Agostinho e Kardec I

Autor: Humberto Schubert Coelho

Aurélio Agostinho, Agostinho de Tagaste, Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho, como é mais conhecido, foi uma das personalidades marcantes da história humana. O Cristianismo seria irreconhecível sem a expressão de seu gênio. Católicos, protestantes, ortodoxos e mesmo espíritas, estes dissidentes tão distantes de seus primos da tradição, todos têm em Agostinho um guia e referencial da pureza cristã, do zelo na defesa da fé, dos cuidados com a vigília incessante das obscuridades da alma e de um ardor poético no louvor a Deus

Falar de Agostinho significa assumir diversos riscos; riscos que preferiríamos evitar se não fosse tão grande a necessidade de trazê-lo mais para perto de nós. Sem medo de sermos prolixos, dividimos este artigo em três partes, referentes respectivamente à vida e conversão, às Confissões e uma última referente à Cidade de Deus e a presença dele na Codificação do Espiritismo. É que Agostinho não nos permite um gasto menor de espaço e esforço para apresentação de suas ideias, nem pode seu pensamento, como o da maioria, ser separado para fins didáticos, com o que se mataria sua essência rica de propósitos e referências cruzadas. Em outras palavras, só se compreende sua doutrina através de um contato com sua biografia.

Agostinho era um cidadão romano, pertencente a uma classe média. Numa sociedade complexa e diversificada, sua posição não distava muito da dos jovens de hoje, com seus divertimentos coletivos, caça às garotas e total despreocupação com o futuro. Sem serem ricos, Agostinho e os seus não tinham preocupações materiais. O pai era um adúltero assumido, e vivia conforme um homem de boa posição na sociedade romana. A mãe, sendo cristã, esperava sem ressentimentos ou perturbações, convencida de que Deus iria converter o filho pervertido e compensá-la pelos seus desgostos após a morte.

Agostinho via no pai a força e a liberdade do estilo de vida romano, com sua consciência desimpedida, e na mãe a figura dos fracos de espírito, com sua crença de escravos e perdedores. Apesar disso, uma parte de si a admirava na sua resignação estoica e na sua perseverança nos seus simplórios ideais.

Aos 18 anos viu-se pai de um filho, ao qual chamava jocosamente “filho dos meus pecados”. Aos 29, hábil nas letras e na retórica, decidiu mudar-se para Roma, em busca de melhores vencimentos e prestígio. A mãe, receosa de que isto agravasse seus desregramentos, decidiu ir junto. Agostinho fingiu aceitar, e no dia da viagem, enganou-a, deixando-a numa capela enquanto partia às pressas.[1] Ela, porém, não desistira de resgatar a alma corrompida do filho, e anos depois o alcançou em Milão.

Abraçou a doutrina do maniqueísmo, que deixaria marcas permanentes na sua e na visão de muitos outros cristãos. Adorava Cícero e os filósofos de seu tempo. Não fazia muitos comentários sobre os poetas, mas a julgar pela sua própria habilidade lírica deveria conhecê-los razoavelmente bem. Como retor era imbatível.

O problema de Agostinho com o Cristianismo era todo filosófico. Não admitia que aquele modelo simplório de descrição do mundo pudesse competir com a lógica da filosofia e o rigor das ciências e das artes liberais. Desde sua estadia em Roma já não era mais o hedonista e cínico da adolescência, nem o maniqueu esotérico da casa dos 20 anos, mas, enxergando seus erros, voltava a cair no mesmo abismo ao qual estava acostumado.

A vida de Agostinho era tudo menos monótona. Convencido pela mãe, cuja fé simples e sincera admirava, ouvia as pregações de santo Ambrósio em Milão. A seguir fugia desses flertes com o Cristianismo para não despertar o deboche dos colegas da academia. Mantinha diversos credos sem poder abraçar nenhum definitivamente.

Enfim o encontro com o platonismo e o neoplatonismo lhe propiciaram o contato com uma filosofia que ansiava pela proximidade com a religião.

Em um ambiente intelectualmente agitado, foi Paulo quem aos poucos conquistou seu espírito. Nos textos do velho convertido Agostinho reconhecia o pecador com quem podia se identificar; o arrependido que abandonara o orgulho da ciência do mundo e se transformara em santo.

Will Durant nos dá a seguinte descrição de suas crises psicológicas e de sua solução:

  • Cortejou durante algum tempo o ceticismo da academia. Era um homem de emoções fortes, portanto não demorava muito em pender por um ou por outro julgamento. Estudou Platão e Plotino em Roma; o neoplatonismo integrou-se profundamente em sua filosofia e, por intermédio dele, dominou a teologia cristã até o tempo de Abelardo. Tornou-se para Agostinho a porta de entrada para o Cristianismo… Certo dia, estando sentado num jardim de Milão com seu amigo Alípio, pareceu-lhe ouvir uma voz a repetir-lhe muitas vezes no ouvido: “lê, lê” Agostinho pôs-se a ler um trecho de Paulo: “Não vos entregueis a orgias e libações, não sejais ambicioso nem estroina, não sejais belicoso nem invejoso; entregai-vos a Nosso Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos carnais.” Esta passagem trouxe a Agostinho uma grande transformação de sentimentos e ideais; havia alguma coisa naquela fé que era mais ardente e mais profunda que toda a lógica da filosofia. O Cristianismo lhe surgiu dando-lhe uma satisfação profundamente emotiva. Renunciando ao ceticismo de sua inteligência, encontrou, pela primeira vez em sua vida, um estímulo moral e paz para o espírito.[2]

Essa é, aliás, a história de toda a conversão espontânea. Um fenômeno que acontece nos raríssimos momentos em que um ser humano sente aquilo que está lendo de um livro sagrado.

Começava a carreira de escritor e pregador cristão, com um brilhantismo que em muito ofuscava sua já reconhecida posição de professor de retórica. Os alunos dessa disciplina continuavam a chegar ao longo da vida de Agostinho, mas muitos se converteram ao Cristianismo através destas aulas. Poder-se-ia dizer que até então Agostinho brilhara pelo seu agudo intelecto; agora brilhava ainda mais, atingindo fama mundial com este mesmo intelecto alimentado por um fogo divino do sentimento e da fé exaltados.

Caracterizou-se pela defesa mista da liberdade e da graça na economia da salvação, pelo rigor de seu ascetismo e pela força inflamada com que defendia o Cristianismo de seus inúmeros perigos reais ou imaginários. Reforçou a doutrina do pecado, e de como a posição do homem exigia dele a mais profunda entrega a Deus. Este último traço de maniqueísmo o fazia enxergar apenas preto e branco nas questões morais e existenciais, ignorando circunstancias e relativismos culturais ou pessoais numa apologética irredutível de um cristianismo monástico.

De todas as suas disputas a mais malfadada, do ponto de vista espiritual, foi a que travou contra Pelágio, o herege que conseguiu furar todas as proibições do catolicismo e chegar aos grandes pensadores do Renascimento e do Iluminismo.

Durant narra da seguinte maneira esta saga:

  • Veio da Inglaterra o mais forte de seus oponentes, Pelágio, um monge independente, o qual defendeu com veemência a liberdade do homem e o fato de que ele podia salvar-se pela prática de boas ações. Na verdade, diz Pelágio, Deus nos auxilia, dando-nos Sua lei e mandamentos, o exemplo e preceitos dos santos, purificando-nos com a água do batismo e o sangue de Cristo. Deus não faz pesar a balança contra a nossa salvação ao fazer a natureza humana inerentemente má. Não houve pecado original, tampouco a queda do homem; somente aquele que comete o pecado é que será punido; sua culpa não recai nos filhos. Deus não predestina o homem para o céu ou o inferno, não escolhe arbitrariamente aquele que será condenado ou salvo; Ele deixa a nós mesmos a faculdade de escolhermos nosso destino. A teoria de que a depravação é inata na natureza humana, disse Pelágio, é a maneira covarde de se atribuir a Deus a culpa pelos pecados do homem. O homem é dotado de razão e, por isso, responsável pelos seus atos: “se devo fazer uma coisa é porque poso fazê-la.”
  • Pelágio chegou a Roma por volta de 400, viveu com famílias religiosas e granjeou a fama de ser muito virtuoso… Um sínodo realizado no Oriente julgou o monge e declarou-o ortodoxo; um sínodo africano, convocado por Agostinho, não aceitou esta decisão e apelou para o papa Inocêncio I, o qual declarou Pelágio um herético.

A disputa só foi concluída alguns anos depois com o Concílio de Éfeso, em que Pelágio e toda a sua doutrina foram condenados para sempre. Essa marca haveria de ser transmitida do catolicismo ao protestantismo, e jamais o Cristianismo aceitaria pacificamente a salvação pelo esforço e mérito, a inocência original do homem e a capacidade da razão de julgar o caminho mais apropriado para a fé. Graças a Agostinho, razão e fé se desenvolveram segundo uma ligação sólida, mas conturbada na tradição cristã, contrariamente à perfeita acomodação de que desfrutavam sob a ótica mais intelectualista do pensamento grego. Por mais que Agostinho estivesse satisfeito em abandonar sua promiscuidade e vaidade intelectual, esses que ele considerava sérios pecados nunca produziriam tanto mal para o mundo quanto a defecção da salutar doutrina de Pelágio.

