O Céu e o Inferno

José Herculano Pires

Lançamento de O céu e o inferno, quarta obra da Codificação da Doutrina  Espírita | 1º de agosto de 1865 – FEB

Allan Kardec apresenta a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno, como também do chamado Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que tudo no universo evolui.

Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino.

Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

A 30 de Setembro de 1863, como se pode ver em Obras Póstumas, Kardec recebeu dos Espíritos Superiores este aviso: “Chegou a hora de a Igreja prestar contas do depósito que lhe foi confiado, da maneira como praticou os ensinamentos do Cristo, do uso que fez de sua autoridade, enfim, do estado de incredulidade a que conduziu os espíritos”. Esse julgamento começava com a preliminar constituída pelo Evangelho Segundo o Espiritismo e devia continuar com O Céu e o Inferno. Dentro de dois anos, em seu número de Setembro de 1865, a Revista Espírita publicaria em sua seção bibliográfica a notícia do lançamento do quarto livro de Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Faltava apenas A Gênese para completar a obra da Codificação da III Revelação.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado Da apreensão da morte, vigorosa peça de acusação, no número de Janeiro de 1865, e o capítulo Onde é o Céu, no número de Março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma “nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente”. Em Setembro a obra já aparece anunciada como à venda.

Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo. Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra e o segundo com o título reduzido para O Céu.

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas fundamentais da teologia do cristianismo formalista, tipo inegável de sincretismo religioso com que o Cristianismo verdadeiro, essencial e não formal conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la à custa de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã. Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico só comparável ao do nazifascismo em nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o retrocesso do homem nos anos 40 do nosso século e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido este livro de Kardec, saberiam que a evolução não se processa em linha reta; mas em ascensão espiralada.

Vemos assim que este livro de Kardec tem muito para ensinar, não só aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência néo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de sequência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nosso tempo.

A leitura e o estudo sistemático deste livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra. Mesmo entre os espíritas este livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem nunca se inteirou do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objetivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo.

O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.

Fonte: José Herculano Pires, na introdução de O Céu e o Inferno

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Cristãos sem Cristo

Por Umberto Fabbri*

Encontrei no Livro da esperança, de Emmanuel (CEC), psicografado por Chico Xavier, uma mensagem que me levou a reflexões profundas e peço licença para compartilhar com vocês.

O texto encontra-se na lição número 14: “Cristãos sem Cristo”. O título por si só revela o equívoco dos que se designam seguidores de Jesus sem realmente segui-lo, dos que talvez nem compreendam de fato o que significa tomar para si esta denominação. Podemos estar caminhando pela vida com o título e sem Jesus, e desta forma, não o seguimos verdadeiramente, pois nos falta esforço, determinação, foco e vigilância.

Se levarmos em conta seus ensinamentos, veremos que todos se baseiam na pura caridade, no servir, no amor desinteressado e fraterno, primeiramente para com Deus, para conosco e para com nossos semelhantes. Esta é a base, este é o norte para edificarmos o reino tão sonhado, onde compreenderemos nossas dores, não nos sentiremos solitários, e teremos força e coragem para levar adiante nossa existência, apesar dos problemas, pois agiremos com retidão e bondade, trazendo paz para nossas consciências.

Sem compreender a necessidade da educação espiritual, que se desdobra beneficamente em todos os outros setores da nossa vida, saímos por aí, existência afora, a fazer valer nossa vontade viciada, doente e egoísta, acreditando que o título por si só basta, que só ele nos exime das responsabilidades de nossos atos, que vale ir contra o que o Mestre prega em essência, desde que carreguemos seu nome.

E foi assim que as grandes guerras se fizeram e ainda se fazem, ceifando vidas, famílias, sonhos…

Em nome de Deus e de Jesus, os homens se agridem e se matam, pois ainda vivem em adoração a si mesmos e seus desejos egoístas, separatistas e materialistas, pela sede de poder, de fazer valer seus desejos.

Quando o Mestre nos pede vigilância, sabiamente nos chama à observação focada e profunda a nossas atitudes, pensamentos, para seu controle por meio da oração que nos remete ao Criador, num processo simples que nos livra de grandes problemas a serem resolvidos a posteriori.

Levar a insígnia de cristãos é coisa muito séria, mas adotá-la sem realmente fazer jus a ela é mais sério ainda, uma vez que podemos atrasar a missão do bem e do amor na Terra.

Nas grandes batalhas da vida é quando mais precisamos seguir os exemplos pacíficos e fraternos do Cristo.

No texto da referida lição, Emmanuel cita os conquistadores, os piratas, os guerreiros e latifundiários que pediam e imploravam sucesso em seus feitos. Rogavam auxílio para o furto, à escravidão, à opressão, demonstrando claramente a falta de compreensão quanto aos ensinamentos de justiça, fraternidade e amor pregadas pelo Nazareno, pois, na verdade, seguiam os seus próprios valores e anseios egoístas.

Não é fácil pensar que talvez ainda continuemos a fazer algo bem parecido, sermos cristãos sem Cristo, todavia é sempre tempo de refletir, de mudar e progredir. Façamos a nossa parte bem-feita, criando exemplos positivos, levando Jesus aos corações da forma mais efetiva e perfeita, por meio de nosso exemplo e somente assim seremos coerentes e corretos com a escolha que fizemos, sendo verdadeiramente cristãos, com o Cristo sempre presente em nossas vidas.

Umberto Fabbri

*Profissional de marketing, Umberto é orador e escritor brasileiro, morando atualmente na Flórida, EUA. Autor de diversos livros espíritas, dentre eles: O traficante (pelo espírito Jair dos Santos) O político (Adalberto Gória) e Bastidores de uma casa espírita (Luiz Carlos), ed. Correio Fraterno.

Fonte: correio.news

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Liberte-se, mas com responsabilidade!

