Reflexões sobre a humildade

Joanna de Ângelis

A humildade é uma virtude de difícil aquisição, por exigir esforço para superar-se os instintos que predominam em a natureza humana, especialmente o da sobrevivência.

Ao materialismo devem-se muitos males, entre os quais aqueles que defluem dos estímulos e aplicações pedagógicas em favor do ego e das suas mazelas. Há uma preocupação ancestral dedicada à formação do caráter que privilegia a força pessoal, o destaque, a independência, o poder. Essa preocupação em torno dos falsos conceitos de que o homem não chora, o forte prevalece, o vitorioso é aquele que soube resguardar-se, distante dos problemas alheios, demonstra que esses são elementos perniciosos e que se opõem à humildade.

Cuida-se de condicionar o educando à presunção, ao orgulho das suas conquistas em detrimento da fragilidade de que todos os seres são formados.

Uma insignificante picada de um instrumento infectado interrompe uma vida esplendorosa e um ser triunfante.

Modesto mosquito transmite vírus terríveis que devoram existências poderosas.

Bastaria ligeira reflexão para a criatura humana dar-se conta da sua fraqueza ante as forças da Vida e os fatores destrutivos que pululam em toda parte.

No sentido inverso, a grandeza cósmica que o deslumbra, pode dar-lhe dimensão da sua pequenez, levando-o a considerações profundas quanto ao significado existencial.

A humildade é virtude essencial para uma jornada feliz na Terra. Mediante a sua presença, percebe-se quanto se deve trabalhar o íntimo para aformosear-se as aspirações e avançar-se na solidariedade como fundamental comportamento para o equilíbrio.

Analisando-se as conquistas conseguidas pela ciência e tecnologia, ao invés da presunção ingênua, perceber o infinito de possibilidades a conhecer e de enigmas a solucionar.

O deslumbramento inicial pode levar o rei da criação, dito ser a criatura humana, a esse estado de orgulho infantil que o ilude a respeito dos poderes que lhe estão ao alcance das mãos para a glória e o prazer, sempre relativos, da sua breve caminhada entre o berço e o túmulo.

A vã ilusão de potência e domínio na mocidade e idade adulta dilui-se quando as energias diminuem na velhice e nos períodos de enfermidade, confirmando-lhe a fragilidade acima de toda e qualquer robustez.

A maioria dos Hércules e Vênus do culto ao corpo, passado o período específico dos esportes e dos exercícios exaustivos, da alimentação sob rígido controle, tomba nos graves problemas cardiológicos e outros que o excesso de técnicas e de substâncias que contribuem para a beleza exterior, que agora se transforma em degenerescência e debilidade.

A experiência terrestre tem como essencial a finalidade do autodescobrimento, do sentido de existir, do desenvolvimento da inteligência e do Si profundo.

Utilizar-se das ocorrências para aprimorar-se é o programa da Vida para todos.

***

Jesus, que é o protótipo da perfeição e da beleza de que se tem notícia, apagou a Sua grandeza na humildade para ensinar a vitória sobre as paixões inferiores.

Deu o exemplo máximo da Sua elevação na última ceia quando, cingindo-se com uma toalha, lavou os pés dos discípulos, demonstrando que sendo o Senhor fazia-se servo para todos.

Incompreendido por Pedro, que se Lhe recusara, explicou-Lhe que se o não fizesse nada teria com Ele, e o apóstolo emocionado entregou-se-Lhe em totalidade.

A grandeza do Seu gesto demonstra a força moral, o Seu poder de servir, deixando a lição perene como advertência e orientação.

Cuida de penetrar-te até às nascentes do coração, para que a mosca azul da vaidade não pouse na tua insignificância.

Busca a simplicidade e a compreensão existenciais, tendo em vista que tudo mais é transitório e tem somente o valor que lhe atribuis.

Faze-te acessível e atento para aprender com os pobres de espírito a forma de enriquecer-te de humildade e de paz.

Nunca disputes projeção e destaque, recordando o ensinamento de Jesus, quando informou que os primeiros serão os últimos e estes serão os primeiros.

Afeiçoa-te ao anonimato, não deixando sinais do bem que faças, a fim de que não sejas exaltado, qual ocorre com muitos fúteis e irresponsáveis, que são louvados e bajulados sem mérito real.

Mas não penses que humildade é menosprezo, desconsideração por si mesmo, subalternidade, escondendo conflitos de inferioridade.

A verdadeira humildade permite o autoconhecimento em torno dos valores que são legítimos no ser, sem os exaltar nem se engrandecer, compreendendo o quanto ainda necessitas para atingir o ideal, tendo o prazer de sacrificar-se pelo conseguir.

***

Muitos Espíritos reencarnaram-se com nobres missões e falharam, porque se ensoberbeceram e se permitiram as glórias terrenas que os frustraram, abandonando-os na etapa final da vida.

Recorda-te daqueles outros que se apagaram na humildade, adotando o sacrifício e a abnegação, edificando o bem em vidas incontáveis.

Bem-aventurados os humildes de coração e ricos de amor, porque eles fruirão a plenitude.

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na reunião mediúnica da noite de 10 de agosto de  2015, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia. Em 9.9.2015

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Nuanças do arrependimento

Rogério Coelho

NUANÇAS DO ARREPENDIMENTO

Arrependimento, expiação e reparação são as condições de reajuste ante as leis divinas

“Arrependimento sadio das faltas cometidas é compromisso assumido com as tarefas a executar”. – Joanna de Ângelis

Enquanto estimulante do processo de reajuste do Espírito calceta, o arrependimento é sadio e conveniente, mas o mesmo não acontece quando ele se transforma em causa de estagnação dos nossos passos na senda evolutiva, tornando-se, portanto, doentio ao se transformar em ancilosante “sentimento de culpa” que dá origem a variegados processos obsessivos.

Na “parábola do filho pródigo” podemos observar o arrependimento em dinâmica de correção de rota.

Os Amigos Espirituais deixaram consignado na questão número 999 de “O Livro dos Espíritos” que o arrependimento concorre para a melhoria do Espírito, mas ele tem de expiar o seu passado. Não podemos seguir adiante deixando nenhum “ceitil” para trás onerando nossa contabilidade espiritual.

Os Numes Tutelares da humanidade retomam esta questão no décimo sexto parágrafo do “Código Penal da Vida Futura” (1), no qual afirmam que, conquanto o arrependimento seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só uma vez que se faz mister a expiação e a reparação, para completar o quadro do ressarcimento total. Assim, arrependimento, expiação e reparação, constituem as três condições básicas para apagar os traços de uma falta e suas consequências.

A saga do Cristianismo está repleta de exemplos de arrependimentos sadios e doentios. Enquanto aqueles levam aos Acumes Celestiais, estes levam aos pântanos umbralinos.

A nobre Mentora Joanna de Ângelis ensina (2):

“(…) o arrependimento é o primeiro sinal de consciência da falta cometida a surgir na tela mental do homem. Reconhecimento do erro impõe, todavia, uma atitude dinâmica e corajosa para a sua retificação. Tem a finalidade de propiciar ao infrator a inadiável reabilitação, sem o que se transforma em suplício que se incorpora aos conflitos da personalidade, agravando o comportamento que passa a uma conduta alienada.

