.

Vi-a, inúmeras vezes, indo de casa em casa; da sua, onde filhos e maridos lamentavam sua ausência, às dos amigos mais próximos. Encontrei-a, calada, o olhar perdido, os cabelos, lindos, agora em desalinho; o sorriso, espontâneo, substituído por um ar de imensa tristeza, de grande decepção.

Neusa frequentava minha casa, minhas reuniões. Sua presença era a certeza de uma noite intensa, questionadora, liberal e alegre. Quando assomava à porta com seu porte altivo, era impossível não percebê-la, pois dominava a cena e atraía para si todas as atenções.

Na academia e nas demais atividades profissionais, Neusa se realizava ao colocar em prática seus sucessivos projetos, todos com vistas a garantir aos seus três jovens filhos e ao marido a tranquilidade e o futuro.

Estava no auge quando a morte lhe sobreveio. Foi de um só golpe. Tomava chá, com dois dos filhos e o marido, sentada no sofá da sala quando, de repente, soltou um quase inaudível “nossa!”. O braço escorregou levemente para baixo e a mão quase deixou cair a xícara já vazia. A cabeça tombou de lado e todos os seus músculos afrouxaram ao mesmo tempo.

O telefone, a ambulância, o hospital e a Unidade de Terapia Intensiva. A esperança durou quatro dias, depois dos quais a família aceitou o veredito e decidiu pela doação dos seus órgãos.

A primeira vez que a vi depois da partida eram duas horas da madrugada. Encontrei-a no sofá de minha sala, olhando para o chão, sem nenhuma palavra, mas parecia querer dizer que não merecia aquela “sorte”. Senti uma dor imensa no peito por ver a amiga naquele estado. Sua impotência era também minha.

Percebendo que pouco poderia fazer por ela, caminhou lentamente até desaparecer. Ficou, assim, vagando, um bom tempo, até que as forças começassem a ceder e ela deixar-se levar como quem não encontra mais razão para nada.

Um tempo mais e ela retornou. Foi trazida até nossa reunião e ali ficou, ouvindo. Mais um tempo longe e já retornou melhor. Quis dizer algumas palavras, mas sua voz embargou. Seu semblante denotava então uma pequena retomada.

Quando, enfim, conseguiu traduzir seus sentimentos em palavras, em nova ocasião, fez questão de reconhecer a própria incapacidade de lidar com aqueles laços rompidos, com os projetos esvaziados e com a necessidade de manter certa distância da realidade da vida no planeta depois do desencarne.

Neusa reapareceu há pouco. Estava eu conversando com um espírito durante uma manifestação espontânea quando a vejo postada uns dois metros atrás. Olhava-me, sorridente, não aquele sorriso largo incontrolável, que resolveu suprimir, mas um sorriso tranquilo, sereno, natural.

Entendi sua solicitação expressa no olhar e deixei que ela por mim conversasse com sua amiga presente. Era o que desejava. Falou a ela por pouco, num tom coloquial e baixo, quase sussurrando aos ouvidos, como quem dizia da alegria de poder revê-la, dos sentimentos que as unia. E despediu-se com estas palavras:

– Saudade, amiga, muita saudade.

Após, retomou seu lugar no ambiente, dizendo-me que a saudade é um dos sentimentos mais presentes naqueles que partem e podem retornar ao convívio dos humanos. Saudade dos seus, das coisas, saudade da vida. Entendi sua menção como um pedido a mim para escrever, não propriamente sobre a saudade em si, mas sobre a necessidade, a premente necessidade de reencarnar para viver.

Neusa aguarda, sem previsão de tempo, na imensa saudade que lhe envolve.

Fonte: expediente on-line (Blog W. Garcia)

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Ressentimento doentio

Joanna de Ângelis

A queixa contumaz procede, na sua essência, das fixações ecoicas que predominam no comportamento do ser humano.

Quando o ego deseja fortalecer-se trabalha para chamar a atenção dos circunstantes, muitas vezes de maneira agressiva, revitalizando-se com a energia que lhe é direcionada.

Hábil, na dissimulação, oculta-se em condutas especiais que disfarçam as suas intenções de predomínio.

Nesse sentido, apresenta-se relativo, reclamando de tudo e de todos, de forma que os louros do bem e do bom exornem-no, exibindo-se como modelo digno de louvor e de comentários.

Em face desse comportamento, acumula toxinas emocionais nas paisagens íntimas, avançando para a manutenção do ressentimento.