 

Uma das dez Leis Morais que o Espiritismo consagra, na terceira parte de “O livro dos espíritos”, obra pioneira da filosofia espírita, que Allan Kardec estabeleceu neste orbe, em prodigioso concurso com as inteligências desencarnadas, é a Lei de Liberdade.

Trata-se do capítulo dez, que consagra duas espécies de liberdade, fundamentais ao Espírito em desenvolvimento: a de pensamento e a de consciência.

Por Marcelo Henrique

Kardec, então, pontua que é pleno o livre-arbítrio humano, pois é o indivíduo que faz suas próprias escolhas. Sempre!

Olho para o texto filosófico, bem composto, encadeado, com sua sequência lógica e com a argumentação que é válida para todas as situações da vida e penso como há os que, ainda, não são livres. Não que figurem encarcerados nas prisões, cujas grades são o obstáculo quase sempre intransponível. Não que sejam portadores de algum equipamento que lhes retenha o passo, como algemas, bolas de ferro ou tornozeleiras eletrônicas. E, tampouco, sejam seres que foram confinados por outrem em lugares insólitos, inóspitos ou segregados da companhia de seus pares, até mesmo por opção pessoal, como os eremitas.

Eles estão ao nosso derredor, em situações de convívio comum e cotidiano. Há os que são presos ao dinheiro ou aos bens materiais que conquistaram, pelo labor, sorte ou herança, receosos de perdê-los de uma hora para outra. Existem, por outro lado, os que estão presos aos costumes, em zonas de conforto calcadas na repetitividade de gestos e atitudes. E, ainda, os que não têm a ousadia de arriscar, de querer mais, de mudar seus enredos, e ficam aprisionados a um trabalho que não lhes satisfaz, uma ocupação que gera apenas o dinheiro para a subsistência, ou um labor que mais parece um suplício.

Há pais que se acham presos a filhos ingratos e agressivos, por vezes violentos, submetidos aos seus caprichos. Há filhos que rastejam e imploram atenção dos pais, para não perder algumas vantagens que têm, por morarem nas casas dos primeiros. Há homens e mulheres que “aguentam” um relacionamento ruim, sofrível, com ressentimentos e desgostos, em razão de atavismos culturais, costumes familiares ou com vergonha de se apresentarem, sozinhos, separados, aos familiares e amigos.

E há, por fim, os aprisionados em dogmas religiosos e condicionantes da fé. São compelidos, pelas pregações, pelos textos bíblicos, pelos mandamentos ou sacramentos, ou pelas falas de padres, pastores, expositores ou dirigentes, a terem condutas padronizadas, sob as ameaças que vêm da crença – ou de quem a representa. Acreditam que uma vida submissa às “verdades espirituais” indicadas por esta ou aquela religião, vai lhes dar uma condição melhor no futuro. Seria uma espécie de poupança para a vida futura, um investimento que lhes proporcionará uma condição melhor em relação àquela que experimentam no hoje.

Entro na casa espiritista, abro um romance espírita ou acesso qualquer plataforma de divulgação do espiritismo e vejo as mesmas prisões de outras religiões. Onde foi parar o paradigma da liberdade, fundamento da vida espiritual e da doutrina dos Espíritos? Quem resolveu dar uma interpretação restritiva e condicionante dos trechos que, tão verdadeira e pontualmente, nos foram apresentados pelos Espíritos Superiores, imbuídos do propósito de resgatar as verdades espirituais? Com que direito o fizeram e fazem?

Eu sei que você que está lendo este texto está perplexo e pode, até, não concordar com o que escrevi no parágrafo anterior. É um direito seu, que respeito. Mas vamos, de modo muito claro e resumido dizer o porquê de estarmos considerando os espíritas em geral – sobretudo os que não estudam com afinco a filosofia espírita – como prisioneiros da própria fé.

Os espíritas passam a existência toda “aguardando” a vida espiritual. Fazem projetos. Cultivam desejos. Imaginam-se como se já estivessem do “outro lado”. Alguns chegam a dizer que gostariam de estar em uma colônia, como “Nosso Lar”. Outros apavoram-se, arrepiam-se ante a iminência de poderem ser direcionados a um lugar de sofrimento – expresso em livros ditos espíritas – como o “Umbral”. Já ouvi, também, e repetidas vezes, que há “sanatórios espirituais”, lugares para onde são direcionados os “espíritas que não seguiram as orientações espirituais” ou que “não se tornaram homens de bem, os verdadeiros espíritas” – descritos nas obras kardecianas.

Vejo, também, infelizmente, palestras presenciais ou virtuais incitando ao medo, ao temor, ao desespero. É a repetição, simplória, dos “ais do Evangelho”, recomendações tidas como ditas por Jesus de Nazaré, não como condenações, mas como advertências direcionadas ao melhoramento individual e coletivo da Humanidade. Continuando nos exemplos do Sublime Carpinteiro, também se menciona que ele, ao prodigalizar curas e libertações daqueles que jaziam de males físicos ou espirituais, teria lhes dito: – Vá e não peques mais, para que não te suceda coisa pior!

Ainda que admitamos ter havido modificação da realidade, alteração de falas e conjunturas, as passagens em comento, sob a luz do entendimento espírita, se tornam mais claras e explicadas. Ambas encerram, não uma pré-condenação dos que falseiam, dos que ainda estagiam no erro – como todos nós – mas um convite ao melhoramento, à superação de si mesmo, ao “olhar para dentro” e descobrir talentos, a luz, o sal, a verdade.

