O êxtase de Paulo de Tarso em 2Cor 12:2-4

Autor: Daniel Salomão

Em sua segunda carta aos coríntios, Paulo de Tarso nos apresenta interessante informação, que oferece rico material para discussão:

Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu — se em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! E sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe! — foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir (2Cor 12:2-4).

A Doutrina Espírita, perante fenômenos tidos por extraordinários, apresenta um corpo coerente de explicações, embasadas pelos procedimentos experimentais realizados por Allan Kardec e alguns espíritas da primeira hora. Sem desconsiderarmos as diferenças de entendimento do que é ciência entre as concepções mais recentes e as do século XIX, destacamos que, para o Codificador, “a explicação dos fatos que o Espiritismo admite, de suas causas e consequências morais, constitui toda uma ciência e toda uma filosofia, reclamando estudo sério, perseverante e aprofundado” [1]. Ainda segundo ele, “o Espiritismo e o Magnetismo nos dão a chave de uma porção de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu uma infinidade de fábulas, em que os fatos são exagerados pela imaginação” [2].

Os livros bíblicos, mesmo que escritos em períodos diversos, com objetivos e gêneros literários variados, reúnem muitos desses registros, tidos por milagres entre religiosos, por criações do imaginário popular entre alguns estudiosos, e por uma gama de outros entendimentos entre esses dois polos. Ainda que o Espiritismo não negue as possibilidades de equívoco nas interpretações dos fenômenos pelas suas testemunhas ou mesmo na redação dos textos bíblicos [3], oferece também uma interpretação que os retira da condição de sobrenaturais, pois os compreende como inseridos nas leis da Natureza. Afinal, para o Codificador, no Espiritismo está completa a chave que nos permite “compreender o seu verdadeiro sentido” [4].

A análise espírita da experiência extática registrada por Paulo de Tarso em 2Co 12:2-4, e também pelo Espírito Emmanuel em Paulo e Estêvão [5], é um exemplo de aplicação da proposta kardequiana de compreensão de um fenômeno, tido por ininteligível ou extraordinário, como plenamente natural. Para Allan Kardec, fenômenos como o sonambulismo e o êxtase são efeitos ou modalidades diversas de uma mesma causa, a faculdade de emancipação da alma, que varia em qualidade e intensidade entre os indivíduos, “encontrando-se neles a explicação de uma porção de fatos que os preconceitos fizeram ser vistos como sobrenaturais” [6].

Conforme a visão espírita, durante o sono do corpo, o Espírito, sempre ativo, aproveita-se do afrouxamento dos laços que o prendem ao veículo físico e “visita” o plano espiritual, podendo entrar em contato com outros Espíritos, desencarnados ou encarnados [7]. Naturalmente, pode ter experiências diversas nessa situação, as quais poderão ou não fazer parte de sua memória no estado de vigília. O sonho é a recordação dessas percepções, eventualmente somadas à lembrança da perturbação decorrente da partida do corpo físico e do regresso a ele, bem como às preocupações cotidianas [8]. O sonambulismo é um estado de emancipação ainda maior, que proporciona ao Espírito vivências mais ricas [9].

No êxtase, porém, o Espírito fica ainda mais independente do corpo físico e pode penetrar regiões mais elevadas do plano espiritual, onde entra em contato com Espíritos mais evoluídos e se expõe a sensações de bem-estar e harmonia desconhecidos do plano terrestre. Em O Livro dos Médiuns, é listada a categoria dos médiuns extáticos, definidos como os que, “em estado de êxtase, recebem revelações da parte dos Espíritos” [10]. Contudo, como no sonambulismo, as informações que os extáticos revelam “muitas vezes são uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e absurdas, ou mesmo ridículas”, o que se deve à exaltação que podem demonstrar durante o fenômeno, à influência negativa de outros espíritos e a outras questões [11].

A afirmação de Paulo que é alvo de nossa análise não é necessariamente absurda ou fantástica para um judeu do século I d.C., pois essa experiência tem paralelos em textos do misticismo e do apocalipsismo judaico [12]. No contexto judaico-cristão, a essência do misticismo é “o contato imediato com Deus ou com suas manifestações” [13], o que, do ponto de vista espírita, pode incluir fenômenos anímicos e mediúnicos. O misticismo judaico é rico em experiências de visões “fora do corpo”, como as descritas acima, mas nos textos apocalípticos é que vamos encontrar descrições de “ascensão aos céus”, que mais se aproximam da compreensão espírita de êxtase. Naturalmente, dos textos neotestamentários não podemos deduzir com clareza qual foi o entendimento de Paulo sobre o ocorrido. Ele mesmo informa não saber se o arrebatamento ocorrera “no corpo ou fora do corpo” (2Co 12:3). Segundo alguns pesquisadores, sua inabilidade em descrever o fenômeno é “evidência firme de uma ascensão mística e mostra que a viagem não foi interiorizada como uma jornada para dentro do eu”[14]. Esse entendimento se aproxima do espírita, para o qual é natural a possibilidade de o Espírito se emancipar temporariamente do corpo físico, com liberdade para movimentação e encontros no plano espiritual. Para outros, porém, a dúvida de Paulo não se deve a qualquer inabilidade, mas justamente à característica do “transe”, em que a noção de tempo e espaço se perde [15], o que também tem respaldo no Espiritismo [16].

Em textos apocalípticos judaicos não canônicos, como 1 Enoque, 2 Enoque, Testamento de Levi, 3 Baruc, Testamento de Abraão, 4 Esdras e Apocalipse de Abraão, os êxtases narrados apresentam ascensões aos céus, com descrições semelhantes entre si. Também o Apocalipse canônico de João, escrito após a desencarnação de Paulo, atesta esse fenômeno. Em geral, as ascensões ocorrem durante o sono, quando o extático é acompanhado por um anjo e obtém revelações divinas através de diálogos. Em entendimento próximo ao espírita, o corpo físico permanece dormindo, enquanto uma espécie de corpo espiritual registra a experiência extracorpórea.

Em comparação com o relato de 2Cor 12:2-4, porém, as ascensões dos textos apocalípticos são muito mais complexas e ricas em detalhes. Ademais, as próprias sensações descritas pelos personagens, de espanto e temor, não são detalhadas por Paulo na epístola e se opõem às sensações de tranquilidade explicitadas pelo espírito Emmanuel em Paulo e Estêvão. Além disso, enquanto os viajantes conseguem dialogar com seus interlocutores, Paulo não demonstra a mesma desenvoltura, pois “indômita emoção lhe selava os lábios e confundia o coração”, chegando a “perturbar-se pela incapacidade de articular uma frase” [17]. A similaridade está na localização da visão em uma região elevada dos céus, no “paraíso” ou no “terceiro céu”, e no encontro com “anjos” ou espíritos elevados, o que será discutido à frente. Enfim, após essas considerações iniciais, voltemos ao relato de Paulo.

A epístola em questão (2Cor) não tem sua autenticidade contestada atualmente, mas muitos estudiosos a compreendem como composta por trechos de mais de uma carta [18]. Segundo entendimentos mais recentes, foi escrita entre os anos 52 e 56. Para alguns, na Macedônia [19], para outros, em Éfeso [20]. De qualquer forma, podemos situar o evento narrado entre os anos 38 e 42. Observando a cronologia estimada [21] a partir dos textos bíblicos e da obra Paulo e Estêvão, provavelmente ocorreu no ano 40, nas redondezas da cidade de Tarso, após seu reencontro com o pai.

Interessante é notar, na própria carta (2Cor 10 e 11), que a narração do ocorrido, quatorze anos depois, acontece justamente em período de novas críticas feitas a ele, agora por parte da própria comunidade de Corinto, o que é coerente com as informações de Emmanuel. A revelação dessa experiência consoladora agora serviria também como atestado de competência para o apostolado (2Cor 12:6ss). É possível que Paulo tenha “sido tomado em um período de prece e orações no espírito, meditação em textos bíblicos, ou até em situações de sofrimento extremo” [22]. Para Emmanuel, a primeira e a segunda hipóteses se aplicam. Segundo ele, o fenômeno que destacamos se deu após difíceis reflexões de Paulo sobre as perseguições sofridas. Sem outros recursos que o auxiliassem,

Confiou ao Mestre as preocupações acerbas, pediu o remédio da sua misericórdia e procurou manter-se em repouso. Após a prece ardente, cessou de chorar, figurando-se-lhe que uma força superior e invisível lhe balsamizava as chagas da alma opressa [23].

Após entrar em prece, Paulo passou a experimentar sensações de paz e alívio. Teve a impressão de ser transportado, levado involuntariamente a outra região.

Breve, em doce quietude do cérebro dolorido, sentiu que o sono começava a empolgá-lo. Suavíssima sensação de repouso proporcionava-lhe grande alívio. Estaria dormindo? Tinha a impressão de haver penetrado uma região de sonhos deliciosos. Sentia-se ágil e feliz. Tinha a impressão de que fora arrebatado a uma campina tocada de luz primaveril, isenta e longe deste mundo. Flores brilhantes, como feitas de névoa colorida, desabrochavam ao longo de estradas maravilhosas, rasgadas na região banhada de claridades indefiníveis. Tudo lhe falava de um mundo diferente. Aos seus ouvidos toavam harmonias suaves, dando ideia de cavatinas executadas ao longe, em harpas e alaúdes divinos. Desejava identificar a paisagem, definir-lhe os contornos, enriquecer observações, mas um sentimento profundo de paz deslumbrava-o inteiramente. Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porquanto os portentos espirituais que se patenteavam a seus olhos excediam todo entendimento [24].