Ressentir constitui uma forma de chamar a atenção dos outros em torno da sua morbidade. O egoísta sente necessidade de reviver, de reexperimentar as emoções perturbadoras das situações, mesmo as desagradáveis que lhe são impostas pelas circunstâncias, dessa maneira vestindo-se de vítima, que deve ser homenageada pela sua infelicidade…

À medida, porém, que o ressentimento acumula resíduos psicológicos de amargura, transforma-se em rancor.

Nessa fase, a quebreira se instala e o resultado nefasto surge, atingindo aquele que se permitiu derrapar no engodo personalista.

O ressentimento é estágio de censura contra a conduta do próximo, apontando-lhe os desvarios e os erros que, em hipótese última, trata-se da projeção dos próprios conflitos.

Não tendo coragem de proceder a uma autoanálise libertadora, muito fácil se torna a atitude censurável, rica de observações deprimentes, sempre lúcida no seu aspecto perverso, semeando dissensão e desencanto em torno de si, de alguma forma tornando-se centro da ocorrência.

O ressentimento demorado transforma-se num bafio pestilento que invade as áreas nobres do cérebro, perturbando-lhe as neurocomunicações, por consequência, dando origem a transtornos de variada catalogação.

A mente saudável sempre emite ondas de harmonia psíquica, enquanto aquela que se desvia das finalidades do bem produz energias para anular as ideias dignificantes, comprazendo-se em albergar as construções morbígenas que a enfermam.

Quando o ego não consegue exaltar-se através da fatuidade e da presunção, sente-se ferido, ataca e faz-se mais agressivo quando não encontra resistência, oposição, de que necessita para nutrir-se.

Não reagir ao mal do rancoroso, ao invés de ser uma atitude significativa de fraqueza moral, constitui uma verdadeira fortaleza espiritual daquele que padece os espículos disparados pela inferioridade de quem se lhe volta contra.

Carregar um sentimento semelhante, revidando acusações, entrando em debate inútil, constitui uma forma de armar-se e perder a serenidade.

Somente porque alguém se transforma em inimigo de outrem, esse não tem por que preocupar-se com a sua insânia, devendo prosseguir em paz.

Há, no entanto, eficiente antídoto, que não deve ser olvido, sempre que o ressentimento ensaie instalar-se nas paisagens mentais…

Trata-se do perdão incondicional, irrestrito.

O perdão é valioso recurso psicoterapêutico para as insinuações melindrosas do ressentimento.

Evitar-se a reclamação e a queixa contumazes é evidência de equilíbrio, de respeito pelo conjunto social. No entanto, ocasião surge em que se não pode conivir com o erro, deixando-se de advertir o equivocado quando a circunstância assim o ensejar, de chamar a atenção de alguém que se encontra em desalinho comportamental, no entanto, sem derramar fel na advertência nem chibatear com o verbo aquele que se apresenta leviano ou irresponsável.

Muitas pessoas egoístas e insensatas, embora se encontrem na ignorância em torno da realidade, comportem-se de maneira reprochável, não admitem ser admoestadas, como se tudo devesse estar submetido à sua conduta enfermiça.

Desse modo, cumpre ao cidadão ordeiro não permitir que o desequilíbrio tome conta do grupo social, receando sensibilizar esses indivíduos perturbadores do bem-estar dos outros, portadores de tal egoísmo que de olvidam dos demais para comportar-se inadequadamente lhe apraz.

Contribuir para a manutenção da harmonia é dever de todos, porque somente assim é possível fomentar-se o progresso, não se tornando, em consequência, um fiscal do comportamento alheio, um novo dono de tudo…

Diante, porém, dos ressentidos, a atitude de perdão para com eles deve expressar-se como tolerância e bondade, mantendo a compreensão em torno da sua dificuldade de agir corretamente, assim entendendo a sua incapacidade momentânea de manter-se em equilíbrio, abrindo espaço interior para a compaixão fraternal.

Dando-se direito de o outro, o seu próximo, estagiar em nível evolutivo mais atrasado, apresenta-se o interesse de o ajudar a crescer, não lhe exigindo conquista além das possibilidades de que se encontre possuído.

Essa visão fraternal enseja incomparável bem-estar, uma sensação de encontrar-se em harmonia, não se exaltando com os arroubos do entusiasmo em considerações de ser melhor do que os outros, assim como não se aturdindo ante as injunções negativas e perniciosas.

O perdão, o que equivale à compreensão do outro na sua situação ainda deplorável, exterioriza o equilíbrio interior, a harmonia existente entre o físico, o psíquico e o emocional.

Não se permitas, pois, acolher os miasmas do ressentimento que dá azo à antipatia e à animosidade.

