O Céu e o Inferno

José Herculano Pires, 1915-1979

O Céu e o Inferno: a obra prima esquecida | Café com Kardec

Allan Kardec apresenta a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno, como também do chamado Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que tudo no universo evolui.

Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino.

Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

A 30 de Setembro de 1863, como se pode ver em Obras Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso: “Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos”. Esse julgamento começava com a preliminar constituída pelo Evangelho Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de Setembro de 1865, a Revista Espírita publicaria em sua seção bibliográfica a notícia do lançamento do quarto livro de Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Faltava apenas A Gênese para completar a obra da Codificação da III Revelação.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da apreensão da morte, vigorosa peça de acusação, no número de Janeiro de 1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de Março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma “nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente”. Em Setembro a obra já aparece anunciada como à venda.

Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo. Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título reduzido para O Céu.

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã. Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico só comparável ao do nazi-fascismo em nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de Kardec, saberiam que a evolução não se processa em linha reta; mas em ascensão espiralada.

Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar, não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência néo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nosso tempo.

A leitura e o estudo sistemático deste livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra. Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objetivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo.

O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.

Fonte: José Herculano Pires, na introdução de O Céu e o Inferno

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O planeta Arco-íris – Relato de uma viagem astral

Giselle Fachetti

O Espírito dispõe sobre os elementos materiais dispersos por todo o espaço da vossa atmosfera, de um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode concentrar esses elementos pela sua vontade e dar-lhe a forma aparente que convenha às suas intenções. Livro dos Médiuns.

Ao encerramos nossas palestras públicas sempre pedimos aos mentores de nossa Casa Espírita que tragam dos laboratórios do invisível as substâncias terapêuticas etéreas necessárias a cada indivíduo que participa desse nosso congresso de almas e de espíritos. Continuamos rogando a eles que diluam tais substâncias na água que sorveremos após a prece final, antes de nos dirigirmos novamente a nossas atividades cotidianas.

As referências a esses laboratórios são encontradas nas obras básicas da Doutrina Espírita e, sempre os consideramos, de nossa parte, como uma realidade extra-física incontestável.

Para nossa surpresa, e satisfação, durante o encerramento de um de nossos trabalhos mediúnicos desobssesivos fomos brindados com uma viagem coletiva a um desses laboratórios, guiados pelos coordenadores de nosso trabalho de assistência espiritual.

Fomos conduzidos a um veículo coletivo que nos parecia concreto e seguro, daqueles que nas obras de André Luiz são chamados de aérobus. Nosso grupo já habituado a viagens interdimensionais, facilitadas pelo longo treinamento na técnica do desdobramento anímico, ocupou as poltronas vazias do veículo com alguma ansiedade e, com muita expectativa.

A viagem foi rápida, porém fascinante, atravessamos o espaço sideral desviando-nos por entre pontos luminosos e, fomos ter em algum lugar que nos pareceu longínquo apesar da brevidade com que lá chegamos.

Do alto víamos um planeta. Isso mesmo, um planeta. Era multicolorido como um arco-íris, furta cor. A variação de intensidade e de tons de cores do planeta ao qual chegávamos era sutil e continua, por isso mesmo, confortável a nossos olhos. Diferente daquilo que percebemos ao observarmos os grandes painéis luminosos das grandes cidades que agridem nossas retinas com cores fortes e vibrantes se revezando freneticamente.

Ao nos aproximarmos do planeta Arco-íris nosso Aérobus reduz a velocidade de forma gradual e, nos aproximamos lentamente. Assim podemos observar os detalhes que vão se tornando evidentes aos nossos olhos.

As regiões coloridas por vezes cedem espaços a construções harmônicas com um telhado de um mosaico claro e losangular. Percebemos que as peças dessas estruturas são mais do que telhas, são equipamentos de captação da energia cósmica.

Além dos grandes edifícios de telhado branco, divisamos a superfície do pequeno planeta coberta de uma vegetação absolutamente magnífica e intrigante. São vegetais multicoloridos como o arco-íris e, furta-cores. Plantas floridas. Flores de formas bastante diversas. A cor dança por entre essas plantas de forma suave e, em uma cadência de sublime harmonia.

Por entre os canteiros de flores transitam inúmeros seres flutuando a cerca de 10 cm do solo, sobre passarelas também brancas e, de superfície lisa como o cristal. São os trabalhadores desse local e se vestem com mantos fluidos e semitransparentes, brancos e de textura semelhante à de flocos de algodão doce.

Ao perceberem a nossa chegada os cientistas da luz se dirigiram ao porto de desembarque, aonde são recebidos os visitantes. Nosso Aérobus estacionou e, fomos convidados a descer na terra da cor e da luz. Fomos recebidos com abraços aconchegantes de seres que nos eram conhecidos e queridos.

Depois dos cumprimentos iniciais somos levados a um dos prédios de telhado branco aonde existe, um auditório anexo as complexas instalações de um grande laboratório, muito semelhante a uma usina de energia.

Adentramos no amplo auditório aonde a equipe responsável pela nossa visita planejou uma breve explicação sobre o objetivo dessa inusitada excursão.

Eles nos revelam que depois de tanto invocarmos, confiantes, os trabalhos nos laboratórios do invisível, tínhamos conquistado o direito de conhecer uma das unidades geridas pelos coordenadores dos trabalhos de nossa Casa Espírita.

Trata-se de uma unidade ligada à Colônia Esperança que produz e distribui os florais quintessenciados e as substâncias de natureza orgânica que compõem a paleta necessária para a cromoterapia essencial. São insumos necessários para a fluidificação das águas em nossa Casa Espírita.

Essa unidade, considerada de grande porte, fornece essa matéria de intenso poder terapêutico a muitas outras casas de oração, hospitais, abrigos e creches.

As flores são colhidas nas extensas plantações do planeta Arco-íris. Posteriormente são selecionadas e tratadas nos complexos laboratórios desse prédio central, lá conhecido como Usina de Luz. Uma vez elaborados são transportados em grandes tonéis que se subdividem internamente como uma colméia de abelha. Diversos nichos adjacentes, mas isolados entre si, que mantém registro exato do destinatário de cada formulação.

O trabalho é ágil e especifico, pois a tecnologia astral é mais avançada que a material. Os computadores dessa unidade são programados diariamente com as necessidades de cada terrestre a ser assistido, encarnado ou desencarnado.

A energia amorosa dos trabalhadores é essencial para ativar o princípio de cada medicamento astral e, é transferida pela força mental de cada um os dedicados cientistas lotados no Planeta Arco-íris. São médicos angelicais com longo treinamento na terapia fluídica da alma humana.

Tomamos conhecimento que a prece é, também, componente fundamental da solução fluídica renovadora. As preces que emitimos amorosamente em nossos lares, em nossos grupos de oração, em nossos hospitais e campos de sepultamento são rogativas de humanos arrebatados pelo desejo puro de contato com a realidade maior.

