Dos desvios e distorções doutrinárias

Orson Peter Carrara

Há que se dedicar muito cuidado e atenção na prática cotidiana da programação de nossas instituições espíritas. O compromisso do adepto espírita é com o Espiritismo. E Espiritismo está claramente definido nas obras básicas de Allan Kardec. As inclusões indevidas, práticas que distorcem, inovações oriundas de nossas distrações doutrinárias e mesmo quando criamos o “nosso espiritismo”, correm por nossa conta e risco, gerando responsabilidades de expressão, face às noções indevidas que podemos estar semeando em pessoas que agora se aproximam da Doutrina Espírita e o conhecem distorcido de suas propostas verdadeiras.

O compromisso do Espiritismo é com a renovação moral do ser humano. Totalmente conectado com o Evangelho de Jesus, suas bases visam esclarecer e orientar sobre nossa natureza, origem e destinação como filhos de Deus. Fundamentado em bases racionais e exclusivamente voltado ao crescimento intelecto moral dos filhos de Deus, o Espiritismo dispensa condicionamentos, dependências de qualquer espécie, imposições, exigências e fanatismos que possam ou queiram se impor.

Quando se fala em condicionamentos e dependências, há um leque enorme de situações sutis que vamos nos permitindo e que deformam totalmente a genuína prática espírita. Alguém poderia perguntar: mas qual ou quais? Relacione uma ou mais. Não há necessidade de citar, discriminar ou criar outros perigosos caminhos que são os do preconceito ou do orgulho ferido e mesmo possíveis imposições ou críticas que não cabem.

A resposta é fácil. O Espiritismo possui e oferece ferramentas úteis e precisas para se evitar condicionamentos e dependências. Basta que perguntemos a nós mesmos: o que espero ou faço do Espiritismo? Como dirigente, palestrante, escritor ou colaborador/tarefeiro em qualquer área de atividade nas instituições – pois que não há qualquer atividade que seja mais importante ou mereça qualquer destaque, já que somos todos meros aprendizes –, como estou me portando?

Aprisiono ou liberto e motivo as pessoas? Uso ameaças, chantagem e imponho minhas ideias e vontades como as únicas corretas? Sou daqueles que recriminam e acusam, desprezam ou não desmerecem o esforço alheio? Não é preciso continuar. Muitas outras situações podem ser incluídas.

Com tais posturas, onde vão se incluir os desdobramentos próprios do orgulho, da vontade de dominar, da vaidade e da prepotência, geram os problemas que aí estão, esperando nossa submissão à realidade do que realmente somos: todos meros aprendizes.

O pior de tudo isso é que deixamos que nossas tendências introduzam práticas estranhas ao Espiritismo na prática cotidiana dos Centros, como as atuais novidades incoerentes com a genuína prática espírita. Quais são as novidades? Novamente não é nem preciso citar. Basta observar com atenção! Os desvios surgem e as novidades aparecem quando esquecemos a prioridade do Espiritismo: nossa melhora e progresso moral.

E a orientação desse programa está claramente nas obras básicas, que esquecemos de consultar, de estudar, refletir e divulgar. E principalmente de fazê-la amplamente compreensível, em suas riquezas, para aqueles que se aproximam – sedentos por entender – e são bombardeados com condicionamentos que, ao invés de libertarem, aprisionam e repetem os mesmos equívocos da história bem conhecida, ao longo do tempo.

É nosso dever respeitar o Espiritismo! É nosso dever transmitir Espiritismo com fidelidade. Muitas pessoas que agora se aproximam do Espiritismo não trazem uma formação anterior que lhes facilite entender os fundamentos do Espiritismo e estes precisam ser explicados, comentados, exemplificados com clareza.

E, infelizmente, diante de tanta grandeza moral à disposição para cumprir sua justa finalidade, ficamos usando nosso tempo, recursos e inteligência para finalidades absolutamente distantes da genuína prática espírita que não é outra senão a caridade, em sua ampla abrangência, que não se restringe à doação de coisas, mas à doação de nós mesmos na gentileza, na sensibilidade, na atenção, no estender das mãos, no trabalho em favor do bem geral, etc., etc.

Abramos os olhos. Nossa responsabilidade é enorme. E nossa fragilidade também…

Orson Peter Carrara

Fonte: Espiritismo na Rede

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Como é o Casamento Espírita?

Não existe casamento espírita.

– Oh! que frustação! dirá a noiva romântica.

Você poderá alegar: – Mas eu já presenciei casamento espírita. Um casal de amigos espíritas se casou numa cerimônia diferente. Um diretor do centro espírita fez uma prece lindíssima, por sinal.

3

Vamos entender bem as coisas. Nenhum centro espírita ou sociedade verdadeiramente espírita (que segue os postulados da Doutrina Espírita) realiza casamentos, pois no Espiritismo não existem sacramentos, rituais, dogmas ou mesmo cerimônias.

No entanto, como o casamento no civil quase sempre é seguido de uma festa onde se encontram familiares e amigos, alguns casais espíritas aproveitam a ocasião para fazer uma prece, por exemplo, a fim de que selar esse importante momento para ambos juntos de pessoas queridas.

Nesse caso, podemos dizer que existe apenas o casamento civil, mas não uma cerimônia espírita.

Porque o verdadeiro casamento é de alma para alma e não depende de formalidade alguma.

Há pessoas muito felizes unidas há décadas que nunca se casaram formalmente nem sequer no civil. Depende da escolha daqueles que se unem.

Fique claro: isso sempre dependerá da vontade dos futuros cônjuges. A Doutrina Espírita não impõe nada, não proíbe nada.

O que poderá ocorrer é mais ou menos o seguinte (mas não vamos dar o nome de casamento espírita, certo?):

No local escolhido para realizar a cerimônia civil, uma prece poderá ser feita por um familiar dos noivos (não é preciso convidar um diretor de centro, um orador espírita, um médium etc.), até porque sabemos que muitos amigos espirituais também estarão presentes.

O casamento poderá ser simples, sem exageros, excessos e desperdícios. Deve haver intensa participação espiritual dos noivos, dos familiares e convidados, assim como há dos amigos desencarnados.

Os noivos espíritas devem saber como se casar perante a sociedade e a espiritualidade, respeitando as convicções dos familiares “não espíritas”, mas procurando fazer prevalecer as suas. Afinal de contas, é você que está se casando.

Mas, antes de terminar, digo o seguinte: faça do seu jeito, o casamento é seu. Seja feliz!

Se você quiser usar roupa de noiva, plumas e paetês, aproveite!

Só não poderá dizer que seu casamento foi espírita, certo?

1

Vejamos como foi o casamento de Mário e Antonina, que se encontra no livro Entre Terra e o Céu, narrado por André Luiz e psicografado por Chico Xavier:

“Mário e a viúva esperavam efetuar o matrimônio em breves dias. Visitamos o futuro casal, diversas vezes, antes do enlace que todos nós aguardávamos, contentes.

“Amaro e Zulmira, reconhecidos aos gestos de amizade e carinho que recebiam constantemente dos noivos, ofereceram o lar para a cerimônia que, no dia marcado, se realizou com o ato civil, na mais acentuada simplicidade.

“Muitos companheiros de nosso plano acorreram à residência do ferroviário, inclusive as freiras desencarnadas que consagravam ao enfermeiro particular estima. A casa de Zulmira, enfeitada de rosas, regurgitava de gente amiga.

“A felicidade transparecia de todos os semblantes. À noite, na casinha singela de Antonina, reuniram-se quase todos os convidados novamente.

“Os recém-casados queriam orar, em companhia dos laços afetivos, agradecendo ao Senhor a ventura daquele dia inolvidável. O telheiro humilde jazia repleto de entidades afetuosas e iluminadas, inspirando entusiasmo e esperança, júbilo e paz. Quem pudesse ver o pequeno lar, em toda a sua expressão de espiritualidade superior, afirmaria estar contemplando um risonho pombal de alegria e de luz.

“Na salinha estreita e lotada, um velho tio da noiva levantou-se e dispôs-se à oração. Clarêncio abeirou-se dele e afagou-lhe a cabeça que os anos haviam encanecido, e seus engelhados lábios, no abençoado calor da inspiração com que o nosso orientador lhe envolvia a alma, pronunciaram comovente rogativa a Jesus, suplicando-lhe que os auxiliasse a todos na obediência aos seus divinos desígnios.”

……………………….

Então, o espírita, que estuda e busca entender a doutrina dos espíritos, sabe que a orientação é começarmos a nos desvencilhar da materialidade. O empenho maior não deve ser com a cerimônia, mas sim com os compromissos conjugais do dia-a-dia, o respeito com o cônjuge, a atenção, a amizade, as demonstrações de amor, a responsabilidade de ambos com a educação dos filhos que Deus os confiar.

Quando entendermos que Deus abençoa toda união, com ou sem cerimônia religiosa, nossa preocupação será convidar Jesus para viver em nosso lar.

