Fanatismo ou efeito manada?

Por que precisamos refletir sobre isso?

Estamos vivendo no Brasil e no mundo um momento muito complicado, que traz muita preocupação e impacta as pessoas. A agressividade, a violência e a intolerância têm batido em nossas casas e na nossa comunidade, e esses comportamentos vêm se agravando com as redes sociais. São famílias e amigos separados, grupos desfeitos. Diante disso, é preciso refletir: seria isso uma forma moderna de um comportamento de manada? Onde entra o fanatismo nesse perigoso caminho?

O médico psiquiatra Roberto Lúcio Vieira de Souza (foto) – vice-presidente da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), diretor clínico do Hospital Espírita André Luiz (BH), psiquiatra e psicoterapeuta do Instituto de Assistência Psíquica Renascimento (BH) – explica que, a partir do momento que a tecnologia consegue abranger um grande grupo de pessoas, vai sempre as envolver com características específicas em grupos, que se reforçam de vários pontos de vista: das ideias que trazem, dos sentimentos que compartilham, das energias que esse compartilhamento produz e das sintonias que a partir disso tudo se constrói.

Dr. Roberto salienta que “O comportamento de manada se caracteriza por algumas questões que devemos refletir. E quando ele chega ao nível que estamos vivendo em várias partes do mundo em termos de fanatismo, temos de lembrar que isso surge de uma defesa obsessiva que uma criatura, ou grupo de criaturas, que vive esse tipo de sentimento e comportamento tem de que estaria como em um precipício, segura pela ponta de uma pedra. E essa ponta passa a construir a vida dessa criatura. Não existe uma crítica porque, na fragilidade presente ou por trás desse comportamento, não se pode de maneira nenhuma abrir espaço para avaliação ou questionamento, porque isso vai colocar a criatura ou seu grupo em situação de ainda maior fragilidade, e ela não tem como viver de outra forma”.

E o que isso significa? “Muitas pessoas interpretam o comportamento fanático, sempre presente na história, como algo forte, mas, na verdade, o que vemos é uma imensa fragilidade, inclusive espiritual, tão intensa que o indivíduo tem de se esconder porque um sopro pode jogá-lo no chão. Então, ele não pode permitir que outras ideias entrem na vida dele. A relação dele com a ideia, com o comportamento, é algo apaixonante. E paixão, muito diferente de afeto e de amor, é algo extremamente doentio. Duas grandes características desse comportamento são a intolerância e a violência diante de ideias contraditórias – quando não sou capaz de lidar com essas duas ideias e raciocinar sem correr risco de perder a força e cair do abismo. Então, com o fanatismo, o movimento de manada, as pessoas nem sabem o que estão fazendo. É um regime de fragilidade, postura da criatura que se defende de outra ideia porque se ela perder esse norte não vai ter nenhuma verdade na vida. Esses comportamentos não são caracterizados como doença psiquiátrica, mas, sim, como um comportamento disfuncional”, esclarece.

Sofrimento emocional e transtorno mental

Pessoas fanáticas e que seguem um comportamento de manada têm mais possibilidade de desenvolver sofrimento emocional e transtorno mental. E isso é um movimento muito tênue, de acordo com o psiquiatra. Essa corda onde essa criatura está é muito perigosa, porque pode, de repente, se tornar realmente um transtorno mental.

Sobre isso, Roberto Lúcio Vieira de Souza nos traz mais informações nesta entrevista.

“Pessoas que têm posturas diferentes, mas não são fanáticas, têm capacidade de escutar uma outra opinião. Na estrutura fanática, eu tenho de aniquilar tudo o que seja diferente, tudo o que me incomoda, tudo o que possa entender, que possa me tirar do poder, do lugar que estou.”

Folha Espírita – Uma coisa que nos assusta muito diz respeito à proliferação de inverdades propagadas por esses movimentos de manada, destruindo pessoas que pensam de maneira diferente e tentando aniquilar o outro. Agora, se colocássemos um propósito do bem, não poderia ser algo positivo ao invés de ser isso apoiado nas inverdades, fake news, imagens que são destruídas e no combate ao inimigo? Por que esse movimento é tão ligado às situações de vingança, violência e de ódio? Por que acontece dessa maneira?

Roberto Lúcio Vieira de Souza – Não podemos nos esquecer que as estruturas fanáticas da história não são construídas no mundo físico. Então, geralmente, todos esses movimentos têm como propósito provar que o amor não tem e não faz sentido, assim como que a única maneira de você ter poder e ser feliz é através da violência, tendo essa conduta. Elas fazem apresentar inúmeras inverdades, e uma estruturação que venha de um pensamento inferior só pode trazer inverdades.

Para criar uma proposta contra a que o Cristo representa na Terra – embora os seus avatares sejam muitos e tenham se manifestado em todos os tempos da história –, você tem que tentar aniquilá-la através da mentira e da violência. Esses dois elementos, por exemplo, buscaram calar Sócrates. As inverdades ditas sobre o que ele fazia com os seus discípulos e a violência daquele grupo de pessoas, que não tinha interesse pela situação, foram a maneira que tinham de aniquilá-lo. O mal, na sua manifestação, tem uma crença básica: tudo o que não seja o mal tem que ser aniquilado. A coisa mais pesada do processo de fanatismo é essa colocação, porque pessoas que têm posturas diferentes, mas não são fanáticas, têm capacidade de escutar uma outra opinião. Na estrutura fanática, eu tenho de aniquilar tudo o que seja diferente, tudo o que me incomoda, tudo o que possa entender, que possa me tirar do poder, do lugar que estou.

Foi isso que foi feito com Cristo. Sobre a condenação, me lembro de uma das falas de Sócrates quando lhe afirmaram: “Sócrates, o que eles estão fazendo não é justo”. E ele perguntou: “vocês acham que poderia ter justiça? Essas estruturas não são justas e se constituem em inverdades”. Porque é esse o propósito. Se fosse pensar nesse dualismo que existe na nossa mente, do bem e do mal, do Deus e do demônio, essas estruturas têm que ser contrárias às propostas do bem.

A humanidade aceita porque a grande maioria vive numa infância espiritual, emocional e intelectual. Vivemos de pensamentos mágicos. Continuamos caminhando nos mesmos processos que a humanidade caminhava há milênios. As pessoas não têm raciocínio, não têm conteúdo para raciocínio, elas se perdem. Conhecimento não nos transforma em pessoas melhores. Temos de pensar, por exemplo, que o desenvolvimento tecnológico da Terra aumentou a expressão do materialismo. E esse materialismo é fruto de uma compreensão do conhecimento científico de maneira superficial. Ter noção e conhecimento não significa que sejamos capazes de mudar nossa visão.

Na nossa vida, continuamos no mesmo lugar, que é do pensamento mágico, e um dos pensamentos mágicos mais complicados e que serve ao fanatismo é o modelo, é um arquétipo do salvador. Porque, na verdade, o que a gente quer é isso. É alguém que nos salva. Há pessoas até hoje procurando por isso. A teoria que se construiu de Jesus como salvador da humanidade, e não o Salvador, como quem ensina, mas como quem faz por, prevaleceu nesses dois mil anos na cabeça de todos nós. Queremos que Jesus, Deus, o Espírito, seja lá quem for, faça por nós e nos salve. Então o fanático, na sua desestrutura, arrumou uma pedra, algo que ele acredita que vai salvá-lo e que, pior, vai dar poder a ele para mandar em tudo e salvar a humanidade, talvez até exterminando e matando, porque assim acha que está salvando as pessoas.

“A teoria que se construiu de Jesus como salvador da humanidade, e não o Salvador, como quem ensina, mas como quem faz por, prevaleceu nesses dois mil anos na cabeça de todos nós. Queremos que Jesus, Deus, o Espírito, seja lá quem for, faça por nós e nos salve. Então o fanático, na sua desestrutura, arrumou uma pedra, algo que ele acredita que vai salvá-lo.”

Esse comportamento disfuncional é uma perda de identidade, na qual todos se igualam e juntos vão para cima daquele que não concorda, tratando-o como inimigo. Depois, muitos se arrependem.

A primeira coisa que é importante pensar é que ninguém pode forçar o outro a sair desse lugar, assim, qualquer movimento de força é só um movimento de sustentação desse mesmo lugar. É preciso entender que algumas situações e a tecnologia só vêm mostrar que elas estão presentes na nossa vida desde sempre. Então, a primeira coisa que precisamos compreender é que todas essas pessoas – tendo cuidado porque em determinados momentos somos nós que agimos assim – acreditam que são senhores de suas decisões.

