A fraqueza dos bons

Milton Medran Moreira

“A anarquia social não se manifesta somente nas camadas inferiores da sociedade. Como todas as epidemias mentais, é uma moléstia essencialmente contagiosa.”. Gustave Le Bon, em “Psicologia Política”.

Foi a partir de sua redemocratização que o Brasil começou a perceber mais claramente o elevado nível de criminalidade existente em suas elites políticas e econômicas, historicamente protegidas pela impunidade.

A assim chamada “criminalidade do colarinho branco” passou a merecer, então, melhor atenção dos organismos de investigação, persecução criminal, submissão ao devido processo legal e julgamento. Ao mesmo tempo, pois, que o exercício democrático se abria para todas as camadas da população, ensejando mais amplamente o acesso ao poder também às classes sociais menos favorecidas, a criminalidade, de igual forma, mostrava-se presente na ação de representantes políticos de todos os segmentos sociais, incluindo aqueles antes tidos como “acima de qualquer suspeita”.

Na verdade, o crime não tem ideologia nem partido, não é característica deste ou daquele estrato social, político, religioso, civil ou militar. É doença contagiosa que se alastra, contaminando segmentos ricos e pobres, criando mecanismos complexos, estratégias para burlar a lei, e formando organizações poderosas com alto grau de especialização. Membros desses organismos criminosos paraestatais, provindos de todos os níveis, não raro, conquistam importantes fatias de poder, em todos os segmentos do estado, sob o hipócrita manto da democracia e mediante uma falsa retórica de promoção do bem comum.

Mesmo assim, a parte boa e sadia da sociedade é mais numerosa do que essa horda de criminosos que toma de assalto setores do poder estatal e econômico. A grande maioria dos brasileiros é constituída de homens e mulheres bem-intencionados, voltados a atividades honestas: pais e mães de família; empresários e trabalhadores; governantes, parlamentares, membros de Poderes, probos, imbuídos dos mais sãos princípios em favor da ordem, da justiça, da paz social. Todos querendo oferecer sua contribuição em prol de uma sociedade justa e harmônica.

Apesar disso, já ao tempo da estruturação filosófica do espiritismo, seu insigne fundador, Allan Kardec, percebeu que, como ocorre hoje, em amplos setores da política e das engrenagens que movem as relações sociais, a “influência dos maus sobrepuja a dos bons”, e questionou os espíritos sobre a razão desse fenômeno. Deles recebeu esta resposta, na questão 932 de O Livro dos Espíritos:

“Por fraqueza destes (os bons). Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão”.

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O crime não tem ideologia nem partido, não é característica deste ou daquele estrato social, político, religioso, civil ou militar.

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No cenário pátrio atual, a “fraqueza dos bons” tem se consubstanciado, às vezes, mais do que pela inação ou a timidez destes, pela própria incapacidade de reconhecerem que estão sendo enganados. Assim, por exemplo, quando um político prega o retorno à ditadura, acenando com a possibilidade de esta trazer a paz social, pessoas de boa índole, poderão sucumbir a essa retórica enganosa, totalmente distanciada da real experiência histórica.

A “fraqueza dos bons”, que tanto atraso já causou à humanidade, tem, pois, componentes de ingenuidade, de ignorância política, de ausência dos conhecimentos amealhados ao longo da formação política e social da espécie humana. Ditaduras, sejam de direita ou de esquerda, sempre foram altamente nocivas à sociedade. Ferem a dignidade do cidadão, atentando contra seus direitos naturais.

A democracia, mesmo que teoricamente concebida há séculos, pelos gregos, é, na prática, conquista recente da História, e consolida-se na medida que se protege dos embustes gerados em seu próprio seio. Ela requer, acima de tudo, persistência e coragem no seu exercício, que deverá ser iluminado pela ética do diálogo, da tolerância, do respeito, da sabedoria e da fraternidade, tendo por fim o bem comum.

(Texto publicado como editorial do jornal OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, edição 293 – março/2021)

Fonte: geae.net

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Segue-me e deixai aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos (S. Lucas, 9:59–60)

O Espírito que amamos vem nos Visitar com Frequência, ou ele fica no Plano Espiritual?

Hugo Lapa

Visitas espirituais podem ocorrer algumas vezes, quando as almas possuem um laço amoroso mais estreito. No entanto, os espíritos têm tarefas a desempenhar no plano espiritual.

Ao contrário do que muitos pensam, eles não vivem em função dos encarnados e nem da vida na matéria. Eles possuem suas próprias atribuições espirituais, algumas das quais chegam a ser incompreensíveis para nós. Por isso, eles não podem ficar vindo nos visitar a todo momento.

Os encarnados estão na mesma condição: eles não devem ficar pensando a todo momento nos desencarnados, pois necessitam prosseguir suas vidas normalmente. Aqueles que perdem um tempo precioso de sua existência pensando nos que partiram, além de estarem prejudicando o espírito, estão prejudicando a si mesmos, pois deixam de viver suas vidas.

A sabedoria da Bíblia nos diz que cada coisa tem seu tempo. Há o tempo de semear e o tempo de colher. Haverá também o tempo do reencontro com nossos entes queridos, logo após o desencarne. Mas enquanto isso não acontece, devemos viver na Terra e colher o aprendizado de suas experiências.

A pessoa que fica pensando mais no falecido do que em sua própria vida, acaba não vivendo nem com o espírito e nem vivendo sua vida. Assim, perde sua encarnação e pode ter que refazer certas provas numa vida futura.

Hugo Lapa

Fonte: kardecriopreto.com.br

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O erro do outro

Hugo Lapa

Não se importe com a hipocrisia, os fingimentos, as farsas, a arrogância e os erros de outras pessoas.

Sempre vejo algumas pessoas reclamando dos erros de outros em grupos espirituais, centros, templos, em suas famílias, na escola na empresa etc.

Reclamam:

  • que as pessoas falam uma coisa e fazem outra;
  • que as pessoas são dissimuladas e não dizem o que pensam;
  • que nos sorriem de manhã e puxam nosso tapete a tarde;
  • que falam mal dos outros pelas costas; que criam intrigas e confusões por coisas pequenas.

Mas ninguém deve ficar se preocupando com o que o outro faz ou deixa de fazer de errado. Em nossa passagem pela Terra, a única coisa que realmente importa é o que nós mesmos fazemos.

Que pode nos importar o que o outro faz de bom ou mau? Se uma pessoa faz o mal, ela sofrerá as consequências do mal que esteja praticando. Isso fará parte do patrimônio espiritual dessa pessoa, será a sua colheita mais cedo ou mais tarde. Por isso, ninguém deve ficar nervoso, revoltado, incomodado ou querendo “dizer umas verdades” ao outro. Se fizermos isso, o erro passa a ser nosso também e não apenas do outro. Faculte a cada pessoa o direito que ela tem de errar e aprender sozinha com seus erros. Como diz Chico Xavier “Aos outros dou o direito de ser como são; a mim dou o dever de ser cada dia melhor”.

Quando tentamos apontar os erros de alguém e o outro não quer ouvir, ele poderá se voltar contra nós, além da possibilidade de se criar conflitos e confusões desnecessárias. Vamos permitir que o outro seja o que ele quer ser; que ele possa seguir o caminho que escolheu; que ele possa viver as experiências que determinou para si, mesmo que isso seja errado, seja hipocrisia e mesmo que isso nos afete de alguma forma. O choque de retorno ocorrerá na hora certa e fará essa pessoa aprender com os erros do passado.