Fernando Rossit

Fontes: kardecriopreto.com.br

GRUPO DE ESTUDO “ALLAN KARDEC”: CASAMENTO – visão espírita (grupoallankardec.blogspot.com)

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Cultura Espírita

José Herculano Pires

Biografia

A Cultura Espírita, como observou Humberto Mariotti, filósofo e poeta espírita argentino, é uma realidade bibliográfica, edificada no plano das pesquisas e dos estudos. Socialmente se reduzia uma parte mínima do movimento espírita mundial, pois a maioria dos espíritas a desconhece. Compreende-se que isso acontece em consequência das campanhas deformadoras e difamatórias das Igrejas e das Instituições Científicas, especialmente as de Medicina, contra o Espiritismo. Mas grande parte da culpa cabe aos próprios espíritas cultos, que, em sua maioria, se mostraram displicentes, por acomodação indébita ou preguiça mental. Por outro lado, a vaidade e o pedantismo intelectual, de muitos espíritas os afastaram das pesquisas sobre os mais importantes aspectos da doutrina, para se entregarem a elucubrações pessoais gratuitas, dispersivas e não raro absurdas. O desejo vaidoso de brilhar aos olhos vazios do mundo levou muitos deles a querer adaptar o Espiritismo às conquistas científicas modernas, ao invés de mostrarem a subordinação dessas conquistas ao esquema doutrinário. Outros quiseram atrevidamente atualizar a doutrina e outros ainda se aventuraram a corrigir Kardec. Essas atitudes não deram o proveito pessoal que desejavam e serviram apenas para incentivar as mistificações.

Toda nova cultura nasce da anterior. Das culturas anteriores nasceu a cultura moderna, carregada de contribuições antigas. Mas o aceleramento da evolução cultural a partir da II Guerra Mundial fez eclodir quase de surpresa a Era Tecnológica. O materialismo atingiu o seu ápice e explodiu para que as entranhas da matéria revelassem o seu segredo. E esse segredo confirmou a validade da Cultura Espírita marginalizada no plano bibliográfico. Começou assim o desabrochar de uma Nova Civilização, que é a Civilização do Espírito. “A finalidade da Educação — escreveu Hubert — é instalar na Terra, pela solidariedade de consciências, a República dos Espíritos”. Essa foi a proclamação da Nova Era, feita na França de Kardec, na Paris da sua batalha pelo Espiritismo.

Mas para que uma civilização se desenvolva é necessária a integração dos homens nos seus princípios e pressupostos. Uns e outros se encontram nos livros de Kardec, mas se esses livros não forem realmente estudados, investigados na intimidade pro­funda dos textos e transformados em pensamento vivo na realidade social, a civilização não passará de uma utopia ou de uma deformação da realidade sonhada. Por mais frágil e efêmero que seja o homem na sua existência, é ele que dá vida ao presente e ao futuro, é ele o demiurgo que modela os mundos. Para o homem espírita construir a Civilização do Espírito é necessário que a viva em si mesmo, na sua consciência e na sua carne, pois é nesta que a relação da consciência com o mundo se realiza. E para isso não bastam os livros, é necessário o concurso de todos os meios de comunicação: a palavra, a imprensa, o rádio, a televisão, e mais ainda, a prática intensiva e coletiva dos princípios doutrinários de maneira correta e fiel. Se o homem espírita de hoje não compreender isso e dormir sobre os louros literários, a Civilização Espírita abortará ou será transformada numa simples caricatura da fórmula proposta, como aconteceu com o Cristianismo. É disto que os espíritas precisam tomar consciência com urgência. Ou acordam para a gravidade do problema ou serão esmagados pelo avanço irrefreável dos acontecimentos no tempo.

A idéia comodista de que Deus faz e nós desfrutamos ou suportamos não tem lugar no Espiritismo. Pelo contrário, neste se sabe que o fazer de Deus no mundo humano se realiza através dos homens capazes de captar a sua vontade e executá-la. Não há milagres nem ações mágicas na Natureza, onde a vontade de Deus se cumpre através dos Espíritos, desde o controle das formações atômicas até o crescimento dos vegetais. Dizia Talles de Mileto, o filósofo vidente, que o mundo está cheio de deuses que trabalham em toda a Natureza, e deuses, para os gregos, eram espíritos. Kardec repetiu em outros termos e de maneira mais explícita e minuciosa essa mesma verdade. No mundo humano os Espíritos se encarnam, fazem-se homens para modelá-lo. Cada espírito encarnado trás consigo sua tarefa e a sua responsabilidade individual e intransferível. O que não cumpre o seu dever, fracassa. Não há outra alternativa. O fracasso da maioria dos cristãos resultou na falência quase total do Cristianismo. O que se salvou foi o pouco que alguns fizeram. E a partir desse pouco, dois mil anos depois da pregação do Cristo e do seu exemplo de abnegação total, foi que Kardec partiu para a arrancada espírita. O exemplo da França é uma advertência aos brasileiros. A hipnose materialista absorveu os franceses no imediato e o Espiritismo quase se apagou de todo nos campos arroteados por Kardec, Denis, Flammarion, Delanne e tantos outros. A intensa e comovente batalha de Léon Denis, na França e em toda a Europa, nos congressos espíritas e espiritualistas de fins do século XIX e primeiro quarto do nosso século foi contra as infiltrações de doutrinas estranhas, de espiritualismos rebarbativos, no meio espírita. Foi gigantesco o esforço do famoso Druida da Lorena, como Conan Doyle o chamava, para mostrar que o Espiritismo era uma nova concepção do homem e da vida, que não se podia confundir com as escolas espiritualistas ancestrais, carregadas de superstições e princípios individualmente afirmados ou provindos de tradições longínquas, sem nenhuma base de critério científico. O mesmo acontece hoje entre nós, sob a complacência de instituições representativas da doutrina e o apoio fanático de líderes carismáticos, piegos espirituais e alucinados mentais a dirigir multidões de cegos.

Todas as tentativas de correção dessa situação perigosa se chocam com a frieza irresponsável dos que se dizem responsáveis pelo desenvolvimento doutrinário. E a passividade da mas­sa espírita, anestesiada pelo sonho da salvação pessoal, do valor mágico da tolerância bastarda, da crença ingênua do valor sobrenatural das esmolas pífias (o óbolo da viúva dado por casais de contas comuns nos bancos), vai minando em silêncio o legado de Kardec. O medo do pecado que saí da boca, da pena ou das teclas — enquanto se come e bebe à farta, semeiam-se migalhas aos pobres e dorme-se na bem-aventurança das longas digestões — faz desaparecer do meio espírita o diálogo do passado recente, substituindo o coro dos debates pelo silêncio místico das bocas-de-siri. Ninguém fala para não pecar e peca por não falar, por não espantar pelo menos com um grito as aves daninhas e agoureiras que destroem a seara.

A imprensa espírita, que devia ser uma labareda, é um foco de infestação, semeando as mistificações de Roustaing, Ramatis e outras, ou chovendo no molhado com a repetição cansativa de velhos e surrados slogans, enquanto as terras secas se esterilizam abandonadas. O óbolo da viúva não cai nos cofres do Templo, mas nos desvãos do chão rachado pela secura maior dos corações, como lembrou Constâncio Vigil.

À margem dessa imprensa paroquial, feita para alimentar a família, os jornais que surgem em condições de mostrar ao grande público a grandeza e o esplendor da Doutrina morrem de inanição, enquanto jornais mistificadores, preparados com os condimentos da imprensa sensacionalista e louvaminheira, ou temperados com bocas-de-siri (quanto mais fechadas, mais gostosas) são mantidos pela renda de instituições comerciais ou por interesses marginais.

As escolas espíritas marcam passo na estrada comum. Os programas de rádio são sufocados por adulteradores e substituí­dos por improvisações acomodatícias. A televisão só se abre para sensacionalismos deturpadores. Os recursos financeiros se são empregados na caderneta de poupança da caridade visível, que no invisível rende juros e correções monetárias. As iniciativas editoriais corajosas – como o lançamento de toda a coleção da Revista Espírita (*) – morrem asfixiadas pelo encalhe, ante o desinteresse de um público apático. Os hospitais Espíritas trans­formam-se em organizações comuns, mantidos pelas verbas oficiais de socorro a doentes que podem carreá-las aos seus cofres, a antiga e legítima caridade espírita de anos atrás, sustentada por alguns abnegados que já passaram para o Além, murcha como flor de guanxuma em pastos ressequidos. Restam apenas, nessa paisagem desoladora, alguns pequenos oásis sustentados pelos últimos e pobres abencerragens (**) de uma velha estirpe desaparecida.

É necessário que se diga tudo isso, que se escreva e semeie essa verdade dolorosa, para que toque os corações, na esperança de uma reação que talvez não se verifique, mas que pelo menos se tenta despertar. Na hora decisiva da colheita, as geadas da indiferença e as parasitas do comodismo ameaçam as mínimas esperanças de antigos e cansados lavradores. Apesar disso, os que ainda resistem não podem abandonar os seus postos. É necessário lutar, pois o pouco que se possa salvar poderá ser a garantia de melhores dias. O homem, as gerações humanas morrem no tempo, mas o espírito, não. O tempo é o campo de batalha em que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? A consciência humana amadure­ce na temporalidade. A esperança espírita não repousa na fragilidade humana, mas nas potencialidades do espírito, que se atualizam no fogo das experiências existenciais. Curta é a vida, longo é o tempo, e a Verdade intemporal aguarda a todos no impassível Limiar do Eterno. O homem é incoerência e paixão, labareda esquiva que se apaga nas cinzas, mas o espírito é a centelha oculta que nunca se apaga e reacenderá a chama quantas vezes for necessário, para que a serenidade, a coerência e o amor o resgatem na duração dos séculos e dos milênios.