Este medo, este temor, também se transmuda, para os espíritas que assim pensam, em culpa. Culpa exacerbada, com vinculação excessiva ao passado – que não pode ser mudado – limitando as ações presentes. E, então, temos milhares, milhões de criaturas se arrastando pelo mundo sem viver o presente. Uns, apegados aos erros do passado. Outros, esperando viver, antes da hora, o futuro. E a atualidade que pode compensar o que passou e projetar o que virá, fica sem função, sem utilidade, sem oportunidade…

Me entristeço ao ver espíritas analisando as comezinhas situações do mundo, assim como os dramas de pessoas próximas e as tragédias divulgadas na mídia ou envolvendo personalidades de renome, com a predeterminação do que irá ocorrer com tais espíritos, em função desta ou daquela atitude. Os julgamentos são costumeiros e há os que, ainda, buscam ilustrações de romances mediúnicos (ou tidos como tal) para fundamentar seus “pareceres”.

Prezo pela liberdade que a Doutrina Espírita me concedeu há mais de três décadas e meia, e que é companheira inseparável dos bons e dos maus momentos. Não sou prisioneiro do “destino”. Não sou sujeito a “acasos”. Não estou ao sabor das marés ou dos ventos.

Tampouco sou vítima de mim mesmo, nem algoz. Sou um “ser em caminhada”, com acertos e erros, procurando que os acertos superem os erros, em quantidade e qualidade.

Assumir-se como espírita é enfrentar a vida (física) de peito aberto e coração confiante, mesmo em situações desfavoráveis – como a que enfrento nestes dias. Mas sou livre, como fui, ao tomar decisões ontem, que me levaram aos momentos atuais. E sei que a minha conduta no hoje, deverá desaguar num amanhã muito melhor. E, para isso, trabalho.

Não deixe que os outros “decidam” por você. Não permita, mesmo na ambiência espírita, que os outros digam o que “vai lhe acontecer”. Quem tem o leme do barco da existência é você, e mais ninguém. E quando alguém vier lhe dizer que você age muito mal, que você está errado, e que irá sofrer muito, diga-lhe que são suas escolhas. E que você, sempre que puder, estará amando, e este amor há de sopesar na balança em seu favor.

A liberdade é SUA. E saibamos, todos nós, que nossas decisões – livres – sobre o fazer ou o não-fazer, trarão decorrências: efeitos, resultados. Aí é que figura o elemento-chave da compreensão da abrangência da Lei de Liberdade sobre cada Espírito: o ser conscientemente responsável por (todas as) suas escolhas…

Liberte-se, mas com responsabilidade!

Publicado originalmente na revista Harmonia de maio de 2o21

Fonte: Portal da Casa Espírita Nova Era – Blumenau – Santa Catarina – SC

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Eu Sonhava em Mudar o Mundo…

COMPORTAMENTO

No túmulo de um bispo anglicano, que está na cripta da Abadia de Westminster, na praça do Parlamento, em Londres, pode-se ler o seguinte:

“Quando eu era jovem, livre, e minha imaginação não tinha limites, eu sonhava em mudar o mundo.

À medida que me tornei mais velho e mais sábio, descobri que o mundo não ia mudar. Reduzi, então, meu campo de visão e resolvi mudar apenas meu país.

Mas acabei achando que isso, também, eu era incapaz de mudar.

Envelhecendo, numa última e desesperada tentativa, decidi mudar apenas minha família, os mais próximos, mas, ai de mim, eles não estavam mais ali.

Agora, no meu leito de morte, de repente percebo: se eu tivesse primeiro me empenhado apenas em mudar a mim mesmo, pelo meu exemplo eu teria mudado minha família.

Com a inspiração da família e encorajado por ela, teria sido capaz de melhorar meu país e, quem sabe, poderia até ter mudado o mundo.”

*   *   *

Quase sempre, pensamos e agimos exatamente assim. É comum lermos um trecho do Evangelho e logo pensarmos como aquelas frases seriam muito importantes para alguém da nossa família.

Quando ouvimos uma palestra edificante, que concita ao bem, logo nos vem à mente o pensamento de que seria muito bom se determinada pessoa estivesse ali para ouvir.

Isso faria muito bem para ela! É o que dizemos para nós mesmos.

Como esta informação a poderia modificar, mudar sua forma de agir!

Quando estamos vinculados a uma determinada religião, o pensamento não é diferente.

Ficamos a desejar que nossos parentes, nossos amigos, colegas professem a mesma crença, comunguem dos mesmos ideais.

Por vezes, chegamos a nos tornar um pouco inconvenientes, ou talvez até em demasia, mandando recados, frases escolhidas para os amigos.

Tudo nesse intuito de que eles as leiam, as absorvam e coloquem em prática.

São frases que se referem aos bons costumes, à ética, à moral e quem as recebe, com certeza, pensará também: Seria muito bom que o remetente colocasse em prática essas fórmulas. Ele precisa disso.

Por isso é que o mundo ainda não é esse local especial que tanto ansiamos: um oásis de compreensão, com aragem de paz e fontes cantantes de fraternidade.

Porque cada um de nós deseja, pensa, anseia por mudar o outro. Por fazer que o outro se revista de compreensão, de polidez.

Contudo, o Modelo e Guia da Humanidade estabeleceu que cada um deve dar conta da sua própria administração.

Administração da sua vida, dos seus deveres, da sua missão.

O mundo é a somatória de todos nós, das ações de todos os homens.

Cabe-nos pois a inadiável decisão de nos propormos à própria melhoria.

E hoje, hoje é o melhor dia para isso. Nem amanhã, nem depois.

Hoje. Comecemos a pensar em que poderemos nos melhorar.

Quem sabe, um gesto de gentileza? Que tal um bom dia? Um obrigado, um sorriso?

Pensemos nisso.

Redação do Momento Espírita.

Fonte: kardecriopreto.com.br

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O QUE É INTELECTUALIZAR A MATÉRIA?

Jáder dos Reis Sampaio

Na pergunta 25 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec está discutindo os princípios, e divide didaticamente o universo em duas substâncias (ousias) originais, essências ou princípios (alguma coisa primordial ou primitiva da qual se originam mudanças): espírito (princípio inteligente) e matéria (princípio material, que compreende as transformações de um fluido cósmico ou universal). Trata-se de posição muito similar à de René Descartes (1596-1650) adicionada a lei do progresso.

