Kardequizar sem elitizar

Nazareno Tourinho

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Com formação intelectual eminentemente pedagógica, Allan Kardec estruturou a nossa doutrina de maneira didática, como vemos em sua primeira e principal obra, O Livro dos Espíritos, que começa tratando da existência de DEUS, seguida da dissertação sobre a Criação, a Natureza, o Universo, a Vida, da descrição do mundo do Espíritos, dos comentários sobre as leis morais e finalmente a enumeração das esperanças e consolações da nossa crença.

O Espiritismo, portanto, apesar dos seus fundamentos científicos e das suas consequências religiosas, é, acima de tudo, uma filosofia, de conteúdo ético e não especulativo, comprometida com o bem, ou seja, com os valores que dignificam os seres humanos e os tornam mais felizes ou menos desventurados neste planeta de provas e expiações.

Assim sendo, precisamos integrar o raciocínio lógico ao sentimento amoroso, evitando cair no poço sem fundo do misticismo dogmático ou na vala lodosa do intelectualismo estéril.

Não podemos embarcar na canoa furada dos irmãos cristólatras, nem no barco à deriva dos companheiros laicos, porque ambos navegam em águas turvas, sem a bússola do bom senso doutrinário.

Impõe-se-nos, daqui para a frente, kardequizar o nosso movimento ideológico sem elitizá-lo.

As gerações que nos precederam tiveram o encargo de plantar a árvore do Espiritismo nesta nação e a fizeram crescer para ofertar seus frutos aos pobres e sofredores. Compete a nós, doravante, não deixar que as ervas venenosas do roustainguismo católico e do laicismo sem Deus, enroscadas nos seus galhos floridos, continuem lhe contaminando a seiva com dois vírus aidéticos: o do fanatismo e o do agnosticismo.

Ao tentar destruir tais ervas venenosas, sejamos, porém, moderados e caridosos, não esquecendo que a árvore dadivosa da doutrina espírita deve ser útil preponderantemente para os já citados pobres e sofredores, no geral de pouca cultura, incapazes de compreender os preceitos e conceitos filosóficos da Codificação de Allan Kardec, se não soubermos transmiti-los através de uma linguagem simples, de fácil entendimento, despojada de preciosismos verbais.

Kardequizar o Movimento Espírita Brasileiro é uma coisa boa absolutamente necessária e, aliás, urgente; contudo, elitizá-lo é outra coisa, muito má, pois significa torná-lo pior do que já se encontra.

Nazareno Tourinho

Fonte: Correio Espírita

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Ainda sobre Internet… A guerra das narrativas

Rosto de um homem assustado, com marcações de desenho - a guerra das narrativas sobreposta

“As mudanças, dentro e fora da gente, acontecem a partir da nossa capacidade de ouvir, de refletir e de espalhar as histórias por aí.”

Com a evolução dos meios de comunicação, a disputa pela narrativa tomou um outro rumo. Deixamos o diálogo de lado, partimos para a guerra verbal, e, segundo o nosso entendimento e nossas crenças, a “nossa verdade” é a que prevalece.

Mesmo copiando mensagens e textos e divulgando por meio dos vários meios de comunicação, não podemos julgar que estamos isentos de responsabilidade. O narrador ou divulgador carrega em si o conjunto de valores da sua existência.

Devemos nos perguntar constantemente: como anda a minha capacidade de ler, ouvir e, sobretudo, refletir antes de espalhar histórias por aí? São questões importantes e funcionam como um exame de consciência.

Antes de entrarmos de cabeça em uma “enrascada”, seja ela qual for, precisamos responder a algumas questões importantes:

  • Quem escreveu isso?
  • Qual o contexto?
  • Qual a intenção?
  • Essa mensagem tem alguma evidência como base?
  • Essa mensagem foi publicada em outro lugar?

Qual a diferença entre fake news, pós-verdade e deepfakes?

Fake news

É informação intencionalmente tomada por erros ou falsidades, emitida e reproduzida para construir uma narrativa e atingir determinado objetivo.

Pós-verdade

Desenho em preto e branco - penso logo existo

“Pós-verdade” foi o termo do ano do Dicionário Oxford em 2016. Na definição da própria obra, significa uma situação em que os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos nacionais, teses comprovadas e conclusões pessoais. Não importam as evidências de que a Terra é redonda, os aviões e navios que comprovadamente partiram, deram a volta ao planeta com escalas e chegaram, pelo outro lado, ao mesmo lugar. O importante é a verdade individual, a minha verdade, a verdade que desmente o fato comprovado. Em resumo, a pós-verdade. A onda é a de não analisar mais nada; apenas emitir opinião, seja ela qual for e de qualquer maneira.

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E as deepfakes, o que são?

São a manipulação levada ao extremo, normalmente de áudio, imagem estática e vídeo, por produtores de fake news, com a intenção de tornar difícil, até mesmo impossível ao primeiro contato, a percepção de que o material foi adulterado e não corresponde à verdade. Com a evolução, democratização e o barateamento da tecnologia, as deepfakes serão cada vez mais comuns, volumosas e disseminadas na sociedade. Caminho evidentemente perigoso, mas claramente sem volta. Elevarão as fake news a um patamar imprevisível.

Um dos primeiros casos mundiais clássicos foi aquele do filme em que Barack Obama aparece falando coisas que jamais disse, com uma perfeição técnica extremamente convincente. Uma das propostas, ao menos para os veículos sérios, é identificar e descrever minimamente os casos em que houve edição daqui para frente, mesmo que com objetivos estéticos. Agora, o resultado final da manipulação tende a ficar tão perfeito em tão pouco tempo que poderá haver o discurso contrário. Imagine a seguinte situação: alguém é filmado fazendo algo que o comprometa e sai com a desculpa de que o filme verdadeiro é manipulado. O real e o adulterado ficarão tão próximos que será extremamente difícil identificar um ou outro neste mundo com desequilíbrios técnicos e de todas as ordens.

Obsessão e distúrbios de comportamento

Até agora, estamos refletindo somente do ponto vista material, ou seja, uma visão materialista. Nós, espíritas, não podemos ignorar a realidade espiritual, pois fatalmente seremos levados à obsessão e aos distúrbios de comportamento, além de dar origem a muitos crimes, escândalos e suicídios.

Nunca é demais retomarmos o estudo do capítulo 15, intitulado “Forças viciadas”, do livro Nos domínios da mediunidade, de André Luiz:

“Em mesa lautamente provida com fino conhaque, um rapaz, fumando com volúpia e sob o domínio de uma entidade digna de compaixão pelo aspecto repelente em que se mostrava, escrevia, escrevia, escrevia…

– Estudemos – recomendou o orientador.

O cérebro do moço embebia-se em substância escura e pastosa que escorria das mãos do triste companheiro que o enlaçava.

Via-se-lhes a absoluta associação na autoria dos caracteres escritos.

A dupla em trabalho não nos registrou a presença.

– Neste instante – anunciou Áulus, atencioso –, nosso irmão desconhecido é hábil médium psicógrafo. Tem as células do pensamento integralmente controladas pelo infeliz cultivador de crueldade sob a nossa vista. Imanta-se-lhe à imaginação e lhe assimila as ideias, atendendo-lhe aos propósitos escusos, através dos princípios da indução magnética, de vez que o rapaz, desejando produzir páginas escabrosas, encontrou quem lhe fortaleça a mente e o ajude nesse mister.

Após inclinar-se alguns momentos sobre os dois, o instrutor elucidou com benevolência:

– Entre as excitações do álcool e do fumo que saboreiam juntos, pretendem provocar uma reportagem perniciosa, envolvendo uma família em duras aflições. Houve um homicídio, a cuja margem aparece a influência de certa jovem, aliada às múltiplas causas em que se formou o deplorável acontecimento, O rapaz que observamos, amigo de operoso lidador da imprensa, é de si mesmo dado à malícia e, com a antena mental ligada para os ângulos mais desagradáveis do problema, ao atender um pedido de colaboração do cronista que lhe é companheiro, encontrou, no caso de que hoje se encarrega, o concurso de ferrenho e viciado perseguidor da menina em foco, interessado em exagerar-lhe a participação na ocorrência, com o fim de martelar-lhe a mente apreensiva e arrojá-la aos abusos da mocidade…

– Mas como? – indagou Hilário, espantadiço.