Portanto, deixe o outro errar o quanto quiser e não se irrite com as faltas alheias. O que tem valor nessa vida é o que fazemos diante da humanidade e diante de Deus. Deus conhece nossa vida, nossos atos e conhece profundamente nosso irmão em erro. Se o outro quer insistir em suas incorreções e enganos, quem somos nós para corrigi-lo? Isso é um problema dele, é a escolha que sua alma fez e que o conduzirá a um caminho tortuoso, que ele viverá ou talvez já viva essa tortura em sua consciência. Além disso, sempre há a possibilidade de olharmos mais para os erros dos outros a fim de não enxergar os nossos próprios erros.

Dessa forma, não permita que as faltas do outro afetem seu trabalho na grande jornada humana. Como diz Madre Tereza de Calcutá “No fim das contas, tudo é entre você e Deus e não entre você e os outros”. Cumpra as tarefas que lhe cabem sem olhar para o lado, pois no final das contas, o que interessa é o que nós plantamos… E nada nos acrescenta ficar observando a colheita de nosso irmão.

Hugo Lapa

Fonte: G.E.Casa do Caminho de S. Vicente

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Marcas de nascença e as memórias de vidas passadas

Por Eliana Haddad

Alan Roger dos Santos Silva é cirurgião-dentista e seguiu formação acadêmica por meio dos cursos de mestrado e de doutorado na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP), SP, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com a Universidade de Sheffield na Inglaterra.

Especialista nas áreas de Estomatologia e Patologia Oral e Maxilofacial, Alan como professor livre-docente no Departamento de Diagnóstico Oral da FOP-Unicamp, possui centenas de publicações científicas internacionais relacionadas às doenças da boca e é referência no campo da pesquisa de pacientes com câncer de boca e orofaringe.

Em conjunto com uma equipe de investigadores provenientes de várias instituições nacionais, Alan publicou recentemente um artigo científico na revista internacional Explore (Nova York), intitulado “Birthmarks and birth defects in the head and neck region and claims of past-life memories: A systematic review” – Marcas e defeitos de nascença associados a memórias de vidas passadas –, tema que interessa muito ao espiritismo:

Em entrevista ao Correio Fraterno, Alan elucida sobre a importância desse trabalho.

Você poderia explicar o que pesquisa na sua área de atuação?

Minha atuação como pesquisador está direcionada a uma melhor compreensão dos fatores de risco para as doenças mais impactantes da região da cabeça e do pescoço, com ênfase para as doenças da boca. Além disso, meus esforços como investigador estão concentrados no aprimoramento de protocolos de tratamento baseados nos valores dos pacientes com doenças da boca, incluindo estratégias de comunicação de notícias ruins para pacientes que receberão o diagnóstico do câncer de boca.

Por que teve interesse em elaborar um artigo que revisa casos sugestivos de reencarnação? É seu primeiro trabalho sobre esse tema?

Sim, esse é o primeiro trabalho de nossa equipe nesse contexto. Nossa motivação provém dos estudos na área das doenças humanas e da observação do fato de que frequentemente pacientes são acometidos por alterações ou doenças congênitas com grande impacto físico e psíquico que não podem ser explicadas, em termos de fatores de risco, por predisponentes ambientais ou genéticos.

Como desenvolveu a sua pesquisa?

A pesquisa foi planejada e executada com base na parceria entre profissionais vinculados à FOP-Unicamp (Alan Roger dos Santos Silva, Laura Borges Kirschnick e Lauren Frenzel Schuch), ao Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde (Alexandre Caroli Rocha e Eric Vinícius Ávila Pires) da Universidade Federal de Juiz de Fora e à Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Manoela Domingues Martins). Seguindo protocolos internacionais do “Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)”, um conjunto mínimo de itens baseado em evidências que guia cientistas na investigação de temas no campo da saúde, descrevemos as evidências científicas publicadas ao longo de décadas de trabalho da divisão de estudos da personalidade da Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, EUA, e também de cientistas associados a esse grupo, sobre as alegadas memórias de vidas passadas associadas à origem de marcas e defeitos de nascença.

O que revelaram esses estudos? O que você descobriu?

Os resultados do estudo, direcionado para as marcas e defeitos de nascença da região de cabeça e pescoço, identificaram dados de uma série de casos de pacientes nascidos em diversas partes do mundo, incluindo Estados Unidos, Índia, Myanmar, Sri Lanka, Tailândia e Turquia. Essas marcas e defeitos associados a supostas memórias de vidas passadas foram identificados predominantemente na face de crianças do sexo masculino, com ampla variação em termos de manifestação clínica (verrucosa, hipotricose, hipopigmentação, hiperpigmentação, hiperemias e rugosidades, entre outras) e tamanhos entre 0,5 cm e 12 cm. Os casos tiveram entrevistas com a família da pessoa falecida e com a família da criança que associou as marcas de nascença com memórias de vidas passadas. A robustez das provas apresentadas junto aos casos compilados foi analisada com base no método validado conhecido como “Grading the Strength of a Body of Evidence When Comparing Medical Interventions”. A maior parte dos casos dos pacientes analisados com essas características foi associada a alegações de vidas passadas em que teriam ocorrido traumas e lesões decorrentes de violência por facas, armas de fogo, tortura, estrangulamento, queimaduras e colisões, entre outras, incluindo muitos desfechos fatais e um caso associado a complicações do tratamento do câncer.

Pode citar algum caso?

Um dos estudos identificados em nosso artigo relata uma alegada vida anterior na mesma família. Uma criança norte-americana do sexo masculino nasceu e permaneceu com marca escura na região anterior direita do pescoço, com uma opacidade em seu olho esquerdo, com alteração nos músculos oculares e com inchaço arredondado no couro cabeludo acima do ouvido direito. Aos quatro anos, o menino demonstrou vontade de voltar à casa anterior de sua própria família, fornecendo descrições acuradas de onde haveria morado com sua mesma mãe e dizendo havê-la ‘deixado’ naquele local. Relatou detalhes de uma biópsia à qual disse ter sido submetido e, quando lhe foi mostrada uma foto de seu irmão que morrera 12 anos antes de seu nascimento, o menino afirmou que ele e o irmão falecido eram a mesma pessoa. Seu irmão havia morrido em função de um câncer comum da infância conhecido como neuroblastoma. Coincidentemente, esta criança apresentava um inchaço acima do ouvido direito (em função do câncer), tinha o olho esquerdo saliente e com histórico de sangramento (ficou cego desse olho um pouco antes de falecer, também devido à doença), realizou biópsias durante a investigação diagnóstica e teve um tubo colocado numa veia da região anterior direita do seu pescoço (acesso venoso) para infundir medicações, antes de receber alta e falecer em casa.

O trabalho foi bem recebido entre os profissionais da sua área? Há resistência a esses temas?

Os resultados apresentados nessa publicação internacional foram recebidos com grande interesse por parte de cientistas e profissionais da saúde que atuam em diversos campos da odontologia e da medicina, entre eles a estomatologia, a patologia, a psiquiatria e a oncologia. Embora não tenhamos, até o momento, conhecimento de resistências formais à publicação, é possível cogitar que o desconhecimento – pela maior parte da população mundial – do lastro de mais de 100 anos de evidências científicas acerca da sobrevivência da consciência humana após a morte do corpo físico pode gerar dúvidas, incertezas e até mesmo resistências conceituais nesse contexto.

Como profissional de saúde, você percebe alguma maior aceitação dos profissionais da área com relação a esse novo paradigma, envolvendo a espiritualidade?

Sim, uma evidência adicional a essa constatação diz respeito a grandes centros de referência internacional em pesquisa e tratamento de pacientes com doenças psiquiátricas, condições incuráveis ou potencialmente fatais (como pacientes com câncer) ou especializados em cuidados paliativos. Centros como a Duke University, Harvard, Johns Hopkins e Oxford University possuem núcleos de investigação clínica e profissionais para lidar com questões dos pacientes no contexto da espiritualidade e do sentido da vida durante o enfrentamento das doenças graves. Há evidências para melhor qualidade da vida e prognósticos superiores quando essas questões são abordadas junto a pacientes com tais demandas.