Seus erros e virtudes se misturam de tal modo que seria impossível, talvez, separá-los. Um menor ardor poderia ter arrefecido em excesso a índole combativa, fonte de sua produtividade; e uma tolerância mais filosófica poderia dar um ar pagão que desmereceria seus escritos aos olhos do clero, diminuindo seu impacto. Se Agostinho errou muito no que toca a sua intransigência, foi o espírito necessário num tempo de caos, pluralidade de doutrinas esdrúxulas e decadência final da sociedade romana que desaparecia ante as marés bárbaras. Um homem menos convicto provavelmente teria sido engolido pelas sombras do olvido, como ocorreu a maioria de seus opositores.

Feita essa apreciação, tem todo o cristão a obrigação de votar a ele a mais sincera gratidão pelos escritos edificantes que legou ao mundo. Nas Confissões, livro que imita o costume primitivo de se confessarem os cristãos uns aos outros em público, Agostinho deixa de lado suas inúmeras disputas ideológicas para alçar vôos de introspecção. São esses escritos, certamente, que lhe deram a palma posterior de autoridade máxima nos assuntos referentes ao autoconhecimento.

Fonte: espiritismo.net

Bibliografia:

DURANT, Will. A História da Civilização IV: A Idade da Fé. Rio de Janeiro: Record, 2002.

[1] Will DURANT. A História da Civilização IV: A Idade da Fé. Pg. 59.

[2] Will DURANT. A História da Civilização IV: A Idade da Fé. Pg. 59.

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Por que as coisas não melhoram?

Sidney Fernandes

Infelizes que procuram casas religiosas em busca de equilíbrio, amparo, socorro e consolo, são motivados à oração, ao trabalho, à resignação e ao aprendizado.

Mas, estranho, quando adentram esses locais, em busca do esclarecimento, da fluidoterapia, da aposição de mãos, dos tratamentos espirituais ou do trabalho que equilibra, santifica e afasta as más influências, parece que alguns pioram. Sentem-se aturdidos, cercados e com a sensação de que as dores e os incômodos aumentaram, não obstante terem iniciado os tratamentos recomendados.

Vocação para a tristeza

A principal causa de nossos sofrimentos encontra-se nas sombras de nossa consciência. Antes de culpar espíritos ou más vibrações, devemos entender que as máculas internas provocam inquietações que, sua por vez, se transformam em doenças físicas e da alma. Pessoas começam atormentando a si mesmas e acabam sendo atormentadas por seres que se afinam com seus desequilíbrios.

Está aí a corporificação do ditado popular quem namora a doença, acaba se casando com ela, que tem, como vítimas preferidas, criaturas que costumam usar óculos escuros e veem somente sombras na vida e nas outras pessoas.

Tristeza tem remédio?

Fui encontrar, em brilhante artigo da escritora Denize Gonçalves, intitulado “Qual é o melhor remédio para tratar a tristeza? ”, excelente recomendação. Diz ela que o melhor remédio para tratar a tristeza não é a alegria, como muitos pensam. A gratidão é que leva a pessoa à alegria. A partir daí a autora discorre sobre a necessidade de agradecermos a Deus por mais um dia de vida e pelas oportunidades de desenvolvimento de nossas virtudes.

Obsessores? Não! Sócios no vício

Como vemos, amigo leitor, não nos cabe apenas defenestrar terceiros, atribuindo-lhes a culpa de nossos sofrimentos. O primeiro passo, sem dúvida, é olharmos para dentro de nós mesmos e lavarmos as sombras que imprimimos em nossas consciências. E os espíritos, são sempre vilões?

Aqueles que chamamos de temíveis obsessores, muitas vezes nada mais são do que sócios no vício. André Luiz, em Sexo e destino, descreve a situação de Cláudio, em que ele não conseguia especificar se o viciado era o encarnado, o desencarnado ou ambos. Não havia violência ou tortura e sim processo de fusão entre os dois, por deliberação própria.

Processo obsessivo

Pode acontecer, no entanto, que esteja instalado o processo obsessivo movido por espíritos não necessariamente cruéis, nem encarniçados perseguidores. Os vícios, por exemplo, não produzem apenas condicionamentos físicos, pois atingem o âmago de nossa alma. Todo viciado é um obsidiado em potencial, que acaba atraindo viciados desencarnados. Quando comparece a uma instituição — igreja, templo, centro espírita ou casa de recuperação —, os patrocinadores do seu processo vicioso podem reagir, por não admitir perder a sua presa, e acentuar os seus sintomas.

Os bons podem ser assediados pelos maus?

Não somente os tristes, os nostálgicos, os sócios dos desencarnados ou os portadores de vícios e feridas morais são objeto de ataque de irmãos infelizes. Os que se dedicam ao bem também atraem sua atenção.

Mestre da síntese, o exegeta Emmanuel, ao analisar este texto do evangelista João — E os principais sacerdotes tomaram a deliberação de matar também a Lázaro —, apresenta a intenção do farisaísmo de destruir Lázaro, para que não se consolidasse o poder do Cristo. Nessa análise, Emmanuel alerta os participantes do Evangelho quanto à ameaça dos fariseus nos dias que passam, que se sentem incomodados e perseguem os que se unem ao amor de Jesus. Em outras palavras, Emmanuel recomenda cuidado aos que saem da sombra para a luz e do mal para o bem, para que se previnam contra os fariseus dos dias atuais, visíveis e invisíveis, isto é, encarnados e desencarnados, que trabalham contra os valores da fé e a força dos ideais cristãos.

Qual é a melhor defesa?

Diante dos ignorantes que querem nos manter afastados do conhecimento e do sentimento, precisaremos agir firmemente, como recomendam os espíritos, diante de providencial pergunta feita pelo Codificador:

— Como podemos neutralizar a influência dos maus espíritos?

Se queremos combater a tristeza, desfazer associações infelizes, libertar-nos dos vícios e reunir forças para vencer os adversários da verdade, o remédio infalível será abrir o guarda-chuva da persistência no bem e da confiança em Deus, praticando a recomendação dos mentores a Allan Kardec:

— Praticando o bem e pondo em Deus a vossa confiança, repelireis a influência dos espíritos inferiores e aniquilareis o império que desejam ter sobre vós.

Guarda-chuva divino

Pode acontecer de as coisas piorarem, por algum tempo, quando resolvermos abandonar velhos vícios e velhos parceiros. No entanto, ao nos inclinarmos para o lado do Cristo, ele, cheio de abnegação e amor, nos dará forças, na exata medida dos recursos específicos para cada um de nós. Estaremos abrindo o divino guarda-chuva, que nos abrigará e protegerá de todas as intempéries.

Referências:

Uma razão para viver, Richard Simonetti; Vinha de Luz e Pão Nosso, Emmanuel; Ação e reação e Sexo e destino, André Luiz; Artigo de Denize Gonçalves publicado no Diário de Votuporanga, em 21/8/21; O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.

Sidney Fernandes

Fonte: Espiritismo na Rede

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Maria Madalena: a seguidora fiel

Maria Cristina Rivé

Madalena é o emblema do feminino. Falar do feminino é falar e é sofrer.

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Ao contemplarmos a História da humanidade nos deparamos com fatos reais e imaginários. Dentre esses alguns lisonjeiros, outros nem tanto. Dizem que a História é contada pelo vencedor, mas não impede que outros olhos percebam e, mesmo secretamente, proponham outra maneira de entendê-la, porque, em geral, imprimimos ao que vivenciamos a nossa maneira de ser.

Madalena é o emblema do feminino. Falar do feminino é falar e é sofrer. Sofrimento sentido e infligido por seres que ainda não aprenderam a conviver. Principalmente, porque somos o fruto de uma cultura machista por excelência. A Doutrina Espírita nos ensina em paralelo, que somos Espíritos em evolução, aprendendo em cada momento e não somente em percalços sentidos, mas também naquilo que impomos por nossas condutas aos companheiros dessa longa jornada.

Para desmistificar a história de Madalena, devemos atuar no imaginário, na feliz oportunidade de revisão dos nossos valores, despindo-nos de preconceitos para, indo além, atuarmos de forma efetiva na sociedade atual, tão carente de valores espirituais. Assim, podemos desenvolver em nós a percepção de que a beleza está em caminhar junto – nem à frente, nem atrás – e que o estado de felicidade é encontrado ao se sentir parte de uma estrutura muito maior: a Criação, na qual tudo está inserido, tudo faz parte e nada deve ficar para trás.

Aprendemos, na cultura judaico-cristã, que Madalena fora uma pecadora, prostituta, torturada (obsidiada) por demônios (Espíritos inferiores). Todavia parece não ter sido bem assim. É fato que seu nome seja citado treze vezes no Novo Testamento, porque, segundo estudos, era ela quem melhor entendia o pensamento de Jesus, Inclusive, ela foi aquela que acompanhou o Mestre durante o flagelo e na crucificação, enquanto os seguidores homens ou o negaram ou fugiram por medo e por incompreensão.