Não te sintas discriminado, mal-amado, injustiçado, sempre amado…

As acusações que fazes, informando que os outros estão contra ti são síndromes doentias do ego dominador, desejando submeter as outras ao seu talante, conforme já o conseguiu em relação a ti.

Mantém-te jovial, mesmo nas circunstâncias adversas, não permitindo que os desvarios de fora, os petardos mentais venenosos que são dirigidos contra ti desajustem os equipamentos eletrônicos da tua casa mental e do teu sistema emocional.

Quando cogitas que os outros são opositores teus, desvelas o teu conflito em relação a eles.

Se não existe motivo real para que as demais pessoas apresentem-se indispostas ou indiferentes à tua existência, por que manteriam atitudes inamistosas?

Como depreenderás facilmente, o teu mau-humor e indisposição constante, assim como o teu temperamento rebelde são só responsáveis pelas suspeitas infundidas, geradoras do ressentimento.

Se buscas urze na seara, mesmo o trigo generoso te parecerá terrível escalracho.

Se a tua óptica está voltada para a censura, o céu que contemplas sempre se apresentará nebuloso e ameaçador.

Se esperas aplauso e entendimento, todo o reconhecimento e a afeição que te sejam doados, parecerão insuficientes para a tua exaltação.

Assim sendo, ama, sê o irmão do caminho, o samaritano da parábola, o cireneu gentil, e descobrirás que o ressentimento é morbidez que já não existe na tua conduta cristã e espirita, ou, genericamente, na tua cidadania.

Joanna de Ângelis

por Divaldo Franco do livro: Atitudes Renovadas

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A Lagosta de Sartre

José Herculano Pires

A morte nos espera na sala de partos, quando não se precipita a ir buscar-nos no ventre. Costuma-se dizer que começamos a morrer ao nascer e essa é uma verdade biológica. Mas, apesar dessa naturalidade milenária da morte, não nos acostumamos com ela, por uma razão muito simples, que é o gosto pela vida. Entretanto, quando a vida se prolonga demais, perde pouco a pouco o seu gosto.

O envelhecimento é uma forma de expulsão. A velhice não é uma ceifadora esquelética, mas uma bruxa que nos enxota da vida com sua vassoura voadora. A situação do velho atirado como que num depósito de automóveis gastos e enferrujados é a de um pinguim na Praia Grande: a temperatura o castiga, as juntas lhe doem, a saudade o oprime, a água do mar parece água choca de lagoa tropical, ele quer arrancar-se dali e gritar que está vivo, mas falecem-lhe as energias e a disposição. Ele se acaba, mas ainda não se acabou e a chamazinha tênue da esperança, a última a apagar-se, bruxuleia irônica em seu coração de casa assombrada.

E ainda surgem os poetas gozadores que, como Bilac, dizem coisas assim: “Envelheçamos rindo, como as árvores fortes envelhecem, agasalhando os pássaros nos ramos, dando sombra e consolo aos que padecem”. É demais! Eles não têm mais ramos, nem força, nem capacidade para rir ou sorrir, sua sombra é esquelética e seu consolo mal dá para o consumo próprio. Contam que Victor Hugo envelheceu trotando na sala com os netos nas costas, que o faziam feliz.

Conta Simone de Beauvoir, nas suas memórias da maturidade, que Jean Paul Sartre, ao sentir que envelhecia, preferiu enlouquecer e começou a ser perseguido por enorme lagosta que o acompanhava por toda parte, amedrontando-o. Ele, que não gostava dos psicanalistas, pois um deles já o havia convencido de que era uma personalidade mutilada, pois não possuía o superego, preferiu assim mesmo um tratamento analítico. Simone arranjou-lhe uma jovem enfermeira e esta se engraçou com o doente e o doente com ela. Isso provava que a velhice não estava tão próxima; restavam forças ao filósofo para conquistas amorosas. Mulher decidida e prática, apesar de filósofa, Simone mandou a enfermeira embora, espantou a lagosta e tomou conta do companheiro antes que fosse tarde. Sartre continuou a envelhecer, gastou suas últimas energias na sua volumosa obra Crítica da Razão Dialética e acabou perdendo o seu único olho, pois foi picego desde criança e sempre viu o mundo enviesado, com um olho só. A velhice o abateu e ele hoje confessa que não vai bem das pernas, como nunca foi da bola.

Esse novíssimo episódio da História da Filosofia mostra-nos que o gosto pela vida é de uma resistência a toda prova. Mas há outros fatos que provam o contrário. Por exemplo: o filósofo argentino José Ingenieros temia mais a velhice do que a morte e dizia não querer passar dos quarenta anos. Como passou, suicidou-se. Mas é claro que a preferência pela morte foi forçada e não voluntária. O certo, o normal, é o velho apagar-se naturalmente como lamparina que esgotou o azeite. Os que se preveniram no suicídio ou na loucura ainda conservavam mais mocidade do que podiam supor.