Você dará continuidade a esses estudos? Qual o próximo passo?

Sim, nossa equipe segue estudando e interessada em aprimorar a compreensão de possíveis origens não convencionais para condições e doenças humanas, com ênfase para doenças na região da boca, da cabeça e do pescoço.

Na sua opinião, quais outros temas deveriam ser mais explorados pelos cientistas que se dedicam a pesquisas sobre saúde e espiritualidade?

Acredito que seria importante investigar temas que visem à melhor compreensão do impacto clínico da espiritualidade como parte do tratamento de pacientes com doenças altamente mórbidas e potencialmente fatais. Essa temática certamente merece atenção especial das agências de incentivo à pesquisa no campo da saúde.

Fonte: correio.news

Referências:

  1. Kirschnick LB, Schuch LF, Rocha AC, Ávila Pires EV, Martins MD, Santos-Silva AR. Birthmarks and birth defects in the head and neck region and claims of past-life memories: A systematic review. Explore (NY). 2023 Feb 10:S1550-8307(23)00031-9. doi: 10.1016/j.explore.2023.02.002.

  2. https://med.virginia.edu/perceptual-studies/wp-content/uploads/sites/360/2015/11/REI34.pdf

  3. https://spiritualityandhealth.duke.edu/

  4. https://www.hopkinsmedicine.org/spiritualcare/

  5. https://www.hsph.harvard.edu/news/press-releases/spirituality-better-health-outcomes-patient-care/

  6. https://academic.oup.com/book/37026

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O magnetismo é fascinante!

Jacob Melo

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Estudar o Magnetismo apresenta algo de “quase sobrenatural”, de tão grandioso e enriquecedor que é!

Por isso mesmo, fico sem entender como é que se está no meio espírita e não se percebe a alta relevância dessa matéria quase imaterial – de certa forma – e tão material, que não deixa de ser manuseável e percebível!

Recentemente, realizei 3 lives acerca do “universo magnético” (1), com todo o tema baseado em trechos de Allan Kardec e dos Espíritos da Codificação. E foi exatamente realizando essas lives que me surpreendi (novamente) com a grandiosidade dessa ciência e de seus alcances.

Sem necessidade de mais profundos estudos, rapidamente se percebe que o Magnetismo está em absolutamente tudo, sustentando não apenas a parte mediúnica que o Espiritismo tão bem aborda, como nas forças gravitacionais, na formação planetária, nos mundos micro e macro, na estruturação dos campos perispirituais, nos processos reencarnatórios e morfogenéticos e até mesmo nas relações interpessoais…

De Moisés a Jesus, de Mesmer a Deleuze, da civilização egípcia às pesquisas contemporâneas, passando por todas as espécies de curas e interferências sanativas, físicas e psíquicas, o Magnetismo estende seus braços por todas as latitudes e longitudes, fazendo-se o zênite e o nadir que nos liga desde a carne até o Espírito e, reciprocamente, mas que, lamentavelmente, deixamos muito de lado sua base e da qual jamais deveríamos ter nos afastado.

Vou fazer aqui apenas uma ilustração do quão surpreendente é esse estudo.

“O princípio dos fenômenos psíquicos repousa, como já vimos, nas propriedades do fluido perispiritual, que constituí o agente magnético; nas manifestações da vida espiritual durante a vida corpórea e depois da morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos Espíritos e no papel que eles desempenham como força ativa da Natureza. Conhecidos estes elementos e comprovados os seus efeitos, tem-se, como consequência, de admitir a possibilidade de certos fatos que eram rejeitados enquanto se lhes atribuía uma origem sobrenatural.” (2)

Observemos alguns detalhes:

1- O períspirito é considerado em sua composição como um fluido, o que naturalmente indica ser esse fluido um campo energético, material, portanto.

2- Esse “agente” é o ser magnético por excelência.

3- Seus alcances se dão na vida, quer material, quer espiritual.

4- Trata-se, em si, de uma “força ativa da Natureza”.

5- Eliminam-se, assim, muito do fantasioso e do sobrenatural a que a humanidade sempre se viu envolta e, com isso, brilha a luz sobre as trevas da ignorância que vigia sobre muito dos fenômenos mediúnicos e anímicos.

O que há de mais surpreendente nessa abençoada ciência é que, em seu bojo, dormitam saberes e conhecimentos quase virgens, aguardando os investigadores dispostos a bem aproveitarem tantas e tão fascinantes explicações.

E, sem sombra de dúvida, as luzes e lupas que a Doutrina Espírita oferece para melhor se desvendar tudo isso é ferramenta que precisa ser retirada dos arquivos do simbólico, para serem empregadas na prática da vivência fascinante do Bem.

Jacob Melo

Fonte: Correio Espírita

  • 1 – Caso você queira assistir, as 3 lives estão disponíveis no canal Jacob Melo do Youtube. – Jacob Melo – YouTube
  • 2 – Allan Kardec, in: A Gênese, cap. XV, item 1.
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Ainda vale seguir Kardec depois de 215 anos de seu nascimento?

Dora Incontri

(postado em 6/10/2019)

Homenagear Kardec no dia do seu aniversário é tecer reflexões sobre a pertinência de ainda nos dizermos espíritas kardecistas em pleno século XXI, quando muitas das ideias defendidas em seus livros estão hoje distantes do horizonte acadêmico, rejeitadas e consideradas envelhecidas pela filosofia contemporânea.

Kardec permaneceu no limbo da ciência, da filosofia e da espiritualidade. Filósofos não o reconhecem como tal, cientistas declaram com desprezo que o espiritismo é uma pseudociência e as tradições espirituais muitas vezes excluem o espiritismo de um reconhecimento para um diálogo.

Então, ainda vale seguir Kardec?

A questão se resume no seguinte: ou sobrevivemos à morte e podemos nos comunicar com os que ficaram ou a morte é o final de tudo. Admitida e primeira hipótese, as ideias que Kardec dela derivou – e que hoje são banidas da filosofia contemporânea – podem ser defendidas facilmente. Entre elas, a existência de Deus, o evolucionismo, com uma teleologia na história e da natureza, uma conexão espiritual entre todos os seres do universo, uma ética de se colocar os valores espirituais acima da ganância terrena, e assim por diante.

Kardec pensava haver reunido evidências suficientes de que a vida continua e de que os espíritos se comunicam. Outros depois dele percorreram o mesmo caminho na segunda metade do século XIX e início do século XX e chegaram à mesma conclusão, como William Crookes, Russel Wallace, Gustave Geley, Friedrich Zölnner e tantos mais. No século XX, temos, por exemplo, a importante pesquisa de Ian Stevenson, com robustas evidências da reencarnação. Mas esses e outros pesquisadores de ontem e de hoje foram tão silenciados, ignorados e enjeitados quanto Kardec. A ciência chamada mainstream não abre espaço para esse tipo de pesquisa, porque ela fere paradigmas fortemente estabelecidos, porque não é uma ciência fácil de se fazer no controle e na repetição dos fenômenos mediúnicos, porque não é uma ciência que traga inovações tecnológicas ou produtos lucrativos e muito menos prestígio acadêmico. Talvez haja outras hipóteses explicativas dessa exclusão desdenhosa.

Entretanto, para quem é médium desde que nasceu (como é o meu caso) e vive cercado de fenômenos que outras ciências não explicam e que poderiam comprometer a saúde mental se não fossem aceitos como mediúnicos e se não tivéssemos instrumentos para lidar com isso, o espiritismo deixa de ser uma filosofia do limbo acadêmico, para se tornar uma necessidade e uma possibilidade de equilíbrio e orientação.

