Humildade, a chave para o nosso equilíbrio

Não fazemos ideia do que a humildade significa para o desenvolvimento do ser humano e o quanto é importante compreendê-la e praticá-la em seu verdadeiro significado. O ser humano dotado de inteligência e dons que lhe permitem realizar tantas maravilhas no ramo da ciência e do conhecimento, capaz de resolver intrincados problemas de Matemática, Física, Química e Ciências, em geral, não consegue solucionar o mais íntimo de seus problemas: a ausência de humildade. Parece que existe um engessamento mental impedindo a criatura de encontrar a chave para todas as suas questões pessoais. Essa trava impeditiva chama-se orgulho.

Você já observou que a natureza, expressão viva de Deus, nos concede lições de humildade em todas as suas nuances? O sol brilha igualmente para todos, até para um pântano pestilento, sem reclamar da sua lama; filtrada na aspereza da rocha, a água se revela mais pura; e após a grande tempestade, o campo verdejante reaparece a fim de que o homem recomece a lida na terra.

Não resta dúvida de que a falta de humildade tem sido o motivo de muitas doenças e desequilíbrios psíquicos que vêm assolando as criaturas humanas. A cada dia, tenho mais certeza de que a humildade é a chave deixada por Jesus para abrir essa trava mental que afasta o ser humano da felicidade. Por mais que sejamos inteligentes, somente a humildade e a brandura de coração nos levarão a aceitar nossas fraquezas e limitações e a perceber uma força maior que nos conduzirá às respostas além do permitido pelo intelecto comum.

A falta de humildade, conforme citação de Emmanuel (2013, cap. 24) no livro Pensamento e vida, “converte a própria alma em cidadela de ilusão, dentro da qual se recusa ao contato com as realidades fundamentais da vida”. A criatura crê que tudo possui: os títulos, a inteligência, a atenção de outras pessoas, a vida daqueles que ama e assim por diante. Nesse clima mental, a “[…] alma acolhe facilmente o desespero e o ciúme, o despeito e a intemperança, que geram a tensão psíquica, da qual se derivam perigosas síndromes na vida orgânica, a se exprimirem na depressão nervosa e no desequilíbrio emotivo, na ulceração e na disfunção celular […]” (Emannuel, 2013, cap. 24).

Ser humilde não é fácil. Estamos tateando nessa área. No entanto, tenho certeza de que vale muito a pena ouvir o nosso eu verdadeiro no qual se concentram os motivos divinos pelos quais fomos criados, sem as roupagens que vestimos para exercer os diversos papéis nesta existência. Assim, perceberemos que não estamos aqui para competir, para sermos reconhecidos, apreciados e respeitados segundo as normas humanas.

A autenticidade e a boa vontade para conosco e para com os nossos semelhantes é um caminho seguro para obtermos o equilíbrio que a humildade é capaz de nos trazer. Só para elucidar o que estou tentando transmitir para você, vou contar um fato que aconteceu a uma amiga há alguns anos.

Maria estava vivenciando uma fase espetacular na sua carreira profissional, ocupava cargo de relevância conseguido pelos seus méritos e sua competência. Entretanto, quando uma nova gestão assumiu a organização em que ela trabalhava, a destituíram do cargo de comando. Maria ficou desnorteada, pois estava empenhada na realização de projetos muito interessantes e inovadores.

Logo foi convidada a trabalhar em outra empresa, que estava em fase de implantação. Nesse novo local, tudo estava por fazer, e Maria, que até então comandava uma equipe, com secretária, assistentes e todas as condições de trabalho, viu-se sem nada disso, nem computador havia disponível para ela. Essa reviravolta feriu o ego de Maria, mas hoje ela afirma, convicta, que o aparente transtorno foi a melhor coisa que lhe aconteceu. Afinal, teve a grande oportunidade de olhar para dentro de si e descobrir o seu eu verdadeiro, para o qual pouco importavam o status, o título e o poder.

Maria aprendeu o valor do servir e do renovar-se, pois passou a vivenciar com humildade cada oportunidade que teve após o que lhe aconteceu. Percebeu que a dor daquele primeiro momento era vazia porque derivava tão somente do orgulho ferido, não era real. Com certeza, a humildade adquirida a fez crescer em todos os sentidos.

Segundo Emmanuel, ao contrário do que muitos acreditam, “humildade não é servidão. É, sobretudo, independência, liberdade interior que nasce das profundezas do Espírito, apoiando-lhe a permanente renovação para o bem”.

Referência

EMMANUEL (Espírito). Pensamento e vida. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 19. ed. Brasília, DF: FEB, 2013.

Fonte: Humildade, a chave para o nosso equilíbrio – Jornal

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Como o Espiritismo contribui para uma compreensão profunda da fé?

Luciane Soek

ree

O Espiritismo contribui para uma compreensão profunda da fé ao propor uma abordagem racional e lógica sobre ela. Diferente de uma fé cega, baseada apenas na aceitação de dogmas, o Espiritismo codificado por Allan Kardec, defende uma fé raciocinada, ou seja, uma fé que se apoia na razão, na observação e na coerência com os ensinamentos morais de Jesus.

 

“Fé é um sentimento inato dos seus destinos futuros, é a consciência das grandes faculdades depositadas em germe no seu interior, a desabrochar e crescer pela ação da vontade. A fé raciocinada não rejeita a razão. Fundamenta-se na verdade, não compactuando com a mentira. Diverge na fé cega, que tudo aceita” (FREIRE, on-line, 2021).

 

Fé não é só acreditar em Deus, é uma força viva e transformadora.

 

O livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, em seu capítulo 19, nos ensina:

 

“Pode a fé ser raciocinada ou cega. Nada examinando, a fé cega aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao excesso, produz o fanatismo.

Já a fé raciocinada, se apoia sobre os fatos e a lógica” (KARDEC, 2023, p. 232).

 

A fé inabalável, segundo o Espiritismo, não é ausência de dúvidas momentâneas, nem negação da dor. É antes, a capacidade de manter a confiança no Bem Maior mesmo quando tudo à volta parece desabar. Ela não se desespera diante das provas da vida, porque compreende que tudo tem um sentido e um tempo certo no Plano Divino.

 

A fé verdadeira é a força que nos move, luz que inspira e poder que nos capacita a tornar possível o que, aos olhos da dúvida, parecia inalcançável.

 

É preciso cultivar em nossos corações uma fé serena, que não se abala diante dos desafios nem recua diante dos obstáculos que a vida nos apresenta. A fé raciocinada é aquela que caminha lado a lado com a razão, uma fé que busca compreender, que se aprofunda no saber, que questiona, reflete e se fortalece no entendimento.

 

A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem se vençam os obstáculos, assim nas pequenas coisas, que nas grandes. Da fé vacilante resultam a incerteza e a hesitação de que se aproveitam os adversários que se têm de combater; essa fé não procura os meios de vencer, porque não acredita que possa vencer” (KARDEC, 2023, p. 232).

 

O Espiritismo nos ensina que a fé não deve ser imposta, mas construída pelo entendimento. Através do estudo das Leis Espirituais, da reencarnação, da evolução moral e da comunicabilidade dos Espíritos, o indivíduo começa a compreender os “porquês” da vida, e essa compreensão fortalece a fé.

 

A fé raciocinada nos dá lucidez para “vermos” a meta que queremos alcançar e os meios de chegar lá. É sempre calma e verdadeira. Desperta a vontade e o desejo de agir. Ela dá coragem, esperança e persistência, transformando a pessoa em um agente ativo de mudança.

 

A fé raciocinada baseada em fatos e lógica, conduz a certeza, a paciência e a esperança.

 

Como fortalecer a nossa fé?

 

Com esforço, estudo, reflexão e prática diária. Reserve um instante para a prece sincera. Busque luz nas obras de Kardec e em tantas outras que edificam a alma. Reflita com o coração aberto sobre os ensinamentos e permita que eles floresçam em sua vida. Viva a caridade em gestos simples e cultive o amor ao próximo como caminho de transformação e fortalecimento da fé.

 

Caro leitor, vamos refletir:

Você tem exercitado uma fé raciocinada ou apenas repetido crenças sem refletir?

Diante das dificuldades, você costuma buscar força em sua fé e vontade?

Como você pode aplicar sua fé no dia a dia para superar obstáculos?

 

Que o Mestre Jesus nos envolva com sua luz e que possamos a cada dia buscar essa fé inabalável que tanto precisamos.

 

Fonte: Letra Espírita

===========

Referências:

BATISTA, José. O poder transformador da fé segundo o Espiritismo. Blog Espiritismo em Foco. Disponível em: https://espiritismoemfoco.com/o-poder-transformador-da-fe-segundo-o-espiritismo/. Acesso e: 21/04/2025.

CARVALHO, Evelyn Freire de. Fé, qual a visão espírita? Disponível em: https://youtu.be/TzaYtf-EUBk?si=GVYmWvhcKaMvpDu5. Acesso em: 21/04/2025.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2023.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Mente além do cérebro: evidências, hipóteses a serem testadas e propostas de pesquisa

Acaba de sair o editorial que o Professor Alexander Moreira-Almeida, Marianna de Abreu Costa e Humberto Schubert Coelho escreveram para o número especial “Mente Alem do Cérebro”, publicado pela International Review of Psychiatry!

O editorial dá uma panorama dos 12 artigos, escritos por 16 autores de 6 países.

Entre eles, muitos dos principais pesquisadores no mundo em EQM, experiências de final de vida, mediunidade, alegadas memórias de vidas passadas e experiências anômalas, bem como suas investigações filosóficas e históricas.

Bruce Greyson, van Lommel, Etzel Cardeña, Jim Tucker, Chris Kerr, Andreas Sommer, Gregory Shushan e vários outros.

Também conta com os brasileiros Tais Oliveira (@tosilva83), Bruno (@bruno_researcher), Marina Weiler (@marinaweiler2).