Estas parábolas servem para mostrar que, embora nos acompanhando desde o nascimento, a morte é uma companheira indesejável. Heidegger lembra que até na linguagem comum usamos o reflexivo se para afugentar a morte, como na expressão: “Morre-se”, onde o se transfere a morte para os outros. Morremos, mas sempre a contragosto. Mas quando nos convencemos realmente de que a morte é apenas uma mudança, como dizia Victor Hugo depois de suas experiências espíritas com Madame de Girardin, recebemos a morte com alegria, pois ela nos tira o fardo das costas e nos leva ao encontro dos amigos e seres queridos que foram antes de nós para o outro mundo. Talvez tenha sido por essa certeza que Hugo se divertia com os netos enquanto a esperava.

Os romanos, particularmente na República, gostavam de exaltar a velhice. A senectude já naquele tempo dava os frutos geralmente balofos ou amargos das subgerações de senadores. Cícero insistia na importância da maturidade que dava repouso à alma, amortecendo as inquietações da carne. Casos como o de Marco Antônio e Cleópatra ilustravam bem o perigo das fases heroicas da juventude. Com essa teoria conseguiram envelhecer Roma, que se afundou na perversão da velhice impotente, mas ainda de fogo aceso, em homenagem aos deuses. Passaram, com o tempo, a confiar mais nos gansos do Capitólio do que em suas legiões aguerridas e acabaram massacrados pelos bárbaros.

Não podemos enfeitar a velhice com sugestões ilusórias. Ela é simplesmente o processo natural de desgaste das coisas materiais no decorrer do tempo. Por isso diz o vagabundo de Knut Amsun: “A velhice não nos dá experiências nem sabedoria, mas cabelos grisalhos e rugas”. E acrescenta, lembrando a empáfia e as tolices dos sábios em todo o mundo: “Deus me livre de ser um sábio”. Sartre não é sábio, mas filósofo, ou seja, amante da Sabedoria. Na posição de amante dessa divindade etérea, sempre se manteve em guarda contra o carrancismo dos homens casados com divindades de carne e osso, geralmente demasiado exigentes. Aceitou que Juliette Grecco se fizesse Musa do Existencialismo no Café de Fiore, onde gostava de escrever. Considerou a seriedade como falsa categoria filosófica e, mesmo agora, depois dos sessenta anos e cego, declara às revistas parisienses que não gosta de conversar com pessoas de mais de 30 anos de idade. Era natural que arranjasse, ao sentir que envelhecia, uma companheira sem compromissos para o acompanhar na velhice.

A enorme lagosta que o seguia pelas ruas de Paris era um fantasma desinibido, explorado e devorado impiedosamente pelos franceses, que na loucura por lagostas chegaram quase a provocar uma guerra de lagostas com o Brasil. Isso mostra que Sartre, inimigo de mitos e mitólogos, fugia com sua lagosta das terríveis homenagens que os beócios costumam prestar aos sábios que envelhecem – glorificadores de si mesmos às custas da glória alheia. Nenhum desses aproveitadores se sentiria bem numa solenidade acadêmica em que a enorme lagosta aparecesse nas costas do filósofo, como o bacalhau nas costas do antigo propagandista de Emulsão de Scott.

Talvez a única vantagem da velhice seja o aguçamento da crítica e da irreverência nos velhos inteligentes, que afiaram no correr dos anos a sua lâmina de ironia. O sorriso irônico de Voltaire contribuiu mais para a libertação dos homens das garras da moral burguesa do que o sorriso suspeito e enganador da Mona Lisa. Os burgueses não se livraram até hoje da subserviência dos burgos medievais. A ironia brota da inteligência, e quando trás ainda o cheiro da terra não corta ao léu, mas poda. Podar a burguesia da sua ramagem de subserviência é semear no solo as sementes de um novo mundo, livre de milionários e mendigos. Ele viveu com um pé na cova e o outro na plataforma de foguetes do Cabo Canaveral.

Todos envelhecemos, mas Voltaire soube transformar o seu desgaste orgânico em refinamento do espírito afiando-o como lâmina de navalha. Os clérigos o amaldiçoaram por toda parte e o consideraram morto e enterrado, mas Kardec provou a sua sobrevivência em suas pesquisas mediúnicas da Passage Saint’Anne, em Paris.