Enquanto tivermos essa falsa ideia de que decidimos as coisas, que não há nenhuma influência externa fazendo isso, que escolhi isso pelo meu raciocínio, pela minha inteligência, minha competência e minha capacidade, vamos correr o risco de cair nesse lugar. E isso é muito interessante de se pensar, porque os Espíritos falam que na maioria das vezes são os Espíritos que nos comandam. Na realidade, não são os Espíritos no sentido de desencarnado, e sim os pensamentos que predominam na Terra com os quais sintonizamos e que nos fazem tomar decisões que acreditamos que são nossas, mas que não são.

Então, a primeira questão complexa de se trabalhar com esse tipo de situação é entender que isso é uma crença de todas essas criaturas, de todos os tipos de fanatismo. O indivíduo acredita que decide por ele mesmo. Assim, somos levados a tomar decisões por estímulos subliminares. Se você parar e pensar nessas duas coisas que estou falando e retomarmos um texto histórico fora do momento atual, qualquer coisa desse momento atual vira fogo, vira tempestade, mas não é isso que queremos, então o que aconteceu?

Jesus foi levado a ser crucificado. O povo foi recebendo informações subliminares de que Jesus estava enganando as pessoas – esse era o esforço que o farisaísmo e os sacerdotes faziam. E depois, num momento mais crucial, foi dada ao povo a falsa ideia de que, com base em tudo o que tinha acontecido e no que tinha movimentado emocionalmente, a decisão de quem ia ser crucificado seria do povo. Num primeiro momento, muitos deles devem ter acreditado e talvez até desencarnado acreditando que tinham feito a escolha certa. Então, a primeira coisa que precisamos aprender é como agir com a questão da crítica, do raciocínio. De não repetir algo que vemos acontecendo o tempo todo.

Segundo a proposta do Espiritismo, para o entendimento das revelações do fenômeno mediúnico é preferível rejeitar 100 verdades do que aceitar uma só mentira. E aí, sejamos sinceros, o que mais vejo dentro do Movimento Espírita são pessoas aceitarem mentiras e não se permitirem a determinados questionamentos. Vejo reuniões mediúnicas que acabam e que ninguém se propõe a criticar. Aí aparece um monte de livros com um monte de coisas que são infundadas ou que não podem ser comprovadas.

As pessoas viram objeto de crítica pela questão do fanatismo. Desse modo, primeiramente, precisamos admitir que, na grande maioria das vezes, aquilo que acreditamos ser nossas decisões não são nossas. Devemos buscar quais os estímulos subliminares que estamos nos submetendo quando falamos de determinadas coisas.

“Os Espíritos falam que, na maioria das vezes, são os Espíritos que nos comandam. Na realidade, não são os Espíritos no sentido de desencarnado, e sim os pensamentos que predominam na Terra com os quais sintonizamos e que nos fazem tomar decisões que acreditamos que são nossas, mas que não são”.

FE – Quais são os pilares básicos que devemos eleger para nossas vidas para evitarmos a influência espiritual e não fazermos parte dessas ondas de fanatismo e desse comportamento de manada que vai nos levar a situações de sofrimento e de adoecimento?

RLVS – O que vemos no fanatismo é um desequilíbrio. Então, o que se precisa é de equilíbrio. Hoje, muitas pessoas se sentem incomodadas com as posturas fanáticas que se espalham na Terra. Eu atendo os fanáticos o tempo todo, e, neste momento do Brasil, eles sobram. Mas também atendo pessoas que acham que o outro é fanático. Então, isso já é um sinal perigoso para nossa vida, porque se somos capazes de ver um fanatismo no outro é porque essa postura já fez presença na nossa vida. Porque eu só identifico no outro algo que mora dentro de mim.

Precisamos cultivar equilíbrio, mas para isso algumas perspectivas são importantes. Eu tenho que ter equilíbrio. Eu preciso focar a minha atenção e usá-la para perceber não a postura do outro, mas, sim, onde eu estou, em que lugar estou e em que condição estou. Depois preciso ter equilíbrio do meu conhecimento. Tenho de evitar fazer e caminhar com o piloto automático. Não podemos acreditar em coisas sem pensar em questionamentos. Todas essas teorias fanáticas que vêm na história são cheias de contradição. O fanatismo cristão fala de amor e muda a guerra; o ódio manda matar, põe na fogueira, faz isso, faz aquilo, o que é totalmente contraditório com a proposta de Deus.

“A gente tem de desenvolver um propósito na vida, um sentido baseado nos valores humanos, na dignidade, na honestidade, na humildade, no amor e na bondade. Temos que desenvolver propósitos bons, porque o fanático não tem um propósito ruim, às vezes nem tem um propósito, porque ele é levado a uma atitude que o engana. Mas ele não tem ideia do que acontece”.

Precisamos prestar atenção em quais emoções estamos nos calcando, nos colocando, para usar melhor as nossas emoções. Não existe emoção boa ou má, pois ela é neutra. É como eu olho ou a uso é que é o problema. A tristeza não é uma emoção negativa, apenas me leva para dentro para me perguntar o que está acontecendo. A raiva não é uma emoção negativa, é somente uma emoção que vai me fazer pensar o que devo fazer para não mais senti-la. Então, temos de buscar esse equilíbrio emocional, mas, mais do que isso, motivacional. Temos que desenvolver um propósito na vida, um sentido baseado nos valores humanos, na dignidade, na honestidade, na humildade, no amor e na bondade. Temos que desenvolver propósitos bons, porque o fanático não tem um propósito ruim, às vezes nem tem um propósito, porque ele é levado a uma atitude que o engana. Mas ele não tem ideia do que acontece.

A grande maioria do povo alemão desconhecia a existência dos campos de concentração. Grande parte dos alemães só foi ter ideia do que eram quando os russos tomaram Auschwitz. Então, precisamos desenvolver propósitos, mas baseados nos valores humanos. O que acontece hoje na Terra é que estamos os deixando de lado.

“Uma coisa que me assusta é ver, por exemplo, a dificuldade do Movimento Espírita em retomar as atividades. O comodismo ficou muito mais fácil do que assumir o trabalho, enfrentar as coisas que deviam ser enfrentadas para a continuidade da tarefa. Inúmeros centros espíritas fecharam. No Hospital Espírita André Luiz, havia quase 400 voluntários antes da pandemia. Hoje não há mais que 150”.

Este momento da Terra é de uma grande descrença, inclusive religiosa. Há problemas das lideranças no mundo. Grande parte delas não é exemplo, está brigando com o poder e está preocupada com a sua vaidade. Esse é um problema. Não temos liderança ética e moral na Terra. Não dá para somar cinco pessoas que pudessem ser lideranças éticas na Terra com evidência. Não temos liderança política no mundo. A política se preencheu de corrupção, de mentira, de todos os desvarios possíveis em todos os lugares. O século XX escancarou para o mundo que nenhum movimento político é 100% eficiente. Vivemos todos os movimentos políticos no século XX, desde tentativas de democracia até o absurdo dos Estados totalitários que ainda temos por aí.

Então, esse processo passou por tudo. Ninguém acabou com a fome, com a miséria. Não deu infraestrutura, capacidade, porque os problemas não são as teorias, e sim o homem, que, no seu egoísmo, as usa para ter poder para atender a sua vaidade. Grande parte das lideranças da história do século XX seria classificada pela psicanálise como personalidade narcísica. Quando você chega ao mais grave que a personalidade narcísica, você está diante de um psicopata. Infelizmente, estamos cheios de personalidades narcísicas muito doentes nas lideranças, e elas se coadunam com as trevas, que querem a descrença da doutrina do amor, de Jesus.

Fonte: Folha Espírita

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Melindre

Vania Mugnato de Vasconcelos

Já ouviram falar de melindre?

É uma palavra bonitinha que define o estado de espírito em que entra uma pessoa por possuir a suscetibilidade de se ofender, aquela cujo despeito ou mágoa a faz sentir-se ofendida pelo que outrem lhe diz (definições de dicionário).

Muitos de nós, eventualmente, nos melindramos (isso é fato), mas nem todos admitem que são facilmente melindráveis. Como saber se somos assim? Quando esperamos que amigo seja aquele que só diz o que queremos ouvir; quando achamos que apoio é somente concordância com aquilo que pensamos; quando imaginamos que qualquer controvérsia é ofensiva; quando qualquer coisa que se diga como pensamento pessoal soa como um dedo apontado em nossa direção, estamos sofrendo de “melindre”.

É bastante óbvio que o melindre é uma das facetas do orgulho, e como podemos dizer sem medo de exagerar que a maioria de nós ainda é orgulhosa, não é difícil que nos envolvamos nas teias do melindre também.