Essa é uma das grandes contribuições de Kardec: como estava convencido da realidade do mundo espiritual e do intercâmbio com os espíritos, ele não ficou indefinidamente repetindo experiências para comprovar os fenômenos e nem sequer parou nessa pesquisa inicial. Ele tratou de estudar como funcionava aquilo e de oferecer diretrizes práticas e parâmetros éticos de como lidar com a mediunidade, de maneira segura, saudável e útil.

E nessa orientação, Kardec foi único. Nunca ninguém antes dele e ninguém depois dele fez esse trabalho e de forma tão clara, tão crítica e tão competente. Por isso, acho que o Livro dos Médiuns, muito pouco estudado e aplicado no movimento espírita brasileiro, é o livro de Kardec que permanece irretocável.

Os outros trazem uma visão de mundo, uma filosofia e uma ética que para mim e para muitos fazem sentido, mas precisam ser relidas com seus contextos históricos e precisam ser transpostas para um diálogo com problemas de hoje e visões contemporâneas.

“  Kardec é, pois, uma referência, um início, uma base. Um mestre que não se intimidou em querer avançar além da mera apreciação de um fenômeno, mas quis deixar o resultado de seus diálogos com os espíritos e uma filosofia coerente, bem articulada, que pudesse nos ajudar a melhorar a nós mesmos e ao mundo.   

Há em Kardec a preocupação do educador, de tornar as coisas claras, práticas, aplicáveis, úteis. Há a intenção de um reformador social de querer transformar a sociedade, torná-la mais justa, mais progressista, mais humana, mais fraterna – dentro do horizonte que era possível a um discípulo de Pestalozzi na primeira metade do século XIX.

Por isso, releio, revejo, até critico Kardec em alguns pontos (estou escrevendo um livro sobre toda essa releitura que faço), mas permaneço espírita kardecista – e hoje temos de adotar sim esse adjetivo, já que o espiritismo tomou muitas formas em nosso país. Porque o essencial de Kardec, justamente esse manejo racional e ético da mediunidade, esse entendimento progressista e pedagógico do mundo e da vida, ainda fazem muito sentido para mim e considero que ainda não deu o que tinha que dar como contribuição nesse mundo, porque ainda nem compreendido foi.

Dora Incontri

Fonte: Portal da Casa Espírita Nova Era – Blumenau – SC

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All You Need Is Love (?)

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Tudo o que você precisa é amor. John Lennon - Pensador

Essas breves linhas surgem de uma inspiração profunda, ouvindo a música dos rapazes de Liverpool, All You Need Is Love , que surge incidentalmente no maravilhoso e distópico  filme “Yesterday – A Trilha do Sucesso”, de 2019, dirigido por Danny Boyle , sendo para mim uma obra prima recente, e que com linguagem poética mescla a complexidade e a simplicidade do mundo atual.

Essa super simplificação das coisas em um mundo tão complexo é que instigou essa reflexão. Assustados com o mundo tão complicado, e que sempre esteve lá, mas que se vê descoberto e assimilado, em especial pela tecnologia, em toda a sua estranheza, buscamos simplificar as coisas, apresentando a nós mesmo soluções e explicações elementares para questões intrincadas, que envolvem nuanças e aspectos ocultos.

Assim, ouvimos nas ruas e nas redes que a culpa é do comunismo. Ou do capitalismo. E ainda, que nos basta ter força de vontade, querer. Que tudo o que precisamos é de amor. Um desfile de soluções simples, pasteurizadas e superficiais para a vida e seus “Wicked Problems”, termo que designa tecnicamente no campo das políticas públicas problemas que tem muitos fatores interdependentes, tornando-os impossíveis de terem uma resolução rápida.

E a fé, aquela que o espiritismo se propõe com o adjetivo de raciocinada, pode ser um subterfúgio para essas simplificações, com seus mistérios inquestionáveis e porta-vozes monotônicos. Mas, temos nós, os espíritas, também nossos mantras reducionistas das questões do ser, do destino e da dor. É a falta de Deus, é combater o orgulho e o egoísmo, é o sofrimento que purifica pela lei do Karma.

Simplificar é uma forma de digerir problemas grandiosos, antigos e um tanto indigestos. Um artificio, uma estratégia de sobrevivência em um mundo que se apresenta tão confuso e desesperançoso. Mas, também é uma forma de ignorar o que deve ser feito, com soluções fantasiosas e pouco efetivas frente ao que se poderia realmente fazer.

Chega-se assim ao tema central desse artigo. Uma simplificação que tem andado na moda entre os espíritas, diante dos acontecimentos desastrosos da vida cotidiana: a transição planetária. Uma ideia de que estamos passando de uma mundo de provas e expiações em direção a classificação de mundo de regeneração, trazida, bem verdade, e com as devidas vênias, por Kardec em “A Gênese”, quando fala da “Geração nova”, mas em um sentido bem diverso do que se vê hoje, considerando-se ainda que o texto kardequiano tem mais de 150 anos.

Mas a coisa se acentuou mais ainda com o frenesi apocalíptico que tomou conta do mundo nos anos 2000, com uma raiz no medo do flagelo nuclear da década de 1970 redesenhado, e com derivações de calendário maia, meteoros e outras coisas que fazem com que estejamos há duas décadas com esse papo de fim de mundo, em uma simplificação na visão de um mundo que muda em uma velocidade ciclópica.

E o espírita médio, imerso nesse caldo de promessas do fim que virá, reduz cada catástrofe, crime hediondo ou desastre que recebe pela imprensa e pelas redes sociais, ao mantra anestésico de que é a por conta da transição planetária. E volta aos seus afazeres domésticos, aplacada a sua consciência. Suprem-se assim debates, análises e soluções, que poderiam gerar ações, movimentos, no micro e no macrocosmo social, que resultariam em melhorias no mundo real, o sentido profundo da palavra evolução.

A transição planetária não pode ser uma venda que reduza a capacidade de análise dos espíritas, um traço marcante desse grupo, e que nos tire, consequentemente, a capacidade de agir. A ideia de fim de mundo mexe com medos ancestrais, presente em várias culturas, inclusive no cristianismo, e traz em si uma esperança imobilizadora de que nos basta esperar os acontecimentos inexoráveis, fruto de um Deus decepcionado com a sua criação.

Jesus nos ensinou que o reino de Deus é uma construção cotidiana, e problemas sociais gritantes que batem a nossa porta pelas notícias são avisos de que algo precisa ser feito, por cada indivíduo ou grupo, dentro das suas possibilidades, buscando reduzir a chance daquele quadro não se repetir, e não jogar tudo no diagnóstico simplificador da transição planetária ou qualquer outro chavão popular.

John Lennon e Paul McCartney estavam cobertos de razão ao dizer que tudo o que precisamos é de amor. Jesus, aliás, também disse isso. Nós é que subestimamos o amor, entendido como algo simples, e superficial, mas que na verdade é uma força complexa e profunda, que move homens e mundos, sendo a verdadeira essência divina.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Fonte: Agenda Espírita Brasil

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Mensagem de TIRADENTES: Não fui um Herói

Humberto de Campos

Dos infelizes protagonistas da Inconfidência Mineira, no dia 21 de abril de todos os anos, aqueles que podem excursionar pela Terra volvem às ruínas de Ouro Preto, a fim de se reunirem entre as velhas paredes da casa humilde do sítio da Cachoeira, trazendo a sua homenagem de amor à personalidade do Tiradentes.