Acesse – InternatIonal revIew of PsychIatry – https://doi.org/10.1080/09540261.2025.2518721

Artigo:

O que é a mente e qual é a sua relação com o cérebro? A mente é um produto da atividade eletroquímica do cérebro, ou o cérebro é uma ferramenta para a manifestação da mente, uma mente que existe além do cérebro? (Penfield et al., Citation 1978). Esta é provavelmente a faceta mais crucial do problema mente-cérebro (MBP), com implicações críticas para a teoria, pesquisa e prática clínica em psiquiatria e psicologia (Coelho, Citation 2024a ; Costa & Moreira-Almeida, Citation 2025 ; Jaspers, Citation 1963 ; Kendler, Citation 2001). De fato, as consequências ontológicas da decisão se nossa consciência e caráter são produtos da fisiologia e do ambiente do cérebro, ou se são algo (pelo menos parcialmente) independente dele, é mais relevante para a visão de mundo, ações e preocupações existenciais do que qualquer outra questão. No entanto, a questão crucial do MBP é muitas vezes negligenciada ou assumida como já resolvida em uma perspectiva reducionista fisicalista (ou seja, a mente é um produto cerebral) (Moreira-Almeida et al., Citation 2018), uma questão como esta questão pretende enfatizar, de uma séria falta de educação filosófica por muitos cientistas.

No entanto, como esta questão mostra, o MBP está longe de ser uma questão resolvida. A resposta fisicalista ao MBP não foi aceita por muitos pais fundadores da neurociência (por exemplo, Sir Charles Sherrington e Wilder Penfield) e da psicologia científica (Wilhelm Wundt e William James) – para não mencionar os filósofos em geral, que têm desenvolvido argumentos a favor do espiritismo / idealismo desde o nascimento do pensamento racional – e ainda não é por uma parte substancial de psiquiatras contemporâneos e pesquisadores de saúde mental (Bourget & Chalmers, Citation 2014; Costa & Moreira-Almeida, Citation 2025Citation2024). Além disso, e mais importante, um corpo robusto de evidências desafia diretamente a ideia da mente como um produto do cérebro. Essa evidência vem de estudos científicos de uma ampla gama de experiências humanas, muitas vezes chamadas de “anômalas”, como telepatia, experiências fora do corpo e quase-morte, relatos de percepções de pessoas mortas e supostas memórias de vidas passadas. Essas experiências não são anômalas no sentido de serem incomuns. Na verdade, a maioria dos seres humanos tem essas experiências, que são “anômalas” apenas no sentido de estar em desacordo com as perspectivas fisicalistas da natureza humana e do MBP (Cardenha et al., Citation 2014).

No entanto, a maioria das pessoas (incluindo as do ambiente acadêmico) não sabem que essas experiências não comuns (muitas vezes também chamadas espirituais, anômalas, psíquicas, paranormais, etc.) foram rigorosamente investigadas cientificamente por mais de 150 anos. Além disso, ao contrário das expectativas de muitos, não é claro que essas experiências possam ser adequadamente explicadas por hipóteses convencionais como fraude, distúrbios perceptivos ou cognitivos, estudos de baixa qualidade, etc. Pelo contrário, muitos estudiosos (incluindo os editores e os autores desta edição) consideram que este longo esforço de pesquisa produziu evidências robustas de que falsifica visões fisicalistas do MBP e sugere uma mente além do cérebro.

Finalmente, os elementos de capital da PAM são filosóficos e não podem ser abordados sem um envolvimento mais sério com o pensamento abstrato, o escrutínio metodológico e as definições menos instrumentais. Infelizmente, mesmo as áreas científicas que exigem especificamente definições abstratas e conceituação metafísica, como o florescimento humano, os estudos da consciência, a psiquiatria, a psicologia ou a espiritualidade e a saúde, ficam aquém das definições adequadas para os objetos que eles deveriam abordar (mente, consciência, personalidade, florescimento, espiritual e tal). Como consequência, “um parágrafo ou menos”, definições instrumentais e muitas vezes ingênuas distraem os leitores do fato de que a própria base para o que é apresentado em um artigo científico é vaga ou obscura. Alguns dos artigos nesta edição mostrarão exatamente como essa superfluidade dos conceitos fundamentais prejudica as ciências da saúde em geral.

Considerando a lacuna existente significativa na tradução desse conhecimento para clínicos e pesquisadores em todo o mundo, o objetivo principal desta questão é apresentar uma breve, mas abrangente visão geral do estado da arte do estudo científico dessas experiências sugestivas de uma mente além do cérebro, e por que as disputas / posições culturais ou filosóficas (ou a falta delas) podem definir a maneira como muitos pesquisadores preferem evitar o assunto. A comunidade científica dominante tem manifestado um interesse crescente neste tópico. Recentemente, a Springer Nature publicou o livro ‘Ciência de vida após a morte’, escrito pelos editores da presente edição (Moreira-Almeida, Costa, Coelho, Citation 2022). Até onde sabemos, esta foi a primeira vez que uma editora científica líder mundial publicou um livro discutindo as evidências científicas para a sobrevivência da consciência após a morte corporal. Logo depois, a Associação Americana de Psicologia publicou um livro sobre o mesmo tema (Baru’s, Citation 2024). Ambos os livros concluíram que a evidência apoia fortemente o conceito de uma mente além do cérebro que sobrevive à morte corporal. A questão atual é um passo à frente na discussão das evidências para a mente além do cérebro, diagnosticando causas conceituais e culturais para mal-entendidos-chave sobre o assunto, propondo hipóteses a serem testadas e diretrizes para estudos futuros para avançar nossa compreensão do MBP. Até onde sabemos, é a primeira vez que um periódico de psiquiatria dedica uma questão inteira a esse tópico. Estamos honrados com esta oportunidade concedida pelos editores da revista, os professores Dinesh Bhugra e Matthew Peters. Estamos entusiasmados com o fato de muitos dos principais líderes acadêmicos da área aceitarem nosso convite para colaborar em trabalhos sobre esse assunto, escrevendo sobre seus tópicos específicos de especialização. Assim, nossos leitores terão acesso ao melhor que foi produzido sobre a fundamentação ontológica e metodológica do debate, sobre as evidências e as implicações de experiências não comuns para o MBP.

Esta edição contém 12 artigos de 16 autores de seis países.

Começamos com trabalhos que fornecem antecedentes históricos e filosóficos para uma discussão médica e científica bem informada sobre experiências espirituais / anômalas, e as implicações éticas e clínicas práticas das diferentes visões sobre o MBP, bem como algumas observações críticas sobre erros metodológicos e conceituais fundamentais comuns aos esforços médicos e psicológicos.

O historiador da ciência Sommer (Citação 2024) limpa o campo, desconstruindo os mitos históricos mais amplamente difundidos sobre as investigações científicas das experiências espirituais, especialmente mediunidade. Muitas vezes é mantida e espalhada como um fato claro que, desde o Iluminismo, foi cientificamente comprovado que a mente é um produto da atividade cerebral, por isso não pode sobreviver à morte corporal. Essa visão seria um consenso científico negado apenas por aqueles cientificamente analfabetos, mentalmente perturbados ou de caráter fraco, motivados por wishful thinking. Esses mitos, apesar de serem claramente refutados pelo melhor da história atual da ciência, ainda são muito prevalentes tanto no público geral quanto no acadêmico. Esperamos que este artigo contribua para traduzir essas principais descobertas históricas além dos círculos dos historiadores da ciência.

Também é muitas vezes assumido que experiências espirituais, como experiências de quase morte (EQM), são basicamente construções culturais enraizadas nas crenças predominantes do ambiente de uma pessoa. No entanto, o antropólogo e estudioso da religião Shushan (Citação 2024) investigou semelhanças e diferenças transculturais ao longo dos relatórios da EQM por décadas. Eles mostram muitas semelhanças fenomenológicas, como o sentido de ir para outro reino, encontrar parentes falecidos ou outros seres espirituais, e um sentimento de paz. Também é quase universal que as EQMs tenham um profundo impacto nas crenças e vidas dos experimentadores, uma vez que eles interpretam maciçamente essas experiências em termos espirituais, como um vislumbre real da vida após a morte. Por outro lado, há variações transculturais em algumas características e interpretações das EQMs. Shushan discute as implicações dessas semelhanças e discrepâncias para interpretações materialistas e não-fisicamenteistas de EQMs e outras experiências espirituais.

Do ponto de vista lógico, a maioria das pesquisas sobre o PAM nem sequer alcança a coerência conceitual, uma vez que erros fundamentais e usos indevidos de conceitos metafísicos levam cientistas e clínicos a discursos que são contraditórios desde suas raízes. Em seu artigo, o filósofo e estudioso das religiões Humberto S. Coelho (Citação 2024a) desenvolve uma análise dos erros conceituais centrais e mais prejudiciais da medicina. Como é geralmente o caso em qualquer campo, esses erros envolvem ambiguidade e/ou imprecisão de conceitos metafísicos, os responsáveis por descrever a própria natureza dos objetos analisados pela pesquisa científica. O autor identifica as três concepções de MBP: materialismo (a matéria é anterior à mente/espírito); dualismo (matéria e mente são iguais); e o espiritismo/idealismo (mind/espírito é anterior à matéria), argumentando que o dualismo é a opção menos racional, e que seu principal objetivo no discurso científico é dignificar o materialismo. Consequentemente, a encenação de um debate entre o materialismo e o dualismo serve como uma falácia de palha na qual as posições materialistas são favorecidas pela disputa com um oponente excepcionalmente fraco. O autor defende que qualquer tentativa séria de abordar a PAM deve lidar com os pressupostos metafísicos que definem a maior parte da discussão a seguir, incluindo a discussão sobre a possibilidade e relevância das evidências disponíveis que impactam nossos modelos da relação mente-cérebro.

Mas quais são, se houver, as implicações práticas para os diferentes pontos de vista sobre o MBP? Muitos médicos e cientistas pensam que esta é uma discussão puramente teórica e muitas vezes inútil. No entanto, os psiquiatras Costa e Moreira-Almeida (Citação 2025) revisam as evidências que apontam para uma ampla gama de ética (liberdade pessoal, responsabilidade, capacidade de resistir a impulsos antissociais, etc.) e implicações clínicas para a psiquiatria (busca por causas e escolha de tratamentos para transtornos mentais, atitude e estigma dos pacientes). Evidências mostram que o dualismo é mais prevalente (mesmo entre os acadêmicos) do que muitas vezes assumido e que os alegados fisicalistas frequentemente pensam de maneira dualista quando se lida com situações práticas. Um ponto importante é que muitos clínicos e pesquisadores não estão cientes de sua própria perspectiva sobre o MBP, uma perspectiva que molda sua percepção e comportamento. Esses achados destacam a necessidade de mais discussão direta e pesquisa sobre as diferentes perspectivas sobre o PAM. Esperamos que esta questão contribua para resolver esta lacuna.