Nem sempre, no entanto, as circunstâncias permitem ao faltoso o campo de recuperação, especialmente quando o ofendido tomba nas faixas semelhantes do desequilíbrio e não faculta a aproximação daquele a quem agora detesta. Isto não deve impedir a resolução salutar do equivocado que se descobre em delito. Pelo contrário, deve propiciar-lhe estímulos para a vigilância que o impedirá de novos cometimentos negativos no futuro e para que envide esforços no sentido de reparar o mal feito, senão à vítima imediata, mas, às soberanas leis da vida.

A atitude de reconhecimento da falta impele ao enobrecimento íntimo, ao trabalho de estruturação moral, à ação da beneficência em derredor… As realizações dignificantes envolvem o seu autor numa aura de bem-estar e tranquilidade, que termina por diluir a animosidade do outro, o desafeto que padeceu a injunção penosa, ensejando a aproximação, o restabelecimento dos vínculos interrompidos. E se, por acaso, tal não se deu, por intransigência dele, o importante estará feito, que é o reencontro consigo mesmo através da ação do bem.

Nenhum arrependimento pode transformar-se em “sentimento de culpa”, a fim de que não venha a tornar-se motivo de males mais graves. Ele não deve ser cultivado para que se não converta em sombra e tóxico na consciência, mas deve ser o passo racional para a mudança de comportamento.

O erro é uma experiência no processo da evolução em que todos nos encontramos situados. Não é justo, porém, a permanência nele. Queda é fenômeno comum na marcha. Levantar-se, refazer o caminho constitui um dever intransferível para todos, mediante o qual se fixam os valores morais e intelectuais que ensejam a sabedoria e a libertação.

Acata as sugestões do arrependimento, quando este se te apresente nas áreas mental e emocional. Não sejas severo em demasia para contigo mesmo, tornando-te desditoso, nem te faças indiferente a ponto de não lhe aceitares as propostas positivas. Enquanto a oportunidade se te faz favorável, recupera-te, adquirindo, desde já, a paz que o teu erro complicou.

Pilatos, arrependendo-se da pusilanimidade praticada em relação a Jesus, deixou-se enlouquecer; Maria de Magdala, arrependendo-se da vida equivocada que levava, condicionou-se para reencontrar o Mestre no dia da ressurreição; Judas, arrependendo-se do erro grave, enforcou-se; Simão Pedro, arrependendo-se da própria fraqueza, fez-se o protótipo do cristão, transformando-se no exemplo vivo da fé…

A humanidade registra nos seus fastos, arrependimentos de vários matizes e, por isso, há aqueles que felicitam e os há que tresvariam. Seja o teu, o arrependimento que te dignifique e liberte, tornando-te tranquilo e realizador do bem”.

Rogério Coelho

Fonte: G.E.Casa do Caminho de S. Vicente

Referências Bibliográficas:

  1. KARDEC, Allan. O Céu e o inferno. 51.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2003, cap. VII – 1ª parte;
  2. FRANCO, Divaldo. Luz da esperança. 3.ed. Rio [de Janeiro]: F.V.LORENZ, 2002, cap. 37, p. 90-92.
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Qual o significado de reencarnar?

Rogério Miguez

Palingenesia - Dicio, Dicionário Online de Português

“A reencarnação é a volta da alma ou Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo, novamente formado para ele e que nada tem de comum com o antigo.” – Allan Kardec

A palingenesia, ou crença na reencarnação, existe desde tempos imemoriais. Civilizações na Índia, Pérsia, Grécia, entre tantas pujantes culturas, já compreendiam ser inviável a proposta da unicidade da existência, que não satisfazia a razão, tampouco íntimos anseios diversos.

Palingenesia vem do grego, palavra formada pelo prefixo palin, significando repetição, e genes, nascimento; desta forma, o conjunto expressa repetição de nascimentos.

Embora aceita e ensinada em passado longínquo, o conceito original se perdeu através dos tempos, e hoje em dia, falar de vidas sucessivas cria de imediato certo desconforto, sugerindo uma proposta fantasiosa, destituída de qualquer razão, por muitos associada de pronto à antiga civilização egípcia, imaginando-se a ressurreição de múmias, faraós e quem sabe faranis.

Lei de Deus, das mais básicas, se imporá naturalmente às sociedades, quando a proposta da vida única se esgotar por força de sua própria fragilidade, aceitando-se então, como os Antigos: para resolver questões fundamentais, tais como – mortes prematuras, tendências inatas, precocidade de talentos, doenças congênitas, entre tantas outras situações enigmáticas –, só com a aceitação da palingenesia. Além destas, para bem entender a Justiça e Misericórdia de Deus, só por meio da lei das reencarnações.

A Doutrina dos Espíritos não inventou esta lei, pois, sendo princípio divino, ela existe de todos os tempos; a contribuição da Doutrina se verifica na recuperação do verdadeiro conceito, buscando torná-lo mais popular, desmistificando-o.

A necessidade ou mesmo a obrigatoriedade de reencarnar encontra o seu termo, quando o Espírito alcança o ápice de seu processo evolutivo, não precisando mais, a partir de então, passar por expiações e provas, alcançando a condição de só voltar a um corpo de carne em missão.

Apesar de a ideia original ter se perdido, vez por outra criam-se novas doutrinas ou propostas, baseadas no conceito verdadeiro, mas distanciadas do seu fundamento. É o caso da proposta de reencarnar no Plano Espiritual.

Como se denota na proposta da reencarnação, o nome já sugere, ressalta do termo; reencarnar, como visto, significa tomar um novo corpo “de carne”, material. É cristalino este significado, entretanto, alguns creem na possibilidade de reencarnações no Plano Espiritual.

A posição doutrinaria é direta, transparente, Espírito não gera Espírito, tampouco corpo de carne; não há matéria densa no Plano Espiritual, não há sexo material no Espaço, não existe sexualidade na erraticidade como a entendemos aqui na Terra. Ora, se isto é fato, como explicar a tese da reencarnação espiritual? Seria uma lei desconhecida de todos nós?

Se assim fosse, já teria sido certamente pelo menos ventilada nas obras básicas. Allan Kardec, seguramente, teria recebido informações dos Espíritos neste sentido. Não se compreende que mecanismo tão relevante, caso fosse verdadeiro, tivesse sido deixado de lado, para ser descortinado no futuro, apenas por um ou outro médium.

Muitos seguidores desta tese, cremos, o fazem pela conhecida razão de não se aprofundarem no estudo e medi[1]tação dos postulados espíritas magnificamente delineados nas obras básicas. Leem uma ou outra obra, e mesmo assim, às vezes parcialmente e, desta forma, despreparados, se maravilham com a possibilidade de Espíritos desencarnados engravidando e promovendo nascimentos no plano etéreo, esquecidos ou mesmo ignorantes de que quem individualiza os Espíritos é Deus. Há incontáveis coordenadores e técnicos no Plano Espiritual, atuando na matéria para ligar Espíritos em novos corpos físicos toda vez que se faz necessário viabilizar uma nova reencarnação. Não se tem notícia da existência de Espíritos encarregados de promover reencarnações no Plano Espiritual, pelo menos em obras espíritas.

Entretanto, não nos alonguemos mais, não percamos tempo em levantar explicações e raciocínios quanto à possibilidade da “reencarnação” no plano etéreo. Em vez disso, lancemos mão da verdadeira literatura espírita para projetar luz, e luz intensa e suficiente, capaz de ofuscar esta teoria absurda.