Kardec trabalhava com um conceito de matéria sem um átomo formado de prótons (isso surgiu em 1866 e foi apresentado à comunidade acadêmica por Rutherford em 1911), elétrons (surgiu com as pesquisas de Thompson em 1897, que mostrou que os raios catódicos eram formados de partículas com cargas negativas) e nêutrons (descobertos em 1932 por James Chadwick). Já existia o conceito de moléculas, que era entendido como associação de átomos (vistos como corpúsculos indivisíveis de várias formas, que se “encaixavam” uns nos outros). O átomo era conhecido como molécula elementar, ao lado das moléculas compostas, formadas de associações de diversas moléculas elementares. Moléculas elementares e compostas formavam a matéria. E aí parece termos chegado ao conceito de matéria empregado por Allan Kardec em seus escritos.

Como entender a intelectualização da matéria? Talvez tenhamos uma chave explicativa em uma pergunta geralmente mal interpretada: a questão 28, onde Kardec menciona “matéria inerte” e “matéria inteligente”. Os espíritos não se prendem à nomenclatura proposta, mas o que Kardec parece querer distinguir é, em primeiro lugar, a matéria que não tem sinal de inteligência, como uma pedra de sílex ou um arbusto, sendo que esse último reage física e quimicamente à luz, à água, e a elementos que se encontram na terra, à energia nuclear e à gravidade, por exemplo. Contudo, não há qualquer sinal de inteligência, nem de instinto.

Em segundo lugar há seres do reino animal, que apresentam instintos (os quais Allan Kardec explicou com uma frase interessante: “inteligência sem raciocínio”, questão 73) e a inteligência, que Kardec associa, em seu primeiro livro espírita ao “pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades”. (questão 71).

Para explicar seres, como as plantas mesmo, que têm vida, mas não têm instinto nem inteligência, os espíritos com os quais dialoga Kardec se servem de um conceito muito usado à época e meio abandonado nos dias de hoje pelas ciências naturais: o princípio vital.

A biologia de nossos dias não fala mais de um vitalismo (há pequenas exceções), porque desenvolveu-se o conhecimento no sentido de explicar a vida a partir da estrutura e funcionamento dos corpos e em associação com a física e a química, exclusivamente, tornando as argumentações metafísicas ou filosóficas, não baseadas em evidências, mas em princípios ideais, como não sendo conhecimento científico, de forma geral. Isso não significa que não exista algum princípio vital, apenas que a ciência decidiu mudar o rumo de sua nau e abandonou esse objetivo por considerá-lo metafísico.

Assim, as “pedras” são matéria com uma força inerte (questão 585) sem princípio vital, nem instinto, nem inteligência; as plantas têm matéria e princípio vital, algumas parecem mostrar algum instinto rudimentar, como a dionéia (questão 589), os animais têm a tal “força inerte”, o princípio vital, os instintos mais ou menos desenvolvidos e alguns têm uma inteligência rudimentar. Kardec explicita algumas características dos animais, como capazes de se comunicar, muitas vezes sem serem capazes de emitir sons (isso parece mais desenvolvido nos animais de reinos superiores na taxonomia de Lineu, do século 18), terem um livre arbítrio limitado às suas necessidades e instinto de imitação (como em papagaios, que imitam os sons, e macacos que imitam os gestos – questão 596).

a questão 597 temos uma afirmação que se tornou polêmica, entre os espíritas que insistem em estudar frases soltas: Kardec diz que os animais têm um princípio independente da matéria que sobrevive ao corpo. Seria uma espécie de precursor do Espírito (questão 76), uma alma muito inferior à humana (questão 597-a), que conserva sua individualidade após a morte, mas não tem consciência de si mesmo (questão 598), que não pode fazer escolhas psicológicas, por não ter livre arbítrio propriamente dito (questão 599), que tem um intervalo curto entre a desencarnação e reencarnação, controlado por espíritos responsáveis por isso (questão 600), sujeita ao progresso pela força das coisas e não por sua própria vontade (questão 602).

A última distinção que Allan Kardec faz entre os animais e os homens diz respeito à inteligência. A inteligência que os animais (superiores) possam vir a desenvolver diz respeito exclusivo à “vida material” e a dos seres humanos abrange também a “vida moral”, entendida aqui como vida psicológica ou psíquica, que envolve escolhas morais e diversas escolhas que os animais não fazem.

Observando detidamente o todo da argumentação kardequiana, a matéria intelectualizada são os animais que apresentam inteligência rudimentar (lato sensu) e os seres humanos que se servem da inteligência (stricto sensu) e do livre-arbítrio para atender suas necessidades e escolher uma vida moral (no sentido mais amplo, de vida psicológica). Os espíritos deles têm acesso a corpos capazes de permitir a individualidade, o movimento e outras características necessárias à ação de inteligências no meio ambiente.

Os seres materiais que não são inertes, que apresentam vida, mas não têm uma vida psicológica, seriam matéria não-intelectualizada, e dentre esses, os que vivem e morrem, não teriam ainda um espírito individual, mas seriam portadores do princípio vital.

Hoje a biologia fala em cinco ou mais reinos, na medida em que com o avanço dos conhecimentos, se tem mais informações sobre os seres para classificá-los, mas isso não é necessário à compreensão do pensamento de Allan Kardec no ponto em questão.

Jáder dos Reis Sampaio

Fonte: espiritismo.net

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Banalização da desigualdade

Seria ingenuidade da nossa parte não admitir que estamos vivendo um momento em que muitas pessoas banalizam a desigualdade social, não querendo enxergar que muitos vivem abaixo da linha da pobreza ou miséria, nas grandes cidades do país.