Nessas assembléias espirituais, que os encarnados poderiam considerar como reuniões de sombras, os preitos de amor são mais expressivos e mais sinceros, livres de todos os enganos da História e das hipocrisias convencionais.

Ainda agora, compareci a essa festividade de corações, integrando a caravana de alguns brasileiros desencarnados, que para lá se dirigiu associando-se às comemorações do protomártir da emancipação do País.

Sem me alongar nos lances descritivos, acerca dos seus tesouros do passado, objeto da observação de jornalistas e escritores de todos os tempos, devo dizer que, na noite de hoje, a casa antiga dos Inconfidentes tem estado cheia das sombras dos mortos. Aí fui encontrar, não segundo o corpo, mas segundo o espírito, as personalidades de Domingos Vidal Barbosa, Freire de Andrada, Mariano Leal, José Joaquim da Maia, Cláudio Manuel, Inácio Alvarenga, Dorotéia de Seixas, Beatriz Francisca Brandão, Toledo Pisa, Luís de Vasconcelos e muitos outros nomes, que participaram dos acontecimentos relativos à malograda conspiração.

Mas, de todas as figuras veneráveis ao alcance dos meus olhos, a que me sugeria as grandes afirmações da pátria era, sem dúvida, a do antigo alferes Joaquim José da Silva Xavier, pela sua nobre e serena beleza. Do seu olhar claro e doce, irradiava-se toda uma onda de estranhas revelações, e não foi sem timidez que me acerquei da sua personalidade, provocando a sua palavra.

Falando-lhe a respeito do movimento de emancipação política, do qual havia sido o herói extraordinário, declinei minha qualidade de seu ex-compatriota, filho do Maranhão, que também combatera, no passado, contra o domínio dos estrangeiros…

– “Meu amigo – declarou com bondade -, antes de tudo, devo afirmar que não fui um herói e sim um Espírito em prova, servindo simultaneamente à causa da liberdade da minha terra. Quanto à Inconfidência de Minas, não foi propriamente um movimento nativista, apesar de ter aí ficado como roteiro luminoso para a independência da pátria. Hoje, posso perceber que o nosso movimento era um projeto por demais elevado para as forças com que podia contar o Brasil daquela época, reconhecendo como o idealismo eliminou em nosso espírito todas as noções da realidade prática; mas, estávamos embriagados pelas idéias generosas que nos chegavam da Europa, através da educação universitária. E, sobretudo, o exemplo dos Estados Americanos do Norte, que afirmaram os princípios imortais do direito do homem, muito antes do verbo inflamado de Mirabeau, era uma luz incendiando a nossa imaginação. O Congresso de Filadélfia, que reconheceu todas as doutrinas democráticas, em 1776, afigurou-se-nos uma garantia da concretização dos nossos sonhos. Por intermédio de José Joaquim da Maia procuramos sondar o pensamento de Jefferson, em Paris, a nosso respeito; mas, infelizmente, não percebíamos que a luta, como ainda hoje se verifica no mundo, era de princípios. O fenômeno que se operava no terreno político e social era o desprezo do absolutismo e da tradição, para que o racionalismo dirigisse a Vida dos homens. Fomos os títeres de alguns portugueses liberais, que, na colônia, desejavam adaptar-se ao novo período histórico do Planeta, aproveitando-se dos nossos primeiros surtos de nacionalismo. Não possuíamos um índice forte de brasilidade que nos assegurasse a vitória, e a verdade só me foi intuitivamente revelada quando as autoridades do Rio mandaram prender-me na rua dos Latoeiros.”

– E nada tendes a dizer sobre a defecção de alguns dos vossos companheiros? – perguntei.

– “Hoje, de modo algum desejaria avivar minhas amargas lembranças. Aliás, não foi apenas Silvério quem nos denunciou perante o Visconde de Barbacena; muitos outros fizeram o mesmo, chegando um deles a se disfarçar como um fantasma, dentro das noites de Vila Rica, avisando quanto à resolução do governo da província, antes que ela fosse tomada publicamente, com o fim de salvaguardar as posições sociais de amigos do Visconde, que haviam simpatizado com a nossa causa. Graças a Deus, todavia, até hoje, sinto-me ditoso por ter subido sozinho os vinte degraus do patíbulo.”

– E sobre esses fatos dolorosos, não tendes alguma impressão nova a nos transmitir?

E os lábios do Herói da Inconfidência, como se receassem dizer toda a verdade, murmuraram estas frases soltas:

– “Sim…. a Sala do Oratório e o vozerio dos companheiros desesperados com a sentença de morte…a Praça da Lampadosa, minha veneração pelo Crucifixo do Redentor e o remorso do carrasco…… a procissão da Irmandade da Misericórdia, os cavaleiros, até o derradeiro impulso da corda fatal, arrastando-me para o abismo da Morte…”

E concluiu:

– “Não tenho coisa alguma a acrescentar às descrições históricas, senão minha profunda repugnância pela hipocrisia das convenções sociais de todos os tempos.”

– É verdade – acrescentei -, reza a História que, no instante da vossa morte, um religioso, falou. sobre o tema do Eclesiastes – “Não atraiçoes o teu rei, nem mesmo por pensamentos.”

E terminando a minha observação com uma pergunta, arrisquei:

-Quanto ao Brasil atual, qual a vossa opinião a respeito?

– “Apenas a de que ainda não foi atingido o alvo dos nossos sonhos. A nação ainda não foi realizada para criar-se uma linha histórica, mantenedora da sua perfeita independência. Todavia, a vitalidade de um povo reside na organização da sua economia e a economia do Brasil está muito longe de ser realizada. A ausência de um interesse comum, em favor do País, dá causa não mais à derrama dos impostos, mas ao derrame das ambições, onde todos querem mandar, sem saberem dirigir a si próprios.”

Aos meus ouvidos emocionados ecoavam as notas derradeiras da música evocativa e dos fragmentos de orações que rodeavam o monumento do Herói, afigurando-se-me que Vila Rica ressurgira, com os seus coches dourados e os seus fidalgos, num dos dias gloriosos do Triunfo Eucarístico; mas, aos poucos, suas luzes se amorteceram no silêncio da noite, e a velha cidade dos conspiradores entrou a dormir, no tapete glorioso de suas recordações, o sono tranquilo dos seus sonhos mortos.

Livro: Crônicas de Além-túmulo, espírito Humberto de Campos, psicografia de Chico Xavier.

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BEZERRA DE MENEZES: O APÓSTOLO DA CIÊNCIA ESPÍRITA

O respeitado médico espírita brasileiro pode ser considerado o pioneiro das pesquisas sobre obsessão espiritual. No século retrasado, ele sustentava conceitos inovadores e se utilizava de técnicas avançadas no desafiador campo da desobsessão espírita

O Dr. Adolfo Bezerra de Menezes é tido na conta de um dos precursores da medicina espírita brasileira. Entre os inúmeros aspectos da doutrina, tão bem vivenciados por ele, destaca-se a sua participação no campo experimental da mediunidade. Ele era um estudioso sistemático da obsessão espiritual e, por ter sido médico, preocupava-se com a terrível repercussão dessa enfermidade pandêmica capaz de levar à loucura. Doença desconhecida dos psiquiatras, a obsessão, em todas as épocas, sempre acometeu incontável número de pacientes que se amontoavam nos hospícios, sujeitos às impregnações psicotrópicas, porém, desprovidos daquela assistência e orientação condizentes, puramente morais, assinaladas na codificação espírita.

No modo de ver do conceituado médico, dois fatores poderiam contribuir para deturpar o pensamento do alienado mental: lesão encefálica ou influência obsessiva dos desencarnados.