No quarto livro do pentateuco espírita, O céu e o inferno, encontram-se em sua Segunda parte elucidativos depoimentos de Espíritos felizes, entre outros, o testemunho do Espírito Sanson, membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, desencarnado em 21 de abril de 1862. Prevendo a sua desencarnação próxima, roga que, após o seu desenlace, fosse evocado para dar informações sobre o Mundo dos Espíritos, ao qual seguramente todos voltarão.

Evocado em 25 de abril de 1862, apenas quatro dias após a sua morte, comparece pela segunda vez, pois já havia sido evocado no dia 23 de abril, e nesta segunda participação, entre outras respostas significativas, informa o seguinte:

Os Espíritos não têm sexo; entretanto, como até poucos dias atrás éreis um homem, desejamos saber se no vosso novo estado tendes mais da natureza masculina ou da feminina? E o mesmo que se dá convosco poder-se-á aplicar ao Espírito desencarnado há muito tempo?

– R. Não temos motivo para ser de natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou como quis e, tendo que lhes dar a encarnação sobre a Terra, segundo seus maravilhosos desígnios, subordinou-os às leis de reprodução das espécies por meio das condições peculiares ao macho e à fêmea.

Contudo, deveis sentir, mesmo sem maiores explicações, que os Espíritos não podem ter sexo. (Grifo nosso).

Mais claro impossível, como nos afirmou Sanson: os Espíritos não se reproduzem!

Para não deixarmos todo o peso desta impossibilidade nas mãos de Sanson, estudemos um pouco mais.

O relato desta evocação inserida em O céu e o inferno e publicado em 1865, foi originalmente registrado na Revista Espírita de junho de 1862, publicado na íntegra, com observação de Allan Kardec:

Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo; os sexos só são necessários para a reprodução dos corpos; como os Espíritos não se reproduzem, o sexo seria inútil para eles.

Nossa pergunta não visava constatar o fato, mas, por causa da morte muito recente do Sr. Sanson, queríamos saber se lhe restava uma impressão de seu estado terreno.

Temos assim a posição do sábio de Lyon, quando previamente já havia se posicionado sobre a questão.

No entanto, será mesmo que estamos sossegados em nosso íntimo, convencidos da impropriedade da proposta da reencarnação no plano da vida verdadeira? Se não, avancemos um pouco mais, retrocedendo ainda no tempo, agora ao ano de 1866. Vejamos o que encontramos, sobre o assunto, na Revista Espírita de janeiro do citado ano:

As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que os unem nada têm de carnal e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque fundadas numa simpatia real e não são subordinadas às vicissitudes da matéria.

[…]

Os sexos só existem no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais. Mas os Espíritos, sendo criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, razão pela qual os sexos seriam inúteis no Mundo Espiritual.

Constata-se assim, mais uma vez, a impossibilidade de haver reencarnação no Espaço, ou seja, geração de corpos materiais por Espíritos desencarnados, frisamos, analisando tão somente obras escritas por Allan Kardec.

Rogério Miguez

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

REFERÊNCIAS:

1 KARDEC, Allan. O céu e o inferno. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 2.

2 ______. ______. it. 11.

3 ______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 5, n. 6, jun. 1862. Conversas familiares de Além-Túmulo – Sr. Sanson (Terceira conversa – 2 de maio de 1862). Trad. Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2009.

4 ______. ______. ano 9, n. 1, jan. 1866. As mulheres tem alma? Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 2. reimp. Brasília: FEB, 2009.

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Deus é um imenso “inexistir”?

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Brasília/DF

Ora, quando refletimos sobre Deus e pensamos nele como “existente”, e ainda quando cremos que ele “existe”, nossa ideia dele não aumenta nem diminui. Científica e filosoficamente, Deus é impossível! Deus é um absurdo! No surto da Reductio ad absurdum, o bispo Anselmo afirmava que “Deus é aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado ou o que é tal que não pode ser pensado algo maior.” [1]

Cada filósofo, cada cientista tem uma visão diferente sobre a possibilidade da “existência” de um “Deus”. Albert Einstein afirmava crer na visão de Deus de acordo com o definido pelo filósofo Baruch Spinoza, na qual tudo e todos fazem parte da composição do Criador. O genial cientista refutava a possibilidade de um Deus individual ou antropomórfico e se definia como agnóstico, ou seja, reconhecia a possibilidade da “existência” de um Deus – por mais difícil que fosse descobrir se isso é verdade ou não. [2]

Carl Sagan negava ser ateu, porque para ele um ateu é alguém que tem evidências persuasivas de que não existe um Deus Judaico-Católico-Islâmico. Sagan dizia que não era tão sábio, mas ao mesmo tempo não considerava que havia algo próximo a uma evidência adequada para a “existência” de um Deus. O astrofísico americano Neil Degrasse Tyson, o mais ativo divulgador da ciência depois de Carl Sagan, também afirma que não enxerga evidências que corroborem a existência de Deus. [3]

Stephen Hawking se definia como ateu. Acreditava que o universo era governado pela supremacia das leis da ciência. Para ele, existia uma diferença fundamental entre a religião, que é baseada na autoridade, e a ciência, que é baseada na observação e na razão. A ciência é suprema porque ela funciona, afirmava Hawking. [4]

Deus “É” imaterial, portanto, incriado, porém criou a existência ou essência de tudo, logo, Deus não pode ser a própria criação, ou seja, não pode “existir”. Deus criou não só um Universo, mas infinitos universos. Nos fenômenos materiais, tudo o que pode ser verificado, o cientista procura encontrar os porquês do existente como possibilidade de ser raciocinado e medido, entretanto, Deus “É” não existente como possibilidade de ser verificado e mensurado.

É impossível provar a “existência” de Deus, isso apenas porque sua inexistência é perfeitamente possível. Vale ressaltar aqui que nossa reflexão não é provar a impossibilidade de Deus “existir”, mas apenas a impossibilidade de se demonstrar Sua possível “existência”, até mesmo porque Ele é o Criador da “existência”. Deus “existente” é coisa limitada; o Deus “existente” é um ente restrito; o Deus “existente” é uma concepção da fé da criatura; o Deus “existente” é uma finitude; o Deus “existente” é adstrito ao pensamento do crente.  Em verdade, Deus tem que SER, e não pode “existir”, até porque tudo o que “existe” é o que d’Ele procede, pois Deus simplesmente “É”. Se Deus “existisse”, teria criado a si mesmo.

A compreensão de Deus alcançada por uma pessoa é aquela possível em face do seu conhecimento e do conhecimento do seu grupo social. No entendimento do Espiritismo, Deus não se relaciona ao mágico, ao místico, ao divinal, ao sacro, ao infinito, ao absoluto. Deus não é matéria, nem energia: é imaterial. Para Kardec, não é permitido ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Se o homem não pode penetrar na essência de Deus, sendo a existência divina dada como premissa, o homem pode chegar pelo raciocínio ao conhecimento dos seus atributos necessários; porque, vendo o que ele não pode ser sem deixar de ser Deus, deduz-se daí o que ele deve ser.