As expressões “terceiro céu” e “paraíso”, para descrever o que o espírita entende como uma região nobre do plano espiritual, são perfeitamente compreensíveis dentro da cultura religiosa da época. A divisão do céu em estágios, como representando níveis elevação espiritual, bem como o entendimento de que há nestes “céus” uma região reservada aos deuses e aos eleitos, é fruto de concepções gregas, persas e mesmo hebraicas. Nos textos judaicos não canônicos já citados, como 1 Enoque, 2 Enoque, Testamento de Levi e 3 Baruc [25], vamos encontrar relatos e descrições parecidas. O próprio Allan Kardec registra que alguns Espíritos, já à época da Codificação, relatavam habitar “o quarto, o quinto céus etc.”, sendo informado que, “perguntando-lhes que céu habitam, é que formais ideia de muitos céus dispostos como os andares de uma casa. Eles, então, respondem de acordo com a vossa linguagem” [26]. Com relação à descrição do local, apenas o texto de 2En 8:1-3 apresenta semelhança à informação registrada por Emmanuel, de um lugar onde tudo é de beleza inefável, com “flores, frutos, árvores, rios de águas calmas”. As demais ascensões registram visões de tronos, construções de mármore e cristal etc., fora do ambiente campestre.

Paulo de Tarso, em dois momentos do texto em análise, relata dúvida quanto a estar ou não fora do corpo durante o fenômeno. Emmanuel relata a importância desta experiência para o entendimento do Apóstolo sobre o corpo espiritual ou perispírito (1Co 15:35ss) [27], entretanto, não temos informações seguras sobre o grau de compreensão sobre o assunto desenvolvido por Paulo neste período. É possível que não conseguisse diferenciar a experiência de êxtase de uma experiência de vidência. A visão dos Espíritos, como apresentada em O Livro dos Médiuns, pode ocorrer “achando-se o indivíduo em condições perfeitamente normais. Entretanto, as pessoas que os veem se encontram muito amiúde num estado próximo do de êxtase, estado que lhes faculta uma espécie de dupla vista” [28].

Além disso, essa experiência é facultada a todos durante o sono, como parece ter ocorrido com Paulo. Esse caso, para Kardec, não se caracteriza exatamente como de mediunidade de vidência [29]. Se ocorre em estado de vigília, porém, essa capacidade é tida por mediúnica. Teria sido transportado em espírito a outro lugar (“fora do corpo”), o que podemos caracterizar como êxtase, ou estaria tendo uma visão/vidência (“no corpo”), como a que tivera de Jesus anos antes? Alguns pesquisadores contemporâneos entendem que Paulo talvez não tivesse condições de definir adequadamente sua experiência [30], como já dito. No século I, possivelmente não havia consenso entre os místicos judaicos sobre a ideia de alma e a possibilidade de seu desprendimento do corpo, o que dificultava ainda mais sua descrição [31]. Reforça essa hipótese o fato de, nos textos bíblicos, o termo “êxtase” (do grego ekstasis, deslocamento, espanto, transe etc.) ter conotação mais ampla, incluindo também experiências que, segundo o entendimento espírita, são qualificadas como de dupla vista, vidência ou sonambulismo.

No fim de sua descrição, Paulo diz ter ouvido “palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir” (2Cor 12:4). Porém, qual seria o motivo disso? Segundo Emmanuel, desejava identificar a paisagem, definir-lhe os contornos, enriquecer observações, mas um sentimento profundo de paz deslumbrava-o inteiramente. Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porquanto os portentos [maravilhas] espirituais que se patenteavam a seus olhos excediam todo entendimento [32].

Fica claro que faltaram palavras para descrever a experiência. O que via excedia sua capacidade de compreensão, deslumbrava-o, antecipava a realidade espiritual dos justos. Aliás, o registro do diálogo de Paulo com os Espíritos Abigail e Estêvão é um dos tesouros da obra Paulo e Estêvão. Quanto a não ser lícito a ele revelar o que percebia, é possível que, no pensamento de Paulo, aquelas informações pudessem chocar ou impressionar mais que esclarecer ou, talvez, exaltar demais sua pessoa, o que não era seu desejo (2Cor 12:1). Ademais, Allan Kardec, ao comentar sobre as contradições às vezes notadas em comunicações espíritas, alerta-nos sobre a “insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas do mundo incorpóreo” [33].

Por fim, novamente destacamos a importância das bases espíritas, com destaque para O Livro dos Médiuns, para a análise dos fenômenos que entendemos como anímicos ou mediúnicos. O Espiritismo oferece uma rica quantidade de conceitos, que formam um corpo homogêneo aplicável à análise e interpretação de diversos fenômenos ainda tratados por sobrenaturais. Chamamos também atenção para o material judaico citado como referência nesse trabalho, já há algumas décadas valorizado pelas pesquisas religiosas, mas ainda pouco estudado pelo Movimento Espírita. Textos intertestamentários, pseudoepígrafos e apócrifos, judaicos e cristãos, oferecem rico material de análise, o qual facilita a compreensão de como se articulava o pensamento religioso dos primeiros cristãos. O uso desse material, inclusive, previne-nos de eventuais anacronismos em nossas conclusões sobre os pensamentos cristãos originários. Além disso, reúnem grande quantidade de fenômenos possivelmente mediúnicos, que também podem ser perscrutados pela lente espírita.

Daniel Salomão Silva é palestrante e escritor espírita de Juiz de Fora, trabalhador da Fundação Espírita Aurílio Braga Esteves e da Aliança Municipal Espírita da cidade. E-mail: salomaoime@yahoo.com.br.

Fonte: espiritismo.net

Referências:

  • [1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 38 [i. 14].
  • [2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 366 [q. 555].
  • [3] KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2009, p. 432 e 433 [c. 15, i. 47 e 48].
  • [4] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 23 [intro, I].
  • [5] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.
  • [6] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 322 [q. 455].
  • [7] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 294 [q. 401].
  • [8] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 296 [q. 402].
  • [9] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 316 a 320 [q. 455].
  • [10] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 296 [i. 190].
  • [11] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 320 a 321 [q. 455].
  • [12] SEGAL, Allan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 73.
  • [13] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 114.
  • [14] SEGAL, Allan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 111.
  • [15] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 20.
  • [16] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 306 [q. 425].
  • [17] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 305 e 306.
  • [18] THEISSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 56.
  • [19] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 49.
  • [20] THEISSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 45.
  • [21] DIAS, Haroldo Dutra. História da Era Apostólica – síntese da cronologia. Revista Reformador, FEB, n. 2170, p. 33-35, jan/2010.
  • [22] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 200. Ver também SEGAL, Alan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 131.
  • [23] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.
  • [24] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.
  • [25] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 62.
  • [26] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 621 [q. 1017].
  • [27] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.
  • [28] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 167 [i. 100].
  • [29] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 267 [i. 167].
  • [30] SEGAL, Alan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 111.
  • [31] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 200.
  • [32] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.
  • [33] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 518 [i. 302].
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A doutrina é dos espíritos

Orson Peter Carrara

doutrina espirita

Foram eles que provocaram os fenômenos, que buscaram os médiuns, que responderam às instigantes questões propostas pelo Codificador. Também, em diferentes casos, submeteram-se às pesquisas de nobres cientistas que investigaram os ditos e variados fenômenos, que inspiraram textos e ditaram páginas e livros que orientam, elucidam, ensinam.

A Doutrina Espírita é, pois, dos Espíritos. A iniciativa foi deles, embora com a participação de médiuns – desde o seu advento até os dias de hoje – e do notável e incomparável trabalho daquele que organizou sistematicamente os ensinos para publicar as obras básicas, que se desdobraram nas complementares, na Revista Espírita, fez surgir os adeptos, que se organizaram em grupos variados,  e que trabalham pelo ideal daí surgido, inspirando outros autores – encarnados e desencarnados –, ao longo do tempo, que haurem nessa fonte inesgotável os conhecimentos que dela jorra sem cessar, a partir de O Livro dos Espíritos.

A reflexão surge em virtude de uma velha questão, bem própria de nossa condição humana, ameaçadora da plena vivência espírita: a questão dos extremos entre o carinho que se possa ter por destacados expoentes doutrinários do Espiritismo e os perigos ou ilusões do endeusamento de pessoas, médiuns, dirigentes, escritores ou palestrantes

A qualificação de expoentes doutrinários destina-se a nominar autênticos trabalhadores da causa que se destacaram em suas cidades, estados ou países, ou mesmo na intimidade de instituições – não importando o tamanho –, com suas posturas de humildade e serviço, desprovidos de intenções contraditórias e de cuja coerência desdobram-se inúmeras bênçãos em favor de muitos.

É o caso de nomes respeitáveis, que não se valem do Espiritismo para nada, exceto para promover sua plena vivência e divulgação. São muitos os exemplos, apesar de serem humanos e limitados em muitos aspectos, como ocorre com nossa condição de cidadãos comuns.

Tais comportamentos e legado de exemplos gera carinho e gratidão, que não deve nunca se confundir com endeusamento. Esse, o endeusamento, é postura equivocada, por variadas razões, bem óbvias, por sinal, e por isso, desnecessário enumerá-las.