Essa matéria humanamente gerada pelo pensamento de teor elevado é processada na Usina de luz e passa a integrar a composição do medicamento etéreo que fluidifica nossas águas. O composto transformador é antídoto para as dores incapacitantes construídas pela ignorância e pelo desamor.

Ao término da explanação saímos em excursão pela terra mágica que nos recebe radiante. Caminhamos por alamedas e ruelas, entre flores deslumbrantes que hora refletem o amarelo do sol, ora vibram com o violeta dos cristais de ametista. O desfilar de maravilhas é contínuo e, revigorante. Tocamos as plantas e sentimo-nos confiantes e iluminados.

Outros prédios menores são vistos ao longe. Nossos mestres nos ensinam que são alojamentos, escolas, unidades administrativas e de manutenção dessa grande indústria do bem.

Chegamos, então, a uma tenda junto ao um riacho de fluxo tranquilo, quase preguiçoso. Ouvíamos o barulho de suas águas correndo por entre pedras lisas. Uma brisa doce nos abraçava enquanto caminhávamos até a sombra do toldo branco.

Várias macas estavam dispostas paralelamente. Fomos convidados a nos deitarmos sobre as macas e a nos prepararmos pois receberíamos uma energização com a matéria orgânica cultivada no planeta das bênçãos coloridas.

Deitados sobre as macas fomos cobertos com as flores luminosas. Aquelas preciosidades assumiam cores diferentes sobre diferentes indivíduos. Na altura de cada centro de força havia maior intensidade de cor. Ao recebermos as energias armazenadas nessas plantas elas iam, gradativamente, adquirindo aspecto translúcido.

Quando nosso cobertor vivo se mostrou completamente transparente inferimos que aquela sessão de terapia especial tinha chegado ao seu termo.

Fizemos o trajeto de retorno e, nessa oportunidade fomos autorizados a colhermos daquelas flores para trazermos paras nossos irmãos da Terra. Escolhíamos um exemplar para cada pessoa em especial, conforme a sua necessidade mais preemente. Sabíamos qual espécime seria adequado para cada um.

Cada um de nós trouxe nos braços um grande ramalhete de flores do Arco-íris. E, soubemos que essa oportunidade de presentear nossos irmãos de caminhada encarnatória nos foi oferecida para que pudéssemos experimentar, em nosso íntimo, a alegria que nossos instrutores desfrutam diuturnamente ao trabalharem por e para nós.

No Porto de luz nos despedimos carinhosamente de nossos queridos e iluminados mestres, os cientistas da luz. Entramos novamente em nosso coletivo e, em um piscar de olhos estávamos novamente em nossa Casa espírita.

Encerramos nosso trabalho daquela noite com uma prece de profunda gratidão à misericórdia dos servidores do Cristo que nos acolhem calorosamente e prodigamente nos oferecem a bendita oportunidade o aprendizado retificador.

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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A cura que se deseja

Impressionantes casos de curas são relatados por especialistas e estudiosos da área médica.

Um eminente oncologista americano, Dr. Bernie Siegel, narra o caso muito curioso de uma paciente que o procurou.

Ela morava a mais de mil quilômetros de distância da sua clínica.

Quando recebeu o diagnóstico de que teria somente poucas semanas de vida, pediu para consultar com Dr. Siegel.

Tentaram a princípio, demovê-la da ideia. Ela estava muito doente, a clínica ficava muito distante, ela já tinha um diagnóstico.

Ela insistiu, conseguindo seu intento.

Dr. Siegel a examinou e lhe disse que ela chegara tarde demais.

Ele era médico e como médico, constatara que nem cirurgia, nem quimioterapia poderiam curá-la.

Seu destino era mesmo a morte, a etapa final da natureza biológica.

A mulher estava irredutível e passou a crivá-lo de perguntas.

Ela teria uma chance em dez?

Com a resposta negativa, ela foi prosseguindo com as perguntas:

Teria uma chance em cem? Em mil? Em um milhão?

Bom, em um milhão de pacientes, é provável. – Falou o especialista.

De olhos brilhando, com firmeza, ela argumentou:

Então, doutor, cuide de mim, porque eu sou essa paciente no meio do milhão.

Dada a firmeza da mulher, ele iniciou o tratamento.

Quando foi estudar seu histórico médico, Dr. Siegel deu-se conta de que o câncer de que ela era portadora, começara exatamente quando ela entrou em um processo litigioso de divórcio.

Ela ficara tão triste, que desejara morrer, para se vingar do marido.

Foi quando gerou o câncer.

Trabalhou o médico essa questão com ela:

Morrer por causa de uma pessoa?

E motivou-a. Ela se submeteu à terapia psicológica de otimismo, enquanto fazia quimioterapia.

Resultado final: ela se curou.

E Dr. Siegel, que tem a certeza de Deus e de que o organismo é uma máquina extraordinária, conta que calcula o tempo de vida de seus pacientes pela forma como eles encaram a enfermidade.

Há os que optam pela terapia psicológica, porque creem na vida e desejam lutar. São os que vivem mais.

Há os que simplesmente se entregam, não desejando lutar. São os que perdem a batalha mais rapidamente, isto é, a vida.

* * *

Se você está enfermo, se recebeu um diagnóstico de difícil sobrevida, não se entregue.

A morte chegará, com certeza, pois nenhum ser vivo a ela escapa. Mas poderá chegar mais tarde. E sem tantos traumas.

Encare a enfermidade e decida-se por viver o melhor possível, emocionalmente falando.

Ame-se, ame aos que o cercam, ame a vida.

Não importa o tratamento a que você se submeta, ele terá total, parcial ou nenhuma eficácia, conforme o deseje você.

Pense nisso e decida o que almeja para si.

  • Redação do Momento Espírita, com base no cap. 25 do livro “Um encontro com Jesus”, de Divaldo Pereira Franco, compilado por Délcio Carlos Carvalho, ed. LEAL

Fonte: Espiritismo na Rede

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Autoconhecimento: conquista vital

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Há frases que contêm extraordinária sabedoria. Ao proferi-las seus autores são certamente inspirados pelas potestades, e, quando bem compreendidas, nos ajudam a assimilar novos elementos que contribuem para o desenvolvimento da nossa maioridade espiritual. Nesse sentido, atribui-se ao filósofo Sócrates a autoria da máxima: “Conhece-te a ti mesmo”. A recomendação – seja dele ou não – é assaz pertinente, já que há no mundo milhões de criaturas que não se conhecem verdadeiramente.

Em razão disso, vivem existências empobrecidas do ponto de vista espiritual e sem significativas conquistas interiores, porque simplesmente não conseguem perceber a imensa bênção que é viver neste plano para progredirem como seres cósmicos. Geralmente, são indivíduos que prestam muita atenção às questões materiais, assim como dão considerável espaço à satisfação dos prazeres. No entanto, pouco ou quase nada focam no que lhes reside no íntimo (especialmente de ruim ou reprovável) e o que são capazes de fazer em se tratando de prejudicar os outros diante de uma contrariedade ou revés.