Sem o conhecimento dos predicados de Deus, seria impossível compreendermos a obra da criação. Deus é a inteligência suprema e soberana. Se a imaginássemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, e assim por diante até ao infinito. [5]

Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, teria saído do nada. Ora, não sendo coisa alguma, o nada não pode produzir nada. Deus é imutável. Se ele estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade. Deus é imaterial, de outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria. Deus é todo-poderoso. Se ele não possuísse o poder supremo, poderíamos imaginar um ser mais poderoso e assim por diante, até encontrarmos o ser que nenhum outro pudesse ultrapassar em potência, e então esse outro é que seria Deus. [6]

Deus é soberanamente justo e bom. Deus não poderia ser ao mesmo tempo bom e mau, porque, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, ele não seria Deus. Consequentemente, Ele não poderia deixar de ser ou infinitamente bom ou infinitamente mau; se fosse infinitamente mal, não faria nada de bom; a soberana bondade resulta na soberana justiça.

Deus é infinitamente perfeito. É impossível concebermos Deus sem o infinito das perfeições. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, faz-se preciso que ele seja infinito em tudo. Deus é único. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder, e então não seria Deus.

Em resumo, Deus não pode ser Deus senão sob a condição de não ser ultrapassado em nada por nenhum outro ser, pois o ser que o superasse no que quer que fosse, ainda que apenas na grossura de um cabelo, é que seria o verdadeiro Deus.  Portanto, Deus é a inteligência suprema e soberana, é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser de outra forma. Tal é a sustentação sobre a qual repousa o edifício universal. [7]

Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há de verdadeiro o que não se afaste — nem que seja um til — das qualidades essenciais da divindade. A religião perfeita será aquela que não contenha entre seus artigos de fé nenhum que esteja em oposição com aquelas qualidades, em que todos os seus dogmas suportem a prova desse controle, sem sofrer nenhum dano. [8]

Jorge Hessen

Fonte: Artigos Espíritas J. Hessen

Referências bibliográficas:

  1. ANSELMO. Proslogion. Universidade da Beira Interior, Covilhã, 2008.
  2. Disponível em https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/01/5-reflexoes-de-cientistas-sobre-ateismo-e-agnosticismo.html acesso em 17 de maio de 2020     
  3. Disponível em https://veja.abril.com.br/ciencia/nao-vejo-evidencias-que-corroborem-a-existencia-de-deus/    acesso 18/05/2020
  4. Disponível em https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/01/5-reflexoes-de-cientistas-sobre-ateismo-e-agnosticismo.html acesso em 17 de maio de 2020     
  5. KARDEC ,Allan. A Gênese,SP: Ed. Portal Luz Espírita, 2018, item 8 cap. II (versão digital da 1ª edição traduzido por  Louis Neilmoris )
  6. Idem
  7. Idem
  8. Idem
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Como ocorre o processo de cura espiritual?

Aryanne Karine

De acordo com o Espiritismo, as enfermidades podem ter causas diversas, incluindo fatores físicos, psicológicos e espirituais. Para entender como ocorre o processo de cura espiritual, é inevitável que viajeis um pouco na compreensão de como as enfermidades são causas e qual sua relação com o Mundo Espiritual.

De início é importante lembrarmos que somos seres espirituais, vivendo uma experiência na matéria, e não o oposto. Nossa natureza e verdadeiro lar consiste no Plano Espiritual. Aqui ocupamos envoltórios corpóreos que não passam de vírgulas, comparado as experiências eternas de encarnações em diversos mundos diferentes. Tendo relembrado este fato, e entendendo que o que somos não é nosso corpo e sim nosso Espírito, que além de eterno, conta ainda com um dos mais extraordinários presentes de nosso criador, o livre-arbítrio.

Nosso poder de escolha perante as circunstâncias das quais estamos vivendo hoje e já vivemos em nosso passado longínquo, é o que nos coloca em necessidade de passar por determinada enfermidade. Em O Livro dos Espíritos, ao explicar para nós sobre as dores e sofrimentos, Kardec menciona um estudo feito, com bases no interrogatório de milhares de espíritos pertencentes a todas as classes e posições sociais e que foram estudados desde o seu desencarne, tendo sido observados em cada passo para entender seus progressos Kardec conclui sua pesquisa nos dizendo que “notamos sempre que os sofrimentos guardavam relação com o proceder que eles tiveram e cujas consequências experimentavam […]. Deduz-se, daí que, aos que sofrem, isso acontece porque o quiseram; que, portanto, só de si mesmos se devem queixar, quer no outro mundo, quer neste” (KARDEC, 2022, p. 139).

Somos nós, então, os verdadeiros responsáveis pelas enfermidades que nos acometem, sendo elas, fruto de nossos excessos, das nossas ambições e nossas paixões. Enquanto encarnados, nosso ponto de referência para uma boa saúde como seres humanos é baseado em como está nossa saúde física e emocional, porém como Espíritos, a referência para os males que carregamos em nosso perispírito após desencarne é no aperfeiçoamento moral. Isso porque, quanto mais aperfeiçoado o Espírito for, menos escolhas carnais que possam deteriorar a saúde de nosso corpo teremos.

Não somente nosso corpo físico, como também nosso corpo astral adoece, afinal, se não fossemos ainda tão imaturos na escada da evolução, onde a grande maioria ainda se baseia em escolhas carnais, não haveria a necessidade de tantos hospitais para auxiliar na cura dos Espíritos que retornam ao Plano Astral com suas enfermidades colecionadas dessa experiência. O que me lembra uma passagem que muito bem nos exemplifica sobre os males que também podemos viver no plano espiritual, se não respeitarmos e vivenciarmos as lições espíritas na prática.

No clássico Memórias de um Suicida, de Yvonne Pereira, ao acordar do repouso no Hospital Maria de Nazaré, Camilo, um Espírito suicida que nesta obra nos presenteia com aprendizados incríveis de como funciona o Plano Espiritual, menciona: “(…)apesar da hospitalização e do sono reconfortador, as dores físicas oriundas do ferimento que fizéramos continuavam suplicando nossa sensibilidade, como a lembrarem nosso estado irremediável de réprobos” (BOTELHO, 2017, p. 58).

Entendendo então, a nossa responsabilidade em um possível estado de enfermidade, podemos seguir para a pergunta cerne desse artigo, como ocorre o processo de cura espiritual? Para conseguir explicar esse fato, que apesar de intrigante, não é novo em nosso imaginário humano, tendo em vista que a própria história de Jesus é repleta de curas, irei referenciar obras espíritas que nos expliquem esse processo com base em estudos feitos sobre o tema.

Em O Livro dos Médiuns, Allan Kardec explica sobre mediunidade de cura, e aqui é o primeiro ponto da busca por esta resposta. Uma das mais conhecidas formas de cura é através do passe. Popular e normalmente realizada em toda casa espírita, o passe consiste em um ou mais médiuns, sendo assistidos por um ou mais Espíritos Benfeitores, que através do magnetismo, o seja, da utilização de fluidos cósmicos, que dá vida a tudo que existe, conseguem levar amparo e cura para enfermidades.

Porém, além do passe, Kardec nos explica que a mediunidade curadora “consiste principalmente no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação” (KARDEC, 2023, P. 151). Ou seja, nem só através da imposição de mão, nem só dentro de um centro espírita pode ocorrer um processo de cura espiritual.

O primeiro ponto necessário para auxiliarmos na cura da enfermidade de alguém, é entender que todo nosso pensamento emana uma energia, sendo assim, independente de possuir, ou ter educada a nossa mediunidade de cura, se possuirmos fé, podemos auxiliar nas dores que pessoas próximas estejam enfrentando. Isso por que, ao emanarmos energia de cura através do fluido cósmico universal pelo nosso pensamento, essa energia é recebida pelo enfermo e pode, ou não ser fonte de remédio necessário para a cura.