Só há uma maneira de fugirmos ao envelhecimento, que é preservando a nossa liberdade espiritual, pois o espírito não envelhece. Os que se fazem independentes em meio à servidão geral podem sorrir como Voltaire da arrogância dos estúpidos, covardes e venais, que esmagam os indefesos com os recursos de suas castas exploradoras, em nome de Deus e das instituições criadas pelos egoístas.

O sorriso de Voltaire salvou o soneto de Bilac, pois se pudermos envelhecer como ele, usando o sorriso irônico ante a farândola dos falsificadores da espécie humana, ajudaremos o mundo a se livrar das aves de rapina. A lagosta de Sartre foi uma encenação inconsciente com esse mesmo sentido. O envelhecimento orgânico está também sujeito à ação do psiquismo. A vontade de cada um pode acelerar ou retardar os processos do desgaste orgânico. Simone mesmo, apesar de sua posição agnóstica, reconhece que não podemos chamar a Humanidade de espécie humana, porque ela supera as condições da animalidade em suas transformações incessantes para um vir a ser imprevisível.

As reações psicológicas provocadas pelo envelhecimento são as mais variadas. Nas pessoas que temem a morte os sintomas da velhice geralmente provocam pânico e sensação de marginalização. Há os que se revoltam e procuram todos os disfarces possíveis para manterem aparência juvenil. Os que encaram com realismo o problema procuram apenas os recursos da gerontologia, tentando apenas evitar o aceleramento do processo. E há os que, à maneira dos antigos romanos, entregam-se ao prazer de uma vida crepuscular, mais contemplativa do que ativa, gozando a perigosa placidez da aposentadoria real ou emocional. O temperamento de Sartre não se adapta a essas formas de acomodação. De certa maneira ele se compensou com a evocação da lagosta gigante, que lhe dava a sensação do perigo, à beira da loucura, que lhe garantia, ao mesmo tempo, a sensação juvenil de pendurar-se na boca de um abismo e a possibilidade de sentir-se galã ao lado da enfermeira. Simone confessa que se ralou de ciúmes, o que deve ter reforçado a permanência psicológica da lagosta.

O caso mais curioso de entrega ativa à velhice ocorreu com o famoso escritor colombiano Vargas Villa, que passou a maior parte de sua vida na Europa, considerando-se intelectualmente francês e emocionalmente italiano. No prefácio de sua novela Íbis, sucesso rococó entre os anos 20 e 30 em todo o mundo, encarava a velhice como a fase fantástica da vida, que lhe tirava as possibilidades do real mas o compensava com a possibilidade de evocar suas antigas lutas e paixões num clima de paz e encantamento. Figurava-se dotado de “umas asas tênues e leves” que lhe permitiam voar ao crepúsculo sobre os campos de seus antigos combates, cheios dos destroços de suas vitórias passadas.

Nem tudo é dor nas dores do mundo. A imaginação humana é capaz de doirar com reflexos de um sol interior as paisagens cinzentas. Vargas Villa se dizia capaz de evocar suas antigas emoções, fazendo-as ressuscitar do estado cataléptico que haviam caído, com a vantagem de não se apresentarem com as trepidações inquietantes do passado. Muitos jovens sonharam, ao lê-lo, com as delícias do envelhecimento, mas poucos conseguiram passar pelos arcos de triunfo dessa visão legendária.

José Herculano Pires, do livro:

O mistério do Ser ante a dor e a Morte

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Conceitos e Ações

Irmão X

José Benevides reencarnou com um excelente programa de atividades em favor da autoiluminação.

Espírito fracassado várias vezes, nas hostes cristãs onde militou em outras existências, preparou-se na erraticidade sob o carinho de dedicados benfeitores espirituais para o cometimento de reparação que lhe dizia respeito.

Dificuldades e perturbações que o haviam vencido foram reencaminhadas, debilidades morais estiveram sob estudo cuidadoso, angústias receberam tratamento especializado e todo um programa de serviço foi elaborado com a anuência do viajante da esperança.

Reencarnou comprometido com as lides espíritas, encarregadas de restaurar na Terra o pensamento de Jesus, que também ele conspurcara oportunamente com a conduta reprochável que se permitia, experienciando, antes do berço, muitos fenômenos mediúnicos, de modo que a faculdade lhe servisse de instrumento valioso para o ministério libertador.

Banhos magnéticos foram-lhe aplicados, exercícios de concentração e técnicas de bioenergia foram providenciados, a fim de que se encontrasse robustecido no ânimo e na fé, objetivando a vitória sobre as más inclinações do passado.

Desse modo, em face das providências seguras, renasceu em lar espírita, haurindo o conhecimento da Doutrina desde os primeiros dias, aprimorando o caráter frágil nos exemplos domésticos.