A vigilância deve ser nossa. O respeito e o carinho nos permite observar e aprender com quem nos dá exemplos de perseverança, trabalho, de prudência e dedicação, onde se somam as virtudes também da humildade e da exata noção do servir.

Esses exemplos de conduta e trabalho se tornam referências em quem podemos confiar. Traduzem estímulos de trabalho e coerência. Isso não significa endeusamento (e temos que lutar contra os excessos de quaisquer gêneros), mas sim as exceções que inspiram confiança e se estabelecermos o critério de que não devemos endeusar nem seguir pessoas, referido critério generaliza-se como regra a pretexto de estarmos endeusando. E aí casas e pessoas ficam condução segura. Não se trata, pois, de endeusamento, mas gratidão e carinho, cujos limites devemos discernir, sem generalizar com leviandade.

Caso contrário, viveremos ou alimentaremos o Espiritismo sem os Espíritos.

As instituições espíritas necessitam e devem cultivar com todo empenho a fraternidade espontânea em seus ambientes. Senão teremos casas deprimidas, sem vida, onde o contato pessoal é a pedra de toque para vivermos o Espiritismo em sua grandeza e essência, na vivência plena da fraternidade, do carinho e da gratidão.

Daí a importância das lideranças autênticas, daquelas em quem podemos confiar e sempre resultante do trabalho e do empenho no bem. Daquelas que não geram fanatismo, nem tampouco estimulam endeusamentos, mas que respeitam a própria equipe com o exemplo pessoal de dedicação ao ideal que esposam.

Nós, por nossa vez, devemos cuidar para buscar sempre o equilíbrio nesse campo sutil entre o carinho e a gratidão, ou o reconhecimento pelo trabalho – integrando-se inclusive ao trabalho – sem buscar autopromoção ou elegendo o fanatismo como regra de conduta. Esse é sempre prejudicial, bem ao oposto da gratidão, que reconhece o trabalho como caminho de equilíbrio.

Sendo a Doutrina dos Espíritos, sigamos sim os bons espíritos, ou em outras palavras, os bons exemplos, que todos saberemos identificar, estejam eles encarnados ou desencarnados.

Fonte: geae.net.br

Sobre o autor:

Orson Peter Carrara: Nasceu em Mineiros do Tietê-SP. Orson é escritor, jornalista, editor e orador espírita, publicando artigos nos principais órgãos da imprensa espírita brasileira e internacional. Autor de vários livros e palestrante em todo o país. Seus textos caracterizam-se pela objetividade e linguagem acessível a qualquer leitor, estando disponibilizados em vários sites de divulgação espírita. Reside atualmente em Matão-SP.

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Entre a fé na razão e a razão da fé

Cesar Boschetti

Qual é o sentido da vida?

E a morte?

O que é a morte?

Haverá algo além da morte?

Haverá algo além do mundo material que conhecemos?

Ou será a morte apenas e tão somente a inexorável extinção, total, absoluta e definitiva de uma existência sem nexo?

Que dizer do sofrimento? Qual o sentido do sofrimento? Por que uns sofrem mais que outros? Por que certas coisas são amadas por alguns e odiadas por outros? Por que existe o mal?

Por que a enorme diversidade de filosofias e ideologias, ora afinadas entre si, promovendo a paz, a fraternidade e o progresso, ora completamente antagônicas, ensejando conflitos, guerras e destruição? Por que somos tão iguais e, ao mesmo tempo, tão diferentes uns dos outros?

A razão pode nos dizer alguma coisa acerca disso tudo?

O que é razão afinal de contas?

E a fé…? O que é a fé?

Podemos ter fé na razão?

Qual a origem da razão? Terá ela desabrochado na mente do homem macaco sem qualquer germe anterior de fé? E a fé? Terá a fé surgido na consciência do homem macaco sem qualquer interferência de alguma forma de exame ou questionamento antecedente? Será que no universo da mente humana é possível estabelecer uma fronteira clara e objetiva entre razão e fé? Será que esses dois aspectos da natureza humana podem ser isolados um do outro? Será que em nosso cérebro existem neurônios que lidam somente com a razão e neurônios que lidam somente com a fé? E se assim for, qual a origem dessa diferença? Por que a seleção natural não eliminou um deles? Será que o homem macaco teria saído das cavernas e chegado às metrópoles de hoje, só com os neurônios da razão? Ou só com os neurônios da fé? Será que fé e razão são frutos de meras reações físico-químicas dentro do cérebro humano?

E a imaginação?

O que é isso? O que nos leva a imaginar coisas e sonhar com elas? De que modo, razão, fé e imaginação interagem na mente humana? De que modo razão, fé e imaginação se combinam e dão substância à criatividade humana em sua busca por um sentido na vida? De que modo razão, fé e imaginação dão forma aos nossos preconceitos, ao nosso egoísmo e ao nosso potencial como agentes de transformação? Qual a origem das diferentes concepções de Mundo? Por que essas concepções precisam competir entre si? Onde estará a verdade?

E por aí segue uma montanha de dúvidas, inquietações e angústias que não acabam nunca.  Essa montanha está e estará sempre à nossa frente nos caminhos da vida. Mostra toda a sua pujança nos momentos mais inesperados, afrontando nossa inteligência e nossos sentimentos, trazendo à tona toda a nossa ignorância sobre a vida e sobre o universo, ao mesmo tempo que revela nossa incrível capacidade inquiridora. Isto nos remete à Sócrates que, há cerca de 2500 anos, com muita humildade reconhecia – “só sei que nada sei”.

Será que as coisas mudaram de lá para cá?

Encaremos a verdade! A filosofia não nasceu com os gregos nem com os antigos sábios do oriente. Precisamos entender que a filosofia, a fé e a ciência, como manifestações do espírito humano, nasceram juntas, completamente entrelaçadas, no momento que o homem macaco se espantou e se amedrontou diante das manifestações de uma natureza desconhecida e assustadora que, de repente, se descortinou ante sua tosca percepção recém desperta. Era tudo muito confuso. Seu cérebro primitivo tentava em vão dar algum sentido ao que via e sentia. Um sentimento estranho deve ter se apoderado desse nosso tataravô meio homem meio macaco. Algo começava a martelar no interior de sua cabeça. Um misterioso desejo de querer entender o que via e o que sentia dentro de si. Foi neste momento que nasceram os deuses, os demônios e as dúvidas. A bendita dúvida que nos esmaga contra o desconhecido, mas também nos empurra para o futuro e para novos horizontes.

As questões filosóficas da existência, como Deus, alma, morte, propósito da vida, justiça, o bem e o mal. São questões desafiadoras. Nos acompanham desde tempos imemoriais e, provavelmente, continuarão nos acompanhando pelos séculos e séculos vindouros.

A história do homem tem sido uma formidável sucessão de sucessos e fracassos, heroísmo e covardia, amor e ódio, trevas e luzes, que bem representam as diversas facetas do espírito humano. É assim que caminha a humanidade.

A percepção de que o homem e o mundo são sistemas constituídos de partes que conversam entre si, se afetando mutuamente, e não mais por um conjunto de peças que podem ser separadas e analisadas isoladamente para compreensão do todo, abre novas perspectivas para o entendimento do mundo e da vida. A antiga visão reducionista, dá lugar a uma visão sistêmica da realidade complexa.

Razão e fé continuam sendo formas diferentes de percepção da realidade. Continua não sendo possível misturá-las, mas não há oposição nem conflito. Se a história do homem atravessou trevas e luzes, paz e guerra, atrasos e progressos, não foi por conta dos indivíduos serem mais ou menos religiosos ou racionais.

Fé é um sentimento, um encontro do indivíduo consigo mesmo, uma interrogação íntima, uma busca compulsiva por superação. Fé é um desejo interior de vencer as vicissitudes da vida. Um anseio de sobrepujar o sofrimento e domar a morte. Um clamor por algo que preencha os vazios de nossa alma. Fé é um desejo ousado de ver e ir além do horizonte. Um misto de esperança e confiança que a vida seja mais que um simples existir efêmero sem nexo e por isto vale a pena ser vivida. Essa fé abstrata, subjetiva, inexplicável, rebelde aos ditames da razão e que parece nos instigar a olhar acima do bem e do mal, é, parcialmente, objetivada pelas diversas religiões. O cristianismo, o judaísmo e o islamismo, por exemplo, dentre uma multidão de outros sistemas, são tentativas de objetivação da fé. Tentativas de reduzir a abstração metafísica da fé a algo mais próximo de nossas necessidades imediatas, por meio de dogmas e ritos capazes de produzir um conforto psicológico mais imediato. Aqui não cabem discussões ou críticas. Estamos no campo das necessidades subjetivas. Todos os sistemas, são igualmente válidos e ricos em simbolismo, significação e nobreza de valores. O problema surge com o egoísmo humano que enseja os preconceitos e as distorções interpretativas.

Na verdade, o egoísmo já teve sua importância na evolução do ser humano. O egoísmo está atrelado ao instinto de preservação do homem. Foi importante no princípio e, talvez hoje, ainda tenha algum papel em situações muito específicas, mas cada vez mais revela-se como um sentimento negativo que obsta a cooperação e a solidariedade entre os homens. Nós humanos não fomos feitos para vivermos isolados. Desde o princípio a natureza mostrou que tínhamos mais chances de sobreviver se nos reuníssemos, cooperativamente, em grupos. Além disso, a cobiça fermentada pelo egoísmo, leva o homem a explorar irracionalmente os recursos naturais e menosprezar outros seres humanos socialmente fragilizados. Isso vem produzindo a exaustão de vários recursos minerais, vegetais e animais do planeta, além de contribuir para uma desigualdade social cada vez maior. Desnecessário dizer que, poluição, vírus, bactérias e eventos climáticos mais violentos terão presença cada vez maior em meio à uma sociedade humana cada vez mais mesquinha e materialista.