Nossa próxima parada para compreender sobre este processo é no livro O fotógrafo dos Espíritos, onde o autor Nedyr Menders explica porque não são todos os casos que obtém a cura, ainda que tenhamos muita fé e ainda que um médium de cura trate o paciente. No livro ele menciona que:

“Casos ocorreram de não encontrar a cura esperada, mas sempre existiu a palavra esclarecedora e consoladora. (…) Afirmamos que mesmo os que morreram se curaram, pois devemos entender que cura não é somente o ato imediato de debelar uma doença, mas também o que ocorre quando compreendemos o sentido da vida e os motivos das nossas dores. Não apenas o imediatismo da materialidade, mas, principalmente, o alcance que obtemos ao entender a espiritualidade e a razão pela qual somos levados a ter determinadas doenças” (ROCHA, 2011, p. 91).

Voltando ao Livro dos Médiuns, no item 175, Kardec e a espiritualidade explicam para nós, que um processo de cura pode ocorrer com a magnetização de um médium, mas que pode ser muito potencializada, caso seja o médium o instrumento da espiritualidade benfeitora, potencializando ainda mais o resultado (KARDEC, 2023, p. 151).

Kardec, também pergunta aos Espíritos se existem pessoas capazes de curar somente pelo toque físico e com a afirmativa, os Espíritos dizem que “essas pessoas são verdadeiros médiuns, pois que atuam sob a influência dos Espíritos” (KARDEC, 2023, p. 152). Inclusive, compreendendo a fundo essa questão, podemos inclusive entender que, somos rotineiramente influenciados por Espíritos em nossos pensamentos, sejamos conscientes disto ou não.

Essa influência vai depender muito do tipo de Espírito que atraímos através de nossa vibração e de nossos pensamentos, precisando inclusive, compreender e vigiar sempre que tipo de conexão com o Plano Espiritual estamos tendo. Pois ainda que tenhamos fé, ou ainda que um médium de cura tenha a verdadeira e real intenção de curar, se estivermos com o pensamento conectado em Espíritos inferiores, não só não conseguiremos o objetivo de auxiliar nossos irmãos, como podemos piorar ainda mais a situação.

A maior chave para ambas questões, tanto da nossa conexão com os Espíritos de luz, como para a cura de uma enfermidade, está a disposição a cada um de nós a todo momento, a prece. Nossos Benfeitores e Mentores estão sempre ansiosos para auxiliar na nossa jornada, seja através de cura, ou através de boas intuições, ao orar pedindo auxilio eles sempre estarão aptos a nos ajudar, tanto nos momentos enfermos físicos ou emocionais. Está em nossas mãos acessar, basta que façamos a nossa parte.

Aryanne Karine

Fonte: Letra Espírita

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Referências

  • 1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2022.
  • 2 BOTELHO, Camilo Cândido (espírito). Memórias de um Suicida / pelo espírito Camilo Cândido Botelho; [psicografado por Yvonne A. Pereira] – 27 Edi – 7. Imp – Brasília: FEB, 2017.
  • 3 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita. 2023.
  • 4 ROCHA, Nedyr Mendes da, O Fotógrafo dos Espíritos / Nedyr Mender da Rocha – 2 edi. Capivari, SP: Editora EME, 2011.
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Os deveres que nos cabem: mensagem mediúnica

Militão Pacheco

Meus irmãos,

A doutrina que abraçamos é obra educativa para nossa humanidade, ainda  renitente e transgressora da Lei Divina. Nela encontramos os recursos necessários para nossa autoiluminação. Bem compreendida, aplicada e vivida, encontramos a tão esperada felicidade.

Foi nela que eu tive consolo e paz. Em suas letras, minha alma encontrou caminho e orientação; em sua vivência, estando juntos dos que mais sofrem e deserdados deste mundo, encontrei esperança, otimismo e alegria de viver.

Espiritismo é, pois, um programa de ressignificação existencial. Com ele a dor se transforma em amiga educadora; a queda em aprendizado na senda evolutiva; a aflição em convite à esperança; a morte em vida imortalista.

Espíritas, meus irmãos, que possamos, pois, nos imbuir dos deveres que nos cabem nessa hora, em que a humanidade atravessa os seus últimos ais. Esqueçamos as nossas diferenças e, com espírito de fraternidade, socorramos o órfão e o carente de pão, instruamos o analfabeto, visitemos fraternalmente o encarcerado, ouçamos o aflito e desesperado, espalhando consolo por esse mundo de tantas dores.

A Caridade e a Fraternidade são nossos maiores deveres. Que as diferenças, naturais por certo, sejam tratadas no clima da tolerância e da solidariedade para que o trabalho avance e cresça na Vinha do Senhor.

Unamo-nos com evangelho e pelo evangelho, que é o sublime código que norteará a civilização vindoura.

Conosco, muitos espíritos espíritas do nosso querido estado vos abraçam e abençoam, Cairbar, Anália, Benedita Fernandes, Godoy, Armond, Wallace Leal, Batuíra, Simonetti, Freitas e Marlene Nobre e tantos outros.

Com votos de união, trabalho e caridade,

Militão Pacheco

Médium T. B. S.

Mensagem recebida por ocasião da Confraternização Espírita de São Carlos, em 27 de maio de 2023.

Fonte: espiritismo.net

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O QUE É INTELECTUALIZAR A MATÉRIA?

Jáder dos Reis Sampaio

Na pergunta 25 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec está discutindo os princípios, e divide didaticamente o universo em duas substâncias (ousias) originais, essências ou princípios (alguma coisa primordial ou primitiva da qual se originam mudanças): espírito (princípio inteligente) e matéria (princípio material, que compreende as transformações de um fluido cósmico ou universal). Trata-se de posição muito similar à de René Descartes (1596-1650) adicionada a lei do progresso.

Kardec trabalhava com um conceito de matéria sem um átomo formado de prótons (isso surgiu em 1866 e foi apresentado à comunidade acadêmica por Rutherford em 1911), elétrons (surgiu com as pesquisas de Thompson em 1897, que mostrou que os raios catódicos eram formados de partículas com cargas negativas) e nêutrons (descobertos em 1932 por James Chadwick). Já existia o conceito de moléculas, que era entendido como associação de átomos (vistos como corpúsculos indivisíveis de várias formas, que se “encaixavam” uns nos outros). O átomo era conhecido como molécula elementar, ao lado das moléculas compostas, formadas de associações de diversas moléculas elementares. Moléculas elementares e compostas formavam a matéria. E aí parece termos chegado ao conceito de matéria empregado por Allan Kardec em seus escritos.

Como entender a intelectualização da matéria? Talvez tenhamos uma chave explicativa em uma pergunta geralmente mal interpretada: a questão 28, onde Kardec menciona “matéria inerte” e “matéria inteligente”. Os espíritos não se prendem à nomenclatura proposta, mas o que Kardec parece querer distinguir é, em primeiro lugar, a matéria que não tem sinal de inteligência, como uma pedra de sílex ou um arbusto, sendo que esse último reage física e quimicamente à luz, à água, e a elementos que se encontram na terra, à energia nuclear e à gravidade, por exemplo. Contudo, não há qualquer sinal de inteligência, nem de instinto.