Depois de apresentar o contexto histórico e filosófico, bem como as implicações práticas da PAM, a questão traz seis artigos que fornecem um resumo bastante abrangente do estado da arte da evidência para as principais experiências humanas que foram cientificamente investigadas para a possibilidade de indicar a ação mental ou sobrevivência além do cérebro.

Cardea (Citação 2025) revisa as amplas evidências fornecidas por várias meta-análises de estudos controlados que apoiam a existência de fenômenos psi (parapsicológicos), como telepatia, clarividência e precognição. Os tamanhos de efeito foram semelhantes aos fatores de psicologia, medicina e neuroimagem bem estabelecidos. Essas descobertas não podem ser descartadas com base em relatórios seletivos ou baixa qualidade metodológica. Ele conclui pela realidade dos fenômenos psi, mas reconhece que estamos longe de entender sua natureza e o que ela revela sobre o MBP.

Experiências fora do corpo (OBE) são outra experiência muito prevalente que ocorre em várias situações, como espontaneamente, durante a meditação, ou em pacientes gravemente doentes. No entanto, é notável o quão pouca pesquisa sistemática tem sido feita sobre essa experiência frequente. Weiler e Acunzo (Citação 2024) revisam as possíveis implicações da OBE para o MBP. Eles começam a discutir a hipótese de que essas implicações são menores e OBE seria apenas um produto de disfunção neural ou sensorial. Em seguida, eles revisam várias evidências que desafiam essa visão, sugerindo que a OBE pode indicar que a mente pode não estar confinada ao cérebro, sendo capaz de acessar informações que não passam por ela e até persistir após a morte do cérebro. Embora com algumas inconsistências e limitações metodológicas, evidências anedóticas e experimentais sugerem que a mente pode perceber informações em locais distantes. Além disso, os experimentadores muitas vezes relatam um forte sentimento subjetivo de ter “experimentado diretamente estar vivo e consciente sem o seu físico”, o que é fenomenologicamente muito distinto dos sonhos e fantasias usuais. Portanto, as EFCs precisam ser melhor investigadas, e as hipóteses explicativas fisicalistas e não-fisicamente-fisanha devem ser consideradas.

Se as percepções extra-sensoriais e a OBE discutidas acima indicam que a mente pode agir além do cérebro, as experiências analisadas nos próximos quatro artigos sugerem que a mente pode funcionar e persistir apesar de um cérebro muito disfuncional ou não funcional ou mesmo após a morte corporal.

Angeli-Faez, Greyson e van Lommel (Citação 2025) revisaram as evidências sobre as experiências de quase morte (EQM) durante a parada cardíaca, indicando que elas provavelmente ocorrem durante a parada cardíaca (não antes ou depois). Eles também apresentam estudos mostrando que a atividade elétrica do cérebro diminui acentuadamente alguns segundos após a parada cardíaca, e o EEG torna-se isoeléctrico em cerca de 30 segundos. Em dezenas de relatórios publicados de EQMs, os pacientes descreveram com precisão eventos que ocorreram durante a parada cardíaca, um período em que o cérebro não é funcional ou, pelo menos, quando os correlatos neurais aceitos da consciência não estão presentes. Na última década, foi alegado que alguns estudos encontraram um cérebro hiperexcitante durante a parada cardíaca, e poderia fornecer uma explicação cerebral para as EQMs. No entanto, o artigo questionou essa afirmação, considerando que esses estudos não encontraram aumentos na atividade cerebral ou experiência consciente após parada cardíaca. Eles concluem que as EQMs em parada cardíaca colocam em questão a visão de que o cérebro produz consciência.

Embora tais experiências desafiadoras não sejam incomuns nos casos em que os indivíduos se aproximam da morte – ou são brevemente mortos clinicamente, como em parada cardíaca – eles são ainda mais frequentes entre os pacientes que estão realmente em seus últimos dias ou horas de vida. Estas são chamadas de experiências de fim de vida (ELE) e parecem ser experimentadas por pelo menos metade dos pacientes que morrem. Silva, Levy e Kerr (Citation 2025) realizaram uma revisão de escopo das características e implicações do ELE para o MBP. Embora escassas, as evidências disponíveis sugerem “uma possível dissociação mente-cérebro no processo de morrer”. Apesar do declínio físico acentuado, pacientes gravemente doentes e terminais relatam, em consciência clara, experiências vívidas, como conhecer parentes falecidos e outras experiências profundamente significativas que proporcionam paz interior e aceitação da morte.

Embora menos comuns, mais de cem casos de lucidez paradoxal ou terminal são ainda mais intrigantes. Refere-se a um ressurgimento súbito e inesperado da lucidez transitória, memória e habilidades de comunicação em pacientes gravemente prejudicados negativamente, geralmente nos últimos dias ou horas de vida. Uma situação comum está entre pacientes com estados finais de demência que não conseguiram reconhecer parentes próximos e não respondem por meses ou anos. Os autores terminam com diretrizes práticas clínicas e de pesquisa para melhor abordar pacientes com ELE e entender a natureza da experiência e as implicações para o PAM.

Ambos os trabalhos a seguir discutem estudos sobre experiências sugestivas de persistência mental após morte corporal permanente: mediunidade e casos do tipo de reencarnação. Costa e Moreira-Almeida (Citação 2024) resumem as evidências fornecidas por estudos qualitativos e quantitativos controlados (usando protocolos cegos) sobre mediunidade, especificamente as experiências de suposta comunicação com uma pessoa falecida. Esta é uma experiência muito prevalente. Pesquisas nacionais nos EUA e no Brasil descobriram que cerca de metade da população em geral relatou ter tido pelo menos uma experiência de contato com alguém que morreu. Os autores discutem e concluem que as informações precisas fornecidas pelos médiuns em estudos controlados não podem ser totalmente explicadas pelas explicações convencionais: fraude, leitura fria, creche e ilusória do sitter, acaso, transtorno mental do meio ou personificação involuntária da mente inconsciente. Eles concluem que “o médio alinhamento com as teorias que propõem que o cérebro pode ser uma ferramenta para a manifestação da mente e não para o seu gerador”.

No último artigo sobre experiências que sugerem uma mente além do cérebro, Tucker (Citação 2025) revisa a evidência de casos do tipo de reencarnação. Existem mais de 2.500 casos investigados em todo o mundo, e eles têm características transculturalmente consistentes: tipicamente, uma criança muito pequena (2 a 3 anos) começa a afirmar ter tido uma vida anterior. Em 70% dos casos, as supostas memórias de uma vida passada correspondem a detalhes de uma pessoa falecida, muitas vezes desconhecidas da criança e de sua família. Além disso, essas crianças frequentemente têm marcas de nascença e reações emocionais (por exemplo, medos, fobias, philias ou brincadeiras incomuns) que correspondem à suposta vida anterior, especialmente o modo de morte. Tucker descreve cinco casos ilustrativos (dos EUA, índia e Sri Lanka) que foram investigados em profundidade e conclui que as explicações convencionais (por exemplo, fraude, fantasia ou influência dos pais sobre as crianças) não podem explicar adequadamente a maioria desses casos. Então, eles sugerem que a mente pode sobreviver e existir independentemente do cérebro.

A evidência apresentada nesta questão sugere fortemente que a mente não é um mero produto do funcionamento do cérebro, mas pode existir além do cérebro, mesmo quando o cérebro não está funcionando ou morto. Assim, os modelos reducionistas da mente parecem ser falsificados pelas experiências humanas aqui discutidas. O próximo passo é tentar dar sentido a essas experiências com hipóteses que podem explicar ambas as experiências: o comum na vida cotidiana e os “anômalos” discutidos aqui. Este é o objetivo dos dois últimos trabalhos.

Woollacott e Weiler (Citation 2025) revisam evidências que sugerem que o cérebro, em vez de produzir a mente, funciona como um filtro para a percepção da mente sobre a realidade. Eles mostram uma convergência impressionante dos achados de estudos neurofuncionais de uma série de experiências não ordinárias (meditação profunda, média, experiências psicodélicas e quase morte): redução nas principais regiões cerebrais relacionadas à sua função de filtragem, como o córtex cingulado posterior, o córtex pré-frontal medial, e outros ligados à Rede de Modo Padrão, linguagem e cognição. Eles propõem uma hipótese digna de ser testada, que esses mecanismos cerebrais filtram o acesso a um espectro mais amplo de consciência, e essas reduções regionais de funcionamento durante experiências não comuns permitiriam o acesso a uma realidade ampliada que geralmente não é percebida por causa desses filtros.

A maioria das evidências disponíveis coletadas até o momento foi obtida por estudos descritivos não orientados por um referencial teórico. Este grande corpo de evidências robustas desafia uma visão reducionista da mente. São anomalias para o paradigma fisita para o MBP, na linguagem da Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas Kuhn (Kuhn, Citation 1970). Com base nessa perspectiva, Moreira-Almeida (Citação 2024) propõe um candidato a paradigma, uma estrutura interacionista pragmática centrada em uma mente além do cérebro. Ajudaria a dar sentido a experiências “anômalas” (que são “anômalas” apenas em relação a um paradigma fisicalista) e promover a detecção, a investigação e o desenvolvimento teórico. Este modelo teórico inclui o cérebro como uma hipótese de filtro, a independência da mente do cérebro, mas em um modelo interacionista mente-cérebro profundamente entrelaçado. O artigo termina com diretrizes metodológicas e uma lista de fenômenos humanos desafiadores a serem investigados para testar, melhorar ou substituir o modelo proposto. Por exemplo, experiências como percepção verídica em EFC, EQM ou mediunidade, diferenças de personalidade marcadas entre gêmeos monozigóticos, placebo e efeitos nocebo, livre arbítrio apesar e além de fatores sociais e biológicos extremos, e casos em que o paralelismo mente-cérebro é quebrado (ou seja, o funcionamento da mente preservado ou melhorado quando o cérebro severamente disfuncional, como a EQM durante a parada cardíaca, a lucidezidade terminal em demência terminal e preservada).