Todas as Civilizações da Terra se desenvolveram, numa assombrosa sucessão de sombra e luz, para que um dia — o Dia do Senhor, de que falavam os antigos hebreus — a Civilização do Espírito se instale no planeta martirizado pelas tropelias da insensatez humana. Então teremos o Novo Céu e a Nova Terra da profecia milenar. Os que não se tornarem dignos da promessa continuarão a esperar e a amadurecer nas estufas dos mundos inferiores, purgando os resíduos da animalidade. Essa é a lei inviolável da Antropologia Espírita.

José Herculano Pires

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

(*) Atualmente a coleção da Revista Espírita apresenta grande circulação face ao criterioso valor elucidativo e doutrinário. Conheça esta coleção – endereço eletrônico:

https://www.ipeak.net/site/conteudo.php?id=164&idioma=1

(**) Indivíduos que se mostram de extrema dedicação a uma causa; são os derradeiros paladinos de uma idéia.

Fonte: in O Espírito e o Tempo. 4.ª Parte. A Prática Mediúnica, Cap. III, 7.ª ed. Sobradinho: Edicel, 1995

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A importância do sal

W.A. Cuin

“Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens” (Matheus 5: 13-14).

Na mesa de refeição, com frequência, ouvimos comentários sobre o sabor dos alimentos. Nisso identifica-se a habilidade de quem prepara os pratos, mas ninguém lembra de destacar a qualidade do sal, isso até que a cozinheira ou o cozinheiro, por um lapso, deixa de colocá-lo na comida, aí, sim, lembramos imediatamente desse tempero.

O sal, portanto, fica esquecido quando está presente, mas imediatamente lembrado quando está ausente. Não recebe elogios, mas faz muita falta nas refeições.

Assim devemos ser, iguais ao sal, sem a preocupação de ser reconhecidos, elogiados ou mesmo lembrados, mas que a nossa ausência, em qualquer ambiente, seja notada, não pelo destaque pessoal ou exibicionismo, mas, sim, pelo bem que podemos fazer sempre.

No nosso trabalho profissional, sendo operários, sejamos o sal da harmonia, da responsabilidade, do empenho com as tarefas e com o cumprimento total do nosso dever.

Sendo patrões, sejamos o sal do reconhecimento da importância e dos valores dos empregados, retribuindo, honestamente a eles, a dedicação para com a empresa e tendo-os como seres humanos repletos de necessidades e sonhos.

Na família, sejamos o sal do companheirismo, da paciência, do respeito e da dedicação para com o nosso grupo consanguíneo, zelando pela harmonia do lar, no clima da fraternidade.

Na obra assistencial que executamos, sejamos o sal do comprometimento, da doação, da solidariedade e da presença constante, pois nessas ações nem sempre se conta com muitos trabalhadores determinados e perseverantes.

No meio social, sejamos o sal do bom exemplo, demonstrando valores de honra, dignidade, ética e muita honestidade, visto que muitos olhos nos veem e muitas criaturas nos seguem.

No clube social, sejamos o sal da esportividade, do coleguismo, fazendo do lazer e da recreação momentos de relaxamento e fortalecimento dos vínculos de amizade.

No trânsito, sejamos o sal da atenção constante, da obediência das leis, do respeito aos demais veículos e, principalmente, muita consideração para com os pedestres.

No centro espírita, sejamos o sal da união, do respeito à divergência de opiniões e da fidelidade a Allan Kardec, mantendo firmemente os preceitos da codificação.

Então, a exemplo do sal, não tenhamos a pretensão de ser destaque e receber elogios ou referências nos ambientes em que frequentamos, e sim o forte desejo de que seja sentida a nossa ausência, pelos valores morais que podemos agregar, em qualquer lugar, como humilde contribuição para a construção de um mundo mais justo, fraterno e humano.

Reflitamos.

W.A. Cuin

Fonte: Folha Espírita

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Jesus jamais transigiu com a impostura religiosa

 Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Imaginemos o dantesco panorama das eras apostólicas em que uma mulher foi flagrada em adultério. Adeptos da religião extrínseca, fanatizados pela sentença rigorosa da Lei judaica, arrancaram-na da cama e a arrastaram até o lugar em que Magno Rabino se encontrava. A adúltera gritava Clemência! Compaixão! enquanto era arrastada; seus indumentos iam sendo dilacerados e sua pele sangrava esfolando-se no chão rugoso.

Neste episódio, tradicionalmente conhecido por muitos cristãos, durante a estada terrena de Jesus, topamos com um dilema evidente entre a diferença do religioso escravo à religião extrínseca e o verdadeiro sentido moral da indulgência e da religiosidade intrínseca.

No episódio acima, percebemos a sustentação farisaica da religião extrínseca do castigo, do medo e da angústia, numa circunstância que são destacados religiosos prisioneiros aos aspectos formais da lei mosaica, completamente distantes do correspondente sentido da religiosidade intrínseca na sua essencial pureza de origem.

Nos códigos de Moisés, aquela mulher, pega em adultério, não encontraria nenhuma brecha de escape, precisava mesmo ser lapidada até à morte. Observa-se que diante da dura e inflexível lei escrita pelo patriarca do Monte Sinai, a veemência pelas normas e preceitos, com certeza, estavam acima do valor da vida humana.

Na verdade, os escribas e fariseus utilizaram aquela mulher, expondo-a perante a multidão, simplesmente, para a execução de seus pérfidos desígnios, que era conseguir pegar em flagrante Jesus em possível contradição dos seus Princípios Essenciais. Naquele contexto, compreendemos que a religião extrínseca dos judeus, no seu formalismo atroz, era induzir o homem a desempenhar o juízo implacável, o medo, a angústia e não a clemência. Obviamente desconheciam que a religião intrínseca (Cósmica) deve ter as suas estirpes estreitamente unidas ao amor, à justiça e a caridade.

A propósito o Mestre jamais transigiu com a impostura religiosa. A prova é que usou de todo o rigor com os escribas e fariseus, considerando-os puritanos camuflados de virtudes. Apesar disso, Jesus foi indulgente com as pessoas de “má vida”, com o bom ladrão, com as prostitutas e especialmente com aqueles que O insultaram e condenaram na cruz, dando a entender que ser religioso extrínseco (puritano) é mais degradante que ser adúltera, ladrão (Dimas), corrupto (Zaqueu)e cortesã (Madalena).

Em abreviada divagação sobre as religiões extrínsecas (dogmáticas), trazemos para discussão o artigo Cosmic religion de Albert Einstein, contido no livro Out of my later Years, onde é publicado as coerções das autoridades escravizantes e encarcerantes da religião extrínseca (sectária).

Einstein acerca-se da questão da religiosidade intrínseca como sendo a nossa comunhão perfeita com o Criador, sopesando a superfluidade dos procuradores intermediários do Senhor da Vida, habitualmente impondo práticas coativas, punitivas e negocistas de coisas “sacras”, sob o tacão das obrigações dos pactos impudicos.

No nível elevado de religião cósmica conseguimos nos conectar com liberdade nas coisas e circunstâncias mais profundas do Universo. Livres, construímos uma relação profundamente harmoniosa, a partir da qual nos abastecemos da energia amorosa do Criador da Vida.

Numa relação de subnível religioso Einstein denominou a religião do medo quando o homem teme a Deus e rende culto externo para ser supostamente protegido das adversidades da vida, alimentando sempre a insegurança e temor dos castigos do Deus extrínseco.

Noutro desnível de subserviência religiosa o Pai da Teoria da Relatividade denominou de religião da angústia aquela em que o homem é totalmente manipulado pelas castas sacerdotais dotadas de poderes para advogarem junto ao Deus antropomórfico alvitrando libertação das angústias sociais os seus seguidores.

Já no elevado nível da religiosidade intrínseca Einstein nomeia de religião cósmica. Recordando que os grandes gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por possuírem este senso de religiosidade intrínseca cósmica. Por não reconhecerem necessidades dos dogmas e muito menos um Deus concebidos a imagem humana.

Por isso, a religião dita tradicional abomina a religião cósmica sugerida por Einstein. Até porque, é precisamente entre os denominados heréticos de todos os tempos, afirma o Gênio da física, que encontramos homens que foram inspirados por essa elevada experiência religiosa cósmica, porém, foram considerados eventualmente pelos seus contemporâneos como ateus, ou até às vezes também como os santos.

Por este ângulo, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Espinoza se assemelham. Como pode o sentimento religioso cósmico intrínseco ser transmitido de uma pessoa a outra se ela destrói a noção limitante de Deus e a dogmática teologia humana?

Na perspectiva do Einstein a função mais importante seja da arte e da ciência consiste em despertar e manter vivo este sentimento de religião cósmica em todos os que sejam receptivos a Deus. O homem que está profundamente convencido da função universal da lei da causalidade não pode considerar a ideia de um Deus qual um ser mesquinho que interfere no curso dos acontecimentos mais comezinhos.