– O jornalista, de posse do comentário calunioso, será o veículo de informações tendenciosas ao público. A moça ver-se-á, de um instante para outro, exposta às mais desapiedadas apreciações, e decerto se perturbará, sobremaneira, de vez que não se acumpliciou com o mal, na forma em que se lhe define a colaboração no crime. O obsessor, usando calculadamente o rapaz com quem se afina, pretende alcançar o noticiário de sensação, para deprimir a vida moral dela e, com isso, amolecer-lhe o caráter, trazendo-a, se possível, ao charco vicioso em que ele jaz.”

Vamos refletir!

Fonte: Folha Espírita

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Referências

AME-SP – A obsessão e suas máscaras. Fernando Lima, 2019. Disponível em:  https://www.youtube.com/playlist?list=PL1KxQTZwocOujsXPH4Qlah4OMTpCCNiLU. Acesso em: 26 nov. 2022.

BARBOSA, Mariana (org.). Pós-verdade e fake news: reflexões sobre a guerra de narrativas. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.

LUIZ, André (Espírito). Nos domínios da mediunidade. Psicografado por Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: FEB, 1955. (Coleção A Vida no Mundo Espiritual, 8).

MARINI, Eduardo. As diferenças entre fake news, pós-verdade, deepfakes e o papel da escola. Educação, 18 maio 2020. Disponível em: https://revistaeducacao.com.br/2020/05/18/fake-news-deepfakes-escola/. Acesso em: 30 nov. 2022.

NOBRE, Marlene. A obsessão e suas máscaras. 3. ed. São Paulo: FE Editora, 1997.

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O êxtase de Paulo de Tarso em 2Cor 12:2-4

Autor: Daniel Salomão

Em sua segunda carta aos coríntios, Paulo de Tarso nos apresenta interessante informação, que oferece rico material para discussão:

Conheço um homem em Cristo que, há quatorze anos, foi arrebatado ao terceiro céu — se em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe! E sei que esse homem — se no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe! — foi arrebatado até o paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir (2Cor 12:2-4).

A Doutrina Espírita, perante fenômenos tidos por extraordinários, apresenta um corpo coerente de explicações, embasadas pelos procedimentos experimentais realizados por Allan Kardec e alguns espíritas da primeira hora. Sem desconsiderarmos as diferenças de entendimento do que é ciência entre as concepções mais recentes e as do século XIX, destacamos que, para o Codificador, “a explicação dos fatos que o Espiritismo admite, de suas causas e consequências morais, constitui toda uma ciência e toda uma filosofia, reclamando estudo sério, perseverante e aprofundado” [1]. Ainda segundo ele, “o Espiritismo e o Magnetismo nos dão a chave de uma porção de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu uma infinidade de fábulas, em que os fatos são exagerados pela imaginação” [2].

Os livros bíblicos, mesmo que escritos em períodos diversos, com objetivos e gêneros literários variados, reúnem muitos desses registros, tidos por milagres entre religiosos, por criações do imaginário popular entre alguns estudiosos, e por uma gama de outros entendimentos entre esses dois polos. Ainda que o Espiritismo não negue as possibilidades de equívoco nas interpretações dos fenômenos pelas suas testemunhas ou mesmo na redação dos textos bíblicos[3], oferece também uma interpretação que os retira da condição de sobrenaturais, pois os compreende como inseridos nas leis da Natureza. Afinal, para o Codificador, no Espiritismo está completa a chave que nos permite “compreender o seu verdadeiro sentido” [4].

A análise espírita da experiência extática registrada por Paulo de Tarso em 2Co 12:2-4, e também pelo Espírito Emmanuel em Paulo e Estêvão [5], é um exemplo de aplicação da proposta kardequiana de compreensão de um fenômeno, tido por ininteligível ou extraordinário, como plenamente natural. Para Allan Kardec, fenômenos como o sonambulismo e o êxtase são efeitos ou modalidades diversas de uma mesma causa, a faculdade de emancipação da alma, que varia em qualidade e intensidade entre os indivíduos, “encontrando-se neles a explicação de uma porção de fatos que os preconceitos fizeram ser vistos como sobrenaturais” [6].

Conforme a visão espírita, durante o sono do corpo, o Espírito, sempre ativo, aproveita-se do afrouxamento dos laços que o prendem ao veículo físico e “visita” o plano espiritual, podendo entrar em contato com outros Espíritos, desencarnados ou encarnados[7]. Naturalmente, pode ter experiências diversas nessa situação, as quais poderão ou não fazer parte de sua memória no estado de vigília. O sonho é a recordação dessas percepções, eventualmente somadas à lembrança da perturbação decorrente da partida do corpo físico e do regresso a ele, bem como às preocupações cotidianas [8]. O sonambulismo é um estado de emancipação ainda maior, que proporciona ao Espírito vivências mais ricas [9].

No êxtase, porém, o Espírito fica ainda mais independente do corpo físico e pode penetrar regiões mais elevadas do plano espiritual, onde entra em contato com Espíritos mais evoluídos e se expõe a sensações de bem-estar e harmonia desconhecidos do plano terrestre. Em O Livro dos Médiuns, é listada a categoria dos médiuns extáticos, definidos como os que, “em estado de êxtase, recebem revelações da parte dos Espíritos” [10]. Contudo, como no sonambulismo, as informações que os extáticos revelam “muitas vezes são uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e absurdas, ou mesmo ridículas”, o que se deve à exaltação que podem demonstrar durante o fenômeno, à influência negativa de outros espíritos e a outras questões [11].

A afirmação de Paulo que é alvo de nossa análise não é necessariamente absurda ou fantástica para um judeu do século I d.C., pois essa experiência tem paralelos em textos do misticismo e do apocalipsismo judaico [12]. No contexto judaico-cristão, a essência do misticismo é “o contato imediato com Deus ou com suas manifestações” [13], o que, do ponto de vista espírita, pode incluir fenômenos anímicos e mediúnicos. O misticismo judaico é rico em experiências de visões “fora do corpo”, como as descritas acima, mas nos textos apocalípticos é que vamos encontrar descrições de “ascensão aos céus”, que mais se aproximam da compreensão espírita de êxtase. Naturalmente, dos textos neotestamentários não podemos deduzir com clareza qual foi o entendimento de Paulo sobre o ocorrido. Ele mesmo informa não saber se o arrebatamento ocorrera “no corpo ou fora do corpo” (2Co 12:3). Segundo alguns pesquisadores, sua inabilidade em descrever o fenômeno é “evidência firme de uma ascensão mística e mostra que a viagem não foi interiorizada como uma jornada para dentro do eu” [14]. Esse entendimento se aproxima do espírita, para o qual é natural a possibilidade de o Espírito se emancipar temporariamente do corpo físico, com liberdade para movimentação e encontros no plano espiritual. Para outros, porém, a dúvida de Paulo não se deve a qualquer inabilidade, mas justamente à característica do “transe”, em que a noção de tempo e espaço se perde[15], o que também tem respaldo no Espiritismo[16].

Em textos apocalípticos judaicos não canônicos, como 1 Enoque, 2 Enoque, Testamento de Levi, 3 Baruc, Testamento de Abraão, 4 Esdras e Apocalipse de Abraão, os êxtases narrados apresentam ascensões aos céus, com descrições semelhantes entre si. Também o Apocalipse canônico de João, escrito após a desencarnação de Paulo, atesta esse fenômeno. Em geral, as ascensões ocorrem durante o sono, quando o extático é acompanhado por um anjo e obtém revelações divinas através de diálogos. Em entendimento próximo ao espírita, o corpo físico permanece dormindo, enquanto uma espécie de corpo espiritual registra a experiência extracorpórea.

Em comparação com o relato de 2Cor 12:2-4, porém, as ascensões dos textos apocalípticos são muito mais complexas e ricas em detalhes. Ademais, as próprias sensações descritas pelos personagens, de espanto e temor, não são detalhadas por Paulo na epístola e se opõem às sensações de tranquilidade explicitadas pelo espírito Emmanuel em Paulo e Estêvão. Além disso, enquanto os viajantes conseguem dialogar com seus interlocutores, Paulo não demonstra a mesma desenvoltura, pois “indômita emoção lhe selava os lábios e confundia o coração”, chegando a “perturbar-se pela incapacidade de articular uma frase” [17]. A similaridade está na localização da visão em uma região elevada dos céus, no “paraíso” ou no “terceiro céu”, e no encontro com “anjos” ou espíritos elevados, o que será discutido à frente. Enfim, após essas considerações iniciais, voltemos ao relato de Paulo.