Não seria exagero afirmar que são indivíduos que não se examinam, não se interrogam, não se enfrentam, enfim. Assim sendo, desconhecem, quase que por completo, o que se encontra no âmago das suas almas, talvez porque receiem descobrir e/ou aceitar que abrigam péssimas inclinações e tendências. Desse modo errático, portanto, evitam se autoconhecer – passo vital para a sua melhoria ou cura interior.

O autoconhecimento é um recurso altamente valioso, pois constitui “a chave do progresso individual”, como declarou Santo Agostinho no Livro dos Espíritos (questão 919-a). Dito de outra forma, ninguém desenvolve a sua própria luz sem ter exato entendimento dos pontos mais fracos e vulneráveis da sua personalidade e caráter. Portanto, identificá-los requer extremo esforço, já que tendemos a aplicar a autodesculpa quando nossas fragilidades são expostas. De qualquer maneira, o autoconhecimento é a ferramenta imprescindível para que tenhamos uma existência espiritualmente exitosa.

Nesse sentido, ao adotar o caminho da regeneração, é certo que haveremos descobrir aspectos altamente desconfortáveis no decorrer do processo tais como: pensamentos malignos e viciosos, emoções nada edificantes, atitudes malsãs, reações destrambelhadas, entre outras tantas coisas negativas. Em suma, o exercício do autoconhecimento nos ajuda a descortinar todo o mal e impurezas que dormitam em nosso interior. Como esforço de cunho moral, cabe destacar, nos ajuda também a conquistar o autoaperfeiçoamento por meio de uma cognição mais apurada sobre nós mesmos. Em outras palavras, com bem ensinou Santo Agostinho, “Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.”

De forma análoga, salienta Allan Kardec,

“Os Espíritos protetores nos ajudam com seus conselhos, mediante a voz da consciência [que não raro bloqueamos], que fazem ressoar em nosso íntimo. Como, porém, nem sempre ligamos a isso a devida importância, outros conselhos mais diretos eles nos dão, servindo-se das pessoas que nos cercam. Examine cada um as diversas circunstâncias felizes ou infelizes de sua vida e verá que em muitas ocasiões recebeu conselhos de que se não aproveitou e que lhe teriam poupado muitos desgostos, se os houvera escutado.”

Desse modo, ainda segundo o Codificador do Espiritismo, “Muitas faltas que cometemos nos passam despercebidas”. Isso ocorre porque não somos suficientemente críticos conosco na maioria das vezes. Ou seja, fazemos coisas absurdas e tomamos decisões sem a devida consideração de ordem ético-moral que, essencialmente, sempre nos dá a dimensão do certo e do justo. Em assim nos conduzindo, não medimos o impacto das nossas ações nos outros, bem como negligenciamos a noção do bem que, a rigor, deveria nos inspirar em todas as deliberações da vida. Aliás, “O bem deve ser a flor e a fruto que o Céu nos pede”, como formulou o Apóstolo Estêvão (ver a obra Paulo e Estevão, ditada pelo Espírito Emmanuel e psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier). Portanto, o autoconhecimento leva à ponderação e aos raciocínios mais elevados, ensejando mudanças profícuas na esfera interior.

Às vezes, o indivíduo identifica algo grave nos recessos da sua alma, mas não trabalha com determinação para a obtenção da própria cura. Esse deve ser o caso, por exemplo, da enfermeira inglesa Lucy Letby, de 33 anos, que atacou 13 bebês matando 7 no Countess of Chester Hospital, principal unidade de saúde da cidade de Chester, na Inglaterra, entre 2015 e 2016. As investigações revelaram a descoberta de um bilhete em sua casa em que se lia: “Eu sou má, eu fiz isso. Matei-os de propósito porque não sou suficientemente boa, não mereço viver, sou uma pessoa horrível”.

Notem que essa criatura começava a ter a consciência despertada para a gravidade dos seus atos. Mas não é incomum, por outro lado, que muitos permaneçam em sua sanha criminosa até que sejam descobertos e entregues à justiça. Posto isto, com o sofrimento decorrente da privação de liberdade vem o arrependimento, e daí determinações mais saudáveis do Espírito culposo.

Santo Agostinho aconselha ainda que perscrutemos a nossa consciência se desejamos seriamente nos melhorarmos para que possamos extirpar de nós os maus pendores, como se arrancássemos as ervas daninhas do nosso jardim. Façamos, então, como ele recomenda, isto é, um balanço moral diário. Desse modo, “Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.” Concluindo, o autoconhecimento nos aponta o caminho para acendermos a luz dentro de nós. Com essa capacitação aprendemos a arte do autodomínio e serenidade, que nos conduzirão, por extensão, à obtenção da felicidade plena no devido tempo. Fundamentalmente, cabe ainda destacar que nunca é tarde para se autoconhecer.

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Fonte: Espiritismo na Rede

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A oração

Amizade: como esse vínculo ajuda a melhorar o desempenho ...

A oração não acontece simplesmente quando nos ajoelhamos ou colocamos nossas mãos juntas e nos concentramos e esperamos pelas coisas de Deus.

Pense positivo e deseje o bem para os outros.

Isso é uma oração.

Quando você abraça um amigo.

Isso é uma oração.

 

Quando você cozinha algo para alimentar a família e os amigos.

Isso é uma oração.

Quando dizemos aos nossos entes próximos e queridos, ‘manuseie com cuidado’ ou ‘cuide-se’.

Isso é uma oração.

Quando você está ajudando alguém em necessidade, dando seu tempo e energia.

Você está orando.

Quando você perdoa alguém de coração.

Isso é uma oração.

A oração é:

Uma vibração.

Um sentimento.

Um pensamento.

A oração é a voz do amor, amizade, relacionamentos genuínos.

A oração é uma expressão do seu ser silencioso.

Continue orando sempre.

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Idade espiritual

Juan Carlos Orozco

A idade pode ser definida como o tempo de vida decorrido desde o nascimento até uma determinada data. A palavra idade também poderá ter outras conotações, tais como: Idade Média; terceira idade; idade crítica etc.

Para as nossas reflexões, vamos abordar a idade espiritual, cuja correlação com a idade do corpo físico será tratada segundo a ótica da Doutrina Espírita.

O primeiro parâmetro para se quantificar a idade de uma pessoa será o tempo de vida, podendo ser material ou espiritual.

O tempo material é representado por um período contínuo de eventos ou fatos que se sucedem, dando uma ideia de passado, presente e futuro, podendo ser uma sucessão de séculos, anos, dias, horas, minutos e segundos, ou um meio contínuo no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis.

Para quantificar o tempo na Terra, usamos como referencial que o nosso planeta leva um ano para percorrer a sua órbita ao redor do Sol e um dia para dar uma volta em torno do seu próprio eixo. Pelo calendário gregoriano, o ano coincide aproximadamente com uma volta da Terra ao redor do Sol, perfazendo um total de 365 dias.