É muito fácil falar da desigualdade social, porém é muito difícil colocar em prática atitudes coerentes para minimizar a necessidade do próximo. Existe uma frase atribuída a Tolstói que diz:

“Se você sente dor, você está vivo. Se você sente a dor das outras pessoas, você é um ser humano.”

Não basta apenas saber que devemos exercitar a caridade para com as pessoas necessitadas, faz-se necessário que cada um de nós realize o que está ao nosso verdadeiro alcance.

Temos consciência que nas grandes cidades do nosso país, assim como do mundo, a população de moradores de rua aumentou consideravelmente, exigindo não apenas do governo, mas das instituições beneficentes, um trabalho redobrado de atendimento solidário. Em alguns momentos não tendo condições de realizar a caridade na acepção da palavra, o fato nos obriga, pela força das circunstâncias, a realizar um assistencialismo momentâneo.

Podemos nos reportar a Saulo de Tarso quando deixou bem claro a importância da caridade: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine”. (1 Coríntios 13)

Precisamos deixar de lado nossos tolos preconceitos e, dentro das nossas possibilidades, termos empatia à dor do próximo.

Em O Livro dos Espíritos, encontramos a seguinte explicação de Allan Kardec, sobre as dificuldades de viver na sociedade em que nos encontramos, sob um olhar da espiritualidade: Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. 1

Entre as grandes chagas da humanidade encontram-se o orgulho e o egoísmo e precisamos nos modificar, promovendo a nossa reforma íntima. A cada um segundo as suas obras, porém, quando tomamos consciência no decorrer da reencarnação, podemos mudar a nossa maneira de interagir com as outras pessoas e o mundo que nos cerca; tudo depende fundamentalmente de cada um de nós.

Nada nos impede de ressignificar nossas atitudes deixando o egoísmo de lado e nos tornando altruístas, nutrindo um desejo sincero de querer se modificar e servir.

Muitas pessoas nas grandes cidades parecem que se acostumaram com a desigualdade social e a miséria humana, a ponto de se tornarem indiferentes, como se os moradores de rua e mendigos fossem invisíveis a todos nós. Isso sem falar nas famílias que moram em comunidades, em condições de vida muito precárias e sobrevivendo com menos que o mínimo de dignidade exige.

Nossa sociedade precisa passar por um processo de moralização para poder evoluir e coletivamente ser merecedora de que o planeta Terra deixe de ser um mundo de provas e expiações, para se tornar um Mundo de Regeneração.

Já possuímos o conhecimento doutrinário e moral de como devemos agir, falta agora colocar em prática, através de atitudes coerentes e solidárias, a ajuda às pessoas necessitadas que passam por experiências reencarnatórias de provas e expiações. Podemos também falar das dificuldades de sobrevivência material, como aqueles que se encontram abaixo da linha da pobreza ou vivendo em condições de miséria extrema nas periferias dos grandes centros urbanos.

Pela mediunidade de Chico Xavier, o Espírito Emmanuel procura nos lembrar que estamos neste orbe de passagem, como um aluno na escola da vida, em busca de aprendizagem para nossa libertação. O fragmento do texto abaixo nos exorta para uma mudança na maneira de ver a estrada da vida, onde nos encontramos:

Vão e voltam viajores.

Sucedem-se os dias ininterruptos.

A árvore útil permanece, à margem do caminho, atendendo, generosamente, aos que passam.

Mergulhando as raízes na terra, protege a fonte próxima, alentando os seres inferiores, que se arrastam no solo. Recolhendo o orvalho celeste, na fronde alta, atende aos pássaros felizes que cortam os céus. 2

A diversidade das pessoas dificulta a convivência social, devido à grande heterogeneidade da nossa sociedade como um todo e muitas vezes acaba afastando uns dos outros devido ao nosso ponto de vista em relação aos valores sociais e à maneira como conduzimos a nossa vida.

Muitos daqueles que vivem nas ruas dos grandes centros urbanos, como indigentes ou moradores de rua, são pessoas que apresentam problemas psicológicos ou psiquiátricos, problemas de vícios ou até estão sob uma influência obsessiva. Fica difícil para um indivíduo comum fazer uma leitura do que realmente se passa com essas pessoas, pois o processo de ressocialização é às vezes muito complicado, devido à história que cada indivíduo traz do seu passado, desta vida ou de outras encarnações.

Nos bastidores da vida de todos nós existem histórias interessantes e nos conta Romeu Grisi, que conviveu muito com Chico Xavier, algumas histórias surpreendentes. Entre elas destacamos o caso do mendigo renitente. Era um morador de rua que dormia na varanda da casa de um colaborador do Centro Espírita. Um indivíduo atormentado por suas emoções, o que lhe dificultava adaptar-se a regras ou normas. Em alguns momentos ficava em um lugar e depois acabava indo para outro local. Chico explicou que toda ajuda seria apenas momentânea e com o tempo ele acabaria se afastando e foi o que aconteceu. 3

Uma das formas de combater a desigualdade social é a solidariedade e uma ação efetiva governamental nos setores da educação, saúde, emprego e segurança pública, isso sem falar nos problemas que afetam nossa sociedade, como os vícios, em particular o uso de drogas naturais e sintéticas.

Devemos educar os jovens para o exercício consciente da cidadania.

A moralização da humanidade através da evangelização do homem e da implantação de uma sociedade mais justa pode, ao longo do tempo, oferecer as condições para se compreender melhor o que se passa com o próximo que vive ao nosso lado.