Isso tudo é reflexo da falta de humildade e ignorância do homem. Humildade, bem ao contrário da percepção ordinária, não é se apequenar diante do outro, mas sim estar de mente aberta para ouvir o outro. Humildade vem de humos, que significa solo fértil. Ser humilde significa estar aberto ao autoconhecimento e o reconhecimento que, além das aparências, somos todos iguais em potencialidades. O resultado do egoísmo é o desequilíbrio ambiental e a péssima e injusta distribuição de oportunidades.

O egoísmo e a cobiça nos conduzem à ilusão de poder. Ilusão de que não dependemos dos outros. Esse é um terrível engano. Uma visão mesquinha e estreita da vida e do mundo, conduzindo-nos a um jogo sujo de poder pelo poder.

Este jogo sujo não tem limites. Nada que seja bom está imune a ser usado para o mal. Do sacro ao profano, do simples ao complexo, do remédio ao veneno, tudo pode ser usado para o bem e para o mal. O exemplo mais recente está na tecnologia da informação. A internet é um formidável instrumento para exercício da liberdade e divulgação de conhecimentos. Mas é também um poderoso canal para propagação de mentiras, desinformação e invasão de privacidade, com gente de má fé ludibriando gente de boa fé. Onde estará o mal? Nos avanços científicos e tecnológicos? Na fé nos benefícios destes avanços para o progresso do ser humano? Na possibilidade da existência de Deus e da alma? Em meio aos que acreditam? Em meio aos que não acreditam? Onde estará o mal? Será que estamos buscando respostas fazendo as perguntas certas?

Razão e fé são partes do mesmo sistema mental humano. Quer se queira ou não, os componentes racionais, emocionais e espirituais coabitam o mesmo “espaço mental” e interagem de forma complexa e sutil. Foi com essa estrutura mental que chegamos onde chegamos. E isto é um fato. No livro da natureza já há muita coisa bem compreendida e explicada pela ciência. Não há mais lugar para milagres nem para um deus feito a semelhança do homem. Mas a ciência ainda está longe de conhecer os limites da natureza. Provavelmente, nunca venhamos a conhecê-los. Basta atentarmos que no universo há um número infinito de galáxias cada qual com bilhões de estrelas. A nossa Via Láctea é uma modesta galáxia que abriga em sua periferia nosso modesto sistema solar. Existem galáxias a bilhões e bilhões de anos luz de nós. São partes da natureza cuja luz, ou seja, a informação de sua existência ainda não chegou até nós e quando chegar, talvez já não existam mais ou nosso sistema solar também já possa estar extinto. Nós, humanos, somos menos que bactérias caminhando sobre uma partícula de poeira cósmica em um canto perdido do Universo. Somos um paradoxo. Um quase nada capaz de a tudo questionar. Beira o irracional que não tenhamos humildade e não sintamos admiração diante desse quadro, fantástico. A. Einstein demonstrou sua sabedoria quando certa feita, humildemente, reconheceu que “por detrás da matéria há algo de inexplicável”. E se não quisermos tirar os pés do chão e voar pelas estrelas, basta refletirmos sobre o universo de nossa mente, tão pouco conhecido quanto o universo das galáxias. É irracional considerar as coisas da natureza que ignoramos que, diga-se, são muito mais do que possamos imaginar, como coisas fora da natureza, isto é, como sobrenatural. É pura arrogância e tolice essa visão. E vale notarmos que nossa pequenez diante do universo das galáxias e diante do universo da mente humana não é apenas uma questão de humildade. É também uma realidade factual.

A existência de Deus e do espírito são possibilidades. Crer nessas possibilidades é um ato de fé. Não há como submeter essas questões à Ciência convencional que não dispõe de instrumentos nem para aprovar nem para reprovar. São questões fora dos domínios da Ciência convencional. Mas não são questões irracionais nem sobrenaturais. O fato de não serem racionalizáveis da mesma forma que são os objetos ordinários, não significa que não possam estar abertas à crítica racional para que não conflitem com o que já está bem estabelecido pela ciência. Esta forma de fé, que poderíamos chamar de fé autocrítica, fé aberta ou fé raciocinada, como dizia A. Kardec em suas obras, não é ingênua, nem cega nem anticientífica. Estando aberta à crítica, também não é dogmática no sentido ordinário do termo. Observe que, a negação pura e simples de possibilidades fora dos domínios da Ciência convencional é também uma forma de fé, pois não pode ser autenticada nem falsificada pela ciência.

A ciência ou a razão não podem racionalizar a fé, mas podem estabelecer contornos racionais dentro dos quais a fé tenha seu espaço. Por outro lado, a fé não pode dirigir a razão, mas pode fornecer elementos de amor, de humildade e, por paradoxal que possa parecer, de ousadia para o trabalho da razão. A ciência não avança apenas apoiada na catalogação de observações empíricas. Mas avança sobretudo com a proposição de hipóteses, com frequência ousadas que, posteriormente, devem ser validadas ou falsificadas. Essas proposições, em primeira mão, envolvem acreditar em algo que ainda não foi demonstrado nem falso nem verdadeiro. É ter fé em uma ideia.

A busca por sentido na vida não precisa pressupor a existência de Deus e ou de uma consciência ou alma que sobreviva à morte do corpo físico. Mas são premissas poderosas e ricas em significação. Não são dogmas no sentido convencional. Contemplar essas possibilidades e refletir sobre suas possíveis consequências dentro do princípio de uma fé aberta não é um dogma, já que não é incondicional e abre-se à crítica e ao balizamento racional. Mas é uma expressão de fé. Uma fé que não se opõe à ciência, mas busca complementar e ampliar nosso entendimento sobre a vida. Buscar outras possibilidades é perfeitamente válido. A fé não precisa de cercas religiosas, apenas de atenção aos caminhos já traçados pela razão.

Na verdade, a perspectiva que haja algo mais em nós humanos, além de carne e ossos, vem ganhando relevância científica cada vez maior. O volume de eventos muito bem documentados de experiências de quase morte (EQM) vem crescendo rapidamente em todo o mundo. São situações onde o indivíduo, clinicamente morto, por uma parada cardiorrespiratória, por exemplo, e, portanto, impossibilitado de registrar qualquer informação ao seu redor, dá testemunho preciso de fatos ocorridos durante os instantes que permaneceu clinicamente morto. Esse testemunho, inclusive, pode referir-se a lugares externos àquele na qual se encontrava sob atendimento. Isso mostra claramente que a consciência do ser humano não está presa ao corpo e pode continuar existindo fora dele. Há muitos estudos em curso e muito ainda precisa ser elucidado, mas os indícios de existir algo mais além de carne e ossos em nós humanos são cada vez maiores. Isso sem falarmos nas experiências mediúnicas existentes desde sempre em meio à humanidade. Essas manifestações atingiram seu ápice em meados do século XIX na França. Foram meticulosa e sistematicamente estudadas por Kardec, inclusive com controle estatístico de coerência entre manifestações provenientes de inúmeras fontes diferentes de lugares diferentes e desconhecidas entre si. Kardec não era místico. Ao contrário, tinha formação científica e atitude racional.

De outro lado, a conduta do indivíduo frente a seus semelhantes e frente ao mundo, isto é, a postura moral e ética do indivíduo, também não requer a figura de Deus como bússola. A conduta moral e ética do homem pode ser balizada por um princípio muito simples – não fazer aos outros o que não se quer para si – ou seu corolário – fazer aos outros o que gostaria que fosse feito para si. Este é um princípio elementar consequente da inteligência humana, consequente da capacidade de análise e deliberação, consequente do livre arbítrio e, cada vez mais, consequente da consciência de ser parte ativa de um sistema maior, Gaia, a Mãe Terra. A moral e a ética são valores operacionais fundamentais do indivíduo em ralação ao mundo que o cerca. Mas as questões existenciais vão além disto. A necessidade emocional de haver um sentido para a vida, vai muito além do problema da ética e da moral. O indivíduo pode viver de modo ético pleno, sem prejudicar ninguém, sendo útil de algum modo ao próximo e à sociedade, em perfeita sintonia com o progresso, mas será como um autômato, vazio, sem um sentimento de que, de alguma forma, sua existência tem uma finalidade que não meramente operacional e efêmera. A expansão da consciência exige algo mais. Aqui entramos novamente nos domínios da fé e dos sonhos.

O sonho, por sua vez, é um motor poderoso do progresso. Envolve riscos e isso os torna ainda mais instigantes e atraentes. O risco de errar e fracassar, não deve ser motivo de tristeza ou desânimo. É difícil lidar com isto, mas cair, levantar, renovar forças e seguir em frente faz parte da fé raciocinada. É da natureza humana. Somente a fé pode trazer conforto para os reveses da vida e continuar nos impulsionando a seguir em frente. Vale anotarmos que fé e sonho caminham de mãos dadas.

A fé idealiza estradas para destinos desconhecidos. À ciência cabe planejar e abrir essas estradas.