A epístola em questão (2Cor) não tem sua autenticidade contestada atualmente, mas muitos estudiosos a compreendem como composta por trechos de mais de uma carta [18]. Segundo entendimentos mais recentes, foi escrita entre os anos 52 e 56. Para alguns, na Macedônia [19], para outros, em Éfeso[20]. De qualquer forma, podemos situar o evento narrado entre os anos 38 e 42. Observando a cronologia estimada [21] a partir dos textos bíblicos e da obra Paulo e Estêvão, provavelmente ocorreu no ano 40, nas redondezas da cidade de Tarso, após seu reencontro com o pai.

Interessante é notar, na própria carta (2Cor 10 e 11), que a narração do ocorrido, quatorze anos depois, acontece justamente em período de novas críticas feitas a ele, agora por parte da própria comunidade de Corinto, o que é coerente com as informações de Emmanuel. A revelação dessa experiência consoladora agora serviria também como atestado de competência para o apostolado (2Cor 12:6ss). É possível que Paulo tenha “sido tomado em um período de prece e orações no espírito, meditação em textos bíblicos, ou até em situações de sofrimento extremo” [22]. Para Emmanuel, a primeira e a segunda hipóteses se aplicam. Segundo ele, o fenômeno que destacamos se deu após difíceis reflexões de Paulo sobre as perseguições sofridas. Sem outros recursos que o auxiliassem,

Confiou ao Mestre as preocupações acerbas, pediu o remédio da sua misericórdia e procurou manter-se em repouso. Após a prece ardente, cessou de chorar, figurando-se-lhe que uma força superior e invisível lhe balsamizava as chagas da alma opressa [23].

Após entrar em prece, Paulo passou a experimentar sensações de paz e alívio. Teve a impressão de ser transportado, levado involuntariamente a outra região.

Breve, em doce quietude do cérebro dolorido, sentiu que o sono começava a empolgá-lo. Suavíssima sensação de repouso proporcionava-lhe grande alívio. Estaria dormindo? Tinha a impressão de haver penetrado uma região de sonhos deliciosos. Sentia-se ágil e feliz. Tinha a impressão de que fora arrebatado a uma campina tocada de luz primaveril, isenta e longe deste mundo. Flores brilhantes, como feitas de névoa colorida, desabrochavam ao longo de estradas maravilhosas, rasgadas na região banhada de claridades indefiníveis. Tudo lhe falava de um mundo diferente. Aos seus ouvidos toavam harmonias suaves, dando ideia de cavatinas executadas ao longe, em harpas e alaúdes divinos. Desejava identificar a paisagem, definir-lhe os contornos, enriquecer observações, mas um sentimento profundo de paz deslumbrava-o inteiramente. Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porquanto os portentos espirituais que se patenteavam a seus olhos excediam todo entendimento [24].

As expressões “terceiro céu” e “paraíso”, para descrever o que o espírita entende como uma região nobre do plano espiritual, são perfeitamente compreensíveis dentro da cultura religiosa da época. A divisão do céu em estágios, como representando níveis elevação espiritual, bem como o entendimento de que há nestes “céus” uma região reservada aos deuses e aos eleitos, é fruto de concepções gregas, persas e mesmo hebraicas. Nos textos judaicos não canônicos já citados, como 1 Enoque, 2 Enoque, Testamento de Levi e 3 Baruc [25], vamos encontrar relatos e descrições parecidas. O próprio Allan Kardec registra que alguns Espíritos, já à época da Codificação, relatavam habitar “o quarto, o quinto céus etc.”, sendo informado que, “perguntando-lhes que céu habitam, é que formais ideia de muitos céus dispostos como os andares de uma casa. Eles, então, respondem de acordo com a vossa linguagem” [26]. Com relação à descrição do local, apenas o texto de 2En 8:1-3 apresenta semelhança à informação registrada por Emmanuel, de um lugar onde tudo é de beleza inefável, com “flores, frutos, árvores, rios de águas calmas”. As demais ascensões registram visões de tronos, construções de mármore e cristal etc., fora do ambiente campestre.

Paulo de Tarso, em dois momentos do texto em análise, relata dúvida quanto a estar ou não fora do corpo durante o fenômeno. Emmanuel relata a importância desta experiência para o entendimento do Apóstolo sobre o corpo espiritual ou perispírito (1Co 15:35ss) [27], entretanto, não temos informações seguras sobre o grau de compreensão sobre o assunto desenvolvido por Paulo neste período. É possível que não conseguisse diferenciar a experiência de êxtase de uma experiência de vidência. A visão dos Espíritos, como apresentada em O Livro dos Médiuns, pode ocorrer “achando-se o indivíduo em condições perfeitamente normais. Entretanto, as pessoas que os veem se encontram muito amiúde num estado próximo do de êxtase, estado que lhes faculta uma espécie de dupla vista” [28].

Além disso, essa experiência é facultada a todos durante o sono, como parece ter ocorrido com Paulo. Esse caso, para Kardec, não se caracteriza exatamente como de mediunidade de vidência [29]. Se ocorre em estado de vigília, porém, essa capacidade é tida por mediúnica. Teria sido transportado em espírito a outro lugar (“fora do corpo”), o que podemos caracterizar como êxtase, ou estaria tendo uma visão/vidência (“no corpo”), como a que tivera de Jesus anos antes? Alguns pesquisadores contemporâneos entendem que Paulo talvez não tivesse condições de definir adequadamente sua experiência [30], como já dito. No século I, possivelmente não havia consenso entre os místicos judaicos sobre a ideia de alma e a possibilidade de seu desprendimento do corpo, o que dificultava ainda mais sua descrição [31]. Reforça essa hipótese o fato de, nos textos bíblicos, o termo “êxtase” (do grego ekstasis, deslocamento, espanto, transe etc.) ter conotação mais ampla, incluindo também experiências que, segundo o entendimento espírita, são qualificadas como de dupla vista, vidência ou sonambulismo.

No fim de sua descrição, Paulo diz ter ouvido “palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir” (2Cor 12:4). Porém, qual seria o motivo disso? Segundo Emmanuel, desejava identificar a paisagem, definir-lhe os contornos, enriquecer observações, mas um sentimento profundo de paz deslumbrava-o inteiramente. Devia ter penetrado um reino maravilhoso, porquanto os portentos [maravilhas] espirituais que se patenteavam a seus olhos excediam todo entendimento [32].

Fica claro que faltaram palavras para descrever a experiência. O que via excedia sua capacidade de compreensão, deslumbrava-o, antecipava a realidade espiritual dos justos. Aliás, o registro do diálogo de Paulo com os Espíritos Abigail e Estêvão é um dos tesouros da obra Paulo e Estêvão. Quanto a não ser lícito a ele revelar o que percebia, é possível que, no pensamento de Paulo, aquelas informações pudessem chocar ou impressionar mais que esclarecer ou, talvez, exaltar demais sua pessoa, o que não era seu desejo (2Cor 12:1). Ademais, Allan Kardec, ao comentar sobre as contradições às vezes notadas em comunicações espíritas, alerta-nos sobre a “insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas do mundo incorpóreo” [33].

Por fim, novamente destacamos a importância das bases espíritas, com destaque para O Livro dos Médiuns, para a análise dos fenômenos que entendemos como anímicos ou mediúnicos. O Espiritismo oferece uma rica quantidade de conceitos, que formam um corpo homogêneo aplicável à análise e interpretação de diversos fenômenos ainda tratados por sobrenaturais. Chamamos também atenção para o material judaico citado como referência nesse trabalho, já há algumas décadas valorizado pelas pesquisas religiosas, mas ainda pouco estudado pelo Movimento Espírita. Textos intertestamentários, pseudoepígrafos e apócrifos, judaicos e cristãos, oferecem rico material de análise, o qual facilita a compreensão de como se articulava o pensamento religioso dos primeiros cristãos. O uso desse material, inclusive, previne-nos de eventuais anacronismos em nossas conclusões sobre os pensamentos cristãos originários. Além disso, reúnem grande quantidade de fenômenos possivelmente mediúnicos, que também podem ser perscrutados pela lente espírita.

Daniel Salomão Silva é palestrante e escritor espírita de Juiz de Fora, trabalhador da Fundação Espírita Aurílio Braga Esteves e da Aliança Municipal Espírita da cidade. E-mail: salomaoime@yahoo.com.br.