Madalena foi uma pregadora e tornou-se santa – aqui se entenda santa sob o aspecto espírita, ou seja, um Espírito mais elevado que os demais. E aí está a importância. Uma mulher como a maior entendedora da obra de Jesus, de seus ensinos e de seu trabalho. O que nos leva a pensar muito além da escravização da figura feminina na História da Humanidade, realizada por seres possuidores do horror ao feminino. É a misoginia mais uma vez incorporada ao transcurso dos seres.

Àqueles que se sentem excluídos, por algum motivo, e àqueles que excluem, eu dedico este texto.

Maria Cristina Rivé

Fonte: Casa Espírita Nova Era

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A falsa mendiga

Zezélia pedia esmolas, havia muitos anos.

Não era tão doente que não pudesse trabalhar, produzindo algo de útil, mas não se animava a enfrentar qualquer disciplina de serviço.

— Esmola pelo amor de Deus! — clamava o dia inteiro, dirigindo-se aos transeuntes, sentada à porta de imundo telheiro.

De quando em quando, pessoas amigas, depois de lhe darem um níquel, aconselhavam:

— Zezélia, você não poderia plantar algum milho?

— Não posso… — respondia logo.

— Zezélia, quem sabe poderia você beneficiar alguns quilos de café?

— Quem sou eu, meu filho? não tenho forças…

— Não desejaria lavar roupa e ganhar algum dinheiro? — indagavam damas bondosas.

— Nem pensar nisto. Não aguento…

— Zezélia, vamos vender flores! — convidavam algumas jovens que se compadeciam dela.

— Não posso andar, minhas filhas!… —exclamava, suspirando.

— E o bordado, Zezélia? — interrogava a vizinha, prestativa — você tem as mãos livres. A agulha é uma boa companheira. Quem sabe poderá ajudar-nos?

Receberá compensadora remuneração.

— Não tenho os dedos seguros — informava, teimosa — e falta-me suficiente energia… Não posso, minha senhora…

E, assim, Zezélia vivia prostrada, sem ânimo, sem alegria.

Afirmava sentir dores por toda parte do corpo. Dava notícias da tosse, da tonteira e do resfriado com longas palavras que raras pessoas dispunham de tempo para ouvir. Além das lamentações contínuas, clamava que não bebia café por falta de açúcar, que não almoçara por não dispor de alimentação.

Tanto pediu, chorou e se queixou Zezélia que, em certa manhã, foi encontrada morta e a caridade pública enterrou-lhe o corpo com muita piedade.

Todos os vizinhos e conhecidos julgaram que a alma de Zezélia fora diretamente para o Céu; entretanto, não foi assim.

Ela acordou em meio dum campo muito escuro e muito frio.

Achava-se sem ninguém e gritou, aflita, pelo socorro de Deus.

Depois de muito tempo, um anjo apareceu e disse-lhe, bondoso:

— Zezélia, que deseja você?

— Ah! — observou, muito vaidosa — já sou conhecida na Casa Celestial?

— Há muito tempo — informou o emissário, compadecido.

A velha começou a chorar e rogou em pranto:

— Tenho sofrido muito!… quero o amparo do Alto!…

— Mas, ouça! — esclareceu o mensageiro —o auxílio divino é para quem trabalha. Quem não planta, nada tem a colher. Você não cavou a terra, não cuidou de plantas, não ajudou os animais, não fiou o algodão, não teceu fios, não costurou o pano, não amparou crianças, não fêz pão, não lavou roupa, não

varreu a casa, não cuidou de flores, não tratou nem mesmo de sua saúde e de seu corpo… Como pretende receber as bênçãos de Cima?

A infeliz observou, então:

— Nada podia fazer… eu era mendiga…

O anjo, contudo, replicou:

— Não, Zezélia! — você não era mendiga. Você foi simplesmente preguiçosa. Quando aprender a trabalhar, chame por nós e receberá o socorro celeste.

Cerrou-se-lhe aos olhos o horizonte de luz e, às escuras, Zezélia voltou para a Terra, a fim de renovar-se.

Redação do Blog Espiritismo Na Rede,extraído da obra Alvorada Cristã pelo espiríto Neio Lúcio  através da psicografia de  Chico Xavier

Fonte: Espiritismo na Rede

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As lições de Allan Kardec para a boa convivência no centro espírita

Por Eliana Haddad

Sempre atento à qualidade das atividades realizadas nas sociedades espíritas, quando o espiritismo ainda dava seus primeiros passos na França no século 19, Allan Kardec preocupava-se com o fortalecimento da socialização e da união dos grupos nascentes, com foco na delicada tarefa da convivência fraterna entre seus membros. Sabia ele ser esse um guia indispensável para o empreendimento de qualquer trabalho ou estudo do espiritismo.

Em discursos ou em textos na Revista Espírita, por ocasião da abertura e encerramento do ano social da Sociedade Parisiense, há nos comentários de Kardec valiosas instruções para a real compreensão não apenas da doutrina espírita, mas também um convite direto aos espíritas ao empenho pelo cultivo de valores e sentimentos de renovação moral.

Kardec e os espíritos sempre deixaram claro o caráter educativo das instituições espíritas, aspecto importante a ser primeiramente reverenciado em qualquer tarefa, tendo-se os grupos que se formavam como um laboratório fraterno de experiências individuais e coletivas que tinham como finalidade a renovação social através do melhoramento dos indivíduos.

Ensina o espiritismo que não basta saber, sendo necessário vivenciar a aplicação dos conhecimentos adquiridos no aprimoramento das relações humanas, constituindo-se os grupos espíritas células indispensáveis para fomentação de um mundo melhor, mais ético, espiritualizado e fraterno.

“O homem chegou a um período em que as ciências, as artes e a indústria atingiram um limite até hoje desconhecidos. Se os gozos que delas tira satisfazem a vida material, deixam um vazio na alma e ele aspira a algo melhor”, já observava Kardec, em 1862, ao se dirigir aos espíritas de Lyon e Bordeaux, em 1862.

Cidadão de vanguarda, Allan Kardec constatava no século 19 que o homem “sonha” com melhores instituições. “Quer a vida, a felicidade, a igualdade, a justiça para todos. Mas como atingir tudo isso com os vícios da sociedade e, sobretudo, com o egoísmo?”, refletia, sabedor que era da imperfeição humana como fonte geradora dos mais diversos conflitos.

Proposta renovadora

Foi assim que o espiritismo chegou à Terra, tendo como bandeira a caridade e muito bem representando a proposta de esforço para a renovação humana, com base nos novos conhecimentos da vida futura e da imortalidade da alma. Havia, ao mesmo tempo, a necessidade de se aprender a fazer nas próprias sociedades espíritas a lição de casa do respeito mútuo e da fraternidade, superando-se melindres, ressentimentos, dissidências.

Hoje, essa delicada tarefa continua e faz lembrar a afabilidade e a seriedade de Kardec em seus encontros com os espíritas, “um banquete de amigos”, segundo ele, que deveria prezar sempre pela união e pelos sentimentos de amor.

Assim como à época do espiritismo nascente, habitamos um mundo imperfeito conforme nosso merecimento e, ainda que as verdades espirituais nos animem e nos consolem, não podemos viver alienados do agora, do que se passa a nossa volta.

Observamos com frequência tantos quadros de desajustes, que assinalam distúrbios mentais e emocionais associados a obsessões, perguntando-nos até quando estaremos a comprometer e a atrasar nossa caminhada evolutiva nesse orbe repleto de tantas belezas, mas que também nos assusta pela prevalência do materialismo, retratado por vezes pela agressividade e, por outras, pela apatia.

A convivência na casa espírita necessita desse reconhecimento, da consciência de que todos estamos em processo de evolução na complexidade desse mundo contemporâneo bastante conturbado, mas que também nos oferece inúmeras possibilidades de aprendizado e retomadas de rotas. “Coloco em primeira instância o consolo que é preciso oferecer aos que sofrem, erguer a coragem dos caídos, arrancar o homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no limiar do crime…”, discursou Kardec em 1862 sobre as tarefas a serem desempenhadas pelos grupos espíritas.

Falíveis e frágeis

Não são poucas as vezes em que a convivência na casa espírita fica estremecida pela falta de observação das condições ainda limitantes da nossa história espiritual. Esquecemos quase sempre de que estamos todos no mesmo barco, navegando nas mesmas águas, mas temporariamente sentados em lugares diferentes, que também nos proporcionam visões e desafios diferentes.

Ser espírita não é apenas uma questão de rótulo, mas exige reflexão. “Não basta dizer-se espírita. Aquele que o é de coração prova-o por seus atos, não pregando senão o bem, o respeito às leis, à caridade, à tolerância e à benevolência para com todos”, escreveu Kardec na Revista Espírita de janeiro de 1867.