Analiso-me e questiono se também sofro desse mal… sim, concluo, muitas vezes melindrei com o ponto de vista alheio pensando que suas ideias eram uma crítica desconstrutiva ao meu próprio modo de ser. Mas bendito o tempo que traz experiências e nos amadurece! Hoje posso dizer que minimizei muito essa imperfeição, pois compreendi que me ofendo somente se assim o desejar.

Quando esperamos demais do próximo, o qual nem sempre tem o que nos dar e verdadeiramente não é obrigado a pensar diferente porque discordamos dele, nos tornamos suscetíveis de nos magoarmos desnecessariamente.

Recordemos que somos indivíduos com histórias diferentes! Isso deve ser considerado uma virtude, pois quão triste e desmotivadora seria a igualdade de personalidade e caráter! Crescemos por causa das diferenças, amamos por causa das diferenças, aprendemos por causa das diferenças.

Não nos melindremos tanto… o próximo tem direito de ser o que é sem que isso seja necessariamente uma ofensa dirigida a nós.

Vania Mugnato de Vasconcelos

Fonte: kardecriopreto.com.br

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Como meu comunicar com meu Mentor?

Priscila Gonçalves

Anjo guardião, mentor, amigo espiritual… Vários são os nomes conferidos a estes Espíritos tão amorosos e dedicados, que foram designados pela Espiritualidade Superior durante o processo de planejamento reencarnatório para nos acompanhar durante a vida.

Vez ou outra, quando este Espírito é designado para uma outra missão, ele se afasta e recebemos outro tutor, mas, ainda assim, nunca estamos desacompanhados.

Estes Espíritos pertencem a uma ordem elevada da categoria dos Espíritos. Por certo, já passaram pelo Planeta Terra numerosas vezes, e também por outros mundos inferiores e superiores, e, assim, desenvolveram empatia, amor, criaram laços amorosos conosco, e, possivelmente, em uma encarnação passada, tivemos com eles uma forte conexão, e seu conhecimento e seu grau evolutivo o fazem apto a nos auxiliar em uma etapa de nossa jornada evolutiva.

Das questões 492 a 495 presentes em O Livro dos Espíritos, encontramos explanações sobre a ligação dos Benfeitores Espirituais conosco, até mesmo quando ocorre seu afastamento:

  1. O Espírito protetor está ligado ao indivíduo desde o seu nascimento?

– Do nascimento à morte, e muitas vezes ele o segue após a morte, na vida espírita, até mesmo em várias existências corporais, pois essas existências constituem apenas fases bem curtas em relação à vida de Espírito.

  1. A missão do Espírito protetor é voluntária ou obrigatória?

– O Espírito é obrigado a velar por vós porque aceitou essa tarefa, mas ele pode escolher os seres que lhe são simpáticos. Para uns é um prazer, para outros, uma missão ou um dever.

  1. a) Apegando‑se a uma pessoa, o Espírito renuncia a proteger outros indivíduos?

– Não, mas ele o faz de maneira menos exclusiva.

  1. O Espírito protetor fica fatalmente apegado ao ser confiado à sua guarda?

– Muitas vezes acontece de alguns Espíritos deixarem sua posição para cumprir missões diferentes; mas, nesse caso, outros os substituem.

  1. O Espírito protetor às vezes abandona o seu protegido, quando este não lhe ouve os conselhos?

– Ele se afasta quando vê que seus conselhos são inúteis, e que a decisão de submeter‑se à influência de Espíritos inferiores é mais forte. No entanto, não o abandona completamente, e sempre se faz ouvir. É o homem que fecha os ouvidos. O Espírito protetor volta tão logo é chamado.

Mas, por que então somos “abandonados” por nosso orientador? Bem, esta é uma questão que é facilmente respondida pelo nosso comportamento. Quando decidimos não seguir seus conselhos, suas orientações e inspirações, ele nos deixa para que possamos caminhar, errar e aprender; porém, mesmo nesta circunstância, quando nos tornamos pouco merecedores de companhia tão amável, ele volta; basta que deixemos nosso ego de lado e o convoquemos novamente.

A comunicação com este amigo é que faz toda a diferença. E como, afinal, podemos nos comunicar com ele? Cada indivíduo tem seu modo particular de comunicação. Uns têm uma conversa mais formal, outros mais informal, como uma conversa entre amigos, o que não deixa de ser, afinal, o Benfeitor é seu amigo presente quase 24 horas por dia. Outros o fazem através de preces, outros pelas artes. Cantando músicas edificantes, nas leituras, na escrita.

Não importa se está angustiado, entristecido ou tão feliz que parece exalar alegria e satisfação por todos os poros, e não importa se precisa compartilhar sua dor com o seu amigo para aliviar o fardo, ou celebrar uma conquista; o diálogo com o Espírito protetor, o anjo guardião, se faz necessário diariamente.

Abra os ouvidos e os olhos da alma, para ouvir e ver todos os sinais que ele lhe envia, para compreender e discernir os bons dos maus caminhos, avaliar seus passos e seu comportamento, e até pedir orientação para uma decisão difícil a ser tomada. Ou até contar como foi seu dia. Ele é, sempre foi e sempre será um grande amigo, disposto a ajudar sem julgar, querendo sempre o seu bem maior, pois abdicou de muitas coisas para cumprir a missão de lhe guardar e proteger dos males internos, dos vícios e más inclinações, e também dos males externos, dos perigos do mundo.

Priscila Gonçalves

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Capivari: EME, 2019.

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Felicidade Social e Cidadania no Pensamento Espírita

Grupo Ágora Espirita

Os ventos revolucionários que sopravam da França, em 1789, invocavam três palavras que se tornaram paradigmáticas no vocabulário dos direitos humanos: Liberdade, igualdade e fraternidade. Esta última, não era vista propriamente como um “direito”, mas como uma condição esperada nas relações sociais. Numa época de nobres, burgueses, servos e escravos, cuja tradição naturalizava a terrível desigualdade social, o pensamento iluminista e os ideais de 1789, deixariam significativas contribuições aos séculos seguintes.

Robespierre, advogado e político radical, em seu “Discurso sobre a organização das guardas nacionais”[2], publicado em dezembro de 1790, enfatizava o lema: “Liberdade, igualdade e fraternidade”, como palavras que deveriam ser escritas na bandeira da França. Mais do que estampar essas palavras em bandeiras nacionais, é imprescindível construir uma sociedade mais fraterna, com justiça social e com leis que resguardem, de fato, a dignidade humana e o bem comum.

Allan Kardec, cujo nome verdadeiro era Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 1804, ano em que Napoleão Bonaparte se autoproclamou imperador dos franceses. Sua formação intelectual se deu com base na cultura filosófica, científica e humanista de sua época.[3]  Kardec, como sabemos, foi o fundador de uma filosofia singular, espiritualista, racionalista, humanista, progressista, que descortinou e naturalizou a dimensão espiritual do ser humano.

Engana-se, no entanto, quem vê no espiritismo uma via de fuga diante dos desafios sociais, cujo foco é, tão somente, os problemas metafísicos. A discussão sobre os direitos naturais, os direitos humanos e justiça social, estão presentes no conjunto da obra kardequiana. Em O Livro dos Espíritos, considera-se que o primeiro de todos os “direitos naturais” do ser humano é o direito à vida, uma verdade autoevidente, um princípio inalienável.[4] Reconhecendo, ainda, que para sobreviver é necessário ao ser humano, possuir condições materiais de existência e de dignidade.[5]

Na terceira parte de O Livro dos Espíritos, intitulada: “As Leis Morais”, encontram-se o que podemos chamar de “teses sociais espíritas” que refletem sobre as funções do trabalho, da dinâmica social, da igualdade, da liberdade, do progresso, da justiça, amor e caridade. Os direitos humanos estão, inexoravelmente, no centro dessas discussões. Ao tratar, por exemplo, da “Lei de Liberdade”, o espiritismo se posiciona na defesa da liberdade de pensamento, de consciência e de crença, contra qualquer forma de intolerância e de escravidão:

Em sua acepção mais vasta, o livre-pensamento significa: livre-exame, liberdade de consciência, fé raciocinada; simboliza a emancipação intelectual, a independência moral, complemento da independência física; não quer mais escravos do pensamento, pois o que caracteriza o livre-pensador é que este pensa por si mesmo, e não pelos outros; em outros termos, sua opinião lhe é própria. Assim, pode haver livres-pensadores em todas as opiniões e em todas as crenças. Neste sentido, o livre-pensamento eleva a dignidade do homem, dele fazendo um ser ativo, inteligente, em vez de uma máquina de crer.[6]

Não era nada fácil, ainda no século XIX, defender a liberdade de expressão e de crença.[7] Nota-se no pensamento de Kardec, uma clara influência dos valores que permeavam a cultura progressista de sua época. No entanto, o espiritismo nascente oferecia novos elementos para essa cultura. O progresso da humanidade, na perspectiva da nova filosofia, estaria vinculado ao melhoramento intelectual e moral dos indivíduos, daí decorrendo o aperfeiçoamento da legislação humana e das relações sociais.[8] Na medida em que melhor conhece as “leis naturais”, que regem o Universo, o mundo físico e espiritual, o ser humano, pensava Kardec, tende a desenvolver um nível mais elevado de humanização. Essa ideia jamais deveria implicar, como veremos, num processo de alienação política dos indivíduos.