Fonte: espiritismo.net

[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 38 [i. 14].

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 366 [q. 555].

[3] KARDEC, Allan. A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2009, p. 432 e 433 [c. 15, i. 47 e 48].

[4] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 23 [intro, I].

[5] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.

[6] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 322 [q. 455].

[7] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 294 [q. 401].

[8] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 296 [q. 402].

[9] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 316 a 320 [q. 455].

[10] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 296 [i. 190].

[11] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 320 a 321 [q. 455].

[12] SEGAL, Allan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 73.

[13] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 114.

[14] SEGAL, Allan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 111.

[15] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 20.

[16] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 306 [q. 425].

[17] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 305 e 306.

[18] THEISSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 56.

[19] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 49.

[20] THEISSEN, Gerd. O Novo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 45.

[21] DIAS, Haroldo Dutra. História da Era Apostólica – síntese da cronologia. Revista Reformador, FEB, n. 2170, p. 33-35, jan/2010.

[22] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 200. Ver também SEGAL, Alan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 131.

[23] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.

[24] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.

[25] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 62.

[26] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 621 [q. 1017].

[27] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.

[28] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 167 [i. 100].

[29] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 267 [i. 167].

[30] SEGAL, Alan F. Paulo, o convertido: apostolado e apostasia de Saulo fariseu. São Paulo: Paulus, 2010, p. 111.

[31] NOGUEIRA, Sebastiana M. S. Viagem aos céus e mistérios inefáveis: a religião de Paulo de Tarso. São Paulo: Paulus, 2016, p. 200.

[32] XAVIER, Francisco C. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 23a ed., Rio de Janeiro: FEB, 1987, p. 304.

[33] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1a ed., Rio de Janeiro: FEB, 2008, p. 518 [i. 302].

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Qual a medida de nossa crueldade para conosco?

Adriana Machado

Quantas vezes voltamos o nosso olhar para trás para agradecer pelas nossas conquistas?

Quantas vezes olhamos para o nosso presente e nos parabenizamos por tudo o que já passamos e ultrapassamos nesta vida?

Por vezes, somos cruéis. Fixamo-nos naquilo que não conseguimos alcançar e não enxergamos todo o caminho trilhado para chegarmos aonde estamos, para obtermos toda a experiência que nos fez ser quem somos hoje.

Por que essa postura tão dura conosco? Jesus disse certa vez:

“Onde estão aqueles teus acusadores?” (João 8:10).

Após a resposta da adúltera de que todos tinham ido, ele completou:

“Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.” (João 8:11).

Jesus não estava somente se referindo a todos aqueles que antes a estavam criticando, julgando e condenando, quando afirmou “quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Ele também incluía entre os acusadores alguém muito mais importante que aqueles antes mencionados… Ele se referia à nossa própria consciência.

Se a mulher, que diziam ser adúltera, não se perdoasse pelo seu erro, acabaria se condenando, não se sentindo capaz de se libertar de seus enganos pela culpa que carregaria.

Até que percebesse o seu “pecado”, até que percebesse que não é perfeita e que pode demorar um pouco para adquirir a compreensão para não mais se equivocar, a prisão dessa mulher adúltera (e de todos nós) seria sem grades, mas muito eficaz.

Quando nos incomodamos com as nossas ações, estamos no princípio de uma caminhada mais consciente e tudo fazemos para aplicar as mudanças que nos levarão a não ficarmos mais atormentados. Não posso afirmar que faremos tudo certo desde o começo, mas se tentamos fazer aquilo que achamos certo desde o princípio, compreenderemos que, não nos parabenizar pelo esforço aplicado, é desumano e cruel.

Pensem comigo: em qual fase empreendemos mais esforço? No percurso da maratona ou na linha de chegada? Se não valorizarmos todo o percurso da corrida, todas as dores sentidas, mas superadas, não compreenderemos o verdadeiro valor da chegada. Infelizmente, é o que fazemos, na maioria das vezes, no nosso caminhar.

Li a seguinte frase de um autor desconhecido:

“Eu me lembro dos dias em que orei por coisas que tenho hoje.”

Esse pensamento me fez pensar muito.

Como esquecer que fiz tanto esforço, deixei de realizar tantos outros desejos para chegar aonde cheguei? E, qual é a minha reação diante da vitória?

Estamos tão empenhados em angariar conquistas que não percebemos que não estamos vivenciando nenhuma delas. É como se ganhássemos uma corrida e nem parássemos para pegar a medalha. Já partiríamos para outra corrida e sem o descanso devido.

Chega um momento em que nosso corpo se esgota e não conseguimos mais correr. Nossa mente embaralha, nossas emoções e sentimentos se exacerbam e, sem considerar nossos exageros que provocaram esse colapso, colocamos a culpa em um outro alguém por não darmos mais conta das corridas programadas.

Esquecemos que se nem nós, pais imperfeitos, damos tudo para os nossos filhos, imagina Deus que tudo sabe. Se você vir que a postura adotada por seu filho com o seu carro é um pulo para o desastre, você iria apoiá-lo? Possivelmente, retiraria dele o carro que emprestou e diria para que ele tomasse cuidado e consciência de seus erros no trânsito. Assim é Deus, só devolverá o carro quando perceber que você entendeu o recado dado.

Nossas conquistas não são somente a vitória merecedora de medalha, mas sim todo o esforço, tempo e dedicação que empreendemos para chegarmos lá. Aí, perceberemos que a medalha já é merecida pelo primeiro passo que dermos rumo à linha de chegada. E Deus? Ele nos dará todas as oportunidades e tempo que forem necessários para a concretização de nossa meta.

Por tudo isso, necessitamos valorizar cada etapa já ultrapassada porque muito oramos para ali chegar, mas se já é momento para dali partirmos, que jamais esqueçamos que não chegaríamos a lugar nenhum sem o primeiro passo desta grande caminhada.

Adriana Machado

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A luz em nossas vidas

Orson Peter Carrara

luz vida

Pela oportunidade e qualidade do texto, transcrevo integralmente ao leitor página do site www.momento.com.br com o mesmo título aqui usado. Vejam que notável:

Foi um sonho, há muito tempo acalentado, esse de o homem poder viver num ambiente iluminado.

Em 1828, Thomas Alva Edison conseguiu, pela primeira vez, a lâmpada elétrica de filamento.

A partir desse momento, tudo se modificou na sociedade. Cinquenta anos depois, Joseph Swan patenteou a lâmpada incandescente, que passou a ser industrializada.

É inconcebível hoje, para nossa mentalidade, um mundo sem luz elétrica. Ficamos a pensar no que seria uma casa iluminada por tochas, por candelabros, por velas.

Pode ser muito romântico um jantar à luz de velas. Contudo, viver uma vida inteira tendo que ler, fazer os serviços domésticos, tratar de doentes, costurar utilizando-se de velas, de tochas, de lampiões, de lamparinas… Inconcebível!

A própria natureza nos fala da importância da luz porque nos dá, ao longo do dia, o brilho solar. Quando estamos vivendo sob o brilho do sol, complicado pensar na noite escura.

Quando estamos refletindo sobre a noite escura, temos a oportunidade de pensar no brilho do luar e nos beijos cintilantes das estrelas.

A luz é, em verdade, a grande mensagem do Criador diante das trevas que ainda empanam a vida humana.

Diz o Velho Testamento, no livro do Gênesis: E o Senhor fez a luz. Faça-se a luz. Fiat lux. E a luz se fez.

E Jesus de Nazaré afirmou sem rebuços: Eu sou a luz do mundo. Aquele que andar em mim, jamais conhecerá as trevas.

Naturalmente que a luz de que falava Jesus Cristo não era uma luz física. Ele falava de uma luz mental, de uma claridade espiritual, de algo que Ele viera trazer ao mundo para nos retirar das nossas sombras.

Sombras de ignorância, noites de maldade, escuridão dos tormentos. Então, Ele veio como um astro do dia, uma estrela de primeira magnitude, com essa coragem de dizer, em pleno período das sombras: Eu sou a luz do mundo.

Mas o Homem de Nazaré ainda propôs que nós também trabalhássemos por desenvolver a nossa própria claridade: Brilhe a vossa luz.

Jesus propõe que façamos brilhar a nossa própria luz, porque somos lucigênitos. Fomos criados, gerados pela luz de Deus.

Esse é um convite para que trabalhemos o quanto nos seja possível para sairmos das trevas do não saber, do não sentir, do não amar, do não viver.