Antes, em junho de 1865, já alertava ele que havia espíritas dos mais variados temperamentos. “Entre os impacientes, há alguns de muito boa-fé e que gostariam que as coisas andassem mais depressa. Assemelham-se a essas criaturas que julgam adiantar o tempo adiantando o relógio. Outros, não menos sinceros, são impelidos pelo amor-próprio a serem os primeiros a chegar; semeiam antes da estação e apenas colhem frutos malogrados. Infelizmente, ao lado destes, existem outros que empurram o carro a mil por hora, na esperança de vê-lo tombar”.

A infiltração espiritual

Outro ponto não menos importante enaltecido por Allan Kardec sobre os grupos espíritas foi sobre a questão da invigilância.

Sabe-se que os maiores processos obsessivos, individuais e coletivos, começam pelas pequenas brechas de sintonia e sentimentos. Por isso, se a função prioritária da instituição espírita diz respeito ao melhoramento humano, sabe-se também que, por aprendizado, é preciso zelar para que espíritos ainda opostos ao trabalho do Bem não encontrem ambiente propício para tumultuarem as instituições. Aproveitam-se de pequenas desavenças e ausência de sentimentos nobres, situações tão comuns no estado evolutivo em que nos encontramos e que são causadoras de intrigas e disputas internas, consequências do orgulho e da vaidade. “Espíritos malfeitores se ligam aos grupos, do mesmo modo que aos indivíduos. Ligam-se, primeiramente, aos mais fracos, aos mais acessíveis, procurando fazê-los seus instrumentos e gradativamente vão envolvendo os conjuntos…”, ensina O livro dos médiuns, item 340.

Sem dúvida, o orar e vigiar deve estar sempre presente também nas relações do centro espírita. “Se o espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas, com as quais se tem de contar sempre, pode, todavia, neutralizar suas consequências e isto é o essencial”, observou Kardec (veja o quadro).

Opiniões divergentes

Quantas vezes, nas mais variadas situações da vida, nos desentendemos por não compartilharmos as mesmas ideias, as mesmas opiniões?

Quando isso acontece na convivência nas instituições espíritas, cumpre-nos observar que o equilíbrio e a resposta devem estar focados na obra de Allan Kardec, pois os objetivos do espiritismo não estão relacionados a meras opiniões pessoais, mas a uma orientação doutrinária estabelecida pela teoria espírita tão bem trabalhada por Allan Kardec após a observação dos fatos. Não se trata, portanto, de buscar soluções com base em “achismos”, mas em ações responsáveis apoiadas na fidelidade aos princípios espíritas elencados e analisados amplamente nas obras de Allan Kardec, o que permitirá uma linguagem comum a todos em momentos de dúvidas ou conflitos.

Aqui se vê a importância do estudo sério e constante do espiritismo como um todo e não apenas a simples leitura de partes de capítulos de uma obra tão vasta, que podem até mesmo ser utilizadas erroneamente para justificar defesas pessoais.

Como observou o escritor e filósofo J. Herculano Pires, o espiritismo ainda é  “um grande desconhecido” e Allan Kardec deixou muito claro que o conhecimento de qualquer ciência exige tempo de dedicação.

O estudo, para melhor compreensão, e a caridade, para melhor vivência, constituem-se nos dois grandes pilares de sustentação dos trabalhos desenvolvidos na casa espírita, cuja síntese se realizará através da fé raciocinada, que deverá nortear os valores para uma melhor convivência.

Kardec destacou que, para neutralizar a influência de ideias errôneas, é preciso um maior empenho na divulgação dos temas espíritas e na formação de “adeptos” esclarecidos. “Está provado que o espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal, do que pelos que não o compreendem absolutamente”, observou.

Compromisso ético

Naturalmente, o espiritismo nos convida a um novo olhar para as relações, e as casas espíritas nos oferecem as oportunidades de vivenciar essa experiência a todo momento.

A ética espírita relembra as lições de amor, sabedoria e justiça enaltecidas por Jesus, o espírito mais evoluído que esteve entre nós: Não fazer ao outro o que não gostaria que lhe fizessem.

Kardec também chamou a atenção sobre isso na Revista Espírita de 1864: “A caridade e a fraternidade são reconhecidas pelas obras e não por palavras. (…) É a pedra de toque com a qual identificamos a sinceridade dos sentimentos. E, em espiritismo, quando se fala de caridade, sabemos que não se trata apenas daquela que dá, mas sobretudo daquela que esquece e perdoa, que é benevolente e indulgente, que repudia todo sentimento de inveja e rancor”.

Um roteiro para o centro espírita

  • A convivência saudável e prazerosa na casa espírita exige esforços de todos – dirigentes, colaboradores e frequentadores.
  • Devem colocar-se em posição de destaque todos os que militam pela causa com coragem […] e sem segunda intenção pessoal, que buscam o triunfo da doutrina pela doutrina e não pela satisfação de seu amor-próprio.
  • São as nossas falhas que causam situações embaraçosas nas nossas relações, atraindo influências espirituais infelizes que podem comprometer o trabalho sério. Sobre o assunto, Allan Kardec analisa, em O livro dos médiuns, o perigo da influência espiritual negativa nos grupos espíritas e prescreve valioso roteiro de valores para afastar essas influências:
  • Perfeita comunhão de vistas e de sentimentos;
  • Cordialidade recíproca entre todos os membros;
  • Ausência de todo sentimento contrário à verdadeira caridade;
  • Um único desejo: o de se instruir e se melhorar por meio dos ensinos dos espíritos e do aproveitamento de seus conselhos.

Fonte: correio.news

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A visão espírita das drogas

Rafaela Paes de Campos

É muito necessário que se traga tal temática à baila e, na mesma proporção, é triste o contexto no qual se inserem aqueles que se deixam levar pela viciação em substâncias que proporcionam fuga da realidade e ilusória sensação de bem-estar que, ao longo do tempo, torna-se cada vez mais difícil de alcançar, levando ao agravamento do quadro.

Quando se fala a respeito das drogas, é comum que automaticamente pensemos naquelas que são tidas como ilícitas pela materialidade do Direito, mas há outras, livremente comercializadas, com alto poder de viciação e de danos na vida daqueles que a consomem e, sim, na das pessoas que convivem e amam o que se deixou levar pelo vício.

Dados do Relatório Mundial sobre Drogas 2022, elaborado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), dão conta de que os jovens estão consumindo mais drogas, sendo que na América Latina e na África, pessoas com menos de 35 anos são a maioria das que se encontram em tratamento decorrente do vício. E informa, ainda, que no ano de 2020, 284 milhões de pessoas com idade entre 15 e 64 anos fizeram uso de drogas, o que corresponde a um aumento de 26% em comparação a 10 anos atrás (SAÚDE DEBATE, 2022, on-line). Esses dados referem-se a drogas ilícitas.

São números alarmantes e, claro, é um quadro gravíssimo vivido pela sociedade contemporânea.

Não há como esquecer do álcool, vendido livremente e socialmente aceito, levando a altos índices de dependência que devastam o alcoolista e suas famílias. Por fim, há os cigarros, também vendidos livremente e, mais recentemente, o advento da ‘moda’ dos cigarros eletrônicos que seguem sendo vendidos apesar da proibição constante na Resolução nº 46, de 28 de agosto de 2009, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

Sejam ilícitas ou licitas, as drogas destroem a vida daquele que as consome, destroem famílias, fragilizam a todos emocionalmente, além do claro prejuízo trazido à saúde do usuário. São temas ainda tido como tabus pela coletividade, que causam desconforto e tornam dependentes pessoas mal vistas, quando necessitam, na realidade, de amparo, acolhimento e socorro.

Do ponto de vista da Doutrina Espírita, é preciso reconhecer que viver num mundo de provas e expiações traz intenso peso ao caminhar da vida. Bem sabemos que vivemos dificuldades diversas ao longo do tempo, sejam elas, provas a nos testar ou expiações a resgatar, levando algumas pessoas à triste conclusão de que drogas são capazes de aliviar o peso dos acontecimentos.

Estarmos hoje encarnados tem o objetivo primordial de que todos nós alcemos voos maiores com nossos aprendizados e, assim, evoluamos. Entretanto, quando nos deixamos levar pelas pretensas fugas da realidade, estamos apenas agindo de forma a adiar esse processo, numa perda de tempo triste para o Espírito.

Diz-nos Kardec em nota à questão 908 de O Livro dos Espíritos que “toda paixão que aproxima o homem da natureza animal afasta-o da natureza espiritual” (KARDEC, 2022, p. 325). Aquilo que nos leva a priorizar o ‘prazer’ da matéria – como as sensações proporcionadas pelas drogas – nos aproximam de nossa essência material, distanciando-nos da natureza real do Espírito que somos.