Bezerra de Menezes nasceu em 1831, mas, em 1886, diante de uma distinta plateia de aproximadamente duas mil pessoas da sociedade carioca, declarou-se espírita e passou a defender a tese que o imortalizaria na condição de lídimo pesquisador do campo científico da doutrina: “A Loucura Sob Novo Prisma”, à disposição dos leitores em consagrada edição da FEB.

Levando-se em conta, à época, a influência da religião dominante, a postura inflexível da ciência para com a espiritualidade, era preciso muita grandeza de alma para sustentar uma tese revolucionária, capaz de abalar não só os alicerces da Medicina, mas descortinar, sobretudo, novos horizontes para a ciência espírita. “A alma é quem possui, no homem, a faculdade de pensar, tendo, por suas relações com o corpo, enquanto lhe estiver presa, necessidade do cérebro, para transmiti-lo, donde a inevitável coação, toda a vez que o instrumento não estiver em boas condições” (1).

A codificação espírita acena com a realidade pluridimensional do ser encarnado ao admiti-lo constituído de alma, perispírito e organismo físico. Do espírito provém a energética propulsora da vida. O pensamento é atributo da alma, e não do cérebro, como entendem os neuro cientistas afeiçoados aos postulados materialistas. A alma, na qualidade de reflexo da divindade, mantém-se íntegra, jamais enlouquece, sendo assim, se o pensamento apresenta-se gravemente perturbado, deve-se a duas hipóteses: presença de lesão cerebral ou interferência externa no livre curso do pensamento, a exemplo do que acontece na loucura por obsessão espiritual. Uma disfunção do metabolismo neurotransmissor ou a presença de lesão congênita do encéfalo podem justificar o surgimento de transtornos psicóticos e de retardo mental. Todavia, o Dr. Bezerra de Menezes salientava em sua tese a existência de casos bem caracterizados de alienação mental na ausência de lesão encefálica, elucidando que os obsessores costumam lançar mãos de artifícios sofisticados contra as suas vítimas, a exemplo do emprego da sugestão hipnótica, cujo objetivo não é outro senão interferir no livre curso do pensamento, distorcendo-o a ponto de torná-lo incoerente, em tudo semelhante aos transtornos psicopatológicos descritos nos manuais de psiquiatria.

Aprofundando a exaustiva análise sobre o assunto, pondera o ilustre médico espírita que a obsessão de longa data não tratada adequadamente pode deixar como sequela, apreciável embotamento da atividade intelectual do sujeito. E com a humildade típica de um grande cientista, ele comenta o grave transtorno obsessivo que acometeu o seu próprio filho e as conseqüências decorrentes da ação nociva engendrada pelo vingador: “O moço era vítima de seus abusos noutra existência, continuou a sofrer a perseguição, e por tanto tempo a sofreu, que seu cérebro se ressentiu, de forma que, quando o obsessor, afinal arrependido, o deixou, ele ficou calmo, sem mais ter acessos, porém não recuperou a vivacidade de sua inteligência. O instrumento ainda não se restabeleceu.” (2) Tem-se aqui uma idéia da importância do diagnóstico espiritual precoce, pois, uma vez comprovada a existência de obsessão, o paciente vítima de alienação mental não ficará exposto à ingestão desnecessária e prolongada de psicotrópicos potentes, assim como envidar-se-ão esforços no sentido de reduzir a atuação fluídica nefasta, persistente e demorada a repercutir no campo orgânico, minando a capacidade intelectiva do sujeito. Mesmo que a obsessão espiritual seja um diagnóstico confirmado, qualquer sintoma ou sinal de enfermidade orgânica deverá ser imediatamente corrigido pelo clínico. Muita vez, um local de menor resistência no campo físico serve de porta de entrada para um obsessor. “Sendo assim, é sabido que os Espíritos malignos entram pela porta que lhes abrem as moléstias do corpo, desde que as do espírito concorram, é óbvio que, embora a cura daquelas nada influa sobre o que já entrou, embaraçará os que estão fora. E eis porque é de rigor curar-se a lesão de qualquer órgão doente dos obsidiados.” (3)

Felizmente existe uma alternativa capaz de evitar o desarranjo do instrumento cerebral em virtude da ação obsessiva: buscar o auxílio do Espiritismo com a finalidade de se promover o diagnóstico espiritual precoce, pois a medicina se encarregará de diagnosticar aquilo que se manifestar no corpo físico. “Vê-se, portanto, quanto importa, diante de um caso de loucura, fazer de pronto o diagnóstico diferencial, para que, se for obsessão, não chegue esta a desorganizar o cérebro, que é o órgão atacado pelo obsessor. Ora, não tendo a Ciência meio seguro de fazer aquele diagnóstico, mesmo porque só existe para ela a loucura, é óbvio que devemos procurar recursos, para verificarmos se existe a obsessão, no Espiritismo científico.” (4)

Na visão de Bezerra, a terapêutica medicamentosa é impositiva nos casos de lesão cerebral (foco epileptiforme, por exemplo), pois, se houver o devido controle do dano encefálico ou do metabolismo neurotransmissor, ficará minimizada a atuação obsessiva sobre a área encefálica. Poderá até permanecer a influência espiritual, porém sem os sintomas do transtorno neurológico ou psíquico. “Na maior parte dos casos, enquanto o Espírito obsessor não tem ainda dominado o Espírito ou a vontade de sua vítima, a cura do órgão doente fecha a porta à maléfica influência.” (5) Esse raciocínio é válido para qualquer outro órgão ou sistema do organismo; além do mais, serve de lembrete para aqueles que imaginam que os espíritos têm a obrigação de curar qualquer manifestação enfermiça ao alcance da medicina prática.

Levando-se em conta que a desobsessão espírita resulta de um esforço afinado entre as forças da Terra e do Céu, é desejável a nossa ligação com um mentor, uma inteligência que, do Plano Maior, se responsabilize pela supervisão adequada dos trabalhos desobsessivos. “O método que seguimos, sempre com resultado, é consultarmos, mediunicamente, a um Espírito, que do espaço faz a caridade de receitar para os homens doentes, sobre a natureza da alienação mental, no caso que se nos apresenta, e procedermos à contraprova do que recebemos em resposta.” (6)

Além da terapêutica médica, quando esta se impõe, e da desobsessão espiritual, objetivando a evangelização do Espírito vingativo, a outra iniciativa volta-se para o próprio obsidiado. É preciso moralizá-lo, orientá-lo, para que ele próprio, mediante circunstanciada revisão de suas atitudes, viciações e maus pendores, demonstre interesse em modificar-se. “…devem-se empregar todos os meios de moralizar o Espírito do obsidiado, fazendo-lhe ver que seus defeitos, seus vícios, seus maus sentimentos, tudo o que não é conforme com os preceitos do Evangelho, atrai para junto de si nuvens de Espíritos, que se aprazem com aqueles elementos do mal, assim como afasta de si os bons Espíritos, seus protetores, donde ficar ele a mercê dos que só não fazem mal quando não podem.” (7)

No entanto, alguém pode objetar a impossibilidade de um alienado mental comunicar-se verbalmente, o que nos impediria o diálogo moralizador. Diante de tal conjuntura, o que fazer para orientar o paciente? Bem, o bom senso nos diz que, primeiramente, deveremos cuidar do caso em caráter de emergência na tentativa de livrar o obsidiado da opressão imposta pelo obsessor. Caso consigamos afastá-lo, é bem provável que o paciente recobre, aos poucos, a sua integridade mental, tornando-se permeável às nossas sugestões moralizadoras. Porém, de acordo com Bezerra, a prática espírita nos permite alternativa, qual seja a de se evocar o Espírito do enfermo e tentar a sua moralização via mediúnica. “Já dissemos que o Espírito não enlouquece e que a loucura consiste, não na perturbação do pensamento, mas, sim, na sua manifestação. Sendo assim, e visto que os Espíritos, quer desencarnados, quer encarnados, acodem à evocação, sempre que é feita no intuito do bem, eis como se consegue moralizar um louco ou obsidiado. Em nossos trabalhos experimentais, temos tido inúmeras ocasiões de evocar o Espírito de pessoas obsidiadas, para moralizá-las, e sempre que as encontramos dóceis aos nossos conselhos, temos conseguido romper as trevas da inconsciência que as envolvia.” (8)