O homem que está profundamente convencido da função universal da lei da causalidade não cede espaço para uma religião do medo, nem mesmo uma religião social ou moral que o aprisiona. De modo algum pode conceber um Deus que recompensa e castiga, já que o homem é regido pelo código moral de leis da consciência.  Por este motivo, historicamente a ciência foi incriminada de prejudicar a moral, contudo isso é um equívoco das religiões extrínsecas.

E como o comportamento moral do homem se fundamenta eficazmente sobre a simpatia ou os compromissos sociais, de modo algum implica uma base religiosa hierarquizada, teológica e dogmática que impõe castigos para a mantença de falsas virtudes sob o tacão da angústia e o medo entre os homens.

Com a mulher adúltera Jesus tinha todos os pretextos para pronunciar: De hoje em diante sua vida me pertence, você deve ser minha discípula. Os líderes religiosos extrínsecos usam seu poder para que as pessoas os aplaudam e gravitem em sua órbita. Mas Jesus, apesar do seu descomunal poder sobre a mulher, foi desprendido de qualquer interesse. Vá e revise a sua história, cuide-se. Mulher, você não me deve nada. Você é livre!

O Mestre deu-nos o exemplo através do perdão, recomendando a ponderação da não reincidência pelo esforço da vigília “vá e não peques mais”. Assim, deu à adúltera a oportunidade de retomar o curso da vida, sob um novo roteiro de não mais prevaricar naqueles mesmos lapsos morais.

Allan Kardec ressalta que a autoridade para condenar está na razão direta da autoridade moral daquele que julga. (1) A advertência é para que não nos esqueçamos desse nosso compromisso com o Mestre, que no seu Evangelho deixou o código de conduta seguro para seguirmos adiante com firmeza e confiança: “faça ao outro aquilo que deseja seja feito a você”; “ame ao próximo como a si mesmo”; “não julgueis para não serdes julgados”.

Em síntese, o Espiritismo é a mais esplendorosa proposta do livre pensamento e o mais possante apelo para o pleno exercício da religiosidade intrínseca.

Jorge Hessen

Fonte: Artigos Espíritas

Referência:

1 – Kardec Allan, O Evangelho segundo Espiritismo, Capítulo X, item 13

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O Poder das Palavras

Julia Thaís Porciúncula Serra

Tudo à nossa volta, tudo o que fazemos ou pensamos, têm energias e vibrações. Cada vibração que emitimos ao Universo volta, em consonância com a lei de causa e efeito. Desta forma, é evidente que nossas palavras, geradas por nossos pensamentos, são carregadas de energias que voltam para nós de maneira positiva ou negativa. Assim, a Doutrina Espírita nos ensina que devemos pensar muito antes de falarmos e, claro, na forma que falamos.

Por meio das palavras, materializamos a nossa realidade, ou seja, o pensamento cria, a palavra potencializa e a materialização cria força para que tudo aconteça. Isto é real para tudo o que nos cerca, desde plantas, animais, crianças e, principalmente, nós mesmos, todos captamos essas energias.

No livro Respostas da Vida, psicografado por Francisco Cândido Xavier, no Capítulo 23 intitulado Como Pensar, diz-se:

O pensamento é a nossa capacidade criativa em ação. Em qualquer tempo, é muito importante não nos esquecermos disso. A ideia forma a condição; a condição produz o efeito; o efeito cria o destino. A sua vida será sempre o que você esteja mentalizando constantemente. Em razão disso, qualquer mudança real em seus caminhos, virá unicamente da mudança de seus pensamentos. Imagine a sua existência como deseja deva ser e, trabalhando nessa linha de ideias, observará que o tempo lhe trará as realizações esperadas. As leis do destino carrearão de volta a você tudo aquilo que você pense. Nesta verdade, encontramos tudo o que se relacione conosco, tanto no que se refere ao bem, quanto ao mal. (XAVIER, 1975, p. 32).

Então, podemos entender que, caso proferirmos palavras pessimistas, que tenham conotação de dúvida, crítica, raiva, julgamento e até maldições, atrairemos energias semelhantes, sombras e enfermidades que atrasarão o progresso de nossa vida e trarão infelicidades e até doenças espirituais que podem refletir em nosso corpo física, nos fazendo adoecer.

As palavras têm esse poder de intenção e, desta forma, tudo o que dizemos, foi em algum momento, previamente pensado e, se pensamos, damos a elas força e contribuímos energeticamente para que elas se concretizem e se materializem. Em assim sendo, mesmo quando falamos algo ‘de brincadeira’, ou com a intenção de machucar ao outro, ou de forma sarcástica para que outro alguém entenda um recado maldoso, atrairemos para nós energias semelhantes.

Ainda no livro Respostas da Vida, o capítulo 36, intitulado como Reclamações, ensina:

Aprendamos a evitar reclamações para não agravar dificuldades. Perante situações em que a corrigenda se faça realmente necessária, entregue as circunstâncias aos responsáveis pela orientação delas, que sabem quando e como intervir. Se você achou o ponto nevrálgico de alguma crise, terá encontrado o lugar onde o proveito geral lhe pede auxílio. Procurando retificar algum erro, vale mais o seu conhecimento do bem que o seu conhecimento do mal. Resguardando a harmonia de todos, imagine-se na condição da pessoa em que você pretende colocar o seu problema. Reflita nas tribulações que provavelmente estará atravessando a criatura a quem você deseja apresentar a sua crítica. A sua reclamação não lhe trará vantagem alguma. (XAVIER, 1975, p. 48).

Podendo influenciar tanto para o bem quanto para o mal, ao reclamar da vida, do trabalho, do dia, de um alguém, bem como falar mal de si ou dos outros, qualquer coisa de conotação negativa, cria-se energias pesadas sobre o que foi emitido. Quando compreendemos essa realidade, é preciso que passemos a empregar as palavras certas, no momento certo, visando a atrair pensamentos e energias mais positivas.

Isso é confirmado pelo livro Seara dos Médiuns, capítulo 27, Palavra, onde encontramos a seguinte passagem:

Através de nossos conceitos orais, o pessimismo é porta aberta ao desânimo, o sarcasmo é corredor rasgado para a invasão do descrédito, a cólera é gatilho à violência, o azedume é clima da enfermidade e a irritação é fermento à loucura. Desse modo, ainda que trevas e espinheiros se alonguem junto de ti, governa a própria emoção, e pronuncia a palavra que instrua ou console, ajude ou santifique. Mesmo que a provocação do mal te instigue à desordem, compelindo-te a condenar ou ferir, abençoa a vida, onde estiveres. A palavra vibra no alicerce de todos os males e de todos os bens do mundo. (XAVIER, 2009, p. 53).

Em suma, que possamos criar o hábito de usar frases mais positivas, que nos façam sentir melhor, do acordar até o adormecer. Que utilizemos as palavras positivas com força, mentalizando-a de forma que elas se materializem e sejam auxiliares no processo individual de evolução, atraindo para nós mais situações felizes.

Julia Thaís Porciúncula Serra

Fonte: Letra Espírita

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Referências:

XAVIER, Francisco Cândido. Resposta da Vida / Autoria Espiritual de André Luiz. Disponível em: <https://www.usetupa.com.br/Andre_Luiz/1975-Respostas-da-vida.pdf>. Acesso em: 08 de fev. 2023.

XAVIER, Francisco Cândido. Seara dos Médiuns / ditada pelo Espírito Emmanuel. FEB – Federação Espírita Brasileira. 2009.

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Não posso abandonar meus alunos…

“Não posso abandonar meus alunos” – Os professores ucranianos que viraram soldados e continuam dando aulas

espiritismo.net – Publicado em 05/mai/2023

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É uma manhã comum de segunda-feira na Ucrânia e Fedir Shandor está iniciando a sua conexão com a internet para dar as suas aulas online.

O professor universitário tem ensinado de forma virtual desde o início da pandemia de covid-19. Nos últimos meses, Shandor continuou lecionando de modo online também por outro motivo: ele está na linha de frente do conflito com a Rússia.

O homem de 47 anos se inscreveu no Exército após a invasão russa, mas estava preocupado porque queria que seus alunos continuassem estudando.

O resultado disso? Ele dá aulas duas vezes por semana em seu celular sobre temas como turismo e sociologia diretamente das trincheiras.

“Tenho ensinado há 27 anos. Não posso simplesmente abandonar isso. É nisso que sou bom”, diz ele à BBC.

Shandor tem ensinado enquanto integra as Forças Armadas desde o início da invasão russa na Ucrânia em fevereiro.

Ele se alistou porque queria lutar pelo seu país e proteger a sua esposa e a filha deles. “Tinha que deter os russos antes que viessem à minha casa”, diz.

Sua dedicação ao trabalho também o ajudou a manter altos números de participação nas suas aulas.

“Mesmo os estudantes que antes faltavam às aulas, agora assistem a todas”, diz uma de suas alunas, Iryna, de 20 anos. “Ele sempre nos disse que temos que ser inteligentes, que estamos lutando por uma nação inteligente”, acrescenta a jovem.

Barulho ao fundo

Mas ensinar nas trincheiras não é fácil, e os alunos tiveram que se acostumar a ouvir os bombardeios ao fundo.

“Durante uma aula, os sons eram muito altos e os alunos escutavam tudo. Logo me escondi nas trincheiras e continuei ensinando”, conta.