São diversos os motivos elencados por aqueles que se inseriram nas realidades viciosas, mas em todos eles houve uma escolha inicial que poderia ter sido outra. Na questão 909 também de O Livro dos Espíritos temos:

909. Poderia o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços” (KARDEC, 2022, p. 325).

É possível que façamos certa ideia das dores vivenciadas por aqueles que sucumbem, mas todos nós bem sabemos dos prejuízos oriundos de tais condutas. Utilizando da racionalidade que nos é inerente, a repulsa pelo uso de drogas seria esse esforço insignificante mencionado pela Espiritualidade. Mas a escolha feita é outra, num exercício pleno do livre-arbítrio que acompanha a todos nós.

Isso porque não há que se falar em arrastamentos irresistíveis, nem quando se está às beiras da atmosfera viciante: “Arrastamento, sim, irresistível, não; porquanto mesmo dentro da atmosfera do vício, com grandes virtudes às vezes deparas. São Espíritos que tiveram a força de resistir e que, ao mesmo tempo, receberam a missão de exercer boa influência sobre os seus semelhantes” (KARDEC, 2022, p. 246-247).

Reitera-se, não devemos julgar as escolhas alheias, não conhecemos senão as dores que sentimos em nossa própria pele, mas é certo que a todos nós, diante de cada necessidade de decisão na vida, há sempre dois caminhos. Um que já sabemos ser o certo e, o outro, tido como mais fácil (embora traga problemas maiores ao fim da estrada).

Como diz-nos o Espírito de um boêmio no livro O Céu e o Inferno, “as paixões humanas são grilhões estreitos que se enterram nas carnes; assim sendo, não lhes dei guarida. Vivei, mas não sejais boêmios. Não sabeis o quanto isso custa, quando regressamos à pátria! As paixões humanas vos despem antes de vos deixarem, de modo que chegareis nus diante do Senhor, completamente nus” (KARDEC, 2019, p. 194).

É necessário que olhemos para essas situações com caridade, não marginalizando o que se encontra perdido nas garras do vício, dando suporte emocional (que geralmente é extremamente fragilizado) e, seguindo a premissa de que a ciência hoje disponível é permitida pelo Alto, que façamos uso das terapias existentes no auxílio desses irmãos.

Esclarecendo sob a ótica Espírita, por certo que tais condições levam ao que se denomina suicídio indireto, onde não se tira a vida de forma instantânea, mas que se sabe que o decorrer do tempo fará antecipar a deterioração do corpo físico muito antes da hora.

São tristes as consequências materiais do vício, e mais ainda as que são encontradas pelo Espírito ao retornar à imaterialidade da vida, encontrando a mesma dor sentida antes, agravada pela consciência expandida e a triste visualização de um tempo perdido que não se recupera. Essas questões são brilhantemente esmiuçadas pela obra Para Superar a Dor, psicografada por Eliane Macarini e ditada pelo Espírito Marco Aurélio, que é o mais novo lançamento da editora Letra Espírita e fica como dica de leitura.

Protejamo-nos das perigosas dores que permitimos que nos lacem, estejamos atentos às sedutoras resoluções que de positivas nada carregam. E se tais garras não nos encontraram, proporcionando que olhemos de fora a situação, que saibamos ser luz no caminho dos que se encontram na escuridão, utilizando-nos do conhecimento intelectual e espiritual que já dispomos, a fim de oferecer amparo aos irmãos que ainda se perdem pelas sendas da encarnação humana.

Rafaela Paes de Campos

Fonte: Letra Espírita

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Referências:

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 2019. Editora EME: Capivari/SP.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Guillon Ribeiro. 2022. Editora Letra Espírita: Campos dos Goytacazes/RJ.

SAÚDE DEBATE. Relatório revela que jovens estão usando mais drogas. 2022. Disponível em: https://saudedebate.com.br/noticias/relatorio-revela-que-jovens-estao-usando-mais-drogas/. Acesso em 16 de fevereiro de 2023.

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Doenças do comportamento

Joanna de Ângelis

A vida mental responde pelas atitudes comportamentais, expressando-se em formas de saúde ou doença conforme o teor vibratório de que se revista.

O bombardeio de petardos contínuos, portadores de alta carga destrutiva, agindo sobre os tecidos sutis da alma, desarticula as engrenagens do perispírito que reflete, no corpo e na emoção, as enfermidades de etiologia difícil de ser detectada pelos métodos comuns.

À exceção dos severos problemas de saúde defluentes das reencarnações passadas, como as viroses e psicoses profundas, as mutilações e deficiências traumatizantes, as baciloses e idiotias irreversíveis que se gravaram como necessidade provacional ou expiatória, grande parte dos males que pesam na economia da área do equilíbrio fisiopsíquico decorre da ação da mente desgovernada, sujeita à indisciplina de conduta e, sobretudo, rebelde, fixada aos caprichos das paixões mais primitivas.

É natural e justo que a descarga mental desagregadora lançada contra alguém, primeiramente atinja os equipamentos que lhe sustentam a onda emissora.

Acumulando cargas deletérias, desconjuntam-se os delicados tecidos sustentados pela energia, ocasionando os desastres no campo da inarmonia propiciadora de distúrbios variados e contaminações compreensíveis.

A ação imunológica do organismo desaparece sob a contínua descarga das forças perniciosas, abrindo espaço para as calamidades físicas e psicológicas.

Relacionemos algumas ocorrências:

A impetuosidade bloqueia a razão e desarticula o sistema nervoso central.

A queixa e o azedume emitem ondas pessimistas que sobrecarregam os sistemas de comunicação, produzindo envenenamento mental.

A ira obnubila o discernimento e produz disfunções gastrintestinais pelos tóxicos que lança na organização biológica.

A mágoa enlouquece, em razão de produzir fixações que se transformam em monoideísmo avassalador.

A insatisfação perturba o senso de observação e afeta o ritmo circulatório, promovendo quadros depressivos, ou excitantes e prejudiciais.

O ciúme enceguece e desencadeia disritmias emocionais pela tensão que domina os neurônios condutores do pensamento.

A maledicência incorpora a calúnia e ambas desorganizam a escala de valores, aumentando os estímulos no aparelho endocrínico que se exaure.

A ansiedade e o medo desestruturam o edifício celular dando margem a distonias complexas.

A vingança, sob qualquer aspecto agasalhada, corrói os sentimentos, qual ácido destruidor, abrindo brechas para a amargura, o suicídio, a alucinação…

Não nos referimos aos componentes obsessivos, por desnecessário, que tais atitudes facultam por sintonia.

Vários tipos de cânceres, alergias e infecções na esfera física, e neuroses, esquizofrenias e psicoses na faixa psíquica, têm as suas gêneses no comportamento mental e nos seus efeitos morais.

A ação dos medicamentos e de várias psicoterapias por não alcançarem os centros mentais geradores do mau comportamento, tomam-se inócuos, quando não constituem sobrecarga nos órgãos encarregados dos fenômenos de assimilação e de eliminação…

Compreensível, portanto, que as construções positivas do bem e o cultivo das virtudes evangélicas produzam quadros de saúde e de bem-estar pelos estímulos e recursos que oferecem à organização fisiopsíquica do homem.

Mantém-te equilibrado a qualquer preço, para que não pagues o preço da culpa.

Não sejas aquele que se faz o mau exemplo.

Sê discreto e aprende a superar-te.

Vence os pequenos problemas e percalços com dignidade, a fim de superares os grandes desafios da vida com honradez.

Podes o que queres.

Resolve-te, em definitivo, por ser cristão, não te permitindo o que nos outros censuras, sem desculpismos nem uso de medidas infelizes com as quais esperas do próximo aquilo que ainda não podes ser.

Redação do Blog Espiritismo Na Rede, baseado na obra Seara do Bem pelo Espirito Joanna de Ângelis psicografia Divaldo Franco em Viseu, Portugal, 08.10.1983.

Fonte: Espiritismo na Rede

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Afinal, o que é o Espiritismo Laico?

por Salomão Jacob Benchaya

“Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor, inevitavelmente, se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral” (Allan Kardec – “Revue Spirite”, Dezembro/1868).

Adjetivação, origem e contexto

A rigor, o Espiritismo não deveria ser adjetivado. A expressão “Espiritismo laico” só existe por necessidade comunicacional de distinguir-se do “Espiritismo cristão (ou evangélico)”, segmento majoritário liderado pela FEB. No movimento espírita, o primeiro é constituído pelos que consideram o Espiritismo sob uma perspectiva laica, humanista, livre pensadora, progressista, pluralista e alteritária. A expressão “Espiritismo laico” é tão imprópria como “Espiritismo cristão” ou “Espiritismo religioso”, mas permite identificar as posturas decorrentes, na prática espírita, de uma ou de outra posição. Queiramos ou não, é forçoso admitir que os espíritas se agrupam por preferências e particularidades formando segmentos ou vertentes, tais como, religiosos ou evangélicos ou cristãos, laicos ou não religiosos, roustainguistas, ubaldistas, ramatizistas, armondistas, apometristas, chiquistas, divaldistas etc.