Esperamos que esta questão contribua para disseminar as descobertas de estudos científicos de ponta e análises filosóficas sobre a PQM e ajudar os médicos e cientistas a perceber e estudar uma ampla gama de experiências humanas não comuns e problemas metodológicos fundamentais em suas pesquisas que não se encaixam facilmente em uma perspectiva fisicalista. Não devemos descartar essas experiências “anômalas” nem necessariamente explicá-las como meras fantasias, distorções cognitivas ou disfunções neurofisiológicas. Além disso, a análise filosófica mostra que as perspectivas fisencialistas podem deixar de abordar as preocupações existenciais e éticas mais essenciais, impedindo que os indivíduos tenham uma explicação plenamente racional da realidade (Coelho, Citation 2024b). As hipóteses fiticistas devem ser consideradas, mas é vital lembrar que elas não esgotam todas as possibilidades a serem testadas, e podem até faltar consistência lógica e conceitual. Não devemos ter medo de levantar e testar hipóteses não-fissioneiras para o MBP explicar essas experiências humanas desafiadoras. Esperamos que a exploração ousada das fronteiras do conhecimento ajude a avançar nossa compreensão da mente e sua relação com o cérebro, especialmente melhorando a prevenção e o tratamento de transtornos mentais e promovendo o florescimento humano.

Alexander Moreira-Almeida

Centro de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil

Marianna de Abreu Costa

Centro de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil

Humberto Schubert Coelho

Centro de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (NUPES), Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Brasil

 

References

Angeli-Faez, B., Greyson, G., & van Lommel, P. (2025). Near-death experience during cardiac arrest and consciousness beyond the brain: A narrative review. International Review of Psychiatry. https://dx.doi.org/10.1080/09540261.2025.2503729

Barušs, I. (2024). Death as an altered state of consciousness: A scientific approach. American Psychological Association.

(Open in a new window)

Bourget, D., & Chalmers, D. J. (2014). What do philosophers believe? Philosophical Studies, 170(3), 465–500. https://doi.org/10.1007/s11098-013-0259-7

Cardeña, E., Lynn, S. J., & Krippner, S. (2014). Varieties of anomalous experience: Examining the scientific evidence (2nd ed.). American Psychological Association.

Cardeña, E. (2025). What psi research can – and cannot – say about ‘mind beyond the brain’. International Review of Psychiatry, 2025, 1–5. https://doi.org/10.1080/09540261.2025.2466485

Coelho, H. S. (2024a). How metaphysical ignorance shapes the discussion on the nature of the mind. International Review of Psychiatry, 36, 1–10. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2427042

Coelho, H. S. (2024b). A Defence of the Need for the Postulates of the Existence of God and Immortality of the Soul in Kant’s Ethics. Brazilian Journal for Philosophy of Religion, 10, 59–69. https://doi.org/10.26512/2358-82842023e53726

Costa, M. A., & Moreira-Almeida, A. (2025). Views on the mind-brain problem do matter: Assumptions and practical implications among psychiatrists and mental health researchers in Brazil. Consciousness and Cognition, 131, 103855. https://doi.org/10.1016/j.concog.2025.103855

Costa, M. D A., & Moreira-Almeida, A. (2024). What does mediumship tell us about the mind beyond the brain? International Review of Psychiatry, 2024, 1–10. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2422482

Costa, M. D A., & Moreira-Almeida, A. (2025). The mind-brain problem: Ethical and clinical implications for psychiatry. International Review of Psychiatry, 2025, 1–13. https://doi.org/10.1080/09540261.2025.2474965

Jaspers, K. (1963). General psychopathology. Tr. from the German 7th ed. University of Chicago Press.

Kendler, K. S. (2001). A psychiatric dialogue on the mind-body problem. The American Journal of Psychiatry, 158(7), 989–1000. https://doi.org/10.1176/appi.ajp.158.7.989

Kuhn, T. S. (1970). The structure of scientific revolutions (Second edition, enlarged. ed.). University of Chicago Press.

Moreira-Almeida, A. (2024). Mind beyond the brain: Proposal of a pragmatic interactionist framework. International Review of Psychiatry, 2024, 1–12. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2436597

Moreira-Almeida, A., Araujo, S. F., & Cloninger, C. R. (2018). The presentation of the mind-brain problem in leading psychiatry journals. Brazilian Journal of Psychiatry, 40(3), 335–342. https://doi.org/10.1590/1516-4446-2017-2342

Moreira-Almeida, A., Costa, M. A., & Coelho, H. S. (2022). Science of Life After Death. Springer.

Penfield, W., Hendel, C. W., Feindel, W., & Symonds, C. (1978). The mystery of the mind: A critical study of consciousness and the human brain. Princeton University Press.

Silva, T. O., Levy, K., & Kerr, C. W. (2025). End-of-Life Experiences in Patients: A Scoping Review of Types, Characteristics, and Implications for the Mind-Brain Relationship. International Review of Psychiatry. https://dx.doi.org/10.1080/09540261.2025.2503726

Shushan, G. (2024). Diversity and similarity of near-death experiences across cultures and history: Implications for the survival hypothesis. International Review of Psychiatry, 2024, 1–7. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2402429

Sommer, A. (2024). Hidden histories of science and medicine: Spirit mediumship and the ‘psychology without a soul’. International Review of Psychiatry, 2024, 1–13. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2421403

Tucker, J. B. (2025). What do the cases of the reincarnation type tell us about the mind beyond the brain? International Review of Psychiatry, 2025, 1–7. https://doi.org/10.1080/09540261.2025.2466484

Weiler, M., & Acunzo, D. J. (2024). What out-of-body experiences may tell us about the mind beyond the brain. International Review of Psychiatry, 2024, 1–10. https://doi.org/10.1080/09540261.2024.2436598

Woollacott, M., & Weiler, M. (2025). Neural filters to conscious awareness and the phenomena that reduce their impact. International Review of Psychiatry, 4, 1–15. https://doi.org/10.1080/09540261.2025.2478907

Fontehttps://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/09540261.2025.2518721

Extraído de: Mente além do cérebro: evidências, hipóteses a serem testadas e propostas de pesquisa > Notícias … Espiritualidade e Sociedade …:::

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A Cura do Espírito: A Oração e a Unção no Caminho da Fé

Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. (Tiago, 5: 14)

Para melhor compreendermos este versículo faz-se necessário conceituarmos algumas expressões dentro do contexto do judaísmo e do cristianismo do primeiro século.

Em nossos dicionários atuais, presbítero é sinônimo de padre, de sacerdote, de supervisor de igreja. Isso pode não dar a ideia 1correta do sentido deste título no início da era cristã.

O sentido etimológico da palavra é ancião. Nas traduções mais antigas deste versículo, como a de Almeida de 1848, mais isenta de corrupções, vamos encontrar anciãos da igreja.

Era costume antigo em Israel, como também nas primeiras comunidades cristãs, que as lideranças religiosas fossem exercidas por um corpo de anciãos. O conselho supremo judaico, o sinédrio, tinha em sua composição vários anciãos.

Paulo, em sua carta a Tito, disserta sobre o perfil desejado para a liderança cristã:

Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes. Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância; mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante; retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.[1]

Em síntese, o título de presbítero não diz respeito a um cargo, mas a um estado de dignidade.

Outro significado importante é o de igreja. Vem do grego ekklesia, que literalmente quer dizer reunião de pessoas, assembleia. É interessante que esta palavra aparece cento e quinze vezes no Novo Testamento, mas apenas três nos evangelhos, e todas em Mateus. O que nos dá a entender que a ideia de uma comunidade religiosa só surgiu após o desencarne de Jesus.

Com isto não estamos querendo tirar a autoridade das igrejas, nem de grupamentos religiosos, eles são importantes e necessários, porém é preciso compreender ekklesia no Novo Testamento, como uma reunião ou uma comunidade que dedicava ao estudo das lições de Jesus sob o ponto de vista reeducativo.

Feitas estas ligeiras considerações, voltemos mais propriamente ao texto que ora estudamos.

Alguém dentre vós está doente? Interessante analisar neste versículo o foco dado pelo evangelista: alguém dentre vós está doente, ou seja, o foco é o doente e não a doença.

Dizemos assim, pois a medicina materialista que hoje é amplamente praticada mudou este objetivo e tem-se preocupado mais com a doença do que propriamente com o doente, o que tem dificultado a esta ciência divina um sucesso maior apesar de sua grande evolução. O doente troca de doença, mas não sara definitivamente.

Há, todavia, um avanço da medicina espiritualista na atualidade, vendo esta que além do corpo transitório o Ser é imortal, estando no espírito, na alma, ou na terminologia que for adequada a cada um, a gênese das enfermidades.

Jesus, o Divino Terapeuta, tinha por objetivo o tratamento do Espírito, por isto foi direto na causa:

O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem.[2]

Explicando mais adiante:

Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem.

Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem…[3]

Ou seja, o nosso alvo deve ser o que macula e adoece a alma, por isso a preocupação do seguidor do Mestre deve ser, como meta final, auxiliar no processo educacional da criatura.

E neste ponto convidamos as lideranças de nosso movimento espírita à reflexão sobre a importância de ampliar em nossos grupos de estudo o estudo constante do Evangelho.

O nosso lema continuará sempre: fora da caridade não há salvação, entendendo, portanto, que, se é o Espírito que deve ser salvo, mais caridade pratica aquele que educa o Ser imortal para sua definitiva realidade.

Mande chamar os presbíteros da Igreja para orarem sobre ele; dissemos em páginas anteriores sobre a importância da oração no que diz respeito à resolução de nossas dificuldades. Aqui, mais uma vez, o Evangelista aprofunda a questão. Fala ele da atuação da prece no processo de terapêutico.
Hoje para nós isto não é mais novidade, existem pesquisas em universidades sobre a atuação da prece no tratamento das enfermidades, pesquisas estas que têm comprovado a assertiva evangélica.