Desde cedo habituou-se a conviver com os desencarnados que lhe apareciam amiúde, manifestando-se com frequência, dessa forma preparando-o emocionalmente para a tarefa enriquecedora da divulgação e vivência do Espiritismo.

Desde os primeiros anos como era de esperar-se, revelou pendores religiosos, que se manifestaram na infância, participando da evangelização espírita em Núcleo bem constituído doutrinariamente, demonstrando lucidez no entendimento das mensagens e loquacidade especial para os comentários quando lhe eram solicitados.

Aos quatorze anos, começou a explanar a Doutrina entre os companheiros no grupo juvenil, tornando-se líder natural estimado por todos.

Na sucessão do tempo, tornou-se expositor simpático e convincente, logo arrebanhando expressivo número de simpatizantes e adeptos da sua oratória brilhante, que se foi aprimorando mediante a experiência e os estudos contínuos.

Tornando-se advogado, vinculou-se ao serviço público, justificando a necessidade de um salário digno para a sobrevivência e de tempo hábil para dedicar-se ao ministério de divulgação da Terceira Revelação.

Em razão do número de amigos que mourejavam à sua volta, foi estimulado a criar uma Sociedade Espírita, na qual pudesse ampliar as possibilidades de serviço doutrinário, e utilizar dos amplos recursos da mídia moderna para a finalidade a que se propunha.

Não teve qualquer dificuldade, porquanto pessoas abastadas, politicamente bem situadas, que lhe recorreram ao auxílio através da faculdade mediúnica de valor inquestionável, dispuseram-se a ajudá-lo no cometimento, que se fez coroar de êxito.

No começo, a fidelidade à Codificação Espírita era total e todos os empreendimentos objetivavam a iluminação de consciências e o conforto dos corações atemorizados ou sofridos pelos infortúnios da existência.

Dedicado, procurava lenir as exulcerações das almas, envolvendo-as em carinho e em esperança.

A mediunidade abriu-lhe as portas para o sucesso, e o entusiasmo de pessoas inadvertidas, teleguiadas por Espíritos zombeteiros, passou a envolver o trabalhador do Evangelho, que lentamente despertou os adormecidos comportamentos levianos e insensatos, deixando-se arrastar pela presunção e autovalorização.

Embora a ocorrência, permanecia dedicado às atividades que lhe diziam respeito, estando sempre em labor decorrente da agenda de compromissos oratórios, que o levavam de um para outro lado, escasseando-lhe o tempo para reflexões, autoanálises, refazimento de forças morais…

O seu estilo especial e agradável logo fez escola, e diversos simpatizantes passaram a constituir-lhe corte generosa e bajulatória.

À medida que os anos se dobraram uns sobre os outros, José Benevides foi-se afastando dos sofredores, dos mais necessitados, demonstrando desagrado ante os excluídos, que passou a denominar como os malcheirosos.

As pessoas de sociedade que o cercavam, asfixiando-o com elogios mentirosos e referências vãs, tomaram o lugar dos desprotegidos socialmente, daqueles para quem viera Jesus, naturalmente sem exclusão dos dominadores do mundo.

Com o tempo, embora a jovialidade que mantinham, passou a cultivar a irritação interior e o tédio, desde que tudo lhe corria agradável e fartamente, desencantando-se com as próprias aspirações, exceto nos momentos de exaltação da personalidade.

O nobre Espírito Henrique, seu dedicado mentor que o acompanhava desde antes do renascimento carnal, percebendo o perigo em que se encontrava o pugilo invigilante, não regateou socorros: advertências verbais e escritas, inspiração superior, enfermidades variadas com o objetivo de demonstrar-lhe a fragilidade orgânica, alguns problemas nos relacionamentos afetivos, solidão… Convidava-o constantemente à oração e à convivência com a caridade em relação aos irmãos da retaguarda, igualmente com os desencarnados em sofrimento, que evitava, narcisisticamente, acreditando-se médium especial para contato somente com os Espíritos elevados…

Prosseguindo nos disparates, permitiu-se o culto ao corpo, utilizando-se dos recursos em voga, e, passando dos temas sérios à vulgaridade, àqueles de humor duvidoso, assumiu comportamentos esdrúxulos…

Aplaudido e enganado em si mesmo, foi-se divorciando da conduta enobrecida, passando a agredir verbalmente as demais pessoas, quando se sentia contrariado ou temendo competidores, ele que se fizera competidor dos outros, como se fosse irretocável, um missionário sob medida para o divertimento e a salvação da Humanidade.

Sentindo-se desconsiderado, o mentor advertiu-o severamente, explicando-lhe a gravidade da situação elegida e os riscos que lhe rondavam.