O universo da fé natural, apesar de diferir do universo convencional das religiões institucionalizadas em torno de dogmas, ritos e hierarquias sacerdotais, não deixa de ser complexo e também vulnerável aos preconceitos, ao fanatismo e ao jogo de interesses. Essa é a grande dificuldade para o estabelecimento de uma aliança positiva entre fé e ciência. Mas a fé, uma vez liberta das amarras religiosas tradicionais, por sua abrangência, tem mais chances de dialogar com a ciência.

Um fato curioso é a não aceitação da fé como sentimento universal comum a todos os seres humanos por uma parcela expressiva de céticos. Muitos alegam não necessitarem de Deus nem da existência da alma para darem sentido à suas vidas. Aqui não há o que discutir. Do mesmo modo, muitos alegam não haver qualquer sentido a ser buscado, portanto, menor ainda a necessidade da fé. Dizem-se pessoas cujo sentimento da fé é completamente inexistente ou ausente. Também aqui não cabe discussão, entretanto, racionalmente falando, não se trata de inexistência de fé. Trata-se de uma expressão diferente de fé. fé na razão pura. Fé que a ciência basta para explicar o mundo como ele é. Fé que a consciência humana é manifestação exclusiva de ligações e reações químicas e nada mais que isso. São coisas que a ciência não pode até o momento corroborar nem reprovar e há fortes indícios que esteja ainda bem longe disso.

O ceticismo científico que não permite que a ciência opere fora dos limites seguros do universo material é critério de trabalho. O ceticismo dogmático que adota a ciência como possibilidade única de acesso aos mistérios do Universo resulta no que se convencionou chamar de cientificismo. Também não cabe discuti-lo, mas não faz sentido dizer que não haja aí uma forma de fé. Por isto, a percepção que o homem é uma combinação complexa, misteriosa, inseparável e única de razão, de imaginação, de emoção e de fé é uma chave importante para o futuro da humanidade. É puro egoísmo negar possíveis diálogos entre esses diferentes aspectos da percepção humana. Uma real ausência de qualquer expressão de fé ou, se quiser, esperança relativa ao futuro, resultaria em um desencanto total com a existência. Conduziria o indivíduo à uma depressão profunda e, possivelmente, irreversível. Seria a anulação do ser, do sonhar, do almejar e do ousar. Seria a negação de uma existência consciente e inquiridora. Seria um suicídio intelectual e psicológico. É importante acreditar, cultivar alguma forma de fé em valores pelos quais se acredite que valha a pena viver. A satisfação pura e simples dos apetites animais pode satisfazer momentaneamente, mas jamais conduzirá o espírito humano à satisfação plena de todos as suas aspirações e potencialidades.

A mente humana, a vida e o universo que nos cerca, são complexos demais para serem apreciados somente pelo filtro da razão. O espírito humano não tem na razão, na imaginação e na fé três motores distintos que podem ser ligados ou desligados e usados separadamente conforme se queira. Trata-se de um único motor que funciona a partir da interação precisa e misteriosa desses três componentes. Somos um sistema complexo cujo estudo das partes isoladas não permitem uma compreensão adequada do todo. Esse antigo paradigma está praticamente abandonado com a ascensão do pensamento sistêmico.

Mas não se muda de paradigma de uma hora para outra. Muitas ideias criam raízes profundas, sobretudo em terrenos inundados por preconceitos. Um diálogo entre ciência e fé vem se mostrando cada vez mais viável e necessário apesar de muitas barreiras ainda existentes. Cada vez mais se percebe que ciência e fé não são campos opostos. São campos distintos, não se misturam, mas se completam. Essa nova visão vem sendo cada vez mais bem acolhida inclusive por céticos. Apesar disto, a intolerância velada ou explicita entre crentes e descrentes ainda existe. Para muitos crentes os descrentes seriam indivíduos inclinados ao hedonismo, egoístas e alheios ao amor e compaixão. Por outro lado, para muitos descrentes, os crentes seriam indivíduos ingênuos de pouca inteligência, acovardados diante das vicissitudes da vida real ou hipócritas disfarçados de bons filhos tementes a um Pai inexistente.

Dentre os crentes também não faltam preconceitos entre as diversas manifestações de fé religiosa, cada qual reivindicando para sua seara o caminho da salvação. Do mesmo modo, a desarmonia e dissonância graça em meio aos descrentes, cuja fé na razão oscila entre o ceticismo lúcido e autocrítico ao fundamentalismo negacionista exacerbado. Por tudo isso precisamos compreender que a fé natural, aberta ou raciocinada, se coloca acima dessas mazelas irracionais e pode ensejar a harmonia entre fé, razão, emoção e imaginação.

Pode não parecer, mas novas e esplêndidas perspectivas poderão se abrir para o futuro de um homem novo, mais humilde, de mente aberta, mais tolerante e menos preconceituoso. O assunto é vasto e não se esgota em algumas poucas páginas. Os desafios são enormes, mas as possibilidades são magníficas.

Fonte: Grupo de Estudos Avançados Espíritas

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Reencarnar para viver

Wilson Garcia

Ghost - Do Outro Lado da Vida vai virar série de TV

Quando a morte parece próxima, vêm-nos algumas preocupações. A possibilidade da extinção do corpo físico traz-nos dúvidas, incertezas, vazios, angústias e expectativas.

Minha amiga Neusa foi tomada de surpresa e aos 42 anos de vida viu-se fora do corpo. Os laços fluídicos se desligaram, de repente, numa tarde-noite de uma terça-feira comum. Como boa espírita, ela já havia pensado e conversado, muitas vezes, sobre viver e morrer, mas nunca sobre ela própria vir a desencarnar.

Ao ver-se na nova situação, uma impotência assomou-lhe o espírito: Neusa não podia mais retomar o corpo como tantas e tantas vezes o fizera depois de cada sono. A dor, incontrolável e a também incontrolável vontade de manter os laços físicos deram lugar a uma apatia psicológica tão grande que Neusa deixou-se conduzir pela cegueira e pela surdez, de tal modo que nada ouvia nem enxergava, senão a vida que lhe parecia retirada antes do tempo.

Vi-a, inúmeras vezes, indo de casa em casa; da sua, onde filhos e maridos lamentavam sua ausência, às dos amigos mais próximos. Encontrei-a, calada, o olhar perdido, os cabelos, lindos, agora em desalinho; o sorriso, espontâneo, substituído por um ar de imensa tristeza, de grande decepção.

Neusa frequentava minha casa, minhas reuniões. Sua presença era a certeza de uma noite intensa, questionadora, liberal e alegre. Quando assomava à porta com seu porte altivo, era impossível não percebê-la, pois dominava a cena e atraía para si todas as atenções.

Na academia e nas demais atividades profissionais, Neusa se realizava ao colocar em prática seus sucessivos projetos, todos com vistas a garantir aos seus três jovens filhos e ao marido a tranquilidade e o futuro.

Estava no auge quando a morte lhe sobreveio. Foi de um só golpe. Tomava chá, com dois dos filhos e o marido, sentada no sofá da sala quando, de repente, soltou um quase inaudível “nossa!”. O braço escorregou levemente para baixo e a mão quase deixou cair a xícara já vazia. A cabeça tombou de lado e todos os seus músculos afrouxaram ao mesmo tempo.

O telefone, a ambulância, o hospital e a Unidade de Terapia Intensiva. A esperança durou quatro dias, depois dos quais a família aceitou o veredito e decidiu pela doação dos seus órgãos.

A primeira vez que a vi depois da partida eram duas horas da madrugada. Encontrei-a no sofá de minha sala, olhando para o chão, sem nenhuma palavra, mas parecia querer dizer que não merecia aquela “sorte”. Senti uma dor imensa no peito por ver a amiga naquele estado. Sua impotência era também minha.

Percebendo que pouco poderia fazer por ela, caminhou lentamente até desaparecer. Ficou, assim, vagando, um bom tempo, até que as forças começassem a ceder e ela deixar-se levar como quem não encontra mais razão para nada.

Um tempo mais e ela retornou. Foi trazida até nossa reunião e ali ficou, ouvindo. Mais um tempo longe e já retornou melhor. Quis dizer algumas palavras, mas sua voz embargou. Seu semblante denotava então uma pequena retomada.

Quando, enfim, conseguiu traduzir seus sentimentos em palavras, em nova ocasião, fez questão de reconhecer a própria incapacidade de lidar com aqueles laços rompidos, com os projetos esvaziados e com a necessidade de manter certa distância da realidade da vida no planeta depois do desencarne.

Neusa reapareceu há pouco. Estava eu conversando com um espírito durante uma manifestação espontânea quando a vejo postada uns dois metros atrás. Olhava-me, sorridente, não aquele sorriso largo incontrolável, que resolveu suprimir, mas um sorriso tranquilo, sereno, natural.

Entendi sua solicitação expressa no olhar e deixei que ela por mim conversasse com sua amiga presente. Era o que desejava. Falou a ela por pouco, num tom coloquial e baixo, quase sussurrando aos ouvidos, como quem dizia da alegria de poder revê-la, dos sentimentos que as unia. E despediu-se com estas palavras:

– Saudade, amiga, muita saudade.

Após, retomou seu lugar no ambiente, dizendo-me que a saudade é um dos sentimentos mais presentes naqueles que partem e podem retornar ao convívio dos humanos. Saudade dos seus, das coisas, saudade da vida. Entendi sua menção como um pedido a mim para escrever, não propriamente sobre a saudade em si, mas sobre a necessidade, a premente necessidade de reencarnar para viver.