Em A Gênese, no Capítulo VI, Uranografia geral, “O espaço e o tempo”, Allan Kardec expressa que o tempo é uma sucessão das coisas ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito, ou seja, o tempo relacionado à eternidade e o espaço ao infinito.

Nesse contexto, o Codificador conduz o raciocínio para a origem do planeta, quando a Terra ainda não existia. Quanto ao tempo, ninguém poderia dizer em que época isso ocorreu, porque o pêndulo dos séculos ainda não havia sido colocado em movimento.

Pode-se dizer que a Ciência estuda o tempo material por meio de sua metodologia, mas o tempo espiritual está ligado à eternidade, que não tem começo nem fim, devendo considerar ainda nessa equação a imortalidade do Espírito, que teve início quando criado por Deus, mas não tem fim.

O tempo para os Espíritos é outro, não como o compreendemos para o corpo físico. A duração para eles pouco importa diante da eternidade, além disso não se pode comparar o tempo nos diferentes mundos em face de suas relatividades.

Ademais, Deus é eterno, não se sujeitando a qualquer tempo, e está presente em toda a parte do Universo. Diante da eternidade divina, o tempo terrestre tem consequência material, em que a nossa mente está presa à sucessão de coisas materiais. Contudo, há o tempo espiritual como instrumento de evolução rumo à perfeição, ou seja, Deus usa o tempo como instrumento de evolução na conquista dos bens celestiais que nos premiarão na eternidade.

Outro aspecto relacionado à idade é as fases da vida corporal, como a infância, a adolescência e a adulta.

Os Espíritos superiores, na questão 189, em O Livro dos Espíritos, dizem que “para o Espírito, como para o homem, também há infância. Em sua origem, a vida do Espírito é apenas instintiva. Ele mal tem consciência de si mesmo e de seus atos. A inteligência só pouco a pouco se desenvolve.” Isso porque “em toda parte a infância é uma transição necessária.” (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questão 183.)

No nascedouro, o Universo não se apresentou na plenitude de sua existência, porquanto nasceu criança e segue o seu destino percorrendo o infinito por toda a eternidade. A Terra também teve a sua infância, quando da sua formação no Sistema Solar.

Ao olharmos a Natureza, veremos as infâncias dos reinos vegetal e animal.

O Espírito também tem a sua infância, iniciando com a sua criação divina e desenvolvendo-se em jornadas evolutivas na busca da perfeição em pluralidade de existências. Na infância espiritual, o ser humano somente aplica a sua inteligência para sobreviver pelo automatismo dos instintos.

Da criação simples e ignorante, o Espírito começa sua jornada evolutiva na busca da perfeição em pluralidade de existências, porque sem a reencarnação não se pode atingir o aperfeiçoamento e a evolução espiritual, pois Deus a impõe com o fim de atingir a perfeição.

A alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acaba de depurar-se sofrendo a prova de nova existência. Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal.

Pela reencarnação, abrem-se novas oportunidades de aprendizado e renovação, propiciando impulsos evolutivos significativos, cujos benefícios indicam a manifestação da justiça e da misericórdia divinas, que não condenam o Espírito infrator ao sofrimento eterno. O Pai sempre deixa aberta a porta do arrependimento a seus filhos.

A infância do corpo físico não tem relação direta com a infância do Espírito, como podemos observar pela questão 197, em O Livro dos Espíritos: “Poderá ser tão adiantado quanto o de um adulto o Espírito de uma criança que morreu em tenra idade? A resposta é: “Algumas vezes o é muito mais, porquanto pode dar-se que muito mais já tenha vivido e adquirido maior soma de experiência, sobretudo se progrediu.”

Em continuação, Kardec indaga: “Pode então o Espírito de uma criança ser mais adiantado que o de seu pai?” A resposta é: “Isso é muito frequente. Não o vedes vós mesmos tão amiudadas vezes na Terra?”

Mais adiante, na questão 379: “É tão desenvolvido, quanto o de um adulto, o Espírito que anima o corpo de uma criança? ‘Pode até ser mais, se mais progrediu. Apenas a imperfeição dos órgãos infantis o impede de se manifestar. Obra de conformidade com o instrumento de que dispõe’.”

Assim, a idade do corpo físico é definida pela vida na Terra, enquanto encarnado, mas a idade espiritual está relacionada ao estágio evolutivo do Espírito, estendendo-se por toda a eternidade, diante da imortalidade do Espírito.

Juan Carlos Orozco

Fonte: Espiritismo na Rede

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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Jesus jamais transigiu com a impostura religiosa

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Jesus Cristo: origem, vida, evidência histórica - Mundo Educação

Imaginemos o dantesco panorama das eras apostólicas em que uma mulher foi flagrada em adultério. Adeptos da religião extrínseca, fanatizados pela sentença rigorosa da Lei judaica, arrancaram-na da cama e a arrastaram até o lugar em que Magno Rabino se encontrava. A adúltera gritava Clemência! Compaixão! enquanto era arrastada; seus indumentos iam sendo dilacerados e sua pele sangrava esfolando-se no chão rugoso.

Neste episódio, tradicionalmente conhecido por muitos cristãos, durante a estada terrena de Jesus, topamos com um dilema evidente entre a diferença do religioso escravo à religião extrínseca e o verdadeiro sentido moral da indulgência e da religiosidade intrínseca.

No episódio acima, percebemos a sustentação farisaica da religião extrínseca do castigo, do medo e da angústia, numa circunstância que são destacados religiosos prisioneiros aos aspectos formais da lei mosaica, completamente distantes do correspondente sentido da religiosidade intrínseca na sua essencial pureza de origem.

Nos códigos de Moisés, aquela mulher, pega em adultério, não encontraria nenhuma brecha de escape, precisava mesmo ser lapidada até à morte. Observa-se que diante da dura e inflexível lei escrita pelo patriarca do Monte Sinai, a veemência pelas normas e preceitos, com certeza, estavam acima do valor da vida humana.

Na verdade, os escribas e fariseus utilizaram aquela mulher, expondo-a perante a multidão, simplesmente, para a execução de seus pérfidos desígnios, que era conseguir pegar em flagrante Jesus em possível contradição dos seus Princípios Essenciais. Naquele contexto, compreendemos que a religião extrínseca dos judeus, no seu formalismo atroz, era induzir o homem a desempenhar o juízo implacável, o medo, a angústia e não a clemência. Obviamente desconheciam que a religião intrínseca (Cósmica) deve ter as suas estirpes estreitamente unidas ao amor, à justiça e a caridade.

A propósito o Mestre jamais transigiu com a impostura religiosa. A prova é que usou de todo o rigor com os escribas e fariseus, considerando-os puritanos camuflados de virtudes. Apesar disso, Jesus foi indulgente com as pessoas de “má vida”, com o bom ladrão, com as prostitutas e especialmente com aqueles que O insultaram e condenaram na cruz, dando a entender que ser religioso extrínseco (puritano) é mais degradante que ser adúltera, ladrão (Dimas), corrupto (Zaqueu)e cortesã (Madalena).