Em segundo lugar há seres do reino animal, que apresentam instintos (os quais Allan Kardec explicou com uma frase interessante: “inteligência sem raciocínio”, questão 73) e a inteligência, que Kardec associa, em seu primeiro livro espírita ao “pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade cada um, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem às suas necessidades”. (questão 71).

Para explicar seres, como as plantas mesmo, que têm vida, mas não têm instinto nem inteligência, os espíritos com os quais dialoga Kardec se servem de um conceito muito usado à época e meio abandonado nos dias de hoje pelas ciências naturais: o princípio vital.

A biologia de nossos dias não fala mais de um vitalismo (há pequenas exceções), porque desenvolveu-se o conhecimento no sentido de explicar a vida a partir da estrutura e funcionamento dos corpos e em associação com a física e a química, exclusivamente, tornando as argumentações metafísicas ou filosóficas, não baseadas em evidências, mas em princípios ideais, como não sendo conhecimento científico, de forma geral. Isso não significa que não exista algum princípio vital, apenas que a ciência decidiu mudar o rumo de sua nau e abandonou esse objetivo por considerá-lo metafísico.

Assim, as “pedras” são matéria com uma força inerte (questão 585) sem princípio vital, nem instinto, nem inteligência; as plantas têm matéria e princípio vital, algumas parecem mostrar algum instinto rudimentar, como a dionéia (questão 589), os animais têm a tal “força inerte”, o princípio vital, os instintos mais ou menos desenvolvidos e alguns têm uma inteligência rudimentar. Kardec explicita algumas características dos animais, como capazes de se comunicar, muitas vezes sem serem capazes de emitir sons (isso parece mais desenvolvido nos animais de reinos superiores na taxonomia de Lineu, do século 18), terem um livre arbítrio limitado às suas necessidades e instinto de imitação (como em papagaios, que imitam os sons, e macacos que imitam os gestos – questão 596).

Na questão 597 temos uma afirmação que se tornou polêmica, entre os espíritas que insistem em estudar frases soltas: Kardec diz que os animais têm um princípio independente da matéria que sobrevive ao corpo. Seria uma espécie de precursor do Espírito (questão 76), uma alma muito inferior à humana (questão 597-a), que conserva sua individualidade após a morte, mas não tem consciência de si mesmo (questão 598), que não pode fazer escolhas psicológicas, por não ter livre arbítrio propriamente dito (questão 599), que tem um intervalo curto entre a desencarnação e reencarnação, controlado por espíritos responsáveis por isso (questão 600), sujeita ao progresso pela força das coisas e não por sua própria vontade (questão 602).

A última distinção que Allan Kardec faz entre os animais e os homens diz respeito à inteligência. A inteligência que os animais (superiores) possam vir a desenvolver diz respeito exclusivo à “vida material” e a dos seres humanos abrange também a “vida moral”, entendida aqui como vida psicológica ou psíquica, que envolve escolhas morais e diversas escolhas que os animais não fazem.

Observando detidamente o todo da argumentação kardequiana, a matéria intelectualizada são os animais que apresentam inteligência rudimentar (lato sensu) e os seres humanos que se servem da inteligência (stricto sensu) e do livre-arbítrio  para atender suas necessidades e escolher uma vida moral (no sentido mais amplo, de vida psicológica). Os espíritos deles têm acesso a corpos capazes de permitir a individualidade, o movimento e outras características necessárias à ação de inteligências no meio ambiente.

Os seres materiais que não são inertes, que apresentam vida, mas não têm uma vida psicológica, seriam matéria não-intelectualizada, e dentre esses, os que vivem e morrem, não teriam ainda um espírito individual, mas seriam portadores do princípio vital.

Hoje a biologia fala em cinco ou mais reinos, na medida em que com o avanço dos conhecimentos, se tem mais informações sobre os seres para classificá-los, mas isso não é necessário à compreensão do pensamento de Allan Kardec no ponto em questão.

Jáder dos Reis Sampaio

Fonte: espiritismo.net

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Preciosidade esquecida em A Gênese

Orson Peter Carrara 

Quanto tempo nós temos? Spaco alternativo

Convenhamos com honestidade. Ficamos nos batendo em tantas questões absolutamente dispensáveis e medíocres e esquecemos o essencial. O conhecimento espírita, sempre disponível e com ampla facilidade de consulta – ressaltando-se a qualidade expressiva de muitos conteúdos – remete-nos naturalmente a uma intensa alegria e gratidão à vida por tantas oportunidades de aprendizado.

Um texto esquecido, como tantos outros, está em A Gênese, no capítulo VI – Uranografia Geral, exatamente no item 2, abordando a velha questão do tempo. Transcrevo na íntegra (o texto não é longo), estimulando o leitor à leitura, dada a grandeza do texto e a reflexão de entusiasmo a que remete. Sugiro leitura atenta. O texto é muito precioso.

“2. Como a palavra espaço, tempo é também um termo já por si mesmo definido. Dele se faz ideia mais exata, relacionando-o com o todo infinito. O tempo é a sucessão das coisas. Está ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito. Suponhamo-nos na origem do nosso mundo, na época primitiva em que a Terra ainda não se movia sob a divina impulsão; numa palavra: no começo da gênese. O tempo então ainda não saíra do misterioso berço da natureza e ninguém pode dizer em que época de séculos nos achamos, porquanto o balancim dos séculos ainda não foi posto em movimento.

Mas, silêncio! soa na sineta eterna a primeira hora de uma Terra insulada, o planeta se move no espaço e desde então há tarde e manhã. Para lá da Terra, a eternidade permanece impassível e imóvel, embora o tempo marche com relação a muitos outros mundos. Para a Terra, o tempo a substitui e durante uma determinada série de gerações contar-se-ão os anos e os séculos. Transportemo-nos agora ao último dia desse mundo, à hora em que, curvado sob o peso da vetustez, ele se apagará do livro da vida para aí não mais reaparecer. Interrompe-se então a sucessão dos eventos; cessam os movimentos terrestres que mediam o tempo e o tempo acaba com eles. Esta simples exposição das coisas que dão nascimento ao tempo, que o alimentam e deixam que ele se extinga, basta para mostrar que, visto do ponto em que houvemos de colocar-nos para os nossos estudos, o tempo é uma gota d’água que cai da nuvem no mar e cuja queda é medida.

Tantos mundos na vasta amplidão, quantos tempos diversos e incompatíveis. Fora dos mundos, somente a eternidade substitui essas efêmeras sucessões e enche tranquilamente da sua luz imóvel a imensidade dos céus. Imensidade sem limites e eternidade sem limites, tais as duas grandes propriedades da natureza universal.

O olhar do observador, que atravessa, sem jamais encontrar o que o detenha, as incomensuráveis distâncias do espaço, e o do geólogo, que remonta além dos limites das idades, ou que desce às profundezas da eternidade de faces escancaradas, onde ambos um dia se perderão, atuam em concordância, cada um na sua direção, para adquirir esta dupla noção do infinito: extensão e duração. Dentro desta ordem de ideias, fácil nos será conceber que, sendo o tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milheiros, para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade, do mesmo modo que milhares de léguas adicionadas a milhares de léguas não dão mais que um ponto na extensão. Assim, por exemplo, estando os séculos fora da vida etérea da alma, poderíamos escrever um número tão longo quanto o equador terrestre e supor-nos envelhecidos desse número de séculos, sem que na realidade nossa alma conte um dia a mais. E juntando, a esse número indefinível de séculos, uma série de números semelhantes, longa como daqui ao Sol, ou ainda mais consideráveis, se imaginássemos viver durante uma sucessão prodigiosa de períodos seculares representados pela adição de tais números, quando chegássemos ao termo, o inconcebível amontoado de séculos que nos passaria sobre a cabeça seria como se não existisse: diante de nós estaria sempre toda a eternidade.