Na Revista Espírita, em março de 1871, é publicado um texto póstumo de Allan Kardec, que havia falecido em 31 de março de 1869. O título: “Liberdade, igualdade e fraternidade”[9], retomava ao ideário de uma nova ordem social. No texto, ele pondera que: “A fraternidade, na rigorosa acepção da palavra, resume todos os deveres do homem para com os semelhantes. Significa: devotamento, abnegação, tolerância, benevolência, indulgência”. Uma espécie de “programa”, segundo ele, capaz de se contrapor ao “egoísmo social”, um dos grandes males da humanidade.

Essa, de fato, parece ser uma das grandes questões que permeia o que Kardec chamou de “felicidade social”. Como é possível uma sociedade funcional, solidária e humanizada onde cada um só pensa em si mesmo e/ou em seu grupo? Obviamente, o sentido de “igualdade” numa sociedade disfuncional e desumanizada sobrevive com base nas legislações, mas permanece distante, na prática, da ideia de justiça social. A desigualdade das condições sociais, os preconceitos de classes, raciais e de gênero, são alguns exemplos vigorosos dessa lamentável e histórica realidade. Kardec, aponta um dos principais “inimigos” da igualdade: “O orgulho, que trabalha por ser o primeiro e por dominar; que vive de privilégios e de exceções e que aproveitará a primeira ocasião para destruir a igualdade social (…). Ora, sendo o orgulho uma das chagas sociais, é evidente que nenhuma sociedade terá a igualdade sem arrasar primeiro essa barreira”.[10]

Essa problemática é mais complexa, não se limitando apenas a uma perspectiva pessoal de melhoramento. Recordemos que a ideia de igualdade foi um dos pilares da declaração universal dos direitos do homem e do cidadão, uma “utopia possível”. Aliás, um mundo cujos alicerces seriam igualdade e fraternidade já havia sido pensado pelo humanista inglês Thomas Morus, em seu livro “Utopia”, escrito em 1516. Em contraponto à sociedade fortemente excludente de sua época, Morus imaginou uma ilha onde seus habitantes viviam pelo bem comum, sem classes, sem propriedade privada, sem exploração de uns sobre outros. Possivelmente, Morus tenha sido um dos pais daquilo que seria chamado de socialismo utópico.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec indagou seus interlocutores espirituais sobre o problema da “desigualdade das condições sociais” e obteve como resposta: “É obra dos homens e não de Deus”.[11] Então, são os próprios seres humanos que necessitam resolver ou atenuar esse problema por eles criado, historicamente.

Perceba que o princípio da igualdade não contradiz o da diversidade. A filosofia espírita considera que a diversidade faz parte das múltiplas experiências do Espírito em sua trajetória evolutiva. Vivências sociais, étnicas, de gênero, de crenças, de ideologias, entre tantas outras, fazem parte do amplo contexto experiencial do ser. Por isso mesmo, a diversidade deve ser respeitada. Qual a beleza do arco-íris, sem o seu multicolorido? Qual o encanto do jardim, sem a diversidade das flores, com suas espécies e características próprias?

A diversidade de pensamentos, de culturas, de expressões estéticas, de tipos físicos, de cores, de etnias, de partidos, faz parte da riqueza da espécie humana. A igualdade defendida como um direito humano não é a uniformização da humanidade. Longe disso! Refletir sobre o tipo de civilização e de sociedade que construímos, marcada, entre outros, pela exploração e pela miséria, pelo preconceito, pela discriminação da mulher, pela homofobia e misoginia, é que necessita ser questionada. A igualdade é, justamente, o dever de se assegurar e respeitar os direitos humanos.

A teoria espírita aceita dois movimentos básicos pelos quais o progresso se desenvolve. O movimento interno, individual e pessoal, onde cada sujeito vai, dentro de seu ritmo próprio, enfrentando e superando seus condicionamentos, atavismos, vícios e preconceitos, ou seja, o seu egoísmo e seu orgulho, na construção de um humano mais humanizado. E o movimento externo, social, político, educacional, comunitário, jurídico, que visa aperfeiçoar os mecanismos coletivos de convivência. Os dois movimentos funcionam dialeticamente um sobre o outro.

Allan Kardec enfatiza, nesse sentido, que: “os preconceitos sociais, a rotina, o fanatismo, a intolerância e a ignorância” são inimigos do progresso.[12] Léon Denis, considerado um dos mais eminentes filósofos espíritas do século XIX, em suas conferências realizadas nas cidades de Tours Orléans, em 29 de fevereiro, e 4 de abril de 1880,  referindo-se ao progresso político e à situação social da França,  enfatizava o papel da cidadania:

A República democrática é a mais racional e a mais lógica forma de liberdade e só ela pode levantar, valorizar as almas que o despotismo humilhou. Só ela pode fazer a verdadeira igualdade entre os homens, sem rebaixar os grandes ao nível dos pequenos, porém, dando aos pequenos os meios de se elevarem gradualmente ao nível dos grandes, pela instrução, pela liberdade de trabalho e de associação, pela uniformidade dos direitos. O governo da República é a expressão da vontade nacional. O povo, reunido em seus comícios, nomeia seus representantes e estes elegem o chefe do poder. É, portanto, o povo que se governa a si próprio por meio do sufrágio universal. Cada cidadão participa da soberania. Uma nação republicana é um vasto organismo, um grande corpo, do qual cada eleitor é um membro.[13]

Governos despóticos, tiranos, absolutistas, autocráticos e ditatoriais são, por natureza, nocivos aos direitos humanos. Impõe censura, estruturas de repressão, intolerância e controle social, implementando a tortura e a morte como políticas de Estado. Nosso filósofo depositava grande esperança nos governos democráticos e no papel dos cidadãos. Estar no mundo é assumir, como lembrou Deolindo Amorim, reconhecido pensador espírita, compromissos diante das contingências sociais.[14] Léon Denis enfatiza ainda:

Vede, cidadãos, quanto, com a República, nossa responsabilidade aumenta, pois a sorte de nosso País está em nossas mãos. Somos nós que, por nossas escolhas e nossos sufrágios, fazemos nossos destinos. Compreendei, agora, quanto é necessário que cada um de nós se esclareça e se aperfeiçoe, quanto é necessário que o julgamento de todos se fortifique, porque, eu vos pergunto, que faríamos dos direitos e das liberdades, se não soubéssemos emprega-los com sabedoria, com discernimento.[15]

A sociedade contemporânea, assim como na época de Kardec e de Denis, nos apresenta diariamente seus desafios humanos e sociais.  Vez por outra, ressurgem focos de intolerância, verdadeiros “tumores” degenerativos da tessitura social, conspirando contra os ideais progressistas, humanísticos e democráticos. O recrudescimento, nos últimos tempos, de ideologias (de Estado) que pregam um conservadorismo ufanista e retrógrado, sobre temas que envolvem sexualidade e família, por exemplo, com viés explicitamente patriarcal, machista e homofóbico, atualizam os debates sobre igualdade e direitos humanos.    Nesse sentido, segundo afirmou o filósofo francês Gilles Lipovetsky: “Quanto mais frustrante é a sociedade, mais ela promove as condições necessárias para uma re-oxigenação da vida”.[16]

Para Lipovetsky, vivemos numa sociedade, apesar de todos os seus desafios, mais aberta do que no passado. Os modos de vida são cada vez mais mutáveis, baseados em um amplo leque de alternativas, escolhas e padrões. A época atual, oferece mais recursos para o enfrentamento das mazelas sociais. As sociedades no século 21 mudam com muito mais rapidez do que na época de Kardec. Existe uma frequente revisão e crítica dos descaminhos humanitários, realizada por organismos sociais, coletivos e instituições que, de alguma forma, pensam e lutam por uma sociedade melhor para todos.