Em meio ao conflito, ele também conseguiu mostrar a seus alunos os estilhaços e ensinar sobre diferentes mísseis.

As aulas de Shandor também são uma novidade para seus companheiros soldados, que muitas vezes acompanham esses momentos e tiram fotos dele no trabalho.

Uma dessas fotos, na qual ele aparece segurando o celular em uma trincheira, foi compartilhada na internet e viralizou na Ucrânia. Desde então, vários artistas de todo o país fizeram desenhos e caricaturas do momento.

A “melhor distração”

Shandor não é o único professor que luta na linha de frente do conflito. Segundo o ministro da Educação da Ucrânia, Serhiy Shkarlet, cerca de 900 professores se juntaram às Forças Armadas até agora.

“Estamos orgulhosos de cada um deles”, disse. “Também temos pessoas que se juntaram às forças armadas da Ucrânia no Ministério da Educação”, acrescentou o ministro.

Outro caso é o de Anton Tselovalnyk.

As aulas dele foram dadas nas duas primeiras semanas de guerra, mas depois de um tempo, as escolas onde ele havia trabalhado começaram a enviar mensagens pedindo ajuda.

O homem de 42 anos respondeu imediatamente, optando por ensinar diretamente das trincheiras ou nos alojamentos próximos. Nada pode impedi-lo, nem mesmo o frio.

Ele conta que no início não se tratava de ensinar as crianças, mas de conversar e apoiar uns aos outros. “As crianças costumavam ir à escola todos os dias e de repente tudo parou”.

Tselovalnyk tem ensinado seus alunos, que vão do Ensino Fundamental ao Ensino Médio, sobre arquitetura.

“O mais importante agora é manter a conexão entre seu passado e seu futuro. Ensinar agora também é assim para mim”, diz.

Uma de suas alunas, Viktoria Volkova, de 17 anos, diz que as aulas de Tselovalnyk são divertidas e ajudam a manter o bom humor entre os estudantes.

“É a melhor distração”, diz a jovem. Ela conta que seu professor, muitas vezes, mostra para a classe o entorno do local onde está, conta sobre as trincheiras que ele ajudou a construir e os lugares onde senta para observar as estrelas.

“Ele é atencioso e carinhoso durante as aulas. Sempre pede comentários e tenta tornar o assunto interessante para a gente”, acrescenta Volkova.

Cirurgia virtual

Outros professores, como Maksym Kozhemiaka, usam seus conhecimentos médicos para ajudar os militares na Ucrânia.

O professor de traumatologia da Universidade Estadual de Zaporizhzhia, de 41 anos, percebeu que poderia ser útil no hospital militar da cidade e se ofereceu para ajudar.

Depois de alguns dias trabalhando no local, descobriu uma maneira de ajudar seus alunos a continuar seus estudos também.

“Pensamos que poderíamos fazer aulas online”, diz ele. “Já tínhamos experiência de ensino online durante a covid”, pontua.

E assim, após as duas primeiras semanas difíceis da guerra, Kozhemiaka retomou o ensino permitindo que seus alunos o observassem virtualmente enquanto ele fazia cirurgias.

Ele usa uma combinação de aulas ao vivo e realidade aumentada para que os estudantes participem e discutam cirurgias mesmo em suas próprias casas.

“Temos ensinado médicos e jovens estudantes a tratar as feridas de combate”, explica ele.

Daryna Bavysta acompanha as aulas virtuais de Kozhemiaka e afirma que tem aprendido muito.

“Agora entendo tudo o que acontece na sala de cirurgias”, comenta. “Maksym explica tudo durante suas cirurgias ao vivo online: o que ele está fazendo e como”, diz.

Mas ela está preocupada com o seu professor. “Não é apenas psicologicamente difícil, mas também fisicamente: você quer dar tudo para as pessoas que está tratando. Nossos soldados”, diz.

Para Kozhemiaka, abandonar as aulas não era uma opção.

“Ensinar é o trabalho da minha vida”, diz ele. “Não podia desistir. Estávamos no caminho certo como país antes da guerra e ainda estamos, então precisamos lutar juntos por nossa vitória e permanecer unidos”.

“É importante continuar trabalhando no que fazia antes. Por que uma guerra deveria nos parar?”

Notícia publicada na BBC News Brasil, em 04 de julho de 2022

Alessandra Belo* comenta

A reportagem acima relata uma comovente história de docentes ucranianos que ensinam seus alunos no contexto da Guerra na Ucrânia.  Na notícia ,vemos a resiliência e obstinação de um desses professores de lecionar no âmbito de uma situação tão grave. Segundo relato “durante uma aula, os sons [da guerra] eram muito altos e os alunos escutavam tudo” e logo ele se escondeu “nas trincheiras e continuou ensinando”.

A notícia da BBC nos relembra os ensinamentos espíritas a respeito do poder da vontade. Segundo a benfeitora Joanna de Ângelis, na obra “Triunfo Pessoal” a vontade é a faculdade de bem conduzir as aspirações, objetivando uma finalidade compensadora, que resulte em paz íntima”. Ela pode ser considerada como o ato mental que deve ser transformado em ação mediante o empenho com que seja utilizada”.  Fica evidente que os professores ucranianos da reportagem são um exemplo do uso perseverante da vontade, expressa na sua ampla aspiração pelo “ensinar”, seja na sala de aula, seja em condições que a dificultam, sendo conduzida pelo seu poder de renúncia e abnegação em prol da educação de seus alunos. Utilizando, ainda as palavras de Joanna de Ângelis, esses docentes desenharam “um objetivo interior”, e de imediato sentiram nascer forças para que ele fosse conquistado. O espírito de Emmanuel, também nos esclarece sobre a força da vontade ao asseverar que “a vontade é o pensamento tornado força motora. A vontade é o botão poderoso que desencadeia o movimento”.

As lições ainda continuam a partir desse estudo de caso, quando no Livro dos Espíritos, na pergunta 566, os imortais deixam evidente o quanto é importante, que as profissões que escolhemos desempenhar na Terra sejam meios que nos proporcionem oportunidades “de auxiliar as almas a se elevarem para Deus”.  Qual será o exemplo que esses meninos e meninas levarão para a vida, ao vivenciarem seus educadores se esforçarem por lhes ajudar em meio a um contexto tão cruel? Certamente, os educandos em tela não terão apenas que rememorar, em seu futuro, dos horrores da guerra, mas terão a memória viva da vitória da educação e do amor de seus abnegados professores. Assim já vimos nas histórias que nos foram contadas da perseguição aos primeiros cristãos, quando prestes a serem entregues a animais selvagens, soavam-se cantos magistrais de gratidão. Como bem afirmou, certa vez, o querido mestre Jesus, “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo”.

*Alessandra Belo é colaboradora do Espiritismo.net, pós-graduada e professora de História da Rede Municipal de Praia Grande, em SP.

Fonte: espiritismo.net

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O erro de Nietzsche

Humberto Schubert Coelho

Um dos problemas capitais enfrentados pela filosofia hodierna é o de definir sua própria fase de existência. Afinal, o que significam as divisões em filosofia moderna e contemporânea, tal como se no-las apresentam no quadro didático do magistério? Seria a filosofia contemporânea marcada pela pós-metafísica, ou pós-modernidade; mas nesse caso, o que exatamente resta de filosófico na filosofia, se ela assumidamente renuncia ao esforço de remontar às causas últimas e sintetizar o real numa fórmula compreensível?

É tão precária a divisão da filosofia em etapas que os especialistas discutem ainda seriamente onde começa e termina a Era Moderna. Certamente a Modernidade cultural se inicia no século XVII com Bruno, Descartes, Bacon, Galileu, Copérnico (a recepção dele, pois a pessoa viveu antes) e Kepler, ou melhor dizendo, com a revolução científica, que acompanhou também o processo estético-cultural de formação das línguas nacionais. Bem mais difícil é saber se a filosofia acompanhou imediatamente esta revolução, ou se, como pensam alguns, permaneceu escolástica e subordinada à teologia até Hume e Kant, mais de um século depois. E isto é essencial para definir de quem a filosofia contemporânea quer se diferenciar.

Na visão mais ortodoxa a modernidade filosófica se enquadra entre Descartes e Hegel, aproximadamente, período marcado pela metafísica da subjetividade. Cum grano salis, os pensadores deste período compartilham o ponto de vista subjetivo da fundamentação do saber e do ser, terminando por identificar a ambos. A partir do positivismo, do marxismo, da psicanálise e, com mais propriedade filosófica e profundidade, de Nietzsche, inicia-se o processo de crítica antropológica da metafísica moderna, substituindo-se as certezas metafísicas por explicações sociais, econômicas, linguísticas, psicológicas, etc. Se com Comte e Marx a filosofia foi “substituída” pela “ciência” social – ou, mais corretamente, um primeiro esboço dela -, ocorrendo o mesmo em relação a Freud, com Nietzsche vemos a implosão da filosofia a partir de sua própria autoanálise, ainda que com forte comprometimento do reducionismo antropológico. Nietzsche decretou o erro de Descartes como sendo a absolutização do sujeito em uma forma pura, imaterial, e extramundana, e a metafísica que se lhe seguiu nada mais seria do que uma insistência nessa elevação esquizofrênica da subjetividade ao estado divino, puro.