O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?!”

Que reflexão belíssima! Dá mesmo para continuar batendo a cabeça com preocupações ou pretensões vãs? Não é melhor concentrar os interesses no que realmente importa?

Orson Petter Carrara

Fonte: geae.net

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Tentações

A conferência no templo espírita versara sobre tentações, compromissos, faltas, culpas…

Antônio Gama, distinto corretor, e a esposa, Dona Cornélia, caminhavam de volta a casa, ao lado de Artur Ramos, companheiro de fé. E Antônio comentava:

— O orador não precisava ser assim exigente. Expôs, por mais de uma hora, como se nós, os da assembleia, fôssemos malfeitores.

— Entretanto, — disse Ramos, — cautela nunca é demais. Todos somos capazes de cair…

— Ah! mas não temos a prece e o conhecimento? — Falou Dona Cornélia. — É impossível que estejamos assim tão atrasados!…

— Não! — Tornou Gama, — não somos tão ruins! Já subimos um degrauzinho…

A chegada ao lar interrompeu a conversação.

Logo, porém, depois de instalados em casa, enquanto Dona Cornélia preparava o chá, o telefone tilintou.

Gama atendeu.

— Quem é? — Perguntou.

E a voz veio macia e familiar:

— Pois você estranha, Antônio? Somos nós…

E ouvindo referência ao nome de certa firma, conhecida por grandes negócios, e com a qual já operara algumas vezes, Gama ajuntou, satisfeito:

— Dê as ordens.

E falaram do outro lado:

— É um negocião. Basta apenas um recibo assinado por você e receberá oitocentos mil cruzeiros…

A voz continuou explicando que se tratava da venda de vários automóveis para determinada companhia.

Antônio percebeu que se tratava de operação inconfessável, e pediu um momento.

Emocionado, explicou a Dona Cornélia de que se tratava, e, alarmados, conversaram rapidamente. Oitocentos mil cruzeiros!

— Afinal, — concluiu Dona Cornélia, — é um negócio como os outros.

— Sim, — falou o marido, — se eu não aceitar, outros aceitarão.

E piscando os olhos:

— Deve ser o amparo de algum amigo espiritual para que possamos comprar, enfim, o nosso apartamento.

Em seguida, correu ao fone e avisou:

— Aceito.

— Muito bem! — Responderam, — encontrar-nos-emos amanhã, no mesmo lugar.

Gama perguntou então:

— Explique-me. Onde estarei para o entendimento?

O amigo desconhecido mudou o tom de voz e falou, claramente preocupado:

— Mas ouça! Você não está compreendendo? Diga! É você mesmo quem fala?

— Sim, — aclarou Antônio, — sou eu, Antônio Gama, o corretor…

— Ah! — Concluiu o outro com inflexão de profundo desapontamento — desculpe, cavalheiro, houve erro de ligação…

Só então o casal de incipientes na Doutrina reconheceu que ambos haviam fragorosamente caído em perigosa tentação…

Hilário Silva

Do livro Almas em desfile, obra psicografada pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira.

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Conflitos doutrinários

Jerri Almeida

Kardec disse: “As questões de fundo devem passar à frente das questões de forma.”

É imprescindível o direito de exame e de crítica e o Espiritismo não alimenta a pretensão de subtrair-se ao exame e à crítica, como não tem a de satisfazer a toda gente. Cada um é, pois, livre de o aprovar ou rejeitar; mas para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento de causa (Allan Kardec. “Obras Póstumas”, 1ª Parte. Ligeira Resposta aos Detratores do Espiritismo).

Não são poucos os conflitos envolvendo o problema das interpretações sobre aspectos doutrinários. Sabemos que o Espiritismo não foi ditado completo, nem imposto à crença cega. Cabe ao ser humano a observação dos fatos, o trabalho de estudar, comentar e comparar a fim de tirar suas próprias ilações e aplicações. No entanto, um dos primeiros problemas que se apresenta é o das interpretações dos textos da Codificação. Mas o que é interpretar?

A rigor, podemos definir dois sentidos para o ato de interpretar um texto: a) a interpretação como desvelamento do seu sentido original; e, b) a interpretação como construção de significados pessoais.

O primeiro consiste na ideia de que interpretar é buscar o sentido atribuído ao texto pelo próprio autor. Desta forma, a boa interpretação seria aquela que busca descobrir o que o autor (ou autores, no caso dos Espíritos) queria dizer quando escreveu sobre determinado assunto. É o esforço em buscar o seu sentido original.

No segundo caso, busca-se admitir que quem dá o significado para o texto é quem o lê, e não quem o escreveu. Nesse caso, toda interpretação termina sendo um processo essencialmente subjetivo, muito vinculado ao que os gregos chamavam de “doxologia”, ou seja, a livre opinião. E toda interpretação, em tese, poderia ser aceita.

Entretanto, ao estudarmos os livros da Doutrina Espírita, será que toda e qualquer interpretação será válida? Allan Kardec, em “O Livro dos Médiuns”, quando trata dos Sistemas, analisando os fenômenos mediúnicos que originaram o Espiritismo, assim se pronunciou: “Quando foram averiguados por testemunhos irrecusáveis e através de experiências que todos puderam fazer, aconteceu que cada qual os interpretou a seu modo, de acordo com suas ideias pessoais, suas crenças e seus preconceitos. Daí o aparecimento dos numerosos sistemas que uma observação mais atenta deveria reduzir ao seu justo valor” (Cap. 4, item 36).

Quando cada um interpreta do seu modo, como observou Kardec, abrem-se brechas para as ideias pessoais prevalecerem sobre o conteúdo original das obras. Isso representa sempre uma temeridade, pois abre espaço para que os interesses individuais se destaquem. Surgem então erros de interpretação, ideias que agregam ao Espiritismo elementos de outras doutrinas espiritualistas, descaracterizando o seu ensino e sua prática.

Já em sua época, Kardec se preocupava com o que seria publicado em temos de Espiritismo. Mais ainda, quando se tratava de livros mediúnicos. Os critérios utilizados por ele, para analisar esses textos, eram bastante rígidos. Não é demais lembrarmos que aceitar tudo o que venha dos espíritos, ou de qualquer outra fonte, sem o devido exame e cautela, é enveredar por um caminho perigoso e cheio de armadilhas. Analisando as chamadas comunicações apócrifas, o Codificador assim se expressou: “De fato, a facilidade com que algumas pessoas aceitam tudo o que vem do mundo invisível, sob o pálio de um grande nome, é que anima os Espíritos embusteiros. A lhes frustrar os embustes é que todos devem consagrar a máxima atenção; mas, a tanto ninguém pode chegar, senão com a ajuda da experiência adquirida por meio de um estudo sério. Daí o repetirmos incessantemente: Estudai, antes de praticardes, porquanto é esse o único meio de não adquirirdes experiência à vossa própria custa” (Allan Kardec. “O Livro dos Médiuns”. Cap. 31, Comunicações apócrifas, XXXIII).