O Espiritismo laico e livre-pensador contrapõe-se ao modelo dominante de Espiritismo religioso, cristão e/ou evangélico. Enquanto o Espiritismo religioso apregoa a tríade ciência-filosofia-religião, os laicos preferem ciência-filosofia-moral, embora admitam que Kardec nunca propôs essa tripartição. Kardec classificava o Espiritismo como ciência filosófica de consequências morais. A definição de Espiritismo dada por Kardec na Introdução do livro “O que é o Espiritismo” expressava essa condição epistemológica.

No Capítulo I de “O evangelho segundo o Espiritismo”, quando Kardec idealizou a “Aliança da Ciência e da Religião” sua intenção era de que o Espiritismo se tornasse um traço de união entre as mesmas. Ou seja, o Espiritismo forneceria à Religião argumentos racionais que a fortaleceriam e à Ciência, o elemento espiritual de que esta carece para a melhor compreensão dos fenômenos que estuda. Mas, para isso, não necessitaria, o Espiritismo, se transformar em uma religião.

Na segunda metade do Século XIX, as ideias fomentadas pelo racionalismo e pelo livre-pensamento originadas com a Revolução Francesa preocupavam a Igreja, que começava a perder o controle sobre o seu rebanho. Kardec percebia o crescente descrédito das religiões e o anseio da sociedade por uma espiritualidade desvinculada do dogmatismo clerical. Até então, o domínio da Igreja no terreno do espiritualismo era completo e apregoava uma moral heterônoma.

A primeira acusação de que o Espiritismo surgira como uma nova religião partiu da própria Igreja na pessoa do Abade François Chesnel, com quem Kardec polemizou através do periódico “L’Univers” (e que foi descrito por Kardec, na “Revue Spirite”, de maio/1869).

A publicação das obras que se seguiram ao lançamento de “O livro dos Espíritos” e “O livro dos Médiuns” – em especial “O evangelho segundo o Espiritismo”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo”, todas enfatizando uma acentuada relação entre a revelação espírita e o cristianismo – contribuiu, de certa forma, para a formação de um movimento de caráter religioso, notadamente no Brasil, onde a nova doutrina encontrou um solo fértil para a sua disseminação.

Mas, o que é o Laicismo?

O Laicismo, ou secularismo, é uma doutrina filosófica que surgiu na França como reação à intromissão religiosa na política, defendendo a autonomia das atividades humanas em relação à religião. O Laicismo ganhou prestígio no fim do século XIX e no início do século XX, mas, por contrariar os interesses da Igreja, foi por esta combatido e acusado de estimular a antirreligiosidade e o ateísmo.

Todavia, ser laico não é ser antirreligioso, nem ser ateu. Ser laico é ser “arreligioso”, ou seja, isento, autônomo, neutro em relação à religião, embora tolere, respeite e conviva com esta. A religião é um fenômeno cultural da humanidade e como tal deve ser considerada.

A Laicidade é uma conquista civilizatória associada ao livre-pensamento, daí encontrar séria oposição nos regimes políticos totalitários, quer sejam estes relacionados a alguma confissão religiosa, ou a uma ideologia política. O Brasil é um Estado laico desde a Constituição de 1891, ou seja, se propõe a garantir a liberdade religiosa, o direito do cidadão de ter (ou não) religião, não devendo interferir nos cultos e não devendo sofrer influência de natureza religiosa. Se a Constituição é respeitada, isso é outra questão.

Laicismo não é materialismo

É um equívoco confundir Laicismo com materialismo.

Há uma ideia, equivocadamente difundida no meio espírita, por desinformação ou má fé, de que os espíritas laicos seriam ateus, materialistas, céticos, sem sentimentos ou sem afetividade. E que o Espiritismo laico seria constituído por espíritas “duros”, “secos”, que não se sensibilizam diante do sofrimento humano, ao ouvir uma música melodiosa ou apreciar a Natureza, que não fazem preces, que não são solidários e caridosos, que não choram com suas perdas afetivas, etc. Há quem, inclusive, classifique os laicos como “não espíritas”! E isso, pasmem, proveniente de espíritas ditos “cristãos”.

Kardec e a religião

Kardec recusou classificar o Espiritismo como religião, definindo-o como filosofia espiritualista e ciência filosófica, mas valorizou o sentimento religioso do homem e o papel da religião. Colocou, inclusive, o Espiritismo como subsídio para o fortalecimento das religiões e para a complementação da Ciência, sem, todavia, ser uma religião. Em “O que é o Espiritismo”, Kardec assevera que das reuniões espíritas podem participar adeptos de todas as religiões, destacando, com isso, o caráter de neutralidade da filosofia espírita.

Por ocasião do discurso de abertura da sessão anual comemorativa dos mortos, realizada na Sociedade de Paris, em 1º de novembro de 1868, Kardec afirmou:

“No sentido filosófico, o Espiritismo é religião e nós nos ufanamos disso porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza”.

Os que utilizam essa afirmativa de Kardec para defender o aspecto religioso da Doutrina Espírita, estão desconsiderando o fato de que o Codificador se referia ao “resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo” (“Revue Spirite”, dezembro/1868). Kardec conceitua o “sentido filosófico” da palavra religião quando diz, no mesmo discurso:

“Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunidade de sentimentos, de princípios e de crenças”.

Assim, fica evidente que “religião”, para Allan Kardec, não tem o sentido que comumente lhe é atribuído, de “religar o homem a Deus” – uma interpretação católica, que remete ao mito do “pecado original”, e da “expulsão do paraíso”, incompatíveis com o Espiritismo, embora convenientes para a Igreja no seu pretendido papel de intermediária entre Deus e o homem – mas, sim, o de “laço” social resultante da comunhão de pensamentos que o Espiritismo inspira entre os que o estudam e praticam. Portanto, uma relação horizontal e laica.

O Espiritismo não nega a dimensão religiosa do ser humano, mas prefere não se revestir do caráter de religião para não assimilar desta o comportamento sectário, exclusivista, dogmático que, definitivamente, ele – o Espiritismo – recusa. Além de tudo, como crença religiosa, ele se descredencia para o exame e para a discussão na Academia.

O uso da expressão

Uma das recomendações do I Congresso Espírita Internacional, celebrado em Barcelona, Espanha, em setembro de 1888, foi:

“O Congresso Espírita recomenda um constante esforço para difundir o LAICISMO por todas as esferas da vida. A absoluta liberdade do pensamento, o ensino integral para ambos os sexos e o cosmopolitismo como base das relações sociais”.

Essa manifestação veio corroborar o pensamento de Allan Kardec, que, afirmou, repetidas vezes, não ser o Espiritismo uma religião. Foi, todavia, após a publicação do livro “Espiritismo Laico”, de David Grossvater, na Venezuela, em 1966, que se popularizou a expressão “espíritas laicos”.

O Laicismo espírita no Brasil

A autonomia e a laicidade inerentes ao Espiritismo logo seriam corrompidas por alguns continuadores de Kardec, particularmente por influência da obra “Os Quatro Evangelhos – Revelação da Revelação”, de Jean Baptiste Roustaing, advogado contemporâneo de Kardec, assessorado pela médium Émilie Collignon.

Os primeiros líderes espíritas brasileiros eram, em sua maioria, extremamente católicos e roustainguistas. A adoção da obra de Roustaing, pela FEB, desde os seus primórdios, impingiu ao Espiritismo brasileiro a feição heterônoma das religiões salvacionistas, radicalmente discordantes da proposta original de Allan Kardec. Na Bahia, onde surgiu o primeiro centro espírita no Brasil e o primeiro jornal espírita no Brasil – O Eco de Além-Túmulo – o seu fundador, Luiz Olímpio Teles de Menezes, católico fervoroso, amigo de Roustaing, convertido ao Espiritismo, escreveu, em polêmica travada com o Padre Juliano José de Miranda, do Arcebispado de Salvador, que “o Espiritismo e o Catolicismo são a mesma Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo: somente estão mudados os tempos e as palavras; O Espiritismo é o tradutor fiel, pelos enviados de Deus, das doutrinas do Evangelho”. Mais recentemente, o médium Francisco Cândido Xavier e o seu espírito-guia Emmanuel tiveram decisivo protagonismo no desenvolvimento da religião espírita.

No final do século XIX, o movimento espírita já se dividia entre “místicos” e científicos”, os primeiros liderados por Bezerra de Menezes e os outros pelo jornalista e professor Afonso Angeli Torteroli, fundador do Centro da União Espírita do Brasil, a primeira instituição unificadora do movimento espírita nacional. Nessa ocasião, aconteceu a primeira tentativa de resgate do caráter não religioso do Espiritismo. Dos embates travados, resultou a vitória dos religiosos. A partir da gestão de Bezerra de Menezes à frente da FEB, em 1895, formatou-se o modelo de religião espírita que logo seria assimilado e assumido pelo movimento espírita, para o que contribuíram as características culturais da população brasileira.