Em abreviada divagação sobre as religiões extrínsecas (dogmáticas), trazemos para discussão o artigo Cosmic religion de Albert Einstein, contido no livro Out of my later Years, onde é publicado as coerções das autoridades escravizantes e encarcerantes da religião extrínseca (sectária).

Einstein acerca-se da questão da religiosidade intrínseca como sendo a nossa comunhão perfeita com o Criador, sopesando a superfluidade dos procuradores intermediários do Senhor da Vida, habitualmente impondo práticas coativas, punitivas e negocistas de coisas “sacras”, sob o tacão das obrigações dos pactos impudicos.

No nível elevado de religião cósmica conseguimos nos conectar com liberdade nas coisas e circunstâncias mais profundas do Universo. Livres, construímos uma relação profundamente harmoniosa, a partir da qual nos abastecemos da energia amorosa do Criador da Vida.

Numa relação de subnível religioso Einstein denominou a religião do medo quando o homem teme a Deus e rende culto externo para ser supostamente protegido das adversidades da vida, alimentando sempre a insegurança e temor dos castigos do Deus extrínseco.

Noutro desnível de subserviência religiosa o Pai da Teoria da Relatividade denominou de religião da angústia aquela em que o homem é totalmente manipulado pelas castas sacerdotais dotadas de poderes para advogarem junto ao Deus antropomórfico alvitrando libertação das angústias sociais os seus seguidores.

Já no elevado nível da religiosidade intrínseca Einstein nomeia de religião cósmica. Recordando que os grandes gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por possuírem este senso de religiosidade intrínseca cósmica. Por não reconhecerem necessidades dos dogmas e muito menos um Deus concebidos a imagem humana.

Por isso, a religião dita tradicional abomina a religião cósmica sugerida por Einstein. Até porque, é precisamente entre os denominados heréticos de todos os tempos, afirma o Gênio da física, que encontramos homens que foram inspirados por essa elevada experiência religiosa cósmica, porém, foram considerados eventualmente pelos seus contemporâneos como ateus, ou até às vezes também como os santos.

Por este ângulo, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinoza se assemelham. Como pode o sentimento religioso cósmico intrínseco ser transmitido de uma pessoa a outra se ela destrói a noção limitante de Deus e a dogmática teologia humana?

Na perspectiva do Einstein a função mais importante seja da arte e da ciência consiste em despertar e manter vivo este sentimento de religião cósmica em todos os que sejam receptivos a Deus. O homem que está profundamente convencido da função universal da lei da causalidade não pode considerar a ideia de um Deus qual um ser mesquinho que interfere no curso dos acontecimentos mais comezinhos.

O homem que está profundamente convencido da função universal da lei da causalidade não cede espaço para uma religião do medo, nem mesmo uma religião social ou moral que o aprisiona. De modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem é regido pelo código moral de leis da consciência.  Por este motivo, historicamente a ciência foi incriminada de prejudicar a moral, contudo isso é um equívoco das religiões extrínsecas.

E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa hierarquizada, teológica e dogmática que impõe castigos para a mantença de falsas virtudes sob o tacão da angústia e o medo entre os homens.

Com a mulher adúltera Jesus tinha todos os pretextos para pronunciar: De hoje em diante sua vida me pertence, você deve ser minha discípula. Os líderes religiosos extrínsecos usam seu poder para que as pessoas os aplaudam e gravitem em sua órbita. Mas Jesus, apesar do seu descomunal poder sobre a mulher, foi desprendido de qualquer interesse. Vá e revise a sua história, cuide-se. Mulher, você não me deve nada. Você é livre!

O Mestre deu-nos o exemplo através do perdão, recomendando a ponderação da não reincidência pelo esforço da vigília “vá e não peques mais”. Assim, deu à adúltera a oportunidade de retomar o curso da vida, sob um novo roteiro de não mais prevaricar naqueles mesmos lapsos morais.

Allan Kardec ressalta que a autoridade para condenar está na razão direta da autoridade moral daquele que julga. (1) A advertência é para que não nos esqueçamos desse nosso compromisso com o Mestre, que no seu Evangelho deixou o código de conduta seguro para seguirmos adiante com firmeza e confiança: “faça ao outro aquilo que deseja seja feito a você”; “ame ao próximo como a si mesmo”; “não julgueis para não serdes julgados”.

Em síntese, o Espiritismo é a mais esplendorosa proposta do livre pensamento  e o mais possante apelo para o pleno exercício da religiosidade intrínseca.

Jorge Hessen

Fonte:

Referência: Artigos Espiritas Jorge Hessen

1 – Kardec Allan, O Evangelho segundo Espiritismo, Capítulo X, item 13

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Reencarnação: considerações Espíritas

Lívia Couto

“Já vivemos muitas vezes, estamos com as pessoas certas para ajustarmos os nossos corações e resolvermos os nossos problemas. Na reencarnação ninguém erra de endereço” (Chico Xavier).

A reencarnação é um conceito profundamente enraizado na perspectiva espiritual, ela é a crença de que a alma passa por uma série de vidas sucessivas em diferentes corpos físicos. Esta ideia transcende as fronteiras de várias religiões e tradições espirituais, sendo mais proeminente nas filosofias orientais e nas doutrinas espiritualistas, como o Espiritismo.

Allan Kardec, um dos principais estudiosos do Espiritismo, discutiu a reencarnação extensivamente em suas obras, como por exemplo, em “O Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns” e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, onde ele explora a reencarnação em detalhes, discutindo suas implicações éticas e filosóficas. Kardec enfatizou que a reencarnação é uma oportunidade para o crescimento espiritual contínuo, permitindo que a alma aprenda lições e evolua ao longo do tempo, argumentando que cada encarnação oferece uma chance de aprimorar virtudes, superar fraquezas e progredir em direção à perfeição espiritual (KARDEC, 2013). Logo, passamos por uma série de aprendizados em busca da evolução.

Outro autor influente e que precisamos destacar é Francisco Cândido Xavier, ou melhor, Chico Xavier, que por meio de suas comunicações mediúnicas trouxe mensagens de Espíritos que corroboravam a ideia da reencarnação como um processo educativo e regenerador. Ele defendia que as experiências passadas e a relação de causa e efeito entre as vidas são cruciais para o entendimento das adversidades enfrentadas em cada existência.

Assim, a visão espiritual sobre a reencarnação também se conecta com a referida Lei de Causa e Efeito, que sugere que as ações de uma vida têm consequências nas existências futuras. Este princípio reforça a ideia de que cada existência é uma oportunidade de equilibrar e purificar as ações passadas por meio do crescimento espiritual e da busca pela sabedoria (BACCELLI, 2000).