Em outro momento, asseverou o Celeste Amigo: Quando os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.

Os nossos olhos bons não são os olhos da face. É a nossa maneira de ver as coisas, nossa visão de mundo, nosso olhar sobre as pessoas.

Na medida em que formos misericordiosos, atenciosos, fraternos para com os outros e seus problemas, é natural que estaremos evoluindo, crescendo na direção do Altíssimo.

Todo o nosso ser espiritual, o nosso corpo espiritual, nosso corpo astral brilhará: Todo o teu corpo terá luz.

Todos os grandes gênios espirituais do mundo valorizaram a luz. Não é à toa que Siddhartha Gautama, o grande Buda, é chamado a luz da Ásia.

Por isto, quando Jesus afirma ser a Luz do mundo, Ele ultrapassa as dimensões de todas as terras, de todos os seres e Se mostra de fato como a Luz, Modelo e Guia para todos nós.

Orson Peter Carrara

Fonte: geae.net.br

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Homem-psi!

Dr. Ricardo Di Bernardi

Até alguns anos atrás, tínhamos uma concepção de um Homem espiritual e a sua contraposição no conceito de um homem-animal. Havia uma antropologia espiritualista e, do lado oposto, uma antropologia materialista.

O avanço das pesquisas científicas, no campo do conhecimento do Ser, levou a uma solução do dilema espiritualismo x materialismo. O homem psicológico de antes não pode mais hoje se restringir a rede animal dos sentidos convencionais. Teve, obrigatoriamente, que se abrir ao extra-sensorial, da mesma forma como o universo físico se ampliou no universo Energético.

O homem-psi é uma miniatura da nova concepção de universo. Além de tudo, a própria concepção de energia mudou, ampliou-se. O homem-psi atual não destrói o homem-psicológico, mas o amplia da mesma forma que o conceito universo físico foi superado pelo conceito de universo Energético.    A psique ou alma não é mais uma entidade meramente metafísica ou teológica nem um simples resultado das atividades bioquímicas do corpo. A alma passou a ser a mente, um elemento extrafísico do Homem, capaz de sobreviver à morte biológica e suscetível a investigação científica em laboratório.

Na universidade de Cambridge, o professor Whately Carington, formulou uma teoria post- mortem e Harry Price da Universidade de Oxford, afirma que a MENTE humana sobrevive após a morte e continua  sendo capaz de transmitir telepaticamente.

Embora haja parapsicólogos comprometidos com instituições religiosas, muitos são independentes, portanto livres para investigar. Assim, dentre as investigações mais significativas citaremos as do Prof. Pratt da Duke University dando origem à classificação de um novo tipo de fenômeno paranormal, denominado teta – oitava letra do alfabeto grego, com a qual se escreve Tanathos, que significa morte. Quaisquer contatos com mentes que sobrevivem a morte estão inseridos nesse estudo.

Outro grupo de fenômenos pesquisados são os relacionados com a existência de vidas passadas (reencarnações), investigados em mais de 2000 (duas mil) crianças que se recordavam, espontaneamente, de suas existências anteriores, um trabalho minucioso do Prof. Dr. Ian Stevenson da Universidade da Virgínia. Semelhante ao do Prof. Banerjee, da Universidade de Jaipur na Índia. Trata-se de MEC, memória extracerebral. Trabalhos rigorosíssimos e cercados de inúmeros cuidados.

Na Rússia, Dr. Vladimir Raikov também investigou a MEC, embora considere como sendo fenômenos obtidos por alguma forma de sugestão hipnótica, os denominou de ‘reencarnações sugestivas”.

Essas informações nos levam a crer que há uma tendência dos grandes grupos de parapsicologia do mundo em aceitar a possibilidade da “tese da sobrevivência da mente humana” após a morte biológica, principalmente o grupo ocidental. O casal Rhine da Duke University chega a dizer que, além da mente ser extrafísica, sobrevive a morte física e, após a morte biológica, é capaz de transmitir comunicações telepáticas.

Atualmente, a Telepatia, clarividência, precognição (premonição), psicocinesia (ação da mente sobre a matéria) estão comprovadas em laboratório. Sobrevivência após a morte, e reencarnação? As comprovações laboratoriais estão a caminho. Como pessoas ligadas à ciência, importante que tenhamos bom-senso e equilíbrio. Nem nos exaltarmos em voos com asa de cera, tal qual Ícaro que teve suas asas derretidas sob o sol, nem colocarmos chumbo nas asas do espírito. A visão independente dos fenômenos paranormais nos faculta abrir os olhos diante do sol do esclarecimento que nos traz inúmeras informações das escolas europeias e norte-americanas.

A alma ou Espírito deixa de ser do outro mundo, passa a se integrar neste mundo. Gradativamente, o preconceito científico que embaraça as investigações vem reduzindo de intensidade. Ao mesmo tempo, se reduz o preconceito religioso que se recusa a aceitar a investigações científicas sobre questões espirituais.

Dr. Ricardo Di Bernardi é médico pediatra e homeopata. Palestrante e escritor espírita. Presidente do ICEF – Instituto de Ciências Espíritas de Florianópolis.

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO DE JESUS NA VISÃO ESPÍRITA

Maria de Nazaré é certamente uma das figuras mais emblemáticas e importantes da era cristã, não somente por receber a missão de trazer ao mundo Jesus, mas também pela forma com a qual conduziu o Mestre, sempre demonstrando amor, fé e sabedoria, mesmo durante o calvário de seu filho.

Boa parte dos cristãos enxerga Maria como uma santidade, outros, apenas a mulher que trouxe ao mundo o Messias. Em comum, há no mínimo um grande respeito pela personalidade mariana. Através de diversas manifestações de fé e religiosidade pelo mundo, Maria recebeu diferentes nomes, e é lembrada de diversas formas, tornando-a um grande vulto do Cristianismo.

A História de Maria

A história da genitora do Mestre de Nazaré, para muitos, é cercada de mistérios desde o período que antecede a seu próprio nascimento no plano físico. Segundo os registros contidos no Protoevangelho de Tiago [1], Maria era filha de Joaquim, um judeu de posses que vivia na região de Nazaré, o qual sempre oferecia doações aos pobres e oferendas aos templos. Tiago narra que, em certa feita, um sacerdote chamado Ruben proibiu Joaquim de realizar doações, pois o mesmo não havia gerado nenhum rebento em Israel, o que contrariava as leis judaicas. Joaquim, diante das circunstâncias, caiu em profunda tristeza e decidiu jejuar por 40 dias e 40 noites em uma montanha deserta, dizendo a si mesmo: “Não voltarei ao lar nem pra comer ou beber, até que o senhor venha visitar-me. As minhas orações me servirão de bebida e comida aqui no deserto”. Enquanto isso, em sua casa, Ana chorava a ausência do marido, dividida entre a dúvida da viuvez e a culpa da esterilidade. Até que um dia, em meio a suas súplicas, Ana recebe a visita de um “anjo” que lhe disse: “Ana, Ana, o senhor ouviu as tuas preces. Eis que conceberás e darás a luz a um filho. E o fruto do teu ventre será conhecido em todo mundo”. No mesmo dia, Joaquim, ainda sobre a montanha, avista dois mensageiros de Deus que lhe dirigiram a palavra: “Joaquim, o senhor ouviu tuas preces, desce daqui e vai a Ana, tua mulher, porque ela conceberá em seu ventre”. Desta forma, Joaquim retornou ao lar e, pouco tempo depois, Ana engravidou e deu a luz a uma menina, a qual recebeu o nome de Maria.

Ao completar 3 anos, Maria é levada por seus pais ao templo judaico e lá permanece sob a tutela dos sacerdotes até os 12 anos, idade em que deveria ser retirada do templo, antes do período de sua menarca [2]. O problema é que, nessa época, Maria já havia se tornado órfã. Foi então que os sacerdotes reuniram os viúvos da região e, através da orientação de um “anjo”, escolheram José para recebê-la.

Segundo o apócrifo atribuído a Tiago, José era um homem idoso, portanto, bem mais velho que Maria. Seu dever era proteger a jovem, que era considerada pelos representantes do judaísmo uma enviada de Deus, portanto, a mesma permaneceu intocada.

A Concepção da Virgem segundo a Tradição

O maior mistério atribuído a Maria, pelo menos para os mais religiosos, indubitavelmente é o que diz respeito à concepção virginal. Os evangelhos canônicos de Lucas e Mateus contam que Maria manteve-se virgem e que Jesus fora concebido pelo “Espírito Santo”, ou seja, a fecundação de Maria aconteceu de forma “milagrosa”, sem a participação de um pai natural.