O Movimento Universitário Espírita (MEU), de São Paulo, no final da década de 1960, também viria a discutir a laicidade do Espiritismo. Esse movimento, entretanto, passaria a ostentar um caráter mais social e político, sob influência do pensamento filosófico dos pensadores argentinos Humberto Mariotti (1905 – 1982), com sua obra “Parapsicologia e Materialismo Histórico”, e Manuel S. Porteiro (1881 – 1936), com seu livro “Espiritismo Dialético”, além de outras influências marxistas, como David Grossvater e seu “Espiritismo Laico”, Eusínio Lavigne e Souza do Prado com o livro “Os espíritas e as questões sociais”, e Jacob Holzmann Netto (1934 – 1994) com “Espiritismo e Marxismo”, obras que serviram de inspiração para o discurso crítico, laico e politizado dos universitários espíritas da época. Esse movimento, entretanto, teve curta duração.

Em 1978, a defesa do caráter laico do Espiritismo ressurge com grande ímpeto, com o chamado “grupo de Santos”, principalmente através do jornal “Espiritismo e Unificação”, órgão oficial da União Municipal Espírita de Santos (UMES) e da LICESPE Editora. Esse grupo, liderado pelo jornalista e psicólogo Jaci Regis, era também integrado por José Rodrigues, Egydio Régis, Henrique Diegues e outros. Vários deles eram integrantes da UMES, mantinham forte atuação na União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE-SP) e instituíram a campanha denominada de “espiritização” combatendo a igrejificação do Espiritismo e promovendo a cultura espírita.

Nessa época, a Federação Espírita do Estado do Rio Grande do Sul (FERGS) era conduzida pelo grupo oriundo da Sociedade Espírita Luz e Caridade (SELC) – atual Centro Cultural Espírita de Porto Alegre (CCEPA) –, integrado por Maurice Herbert Jones, Salomão Jacob Benchaya e Milton Rubens Medran Moreira, entre outros. Em 1986, o autor deste artigo, ao início de seu segundo mandato como presidente da FERGS, lançou o “Projeto: Kardequizar”, em sintonia com a campanha “espiritização” deflagrada por Jaci Regis e seu grupo. Em outubro de 1986, com o lançamento, pela FERGS, da edição de número 402 da revista “A Reencarnação”, cuja capa estampava a expressão “Espiritismo: Ciência e Filosofia. Até que ponto é Religião?”. Disto deriva uma forte reação conservadora e, na eleição seguinte, uma nova diretoria assume a Federação e reafirma o caráter religioso da Doutrina Espírita, naquela entidade.

Neste contexto, o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), idealizado por Jaci Regis e realizado bienalmente, de 1989 a 2017, pelo Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS) teve destacada importância na consolidação do segmento laico e livre-pensador espírita em terras brasileiras. Esse evento contribuiu para o retorno da Confederação Espírita Pan-americana (CEPA) ao Brasil – do qual estava ausente desde 1949, após a realização do seu II Congresso Pan-americano, no Rio de Janeiro. Esse evento havia sido organizado com o apoio da Liga Espírita do Brasil, mas contrariava os interesses da Federação Espírita Brasileira (FEB) que, reunindo alguns dirigentes de federativas estaduais presentes no Rio de Janeiro, instituiu o chamado “Pacto Áureo”, expresso numa Ata que orienta o movimento espírita federado no Brasil.

A CEPA – Associação Espírita Internacional, antiga Confederação Espírita Pan-Americana, fundada em 1946, na Argentina, herdeira da tradição espírita espanhola de características acentuadamente livre-pensadoras, onde se destacaram José María Fernandez Colavida e Amália Domingo Soler, e que encontraram ressonância entre pensadores sul-americanos como Cosme Mariño, Manuel Porteiro, Humberto Mariotti, David Grossvater, Luiz di Cristóforo Postiglioni e, mais recentemente, Jon Aizpúrua, dentre outros, sempre se manteve distante do religiosismo vigente no “Espiritismo à brasileira”, sendo hoje a instituição mais representativa da vertente doutrinária laica e livre-pensadora.

Felizmente, o movimento espírita, mais amadurecido, aos poucos se distancia do modelo hegemônico e imobilizante. Líderes e pensadores identificados com o genuíno projeto kardeciano compõem uma nova força que deverá impulsionar o Espiritismo a assumir a sua verdadeira identidade e a se libertar das amarras religiosas para exercer o seu papel junto à Humanidade.

* Artigo originalmente publicado no Blog “Ágora Espírita”, dezembro de 2020. Texto ligeiramente adaptado.

Fonte: Espiritismo com Kardec – ECK

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Indigesta Psicosfera do Carnaval

Jorge Hessen

INDIGESTA PSICOSFERA DO CARNAVAL

Nos períodos de folia os carnavalescos surgem de todos os lados na busca do nutrimento de suas devassidões. Para tais são longas as estações de dias e noites para as preparações do delírio demente dos três dias de miragens. Os incautos esfolam as finanças familiares para experimentar o encanto efêmero de curtir dias de completa paranoia. Adolescentes e marmanjos se abandonam nas arapucas pegajosas das drogas lícitas e ilícitas. Não compreendem que bandos de malfeitores do além (obsessores) igualmente colonizam as avenidas das escolas de samba num lúgubre show de bizarrices. Celerados das escuridões espirituais se acoplam aos bobalhões fantasiados pelos condutores invisíveis do pensamento, em face dos entulhos concupiscentes que trazem no mundo íntimo.

Sobrevém uma permuta vibratória em todos e em tudo. Os espíritos das brumas umbralinas se conectam aos escravos de momo descuidados, desvirtuando-os a devassidões deprimentes e jeitos grotescos de deploráveis implicações morais. Tramas tétricas são armadas no além-tumba e levadas a efeito nessas oportunidades em que momo impera dominador sobre as pessoas que se consentem despenhar na festa medonha.

Enquanto olhos embaciados dos foliões abrangem o fulgor dos refletores e das fantasias brilhantes (inspirações ridículas impostas pelos malfeitores habitantes das províncias lamacentas do além-túmulo), nas avenidas onde percorrem carros alegóricos (que, pasmem! Já até transportou a efígie do Chico Xavier sob aplausos de omissos líderes espíritas), a visão dos espíritos observa o recinto espiritual envolto em carregadas e sombrias nuvens cunhadas pelas oscilações de baixo teor mental.

Os três dias de folia, assim, poderão se transformar em três séculos de penosas reparações. É bom pensarmos um pouco nisso: o que o carnaval traz ao nosso Espírito? Alegria? Divertimento? Cultura? É de se perguntar: será que vale a pena pagar preço tão elevado por uns dias de desvario grupal?

Quando se pretende alcançar essa alegria, através do prazer desregrado e dos excessos de toda ordem, o resultado é a insatisfação íntima, o vazio interior provocado pelo desequilíbrio moral e espiritual. Portanto, não fossem os exageros, o Carnaval, como festa de integração sócio racial, poderia se tornar um acontecimento compreensível, até porque não admitir isso é incorrer em erro de intolerância. Porém, para os espíritas merece reflexão a advertência de André Luiz: “Afastar-se de festas lamentáveis, como aquelas que assinalam a passagem do carnaval, inclusive as que se destaquem pelos excessos de gula, desregramento ou manifestações exteriores espetaculares. A verdadeira alegria não foge da temperança. ” (1)

A efervescência momesca é episódio que satura, em si, a carga da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre nós, os encarnados, distinguidos pelas paixões do prazer violento. Costuma ser chamado de folia, que vem do francês folle, que significa loucura ou extravagância.

Nos dias conturbados de hoje, sabe-se que “(…) de cada dez casais que caem juntos na folia, sete terminam a noite brigados (cenas de ciúme etc); que, desses mesmos dez casais, posteriormente, seis se transformam em adultério, cabendo uma média de três para os homens e três para as mulheres (por exemplo); que, de cada dez pessoas (homens e mulheres) no carnaval, pelo menos sete se submetem espontaneamente a coisas que normalmente abominam no seu dia a dia, como álcool, entorpecente etc. Dizem, ainda, que tudo isso decorre do êxtase atingido na Grande Festa, quando o símbolo da liberdade, da igualdade, mas, também, da orgia e depravação, somadas ao abuso do álcool, levam as pessoas a se comportarem fora do seu normal (…)” (2)

O Espírito Emmanuel adverte: “Ao lado dos mascarados da pseudo-alegria, passam os leprosos, os cegos, as crianças abandonadas, as mães aflitas e sofredoras. (…) Enquanto há miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidades e de fome, sobram as fartas contribuições para que os salões se enfeitem.”

Como proferi supra, nesse panorama, os obsessores “influenciam os incautos que se deixam arrastar pelas paixões de Momo, impelindo-os a excessos lamentáveis, comuns por essa época do ano, e através dos quais eles próprios, os Espíritos, se locupletam de todos os gozos e desmandos materiais, valendo-se, para tanto, das vibrações viciadas e contaminadas de impurezas dos mesmos adeptos de Momo, aos quais se agarram.” (3)

Portanto, além da companhia de encarnados, vincula-se a nós uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. As tendências ao transtorno comportamental de cada um, e a correspondente impotência ou apatia em vencê-las, são qual imã que atrai os espíritos desequilibrados e fomentadores do descaso à dignidade humana, que, em suma, não existiriam se vivêssemos no firme propósito de educar as paixões instintivas que nos animalizam.