É preciso tratar a reencarnação não como um dogma, ou seja, aquilo que não deve ser discutido, mas devemos falar sobre a temática tanto em meio familiar, como social, já que se trata de uma Lei. Jesus deixou claro suas intenções com relação às Leis: “eu não vim derrubar as leis e sim fazê-las cumprir” (KARDEC, 2013, p. 44). Então, pelo Espiritismo, lembrando que esta é uma Doutrina que possui menos de 200 anos, podemos abordar o assunto e nos esclarecer, sanando nossas dúvidas. Não foi a Doutrina Espírita quem inventou, ou quem descobriu a reencarnação, mas foi ela que nos permitiu discutir e estudar sobre o assunto sem paradigmas e com auxílio fraterno.

A Doutrina Espírita faz crescer a importância de se falar sobre o tema, não apenas para compreensão prática, mas porque existe um motivo, uma justificativa. Reencarnar para que? Reencarnar por quê? Sabemos que é necessário para o processo evolutivo do Espírito, pois não conseguiremos atingir a plenitude que nós precisamos atingir em uma única encarnação, já que o nosso processo de desenvolvimento é lento. Assim, a discussão sobre o assunto nos ajuda também na compreensão da prática divina e no entendimento de graves problemas da humanidade.

Na perspectiva espiritual, a reencarnação oferece um contexto mais amplo para compreender a diversidade de situações e experiências humanas (KARDEC, 2013). Ela ajuda a explicar por que algumas pessoas parecem nascer em circunstâncias privilegiadas, enquanto outras enfrentam desafios significativos desde o início. Esta compreensão mais abrangente promove a empatia, a compaixão e a paciência diante das adversidades, considerando que cada indivíduo está em sua jornada única de aprendizado e crescimento espiritual.

Deste modo, a reencarnação é vista como um processo natural e contínuo, em que a alma passa por sucessivas encarnações em diferentes corpos físicos. Essas encarnações são vistas como oportunidades para o aprimoramento moral, intelectual e espiritual, permitindo que a alma aprenda com as experiências e evolua ao longo do tempo (KARDEC, 2013).

No contexto espírita, a reencarnação está intimamente ligada à Lei do Progresso e do livre-arbítrio, pois, com as múltiplas encarnações, a alma tem a oportunidade de aprender com suas ações passadas, redimir-se de erros e avançar em direção à perfeição espiritual. O livre-arbítrio é visto como uma ferramenta essencial neste processo, porque cada indivíduo tem a responsabilidade de fazer escolhas morais e éticas que influenciarão suas vidas futuras (BACCELLI, 2000).

Kardec nos demonstra que para nossa evolução é necessário nascer – morrer – renascer, sempre progredindo, assim é a Lei (KARDEC, 2022). Neste sentido, a Lei de Reencarnação possui duas bases imutáveis, uma seria a Misericórdia Divina com sua bondade e acolhimento, e cuja base principal é a justiça divina. Esta última explicaria o fato de estarmos na Terra e não em um mundo mais elevado, por exemplo. Com ela, descobrimos que ainda nos encontramos em um grau evolutivo no qual precisamos desta oportunidade que foi dada para nosso crescimento espiritual.

E para que possamos compreender esta jornada é preciso realizar nossa reforma íntima. Assim, não podemos fugir da “Lei de Amor”, ou seja, uma das principais lições que devemos aprender em nossa jornada é amar. Qual foi a lição que Jesus Cristo nos trouxe? A lição do perdão. É uma tarefa fácil? Não! Mas não é impossível e é necessária, mas só conseguiremos realizar essa tarefa agindo com amor. Para aprendermos a amar nós vamos precisar exercitar as nossas virtudes e com este exercício, conseguiremos alcançar o amor. Tais virtudes seriam a tolerância, a paciência, a benevolência, a humildade, a caridade, a capacidade de perdoar, por exemplo, e só as conseguimos praticando a reforma íntima.

Geralmente exercitamos estas virtudes no seio familiar, local que é a nossa base para aprendizagem, evolução e resgate de experiências passadas. Por muitas vezes, a família oferece um ambiente onde as almas se reúnem para cumprir compromissos e aprender lições necessárias para nossa evolução espiritual. Os familiares frequentemente desencadeiam situações que desafiam os membros a praticar a paciência, a compreensão, o perdão e a humildade, podendo também incentivar a prática de virtudes como o amor, a caridade, a solidariedade e o respeito mútuo, já que as dificuldades enfrentadas dentro da família oferecem oportunidades para cultivar a empatia e a compaixão.

A dinâmica familiar oferece ainda a chance de membros diferentes ajudarem uns aos outros em seus desafios pessoais, promovendo um conjunto de crescimento, já que cada membro tem a oportunidade de escolher suas ações, pensamentos e reações diante das situações cotidianas. Logo, as relações familiares oferecem oportunidades para aprender, evoluir, superar desafios passados ​​e presentes, além de cultivar o amor, a compaixão e a moralidade. Ao enfrentar as situações da vida em família, os indivíduos têm a chance de progredir espiritualmente em sua jornada rumo ao crescimento espiritual.

Com base em tudo que foi dito, percebemos que a reencarnação é um princípio central que fornece uma estrutura para compreender a jornada contínua da alma, suas experiências variadas e a busca pela evolução espiritual (KARDEC, 2022). Ela oferece uma visão otimista e esperançosa, enfatizando o poder do livre-arbítrio e da responsabilidade pessoal na busca pelo progresso moral e espiritual.

Em suma, a visão que o Espiritismo nos traz sobre a reencarnação é uma reflexão profunda sobre a jornada da alma através do tempo e das diferentes formas de vida. Ela ressalta a importância de aproveitar as oportunidades de crescimento, enquanto reconhece que cada vida é uma página em um livro maior do desenvolvimento espiritual. E como nos dizia Chico Xavier, e podemos assistir e ouvi-lo falar no documentário “Chico para Sempre”, a vida é muito mais do que uma simples contagem regressiva, por isso precisamos “amar sem esperar ser amado, sem esperar recompensa alguma, amar sempre” e fazer a caridade, pois assim alcançaremos nossa evolução.

Lívia Couto

Fonte: Letra Espírita

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Referências:

BACCELLI, Carlos A. Evangelho de Chico Xavier. Votuporanga, São Paulo: Editora Espírita “Pierre-Paul Didier”, 2000.

CHICO PARA SEMPRE. Direção: Wagner de Assis. Produção Documentários Cinética. Ancine: Agência Nacional do Cinema, Brasília, 2022. Disponível na Star+. (120 min.).

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, tradução de Guillon Ribeiro. 2013. Brasília/DF: Editora FEB.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. 2022. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita.

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Autismo e Espiritismo

Américo Domingos Nunes Filho

O que é Autismo? - Saiba o que é e Como Abordar

Como relacionar os dois? O autismo se caracteriza por um grave transtorno do desenvolvimento da personalidade, revelando uma perturbação característica das interações sociais, comunicação e comportamento. De uma maneira geral, a pessoa tem tendência ao isolamento, olhando de forma dispersa, sem responder satisfatoriamente aos chamados e demonstrando desinteresse pelas pessoas. O indivíduo, sem apresentar nenhum sinal físico especial, ostenta prejuízo severo de várias áreas da performance humana, acometendo principalmente as interações interpessoais, da comunicação e do comportamento global.