A obsessão, em decorrência do cerco de inimigos do passado, que lhe padeceram injunções penosas, instalou-se-lhe nos painéis mentais e, obstinado pela conquista de aplausos, de fama, saiu da proteção amorosa do generoso guia, que lhe reservou a dádiva do tempo para o despertamento.

Tornando-se frívolo e imitando os triunfadores do mundo, esqueceu-se da simplicidade e da abnegação, fazendo-se interesseiro e atormentado.

Para o público, mantinha a aparência alegre, bombástica, a crítica ferina, enquanto que, a sós, cedia espaço à angústia em insidioso processo depressivo e obsessivo.

Conheci o candidato à iluminação nos seus áureos tempos e recordo-me das formosas e edificantes exposições espíritas de que se fazia portador. Acompanhei, também, logo depois, as preocupações do devotado benfeitor rejeitado, assim como as suas advertências carinhosas, mas Benevides, à semelhança de Epimeteu, deixou-se seduzir por Pandora enviada pelo colérico Zeus, e sucumbiu-lhe aos encantos e enredamentos…

Tive ocasião de revê-lo recentemente, mergulhado no abismo do transtorno depressivo, aos sessenta anos, receando a morte que não se permitira considerar quanto deveria, e que se lhe acerca apressadamente…

O antigo excelente orador e médium, multiplicador de opiniões, verdadeiro show man, afastou-se das hostes doutrinárias e, abandonado pelos aficionados que antes o aplaudiam e agora o censuram, sucumbe ao fracasso irremediável.

A teoria no seu verbo brilhante infelizmente não se fortaleceu na prática, no exemplo de vida correta, defraudando a responsabilidade e iludindo-se com as fantasias da imaginação infantil.

Irmão X. por Divaldo Franco

Fonte: Espiritismo na Rede

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Autoconhecimento: conhecendo o interior para entender o exterior

Ludmila de Almeida Rosa

O autoconhecimento faz parte da evolução humana. Nem todos se conhecem e, com isso, abrem portas para o sofrimento e desespero.

Tudo que não se conhece causa torpor na mente e no coração. Conhecer a si mesmo faz parte do saber interno, do ato de ter controle, uma vez que o externo não se controla. Em tudo é preciso conhecimento para que a evolução seja um caminho leve de ser percorrido, caminho este que, só com amor e por amor, fará com que cheguemos mais alto.

Jesus Cristo é um grande exemplo de autoconhecimento, suportou a tudo sabendo que a missão era muito maior. Suportar com resignação, caridade, amor, perdão, sentimentos tão nobres que fazem falta no dia a dia devido a correria da vida moderna.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo “Bem-aventurados os aflitos” sobre as causas atuais das aflições, Allan Kardec cita as vicissitudes da vida, ou seja, os eventos inesperados que mudam os caminhos e que muitas vezes são causados pelo caráter do homem:

“Quantos homens tombam por suas próprias faltas! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! Quantas pessoas arruinadas por falta de ordem, de perseverança, por má conduta e por não terem limitado seus desejos! Quantas uniões infelizes porque são de interesse calculado ou de vaidade, com as quais o coração nada tem! Quantas dissensões e querelas funestas se teria podido evitar com mais moderação e menos suscetibilidade. Quantos males e enfermidades são a consequência da intemperança e dos excessos de todos os gêneros! Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não combateram suas más tendências no princípio! Por fraqueza ou indiferença, deixaram se desenvolver neles os germes do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade que secam o coração; depois, mais tarde, recolhendo o que semearam, se espantam e se afligem pela sua falta de respeito e ingratidão” (KARDEC, 2009, p. 54).

Diante das adversidades e decepções da vida quantos param e analisam as atitudes e a consciência? Quantos olham para dentro de si buscando onde errou, por que doeu, onde feriu ou o que poderia ter feito diferente? Tudo que acontece tem uma razão de ser e quase sempre culpa-se o outro pelas aflições, esquecendo-se que o maior causador dos males é o próprio ser humano, só ele é responsável, mais ninguém. A mudança começa a acontecer quando se deixa de apontar o outro como responsável pelos tormentos que o próprio indivíduo buscou, e entende que não adianta tentar mudar o externo para arrumar a bagunça interna. Olhar para dentro, sem julgamentos, requer coragem!

A criatura ainda carrega no íntimo o orgulho, ambição, vaidade, inveja, egoísmo, ciúmes, raiva, descrença e tantos outros sentimentos e emoções de baixa vibração que afetam o homem profundamente quando se trata de causa e efeito, aprimoramento intelectual e moral. Diante dos dissabores da vida, o autoconhecimento é fundamental para evitar que se caia em armadilhas que poderiam ter sido evitadas, a partir do momento que se olha de dentro para fora com compaixão.