Neusa aguarda, sem previsão de tempo, na imensa saudade que lhe envolve.

Fonte: Blog do Wilson Garcia

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Fundamentos da União

Orson Peter Carrara

A clareza de Kardec é notável. Seus argumentos, a fundamentação moral que utiliza em seus comentários e a fidelidade aos princípios norteadores do Espiritismo são, sem dúvida, sua grande marca pessoal, acrescidas de sua grande inteligência e dedicação à causa que sinalizam a grandeza de sua missão.

Em discurso na renovação do ano social, proferido a 1º de abril de 1862, na sede da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e publicado na Revista Espírita, edição de junho de 1862, entre valiosas e oportunas considerações, detemo-nos na apreciação da Autoridade da Experiência.

Antes de quaisquer comentários, transcrevemos trecho parcial do discurso:

“(…) coloca-se naturalmente uma observação importante sobre a natureza das relações que existem entre a Sociedade de Paris e as reuniões, ou sociedades, que se fundam sob os seus auspícios, e que erradamente se consideraria como sucursais. A Sociedade de Paris não tem sobre elas outra autoridade senão a da experiência; mas, como disse em outra ocasião, ela não se imiscui em nada nos seus negócios; seu papel se limita a conselhos oficiosos, quando lhe são solicitados. O laço que as une é, pois, um laço puramente moral, fundado sobre a simpatia e a semelhança das idéias; não há, entre elas, nenhuma filiação, nenhuma solidariedade material; uma só palavra de ordem é a que deve unir todos os homens: caridade e amor ao próximo, palavra de ordem e que não poderia levar desconfiança. (…)”

Que exemplo! Que coerência! Que fidelidade à própria Doutrina Espírita!

Notem o detalhe de determinado trecho: conselhos oficiosos, quando lhe são solicitados. Eis o princípio da democracia, do respeito à liberdade alheia e mesmo o espírito da unificação, tão defendido e necessário em nosso movimento.

O exemplo partiu do próprio Codificador, ao referir-se à Sociedade por ele mesmo fundada. Autoridade apenas da experiência de instituição mais antiga, digamos. Laços fundados na simpatia de vistas, puramente morais. Sem quaisquer outras filiações oficiais. Apenas o princípio basilar norteando os relacionamentos e intercâmbios: caridade e amor ao próximo.

Vejamos que as dificuldades do movimento originam-se da tentativa de imposição de idéias, prática totalmente incoerente com a índole do Espiritismo, por si só respeitador da individualidade e da liberdade de quem quer que seja, inclusive de instituições fundadas e mantidas sobre sua própria inspiração.

Eis o fundamento de união dos espíritas e das sociedades inspiradas pelo Espiritismo.

Orson Peter Carrara

Fonte: espiritismo.net

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Kardec, o educador da humanidade

Marcus De Mario

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Hypollite Leon Denizard Rivail, mais tarde conhecido como Allan Kardec, viveu de 04 de outubro de 1804 a 31 de março de 1869.

Foi aluno do educador Pestalozzi, tendo estudado no Instituto de Iverdon, na Suíça, dos dez anos de idade até sua formação como professor e administrador educacional aos dezoito anos.

O professor Rivail introduziu o método pestalozziano de ensino na França, tendo fundado e dirigido o Instituto Rivail, escola de ensino fundamental, de 1826 a 1834. Nesse meio tempo casou-se com Amélie Gabrielle Boudet, professora e poetisa, isso em 1832.

Homem culto, estudioso das ciências, e ao mesmo tempo simples, de grande afetividade, tornou-se tradutor de livros, foi magnetizador, era apreciador das artes e, naturalmente, escritor pedagógico. Tudo isso teve como consequência a participação e diplomação em doze academias literárias e científicas.

No total escreveu vinte e dois livros, vários deles premiados pelo governo francês, que os adotou nas escolas públicas, destacando-se o “Plano Proposto para Melhoria da Instrução Pública”, de 1828, onde revoluciona as idéias educacionais da época propondo a criação de cursos de formação de professores, escolas para mulheres e implantação de uma proposta pedagógica de educação moral.

O homem Rivail e a sociedade francesa

No livro “Amor e Ódio”, escrito pelo espírito Charles e psicografado pela médium Yvonne Pereira, encontramos no capítulo dois da primeira parte, interessante descrição de uma homenagem feita ao professor Rivail por um seu ex-aluno, Georges de Franceville de Soissons, com o comparecimento de outro ex-aluno, Gaston D’Arbeville, Marquês de Saint-Pierre. A homenagem ocorreu em 1847, tendo por motivo o lançamento do livro “Soluções Racionais de Questões de Aritmética e de Geometria”. Vejamos parte do texto:

“Realizou-se o ágape sob a melhor cordialidade, a ele comparecendo ainda outras nobres amizades do círculo de relações dos dois amigos, dentre estas o insigne poeta Vitor Hugo. (…) Verificou-se então substancioso debate entre o professor e seus antigos alunos, durante o qual, com aquela visão admirável que possuía, Rivail ponderou as grandes vantagens de ordem material e financeira decorrentes da realização desse desejo de seu aluno (viagem aos Estados Unidos da América)”.

Há registros informando que, nos salões da nobreza francesa, quando acirrada discussão acontecia sobre determinado assunto, essa discussão era encerrada procurando-se ouvir a opinião sensata do professor Rivail.

No livro “Plano Proposto para Melhoria da Instrução Pública”, encontramos o seguinte texto sobre educação moral:

“A educação é a arte de formar os homens; isto é, a arte de fazer eclodir neles os germes da virtude e abafar os do vício; de desenvolver sua inteligência e de lhes dar instrução própria às suas necessidades; enfim de formar o corpo e de lhe dar força e saúde. Numa palavra, a meta da educação consiste no desenvolvimento simultâneo das faculdades morais, físicas e intelectuais”. (…) Não se pode esperar obter um bom sistema de educação, e por conseguinte, uma boa educação moral, se não se tiver uma massa de educadores que compreendam verdadeiramente o objetivo de sua missão e que tenham as qualidades necessárias para cumpri-la. Em resumo, a educação é o resultado do conjunto de hábitos adquiridos; esses hábitos são eles próprios o resultado de todas as impressões que os provocaram, e a direção dessas impressões depende unicamente dos pais e dos educadores”.

Kardec, os espíritos e a educação

Essa visão sobre a educação moral vai ser ampliada a partir de 1855, quando o professor Rivail entra em contato com os fenômenos mediúnicos e revela a existência e comunicabilidade dos espíritos, consolidando-se em 18 de abril de 1857 com o lançamento de “O Livro dos Espíritos”, obra básica do Espiritismo, onde encontramos, entre diversas perguntas e respostas acerca da educação, o seguinte:

Questão 208 – “O espírito dos pais não exerce influência sobre o do filho, após o nascimento?” Resposta: “Exerce, e muito, pois como já dissemos, os espíritos devem concorrer para o progresso recíproco. Pois bem: o espírito dos pais têm a missão de desenvolver o dos filhos pela educação: isso é para eles uma tarefa? Se nela falhar, será culpado”.

Questão 685-A – Comentário de Allan Kardec: “Há um elemento que não se ponderou bastante, e sem o qual a ciência econômica não passa de teoria: a educação. Não a educação intelectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos, porque educação é o conjunto de hábitos adquiridos”.

Questão 917 – Comentário de Kardec: “A cura (do egoísmo) poderá ser prolongada porque as causas são numerosas, mas não se chegará a esse ponto se não se atacar o mal pela raiz, ou seja, com a educação. Não essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas a que tende a fazer homens de bem. A educação, se for bem compreendida, será a chave do progresso moral”.

A ligação da doutrina espírita com a educação moral é mais do que estreita, é interativa, motivo pelo qual o Espiritismo é doutrina de educação do espírito imortal e o centro espírita é, acima de tudo, escola de almas. Allan Kardec, o ilustre professor Rivail, transforma-se de educador da França para educador da Humanidade. Quando os pais e professores compreenderem sua sagrada missão educadora, e a imortalidade da alma e a reencarnação nortearem tanto a filosofia da educação quanto a pedagogia, então o atual sistema de ensino passará por uma grande renovação, a família será revitalizada e conseguiremos implantar a educação moral.

Marcus De Mario

Fonte: Correio Espírita

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Aprendendo com os próprios erros

Ambrósio recebeu o assistente Rogério, que se fazia acompanhar de um visitante.

– Este é Dagoberto, velho amigo, pai de Mariana, que reencarnou sob orientação de nossa casa.

O diretor da respeitável instituição socorrista, no Plano Espiritual, contemplou com simpatia o recém chegado, percebendo sofrida ansiedade em seu olhar.

– Temos acompanhado a trajetória de Mariana, amparando-a na medida do possível.

Conhecemos a extensão de seus problemas atuais.

– Sabe, então, que minha filha casou-se há duas semanas, em virtude de inesperada gravidez… Estou muito preocupado, pois ela tem apenas dezessete anos e o marido, Leo, 20. Ambos abandonaram os estudos por força da nova situação, assumindo atividades profissionais. Embora a aparente felicidade, sinto-os apreensivos e perturbados. Para minha tranquilidade venho pedir-lhe um favor…

Observando que o amigo vacilava, Rogério adiantou-se:

– Dagoberto gostaria de examinar o planejamento reencarnatório de Mariana, a fim de verificar se sua situação atual faz parte das experiências que programou.