De acordo com as escrituras sagradas, Maria recebeu a visita do anjo Gabriel, o qual anunciou à jovem sua concepção através da intervenção do “Espírito Santo”. A partir de então, Maria fora acolhida por sua prima Isabel, mãe de João Batista, pois José tivera que se ausentar por um período para trabalhar. Ao retornar, o marido de Maria se deparou com a mesma, já no sexto mês de gravidez, não acreditando na fidelidade da virgem. Então, José é visitado por uma entidade angelical que lhe esclarece a situação. Depois deste evento, a mãe de Jesus segue tranquilamente sua gestação até o nascimento do enviado de Deus, que ocorreu através de um parto fisiológico, conforme a história que todos conhecem.

A Concepção de Maria segundo o Espiritismo

O Espiritismo é uma ciência de observação e ao mesmo tempo uma doutrina filosófica de consequências religiosas, que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos e de suas relações com a vida material. Além disso, a Doutrina Espírita nos convida a desenvolver uma fé raciocinada, analisando os fatos de forma coerente, buscando compreender a razão daquilo que acreditamos. Allan Kardec defende que a religião deve caminhar em consonância com a ciência, de modo que a primeira não ignore a última e vice-versa. E é baseado nesses princípios que analisaremos a questão proposta neste artigo.

Para algumas religiões, a concepção de Maria é tida como um milagre, através da ação do “Espírito Santo”. Este fato, explicaria uma fecundação assexuada. Já segundo a Doutrina Espírita, não existem milagres, todos os acontecimentos fazem parte da Lei Natural, criada por Deus em sua infinita perfeição, desta forma, não há a necessidade de o Criador realizar milagres para provar sua grandiosidade. A questão dos milagres para o Espiritismo é elucidada em “A Gênese”, no tópico, “Faz Deus milagres?”:

“Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo como são perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários”.

O fato de Jesus ter sido gerado de forma milagrosa contraria as vias normais de reprodução, e para o Espiritismo esta é uma questão relevante, uma vez que a reprodução humana é uma consequência das Leis Naturais de Deus.

A doutrina codificada por Allan Kardec não nega a participação do “Espírito Santo” na concepção de Jesus, até porque sua reencarnação foi minimamente planejada pela espiritualidade superior (aqui entra a participação do “Espírito Santo”), entretanto, a fecundação de Maria se deu por vias normais, através de relação sexual entre ela e José, como acontece entre todos os casais.

Mas então, como surgiu o mito da virgindade de Maria?

Acredita-se que a Igreja tenha disseminado essa tese, a fim de diminuir a promiscuidade entre as pessoas. A prática sexual naquela época era permitida apenas com o intuito de procriação, isso para não provocar a extinção da raça humana. Quanto menor fosse a relação sexual entre os casais, menores seriam os seus pecados.

Jesus com o passar do tempo tornou-se uma figura mitológica e, como sendo um Deus, não poderia ter nascido do pecado original cometido por Adão e Eva. Apesar dessas considerações, o Novo Testamento utiliza o termo “O Filho do Homem” 88 vezes. Esse termo refere-se a Jesus como um ser humano, e como tal, seu nascimento só poderia ter acontecido de forma natural.

Nas epístolas de Paulo, que são os registros mais antigos contidos na Bíblia, não há evidências da virgindade de Maria; o apóstolo refere-se a ela apenas como a mãe de Jesus. Os evangelhos bíblicos reforçam ainda que Maria e José tiveram outros filhos, não podendo persistir a virgindade de Maria:

“Não é este o filho do carpinteiro? Não é Maria sua mãe? Não são seus irmãos Tiago, José Simão e Judas?” (Mateus 13, 55)

A grande diferença em tudo isso é que o Espiritismo não interpreta o ato sexual como um pecado. O que torna o sexo imoral é como as pessoas o praticam. Não devemos viver para a prática sexual, mas o sexo é importante para gerar a vida, sendo um mecanismo natural do ser humano.

A Visão do Espiritismo sobre Maria

É certo que Maria faz parte de um grupo de Espíritos evoluídos que vieram para preparar a chegada de Jesus. É um Espírito tão puro, que recebeu a missão nobre de conduzir o governador da Terra, modelo e guia da humanidade.

Maria é sinônimo de amor, prova disto foi a sua resignação ao presenciar o sofrimento de seu filho, em nome da salvação da humanidade. E é por isso que este Espírito desperta tanta simpatia e admiração entre as pessoas. Há quem acredite que pedir a intercessão de Maria é o método mais eficaz de se chegar a Jesus, pois um filho não negaria o pedido de uma mãe.

Na literatura espírita, encontramos vários registros sobre Maria na espiritualidade. O livro Memórias de um Suicida descreve as atividades da Legião dos Servos de Maria, um grupo de Espíritos especializados no resgate de suicidas nas zonas inferiores. Após o socorro dos réprobos, os mesmos são encaminhados ao Hospital Maria de Nazaré. Esta instituição é dirigida pela mãe de Jesus. Camilo Cândido Botelho, autor espiritual desta obra, relata que a tarefa de cuidar de Espíritos suicidas não poderia ser desempenhada por outro Espírito a não ser Maria, por ela ser a referência de amor e de dedicação fraternal.

Além disso, milhares de fiéis pelo mundo todo dedicam sua fé e devoção a Maria. Em virtude disso, existem Espíritos abnegados que trabalham em seu nome, recebendo os pedidos e as orações e auxiliando aqueles que sofrem.

É importante ressaltar que a Doutrina Espírita alimenta um profundo respeito a qualquer forma de convicção religiosa, mesmo posicionando-se de forma diferente. E sabemos que Maria é um Espírito de luz e trabalha ao lado de Jesus em benefício da humanidade.

Fonte: Vinhas de Luz

Referências:

A Epístola Lentuli – Pedro de Campos.

A Gênese – Allan Kardec.

O Evangelho de Tiago – Autor desconhecido.

Memórias de um Suicida – Yvonne A. Pereira, pelo Espírito Camilo Cândido Botelho.

[1] Este apócrifo também conhecido como “Livro de Tiago” ou, ainda, “A Natividade de Maria”, tem sua autoria e data atualmente tidas como desconhecidas, embora o autor se identifique como Tiago. Muitos estudiosos consideram o seu texto muito remoto, anterior mesmo aos Evangelhos Canônicos ou até à base deles.

Os Pais da Igreja, Orígenes, Clemente, Pedro de Alexandria, São Justino e São Epifânio citam este evangelho com muita frequência.

[2] Primeira Menstruação.

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Magnetismo e Espiritismo: quem os separou?

Jacob Melo

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Por ter crescido num berço espírita e já contando com muitos anos lidando com o Magnetismo, fico pensando o porquê de se fazer tantas reservas ao casamento dessas duas ciências!

Como ciências, elas são consorciadas num enlace indissolúvel, sob pena de, em se separando, chegarem ao imobilismo, conforme preconizou Allan Kardec em janeiro de 1869, às vésperas de sua desencarnação (Revista Espírita, janeiro de 1869, página 7, onde se lê: “O magnetismo e o Espiritismo são, com efeito, duas ciências gêmeas, que se completam e se explicam uma pela outra, e das quais aquela das duas que não quer se imobilizar, não pode chegar a seu complemento sem se apoiar sobre a sua congênere; isoladas uma da outra, elas se detêm num impasse; elas são reciprocamente como a física e a química, a anatomia e a fisiologia”. Grifo original). Fica bastante visível a opinião do Codificador, a qual nem sempre tem recebido o respeito devido.

Uma das “lutas” de Allan Kardec foi a de convencer os magnetizadores de sua época acerca da influência dos Espíritos nos fenômenos do magnetismo. A grande maioria dos magnetizadores de então não queria admitir a possibilidade da interveniência de “nenhuma potência estranha”, mesmo quando não tinham, em seus saberes, todos os móveis e motores que explicassem a ação de tão sutil agente, chamado de fluido, potencializado por outro ainda mais sutil: a vontade.