A vaidade cega as boas virtudes, pois ao invés de colocar a humildade como base para o reconhecimento das mazelas e assim trabalhar a reforma íntima, se vê mais prudente o papel de vítima, e esse nada mais é do que a falta do amor-próprio, e ele só pode ser reconhecido quando, com seriedade, se permite uma autoanálise. Em “O Livro dos Médiuns”, na dissertação de um Espírito sobre a influência moral, elucida que a mudança pode ser alcançada por todos:

“Expurguem-se, pois, os que desejam esclarecer-se, de toda a vaidade humana e humilhem a sua inteligência ante o infinito poder do Criador. Esta a melhor prova que poderão dar da sinceridade do desejo que os anima. É uma condição a que todos podem satisfazer” (KARDEC, 2023, p. 201).

É um processo saber o que se passa no interior, se autoconhecer para permitir a transformação de caráter, temperamento, valores, vícios, hábitos e desejos, detalhes que interferem no crescimento pessoal e que exigem uma nova ética nas relações consigo e com a vida. O primeiro passo é amar ao próximo como a ti mesmo. Uma vez se amando, não fará ao outro o que não deseja para si, e já terá avançado a passos largos no caminho da evolução.

Outras sugestões que fazem a diferença no processo autotransformador foram extraídas do livro “Reforma Íntima Sem Martírio” (DUFAUX, 2003):

  • Sempre há algo para aprender e conceitos a reciclar, o que fará com que saia da zona de conforto e do estado de autossuficiência, evitando assim cair nas arapucas do orgulho e vaidade;
  • Selecionar ambientes e pessoas, impondo limites quando necessário em nome da saúde mental, do respeito e da autoestima, evitará acesso de cólera;
  • Aceitação dos erros e autoperdão, sem se martirizar e recomeçando quantas vezes seja necessário;
  • Cultivar o hábito dos bons pensamentos e atentar as músicas, leituras e conversas para que sejam enriquecedoras;
  • Socializar com empatia, é através da caridade que a criatura encontra a salvação, sai do seu mundo e vai de encontro ao exercício do verdadeiro amor praticando a benevolência.

Ninguém muda do dia para a noite! Isto requer disciplina e não será reprimindo os instintos, e sim educando-os. Um passo de cada vez e será hoje, melhor do que ontem.

Quem nunca ouviu “se não vem pelo amor, vem pela dor”? Muitas vezes o sofrimento que assola as criaturas que no momento não entendem o porquê de tantas provações, tem um papel importante na mudança interior, é a vida pedindo passagem para novos ares e novas conquistas. Adiar o crescimento só fará machucar. É por meio do autoconhecimento que o indivíduo busca evoluir a cada dia que passa.

“O homem corre o mundo inteiro em busca da verdadeira felicidade. No entanto, ela está tão perto e tão dentro dele mesmo! Esta grande e tão valiosa joia que é a felicidade, nada mais é senão a tua própria consciência. Encontra-se, porém, fechada e bem lacrada, envolta pelas emanações escuras dos teus erros e da tua imperfeição. Hoje mesmo, poderás começar a fazer a limpeza em teu interior. Joga fora todos os entulhos que fazem parte de um passado que já morreu e que não mais deve te amedrontar com os seus fantasmas. Sempre é hora de recomeçar e de redimir-te. Quanto mais te retardares no burilamento de tua consciência, mais tarde será o teu encontro com a grande amiga de toda a humanidade, a FELICIDADE” (TORRES, 2012, p. 93 e 94).

O trecho acima foi extraído do livro “Relicário”, ele contém gotas de esperança que incentivam o progresso. E se conhecer faz parte de uma caminhada pautada no bem e na paz. Nem sempre o se conhecer é parte das tarefas diárias, mas ele pode barrar as entradas de sentimentos e emoções contrárias a evolução. Aceitar-se é conhecer o interior para entender o exterior, e ser feliz é se encontrar!

Ludmila de Almeida Rosa

Fonte: Letra Espírita

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Referências:

DUFAUX, Ermance de La Jonchére (Espírito). Reforma Íntima Sem Martírio. Psicografia de Wanderley Soares de Oliveira – Belo Horizonte: SED, 2003.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 365° edição, 2009.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes, RJ, Letra Espírita. 2023.

TORRES, Elma Layde Lamounier. Lamounier. Relicário/ pelo espírito Tomás; Belo Horizonte: Itapuã, 2012.

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