Fonte: Espiritismo na Rede

Referências:

  1. Kardec, Allan; O Livro dos Espíritos; 2a p.- Cap. II – Objetivo da Encarnação- p.132; FEB.
  2. Xavier, Francisco Cândido; Coletânea do Além; A Árvore Útil (Emmanuel); FEB.
  3. Grisi, Romeu; Inesquecível Chico; O mendigo renitente – p. 91; Ed, GEEM.
  4. Wikipédia (A Enciclopédia livre).
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Seres inconfundíveis

No ano que se alcança 50 anos de publicação do magnífico livro Segue-me! (Emmanuel/Chico Xavier, edição O CLARIM), cujos capítulos significam verdadeiro roteiro para a felicidade, importante algo trazer. A obra foi publicada em 1973, com organização de Wallace Leal V. Rodrigues, e precisa ser muito valorizada, dado seu grandioso conteúdo doutrinário.

Fiz vários artigos e proferi várias palestras a partir de capítulos, frases e ensinos das valiosas reflexões que o sábio autor traz nessas luminosas páginas. Cada capítulo, muitas vezes apenas um parágrafo é motivação para aprofundar desdobramentos doutrinários, de conforto, de orientação, de estudos variados em favor do equilíbrio e progresso que todos necessitamos.

Selecionei alguns parágrafos de capítulos variados, que trago aos leitores:

  1. “(…) Deus te ajuda para que te ajudes e dar-te-á sempre o auxílio máximo desde que não faltes com o teu concurso no desenvolvimento e no aperfeiçoamento da Obra da Criação, pelo menos com o mínimo do que sabes, podes e deve fazer.” – do capítulo Teu Concurso.
  2. “Teus encargos – tuas possibilidades de acesso a planos superiores. (…) cada um de nós, onde estiver, poderá, desde agora, começar a ser bom.” – do capítulo Teus encargos.
  3. “(…) Deus te esculpiu como não esculpiu a mais ninguém.” – do capítulo Mandato pessoal.

Os três itens foram propositalmente selecionados pela conexão com uma expressão que está no capítulo Teus encargos (também citado acima). A expressão é seres inconfundíveis, de grande e profunda significação no estímulo às nossas ações no bem, no esforço do progresso e no reconhecimento de nossa condição de criaturas de Deus. Transcrevo o parágrafo na íntegra para melhor aproveitamento do raciocínio que deve nos estimular ao bom ânimo, à alegria, à gratidão:

“Sem dúvida que outros conseguem substituir-te no trabalho a que te entrosas; no entanto, em se tratando de ti, é justo recordes que Deus nos fez, a todos, Espíritos imortais com o dever de aprimorar-nos até que venhamos a identificar-nos inteiramente com o seu Infinito Amor, conservando embora, em todo tempo e em qualquer parte, a prerrogativa de seres inconfundíveis da Criação.”

Essa prerrogativa é algo extraordinário. Seres inconfundíveis que somos, diversos na criatividade, nas iniciativas, nas possibilidades, nos conteúdos, nos esforços, na grandeza, nos esforços, nos aprendizados, nas carências e necessidades, nas conquistas, nos vínculos variados, nos gostos e tendências, nas habilidades…. Que coisa linda! Que estímulo! Quanto conteúdo a ser conhecido, estimulado, cultivado. Emmanuel foi muito feliz na construção do pensamento que expressou nesse belíssimo parágrafo. Um verdadeiro estímulo a todos nós para que… prossigamos!!!  Prossigamos, amando, trabalhando, confiando, pois que a vida tudo conspira a nosso favor. Sugiro ao leitor tenha o livro em casa para permanente consulta às suas preciosas lições.

Os grifos são nossos, propositais.

Orson Peter Carrara

Fonte: geae.net.br

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Preciosidade esquecida em A Gênese

Orson Peter Carrara

Convenhamos com honestidade. Ficamos nos batendo em tantas questões absolutamente dispensáveis e medíocres e esquecemos o essencial. O conhecimento espírita, sempre disponível e com ampla facilidade de consulta – ressaltando-se a qualidade expressiva de muitos conteúdos – remete-nos naturalmente a uma intensa alegria e gratidão à vida por tantas oportunidades de aprendizado.

Um texto esquecido, como tantos outros, está em A Gênese, no capítulo VI – Uranografia Geral, exatamente no item 2, abordando a velha questão do tempo. Transcrevo na íntegra (o texto não é longo), estimulando o leitor à leitura, dada a grandeza do texto e a reflexão de entusiasmo a que remete. Sugiro leitura atenta. O texto é muito precioso.

“2. Como a palavra espaço, tempo é também um termo já por si mesmo definido. Dele se faz ideia mais exata, relacionando-o com o todo infinito. O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito. Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, na época primitiva em que a Terra ainda não se movia sob a divina impulsão; numa palavra: no começo da gênese. O tempo então ainda não saíra do misterioso berço da natureza e ninguém pode dizer em que época de séculos nos achamos, porquanto o balancim dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas, silêncio! soa na sineta eterna a primeira hora de uma Terra insulada, o planeta se move no espaço e desde então há tarde e manhã. Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, embora o tempo marche com relação a muitos outros mundos. Para a Terra, o tempo a substitui e durante uma determinada série de gerações contar-se-ão os anos e os séculos. Transportemo-nos agora ao último dia desse mundo, à hora em que, curvado sob o peso da vetustez, ele se apagará do livro da vida para aí não mais reaparecer. Interrompe-se então a sucessão dos eventos; cessam os movimentos terrestres que mediam o tempo e o tempo acaba com eles. Esta simples exposição das coisas que dão nascimento ao tempo, que o alimentam e deixam que ele se extinga, basta para mostrar que, visto do ponto em que houvemos de colocar-nos para os nossos estudos, o tempo é uma gota d’água que cai da nuvem no mar e cuja queda é medida.

Tantos mundos na vasta amplidão, quantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, somente a eternidade substitui essas efêmeras sucessões e enche tranquilamente da sua luz imóvel a imensidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.