Vermífugos, vomitórios, sangrias e perdas de vitalidade provocadas eram considerados, ainda, como os principais elementos de cura da medicina da ocasião e as terapias naturais já começavam a se fazer reconhecidas, se não pelas curas totais, pelo menos por apresentarem menores índices de óbitos. Nesse universo, o magnetismo de Mesmer já havia conquistado terreno amplo, mesmo com o Magnetismo ainda tendo que enfrentar parte da sociedade acadêmica e dela sofrer as mais rigorosas perseguições. Todavia, no que se percebe da leitura dos grandes da época, muitos médicos já haviam incorporado à sua prática clínica tanto o Magnetismo como o Sonambulismo, sempre referindo sucesso a tal mister.

E pelo que Allan Kardec pronunciou: “O magnetismo preparou o caminho do Espiritismo, e os rápidos progressos desta última doutrina são incontestavelmente devidos à vulgarização das ideias sobre a primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo e do êxtase às manifestações espíritas há apenas um passo; sua conexão é tal que, por assim dizer, é impossível falar de um sem falar do outro. Se tivermos que ficar fora da Ciência do magnetismo, nosso quadro ficará incompleto e poderemos ser comparados a um professor de Física que se abstivesse de falar da luz” (In Revista Espírita, março 1858, artigo ‘O magnetismo e o Espiritismo’) fica notório que o mestre de Lion abençoava esse enlace e ainda nos advertia do preço que seria ficarmos de fora da Ciência do Magnetismo. E para que não ficasse dúvidas de que ele conhecia e respeitava os grandes mestre do Magnetismo, ele encerrou o referido artigo com este honestíssimo parágrafo: “Devíamos, aos nossos leitores, essa profissão de fé, que terminamos rendendo uma justa homenagem aos homens de convicção que, afrontando o ridículo, os sarcasmos e os dissabores, estão corajosamente devotados à defesa de uma causa toda humanitária. Qualquer que seja a opinião dos contemporâneos sobre a sua conta pessoal, opinião que é sempre, mais ou menos, o reflexo de paixões vivas, a posteridade lhes fará justiça; colocará o nome do barão Du Potet, diretor do Jornal do Magnetismo, do senhor Millet, diretor da União Magnética, ao lado dos seus ilustres predecessores, o marquês de Puységur e o sábio Deleuze. Graças aos seus esforços perseverantes, o Magnetismo, tornado popular, colocou um pé na ciência oficial, onde dele já se fala, em voz baixa. Essa palavra passou para a linguagem usual; ela não espanta mais, e quando alguém se diz magnetizador, não lhe riem mais ao nariz” (grifos originais).

Nosso codificador, portanto, afirma e reafirma a união do Magnetismo com o Espiritismo. Sobrando, portanto, a pergunta título deste artigo: “quem os separou?”. O mundo, assim como eu, espera uma resposta que explique o que nos levou a esse imobilismo em que nos metemos.

Jacob Melo

Fonte: Correio Espírita

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Quem está “pronto” para a “derradeira” viagem?

Jorge Hessen

O Espírito desencarnado – 1 parte - Harmonia espiritual

A culpa e os pesares da consciência são maiores quanto melhor o homem sabe o que faz. Kardec conclui primorosamente este ensinamento, afirmando que “a responsabilidade é proporcional aos meios de que ele [o homem] dispõe para compreender o bem e o mal. Assim, mais culpado é, aos olhos de Deus, o homem instruído que pratica uma simples injustiça, do que o selvagem ignorante que se entrega aos seus instintos” (1)

Há uma frase atribuída a Chico Xavier que diz o seguinte: “os espíritas estão morrendo mal”. De fato: “Muitos espíritas estão desencarnando em situações deploráveis, recebendo socorro em sanatórios no Plano Maior da Vida em virtude das péssimas condições morais e psíquicas em que se encontram”. (2) No livro Vozes do Grande Além, Sayão, um pioneiro do Espiritismo no Brasil, afirma que

“nas vastidões obscuras das esferas inferiores, choram os soldados que perderam inadvertidamente a oportunidade da vitória. São aqueles companheiros nossos que transitaram no luminoso carreiro da Doutrina, exigindo baixasse o Céu até eles, sem coragem para o sacrifício de se elevarem até o Céu. Permutando valores eternos pelo prato de lentilhas da facilidade humana, precipitaram-se no velho rochedo da desilusão.” (3)

Aos espíritas sinceros e/ou simpatizantes do Espiritismo precisamos alertar: “Ninguém tem o direito de acender uma candeia e ocultá-la sob o alqueire, quando há o predomínio de sombras solicitando claridade”. (4) Muitos espíritas que, presunçosamente, se autoavaliam equilibrados estão desencarnando muito mal.

Nessas condições, estão os espíritas desonestos, adúlteros, mentirosos, ambiciosos, mercantilistas inescrupulosos das obras espíritas, os tirânicos dos Centros Espíritas, os que trabalham nas hostes espíritas só para auferirem vantagens pessoais, os supostos médiuns que ficam ricos com a venda de livros de baixíssimo nível doutrinário etc., etc.

Este último aspecto preocupa muito, pois, atualmente, existe uma enxurrada de publicações de livros “psicografados” que não passam de ficções de péssima qualidade. Livros com erros absurdos de gramática, assuntos empolados, ideias desconexas, oriundas dos subprodutos de mentes doentes, de médiuns e/ou supostos “Espíritos”, que visam tirar dinheiro dos neófitos com a venda de tais entulhos antidoutrinários, mas que enchem os olhos dos incautos pela imaginação fantasiosa.

Insistentes, esses aparentes “psicógrafos” ou despreparados “Espíritos” estão construindo denso universo de sombras sobre o Projeto Kardeciano, confundindo pessoas inexperientes, que batem à nossa porta em busca de esclarecimento e consolação. Esses “médiuns” e/ou “espíritos inferiores” ocultam, sob o empolamento (enganação), o vazio de suas ideias esquisitas. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula, obscura, forçando a barra para que pareça profunda.

Até quando? Eis a questão! O tempo urge.

Jorge Hessen

Fonte: Espiritismo na Rede

Referências bibliográficas:

(1) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000, perg. 637.

(2) Franco, Divaldo Pereira. Tormentos da Obsessão, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, Bahia: Editora: Livraria Espírita Alvorada, 2006, 8ª edição.

(3) Xavier, Francisco Cândido. Vozes do Grande Além, ditado por Espíritos diversos, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2 ª edição, 1974.

(4) Franco, Divaldo Pereira. Tormentos da Obsessão, ditado pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda, Bahia: Editora: Livraria Espírita Alvorada, 2006, 8ª edição.

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O Perdão

Cristiane Bicca

Todos nós buscamos a felicidade. Mas que felicidade é essa que quanto mais se procura mais distante fica? Para que realmente a encontremos é necessário conhecermos a nós mesmos e colocarmos em prática a nossa reforma íntima, ou seja, a renovação das nossas atitudes.

Por isso, hoje, falaremos sobre o perdão, uma das maiores virtudes, através das quais alcançaremos a paz e a felicidade interior.

Como nos mostra Miramez em Horizontes da Mente, o PERDÃO é um fato, sem que exista discussão sobre o assunto, pois se fundamenta no amor e é sustentado pela caridade, sem insultar a lei da justiça.

Infelizmente, nosso conceito de perdão pode limitar ou dificultar a nossa capacidade de perdoar. Dizem que perdoar é coisa de gente fraca, medrosa, boba. Possuímos crenças negativas de que perdoar é aceitar de forma passiva tudo o que nos fizeram. Achamos que perdoar é aceitar agressões, desrespeito aos nossos direitos. Muitos afirmam: “eu não levo desaforo para casa!…” Somos alguns destes?

Será que a pessoa que perdoa demonstra fraqueza de caráter? Temos a certeza que não. Aliás esta certeza não é nossa, mas do Cristo que nos recomendou e viveu o perdão incondicional. E não consta que o Mestre tenha demonstrado em Sua vida fraqueza de caráter. Alguns até pensaram que ele era meio fraco, já que quando perseguido e açoitado, não esboçou qualquer gesto de reação e no auge do seu martírio ainda foi capaz de pedir ao Pai que perdoasse os seus ofensores.

Até hoje ninguém lembra daqueles que o crucificaram, mas o nome do “imaginado fraco”, do grande pacificador, cruzou os mares, venceu a linha do tempo, ficando conhecido em todo o mundo, a tal ponto de dividir a história da humanidade em antes e depois Dele.

Não existe uma razão plausível para não perdoar, mas existem muitas razões para exercitarmos o perdão. Vamos ver algumas delas?