O paciente apresenta um sistema nervoso alterado, sem condições psico-neurológicas apropriadas para um adequado recebimento dos estímulos necessários, afetando seriamente seu desenvolvimento, exibindo incapacidade inata para o relacionamento comum com outras pessoas, como também desordens intensas no desenvolvimento da linguagem.

O comportamento do portador do transtorno autista é caracterizado por atos repetitivos (rotinas e rituais não funcionais, repertório restrito de atividades e interesses) e movimentos estereotipados, bem elaborados e intensos (saltos, balanceio da cabeça ou dos dedos, rodopios e outros). Podem, igualmente, ser observados alguns sintomas comportamentais como a hiperatividade, agressividade, inclusive contra si próprio, impulsividade e agitação psicomotora.

Até hoje esse distúrbio, permanente e severamente incapacitante, associado a algum grau de deficiência mental e acometendo mais o sexo masculino, é enigmático para a ciência, sem explicação convincente de sua causa e ausência de tratamento específico. Enquanto os pensadores se debatem em mil argumentos e justificativas, completamente envolvidos nas teias compactas da problemática síndrome, qual a contribuição que pode ser concedida pela ciência do espírito?

Einstein, certa feita, disse que “a ciência sem religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. O espiritismo se apresenta como uma religião natural, desprovida da presença do absolutismo sacerdotal, sem submissão a rituais e dogmas, apta a dar apoio e controle à ciência, completamente presa às leis da matéria e impossibilitada sozinha de explicar os mais misteriosos fenômenos.

Em verdade, a doutrina dos espíritos e a ciência humana se complementam uma pela outra. O excelso codificador do espiritismo, Allan Kardec, enfatizou que as descobertas da ciência glorificam Deus em lugar de diminuí-Lo e elas não destroem senão o que os homens estabeleceram sobre idéias falsas que fizeram Dele (“A Gênese”, pág. 40, FEB).

Sabemos, por exemplo, que a ciência dos homens se mantém estática diante do fenômeno da morte, completamente inerte e impotente, enquanto a ciência espírita transcende ao acontecimento, indo mais além, explicando tudo o que ocorre nos domínios do extrafísico, encarando o fenecimento do corpo físico como um acontecimento natural, sabendo que a individualidade espiritual ressurge na verdadeira pátria como um pássaro liberto da prisão. Na realidade, já bem antes, precisamente nos trâmites do fenômeno da fertilização do óvulo, precedendo ao nascimento, todo o processo científico extrafísico é do conhecimento da ciência espírita, inclusive respondendo algumas questões misteriosas, sem respostas objetivas da biologia: “Como é que os genes, situados numa molécula protéica, podem manipular e ordenar a si próprios?”. “Como proteínas podem demonstrar sabedoria, regulando a formação de outras proteínas?”. “Como pode uma proteína ter tanta capacidade de comando específico e brilhante?”. ‘‘Como podem apenas 30 mil genes produzir mais de cem mil proteínas?”. Sabendo que cada gen pode produzir três, quatro até cerca de dez proteínas, como sabe qual a proteína certa que tem que formar?”.

À nível microscópico, um efeito inteligente biológico não pode ser consequência de uma coisa aleatória que surgiu por acaso, apenas resultante do trabalho casual de proteínas específicas. O corpo humano, constituído de mais de cem trilhões de células, não pode ser fruto do acaso, ainda mais que é resultante de uma única célula (ovo ou zigoto). Tem que existir um fator, orientando tudo isso, uma diretriz, um gerente maior, um campo organizador da forma. Comparando o corpo humano a um bolo, o DNA (Ácido Desoxirribonucléico), constituinte dos genes, seria uma espécie de receita e o bolo seria produzido de acordo com as instruções da receita. O espírito é o artífice de todo o processo (genial confeiteiro, utilizando a receita e preparando o bolo). Portanto, o DNA corresponde a uma fita programada e aperfeiçoada nos bilhões de anos de evolução, sob as diretrizes do grande programador: A Essência Espiritual.

O corpo humano está subordinado às informações ou ordens dos genes, os quais não são os exclusivos mentores do maravilhoso processo biológico da vida, desde que há, em verdade, um Poder Inteligente que orienta a formação do ADN e permite repará-lo quando necessário. Logo após a fecundação, a entidade reencarnante, de acordo com sua sintonia evolutiva, grava o seu código cifrado vibratório na matéria, atuando sobre o ADN. Portanto, todas as transformações físicas, químicas, orgânicas, biológicas, de todas as células são orientadas e dirigidas pelo espírito que preside a tudo, funcionando o corpo como um grande computador biológico.

Interessante e importante o conhecimento científico de que os genes exercem um poder incrível, como que dotados de inteligência, sabendo muito bem o que estão fazendo. Por exemplo, a bananeira não dá limão. Por que a mama não produz lágrima? Ela fabrica leite. Imaginem se suássemos leite materno? O organismo tem conhecimento de que, na mama, por exemplo, tem que desligar os genes que causam o suor e ligar os genes que produzem o leite. Quem é o responsável por esse extraordinário e perspicaz processo biológico? Como uma proteína pode despertar outra proteína? Quem lhe ensinou a tarefa? As respostas são fornecidas pela ciência espírita, atestando que Deus existe e que a individualidade espiritual, o espírito imortal, diante do universo, retorna em diversas existências, aprimorando-se, sendo responsável causal da gerência dos processos biológicos, sendo, inclusive, “o campo organizador da forma” ou “planta de construção”, na embriogênese, mentor da constituição do organismo, a partir de apenas uma célula, arquitetando a formação dos tecidos e órgãos do corpo físico.

A doutrina espírita ensina que somos artífices do nosso próprio destino (o acaso não existe). Quando nascemos com alguma deformidade, em verdade a mesma já existia antes em espírito, porque a criamos dentro de nós, em determinada vivência física. Então, o espírito é responsável por tudo que pensa e faz, subordinado à Lei de Causa e Efeito, divina por excelência. Se tivermos algo a expiar, a distonia arquivada, em nosso envoltório espiritual, propiciará a escolha da fita compatível e sua posterior gravação. Então, plasmamos em nosso ADN a informação codificada que trazemos em espírito; sendo, portanto, nossas deficiências originadas de nós mesmos, nunca obra do acaso e muito menos predeterminadas por uma divindade vingativa. Somos hoje o que construímos ontem: “A cada um segundo as suas obras”.

Ninguém nasce autista por acaso. A Justiça Divina é misericordiosa por excelência, propiciando ao infrator as benesses da retificação espiritual. Algumas teses espiritualistas relatam que o comportamento autista é decorrente do fato de o espírito não ter aceitado sua reencarnação. O Livro dos Espíritos, na questão 355, ensina que a aliança do espírito ao corpo não é definitiva, porquanto os laços que ao corpo o prendem são muito fracos, podendo romper-se por vontade do espírito, se este recua diante da prova que escolheu. Portanto, o espiritismo instrui que, nos casos de não aceitação da reencarnação, mediante o seu livre-arbítrio, a entidade se retira e acontece um aborto, denominado, pela ciência, de espontâneo.