Não é que a oração cure, mas ela ajuda amplamente no tratamento, atuando em esferas ainda não compreensíveis para aquele que só enxerga o físico, e também na preparação do enfermo para que ele se ajuste adequadamente à proposta da vida, corrigindo os erros que originaram a enfermidade.

Sobre os presbíteros já comentamos, aqui vale apenas dizer que toda oração é importante, mas que se quisermos atuar como verdadeiros auxiliares do Pai na redenção de Suas criaturas, faz-se importante trabalharmos em nós os valores da moral que nos capacitam a melhor servir, a adquirir aquele estado de dignidade que nos dá autoridade para intercedermos por nossos irmãos em sofrimento.

…ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A unção com óleo para cura era um costume judaico, ao azeite era atribuído valores medicinais, entretanto, mesmo no caso de situações em que as enfermidades exigiam recursos para além das propriedades medicinais do azeite ele também era utilizado.

À época o azeite era também combustível para geração de luz. As Candeias eram abastecidas com óleo que se queimando iluminava.

Podemos retirar daí valioso ensinamento. As doenças, de modo geral, são, conforme sabemos, consequência de atitudes irrefletidas contrárias à Lei de Deus que tivemos em nossas vivências anteriores. Deste modo a cura só pode se dar através do ajustamento do Espírito a esta mesma Lei. Ajustamento este que se dá pela queima de nossas imperfeições no “batismo do fogo”. Assim, ungir com óleo representa esta ação reeducativa do Espírito com fins de extirpar as infecções espirituais que originaram a enfermidade.

O óleo queima-se, do mesmo modo deve fazer o Espírito anulando a si, seu ego, o interesse pessoal. Só assim nos iluminamos, e como consequência seremos portadores de luz, de saúde integral.

Não esquecendo, entretanto, que este processo deve ser feito em nome do Senhor.

[1] Tito, 1: 6 a 9
[2] Mateus, 15: 11
[3] Mateus, 15: 17 a 20

Por: Claudio Fajardo de Castro 

Fonte: A Cura do Espírito: A Oração e a Unção no Caminho da Fé – Portal do Espírito

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Caridade simples

Ficheiro:Chico Psicografia Emmanuel.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Emmanuel – Chico Xavier

Quando o mal te visite o caminho, golpeando-te o coração ou assoprando-te à alma sugestões infelizes, lembra-te daquela caridade simples ao alcance de todos.

 

À maneira de um anjo mudo, não somente cicatriza as chagas abertas em nossos melhores sonhos pelas farpas da realidade, mas consegue também refazer-nos a esperança e devolver-nos a alegria.

 

Não apenas apaga o incêndio da rebeldia começante, como igualmente improvisa recursos para que a tranquilidade retorne ao governo das consciências.

 

Não só atende à ventura e à beleza do lar em que estagias no mundo, como também te assegura harmonia e consolo permanentes, ainda mesmo quando tragas os próprios pés enrodilhados no espinheiro das provações.

 

Dela depende o nosso triunfo nas lides a que nos empenhamos, na reconstrução do futuro melhor.

 

Nela jazem consubstanciadas a segurança dos pais e a bênção dos filhos.

 

Através dela perpetua-se a amizade, cresce a paz em torno de nossos dias, ergue-se nos a prece nobre e viva, purificam-se nos os sentimentos, eleva-se nos o padrão de serviço e estabiliza-se ao redor de nossa experiência com a respeitabilidade de que não podemos prescindir na execução de nossas mínimas tarefas.

 

Por ela, toda a nossa vida, a cada minuto, se faz mais digna e preciosa.

 

Cultivemo-la, sem repouso, com o devotamento e a confiança de quem encontrou um guia imperturbável, porque essa caridade ao alcance de todas as criaturas, é “a caridade do perdão”, a única força capaz de encaminhar-nos à vitória do Bem.

* * *

Pelo Espírito Emmanuel.

Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

Livro: Tocando o Barco. Lição nº 15. Página 52.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A Essência do Espiritismo

13/08/2025

Livro desconstrói imagem de espiritismo conservador e anticiênciaEm ‘A Essência do Espiritismo’, Alexandre Caldini Neto descostura sensos comuns sobre a doutrina; lançamento será nesta quarta (6/08/2025) em SP

Alexandre Caldini Neto, que lança o livro ‘A Essência do Espiritismo’ (Sextante) – Arquivo pessoal

Anna Virginia Balloussier – Folha de SP

O espiritismo é uma religião? Que, por sinal, é em sua essência conservadora, vide pesquisas que apontam uma maioria de bolsonaristas entre seus adeptos.

Não e não. Assim responde Alexandre Caldini Neto, estudioso do tema há quase quatro décadas, num livro que descostura alguns sensos comuns sobre a doutrina que, no imaginário nacional, ficou tão associada à imagem de médiuns como Chico Xavier e o mais infame, João de Deus, condenado por abusos sexuais diversos.

No recém-lançado “A Essência do Espiritismo”, Caldini Neto prefere tratar seu objeto-tema como uma filosofia mais à moda de Allan Kardec, o francês que a fundou 168 anos atrás, com a publicação do seu “Livro dos Espíritos”.

O espiritismo, segundo o autor, ganhou contornos religiosos no Brasil, mas é em sua origem uma “doutrina filosófica” que tem a “parte experimental das manifestações”, que seriam os contatos de espíritos.

Aqui valem as palavras de Kardec: “Ora, todos os dias sou visitado por pessoas que nada viram e creem tão firmemente como eu, apenas pelo estudo que fizeram da parte filosófica; para elas o fenômeno das manifestações é acessório e o fundo é a doutrina, a ciência”.

A roupagem religiosa, contudo, vingou por aqui, a ponto de espiritismo ser uma das crenças listadas no Censo.

O quinhão espírita na população já foi maior, aliás. O levantamento demográfico apontou que, se em 2010 eram 2,2% dos brasileiros, caíram para 1,8% em 2022 —de 3,8 milhões de pessoas para 3,2 milhões.

Caldini Neto tem algumas hipóteses para o fenômeno.

Ao longo do século 20, o espiritismo conquistou a simpatia do país, com um caráter dócil e ativo na caridade. “Passou a ser visto como uma religião, coisa que afirmo, citando Kardec, não é”.

Aí entra um componente de intolerância histórica com crenças de matriz africana. “Apesar de igualmente fazerem a caridade e promoverem o bem”, e também terem como base a mediunidade, “sempre sofreram muita discriminação”.

Então acontecia direto de umbandistas ou candomblecistas se declararem espíritas “buscando fugir do estigma”. Nos anos últimos, movimentos de valorização da cultura negra, ele afirma, levou adeptos a “finalmente se sentirem mais seguros e orgulhosos para assumir suas religiões”.

O estudioso também conjectura que a doutrina espírita, “do modo como foi sendo configurada no Brasil, religiosa e conservadora, não se comunica bem com os dias atuais e ainda menos com as gerações mais novas”.

Uma coisa é o pensamento legado por Kardec, que “traz lógica, serenidade, estudo, autonomia”, diz o autor. Outra bem diferente é a religiosidade presente nos romances que médiuns brasileiros dizem psicografar, que viriam encharcados de “maniqueísmo, moralidade, julgamento”.

O autor detecta uma abordagem “muito arrogante e inclemente” dos espíritas brasileiros em geral sobre tópicos facilmente polarizantes, como aborto, direitos LGBTQIA+ e eutanásia. “Tratamos esses graves assuntos de forma incoerente e em total desacordo com temas estruturantes do espiritismo, como o respeito ao livre-arbítrio, a reencarnação e a compaixão.”

Um olhar atento ao que Kardec escreveu no século 19, na interpretação de Caldini Neto, inviabiliza qualquer preconceito com a homossexualidade, por exemplo. Os espíritos, escreveu o europeu, não têm sexo “como o entendeis, porque o sexo depende do organismo físico”, e eles não são feitos de carne. Pondera Caldini Neto: “Se quem ama é o espírito, não o corpo, qual o problema em dois espíritos se amarem, independentemente dos corpos que utilizam naquele momento?”

O aborto talvez seja o mais minado dos campos. Kardec é claro ao afirmar, no que seria uma resposta que espíritos lhe teriam soprado: “A mãe, ou qualquer pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as provas das quais o corpo devia ser instrumento”.

Mas há sutilezas nessa questão, argumenta o escritor. Kardec também diz no livro máximo do espiritismo que a união entre alma e corpo “começa na concepção, mas só se completa no instante do nascimento”, e que “o grito que sai da criança anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores de Deus”.

Ao apresentar uma leitura menos dolosa do aborto, Caldini Neto afirma que, “durante a gravidez, o espírito designado para esse corpo vive fora dele, estando ligado, mas não ativo no feto”. Haveria apenas vida biológica, e não espiritual, no feto, portanto.

Ele recorre a dados como o fato de 6 em cada 10 vítimas de abuso sexual no Brasil serem menores de 14 anos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Seriam criminosas se abortassem filhos de seu violador?

“É bom frisar que ninguém é a favor do aborto. Eu tampouco. Mas existem situações em que o trauma do aborto talvez seja a solução menos ruim. E, do ponto de vista do espírito, é uma oportunidade perdida que terá que ser recomeçada.”

O autor, que fez carreira no universo executivo e já presidiu a Editora Abril, diz ter uma “visão mais contemporânea do espiritismo”, mas discorda do adjetivo progressista para ele. “Sou espírita e pronto.”

Mas admite um “espiritismo aberto, progressivo e, aqui sim cabe o termo, progressista” ao conciliar a doutrina com a ciência. “O espiritismo não é uma revelação divina imutável e inquestionável, mas uma filosofia de elaboração coletiva, de espíritos. Kardec disse claramente que, conforme a ciência avançar, se algum preceito do espiritismo se mostrar em erro, o espiritismo deve se corrigir.”

É o caso, para ele, do uso medicinal de princípios ativos extraídos da maconha, como o canabidiol, eficientes para tratar males como dores e convulsões e adotado em casos de Alzheimer. Se for para “ajudar o ser humano a minimizar seu sofrimento, viver melhor e progredir”, diz, o espiritismo está dentro. Ao menos aquele em que acredita.