Considerando que a solicitação não se inspirava em mera curiosidade, partindo do coração angustiado de um pai, e que a consulta poderia reservar valores educativos, Ambrósio solicitou a uma auxiliar que providenciasse o dossiê da jovem.

Em breves momentos os três Espíritos podiam tomar contato com os eventos mais significativos da experiência reencarnatória de Mariana, relacionados com nascimento, família, estrutura física, detendo-se em alguns dados reveladores:

Profissão: Médica.

Casamento: Por volta dos trinta anos encontraria Rubens, companheiro de pretéritas existências, que a antecedera em dez anos na experiência física.

Filhos: Receberia três Espíritos, Magda, Flávia e Alberto.

Objetivos principais da reencarnação: Consolidação de ligações afetivas, encaminhamento dos filhos, desenvolvimento de tarefas em favor da saúde humana.

Tempo aproximado de vida: Setenta anos.

Dagoberto não se conteve:

– Meu Deus! Estamos diante de um desvio!

Ambrósio confirmou:

– Sem dúvida. Mariana casou-se com o homem errado, na hora errada, pelo motivo errado.

– E o filho?

– Não é nenhum daqueles que deveriam acompanhá-la. Trata-se de entidade sofredora, ligada ao psiquismo do marido. O envolvimento passional favoreceu o automatismo reencarnatório.

– E agora?

– Bem, a partir do momento em que se afastou do planejamento feito, é difícil prever o futuro. Podemos, entretanto, adiantar algo a respeito. Mariana não será feliz no casamento. Passados os tempos de euforia sexual, experimentará indefinível angústia, sentindo que algo saiu errado em sua vida. A vocação para a Medicina a fará sentir-se lesada em suas aspirações. O filho não lhe satisfará os anseios maternos. No tempo previsto o companheiro que lhe está destinado aparecerá em seu caminho, impondo-lhe a amargura de um amor impossível. Se ceder às solicitações do coração, assumirá novos compromissos cármicos relacionados com a infidelidade e a deserção dos deveres conjugais.

– E os Espíritos que devem renascer em seu lar?

– Dificilmente ela se disporá a ter mais filhos, em face das desilusões conjugais. De qualquer forma, o quadro agora é diferente. O planejamento de todo o grupo será refeito.

– Minha pobre filha! Não é um preço muito alto para simples engano sentimental?

Ambrósio suspirou:

– É o preço da liberdade, meu caro. O desenvolvimento cultural da sociedade humana implica na expansão do livre-arbítrio. As pessoas hoje são mais livres para decidirem suas próprias vidas. Ocorre que raros dão-se ao trabalho de avaliar as consequências de seus atos, cultivando comedimento.

– Mariana perdeu, então, a existência?

– Absolutamente. Embora o desvio em que se envolveu, ela colherá proveito.

Aprenderá quanto à importância da reflexão, habilitando-se, em experiências futuras, a cumprir seus compromissos sem desvios. As frustrações do presente serão, em última instância, uma vacina contra equívocos semelhantes.

– Aprenderá com os próprios erros…

– Exatamente. E os sofrimentos decorrentes a tornarão mais receptiva à ajuda espiritual. Como seu pai você terá maior acesso ao seu coração, amparando-a.

Despedindo-se do visitante, Ambrósio abraçou-o, acentuando:

– Não se deixe dominar pelo desalento. Sua filha precisa de você mais do que nunca. E lembre-se: uma existência na Terra é apenas um elo na imensa cadeia de reencarnações, um segundo na eternidade. Tudo passa, menos o Reino de Deus, a meta suprema. Mariana está a caminho, como todos nós.

Na sua imensa sabedoria o Criador harmoniza os acontecimentos em favor de nosso aprendizado, nos caminhos da Evolução.

Reprogramações existenciais são realizadas vezes sem conta, na medida em que, fazendo mau uso do livre-arbítrio, comprometemo-nos em desvios do caminho, até que nos disponhamos a cumprir a programação maior, adequando-nos às Leis Divinas.

Então desfrutaremos de liberdade irrestrita para fazer exatamente o que Deus espera que façamos.

Richard Simonetti

Redação do Blog Espiritismo na Rede, extraído do livro: Encontros e Desencontros

Fonte: Espiritismo na Rede

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A Noite a Obsessão É Maior

Fernando Rossit

De acordo com Richard Simonetti, autor do livro “Quem tem Medo da Obsessão?”, a obsessão é mais intensa durante a noite, quando estamos dormindo.

Durante o sono o espírito se distancia do corpo físico, mas não fica inativo. Neste momento o encontro com entes queridos é possível da mesma forma com desafetos e Espíritos mal intencionados.

Essa influência, se não combatida, pode nos levar à Obsessão, isto é, a uma ação prejudicial que um ou mais Espíritos exercem sobre nós.

Simonetti, cita o livro “Libertação”, psicografia de Francisco Cândido Xavier, onde o Espírito André Luiz reporta-se à experiência de uma senhora perseguida por dois obsessores que tinham duplo propósito: comprometer sua tarefa como médium e conturbar o trabalho de seu marido, dedicado dirigente espírita.

Como sempre fazem, os Espíritos Obsessores atacam nossos pontos fracos ou, em outras palavras, nossos defeitos.

Essa Senhora citada na Obra “Libertação” era médium espírita, mas era frágil em suas convicções, gostava de se destacar pelas suas tarefas, se tornando presa fácil nas mãos dos Obsessores.

Como tinha dúvidas a respeito de sua mediunidade, os Espíritos perturbadores aproveitaram suas vacilações para incutir a ideia de que as manifestações que transmitia eram fruto de sua própria mente.

Além disso, como era também muito ciumenta, atiçavam nela tendências ao ciúme, sugerindo que o marido usava sua posição no centro espírita para seduzir mulheres.

Dois defeitos “bem aproveitados” pelos Espíritos perturbadores.

Os obsessores conversavam com ela, confundindo-a em relação aos seus compromissos mediúnicos e à fidelidade do marido.

Eles entravam em contato com ela durante as horas de sono.

O marido, homem disciplinado e esclarecido, amigo das virtudes evangélicas, afastava-se do veículo físico (desdobrava-se) e participava de atividades de aprendizado e trabalho, junto de benfeitores espirituais.

Já sua mulher, ao despertar, sente mal estar porque aquelas “orientações” que recebia dos Espíritos perturbadores repercutiam em seu psiquismo, inspirando-lhe desânimo e indignação.

André Luiz presencia uma dessas sessões de aliciamento para a perturbação e registra o deplorável estado da médium ao despertar.

“Oh! Como sou infeliz! – bradou, angustiada – estou sozinha, sozinha!”

O marido, inspirado por benfeitor espiritual, tem imenso trabalho para pacificá-la.

Os Obsessores, apresentando-se como “amigos” e “protetores”, conquistaram sua confiança. Como se programassem sua mente, incutem-lhes ideias infelizes que martelarão seu cérebro durante a vigília, emergindo na forma de dúvidas, temores, angústias, impulsos desajustados e depressão.

Ocorre, muitas vezes, uma verdadeira hipnose espiritual.

Seria equívoco situar as horas de sono como páginas em branco na existência humana.

São páginas escritas com tinta invisível, tão importantes quanto aquelas que escrevemos na vigília, com insuspeitada e ampla influência sobre nossos estados de ânimo, nossas ideias e sentimentos.

É muito importante nosso preparo antes de dormir, evitando programas de TV ou filmes de conteúdo negativo, por exemplo.

A prece antes de dormir é um excelente recurso para que possamos ter bons sonhos porque nos liga aos Bons Espíritos, garantindo-nos boas companhias espiritais.

No entanto, a forma mais eficaz para estarmos ligados ao Bem e impedirmos que venhamos a ser influenciados por Espíritos maus, é a nossa mudança de hábitos e costumes, nossa transformação moral.

Façamos sempre uma auto-análise sincera a respeito do nosso comportamento, analisando nossos pensamentos e atos, e busquemos ser melhores a cada dia.

Lembremo-nos: um mau pensamento sempre é inspirado por um Espírito perturbador. No entanto, a sua influência somente ocorrerá se houver sintonia, isto é, se ele encontrar dentro de nós o canal para estabelecer a perturbação espiritual.

Esse canal chama-se imperfeições morais, tais como: ciúme, inveja, maledicência, orgulho, vaidade, intolerância, preconceito, irritabilidade, hábitos negativos de reclamação, críticas, julgamentos, etc.

Atenção, portanto.

Fernando Rossit

Fonte: Associação Espírita Allan Kardec

Referências:

  1. -Quem tem medo da Obsessão, de Richard Simonetti
  2. -O Livro dos Espíritos, Cap. VIII, 2ª parte, Allan Kardec.
  3. -Libertação – Chico Xavier/André Luiz
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Tão perto, tão longe

Wilson Garcia

fotoFerranFlickr

O poeta falava ao jornalista sobre seu assunto mais íntimo: a poesia. Tornara-se a pouco imortal, quase ao mesmo tempo em que a matéria frágil lhe anunciara seus oitenta anos de perfeita destrutibilidade. O jornalista matreiro e experiente esquenta a conversa lhe recordando: você não acredita em nada além da vida, não é? Sorrindo um riso quase natural, espontâneo, o poeta recém-empossado na Academia Brasileira de Letras reflete brevemente e confirma: não, não acredito; até gostaria de crer, dizem que é melhor acreditar do que não acreditar, mas eu não consigo mesmo. Aqui se aplica bem a frase de Vinicius: “que seja imortal enquanto dure”.