Como ficou visto, Bezerra de Menezes, em pretérito não muito distante, além de se distinguir na qualidade de estudioso da ciência espírita, buscava, no campo experimental, recursos significativos, tudo com o objetivo maior de bem atender os casos complexos de obsessões espirituais. Todavia, na contemporaneidade, é impositivo que os dirigentes de trabalho mediúnico se esmerem na pesquisa da obra kardeciana, para bem conhecer os meandros do assunto e as inúmeras possibilidades ao seu dispor. Estudos continuados, vontade de servir à causa do bem e honestidade de propósitos formam o trio de excelência na estrada infinita do conhecimento superior disponibilizado em favor da harmonia humana.

Vitor Ronaldo Costa

Fonte: Medicina e Espiritualidade

Bibliografia:

  • (1) MENEZES, Adolfo Bezerra de. A Loucura Sob Novo Prisma, cap. III, pág. 149, 4ª edição, FEB.
  • (2) Idem, pág. 175.
  • (3) Ibidem, pág. 179.
  • (4) Ibidem, pág. 175.
  • (5) Ibidem, pág. 178.
  • (6) Ibidem, pág. 177.
  • (7) Ibidem, pág.179.
  • (8) Ibidem, pág. 180.
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O ESPIRITISMO E OS CONCEITOS DE ADMINISTRAÇÃO E DE GESTÃO

Ivomar Costa

FEPI REALIZARÁ SEMINÁRIO SOBRE GESTÃO NA CASA ESPÍRITA | Federação Espírita  Piauiense

Toda organização é composta por seres humanos que, como seres detentores de capacidades incompletas, necessitam atuar em grupo para atingir resultados valiosos para si mesmos e para a sociedade. Toda organização necessita de gestão. Por isso, as organizações espíritas também precisam de gestão, quer dizer, não escapam deste imperativo. A gestão está presente nas organizações espíritas, quer queiram ou não, quer estejam conscientes, quer não estejam conscientes deste fato os seus componentes.

Mas o que é Gestão e o que é Administração? Serão conhecimentos, técnicas e processos que de algum modo estão em desacordo com o Espiritismo? Afirmam muitos espíritas, com certa dificuldade de aceitação da aplicação de sistemas de gestão às organizações espíritas, se bem que agora esta resistência diminuiu muito, que nossas organizações não necessitam de administração ou gestão, pois segundo seu entendimento, são “organizações de caridade”, e por isso não podem ser “burocráticas”. Com tal posição demonstram desconhecer o que é administração, pensando-a somente através de lugares comuns e preconceitos, e o que é a Burocracia, quando não demonstram intensa preguiça mental. Quem não domina um assunto não deve emitir opiniões e proposições infundadas sobre ele. Nossa posição é que não há desacordo essencial, mas simplesmente alguns desacordos periféricos.

Os conceitos que vamos expor aqui de forma alguma serão essencialmente concordantes com os estabelecidos pelos principais estudiosos da Administração. Esta, enquanto ciência, ainda está em fase de consolidação dos seus paradigmas, o que pode representar um problema, mas também uma abertura para novas conceitualizações. Existem ainda muitas teorias concorrentes, o que torna o campo indefinido e dificultoso para os que não adentraram profundamente na sua base de conhecimento.

Outro fator que predispõe à esta variedade de conceitos e definições de “Administração” é que partindo preferencialmente da análise de casos específicos e que depois são generalizados, ou seja, usando o método indutivo, as interpretações variam ao infinito. Estudam-se casos em que o foco é colocado sobre organizações e sistemas de gestão em culturas diferentes, sendo, entretanto, a maioria dos casos estudados em países com sociedades e economias desenvolvidas. Certamente que o método indutivo tem seu mérito, porém, pela crença de que não existe nada além dos sentidos materiais, tal método deixa de fora outras realidades não experimentáveis e geralmente não reproduzíveis, que bem podem ser a parte mais importante. A desconsideração com os métodos dedutivos deve-se em grande parte ao preconceito aplicado aos métodos de pensamento da Escolástica, mas principalmente à metafísica. Ao abandonarem a metafísica e a Escolástica, acusada de trabalhar sobre fantasias ou detalhes excessivos, o que verdadeiramente ocorreu, mas somente com filósofos menores, e não com os seus expoentes, os cientistas jogaram fora uma extraordinária fonte de conhecimento. Felizmente, aos poucos, diante do círculo vicioso em que se mete cada vez mais a ciência, ao considerar a matéria como o único elemento do universo, e não conseguindo explicar plausivelmente os fatos com que se depara, retorna para métodos consagrados, haja vista o crescimento das teorias das teorias sistêmicas e da complexidade. Somente a tentativa de não reconhecer uma realidade que transcende à matéria e coordena o universo físico, inorgânico e orgânico, e o universo humano, consciência e sociedade, pode ter dado origem ao materialismo científico e filosófico que impera atualmente.

Há algum tempo a análise dedutiva foi excluída dos métodos da Administração. Os métodos racionais, visando a conceitualização a partir de certas premissas, decaiu em uso e até a busca de princípios foi excluída. Como não se acredita em leis imanentes no universo, além das leis físicas, buscar princípios transcendentes que ordenariam as organizações humanas seria, na consideração de quem assim pensa, rematada perda de tempo. Partindo deste entendimento, ao aplicarem unicamente o método indutivo, a Administração tornou-se uma verdadeira confusão de conceitos. Mesmo assim é possível trabalhar pois a interpretação de certos estudiosos prevalecendo por algum tempo facilita o entendimento e a coerência conceitual. E além disso, porque os profissionais que se dedicam à gestão das organizações orientam-se, na falta de sólidos sistemas de pensamento, por questões puramente pragmáticas e utilitaristas.

Todavia, consideramos válido o método dedutivo e acreditamos na possibilidade da existência de princípios lógicos para a Administração.

Existe muita confusão entre as acepções de Administração e Gestão. Algumas vezes são tratados como termos unívocos e outras como equívocos. Por exemplo, as tradicionais etapas compostas pelo planejamento, “organização”, direção e controle, são seguidamente tratadas na literatura como “processo administrativo”, quando na verdade, são apenas “etapas do processo de Gestão”. Após muitos anos de estudo dedicado ao tema concluímos que Administração e Gestão são termos distintos. Para nós a Administração é a área do conhecimento dedicada ao estudo dos fatos humanos que implicam a atividade ordenada e cooperativa para a produção de algo ou, dizendo de outro modo, o objeto da Ciência da Administração é Toda e qualquer atividade humana produtiva.

A Administração atual é composta por dois grandes grupos de teorias. Lembremos que as teorias são extraídas das leis que conexionam os fatos observados e explicam estes fatos. Temos, então, as “Teorias Organizacionais”, que estudam os agrupamentos humanos “formais” e produtivos sob o ponto de vista da sua intencionalidade e determinam a sua melhor forma; dizer que uma agrupamento é “formal” significa que é não-natural, como a família, e não espontâneo, como um grupo de amigos que resolve de última hora preparar um churrasco no domingo; formalidade, neste caso quer dizer “intencional” e obedecendo a regras específicas. O outro grupo é o de “Teorias de Gestão”, que estudam e determinam as técnicas, processos e procedimentos que façam a organização atingir os fins propostos de modo eficiente e eficaz.