A primeira razão para perdoar encontra-se na constatação de que todos nós ainda somos imperfeitos. Não há ninguém, no atual estágio do planeta Terra, que tenha atingido a perfeição, por isso, o erro faz parte das nossas vidas. A visão da eternidade, que a doutrina espírita nos mostra, abre os nossos horizontes, pois se já percorremos inúmeras encarnações, muito já aprendemos, porém temos que aprender outras centenas de lições. E como o Criador está em constante processo de criação, cada um de nós iniciou sua trajetória evolutiva em época diferente da dos demais. Logo, cada um de nós está em determinada faixa evolutiva, com determinados aprendizados já realizados e com muitos outros a serem realizados.

Então, se alguém nos ofende, não o faz por maldade, mas por ignorância. Ignorância, significa, que quem nos ofendeu ignora, ainda não aprendeu a lição do respeito. Somente quem tem a visão da imortalidade do espírito pode compreender a trajetória que todos nós realizamos, passo a passo, degrau a degrau.

Um exemplo simples: se déssemos a um aluno do Primeiro Grau uma equação algébrica para ele resolver, dificilmente conseguiria e nem por isso seus professores ficariam decepcionados com ele. Simplesmente entenderiam que ele não estava em condições de resolver o problema. Ele ainda era ignorante em álgebra. Futuramente não será mais.

Sendo assim, haveremos de aceitar as pessoas como elas são; cheias de virtudes e defeitos. Não há perfeição, ainda somos imperfeitos. Vamos sair da ilusão de que os outros devem ser perfeitos, principalmente quando agem conosco.

Muitos dizem: “Ah, eu me desiludi com aquela pessoa”. É claro! Sabem porquê? Porque se iludiram com ela, pensando que esta seria perfeita o tempo todo. Provavelmente, notaram muitas virtudes e aí passaram a imaginar que aquela pessoa era um “anjo caído do céu”, mas quando esta mostrou os seus defeitos, veio a desilusão, o engano, a decepção. Aí, muitos dizem que não conseguem perdoar porque estão muito magoados. Porém, o problema não está no outro, pois era previsível que por mais especial que esta pessoa fosse, um dia acabaria agindo de forma diferente daquela que esperávamos. O erro está em nós, que não aceitamos as pessoas como elas são.

Será que estamos aceitando as pessoas como são? Será que não estamos esperando muito dos outros? Será que estamos esperando lidar com seres angélicos num planeta de provas e expiações?

Podemos dizer: Sem Aceitação, Não há Perdão!

Nos aceitando e aos nossos irmãos como eles são, nossos relacionamentos ficarão melhores. Sabem porquê? Porque não haverá tanta cobrança, tanta expectativa. E quando eles ou nós errarmos, e eventualmente nos prejudicarmos, haveremos de lembrar do Mestre Jesus, que perdoou a todos, exatamente porque aceitou a cada um de nós do jeitinho que somos.

Um outro motivo para esquecermos as ofensas está na constatação de que o perdão traz um grande alívio para quem perdoa. Nem sempre para quem é perdoado. Porque muitas vezes quem é perdoado não consegue se livrar da sua consciência, mas este também precisa aprender a se perdoar e a recomeçar novamente. O autoperdão também é importante. Para que reconhecendo os nossos erros encontremos forças para reformular nossas atitudes e começar uma nova vida.

Considerando a própria fragilidade, o indivíduo deve conceder-se a oportunidade de reparar os males praticados, reabilitando-se perante si mesmo e perante aqueles a quem haja prejudicado.

O arrependimento, puro e simples, se não acompanhado da ação reparadora, é tão inócuo e prejudicial quanto a falta dele.

O autoperdão ajuda o amadurecimento moral, porque propicia clara visão responsabilidade, levando o indivíduo a cuidadosas reflexões, antes de tomar atitudes agressivas ou negligentes, precipitadas ou contraditórias no futuro.

Quando alguém se perdoa, aprende também a desculpar, oferecendo a mesma oportunidade ao seu próximo.

Caso não nos perdoarmos ou não perdoarmos alguém, carregaremos os sentimentos de mágoa e ressentimentos e este lixo tóxico produzirá em nosso organismo doenças de difícil tratamento. Por que? Porque se alimentarmos idéias de ódio e vingança entramos na mesma sintonia de agressão e sobrecarregamos nossos centros energéticos, perturbando o nosso organismo, desencadeando um mundo de distúrbios, fazendo com que nosso espírito sofra as conseqüências do que provocou.

Eis o porquê do PERDÃO.

Muitos podem estar se perguntando como podemos aprender a perdoar.

Uma das ferramentas básicas para alcançarmos o perdão real, é conseguirmos nos manter a uma certa “distância psíquica” da pessoa, do problema ou das discussões. O que seria esta distância psíquica? É conseguirmos analisar, o problema como se não fosse conosco. Porque este distanciamento fará com que não exageremos na interpretação do problema, caindo em impulsos desequilibrados causando uma sobrecarga em nossa energia mental. A mente com este desequilíbrio dificulta o perdão. Então, nos desligando da agressão ou do desrespeito, nosso pensamento vai sintonizar com mais clareza e nitidez no bem, renovando a “atmosfera mental”.

Ao desprendermo-nos mentalmente, passamos a usar construtivamente os poderes do nosso pensamento, evitando os “deveria ter falado ou agido”, eliminando da nossa imaginação os acontecimentos infelizes que aconteceram conosco.

É fator imprescindível, ao “separar-nos” emocionalmente de acontecimentos infelizes, a TERAPIA DA PRECE como forma de nos harmonizarmos, pois a prece refaz os sentimentos de paz e serenidade, facilitando a harmonização interior.

Desligar-se não é um processo de nos tornar insensíveis e frios, comportando-nos como criaturas inacessíveis as ofensas e críticas. Desligar-se, quer dizer deixar de alimentar-se das relações destrutivas, desvincular-se mentalmente das relações doentias ou de problemas que não podemos solucionar no momento.

Ao soltarmo-nos desses fluidos que nos amarram a essas crises, temos a chance de enxergarmos novas formas de resolver dificuldades e desenvolvermos a nobre tarefa de nos compreender e compreender os outros.

Quando aceitaremos fazer este “distanciamento” mais facilmente? Quando conseguirmos acreditar que cada ser humano é capaz de resolver seus problemas, e é responsável por todos os seus feitos na vida, permitindo que sejam, e se comportem como queiram, dando-nos a nós essa mesma liberdade.

Viver nos impondo certa “distância psicológica” às pessoas ou coisas problemáticas, sejam entes queridos difíceis ou companheiros complicados, não significa que deixaremos de nos importar com eles ou de amá-los ou de perdoar-lhes, mas sim de viver sem enlouquecer pela ânsia de tudo compreender, suportar e admitir.

Compreendendo, que ao promovermos, este distanciamento psicológico, teremos mais habilidade e disponibilidade para percebermos o processo que há por trás dos comportamentos agressivos, permitindo-nos não reagir da mesma maneira que fazíamos e sim olharmos “como é, como está sendo feito” nosso modo de nos relacionar com os outros, isto nos leva a começar a entender a dinâmica do perdão.

Uma das mais eficientes técnicas de perdoar é retomar o vital contato conosco mesmo, deixando-nos de ser vítimas de forças fora do nosso controle para transformar-nos em criaturas que criam sua própria realidade de vida, pois como já diz o nosso querido Divaldo Pereira Franco:

“O PERDÃO É SEMPRE PARA QUEM PERDOA”.

Por isso, não nos contaminemos pela raiva, pela cólera e pela mágoa. Vivamos em paz e com a nossa consciência tranquila pronta para merecer o perdão das pessoas que prejudicamos com os nossos atos, palavras e pensamentos, pois somente será perdoado aquele que perdoa. Essa é a lei.

Façamos uma proposta conosco mesmo: passemos uma borracha em todos os sentimentos de mágoa que e ainda temos. Libertemo-nos do ódio, expulsemos a mágoa, perdoemos os nossos ofensores e a nós mesmos, pois todos nós necessitamos do perdão Deus ensinado por Jesus na oração do Pai Nosso.

Se Deus, a Suprema Bondade, compreende nossos erros, porque não haveríamos de entender os erros alheios?

Experimente perdoar, pois quem aprender a perdoar jamais se esquecerá, por sentir os efeitos de felicidade que advém deste fato.

Cristiane Bicca

Fonte: Espiritismo na Rede

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