Grupo Ágora Espirita

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Referências:

[1] Pesquisador espírita, livre-pensador, autor de vários livros dentre os quais: “Morte, luto e imortalidade. Olhares e perspectivas, 2021.”

[2]ROBESPIERRE, Maximilien de. Discours Sur L’Organisation Des Gardes Nationales. Publié mi-décembre 1790 / Utilisé devant l’Assemblée Nationale les 27 & 28 avril 1791. XVI. Disponível em: https://books.google.com.br

[3] Allan Kardec conhecia os clássicos e traduziu obras da literatura francesa para o alemão, como Telêmaco, de Fénelon. Dominava fluentemente o latim, grego, italiano, holandês, inglês, gaulês e o castelhano. Foi um estudioso da filosofia grega, como pode ser observado em sua análise do pensamento filosófico de Sócrates e Platão, os quais considerou, ao lado de Jesus de Nazaré, como precursores do Espiritismo, na magistral introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Educado no humanismo pestalozziano, de nítida influência do pensamento ético e pedagógico de Rousseau, o fundador do Espiritismo possuía uma formação clássica, enciclopédica, típica dos humanistas de seu tempo.

LARA, Eugenio. Breve Ensaio sobre o Humanismo Espírita. Santos, SP: CPDoc, 2012. p.54-55.

[4] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 880. Princípio também defendido na Declaração de Independência Americana em 1776.

[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 881 e 882.

[6] KARDEC, Allan. Livre pensamento e livre consciência. Revista Espírita. Fevereiro de 1867.

[7] Mesmo com a expansão das ideias liberais a França, na época em que Kardec escreveu esse texto, era governada por Napoleão III e seu governo ditatorial e repressor. Além disso, havia forte reação da Igreja às ideias de separação entre Estado e Religião.

[8] MOREIRA, Milton Medran. Direito e Justiça. Um olhar espírita. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2004. p.77.

[9] O mesmo texto será publicado, também, no livro: Obras Póstumas, lançado em 1890. Para alguns estudiosos, é necessária cautela em atribuir autoria de Allan Kardec aos tais textos, uma vez que somente foram publicados após sua morte. De qualquer forma, estou considerando, para efeito de análise, o conteúdo do próprio texto, mais do que o critério de autoridade atribuído ao seu autor.

[10] KARDEC, Allan. Liberdade, igualdade e fraternidade. In. Obras Póstumas. 14º edição. Revisão e notas. Herculano Pires. LAKE. p. 195.

[11] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 806.

[12] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Junho de 1868,

[13] DENIS, Léon. O Progresso. Tradução: José Jorge. 2ª ed. Rio de Janeiro: Edições Léon Denis, 2005. p.44-45.

[14] AMORIM, Deolindo. Definição e opção. In. O Espiritismo e os problemas humanos. São Paulo: USE, 1985.

[15] DENIS, Léon. O Progresso. Conferência feita em Tours, na sala do Cirque, em 29 de fevereiro de 1880, e em Orléans, na sala do Instituto em 4 de abril de 1880. 2ª ed. Trad. José Jorge. Edições Léon Denis – RJ, 2005. p.45.

[16] LIPOVETSKY, Gilles. A Sociedade da Decepção. Trad. Armando Braio. Barueri-SP: Manole, 2007. p.74.

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A emoção de viver Arigó

Por Eliana Haddad

O ator Danton Mello estreou em novelas em 1985, aos dez anos de idade, como o pequeno Cuca na novela global A Gata Comeu. Depois, viriam outras atuações de destaque não apenas em tevê, mas também em cinema e teatro, dublagens e projetos especiais, como a reportagem que realizou sobre ecologia, em 1998, quando sofreu um grave acidente, a queda do helicóptero da equipe que sobrevoava o monte Roraima.

Agora Danton realiza mais um trabalho marcante em sua carreira, ao interpretar Arigó, no filme Predestinado, Arigó e o espírito do dr. Fritz, que estará nas telas do país em setembro, trazendo a palpitante vida do médium simplório que desafiou a ciência com suas cirurgias e curas. Acompanhe a entrevista que o ator concedeu com exclusividade ao Correio.

Como foi interpretar Arigó durante as filmagens na cidade de Congonhas? O que mais lhe marcou nesse trabalho?

Danton Mello: Foi uma experiência bastante especial e que marcou muito minha vida profissional e pessoal. Tenho certeza de que quem for assistir a esse filme vai entender do que estou falando. Foi marcante demais dar vida ao Arigó; uma pessoa extremamente bondosa, um ser iluminado, e isso me tocou muito durante as gravações. A história de vida dele é emocionante!

Você já conhecia essa história?

Confesso que já tinha ouvido falar, principalmente por ele ser de Minas Gerais, estado em que eu também nasci. Mas não sabia de muitos detalhes. Com o convite para o filme, comecei a me aprofundar mais para compor o papel e aí entendi a importância da sua história.

Como analisa a mediunidade e os processos espirituais de cura?

Não sei como explicar, mas falando especificamente do Arigó, conheci pessoas que estavam desenganada pelos médicos, pessoas que passaram por ele e que foram curadas. Baseado em todas as pesquisas que fiz, nos materiais que li, nos meus encontros com os seus familiares e com pessoas que foram operadas e curadas pelo Zé, eu acredito na seriedade do trabalho e que ele realmente tenha curado essas pessoas.

Arigó e dr. Fritz são dois personagens, um encarnado e outro desencarnado. Como você lidou com essa experiência como ator e particularmente?

Foi um desafio grande e especial para se fazer. Interpretar dois personagens de uma vez só e na mesma história é um trabalho que requer muito cuidado e entrega. Mas me preparei bem com o Gustavo Fernandes, que dirige o filme. Foi uma leitura intensa. Fiz também uma boa preparação corporal, por achar importante diferenciar bem os dois, que, na realidade, são duas pessoas. Toda referência que a gente teve de leitura e de pessoas que conviveram com José Arigó dizia ser ele realmente outra pessoa quando incorporava o dr. Fritz, desde o modo de falar, até os gestos. O trabalho foi intenso, e eu sou um ator que valoriza muito a expressão corporal. O nosso corpo fala e é o instrumento do ator. Diferenciamos os dois na voz, no gestual, no comportamento, no jeito de andar e acabou sendo um trabalho muito lindo.

Houve algum episódio que tenha lhe marcado mais durante as gravações, alguma experiência ou sensação diferente?

Tenho uma curiosidade que diz respeito a como cheguei nesse projeto. Depois que conversei com a Vivian Golombek – ela quem me fez o convite –, recebi o roteiro e, quando recebo tanto roteiros de cinema como de teatro, gosto de me sentar no meu escritório e tirar duas horas para poder ‘embarcar’ na história. Gosto de ler de uma vez! Mas, desde quando ela me fez o convite, fiquei me questionando muito sobre o fato de eu não ser uma pessoa religiosa. E pensando: Caramba! E esse roteiro, essa história de médium! Ao começar a ler, tive uma crise de choro. Antes da página dez, parei. Voltei a ler no dia seguinte. Li mais quinze a vinte páginas e tive outra crise de choro, e com isso não consegui ler esse roteiro de uma vez. Acabei fazendo em uma semana, tendo crises de choro e me questionando do porquê desse roteiro ter chegado para mim. Eu que não acreditava, que não tinha religião (‘não tinha’, até porque esse filme transformou bastante minha vida), eu que não convivia com ninguém que tivesse uma religião.

Acabou sendo um grande processo ler esse roteiro e, quando acabei, liguei na hora para a produtora de elenco, falando que eu estava dentro. “Eu tô dentro; quero muito contar essa história. Eu preciso ser esse mensageiro, preciso ser esse ator que vai contar a história desse homem iluminado. Esse filme não é só para mostrar a história dele, é filme que veio pra transformar. Acho que estava no momento da minha vida que eu precisava de algo assim. Realmente fiquei muito emocionado e mexido.

O que mais o impressionou na vida de Arigó?

A empatia dele para com o próximo! O fato de ele ter se dedicado quase metade de sua vida ajudando e curando as pessoas que o procuravam. Ele abdicou até da sua vida familiar para fazer tudo isso. E vocês vão poder conferir o que estou falando no filme.

Você contracena com Juliana Paes, que interpreta a esposa de Arigó. Como analisa o papel da família na vida do médium?

Uma família reunida de amor e de muita atenção com o próximo. E contracenar com Juliana foi ainda mais especial, mulher de personalidade e que fez uma linda entrega. Tivemos uma grande sintonia do início ao fim.