Será racional fechar as portas dos centros espíritas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões? Existem alguns centros que fecham suas portas nos feriados do carnaval por vários motivos não razoáveis. Repensemos: uma pessoa com necessidades imediatas de atendimento fraterno, ou dos recursos espirituais urgentes em caso de obsessão, seria fraterno fazê-la esperar para ser atendida após as “cinzas”, uma vez ocorrendo essa infelicidade em dia de feriado momesco?

Os foliões crônicos declaram que o carnaval é um extravasador de tensões, “liberando as energias” … Entretanto, no carnaval não são serenadas as taxas de agressividade e as neuroses. O que se observa é um somatório da bestialidade urbana e de desventura doméstica. Aparecem após os funestos três dias as gravidezes indesejadas e a consequente proliferação de assassinatos de intrusos bebês nos ventres, incidem acidentes automobilísticos, ampliação da criminalidade, estupros, suicídios, aumento do consumo de várias substâncias estupefacientes e de alcoólicos, assim como o aparecimento de novos viciados, dispersão das moléstias sexualmente transmissíveis (inclusive a AIDS) e as chagas morais, assinalando, densamente, certas almas desavisadas e imprevidentes.

O carnaval edifica o nosso Espírito? Muitos espíritas, ingenuamente, julgam que a participação nas festas de Carnaval, tão do agrado dos brasileiros, nenhum mal acarreta à nossa integridade fisiopsicoespiritual. No entanto, por detrás da aparente alegria e transitória felicidade, revela-se o verdadeiro atraso espiritual em que ainda vivemos pela explosão de animalidade que ainda impera em nosso ser. É importante lembrá-los de que há muitas outras formas de diversão, recreação ou entretenimento disponíveis ao homem contemporâneo, alguns verdadeiros meios de alegria salutar e aprimoramento (individual e coletivo), para nossa escolha.

Não vemos, por fim, outro caminho que não seja o da “abstinência sincera dos folguedos”, do controle das sensações e dos instintos, da canalização das energias, empregando o tempo de feriado do carnaval para a descoberta de si mesmo; o entrosamento com os familiares, o aprendizado através de livros e filmes instrutivos ou pela frequência a reuniões espíritas, eventos educacionais, culturais ou mesmo o descanso, já que o ritmo frenético do dia a dia exige, cada vez mais, preparo e estrutura físico-psicológica para os embates pela sobrevivência.

Somente poderemos garantir a vitória do Espírito sobre a matéria se fortalecermos a nossa fé, renovando-nos mentalmente, praticando o bem nos moldes dos códigos evangélicos, propostos por Jesus Cristo.

Jorge Hessen

Site: A Luz da Mente

Fonte: G.E.Casa do Caminho de S. Vicente

Referências bibliográficas:

(1) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, ditado pelo Espirito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, cap.37 “Perante As Fórmulas Sociais”

(2) São José Carlos Augusto. Carnaval: Grande Festa…De enganos! , Artigo publicado na Revista Reformador/FEB-Fev. 1983 (3) Xavier , Francisco Cândido. Sobre o Carnaval, mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel, fonte: Revista Reformador, Publicação da FEB fevereiro/1987

(3) Pereira, Ivone. Devassando o Invisível, Rio de Janeiro: cap. V, edição da FEB, 1998

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Para levar a ciência espírita ao grande público

Orson Peter Carrara

FRATERLUZ: Os Agêneres

Pedra principal: Vontade própria impede sujeição e caprichos

Allan Kardec, aquele que foi considerado o “bom senso encarnado”, sempre nos apresenta o resultado de suas sábias reflexões em torno dos estudos espíritas. Na Revista Espírita*, edição de fevereiro de 1859, em  matéria com o título Os Agêneres, e referindo-se aos fenômenos produzidos pelos espíritos, afirma: “(…) esses fenômenos estão submetidos a condições que saem do círculo habitual de nossas observações; é preciso, sobretudo, não perder de vista esse princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita; é que o agente dos fenômenos vulgares é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos. (…)”.

Observemos que Kardec cita o princípio da vontade própria e independente dos espíritos como a pedra principal da ciência espírita. Sim, porque estaremos trabalhando com seres individuais, de mentalidade e experiências emocionais e intelectuais próprias, e nunca com objetos que podem ser manipulados. Este detalhe é fundamental para a pesquisa, a experiência e o estudo espírita.

Willian Crookes (1), o notável cientista inglês, procurado pela médium Florence Cook (2), entregou-se vivamente a sérias pesquisas no âmbito das materializações do Espírito Katie King e comprovou cientificamente a existência e comunicabilidade dos espíritos. Homem de ciência, muito respeitado em sua época e contemporâneo de uma safra de nobres homens de ciência e suas notáveis descobertas que mudaram a história da humanidade, teve a coragem de publicar os resultados de suas pesquisas, tornando-se aquele com o qual  “… a pesquisa psíquica começa, na História… “, conforme a ele se refere o Prof. Charles Richet no livro Trinta anos entre os mortos, em transcrição utilizada por Wallace Leal V. Rodrigues em seu livro Katie King (3).

Estas considerações todas, inclusive o brevíssimo resumo histórico do parágrafo anterior, das célebres materializações do Espírito Katie King, que por três anos submeteu-se aos métodos científicos empregados por Crookes, introduzem-nos no empolgante tema das pesquisas no campo da ciência espírita.

Embora o tema agênere seja diferente de materialização, nas diversas manifestações promovidas pelos espíritos, o princípio acima citado vale para todos: nos fenômenos espíritas, esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos.  Materializações, psicofonia, psicografia e tantos outros fenômenos possíveis através da atuação dos espíritos pela mediunidade, além da própria força anímica de todo ser humano, é assunto da ciência espírita. E aí perguntamos: por que o aspecto científico do Espiritismo está tão esquecido? No passado referido aspecto foi vivamente estudado, alvo de sérias atenções e agora o campo da pesquisa espírita está um tanto esquecido. Não é o momento de retomada destas pesquisas? Em que área? Com que critérios? Onde? Com quem? Eis tema para pesquisadores e estudiosos retomarem, através de abordagens acessíveis ao grande público.

Aos homens de ciência, propriamente ditos, fica o convite da colaboração espontânea no sentido de transformar em linguagem acessível o vasto campo metodológico da pesquisa para que todos tenham acesso à compreensão dos mecanismos desses fenômenos, que são naturais, e explicam o que o Espiritismo já ensina há 150 anos.

O essencial, todavia, está nesta advertência de Kardec, para médiuns e pesquisadores: “(…) O mérito não está, pois, na posse da faculdade medianímica, que pode ser dada a todo o mundo, mas no uso que dela se pode dar; aí está uma distinção capital que é preciso jamais perder de vista: a bondade do médium não está na facilidade das comunicações, mas unicamente em sua aptidão em não recebê-las senão as boas; ora, é aí que as condições morais, nas quais se encontra, são onipotentes; também aí se encontram, para ele, os maiores escolhos. (…) é preciso se reportar a esse princípio fundamental, que entre os Espíritos os há de todos os graus em bem e em mal, em ciência e ignorância (…) Os Espíritos que nos cercam não são passivos; é um povo essencialmente movimentado, que pensa e age sem cessar, que nos influencia com o nosso desconhecimento, que nos excita ou nos dissuade, que nos impele ao bem ou ao mal (…)” (4).

Eis o que nunca podemos perder de vista, que permito-me transcrever novamente: Os Espíritos que nos cercam não são passivos; é um povo essencialmente movimentado, que pensa e age sem cessar, que nos influencia com o nosso desconhecimento, que nos excita ou nos dissuade, que nos impele ao bem ou ao mal.

Fonte:   Portal da Casa Espírita Nova Era – Blumenau – Santa Catarina – SC

Orson Peter Carrara – é escritor e palestrante espírita, atua profissionalmente como assessor de imprensa, em Matão-SP, na Casa Editora O Clarim. Site. http://www.orsonpcarrara.rg3.net /

*tradução de Salvador Gentille, edição IDE-Araras-SP.

(1) Willian Crookes nasceu em 17 de junho de 1832 e desencarnou em 4 de abril de 1919; foi químico e físico inglês, publicou diversas obras de sua área de pesquisas. Em 1861 descobriu e estudou o Talium, inventou posteriormente um novo método para separar o ouro e a prata de seu mineral, por meio do sodium.

(2) Florence era jovem de apenas 15 anos e sua potencialidade mediúnica permitiu anos de pesquisa na área de materializações; submeteu-se humildemente aos critérios científicos de observação dos fenômenos que se produziam por seu intermédio.

(3) Edição da Casa Editora O Clarim, atualmente esgotada.

(4)  Revista Espírita de fevereiro de 1859, na matéria Escolhos dos Médiuns.

Matéria publicada originariamente no jornal O Clarim,de outubro de 2005

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