O olhar do observador, que atravessa, sem jamais encontrar o que o detenha, as incomensuráveis distâncias do espaço, e o do geólogo, que remonta além dos limites das idades, ou que desce às profundezas da eternidade de faces escancaradas, onde ambos um dia se perderão, atuam em concordância, cada um na sua direção, para adquirir esta dupla noção do infinito: extensão e duração. Dentro desta ordem de ideias, fácil nos será conceber que, sendo o tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milheiros, para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade, do mesmo modo que milhares de léguas adicionadas a milhares de léguas não dão mais que um ponto na extensão. Assim, por exemplo, estando os séculos fora da vida etérea da alma, poderíamos escrever um número tão longo quanto o equador terrestre e supor-nos envelhecidos desse número de séculos, sem que na realidade nossa alma conte um dia a mais. E juntando, a esse número indefinível de séculos, uma série de números semelhantes, longa como daqui ao Sol, ou ainda mais consideráveis, se imaginássemos viver durante uma sucessão prodigiosa de períodos seculares representados pela adição de tais números, quando chegássemos ao termo, o inconcebível amontoado de séculos que nos passaria sobre a cabeça seria como se não existisse: diante de nós estaria sempre toda a eternidade.

O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?!”

Que reflexão belíssima! Dá mesmo para continuar batendo a cabeça com preocupações ou pretensões vãs? Não é melhor concentrar os interesses no que realmente importa?

Orson Peter Carrara

Fonte: Espiritismo na Rede

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Que devemos conservar e o que devemos mudar nas casas espíritas?

Jáder Sampaio

Casa Espírita Em Busca da Verdade completa 30 anos

Um dos grandes desafios de qualquer doutrina desenvolvida em um determinado momento no tempo está em identificar o que é essencial e contínuo do que é passageiro e mutável. Outro, é saber perceber o que é próprio de uma localidade geográfica e o que é comum a todas.

Essas são importantes fontes de conflitos entre dirigentes de diferentes casas espíritas, ou de estados brasileiros ou até de confederações internacionais. O que pode ser feito de forma diferente, sem comprometer a qualidade e a coerência doutrinária e o que não poderia?

Logo na chegada do Espiritismo ao Brasil, já na primeira publicação brasileira feita em O echo d’além-túmulo, o autor, Luiz Olympio Telles de Menezes, não via diferença entre o Catolicismo e o Espiritismo. Assim que a notícia chegou à França de Desliens, secretário de Kardec, ele se sentiu obrigado a discordar elegantemente na Revue Spirite, uma vez que o Espiritismo era incompatível em diversos pontos com o Catolicismo, seja empregando a razão, a observação ou a interpretação das mensagens dos Espíritos. Eram doutrinas com pontos em comum, mas com inúmeras divergências. Com o tempo, o Espiritismo no Brasil se modificou e se aproximou mais do projeto de Allan Kardec, passou a valorizá-lo e a distinguir o pensamento espírita do pensamento católico. O Brasil deixou de ser um país oficialmente católico e o Estado Brasileiro tornou-se laico.

Do ponto de vista das organizações, Rivail conhecia bem as instituições que formavam a Universidade Imperial da França, que englobavam desde a educação de crianças na primeira infância até o ensino superior. Na época havia institutos e academias de pesquisa, a bem dizer associações de cientistas interessados em alguma área de conhecimento, que se reuniam em períodos pré-fixados para compartilhar descobertas, debater pontos diversos anunciar publicações, entre outros objetivos. Bem possivelmente esse era o tipo de instituição que serviu de base para a fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas por Allan Kardec. No Brasil da mesma época, havia apenas faculdades isoladas, que vieram sendo fundadas desde a vinda da família real de Portugal ao Brasil. As elites enviavam anteriormente seus filhos para estudar na metrópole portuguesa e o ensino continuava ligado à Igreja Católica, de forma geral, que se tornou a grande referência de organização no Brasil.

Na história do movimento espírita brasileiro, portanto, houve grande influência da Igreja no Espiritismo, exceção da homeopatia e das ligações de muitos espíritas com a Maçonaria, entre outros pontos diversos. Quanto mais se estudava os livros de Kardec, maior era a influência da filosofia, a percepção das diferenças, o desejo de se construir uma ciência espírita e de se mostrar relevante para a sociedade brasileira, o que foi um dos fatores que deu origem à complexa rede de ações sociais feita pelos espíritas.

Um centro espírita no início do século 20 se assemelhava a uma igreja, obviamente sem a quantidade imensa de ritos e sem uma hierarquia similar de controle dos centros espíritas. Houve um esforço associativo e de aproximação das práticas nas casas espíritas que culminou nos esforços da chamada unificação, muito defendida por Bezerra de Menezes e pela Federação Espírita Brasileira.

As Universidades começaram a se formar nas primeiras décadas do século 20, e as instituições de fomento à pesquisa se desenvolveram a partir dos anos 1950 na sociedade brasileira, ganhando recursos substantivos de estado para a realização da pesquisa a partir da década de 1970. Foi nessa época que se formou o eixo ensino, pesquisa e extensão, como diretrizes básicas nas universidades, que se tornaram em algo maior que instituições de ensino, formada exclusivamente por professores, mas também em espaços de produção do conhecimento, contando com pesquisadores e técnicos para a aplicação do conhecimento na sociedade, contando com as atividades de extensão.

Essa nova mentalidade organizacional tem chegado ao movimento espírita brasileiro, que mais que ensinar a doutrina de Kardec, tem se envolvido aos poucos na interlocução entre conhecimento acadêmico e conhecimento espírita, vem acompanhando as mudanças na universidade, tem se preocupado com a construção do conhecimento espírita, com a reflexão das inúmeras práticas (mediúnica, de ação social, de saúde, entre outras) frente ao avanço das ciências. A complexidade das áreas de conhecimento e os anos de formação necessários para se entender os temas, têm incentivado a criação de organizações espíritas dedicadas a uma área determinada do conhecimento, como direito, educação, psicologia, medicina, entre outras.