Alguns minutos antes, o poeta revelara o seu processo de composição poética e deixara no ar uma interrogação a respeito das ideias, dos temas e mesmo das motivações para compor suas consagradas obras. Tudo vinha simplesmente, sem planejamento prévio. Eu não planejei a minha vida, nada, tudo veio naturalmente, diz. O jornalista contrapõe, então: mas a inspiração depende muito da transpiração, não é? Sim, afirma o poeta, mas eu não faço muito esforço, não. Claro, cabe a mim dar o tom, o estilo, apurar, trabalhar o texto. As coisas chegam e acho que esse é o caso, porque a pessoa não é poeta, escritor etc., se não nasceu com o dom. Não adianta querer ser uma coisa se o dom não está presente, se ele não nasceu com aquilo. O poeta fala de algo que para ele está no DNA, com a certeza de todas as certezas, porque é isso que o alimenta, é nisso que acredita.

O ser humano é um ser limite. Não digo limitado, apenas, mas digo que vive na fronteira da vida e da morte, do espírito e da matéria e de forma geral não tem a percepção clara disso. Está sempre esbarrando num e noutro lado da fronteira, muito próximo do crer e do crer, quase a descobrir o que um e outro lado apresenta, sem, contudo, ultrapassar a linha tênue que separa a matéria do espírito. Ele não é nem completamente um corpo, nem completamente um espírito. Isso vale tanto para o homem material, feito o poeta a crer no fim, na extinção total da vida ou término do ciclo, como vale também para o homem espiritual, que crê na continuidade, no depois, mas está sempre esbarrando nas dúvidas da vida material.

Não me agrada a ideia da existência de alguém que não crê; penso que o ser humano é aquele que crê sempre em alguma coisa e por crer, age, sonha, pensa, descortina. O poeta que revela sua incapacidade de crer em algo após a morte, na verdade crê na inutilidade da vida, na sua finitude total. Crê na imortalidade apenas da duração, daquilo que é válido viver, mas sem a perspectiva da repetição, do renascimento ou da permanência para além do limite da vida material. O futuro nele está sempre pressionado pela morte e só é válido pensar neste futuro até o horizonte próximo, após o qual não há nada mais.

Algo não muito diferente se passa com o homem espiritualista, que acredita na continuidade e no retorno, mas vive pressionado pelos conflitos do viver no corpo e anseia sempre colocar os pés no outro lado da fronteira, antes mesmo de completar a experiência do próprio corpo. Sua dúvida maior está em como viver na matéria sem perder a essência do espírito, o que o coloca na condição de não viver completamente nem a perspectiva do espírito nem a do corpo.

Nessa fronteira-limite os dois se esbarram sem perceber, e esbarram permanentemente, porque o homem de Herculano não é o homem-corpo, mas o homem-espírito, apesar de seus quereres e de suas negações. A inspiração do poeta é uma realidade, mas parte considerável de sua origem, de sua fonte – esta relação comunicativa misteriosa, a envolver os de cá e os de lá – para o poeta-corpo só alcança quem nasceu com o dom de ser poeta, escritor, dramaturgo, mas, na verdade, alcança a todos, em todas as áreas, onde a criação esteja sendo exercida por qualquer forma de arte, ou onde a vida humana consome-se no existente.

Dois humanos vivem na inspiração, da inspiração, com a inspiração. Não penso apenas em dois humanos distantes, um aqui, outro além; penso, também, em dois humanos visíveis, táteis, que estão ou não lado a lado, mas que habitam o mundo do pensamento e não apenas o do DNA. Porque o seu amigo do lado, que o abraça e dá bom dia é fonte de inspiração; porque o seu olhar capta as imagens da tristeza, sem perceber que forças o movem para que se dirija para o lado onde a tristeza se derrama. A sua inspiração o leva a criar e a criação o faz transformar a tristeza em possibilidade de alegria, sonhos, desejos, esperanças. Você vive ali, naquela fronteira-limite, tão perto e tão longe; perto demais para perceber; longe demais para se apropriar. A matéria e o espírito escorregam entre nossos dedos, no líquido fluido das ideias: vivemos no corpo buscando o imaterial, ou vivemos no imaterial desejando o corpo. O conflito é a nossa inconstância diária. Não sabemos ainda, não encontramos a segurança do corpo que abraça o espírito, nem do espírito que abraça o corpo. A fronteira-limite é ainda o nosso mistério.

Wilson Garcia

Fonte: Blog do Garcia

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Fenômeno psicológico da dependência

Ricardo Gandra Di Bernardi

Somos Espíritos encarnados, trazemos em nosso inconsciente grande manancial de energias construídas ao longo dos milênios, isto é, de inúmeras reencarnações. Nossas mentes produzem ondas, geram campos de força e tem facilidade de sintonizar com outras mentes que vibram na mesma faixa que a nossa, mas, quanto maior a fragilidade ou imaturidade espiritual mais buscamos, instintivamente, apoio em outras mentes.

São sobejamente conhecidos os sintomas e comportamentos das pessoas que se acham dependentes de substâncias químicas e podemos fazer uma analogia com a dependência psíquica. Indivíduos, encarnados ou desencarnados, quando apresentam desequilíbrios vibratórios decorrentes de mente enferma ou debilitada, podem se tornar dependentes de outras pessoas ou até mesmo de ambientes, esses Espíritos encontram-se em dependência psíquica.

O dependente químico tem sintomas iniciais de euforia e aparente bem-estar, mas, com o tempo, os malefícios começam a aparecer e cresce a dependência ao produto ou droga. Na fase de viciação, há diversos prejuízos, também para as pessoas de convivência diária, pois a ausência da substância química desenvolve comportamentos de agressividade, agitação e outros, ocasionando sérios problemas no meio familiar e social que convivem.

A dependência mental, como fragilidade espiritual, segue o mesmo raciocínio da dependência química. Conversas picantes, anedotas chulas e atitudes depreciativas tidas como divertidas, quando relacionadas a determinados grupos, etnias, lugares ou tipos de pessoas, são exemplos que poderão trazer sensações de prazer mórbido, e a repetição dessa conduta, determina uma dependência mental e viciação à padrões de pensamento de baixo teor vibratório.

Há uma sintonia do indivíduo com Espíritos desencarnados que se comprazem com futilidades, além do indivíduo sintonizar com ondas mentais de pessoas encarnadas que irradiam pensamentos do mesmo padrão.  À medida que o Espírito (encarnado ou desencarnado) sintoniza com mentes desse jaez, passa a se alimentar de energia vital ou outras formas de energia provindas de mentes enfermas e, tal qual um dependente químico, passa a sentir falta da “alimentação” que o “nutre”. Sente-se carente da presença ou convívio de outras mentes enfermas com características semelhantes; já está, agora, na fase de dependência psíquica e se for afastado ou impedido do convívio com seus semelhantes – por orientação terapêutica ou espiritual -, pode apresentar agitação e agressividade exigindo cuidados especiais. Assim, observa-se que os sinais e sintomas do dependente psíquico, ao se ver privado de sua fonte de energias enfermas, se assemelham muito aos do dependente químico.

Existe, também, a dependência mental a uma pessoa, um líder por exemplo. O indivíduo sente um desejo incontido de estar próximo daquela pessoa, ser tocado, ouvir sem analisar, enfim, torna-se emocional e irracionalmente preso. Há inúmeras modalidades de dependência psíquica, por exemplo, necessidade exacerbada de fazer compras, prender-se a seriados na TV, internet, telefone celular, estádios de futebol, bares e outras, desde que essas atividades impeçam a pessoa de tornar-se mais produtiva, ampliando seus conhecimentos e valores da alma.

Quando esse tipo de distúrbio não é diagnosticado e tratado corretamente, o Espírito ao desencarnar leva consigo essa dependência e permanece atraído aos locais, atividades e pessoas às quais se encontra preso psiquicamente.

A leitura de bons livros, música elevada, filmes e documentários que tragam conhecimentos e estímulos aos bons princípios da ética são atividades que nos afastam das dependências psíquicas prejudiciais ao nosso Espírito. Buscarmos ambientes de harmonia e conversas saudáveis criam uma psicosfera favorável ao equilíbrio e refletem em nós a vontade do crescimento espiritual.

São preferências, desejos e vontades que determinam o tipo de energia que geramos e, principalmente, absorveremos e sentiremos falta quando estivermos privados dela. Vibremos no amor, alegria, tranquilidade, paz, estudo e trabalho que a atmosfera mental de nossos Espírito se enriquecerá com convivências construtivas, sem dependências psíquicas.

Todo costume, mesmo sendo elevado e construtivo deve libertar com responsabilidade e nunca prender.

Dr. Ricardo di Bernardi é fundador de ex-presidente da AME Santa Catarina, médico e conferencista espírita internacional.

Fonte: Medicina e Espiritualidade

Bibliografia PALMEIRA, José A. M./ BORTOLETTO, Ivaneide./ PESCHEBÉA, Marisa. A Dança das Energias, Cap. 3, 3ª Edição, Curitiba, Ed. Centro Espírita Luz e Caridade, 2016. 

KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns. Tradução de Herculano Pires São Paulo, Ed. LAKE, 1973.

XAVIER, Francisco Cândido/Espírito André Luiz.  Mecanismos da mediunidade. 8. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959.  Evolução em dois mundos. 9. Ed. Rio de Janeiro, FEB, 1959.

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