Tal diagnóstico se cercou não apenas de toda a vasta crítica antropológica disponível, como da análise do próprio Nietzsche sobre os processos de abafamento cultural empreendidos pela tradição cristã. Com sua invulgar erudição, Nietzsche discerniu perfeitamente os movimentos da arte, da religião e da ciência na Antiguidade clássica e em sua mutação no ideal ascético estóico-cristão, vendo nisso um processo de decadência, o que não é de todo incorreto.

Nesse particular a afirmação cartesiana de um purismo da subjetividade soou-lhe como retrocesso ou continuação acrítica do pensar medieval, pelo que a condenou duramente. Nietzsche viu em Descartes a desumana separação entre espírito e corpo, entre intelecto e vida, entre sujeito e mundo, reivindicando um retorno à vitalidade de uma filosofia comprometida com esta existência, a concreta. Segundo o célebre teocida, ao contrário de uma alma matemática, puramente abstrata e em oposição ao corpo, era preciso resgatar o ideal heroico grego de uma alma dotada de paixões, de pulsões vitais, de amor pelo corpo e pelo mundo. O espírito para Nietzsche é o regulador da saúde humana, a sensibilidade absolutamente encarnada que frui ao máximo a dor e a alegria, a beleza e a tragédia da existência. Por isso mata ele o Deus arquiteto, o puro intelecto, em prol de um retorno dos deuses gregos da música e da dança, do sorriso e da lágrima, deuses, enfim, que afirmem a vida humana, ao invés de a negar.

A belíssima contribuição de Nietzsche à reavaliação dos erros do cristianismo cultural convive, entretanto, com um erro capital, a saber, o de malbaratar a compreensão correta da subjetividade cartesiana e, por consequência, de toda a metafísica moderna. Enquanto Nietzsche e seus parceiros, os sociólogos e psicólogos reducionistas, viam na metafísica da subjetividade um mero rearranjo das concepções escolásticas e platônicas, a crítica mais moderna resgata já em Platão e especialmente na metafísica moderna o sentido preciso da subjetividade, não como elemento isolado, mas região distanciada ou profunda da vida mental.

O que incomodava aos críticos do século XIX e XX era naturalmente a concepção de imortalidade da alma e a sua oposição ao corpo, bem como a consequência ética de que a vida não se justificava na existência atual, mas somente em referência a uma outra. Ora, os sociólogos queriam esgotar o drama da existência na realidade socioeconômica atual, o mesmo valendo para a psicologia em seu campo de ação. O que a nova visão da metafísica demonstra, no entanto, é que esse medo materialista não tem razão de ser diante da visão mais completa e acabada da subjetividade, visão esta que estava implícita em toda a tradição metafísica.

A crença na imortalidade da alma, ou sua defesa racional, não é mais do que um momento secundário da percepção compartilhada pelo materialismo de que há uma esfera subjetiva irredutível aos processos explicativos da realidade material. O que mesmo o naturalismo mais duro dos dias de hoje admite, uma “certa dificuldade” de reduzir o subjetivo ao fisiológico, é a atestação empírica de que há uma duplicidade ontológica radical, talvez intransponível. É com base nessa percepção universal que metafísicos desde Pitágoras afirmaram a possibilidade, quando não a certeza da imortalidade, já que a constituição da subjetividade é, aos olhos de todos, distinta da constituição transitória e puramente formal da matéria. Uma vez que o sujeito não está sujeito à causalidade mecânica, identificando intuitivamente em si o livre-arbítrio, não tem o seu ser determinado pela sua forma, sentindo-se essencialmente como sensível, intencional e referencial, conclui-se tão somente quanto a sua não sujeição às regras do corpo, como o ser perecível.

Mas enquanto esta conclusão tem força de prova para o racionalismo, de diversos tipos, é bem verdade que isto não basta para concluir favoravelmente a sua existência de fato. Nisso religiosos e materialistas estão errados. Há um argumento racional e imbatível em favor da existência da alma, e isto têm de reconhecer os materialistas, mas esse argumento pode ser puramente válido no âmbito especulativo, sem que se constate sua vigência na realidade, e isto têm de reconhecer os religiosos.

A solução ortodoxa da religião foi pressupor, pela fé, um bom Deus que garante o acerto de nossos juízos. A solução espírita foi buscar uma base empírica para a sugestão puramente especulativa de imortalidade. Em ambos os casos o materialista pode reagir: negando-se a depositar fé no bom Deus, ou questionando a força das evidências empíricas apresentadas pelo Espiritismo e pela pesquisa psíquica em geral.

O que o materialista não pode fazer, contudo, é confundir o recurso do religioso ao argumento de fé ou a uma convicção empírica na veracidade do argumento da imortalidade com uma crença ingênua e/ou psicológica na sua imortalidade pessoal. Foi precisamente o que Nietzsche fez em relação a Descartes. Tal como Marx, Freud e outros pensadores antropológicos, reduziu o argumento filosófico à condição de crítica externa, depositando não apenas a razão do dualismo cartesiano em motivos culturais e psicológicos, como ignorando a fonte empírica, inteiramente não cultural e não psicológica da dupla constituição do ser.

(Publicado em 05/mai/2023)

Autor: Humberto Schubert Coelho

Fonte: espiritismo.net

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Transexualidade – Ciência e Espiritismo Evoluindo Junto com as Leis Naturais da Divindade

Isabelle Oliveira

Morre em Recife, Roberta da Silva, mulher trans vítima de transfeminicídio, que teve 40% do corpo queimado na Estação de Ônibus Cais de Santa Rita por um adolescente, o qual foi preso em flagrante e encaminhado para FUNASE, onde cumpre detenção provisória e aguarda sentença. Ela estava internada no HR (Hospital da Restauração) desde 24 de junho, e faleceu às 9h em 9 de julho de 2021. Roberta teve, antes de morrer, o braço esquerdo completamente amputado e parte do direito, pois os ferimentos foram gravíssimos (O GLOBO, 2021, on-line).

Roberta Silva, mulher trans, 32 anos. Morreu apenas por ser quem é.

Essa história foi notícia em vários meios de comunicação no país, gerando revolta e indignação, principalmente na comunidade LGBTQIAP+. Como Roberta, existem tantas outras. No Brasil, foram assassinadas cerca de 80 mulheres trans no primeiro semestre de 2021. A transfobia existe e mata (OLIVEIRA, 2021, on-line).

George Jorgensen, americano, 28 anos e herói do exército americano, submeteu-se a vários tratamentos hormonais e logo em seguida, à cirurgia de mudança de sexo (transgenitalização), feita pelo médico Christian Hamburger, na Dinamarca, em 1952. Então, George passa a ser oficialmente Christine, se tornando a Mulher do Ano em 1954 (LOPES, s.d., p. 02).

Esse foi o primeiro caso de transgênero noticiado e que ganhou grande repercussão mundial, o que não significa que a vida de Christine foi fácil, pois sua transexualidade foi tratada como patologia, mesmo com a conquista da mudança de sexo, até porque a cirurgia era considerada uma forma de tratamento para tal doença (LOPES, s.d., p. 02).

Nesse meio tempo, em 1953, o endocrinologista Harry Benjamin nomeia o termo transexualismo para se referir a transexualidade, elegendo-a como patologia, visto que o sufixo -ismo, para a medicina, é designado para nomear doenças (PERELSON, 2011, on-line). Ou seja, desde o início a transexualidade é tratada como patologia e considerada uma anormalidade.

Apenas em 2018 a OMS (Organização Mundial de Saúde), na 72ª Assembleia Mundial da Saúde, sediada em Genebra, retira a transexualidade da Classificação de Transtorno Mental da 11ª Versão da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde). Contudo, a OMS só oficializou em maio de 2019. A partir daí a transexualidade entra na categoria de Condições Relacionadas à Saúde Sexual e é classificada como Incongruência de Gênero (GCPM/CFP, 2019, on-line).

Observa-se que é uma conquista muito recente para a comunidade transgênero, porém muito significativa, pois representa o respeito e a garantia de dignidade a essas pessoas que historicamente sofrem preconceito e discriminação. Além disso, desse modo, há como caracterizar violação de direitos humanos à patologização da transexualidade.

É fato que a ciência e a sociedade estão evoluindo, mesmo a passos lentos, entendendo que a transexualidade não é normal nem anormal, mas sim natural.

MAS O QUE É TRANSGÊNERO?

Para entender o que é uma pessoa transgênero, se faz necessário saber diferenciar identidade de gênero e orientação sexual.