A essência do espiritismo

Quando Lançamento nesta quarta (6/8), das 19h às 21h30

Onde Livraria da Vila – Shopping JK Iguatemi (av. Juscelino Kubitschek, 2041 – Itaim Bibi, São Paulo)Telefone (11) 5180-4790

Preço R$ 59,90 (352 págs.)

Autoria Alexandre Caldini Neto

Editora Sextante/GMT

Link: https://sextante.com.br/products/a-essencia-do-espiritismo

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Câncer além do corpo: o adoecimento como travessia emocional e espiritual

Gilberto, Preta e Flora Gil em foto

Recentemente, a querida cantora Preta Gil desencarnou em decorrência de um câncer no intestino, em estágio avançado e com metástases. Preta recebeu o diagnóstico de câncer colorretal em janeiro de 2023. Ela mesma relatou, em entrevistas, que apresentava alterações no funcionamento do intestino e sangramento nas fezes, até que, devido a um mal-estar maior, buscou atendimento médico. Durante a investigação, descobriu-se a doença e foram iniciadas sessões de quimioterapia. Após o início do tratamento, no quinto ciclo de quimioterapia, apresentou um quadro de infecção generalizada grave, permanecendo um bom tempo na UTI. Posteriormente, retomou o tratamento com quimioterapia oral, sessões de radioterapia e, em agosto de 2023, passou por cirurgia, passando a usar uma bolsa de ileostomia, por onde eram eliminadas as fezes.

No livro Preta Gil: os primeiros 50, ela diz: “Essa segunda cirurgia foi mais complicada para mim. Tive que reaprender a evacuar com fisioterapia pélvica para fortalecer meu esfíncter”. Esse é apenas um dos detalhes da jornada de adoecimento da cantora que a impactou fisicamente, sem levar em consideração as demais necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais, além das de seus familiares e amigos mais próximos. No mesmo ano do diagnóstico, ela se divorciou. Em 2024, houve recidiva da doença no peritônio, no ureter e em linfonodos. Retomou tratamentos oncológicos e passou por novas intervenções cirúrgicas. Ao longo de 2025, iniciou tratamento experimental nos EUA, vindo a falecer em julho de 2025.

No Brasil e no mundo, tem havido um aumento das doenças oncológicas em pessoas mais jovens. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA) de 2023, sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de cólon e reto ocupa a terceira posição entre os tipos da doença mais frequentes no Brasil. Em termos de mortalidade, no país, em 2020, ocorreram 20.245 óbitos por câncer de cólon e reto. Os principais fatores de risco estão associados ao comportamento, como sedentarismo, obesidade, consumo regular de álcool e tabaco, além do baixo consumo de fibras, frutas, vegetais e carnes magras.

Nós, médicos, que muitas vezes cuidamos de pessoas com doenças graves e ameaçadoras da vida, vemos os desafios dos nossos pacientes e identificamos diversas fontes de sofrimento, além do adoecimento físico, que por sua vez impacta sobremaneira as outras dimensões do ser. Não é raro observarmos quadros de depressão e ansiedade. Os pacientes podem necessitar de afastamento de suas atividades laborais, ao menos por um tempo, para a realização do tratamento, podem vir a precisar de ajuda para algumas atividades instrumentais e/ou básicas da vida diária, podem sentir-se um fardo para seus familiares ou até mesmo questionar questões existenciais ou espirituais, como: “Por que isso está acontecendo comigo?”, “Por que Deus me abandonou?”, ou sentir-se desconectados do sagrado ou Divino. Outros podem se apoiar em suas crenças religiosas e espirituais.

O câncer ainda é uma doença muito estigmatizada. É frequente ver pessoas associando a doença a sentimentos como raiva, mágoas e tantos outros estados emocionais negativos. Assim como tantas outras condições de saúde, a doença oncológica é democrática e não segrega ninguém: acomete ricos, pobres, crianças, jovens, pessoas idosas, pessoas de todas as cores, de qualquer profissão e não diferencia uma pessoa boa ou má.

O que poderíamos fazer, então, para reduzir a incidência da doença oncológica? Essa resposta é relativamente simples. Por exemplo: não fumar, inclusive cigarros eletrônicos; evitar o consumo de álcool ou, preferencialmente, abster-se por completo; movimentar-se, praticando atividade física regularmente, ao menos cinco vezes por semana, com exercícios aeróbicos e de força muscular (como caminhadas, corridas, ciclismo, musculação, pilates, entre outros); evitar alimentos ultraprocessados (com muitos aditivos e conservantes, que em geral também contêm grande quantidade de açúcar, gordura, amidos e sal); expor-se ao sol com moderação (e uso de protetor solar); manter a vacinação em dia (contra HPV); e ter relações sexuais protegidas e seguras. Tudo isso pode reduzir em até 45% o risco de desenvolver alguns tipos de câncer.

A dor da experiência e o propósito

Agora, como ressignificar e compreender a dor da experiência do adoecimento quando ela nos acomete? Como encontrar sentido e propósito? As respostas são um pouco mais complexas. Lembra-nos Emmanuel, em O consolador, no capítulo intitulado “Evolução”, em resposta à questão n. 239, que o sofrimento do Espírito é a dor-realidade, enquanto o tormento físico, de qualquer natureza, é a dor-ilusão. Lembra-nos que a dor física leva “o despertar da alma para os grandiosos deveres, seja como expressão expiatória, como consequência dos abusos humanos ou como advertência da natureza material ao dono do organismo”. Ensina-nos que a dor física, material, é um fenômeno passageiro, enquanto a dor moral ou espiritual é essência, “bastante grande e profunda para promover o luminoso trabalho do aperfeiçoamento e da redenção”.

Portanto, qualquer jornada de adoecimento, seja ela qual for, é um chamado, uma sinalização, um convite ao Espírito Imortal para seu alinhamento ao projeto luminoso de evolução, crescimento espiritual e destinação à verdadeira felicidade, que não é deste mundo. No processo de trabalho da redenção individual ou coletiva, encontramos a dor como “o elemento amigo e indispensável”. E isso não se trata de uma apologia ao sofrimento. Não, mil vezes não!

É o próprio Emmanuel que nos esclarece que “todas as entidades espirituais encarnadas no orbe terrestre são Espíritos que se resgatam ou aprendem nas experiências humanas, após as quedas do passado, com exceção de Jesus Cristo”. Todos nós estamos sujeitos aos problemas referentes à dor e ao sofrimento, pois “a lei das provas é uma das maiores instituições universais para a distribuição dos benefícios divinos”. E nos alerta para que possamos compreender melhor tudo isso, procurando aceitar as dores com a maior nobreza possível de sentimento.

Por fim, destaca-nos o papel da prece, esclarecendo que “a prece não poderá afastar os dissabores e as lições proveitosas da amargura, constantes do mapa de serviços que cada Espírito deve prestar na sua tarefa terrena, mas deve ser cultivada no íntimo como a luz que se acende para o caminho tenebroso, ou mantida no coração como alimento indispensável que se prepara, de modo a satisfazer à necessidade própria, na jornada longa e difícil”. A oração vinda do coração mantém-nos vigilantes e é fator de resistência moral perante as provações mais intensas. Não por acaso, Jesus ensinou a orar e confiar, sempre.

Luís Gustavo Langoni Mariotti é médico com especialização em Geriatria pela Escola Paulista de Medicina, com área de atuação em Medicina Paliativa, e coordenador do Departamento de Cuidados Paliativos da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil)

Referências

ESPÍRITOS DIVERSOS. O consolador. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. 33. ed. Brasília, DF: FEB, 2010.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Diversidade e inclusão em instituições espíritas: o amor como princípio

Mednesp – São Paulo | 2025 – Servir para Curar-se

 

Realizado de 19 a 21 de junho, em São Paulo, o Mednesp 2025 fez história e reafirmou seu título de maior congresso sobre Saúde e Espiritualidade do planeta. Com o tema central “Servir para curar-se”, o evento mostrou que o ideal médico-espírita segue firme em seu propósito de integrar os conhecimentos da medicina e da ciência com os princípios da Doutrina Espírita, buscando sempre uma compreensão mais profunda do ser humano e da sua saúde.

 

Além da presença de grandes nomes da medicina e da ciência integrativas, o Mednesp foi além e, corajosamente, abriu espaço para reflexões sobre temas fundamentais para o Movimento Espírita na atualidade. Questões sensíveis que precisam ser exaustivamente debatidas. Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade que exclui – por falas e atitudes – aqueles que diferem em raça, gênero, orientação sexual, origem étnica, idade, entre outros aspectos.

 

Focado na necessidade urgente da prática do acolhimento e da promoção de uma coexistência pacífica e amorosa, um dos painéis abordou o tema “Diversidade e inclusão em instituições espíritas – o amor como princípio”. Nele, o médico, terapeuta sistêmico e escritor Andrei Moreira se uniu ao cantor e compositor Moacyr Camargo e ao artista, jornalista, palestrante, drag queen e dirigente de uma casa espírita Ikaro Kadoshi, para debater questões relacionadas ao racismo estrutural e à diversidade sexual, por meio de depoimentos pessoais e considerações profundas sobre acolhimento e dignidade.

 

Racismo estrutural e espiritualidade

Moacyr Camargo e Andrei Moreira destacaram a importância de reconhecer e combater o racismo estrutural presente não apenas na sociedade, mas também no Movimento Espírita. Moreira foi incisivo ao lembrar que “não basta que a gente não seja racista, é preciso ser antirracista”. Ele destacou que, apesar dos esforços já existentes, há muito por avançar, sobretudo no acolhimento da população negra, frequentemente afastada dos grandes eventos espíritas devido às limitações sociais e históricas que restringem seu acesso.

 

Camargo complementou a reflexão trazendo o conceito de “fluxo do pensamento superior”, destacando a importância da conexão com a consciência do Cristo para superar preconceitos e promover uma convivência mais elevada. Ele afirmou: “Quem mais ama, vê o céu, não é verdade? Quem menos ama, fica distante do céu”.

 

Acolhimento e diversidade sexual nas instituições espíritas

Andrei Moreira, autor dos livros Homossexualidade sob a ótica do Espírito imortal e Transsexualidades sob a ótica do Espírito imortal, trouxe uma visão desmistificadora sobre diversidade sexual, ressaltando como “o discurso predominante no Movimento Espírita relativo à diversidade sexual tem sido um discurso discriminatório e preconceituoso”.