Kardec enfatiza o estudo como forma de discernimento do que o Espiritismo aceita e daquilo que ele se distancia. Assim, o conhecimento das Obras Fundamentais, nunca será demais salientar, representa base segura para o entendimento da Doutrina. Todavia, mesmo assim é necessário ter cautela com as interpretações, muitas vezes apressadas, que se faz também sobre elas.

Flagrante a imperiosa necessidade de administrarmos conflitos e divergências com moderação e fraternidade. Na defesa de determinada tese, deverá se destacar a dialética das ideias, dos argumentos e dos fundamentos. Muitos conflitos se prolongam em torno de assuntos vazios e estéreis, simplesmente, para destacar o ego dos debatedores.

Allan Kardec teve a grandeza intelectual de jamais “fechar” o pensamento espírita em torno de uma “verdade única” e dogmática. O caráter intrínseco do discurso filosófico é a liberdade de pensamento, aberto à reflexão e ao progresso das ideias. Todavia, o Espiritismo não traduz uma simples reflexão intelectual para criar sentidos ou significados, ao contrário, é um saber que se justifica com base nos fatos. Ao analisar o conjunto de sua obra, veremos que Kardec não partiu da “crença”, mas da sólida pesquisa científica, no campo da mediunidade, para, num segundo momento, enveredar pelos caminhos da interpretação dos fatos, com base no crivo da razão.

Um estudo atento de “O livro dos Espíritos” evidencia a busca constante de Kardec, por explicações plausíveis, que possam atender à coerência e ao bom senso. Ele interroga os espíritos com firmeza, cercado de boa argumentação, mas – ao mesmo tempo – buscando libertar-se de preconceitos e atavismos culturais de sua época.

Há, naturalmente, uma “busca incessante” de conhecimentos e reflexões, iniciadas em “O livro dos Espíritos” e que, evidentemente, não para com ele, nem mesmo o esgota em todo o seu potencial doutrinário. Isso oferece, ao conjunto das Obras Fundamentais, um dinamismo inesgotável, uma vez que a experiência da evolução espiritual vai oportunizando ao ser humano uma ampliação de seus horizontes intelectuais.

” Interpretar não significa modificar os fundamentos da Doutrina Espírita. Na verdade, a interpretação é um esforço da inteligência por “encontrar um sentido escondido”, que não está, necessariamente, claro. Ora, em nossa condição de espíritos em evolução, não podemos depreender que já esteja tudo resolvido, em termos de entendimento sobre a vida e seus mecanismos. Logo, a capacidade de interpretação é inerente ao ser humano. Deveremos usá-la de forma responsável, coerente e compromissada, em primeiro lugar, com a própria Doutrina. “

Essa relação dialética se processa também, no diálogo crítico do leitor com a obra. Mas é preciso que esse diálogo se distancie das leituras simplistas, onde, muitas vezes, se busca afirmar o conteúdo doutrinário através de posturas acríticas, influenciadas pela teologia tradicional. Através de sua metodologia, Kardec nos ensinou a dialogar com a fonte das informações sem, no entanto, perder o viés dos sentimentos. A racionalidade empregada aos estudos deve servir para que os seus conteúdos nos levem a um encantamento pela vida.

O dever dos verdadeiros espíritas, dos que compreendem o fim providencial da Doutrina é, antes de tudo, fazer prevalecer pelo exemplo o sentimento de fraternidade que é uma das bases de seus ensinamentos. Nas discussões doutrinárias quando se perde esse norte, não é de se admirar predominarem as paixões e o orgulho. Surgem práticas, daí decorrentes, que se distanciam dos postulados kardecianos, provocando inúmeros dilemas no Movimento Espírita.

O próprio Kardec advertiu o Movimento Espírita sobre as questões de “fundo” e as questões de “forma”: “As questões de fundo devem passar à frente das questões de forma. Ora, as questões de fundo são as que têm por objetivo tornar melhores os homens, considerando-se que todo progresso social ou outro não pode ser senão consequência do melhoramento das massas; é para isso que tende o Espiritismo e por aí prepara os caminhos a todos os gêneros de progressos morais. Querer agir de outra forma é começar o edifício pela cumeeira, ante de lhe assentar os alicerces; é semear em terreno que não foi arroteado” (Allan Kardec. “Revista Espírita”, Março de 1863. Sobre a decisão tomada pela Sociedade Espírita de Paris a respeito da questão religiosa).

Por isso, no mesmo texto da “Revista Espírita”, de março de 1863, desaprovava toda e qualquer publicação própria a falsear a opinião sobre o fim e as tendências do Espiritismo. Os conhecimentos bem alicerçados são aqueles que se mantêm ao longo do tempo. As questões de forma passam, as de fundo permanecem. É relevante não se abandonar a simplicidade e a profundidade do horizonte doutrinário, consubstanciado nas Obras Fundamentais.

Diante dos conflitos doutrinários, no entanto, jamais abdicar de uma postura de respeito com aqueles que pensam diferentemente. Torna-se imperativo que essas divergências se mantenham no plano das ideias, jamais transitando para o campo pessoal. O espaço dos argumentos é um espaço privilegiado para o embate do pensamento, podendo se tornar rico no aprofundamento das ideias.

Quando os argumentos já não mais se ajustarem, quando nenhum acordo sob os aspectos divergentes for passível de manutenção, o diálogo e o bom senso não mais vigorar, então é comum que ocorra um afastamento, posto que cada um possui liberdade de agir e pensar. Aqueles que seguirem por outra direção, afastando-se do contexto doutrinário do Espiritismo, quer assumidamente ou não, devem ser respeitados em suas deliberações pessoais.

” Muitos desejam, ingênua ou orgulhosamente, reformular o Espiritismo, esquecendo-se que sua fonte não é uma concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido. É, como disse Kardec, resultante de milhares de observações feitas sobre todos os pontos do planeta e que convergiram para um centro que os coligiu e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos, sem exceção, são deduzidos da experimentação, que precedeu à formulação da teoria. “

O estudo das obras de Kardec, contudo, representa a construção do alicerce fundamental para o efetivo conhecimento espírita. A maior parte dos conflitos doutrinários deve-se ao frágil conhecimento sobre esses textos. Logo, os melhores resultados como aludiu Kardec, em sua “Viagem Espírita de 1862”, poderão ser atingidos com os investimentos nos grupos de estudos.

Finalizamos com Kardec: “Há algum tempo constituíram-se alguns grupos, de especial caráter, e cuja multiplicação entusiasticamente desejamos encorajar. São os denominados grupos de ensino. Neles ocupam-se pouco ou nada das manifestações. Toda a atenção se volta para a leitura e explicação de ‘O livro dos Espíritos’, ‘O livro dos Médiuns’, e de artigos da ‘Revista Espírita’. (…) Aplaudimos de todo o coração essa iniciativa que, esperamos, terá imitadores e não poderá, em se desenvolvendo, deixar de produzir os melhores resultados” (Allan Kardec – “Viagem Espírita de 1862”).

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Publicado originalmente na Revista Harmonia Edição de setembro de 2022

Fonte: Portal da Casa Espírita Nova Era – Blumenau – Santa Catarina – SC

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