Você já teve alguma experiência espiritual, alguma vivência que se assemelhasse ao que interpretou sobre esses personagens?

Não. Acredita? Nunca passei por experiência espiritual ou algo parecido. Como já falei em outras entrevistas, não tinha nenhuma relação ou ligação com o lado espiritual ou até mesmo religioso.

Na sua opinião, qual a maior dificuldade enfrentada por Arigó?

A cura do seu filho.

Como você analisa o papel da ciência diante das cirurgias espirituais?

É um desafio para a ciência, quando você vê relatos de pessoas que o conheceu e que foram curadas por ele. Durante as filmagens, conheci e convivi com algumas delas. São histórias lindas de se ouvir.

Sobre a atividade mediúnica, o que você apreendeu?

É muito difícil explicar, mas o Arigó realmente incorporava o dr. Fritz, ele ajudou realmente muita gente, fez todas essas cirurgias de maneira muito simples e precária, com facas e quaisquer instrumentos que estavam à mão dele. Por isso, meu aprendizado foi: Arigó de alguma maneira – que eu não sei explicar – recebia e incorporava o espírito do dr. Fritz, podendo ajudar e curar milhares de pessoas.

E sobre as cirurgias, qual foi seu impacto na realização destas cenas?

Foram cenas muito fortes, sendo para isso usados efeitos especiais! Quando você pensa numa cirurgia de visão, imagina toda uma estrutura oftalmológica. Mas dr. Fritz curava através de Arigó com uma faca, então realmente são cenas fortíssimas. E, mais uma curiosidade sobre a preparação do personagem: eu só consegui assistir o todo material a que tive acesso das cirurgias na véspera da filmagem. Era muito impressionante pra mim. Essas cenas mexeram muito comigo e tenho certeza de que o público também vai ficar impactado.

O escritor José Herculano Pires comenta em seu livro sobre Arigó que as curas e cirurgias realizadas foram um verdadeiro desafio para ciência, que ela não teria se debruçado o suficiente para estudar o fenômeno. Você também sentiu isso ao interpretar o personagem?

Sim, a gente mostra no filme um personagem, um médico americano que veio para o Brasil pesquisar e passou inclusive uma temporada ao lado do Arigó, acompanhando e fazendo registros. Muitas imagens que a gente tem hoje em dia, das cirurgias também, foram feitas pela equipe desse médico, que, aliás, foi operado pelo Arigó. Mas o preconceito e o julgamento sempre foram fortes, principalmente naquela época, em que era mais desafiador a informação chegar até as massas. O médium foi perseguido e chegou a ser processado pela Sociedade de Medicina. Então, foi pesquisado o que era possível no momento e, baseado nisso, tentaram entender e explicar ‘o inexplicável’.

Arigó foi alvo de críticas por parte dos mais céticos, chegou a ser preso, principalmente por usar faca, canivete, para as intervenções, sem assepsia e sem anestesia. Como você vê isso tudo?

Para as pessoas que não acreditam na mediunidade e no espiritismo, de fato assusta um pouco, ainda mais com as técnicas rudimentares que ele usava pra fazer as cirurgias. O fato é que nada disso justificou ele ter sido preso. Isso aconteceu por puro ceticismo das autoridades da época.

Suas considerações finais.

Fazer este trabalho representou muito para mim. Aprendi muito com esse papel. Foi uma história que me transformou, porque Arigó foi uma pessoa extremamente bondosa e generosa, dedicando mais de vinte anos da sua vida para cuidar das pessoas. Ao fazer esse papel, tive também oportunidade de conhecer crenças novas. Me aprofundar nisso tudo para viver um personagem não tem preço.

Fonte: correio.news

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O espírita perante as manifestações coletivas

Cláudio Sinoti

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As recentes manifestações públicas no Brasil chamaram a atenção de todo o mundo, quando o povo começou a sair às ruas exibindo o seu clamor, que demonstra a contrariedade dos cidadãos com vários aspectos da vida social e política do País. Dentre as exigências apresentadas, de forma resumida destacam-se cobranças que envolvem os seguintes aspectos:

– Ética, Justiça, Segurança, Saúde, Educação, dentre outros…

Outras pautas foram incluídas nas reivindicações, e o clamor geral exaltava que o “Gigante Acordou” …

Certamente é positivo o despertar para as questões coletivas que envolvem a nacionalidade brasileira, mas na condição de espíritas, e tendo o Cristo como modelo, temos antes o dever de nos questionar:

Qual será o nosso papel nesse movimento? Temos o direito de protestar?

Possuímos o livre-arbítrio, e o Espiritismo não nos proíbe nada. No entanto, ao apresentar seus princípios, fornece ferramentas para que nossas escolhas e atitudes sejam pautadas pelo bom senso. Assim sendo, somos convidados a analisar cada um desses pontos em nossa vida pessoal:

Ética: a ética faz parte da natureza do ser humano, desde o momento que possuímos a capacidade de avaliar nossos atos e discernir entre o bem e o mal. Afinal, como nos apresenta O Livro dos Espíritos, as leis de Deus estão inscritas na consciência 1. E no campo ético, o cristão é chamado a avaliar suas atitudes e verificar se seus atos estão pautados conforme os ensinamentos do Cristo. E uma forma de avaliar a ética pessoal, antes de exigi-la somente dos outros, será perguntar-se:

– Procedo em minha vida pessoal da forma como exijo que os outros façam?

Justiça: a situação da justiça é precária, com seus inúmeros erros e distorções. Mas o espírita deve ter uma visão mais ampla da justiça, pois o seu olhar deve abranger a condição espiritual. E antes de clamar por justiça, deverá perguntar-se:

– Sou uma pessoa justa? Consigo me manter justo e imparcial, mesmo quando isso fira os meus interesses ou dos que me são caros? Lido de forma madura e consciente com os meus conflitos?

Sendo justos e imparciais, nossos gritos por uma justiça melhor e mais eficiente ecoarão com muito mais valor.

Segurança: a população não suporta mais a violência das ruas, e a falta de policiamento é gritante na pátria brasileira. Mas, o que efetivamente irá solucionar a questão?

Se o problema é o combate à violência, a solução deve ir até a raiz, que é a própria violência alimentada pelo ser humano. Ainda não aprendemos a lidar com a raiva e os instintos, e as emoções básicas tomam conta de nós, enquanto deveríamos ser conduzidos pela razão e pelos sentimentos nobres.

Por isso mesmo, enquanto a violência viger em nosso comportamento, os gastos governamentais poderão até amenizar a desordem coletiva, mas não solucionarão a questão da falta de segurança.

Saúde: são fundamentais os investimentos governamentais na área da saúde, proporcionando médicos e hospitais disponíveis ao atendimento da população, além das campanhas preventivas e educativas. Mas será que a saúde depende apenas das instituições governamentais?

A nossa alma está enferma porquanto nos distanciamos dos sentimentos sublimes, das atitudes nobres e da religiosidade, que nos conectam às fontes da vida. E como exigir do governo investimentos para extirpar a nossa maior doença: o egoísmo. Esse, somente nós podemos cuidar, pois não haverá remédio e hospital que extirpem esse câncer da alma.

Precisamos de médicos e hospitais, sem dúvida alguma, mas o Médico de Almas nos faz muito mais falta, para a conquista da saúde integral.

Educação: a precariedade das nossas escolas e universidades, assim como a condição dos profissionais da área de educação é deprimente em nosso País, com algumas exceções. Mas, se desejarmos fazer uma avaliação honesta do nosso processo educativo, antes mesmo de cobrar das autoridades responsáveis, temos por dever nos perguntar:

– Como anda a nossa autoeducação e a educação de valores morais daqueles que estão sob os nossos cuidados?

Existe muita negligência com o processo autoeducativo. As nossas metas, na maioria das vezes, são de conquistas externas e de “um lugar no mundo”, e quase nunca do nosso papel no mundo. Como nos ensina Joanna de Ângelis2, “o ser humano está fadado à autorrealização plena” sob a atração do psiquismo divino. Mas enquanto permanece adstrito ao campo dos interesses egoicos, permanece alienado dessa força divina que o conduz.

É necessário auto educar-se. Educar as nossas emoções em desalinho, os impulsos agressivos e ególatras. (ou egoístas – ver com o autor o que ele prefere) Educar-se também para ampliar os campos do conhecimento, não somente para nos garantir uma cultura que nos propicie melhores condições de trabalho, mas principalmente de vida civilizada.