 

Moreira compartilhou experiências dolorosas relatadas por frequentadores das casas espíritas, destacando o impacto profundo que palavras discriminatórias têm na autoestima e espiritualidade das pessoas: “Quem fala não percebe a gravidade do que está falando, mas quem é marcado na pele, quem é marcado na alma, não esquece as mínimas palavras que ferem, que machucam e que indignificam”. Moreira reforçou ainda que “o código moral do centro espírita é o Evangelho de Jesus”, que sempre buscou os marginalizados e excluídos, propondo, assim, um caminho claro de acolhimento e respeito às diferenças.

 

A prática da diversidade e os desafios familiares

Ikaro Kadoshi trouxe seu testemunho pessoal com grande força, abordando os desafios enfrentados dentro e fora das instituições religiosas. Artista drag queen e dirigente espírita, Kadoshi descreveu sua trajetória marcada por preconceitos desde a infância, exemplificando a importância do acolhimento amoroso na construção de uma identidade espiritual saudável.

 

Seu relato sobre os desafios familiares ao revelar sua sexualidade ressaltou que o amor de sua mãe foi fundamental para enfrentar preconceitos externos. Segundo Kadoshi, essa aceitação transformou-se em força para a vida inteira, contrastando com outras experiências familiares traumáticas que envolveram tentativas de “cura” e violências psicológicas e físicas.

 

Kadoshi propôs ainda uma importante reflexão sobre a responsabilidade individual e coletiva na desconstrução de preconceitos cotidianos: “a minha vingança para este mundo que me trata desse jeito é amar todo mundo que fez o contrário”.

 

Energia sexual como manifestação divina

Os participantes ressaltaram a importância de entender a energia sexual como força divina e criadora. Citando Emmanuel, Moreira lembrou que “a energia sexual é utilizada para todas as funções de criação do Espírito imortal”. Ele ressaltou que compreender essa energia sob uma perspectiva espiritual amplia o entendimento da diversidade sexual e afetiva como natural na experiência humana.

 

Em convite à transformação por meio do amor

Esse painel do Mednesp 2025 foi mais do que uma troca de informações, pois representou um convite profundo e urgente à transformação pessoal e institucional por meio do amor, da compaixão e do respeito. Os palestrantes incentivaram todos a refletir sobre preconceitos internalizados e práticas institucionais que ainda mantêm a exclusão de minorias, lembrando que acolher é um ato essencialmente cristão.

 

Com base nos ensinamentos espíritas e evangélicos, fica evidente a importância de promover ambientes cada vez mais inclusivos, transformando as instituições espíritas em verdadeiros espaços de acolhimento, respeito e amor ao próximo.

Fonte: Diversidade e inclusão em instituições espíritas: o amor como princípio – FOLHA ESPÍRITA

Publicado em por admin | Deixe um comentário

O papel do Espiritismo na Saúde Mental e no Bem-Estar

 

Lívia Couto

A verdadeira saúde começa no espírito. Se o espírito está bem, o corpo segue. (Allan Kardec)

 

A busca por saúde mental e bem-estar é um dos grandes desafios da Humanidade contemporânea. O Espiritismo, com sua visão espiritualista e integradora do ser humano, oferece ensinamentos valiosos que contribuem para o equilíbrio emocional, mental e espiritual. Ao reconhecer o ser humano como um ser multidimensional — corpo, perispírito e Espírito —, a Doutrina Espírita nos convida a compreender que a verdadeira saúde envolve harmonia entre essas dimensões.

 

De acordo com Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos (2022), a origem de muitos dos sofrimentos humanos está nas nossas próprias imperfeições morais, especialmente nos excessos de egoísmo e orgulho. Na questão 919, onde se pergunta: Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?, a resposta é: “Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo” (KARDEC, 2022, p. 329). Esta resposta destaca a importância do autoconhecimento como uma ferramenta essencial para a transformação interior, promovendo o equilíbrio emocional e espiritual.

 

Joanna de Ângelis, no livro O Homem Integral, reforçou que a saúde mental depende da integração harmoniosa entre corpo, mente e Espírito. Ela explicou que muitas aflições emocionais têm raízes em experiências passadas, registradas no perispírito, e que podem ser tratadas através da reforma íntima, da prece e do trabalho no bem.

 

Nesse sentido, a reforma íntima, princípio central da Doutrina Espírita, é um processo de autotransformação que visa corrigir vícios, cultivar virtudes e alinhar nossos pensamentos e ações com os ensinamentos de Jesus. Este esforço contínuo não apenas promove o crescimento espiritual, mas também fortalece a mente contra os impactos negativos das adversidades da vida.

 

Emmanuel, no livro Pensamento e Vida (2004), nos faz refletir que o pensamento é a base de todas as manifestações do Espírito. Assim, pensamentos equilibrados e elevados são essenciais para o bem-estar mental. Práticas como a meditação, a prece e o estudo das obras espíritas ajudam a disciplinar a mente, promovendo serenidade e paz interior.

 

Além dos esforços individuais, o Espiritismo oferece recursos coletivos que auxiliam na saúde mental, como o passe, a água fluidificada e o diálogo fraterno. Essas práticas, comuns nos Centros Espíritas, promovem alívio espiritual, reconforto emocional e reequilíbrio energético. Sendo assim, também fortalecem a conexão com a Espiritualidade, criando um ambiente de acolhimento e esperança. O passe, por exemplo, atua como um recurso de transmissão de energias benéficas, auxiliando no alívio de tensões e no reequilíbrio dos centros vitais. A água fluidificada, por sua vez, carrega vibrações positivas que colaboram na harmonização do corpo e da mente. Já o diálogo fraterno proporciona um espaço para desabafar, refletir e receber orientações baseadas nos princípios espíritas, contribuindo para o fortalecimento emocional e espiritual.

 

Assim, o Espiritismo combina esforços individuais e coletivos para promover a saúde mental e o bem-estar, destacando a importância da união e do amor ao próximo como pilares fundamentais no caminho da cura e da evolução. Nesse contexto, a prática da prece desempenha um papel essencial, pois, realizada com sinceridade e fé, é capaz de atrair o auxílio dos Bons Espíritos. Esse apoio espiritual fortalece o indivíduo diante das dificuldades, contribuindo significativamente para sua recuperação emocional. Dessa maneira, os recursos espirituais, como a prece, complementam os tratamentos médicos e psicológicos, proporcionando uma abordagem mais ampla e integrativa ao processo de cura e equilíbrio.

 

Outro ponto fundamental no Espiritismo é como a prática da caridade pode contribuir significativamente para a promoção da saúde mental e espiritual. De acordo com os ensinamentos de Joanna de Ângelis (2002), a caridade é apresentada como um Remédio Divino, capaz de aliviar e curar as doenças da alma, promovendo equilíbrio interior e fortalecimento emocional. Essa prática, ao incentivar a empatia e o amor ao próximo, auxilia na superação de conflitos internos e no desenvolvimento de uma vida mais harmoniosa e conectada com os valores espirituais.

 

O ato de ajudar o próximo nos conecta a Energias Superiores, dissipa sentimentos de angústia e solidão, e fortalece nossa resiliência emocional. Trabalhos voluntários em benefício da coletividade são, portanto, uma forma prática de exercitar a caridade e alcançar equilíbrio interno. Essa conexão com o próximo, ao canalizar energias positivas, gera um ciclo de harmonia que beneficia tanto quem recebe a ajuda quanto quem a oferece. No Espiritismo, esse processo é visto como um dos caminhos mais eficazes para equilibrar as emoções e fortalecer a saúde mental. A prática da caridade, ao afastar o foco das próprias dificuldades e promover ações altruístas, ajuda a relativizar problemas pessoais, reduzindo o egoísmo e cultivando sentimentos de gratidão e propósito.

 

Além disso, o envolvimento em atividades voltadas ao bem coletivo permite que o indivíduo vivencie a fraternidade e a solidariedade, valores centrais para o bem-estar espiritual. Segundo a Doutrina Espírita, essas atitudes auxiliam no reequilíbrio energético e na sintonia com vibrações elevadas, que são fundamentais para a manutenção de uma mente saudável.

 

O Espiritismo nos ensina que a saúde mental e o bem-estar não são meramente resultados de condições externas, mas reflexos do estado íntimo do Espírito. Por meio da reforma íntima, do autoconhecimento e da prática do bem, é possível alcançar uma vida mais equilibrada e harmoniosa, mesmo diante dos desafios da existência. Nesse sentido, a Doutrina Espírita enfatiza que o autoconhecimento permite identificar e superar tendências negativas, como o orgulho e o egoísmo, que muitas vezes são as causas de desequilíbrios emocionais. A reforma íntima, quando aliada à prática do bem, fortalece a conexão com Energias Superiores, trazendo paz interior e resiliência frente às adversidades.

 

Além disso, o Espiritismo propõe a integração entre os cuidados espirituais e os tratamentos médicos e psicológicos, reconhecendo que a saúde é um estado multidimensional que envolve corpo, mente e espírito. Práticas como a prece, o passe e o diálogo fraterno atuam como ferramentas complementares nesse processo, ajudando a restabelecer o equilíbrio energético e emocional.

 

Assim, ao buscar a transformação interior e cultivar atitudes altruístas, o indivíduo não apenas promove sua própria saúde mental, mas também contribui para um ambiente mais harmonioso ao seu redor, reforçando o papel do amor e da solidariedade como fundamentos para o bem-estar coletivo.

 

Como nos convida Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). A Doutrina Espírita, ao iluminar o caminho com os ensinamentos do Cristo, torna-se uma bússola segura para quem busca não apenas a saúde do corpo, mas a verdadeira paz da alma.

 

Fonte: Letra Espírita

==========

Referências:

– BÍBLIA. Novo Testamento. Tradução João Ferreira de Almeida. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br. Acesso em: 20 nov. 2024.

– FRANCO, Divaldo Pereira. Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2002.

– FRANCO, Divaldo Pereira. O Homem Integral. Pelo Espírito Joanna de Ângelis.  Salvador: LEAL, 2004.

– KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes, RJ: Editora Letra Espírita. 2022.

– KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Campos dos Goytacazes: Rj: Editora Letra Espírita, 2023.

– XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2004.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A SIMPLICIDADE DA VIDA EM SUAS DIVERSAS FASES

 

Os conselhos de um homem de 100 anos sobre como encontrar significado em todas as fases da vida

 

História de Annabelle Timsit

 

Podemos aprender muito com pessoas que chegaram aos 100 anos de idade. Depois de pedir a centenários de todo o mundo que refletissem sobre o que é necessário para ter uma vida saudável e feliz, os leitores do Washington Post fizeram suas próprias perguntas – em muitos casos, buscando conselhos para a fase da vida em que se encontram.

 

Os leitores perguntaram: Quem o ajudou quando você era mais jovem? Você recomenda se casar? Como posso me preparar melhor para a segunda metade da minha vida?

 

Fizemos essas e outras perguntas a Jack Weber, 100 anos. O casamento de 57 anos do veterano da Marinha e dentista aposentado com Betty, sua namorada de faculdade, hoje falecida, lhe deu 5 filhos, 11 netos e 13 bisnetos. A seguir, os destaques da conversa com Weber sobre como encontrar significado em diferentes fases da vida, com suas observações editadas por motivos de clareza e extensão.

 

Jack Weber discursando em uma convenção do Lions International para o seu 100º aniversário em 2024. Foto: Courtesy of the Weber family/The Washington Post

Jack Weber discursando em uma convenção do Lions International para o seu 100º aniversário em 2024. Foto: Courtesy of the Weber family/The Washington Post

 

Saboreie as coisas simples

 

Quando eu tinha uns 9 anos de idade, minha mãe, Estelle, me levava para um lago que ficava congelado no inverno e me ensinava a patinar no gelo. Nós éramos muito próximos. Meu pai ia trabalhar, chegava em casa, acendia um charuto, se sentava na poltrona dele e dormia. Minha mãe era atleta e me ensinou a amar o ar livre, a amar os esportes. Virei um excelente patinador no gelo, mas não creio que teria começado se não fosse por ela.

 

Ela também me ensinou a jogar tênis. Era muito incomum uma mulher daquela idade praticar esportes. Eu chegava da escola e começava a fazer a lição de casa e ela dizia: “Jack, largue os livros. O sol está brilhando. Vá brincar lá fora. Quando o sol se pôr, você entra e faz a lição”. Era assim que ela vivia a vida. E virou meu jeito de viver a vida também.

 

Ela costumava dizer: “Se você me der um pedaço de fruta fresca e o sol brilhando nos meus olhos, vou ficar feliz como nunca”. A outra parte era: “Dê uma boa risada e isso vai ser a melhor parte do seu dia”. Ela foi uma mulher extraordinária, viveu até os 99 anos.

 

Encontre interesses em comum com seu companheiro ou companheira

 

Fui voluntário na Marinha depois de Pearl Harbor. Eles disseram: “Não vamos mandar você para o mar. Precisamos de homens, mas queremos que você continue na faculdade e depois possa servir como oficial”. Conheci Betty na Faculdade de Oberlin, em Ohio, numa aula de biologia em que tivemos de dissecar um sapo. Uma jovem veio até mim e perguntou se eu poderia ser sua dupla de laboratório. Foi o começo do nosso romance. Nós nos apaixonamos e começamos a namorar. Ela se formou e se tornou professora de educação física.

 

Ela era atleta. Eu também sou atleta, então praticávamos esportes juntos. Jogávamos tênis e, nos últimos anos, quando eu saía para jogar golfe, ela ficava sozinha em casa e dizia: “Isso não está bom. Vou aprender a jogar golfe”. E aprendeu. Ela era muito boa.

 

Compartilhamos muitas dessas coisas juntos. Todo domingo nós jogávamos golfe com outros casais no nosso clube de campo. Jogávamos nove buracos no domingo à tarde, depois íamos ao bar, tomávamos drinques e jantávamos. Ela gostava muito dessa parte do esporte. Adorava golfe, mas também adorava a camaradagem que o acompanhava. Foram os interesses e valores compartilhados que deixaram o casamento tão agradável. Eu não tinha que brigar com ela: “Quero fazer isso e você não quer”. Tínhamos muito em comum.

 

Betty e Jack Weber comemoram o início do mandato de Jack como governador de distrito da seção de Nova York do Lions Clubs International, um clube de serviço voluntário, em 1969. Foto: LCI/Courtesy of the Weber family/The Washington Post

Betty e Jack Weber comemoram o início do mandato de Jack como governador de distrito da seção de Nova York do Lions Clubs International, um clube de serviço voluntário, em 1969. Foto: LCI/Courtesy of the Weber family/The Washington Post

 

Diga sim a novas pessoas e experiências

 

Nos anos da guerra, era muito difícil conseguir um automóvel. Mas um belo dia meu pai me ligou quando eu estava na faculdade de odontologia [em Cleveland] e disse: “Consegui comprar um carro para você”. Fomos a Nova York, pegamos o carro e eu estava planejando levá-lo para a faculdade, mas naquele ano caiu uma nevasca no estado de Nova York: quase 70 centímetros de neve em 24 horas. Não tinha como levar o carro para casa.

 

Isso foi no fim do ano. E meu amigo me disse: “Jack, você está preso aqui em Nova York. Estou indo a uma festa de Natal com uns amigos. Você gostaria de vir junto?” Eu disse que sim. Então, Betty e eu fomos a essa festa. Outros quatro casais estavam lá. Eu não os conhecia. Mas nos tornamos uma gangue de cinco amigos. Nós nos chamávamos de GOFF: Gang of Five Friends (Gangue dos Cinco Amigos). E ficamos muito próximos. Íamos aos bar mitzvahs dos filhos uns dos outros, aos casamentos. E viajávamos muito juntos. Um deles era agente de viagens. Ele cuidava dos preparativos. Infelizmente, sou o último vivo desses cinco amigos. Todos eles se foram.

 

Hoje em dia vejo os jovens andando pelas ruas com o [celular] nas mãos. E me pergunto se eles não estão gastando a melhor parte da vida diante desse computadorzinho. Meu conselho é: abra o coração, abra os olhos. Existe um mundo inteiro ao seu redor.

 

Na relação com os filhos, não deixe de lado as pequenas coisas

 

Tenho arrependimentos, sim. Quando era mais jovem, as crianças estavam em casa e eu deveria ter passado mais tempo com elas. Eu saía muito. Acho que Betty precisava de ajuda. Ela nunca disse: “Não vá”. Mas eu deveria ter equilibrado mais as coisas. Ela criou os filhos sozinha. Sim, eu estava lá para as emergências. Estava lá financeiramente. Sempre estava presente nas formaturas e festas de aniversário. Mas não estava lá para as pequenas coisas. Então, grande parte do crédito vai para ela. Talvez eu devesse ter estado presente para ler uma história para eles na hora de dormir.

 

Nos anos 50, os homens tinham uma relação diferente com a vida familiar. Geralmente, você só trabalhava, ganhava a vida, voltava para casa, jantava e ia para a cama. Hoje vejo que os maridos das minhas netas passam muito mais tempo com as crianças. Eles até trocam fraldas! Eu nunca troquei uma fralda na vida.

 

Vestido para o clima frio, Jack Weber pratica sua tacada de golfe em seu quintal na década de 1970. Foto: Courtesy of the Weber family/The Washington Post

Vestido para o clima frio, Jack Weber pratica sua tacada de golfe em seu quintal na década de 1970. Foto: Courtesy of the Weber family/The Washington Post

 

Faça coisas para outras pessoas

 

Em 1953, eu disse ao meu advogado que gostaria de conhecer mais pessoas em Hicksville, Nova York, porque eu era um completo desconhecido lá. Ele disse: “Vou apresentar você a 55 dos melhores homens de negócios da cidade”. Eles eram membros da seção de Hicksville do Lions Club International [um clube, na época, só para homens]. Eu me associei naquele ano. Eles estavam distribuindo cestas de Ação de Graças. Na primeira campainha que tocamos, uma jovem atendeu, com duas crianças pequenas puxando o seu avental. Lágrimas rolaram de seus olhos quando lhe entregamos a cesta. Eu disse: “Voltarei no Natal com outra cesta para a senhora”. Ao sair da casa dela e ir para o meu carro, soube que o Lions Clube seria meu veículo para fazer coisas para outras pessoas.

 

Descobri que ajudar as outras pessoas é algo difícil de se fazer sozinho. Participe de uma boa organização que faça esse tipo de coisa. Aprendi isso com um homem em 1954. Ele foi fundador do Lions Club International. Um dos conselhos que ele me deu foi: “Você não vai chegar a lugar nenhum na vida se não começar a fazer coisas para as outras pessoas”. E este tem sido meu mantra durante todos esses anos. Tenho muita sorte pelo que a vida me deu e quero compartilhar isso com as outras pessoas.

 

À medida que você envelhece: aja como se fosse jovem

 

Não deixe que a velhice entre na sua cabeça. Não pense como um velho, pense como um jovem. Porque é isso que vai manter você jovem. As pessoas andam por aí dizendo: “Isso dói, aquilo dói”. Isso não é bom. Eu tenho dores. Tenho algumas dores. Mas ninguém nunca me ouve falar sobre elas.

 

Acabei de fazer o teste de visão para motorista e a moça que fez o teste disse: “O senhor está apto por mais seis meses. Volte daqui a seis meses e vamos repetir o exame”. Então, ainda estou dirigindo meu carro.

 

Ontem eu estava no campo de golfe. O sol estava brilhando. Joguei com pessoas maravilhosas. Estou curtindo a vida. Se eu chegar ao ponto – e isso provavelmente vai acontecer – em que não puder mais jogar golfe e fique mais confinado em casa, essa atitude pode mudar. Espero que não aconteça. Não tento olhar a vida com muita antecedência. Vivo todo dia, um dia de cada vez. Aproveito esse dia. Mantenho um sorriso no rosto. E não deixo a velhice entrar na minha cabeça.

 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Fonte: www.msn.com/pt-br

Publicado em por admin | Deixe um comentário