Identidade de gênero é como a pessoa se reconhece, como se sente. Podendo ser homem, mulher, os dois ou nenhum (SIGNIFICADOS, s.d. on-line). Existem três principais:

– Transgênero: Quando o sujeito se identifica com o gênero oposto ao que nasceu biologicamente. Uma pessoa nasce com o corpo do gênero masculino, mas se sente do gênero feminino e vice-versa (PIMENTA, 2020, on-line);

– Cisgênero: Quando o sujeito se sente exatamente como o gênero que nasceu. Nasce num corpo de mulher e sente como mulher, e vice-versa (PIMENTA, 2020, on-line);

– Não binário: Uma mistura que transita entre os dois gêneros ou não se reconhece em nenhum deles. Possui subdivisões, algumas delas são: agênero (ausência de gênero), andrógino (mistura dos dois gêneros), gênero fluido (mudança frequente de gênero), mulher ou homem não-binário (por algum motivo se aproxima mais de algum gênero, seja por comportamento ou vestuário e etc.) neutrois (gênero neutro), demigênero (identificação parcial com um dos gêneros) – (SIGNIFICADOS, s.d. on-line);

Orientação sexual é para onde se orienta o desejo sexual, por qual gênero o indivíduo sente atração sexual e/ou afetiva. São eles:

– Heterossexual: Atração pelo sexo oposto;

– Homossexual: Atração pelo mesmo sexo;

– Bissexual: Atração pelos dois sexos;

– Assexual: Atração por nenhum dos sexos, mas consegue se envolver afetivamente. Dentro da assexualidade ainda há algumas subdivisões, que são: aversão ao sexo, favorável ao sexo, repulsa ao sexo, indiferente ao sexo, cupiossexual (não consegue ter atração sexual, mas deseja ter um comportamento sexual e relacionamento afetivo), assexuado libidoísta (é assexuado, porém podem gostar de experimentar sensações como a masturbação e a autoestimulação sexual), graysexual (sente atração sexual raramente ou com tem um desejo sexual muito leve), grayromantic (os que experimentam esporadicamente ou com baixa intensidade a atração romântica) – (LOBO; MOURA, 2022, on-line);

– Sapiosexual: Se sente atraída pela inteligência (LOBO; MOURA, 2022, on-line);

– Demissexual: São aqueles que sentem atração sexual com pessoas que já estabeleceram um vínculo afetivo (LOBO; MOURA, 2022, on-line);

– Pansexual: Atração por todos os gêneros e sexos, despertando desejo pela pessoa, independente do sexo ou da identidade de gênero (LOBO; MOURA, 2022, on-line).

Portanto, uma pessoa transgênero pode ter quaisquer dessas orientações sexuais.

O QUE O ESPIRITISMO NOS TRAZ SOBRE A TRANSEXUALIDADE?

Muito pouco, pois ainda não há muitos escritos sobre o tema, mas podemos citar dois livros mais famosos, porém antigos, e um livro mais atual. O primeiro livro seria Forças Sexuais da Alma, de Jorge Andrea, tendo sua primeira edição lançada em 1987, o qual fala sobre a transexualidade no capítulo IV, ainda utilizando o termo transexualismo e tratando-a como patologia (ANDREA, 1996, capítulo IV).

O segundo é Dias Gloriosos, psicografia de Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângelis, o qual dedica o capítulo 14 para falar sobre mudança de sexo. Joanna explica que o perispírito, na qualidade de modelo organizador biológico, trabalha diretamente na formação do ser orgânico de acordo com suas necessidades nessa nova encarnação, atuando geneticamente enquanto o espírito atua psíquica e emocionalmente. Desse modo, traz para nova existência suas experiências anteriores e deposita as ferramentas necessárias para própria evolução, trabalhando para que haja o equilíbrio físico, psicológico e intelectual, de forma que não aconteça eventos para possíveis traumas nesse processo. Além disso, há uma forte conexão entre os genitores e o Espírito reencarnante, os quais exercem uma forte influência psíquica na formação desse Espírito, sobretudo da mãe para com o bebê, visto que a relação é bastante forte.  Muitas vezes, o pai ou a mãe tem o intenso desejo por determinado gênero (feminino ou masculino), que pode diferenciar do sexo destinado aquela criança, isso é retido pelo Espírito durante sua formação embrionária e pode interferir na polaridade sexual desse novo ser, fazendo com que ele se sinta numa polaridade sexual diferente da que foi designado (tanto para orientação sexual quanto para identidade de gênero). Por isso convém que os pais apenas acolham com todo amor, sem preferência desse ou daquele gênero, deixando que fique a cargo do Espírito e que a vida siga com naturalidade. Joanna conclui o capítulo falando da importância de se guiar pelo amor para assim seguir orientando-se na prática do bem com a finalidade de cumprir a meta estabelecida para tal reencarnação, que o novo ser seja amado e siga amando. Salientando que esta obra teve sua primeira edição publicada em 1999 (FRANCO, 1999, capítulo 14).

Precisa ser levado em consideração a época de publicação desses livros, haja vista que não havia as informações, pesquisas e a evolução científica e social que existe na atualidade. Esses escritos foram feitos à luz de seu tempo, com as informações que lhes eram acessíveis nos dois planos, tanto Espiritual quanto físico. Contudo, o mundo evoluiu junto com a ciência, novas descobertas foram feitas no campo da medicina, psicologia, socioantropologia e tantas outras ciências que ajudaram a Terra a dar um passo à frente no que se diz respeito a comunidade transgênero, inclusive dentro do Espiritismo e Movimento Espírita.

E com essa evolução, o médico Andrei Moreira pôde se munir de novas informações e pesquisas para atualizar os escritos Espíritas, lançando em 2019 o seu livro Transexualidade Sob a Ótica do Espírito Imortal. Trazendo este debate ao meio Espírita de forma esclarecedora, com conceitos atualizados e despatologizando a transexualidade (FREITAS, MOREIRA, 2017, on-line), levando o Espiritismo a avançar junto com a ciência, como sempre pregou o codificador Allan Kardec.

O QUE A CODIFICAÇÃO DE KARDEC NOS TRAZ SOBRE TRANSEXUALIADE?

Nada específico, visto que O Livro dos Espíritos (O.L.E) teve sua primeira edição publicada em 1857, mais de cem anos antes da transexualidade se apresentar para o mundo. Todavia, o codificador nos deixou caminhos para entender melhor a transexualidade por uma ótica Espiritista. Em O.L.E., existem pontos relevantes para se compreender melhor a transexualidade. São eles:

– Deus é inteligência suprema e não comete erros em suas criações, fez os Espíritos simples e ignorantes para progredir através da reencarnação. Sendo Deus bom e justo, criou as leis naturais que regem o Universo, para Ele todos são iguais perante Suas leis (KARDEC, 2022, p. 17-57);

– Na pergunta 136 b, explica que o corpo sem alma é simples massa sem inteligência, que pode ser qualquer coisa menos um homem (KARDEC, 2022, p. 90);

– Como bem traz as perguntas 200 a 202 de O.L.E., os Espíritos não têm sexo, podem reencarnar no corpo de homem ou de mulher, de acordo com a prova que precise passar (KARDEC, 2022, p. 112-113);

– Nas perguntas 216 e 217, os Espíritos e o codificador nos falam das possibilidades das parecenças físicas e morais que o Espírito imprime em seu novo corpo. Moralmente, ele traz consigo os avanços das existências pregressas e, fisicamente ele não pode dar à matéria a mesma aparência do corpo anterior, mas o Espírito se reflete no corpo, imprimindo nele as qualidades do Espírito, que frequentemente lhe modificam os órgãos, dando ao corpo características próprias da personalidade do Espírito (KARDEC, 2022, p. 116);

– As perguntas 334 e 335 falam sobre a escolha do corpo que o Espírito irá reencarnar. O Espírito pede para reencarnar, mas nem sempre tem direito de escolher o corpo, podendo apenas escolher o gênero, no entanto Deus sempre sabe e vê qual corpo está designado para tal Espírito (KARDEC, 2022, p. 158);

– O Espírito pode até se queixar da vida que tem, mas não pode reclamar da escolha que fez, visto que não se pode reclamar de uma escolha que não se recorda, pois, ao reencarnar, esquece de todo esse planejamento reencarnatório. Além disso, ele não retoma toda as suas faculdades ao nascer, elas se desenvolvem gradativamente com os órgãos. O Espírito se encontra em uma nova existência e precisa se adaptar com a nova realidade, a consciência retorna aos poucos e ele se vê em uma situação diferente da que vivia anteriormente. É o que nos traz as perguntas 350 e 352 de O.L.E. (KARDEC, 2022, p. 160-161);

– Pergunta 367 de O.L.E.

“Unindo-se ao corpo, o Espírito se identifica com a matéria?

Resposta: A matéria é apenas o envoltório do Espírito, como o vestuário o é do corpo. Unindo-se a este, o Espírito conserva os atributos da natureza espiritual.” (KARDEC, 2022, p. 164);

– A influência dos órgãos não interfere no desenvolvimento do cérebro, nas faculdades morais e intelectuais, visto que não são os órgãos que dão as faculdades ao Espírito, mas sim o inverso. É o que nos traz a questão de número 370 de O.L.E (KARDEC, 2022, p. 165).

Isto posto, constata-se que Deus não comete erros em suas criações, que os Espíritos não possuem sexo definido, podendo reencarnar em ambos os gêneros, que eles imprimem suas faculdades nos órgãos do novo corpo e trazem consigo as características das existências anteriores, que precisam também se adaptar ao novo corpo, podendo ter dificuldades nesse processo. Levando em consideração que nem sempre eles têm a oportunidade de escolher o corpo, sendo possível apenas escolher, ou não, o gênero. Tudo isso traz um novo olhar para a identidade de gênero, consequentemente aos transgêneros, que são seres criados por Deus dentro das leis naturais que regem o Universo, sendo assim, obras naturais e divinas.