Graças à cultura espírita de estudo e reflexão com os instrumentos da razão e das ciências, muitos espíritas têm assumido cargos em Universidades, seja de professores ou pesquisadores. Ao desenvolverem suas habilidades de produção de conhecimento, sentem-se interessados em aplicar essas competências no avanço da doutrina. É claro que há muitas pessoas despreparadas que ficam nos limites inferiores das analogias, apenas, às vezes com compreensões equivocadas das novas construções teóricas por lhes faltar base na respectiva área de conhecimento. Estes, sem querer, acabam contribuindo para o descrédito da doutrina junto aos que efetivamente conhecem as teorias e aplicações que eles julgam dominar.

As mudanças sociais, que não necessariamente podem ser vistas como progressos, e que às vezes são nada mais que experiências sociais, são talvez as que mais demandam o cuidado e a reflexão das lideranças espíritas. O que eram apenas costumes de época e o que são costumes da época atual, fadados à mudança futura? O que devemos aceitar, o que devemos incorporar, o que devemos mudar nos centros espíritas? O que é uma consequência do materialismo na sociedade, de uma mentalidade individualista e de acumulação de bens, e o que veio para tornar nossas vidas mais confortáveis e que já atingiu um enorme segmento da sociedade brasileira, alterando algumas características das casas espíritas? Que novidades são incoerentes com a ética espírita, e que novidades são novos recursos para o estudo, a divulgação e a aplicação do espiritismo na sociedade moderna? Essas são algumas questões que devemos enfrentar com serenidade e ouvir a experiência dos colegas dirigentes com atenção, antes que se tornem fontes de conflitos nos centros espíritas.

Extraído de Espiritualidade e Sociedade

Jáder Sampaio é psicólogo, doutor em administração, tradutor e escritor espírita, pesquisador e membro da Liga de Pesquisadores do Espiritismo Fontehttps://usesp.org.br/wp-content/uploads/2023/01/DE193.pdf

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Kardec é fenomenal

Orson Peter Carrara

Cinco curiosidades sobre Allan Kardec

Sim! O Codificador do Espiritismo pode ser considerado um gênio, um benfeitor da Humanidade. Será ainda reconhecido como tal no transpor do tempo. Ainda é um ilustre desconhecido, mesmo entre os espíritas.

Sua lucidez traz a profundidade de um sábio, de alguém que reflete, que encaminha o raciocínio e não deixa margem para perdas de tempo.

Discussões variadas que só desviam do foco principal surgem com constância, sempre como resultado da falta de um estudo mais atento dos conteúdos de suas obras.

Entre tantas discussões dispensáveis, que dividem, criam antagonismos sem necessidade, uma delas é a velha questão do mundo espiritual estruturado.

Nas Obras Básicas está o embasamento correto. Tais considerações surgem em função do que está registrado na questão 234 de O Livro dos Espíritos, para compreensão exata do assunto.

As informações são muito claras e não deixam dúvidas. Acompanhe comigo:

Mundos transitórios.

Questão 234 (LE). Há, de fato, como já foi dito, mundos que servem de estações e de pontos de repouso aos Espíritos errantes?

“Sim, há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária, espécies de bivaques, de campos onde descansem de uma demasiado longa erraticidade, estado este sempre um tanto penoso. São, entre os outros mundos, posições intermédias, graduadas de acordo com a natureza dos Espíritos que a elas podem ter acesso e onde eles gozam de maior ou menor bem-estar.”

Leia-se atentamente…. E também encontramos conteúdos na REVISTA ESPIRITA: (…) O mundo dos invisíveis é como o vosso. Em vez de ser material e grosseiro, ele é fluídico, etéreo, da natureza do perispírito, que é o verdadeiro corpo do Espírito, haurido nesses meios moleculares, como o vosso se forma de coisas mais palpáveis, tangíveis, materiais.

O mundo dos Espíritos não é um reflexo do vosso; o vosso é que é uma imagem grosseira e muito imperfeita do reino de além-túmulo. (…) – Mesmer – Revista Espírita, de maio de 1865.

Busque o trecho na íntegra com o título: SOBRE AS CRIAÇÕES FLUÍDICAS.

Mas não é só. Busque-se no mesmo O Livro dos Espíritos a questão 36 e no item 19 do capítulo VI de A Gênese, outras importantes considerações. Resumimos aqui o raciocínio, deixando ao leitor a busca integral:

a) Questão 36 (acima citada): “(…) Nada é vazio. O que parece vazio está ocupado por matéria que escapa aos vossos sentidos e aparelhos.”

b) Item 19 – (acima referido): “(…) o mundo espiritual (…) que também faz parte da criação.”

Escreveu o amigo Daniel Nascimento, de Ibiá (MG), em comentário na postagem que fiz no facebook, sobre o mesmo assunto: “Essa ponderação demonstra que a Obra de André Luiz esteve sempre alinhada com as Bases Doutrinárias de Kardec.

Durante todo o tempo o Benfeitor se refere à Nosso Lar como sendo uma colônia de transição, corroborando à resposta citada. Na verdade, o Eufemismo, utilizado na série A vida no mundo espiritual, nada mais é que os Mundo Transitórios. Com bom senso, é possível enxergar que a Obra de Chico Xavier representa as paredes, sobre as bases das Obras Fundamentais, desse grande edifício que é o conhecimento.”

O estudo, a pesquisa, a atenção nos detalhes sempre empolgam. É preciso mesmo estudar e não nos deixarmos seduzir por nossas modestas opiniões pessoais, sempre limitadas. O embasamento está na Codificação. Lá não nos perderemos.

Destaque-se aqui para concluir (copiando acima): “há mundos particularmente destinados aos seres errantes, mundos que lhes podem servir de habitação temporária.”

Não há, pois, nada de errado com André Luiz. Nossa compreensão, essa sim, precisa estar mais atenta.

Orson Peter Carrara

Fonte: Portal do Espírito

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