Os déficits cognitivos severos, associados às profundas alterações no inter-relacionamento social, caracterizam o autista, apresentando uma forma de identificação profundamente diferente, resultante do mau uso das faculdades intelectivas, em existências anteriores, errando o ser, exatamente na dissimulação das emoções, estabelecendo relações afetivas baseadas no engodo, no fingimento, para manter suas posições sociais abastadas, no campo do poder social, igualmente na sedução sexual, utilizando o disfarce, a aparência enganadora, cobrindo com uma máscara psicológica a sua verdadeira personalidade, representando uma personagem falsa, enganando os circunstantes para auferir vantagens. Quantos indivíduos, exercendo cargos religiosos, políticos, militares e policiais, sem a preocupação de ajudar o próximo, assoberbados de vantagens pessoais, preocupados apenas com o seu próprio bem-estar, apresentam-se como falsos líderes, ludibriando a muitos, mas não conseguindo enganar a si próprios.

Na Parábola dos Talentos, Jesus alude aos que usaram seus dons, atributos, sem benefício para os semelhantes e, atormentados, posteriormente, pelo remorso, refletem um sofrimento que parece não ter fim (imagem simbólica do “fogo eterno”), recebendo a sentença que ressoa nos refolhos mais íntimos da consciência: “até o pouco que tem lhes será tirado”.

O indivíduo autista representa alguém necessitado de muita atenção, carinho e amor, vindo ao mundo físico, em uma reencarnação essencialmente expiatória, totalmente desprovido do controle de suas emoções, com prejuízo acentuado na interação social, não desenvolvendo relacionamento eficaz com seus pares, fracasso marcante no contato visual direto, na expressão facial, na postura corporal, na tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas. Está agora sujeito às conseqüências de seus atos impensados do pretérito. De tanto não conceder o devido respeito às pessoas e de não conceber que os seres pensam e tem sentimentos, retorna com déficit e prejuízo da empatia, com intensa dificuldade de construir vínculos, sem se sentir atraído pelas pessoas e sem interesse em tentar falar, considerando o rosto humano muito complexo e confuso, difícil de se olhar. No pretérito, a todo o custo, buscava a fama, a glória, o entusiasmo dos aplausos, o ardor dos cumprimentos e abraços; hoje, com aparência desorientada devido a uma expressão sem emoção, vivencia experiências caóticas, com dificuldade imensa de estar fora do seu casulo particular, principalmente quando ouve o ruído de um grupo de pessoas, causando acentuada confusão nos seus sentidos, sem saber distinguir os estímulos e, muitas vezes, aguçada dificuldade em relação à sensibilidade tátil, sentindo-se sufocado com um simples aperto. Contudo, “Deus é Amor”, proporcionando ao espírito imortal, diante da eternidade, a oportunidade da redenção espiritual.

Quando retornar à dimensão extrafísica, apresentar-se-á curado, sem mais o remorso lhe assenhoreando o íntimo, vivenciando a paz e agradecendo a valiosa oportunidade, dispensada a si próprio, de agora poder valorizar a utilização dos dons da comunicação e o talento do carisma, visando o bem estar do próximo e o seu próprio crescimento espiritual. A chance de ter tido uma existência difícil, quando se entretinha, enfileirando brinquedos e objetos, particularmente, pauzinhos, caixinhas, peças coloridas para encaixe, despertou dentro de si o potencial da humildade. Captando paulatinamente as vibrações amorosas de seus pais, familiares, amigos e abnegados terapeutas, assimilando-as intensamente, a carapaça da empáfia desabou e descobriu em plenitude o amor. Afinal, somos herdeiros do infinito e estamos ainda iniciando nossa jornada evolutiva no rumo das estrelas grandiosas e incomensuráveis do universo.

OBS.: Dedico esta matéria a todos os que, na presente reencarnação, vivenciam a experiência valiosa do autismo, principalmente à minha querida filha Sofia, com seis anos de vida, renascendo no meu lar, acometida do mesmo transtorno. Agradeço a Deus pela oportunidade, concedida a meu espírito, de estar compartilhando com ela momentos tão difíceis, exaustivos e angustiantes; contudo, entremeados de atenção e de amor. A reencarnação, divina por excelência, me permite a chance maravilhosa de estar com ela novamente e de crescermos, agora, juntos, sob as bênçãos do Excelso e Amado Pai.

Autismo infantil 

1) As causas do autismo permanecem desconhecidas, havendo forte indício de fatores genéticos;

2) A incidência do transtorno está aumentando significativamente no mundo. Em cada 1000 crianças, uma é portadora da síndrome. Nos EUA, é apontado um autista para 500 infantes, já superando os índices da S. de Down e do câncer infantil. As taxas são 4 a 5 vezes superiores para o sexo masculino; entretanto, as crianças do sexo feminino são mais propensas a apresentar um retardo mental mais severo;

3) Em 1943, foi descrita pela 1ª vez pelo psiquiatra Leo Kanner, descrevendo a condição especial de 11 crianças;

4) Cerca de 70% dos pacientes possuem algum nível de retardamento mental;

5) Há necessidade premente do diagnóstico precoce para uma ajuda multidisciplinar mais eficiente. Deve-se suspeitar de bebês que choram demais ou se apresentam muito quietos. Dormem pouco ou dormem demais, passando do horário das refeições. Não atendem quando chamados, parecendo surdos. Aversão ao toque. Não suportam colo. Não demonstram emoção para com as pessoas. Interessam-se mais por objetos do que por pessoas. Crianças que têm pouco contato visual, não olhando para os rostos das pessoas.

Américo Domingos Nunes Filho

Fonte: Correio Espírita

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Sobre os perigos da leitura

Rubem Alves

Nos tempos em que eu era professor da Unicamp, fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento.

Dizer “esse entra, esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimento de culpa. Como, em 20 minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.

Os candidatos amontoavam-se no corredor recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante. Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!”.

Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamo-nos por aquilo que ele pensava. O candidato poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre o que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!

A reação dos candidatos, no entanto, não foi a esperada. Aconteceu o oposto: pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso, eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos —ah, isso não lhes tinha sido ensinado!

Na verdade, nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes.

Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer. Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo é confundir o candidato. Por vias das dúvidas, ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…”. Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.

Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura.

O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem ler “Grande Sertão: Veredas” em pouco mais de três horas. Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante”.

Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro, e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental”. Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura, nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria. Esse, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo”.

Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro, eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando, eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo —o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem-dotadas que, aos 30 anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo, ler um livro é simplesmente algo depravado…”

E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos…

Rubem Alves

Rubem Alves, 70, é escritor e educador, autor de “Conversas sobre a Educação” (Verus), “Quando Eu Era Menino” (Papirus) e “Livro sem Fim” (Loyola), entre outros.

Fonte: FOLHAONLINE

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