Educando-nos, veremos certamente o Gigante despertar, pois o gigante que deve despertar na pátria brasileira é aquele que existe em primeiro lugar no nosso mundo íntimo: a nossa essência divina, com todo seu potencial de nobreza e qualidades. Quando nossa consciência despertar, estaremos construindo uma pátria de luz, pautada nos valores da alma. O Brasil é, sem dúvida, uma Nação grande. Quando todos nós, os filhos dessa pátria, nos tornarmos conscientes, há de ser uma Grande Nação, para finalmente poder cumprir os papéis que lhe foram confiados pela divindade.

Cláudio Sinoti

Fonte: Correio Espírita

1 Questão 621 de O Livro dos Espíritos.

2 Vida: desafios e soluções . Ed. Leal, 1997

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EDUCA A TUA ALMA

Sandra Marinho

Cuidado! Não vamos antecipar a nossa desencarnação

Hoje em dia, é comum consultarmos o Google no primeiro sintoma de algum mal-estar, quando sentimos alguma dor, uma coceira ou outro sintoma qualquer. Da mesma forma, quando o médico nos indica um medicamento, lá vamos nós pesquisar a bula no Dr. Google! Pior! Sei de gente que até discutiu com o médico em relação à informação divergente encontrada no site de pesquisa.

Até que ponto esse hábito moderno pode ser prejudicial? Penso que pode não ser uma boa prática, principalmente se já temos uma tendência à hipocondria. Sabe aquelas pessoas que tendem a intensificar os sintomas de um mal-estar e de alguma doença diagnosticada ou não? E que as leva a se medicarem constantemente. O acesso fácil à informação, nesses casos, pode trazer sérias consequências.

Tem uma história contada pelo Espírito Hilário Silva, no livro Almas em desfile, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira, que, embora se refira a um fato verídico ocorrido na década de 1940, fala exatamente das consequências que podem levar os atos impensados de uma pessoa hipocondríaca. Imaginem então se trazida aos dias de hoje com todas as facilidades da Internet!

O relato começa com o nosso personagem, Joanino Garcia, abrindo a janela, acreditando que naquele momento seu fim havia chegado. Tinha acabado de ler num livro de medicina a sua própria sentença de morte. Facilmente sugestionável, há muito tempo vinha dando trabalho ao seu médico. E, apesar de espírita convicto, deixava-se levar por impressões. Em menos de dois anos, sentia-se vitimado por sintomas diversos. A princípio, dominado por bronquite, logo supôs um viveiro de bacilos de Koch após ler um livro sobre a tuberculose. Gastou muito tempo e dinheiro em exames e radiografias para descobrir que não estava tuberculoso. Mal se convenceu disso, numa noite, ao se sentir trêmulo, devido ao efeito de um medicamento, começou a estudar a doença de Parkinson, e foi outra luta para que se desanuviassem a cabeça.

E já ia contente há alguns dias quando foi acometido por uma intoxicação que lhe alterou a pele. Foi o suficiente para ele se convencer que havia sido atacado pela púrpura hemorrágica, o que levou médico e familiares a um exaustivo trabalho mental para dissuadi-lo de tal pensamento. E naquele dia Joanino via-se derrotado. O diagnóstico clínico da antevéspera havia descoberto uma artrite reumatoide, que deveria ser tratada.

Sentado ao sofá após leve refeição, Joanino se pôs a ler um livro sobre artrite, mas em seguida levantou-se para tomar um pouco de água. Nisso soprou um pé de vento que virou as páginas do livro que começou a ler. Voltando-se às primeiras linhas da página aberta, leu: “A moléstia assume a forma de dor pungente e agoniante. Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte. Sofrimento agudo e invencível, a dor começa no ombro esquerdo a refletir-se na superfície flexora do braço até as pontas dos dedos médios…”

Joanino rendeu-se completamente às impressões do que acabara de ler e começou a gritar por socorro, acreditando-se em dor agoniante. Pensou na mulher e nos quatro filhinhos. Suava e sentia-se sufocado e, não podendo mais resistir, deixou-se levar pelos pensamentos de morte e acabou desencarnando.

Desencarnado, já fora do corpo de carne e em profundas preocupações, se viu diante de familiares em chorosa gritaria. Foi então que viu seu benfeitor espiritual que o assistia. O amigo o abraçou e disse:

– É lamentável que você tenha vindo antes do tempo…

– Como assim? – respondeu Garcia, arrasado. – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade.

– Houve engano – explicou o instrutor – os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito, e não à artrite reumatoide como a sua leitura fez supor. A corrente de ar virou a página do livro. Você possuía, em verdade, um processo anginoso, mas com catorze anos de sobrevida… Entretanto, com o peso de sua tensão mental…

Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento.

Para tudo temos de ter equilíbrio e parcimônia para não corrermos riscos desnecessários. O uso das informações tão acessíveis na Internet deve, portanto, ser racional. Por mais precisas e sérias que sejam as informações disponíveis, devemos ter o bom senso de consultar o médico e sanar as dúvidas com o profissional antes de tomarmos medidas por nossa conta baseadas somente na nossa interpretação. O corpo humano é vaso sagrado, é o único meio que nos permite estar encarnados no planeta Terra, aprendendo, evoluindo e construindo o futuro de perfeição ao qual todos estamos destinados. Por isso é esperado que seja cuidado com carinho para que ele cumpra seu papel até o fim.

Sandra Marinho

Fonte: Folha Espírita

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O Espiritismo na literatura clássica – Roma

Humberto Schubert Coelho

Como bem se sabe, toda a cultura latina é uma expressão ampliada e adaptada da grega. De modo que somente pelas características mais cotidianas e técnicas da vida se diferencia a alta cultura da Grécia Clássica e da Roma Antiga. No mais, a educação do patrício romano consiste no estudo dos clássicos, preferencialmente nos originais em grego.

Não assusta que a sua literatura seja quase que uma cópia daquela, onde o panteão de deuses, a mitologia, a filosofia implícita e os temas tendem a se repetir.

Assim que Cícero expressa crenças gregas, assumidamente adquiridas em contato com esta tradição.

“Pois que estou longe de concordar com aqueles que tardiamente promulgam a opinião de que a alma perece com o corpo, e que a morte aniquila todo o ser, por outro lado, há que se valorizar a autoridade dos antigos, aqueles que estabeleceram ritos para os mortos, os quais certamente não seriam feitos com o pensamento de que os mortos estão totalmente desinteressados destas observâncias… ou ainda segunda aquela doutrina; que segundo alguns foi pronunciada pelo oráculo de Apolo ao mais sábio dos homens, e que dizia não uma coisa hoje e outra amanhã, como fazem muitos, mas repetia sempre a mesma coisa, sustentando que as almas dos homens são divinas, e que saem do corpo, que o retorno aos céus é acessível a elas, e que este retorno é direto e fácil na proporção de sua integridade e excelência.”

É interessante o caráter prático que distingue o povo latino da maneira de pensar grega, estritamente teórica, pois nenhum filósofo grego diria serem as tradições comprovantes do interesse dos espíritos em nossas vidas. À mentalidade grega agrada a teoria, a abstração, e o grego argumentará sempre que a alma aprecia o rito fúnebre porque há para isso uma razão, e a explicará segundo a natureza da alma, a qual apraz a amizade, a lembrança.

Cícero, sendo pragmático, argumenta conforme os fatos. 1- Faz-se ritos aos antepassados. Logo alguém que instituiu estes ritos sabia serem capazes de agradar aos espíritos. 2- Há doutrinas que falam da divindade humana e da relação entre pureza moral e libertação da alma. O filósofo latino procede por observação de fatos e relatos.

Em termos semelhantes se expressa Vergílio, embora não faça, como o filósofo, um elenco de argumentos. Como era comum às tradições do passado, incluindo naturalmente a Bíblia, a literatura clássica confunde criatividade e tradição, lenda e memória histórica da fundação dos povos e destino das nações.

A Eneida, que sem dúvida é a obra maior da cultura romana, é um relato fictício que guarda profundas intuições históricas e espirituais sob suas metáforas. Tratando somente das segundas, encontramos uma descrição impressionante do suicídio de Dido, rainha de Cartago, ao ser abandonada por Enéas. Ainda no templo da pátria, durante a decisão de matar-se, “crê ouvir a voz e os gritos de chamamento do seu marido…”.2

Instantes antes do suicídio, Enéas vê em sonho a imagem de um deus “desconhecido”, que lhe diz:

“… não vês os perigos que te cercam no porvir? Ela, decidida a morrer, revolve em seu coração enganos e crime cruel, e flutua numa varia agitação de furores. Porque não foges depressa, enquanto ainda podes…” 3

Atento a uma mensagem tão clara e direta, Enéas não receia em lançar-se ao mar com seus marujos rumo à Itália, enquanto Dido, recebendo os informes do ocorrido, perfura-se com a espada da família. Entretanto não consegue morrer, porque literalmente está presa ao corpo, e agoniza terrivelmente.