Isabelle Oliveira

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

ANDREA, Jorge. Forças Sexuais da Alma. Capítulo IV. 7.ed. Rio de Janeiro/RJ: FEB, 1996.

BLOG LETRA ESPÍRITA. O Espiritismo e a Transexualidade. Disponível em: https://www.letraespirita.blog.br/single-post/o-espiritismo-e-a-transexualidade. Acesso em: 04/04/2023.

FRANCO, Divaldo. Dias Gloriosos, pelo Espírito Joanna de Ângelis. Capítulo 14. 3.ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada,1999.

FREITAS, Dionne; MOREIRA, Andrei. Transexualidades sob a ótica do Espírito imortal. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lrZmGZaDmLo. Acesso em: 04/04/2023.

GCOM/CFP. Transexualidade não é transtorno mental, oficializa OMS. 2019. Disponível em:https://site.cfp.org.br/transexualidade-nao-e-transtorno-mental-oficializa-oms/

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. Campos dos Goytacazes/RJ: Editora Letra Espírita, 2022.

LOBO, Pedro; MOURA, Bárbara. Demissexual, sapiossexual e mais: quais são os tipos de sexualidade? 2022. Disponível em: https://gq.globo.com/sexo/noticia/2022/12/demissexual-sapiossexual-tipos-sexualidade.ghtml. Acesso em: 04/04/2023.

LOPES, André Cortes Vieira. Transexualidade: Reflexos da redesignação sexual. Disponível em: https://ibdfam.org.br/assets/upload/anais/229.pdf. Acesso em: 04/04/2023.

MURTA, Daniela. Sala de Entrevista: Transexuais e contexto histórico – Psicologia. 2011. Disponível em: https://www.canalsaude.fiocruz.br/canal/videoAberto/transexuais-e-contexto-historico-psicologia-SCE-0013. Acesso em: 04/04/2023.

O GLOBO. Morre mulher trans que teve 40% do corpo queimado por adolescente no Centro de Recife. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/morre-mulher-trans-que-teve-40-do-corpo-queimado-por-adolescente-no-centro-do-recife-25100028. Acesso em: 04/04/2023.

OLIVEIRA, Luciana de. 80 pessoas transexuais foram mortas no Brasil no 1º semestre deste ano, aponta associação. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/07/07/80-pessoas-transexuais-foram-mortas-no-brasil-no-1o-semestre-deste-ano-aponta-associacao.ghtml. Acesso e,: 04/04/2023.

PERELSON, Simone. Transexualismo: Uma questão do nosso tempo e para o nosso tempo. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2178-700X2011000200004#nt01. Acesso em: 04/04/2023.

PIMENTA, Tatiana. Identidade de gênero: Tudo o que você precisa saber. 2020. Disponível em: https://www.vittude.com/blog/identidade-de-genero/. Acesso em: 04/04/2023.

SIGNIFICADOS. Identidade de gênero. Disponível em: https://www.significados.com.br/identidade-de-genero/. Acesso em: 04/04/2023.

SIGNIFICADOS. Tipos de pessoas não binárias: trans, agênero e outras identidades. Disponível em: https://www.significados.com.br/tipos-de-pessoas-nao-binarias/. Acesso em: 04/04/2023.

TARTUCE, Flávio. Transexualidade ou “Transexualismo”? A Construção da Cidadania Trans. Disponível em: https://flaviotartuce.jusbrasil.com.br/artigos/144342466/transexualidade-ou-transexualismo. 2015. Acesso em: 04/04/2023.

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Problemas de um Médium

Humberto de Campos (Irmão X); Chico Xavier

O poder dos médiuns - ISTOÉ Independente

O médium Calixto iniciou a tarefa com verdadeira compreensão da responsabilidade que lhe competia. Criatura simples e de coração voltado para o dever, recebia as páginas dos mensageiros espirituais com a infantilidade do menino de boa índole que recebe um recado para transmitir, obediente e humilde.

Vestia-se pobremente e, nos pés, não exibia outro calçado que não fossem tamancos rústicos.

Recebendo-lhe, contudo, os trabalhos que psicografava, a maioria dos entendidos proclamavam sem rebuliços:

– É um ignorantão! Não conjuga cinco palavras com acerto. Puro jogral de espertalhões do mundo livresco, a serviço de fanáticos do espiritismo.

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Humilhado pelos repetidos insultos, Calixto mobilizou as próprias necessidades, de modo a diminuir os sarcasmos que, a propósito dele, se atiravam à Consoladora Doutrina de que se fizera pregoeiro.

Trajou-se com mais apuro e queimou as pestanas, estudando a gramática. Sabia agora conversar com relativa elegância e expor os princípios que os Espíritos Superiores lhe ditavam, com facilidade e clareza.

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Todavia, logo se lhe percebeu a modificação, o parecer público enunciou, solene:

– Vejam só! É um homem genial. Produz em plano superior, através da própria inteligência. Quem revela, assim, tamanha cultura, escreverá com mais propriedade que os literatos mortos…

E os investigadores atilados concluíam, rematando:

– Embuste, pastiche e mais nada.

O rapaz, embora surpreendido, continuou a tarefa. Evitou a multidão e fugiu às manifestações de público. Não seria mais justo recolher as bênçãos, na intimidade dos irmãos? Confinou-se ao campo doméstico dos princípios redentores que abraçara. Contudo, ainda aí, a censura vigorou, subtil e contundente.

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Se Calixto recebia mensagens, relacionando verdades duras, apontavam-no, sem piedade:

– É um mistificador, obsediado pela mania de grandeza e virtude.

Claro que os emissários da Esfera Superior não menoscabam o poder da gentileza e ninguém por haver transposto as fronteiras da morte encontra alegria em acusar os semelhantes, mas se um amigo espiritual temperava os conceitos em sal de estímulo, buscando o soerguimento dos companheiros encarnados, indicavam-no, com acrimoniosa atitude:

– É um bajulador infeliz que se demora, sob a influência de perversos doadores de lisonja.

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Sob perplexidades consecutivas, o médium satisfazia as exigências do ministério, no entanto, era preciso interromper-se a cada passo para destrinçar enigmas pequeninos.

Se os viajores do Reino da Morte vinham falar da majestade do Céu, o intermediário era apontado por instigador da fantasia; se comentavam problemas da Terra, era definido à conta de cretino.

Jornalistas e escritores “mortos” utilizavam-lhe as faculdades a se fazerem sentir claramente, entretanto, as respectivas famílias, receando-lhes a intromissão, ameaçavam o medianeiro, através de processos espetaculosos e humilhantes. Citado nos órgãos judiciários por miserável impostor, Calixto recolhia-se em prece, suplicando aos missionários invisíveis providências contra a perturbação estabelecida, mas enquanto os Espíritos Benevolentes adotavam pseudônimos, a fim de lançaram idéias renovadoras, com a facilidade possível, os companheiros de fé observavam-lhe, risonhos e irônicos:

– Onde iremos? Os “mortos” também usam máscara?

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O confundido trabalhador era objeto de geral exame, dia e noite. O zelo com que atendia ao serviço pela própria manutenção era interpretado por excessiva defesa na vida material, mas se era encontrado fora da atividade comum por algumas horas, era categorizado por garimpeiro de vantagens especiais.

Tentava isolar-se por desincumbir-se das obrigações com mais segurança e eficiência, no entanto, era apontado, de imediato, por orgulhoso e frio, ante os sofrimentos alheios. Calixto passava, então, a comunicar-se com todos, entretanto, suas palavras convertiam-se em objeto de exploração aviltante e escandalosa.

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Discutido, atormentado, fustigado e seguido pela crítica incessante, através do todas as maneiras pelas quais procurava solucionar os compromissos a que se devotava, chegou o dia em que se deitou desanimado, à maneira do burro que arreia sob a carga pesada.

Não seria razoável parar? Como seguir adiante?

Foi então que lobrigou, de olhos nublados de lágrimas, a presença de um mensageiro divino.

Endereçou-lhe sentida súplica, mas notou assombrado que o emissário se mantinha sorridente ao ouvi-lo.

Finda a rogativa, entrecortada de soluços, o anunciador das Boas Novas Celestiais falou-lhe, bem-humorado:

– Calixto, levante-se e não se aflija! Banhe-se uma vez por dia, tome refeições regulares e faça o que puder. O Senhor não exige o impossível. Habitue-se a auxiliar por amor ao bem, contando com a incompreensão natural do mundo. A calúnia não piora ninguém, tanto quanto a bajulação não nos aperfeiçoa qualidade alguma. Quanto ao mais, meu amigo – e, nesse ponto, o mensageiro riu-se francamente – se Jesus retirou-se do mundo pelas portas sangrentas do sacrifício na cruz, será mesmo que você pretende ausentar-se da Terra nas fofas almofadas dum automóvel?

Com a interrogação, interrompeu-se a singular entrevista e Calixto, copiando os movimentos de uma muar resignados, ergueu-se de novo, e retornou o passo para o que desse e viesse.

Fonte: Pelo Espírito Irmão X (Humberto de Campos). Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

– Livro: Histórias e Anotações. Lição nº 18. Página 113.

322 – HISTÓRIAS E ANOTAÇÕES – (Chico Xavier – Irmão X) (centroespiritachicoxavier.org.br)

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

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