Quando nos expressamos utilizando o termo “produção” ou “produtivo” não estamos nos referindo unicamente à fabricação de objetos materiais, mas sim a qualquer resultado tangível ou intangível. O médico que cura um doente está “produzindo” algo, isto é, um resultado; o operário que fabrica um vaso de cerâmica está produzindo algo, bem como o padeiro que amassa e assa o pão; o palestrante que expõe a “doutrina” também produz alguma coisa, da mesma forma que o professor que ensina matemática, por exemplo. Não importa para a administração qual o tipo de resultado, mas sim que a atividade cooperativa gerou um resultado.

Para que um resultado seja atingido de maneira consciente é necessária certa ordem. Esta é a disposição entre os elementos que compõem um objeto qualquer. Se olharmos para um automóvel veremos que os pneus devem estar embaixo e não em cima, por exemplo. Caso ocorresse dos pneus estarem colocados na parte superior desconfiaríamos imediatamente que algo está “fora do lugar”, e o automóvel não se moveria de um local para outro, impedindo que o resultado esperado pelo infeliz proprietário seja atingido. Sem ordem, indubitavelmente algumas vezes se consegue algum resultado, mas nem sempre o resultado desejado e dentro das condições de eficiência exigida. No entanto, se esta ordem for demasiadamente rígida ocorrerá um “congelamento” das atividades e se descambar para a desordem, ou seja, se os elementos estiverem “fora do lugar”, sem as conexões adequadas, quase nada poderá ser produzido. Assim, as teorias da gestão estudam as condições em que os elementos devem ser dispostos para, apresentando certa ordem, atingirem os resultados propostos. Esta ordem deve estar no meio termo entre a ordem excessiva e a desordem.

Podemos perceber desde logo que uma das funções da gestão é a conexão dos elementos para que o resultado almejado seja atingido dentro das condições de eficiência, obedecendo á disposição de espaço e tempo, sincronizando ações e estimulando os fatores produtivos.

Dentro da Administração, enquanto área do conhecimento, por geralmente usar o método indutivo, imperam atualmente visões do homem como auto-interessado e guiado exclusivamente por valores materiais. Há predominância de interpretações utilitaristas. Esta concepção de certa maneira molda os sistemas de gestão atuais.

Certamente não se deve entender que a exigência de uma “ordem” seja a admissão da existência de uma única forma correta (the one best way) de pensar a Administração e a Gestão. O avanço do pensamento administrativo já atingiu o ponto de abandonar explicações simplistas, lineares, aquelas em vários efeitos seriam produzidos por uma única causa. Hoje, admite-se generalizadamente que a forma das organizações, tanto como os sistemas de gestão são contingenciais, ou seja, sofrem as influências do contexto onde atuam, por isso nunca existe uma essencialmente idêntica à outra. Porém, o próprio resultado buscado, bem como a característica primordial deste, por exemplo, se é tangível, como uma panela de alumínio, ou se é intangível como a satisfação de assistir a um bom filme, determinarão, modificarão completamente, os sistemas de gestão, tornando diferentes entre si os de produção de bens tangíveis dos de produção de bens intangíveis. Evidencia-se aqui a contingencialidade a partir tanto dos fatores internos ou inerente, como dos fatores externos. Embora estabelecendo uma faixa onde impera certa ordem, as organizações estarão inseridas em contextos diferentes, de forma que os fatores extrínsecos a elas condicionarão a ordem intrínseca, da mesma maneira que a ordem intrínseca influirá sobre os fatores extrínsecos. O problema é encontrar a faixa adequada para cada organização.

Algo que escapa aos estudiosos da Administração é que as organizações e os sistemas de gestão são construídos por seres humanos. Com isso não estamos afirmando que não reconheçam algo tão simples e importante, mas sim que consideram os seres humanos como estáticos. A evolução intelectual do ser humano é considerada sem dúvida, no entanto, tais estudiosos parecem desconhecer que o ser humano é dotado de uma consciência moral em constante evolução. E isto faz uma diferença enorme para pensar as organizações e os sistemas de gestão.

Ao considerar o ser humano de maneira restrita, sem a variável “evolução” intelecto-moral, as teorias da Administração perdem grande parte do seu poder explicativo. O Espiritismo, ao contrário, além de considerar o ser humano como um espírito em constante evolução, adiciona ainda à intrínseca necessidade gregária, o trabalho, a necessidade de “adoração”, e mais importante do que tudo, o ser humano é dotado de uma poderosa “energia” que lhe é inerente, usualmente denominada “amor”, que o move para progredir sempre, como elementos imprescindíveis a serem considerados nas teorias explicativas da Administração. Para não usar o termo espírita “adoração” os filósofos passaram a utilizar o termo “transcendência”. O amor, não aquilo que se entende popularmente, mas essa energia poderosa inerente ao espírito, para os estudiosos da Administração, carrega consigo uma carga semântica extremamente romântica, portanto, pejorativa, para ser considerado como uma variável a ser pesquisada. Para o Espiritismo, todo ser humano é dotado de uma necessidade inata de vinculação com a divindade, e esta vinculação se dá sobretudo por meio da “produção” do bem, que é o amor em ato. Por sua vez, o trabalho é considerado toda “atividade útil”, isto é, toda atividade que produz algum bem. Desta maneira o trabalho, espiriticamente considerado, é um modo de adorar a Deus. O trabalho bem realizado é uma manifestação do amor potencial. Quando o ser humano não satisfaz esta necessidade porque esteja inconsciente dela, ou porque a organização ou os sistemas de gestão não privilegiem estes aspectos, passa a apresentar “distúrbios”, disfunções produtivas, que afetam profundamente a organização e os seus sistemas de gestão, conduzindo a resultados contraproducentes.

Infelizmente, essa visão avançada do ser humano ainda não penetrou totalmente nas organizações espíritas. Quando se tenta criar métodos de gestão apropriados de gestão para as nossas organizações há sempre uma desconfiança que se deseja “burocratizar”. No entanto, uma observação atenta identifica que a maioria das organizações espíritas, por desconhecerem a possibilidade de um pensamento organizacional e métodos apropriados de gestão específicos para elas, ou recai na “burocratização” que dizem evitar, aquela ordem excessivamente rígida a qual nos referimos antes, devido a despersonalização das pessoas promovida pelos métodos e procedimentos inadequados, ou na “desordem” da excessiva impessoalidade e espontaneidade, manifestada na liberdade excessiva e sem direcionamento, que levam a resultados fracos e desgastantes dos recursos e das pessoas. Muitas organizações espíritas já se desfizeram por adotarem este entendimento errado.

Qual seria, então, o método de gestão adequado para as organizações espíritas? Bem, esta é uma resposta que temos apenas parcialmente, embora o que já temos sirva para elevar as organizações espíritas a um patamar mais alto. O que interessa neste momento é dizer que tais métodos dependem principalmente dos resultados que se pretende atingir, dos elementos que compõem estas organizações, da maneira como são vistos os seres humanos que fazem parte delas.

Se o Espiritismo tem um papel importante na geração de novas instituições que gerarão a nova era, as organizações espíritas têm, então, uma função relevante na preparação dos indivíduos para realizarem a passagem de uma era para outra. Mas não será de qualquer maneira que as organizações espíritas conseguirão isso. Elas precisarão de sistemas de gestão adequados e baseados em um pensamento organizacional seria, filosoficamente e cientificamente fundamentado na Doutrina Espírita e nas ciências contribuintes da Administração.

Ivomar Costa

Fonte: Espiritismo: Centro e Movimento

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