“Então, a onipotente Juno, compadecida da sua prolongada dor e da penosa morte, envia-lhe Íris, do alto do Olimpo, para libertar aquela alma em luta com os laços do corpo. Pois, como sucumbia a uma morte não prescrita pelo destino nem merecida, mas perecia, infeliz, antes do tempo e presa a um súbito furor…” 4

Temos aí uma página verdadeiramente espírita, relatando a aventura primitiva daquilo que se observa nas páginas de André Luiz ou Manoel Philomeno de Miranda. A boa Íris tem o papel de verdadeira mensageira da luz, atuando em favor de uma transição menos terrível de Dido, que por sua vez não consegue libertar-se do corpo.

Mais tarde Enéas tem de descer ao Tártaro, nas mesmas condições em que Ulisses havia feito na Odisséia de Homero. Enquanto o herói de Ítaca encontrava aí a sua mãe, Enéas vê o pai, Anquises, no mundo das sombras. Anquises fala a Enéas:

“Logo que o dia supremo da vida deixou o corpo, os infelizes não estão de todo desembaraçados do mal… e o mal que longo tempo se acumula no fundo deles mesmos, necessariamente cresce… Por isso são castigados com penas e sofrem… a seguir somos enviados para o amplo Elísio… Finalmente, depois que um longo dia, volvido o círculo dos tempos, apagou a mancha profunda e purificou a origem celeste, faísca do sopro primitivo… o deus os chama para as bordas do rio Letes, a fim de que esqueçam o passado… e comecem a querer voltar para corpos. 5

Esta página riquíssima aponta discretamente para várias grandes verdades. Os espíritos que não se desembaraçaram do mal são aqueles que o acumulam por longo tempo em si mesmos, revelando a lei do mérito e indicando que há justiça e conhecimento de causa no processo de separação das almas condenadas. E o mais impressionante, após os sofrimentos expiatórios de suas faltas a alma se vê purificada, e é reconduzida ao corpo.

Estes dois exemplos, de Cícero e Vergílio, são suficientes para ilustrar o quão vivos estavam ainda os conhecimentos de Orfeu, Pitágoras, Platão e outros sábios gregos, que a cultura romana então absorvia avidamente.

Nos anos que se sucederam os homens mais sábios do mundo romano já estavam envolvidos com o cristianismo nascente, tanto que não há obras expressivas da literatura pagã após o ano de 60 d.C. aproximadamente.

Os melhores elementos daquela cultura, entretanto, foram absorvidos e transmitidos à rica tradição cultural dos dois séculos posteriores, cumprindo assim a sua missão de educar as populações latinas para o cultivo da virtude e da sabedoria.

Humberto Schubert Coelho

Fonte: espiritismo.net

Bibliografia:

CICERO, Marcus Tullius. Ethical writings of Cícero: De Amicitia. Traduzido por Andrew Peaboy. Boston: Little Brown, 1887.

VERGÍLIO. Eneida. São Paulo: Cultrix, 2001.

 1- Marcus Tullius CICERO. De Amicitia (Da Amizade).

2- VERGILIO. Eneida. Pg. 81.

3- VERGILIO. Eneida. Pg. 83

4- VERGILIO. Eneida. Pg. 86.

5- VERGILIO. Eneida. Pg. 127.

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Cristãos sem Cristo

Por Umberto Fabbri*

Encontrei no Livro da esperança, de Emmanuel (CEC), psicografado por Chico Xavier, uma mensagem que me levou a reflexões profundas e peço licença para compartilhar com vocês.

O texto encontra-se na lição número 14: “Cristãos sem Cristo”. O título por si só revela o equívoco dos que se designam seguidores de Jesus sem realmente segui-lo, dos que talvez nem compreendam de fato o que significa tomar para si esta denominação. Podemos estar caminhando pela vida com o título e sem Jesus, e desta forma, não o seguimos verdadeiramente, pois nos falta esforço, determinação, foco e vigilância.

Se levarmos em conta seus ensinamentos, veremos que todos se baseiam na pura caridade, no servir, no amor desinteressado e fraterno, primeiramente para com Deus, para conosco e para com nossos semelhantes. Esta é a base, este é o norte para edificarmos o reino tão sonhado, onde compreenderemos nossas dores, não nos sentiremos solitários, e teremos força e coragem para levar adiante nossa existência, apesar dos problemas, pois agiremos com retidão e bondade, trazendo paz para nossas consciências.

Sem compreender a necessidade da educação espiritual, que se desdobra beneficamente em todos os outros setores da nossa vida, saímos por aí, existência afora, a fazer valer nossa vontade viciada, doente e egoísta, acreditando que o título por si só basta, que só ele nos exime das responsabilidades de nossos atos, que vale ir contra o que o Mestre prega em essência, desde que carreguemos seu nome.

E foi assim que as grandes guerras se fizeram e ainda se fazem, ceifando vidas, famílias, sonhos…

Em nome de Deus e de Jesus, os homens se agridem e se matam, pois ainda vivem em adoração a si mesmos e seus desejos egoístas, separatistas e materialistas, pela sede de poder, de fazer valer seus desejos.

Quando o Mestre nos pede vigilância, sabiamente nos chama à observação focada e profunda a nossas atitudes, pensamentos, para seu controle por meio da oração que nos remete ao Criador, num processo simples que nos livra de grandes problemas a serem resolvidos a posteriori.

Levar a insígnia de cristãos é coisa muito séria, mas adotá-la sem realmente fazer jus a ela é mais sério ainda, uma vez que podemos atrasar a missão do bem e do amor na Terra.

Nas grandes batalhas da vida é quando mais precisamos seguir os exemplos pacíficos e fraternos do Cristo.

No texto da referida lição, Emmanuel cita os conquistadores, os piratas, os guerreiros e latifundiários que pediam e imploravam sucesso em seus feitos. Rogavam auxílio para o furto, à escravidão, à opressão, demonstrando claramente a falta de compreensão quanto aos ensinamentos de justiça, fraternidade e amor pregadas pelo Nazareno, pois, na verdade, seguiam os seus próprios valores e anseios egoístas.

Não é fácil pensar que talvez ainda continuemos a fazer algo bem parecido, sermos cristãos sem Cristo, todavia é sempre tempo de refletir, de mudar e progredir. Façamos a nossa parte bem-feita, criando exemplos positivos, levando Jesus aos corações da forma mais efetiva e perfeita, por meio de nosso exemplo e somente assim seremos coerentes e corretos com a escolha que fizemos, sendo verdadeiramente cristãos, com o Cristo sempre presente em nossas vidas.

Umberto Fabbri

Fonte: correio.news

*Profissional de marketing, Umberto é orador e escritor brasileiro, morando atualmente na Flórida, EUA. Autor de diversos livros espíritas, dentre eles: O traficante (pelo espirito Jair dos Santos) O político (Adalberto Gória) e Bastidores de uma casa espírita (Luiz Carlos), ed. Correio Fraterno.

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O Espiritismo, o Aborto e a sua Descriminalização

Em O Livro dos Espíritos, obra básica da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec temos os seguintes esclarecimentos acerca do aborto, das questões 357 a 359. A seguir reproduziremos as questões que são encontradas na obra básica. A tradução utilizada é de Guillon Ribeiro, edição da editora Letra Espírita:

357. Que consequências tem para o Espírito o aborto?

“É uma existência nulificada e que ele terá de recomeçar.”

358. Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação?

“Há crime sempre que transgredis a Lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, pois isso impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando.”

359. Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?

“Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.”

Resta de forma inequívoca a interpretação doutrinária de que o Espiritismo posiciona-se, como Doutrina, a favor da vida e de forma contrária a prática do aborto, sendo o mesmo considerado plausível tão somente em caso de perigo de vida para a mãe.

Quanto a descriminalização do aborto o posicionamento do Movimento Espírita é igualmente contrário, por entender que a vida começa no ato da concepção. Desde o primeiro instante há um Espírito ligado aquele embrião e que nenhum planejamento reencarnatório é por acaso.

O Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira, com intuito de conscientizar acerca da questão disponibiliza o livreto Respeitemos a Vida: Aborto, Não! e a cartilha Em Defesa da Vida, acerca do tema, que podem ser visualizados clicando nas imagens abaixo.

Fonte: Letra Espírita

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