Terapia do Autoconhecimento

Joanna de Ângelis

TERAPIA DO AUTOCONHECIMENTO

Silencia as ansiedades do sentimento e acalma os tormentos, reflexionando em torno das tuas reais necessidades. Aprofunda a auto-análise e tem a coragem de te desnudares perante a própria consciência.

Enumera as tuas mais graves emoções perturbadoras e raciocina sobre a sua vigência no teu comportamento.

Enfrenta-as, uma a uma, não as justificando, nem as escamoteando sob o desculpismo habitual.

Resolve-te por sanar a situação aflitiva dos teus dias, optando pela aquisição da saúde.

Consciente de que és o que fizeste de ti, e poderás ser o que venhas a fazer de ti próprio, não postergues a decisão do auto-encontro.

Enquanto a anestesia da mentira te obnubile o raciocínio, transitarás de um para outro problema, sem que consigas a paz real.

Reunirás valores de fora, que perdem o significado, logo são conseguidos, anelando pelo bem-estar fugidio, que se te anuncia e logo desaparece.

O homem que se conhece possui um tesouro no coração.

O discernimento que o caracteriza é a sua luz acesa no imo, apontando-lhe rumo.

Conhecendo a fragilidade da veste carnal, valoriza cada hora e aplica-a bem, vivendo-a intensamente, em cujo comportamento recolherás os melhores frutos.

Cada vez que te resolvas por te autodescobrires, conduze uma proposta de libertação.

Começa pelos vícios sociais da mentira, da maledicência, da calúnia, do pessimismo, da suspeita, passando aos dramas do comportamento, na inveja, no ciúme, no ressentimento, no rancor, no ódio… Posteriormente, elabora as medidas educativas às dependências aos alcoólicos, ao tabagismo, às drogas alucinógenas, à luxúria, aos distúrbios da conduta e às investidas das alucinações psicológicas…

Cada passo ser-te-á uma conquista nova.

Toda vitória, por pequena que se te apresente, significará um avanço.

Como os condicionamentos são a segunda natureza, em a natureza humana, gerarás hábitos salutares, que te plenificarão em forma de equilíbrio e paz.

Toda terapia eficiente impõe disciplinas saudáveis, às vezes ásperas, cujos resultados chegam, à medida que são utilizadas.

Na do autodescobrimento, a coragem e o interesse pela própria realização facultarão as forças para que não desistas no tentame, nem te entregues à acomodação mental que te informa ser impossível executá-la.

Começa-a hoje e agora, aguardando que o tempo realize, na cura, o ciclo que investiste para que se te instalassem os distúrbios.

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereira Franco

Livro: Momentos de Iluminação

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Descartes sonhou com o Espírito da Verdade

Por J. Herculano Pires

Na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, Descartes, então jovem soldado acampado em Ulm, na Alemanha, sentiu-se tomado por intensas agitações. Seu amigo, biógrafo e correspondente, o Abade Baillet, diria mais tarde que ele “entregou-se a uma espécie de entusiasmo, dispondo de tal maneira do seu Espírito já cansado, que o pôs em estado de receber as impressões dos sonhos e das visões”.

De fato, Descartes, que se preocupava demasiado com a incerteza dos conhecimentos humanos, transmitidos tradicionalmente, deitou-se para dormir e teve nada menos de três sonhos, que considerou bastante significativos. A importância desses sonhos não foi até́ hoje apreciada pelos historiadores e pelos intérpretes do filósofo. Mas Descartes declarou que eles lhe haviam revelado “os fundamentos da ciência admirável”, uma espécie de conhecimento universal, válido para todos os homens e em todos os tempos. Essa ciência não seria elaborada apenas por ele, pois tratava-se de “uma obra imensa, que não poderia ser feita por um só”.

Descartes sentiu-se de tal maneira empolgado pelos sonhos que acreditou haver sido inspirado pelo Espírito da Verdade. Pediu a Deus que o amparasse, que lhe desse forças para realizar a tarefa que lhe cabia. E desse episódio originou-se toda a sua obra, que abriu os caminhos da ciência moderna.

Não tinha ele, nessa ocasião, mais do que 23 anos. Dezoito anos depois lançou o Discurso do método, que rasgaria os novos caminhos da ciência. Seu trabalho prosseguiria com outros pensadores livres e se completaria com a dedicação de Kardec.

Descartes mergulhou em si mesmo, negando toda a realidade material, inclusive a do próprio corpo, na procura de alguma realidade positiva, que se afirmasse por si mesma, de maneira indubitável. Foi então que descobriu a realidade inegável do Espírito, proclamando, no limiar da nova era: Cógito, ergo sum, ou seja: “Penso, logo existo.” Descobre no fundo do cógito, no seu próprio pensamento, a realidade suprema de Deus. A chamada revolução cartesiana foi precursora da revolução espírita. A ciência admirável de Descartes é a mesma ciência espiritual de Kardec, ainda em desenvolvimento, por muito tempo, em nosso planeta.

Em O Espírito e o Tempo, Herculano Pires, Ed. Paideia.

Publicado no jornal Correio Fraterno, set/out de 2010 edição 435

Fonte: correio.news

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O Transtorno Bipolar na Visão Espírita

Dr Luiz Paiva

O transtorno bipolar é uma doença funcional do cérebro relacionada aos neurotransmissores cerebrais, que provoca oscilações imprevisíveis do humor, que vai da depressão aos estados mais elevados, chamados de hipomania ou mania.

Afetando em torno de 1% da população, distribuído igualmente entre homens e mulheres, o TB (transtorno bipolar) permanece como crônico em 1/3 dos acometidos, perdurando por toda vida. Surge geralmente na terceira década de vida e os sintomas depressivos predominam na maior parte do tempo.

Conquanto receba o nome de transtorno bipolar do humor, ele tem subespécies onde só se manifesta a mania ou a depressão ou estados mistos de mania e depressão, em que predomina a irritabilidade. Comumente, quando se apresenta com o predomínio dos sintomas depressivos é mal diagnosticado como depressão maior e tratado erroneamente com antidepressivos somente, o que piora o quadro.

Por isso, o diagnóstico deve ser feito por profissional qualificado, após exame clínico acurado e colhida história detalhada da enfermidade e sua evolução.

Sabe-se que o transtorno funcional dos neurotransmissores como noradrenalina, serotonina e dopamina desempenham papel fundamental na doença, e estudos mostram uma base genética também, pois incide mais frequentemente em algumas famílias. Conquanto existam os fatores predisponentes, há também as situações desencadeantes, geralmente associadas ao estresse ambiental ou uso e abuso de substâncias psicotrópicas, legais e ilegais.

Pelo que você pode observar, até agora analisamos apenas os fatores biológicos e ambientais, ficando uma lacuna nos aspectos psíquicos e espirituais. Há fatores intrapsíquicos, como a estrutura de personalidade, que joga como um fator de facilitação para a emersão do estado patológico. Aqui, de igual forma, torna-se impossível separar os fatores espirituais, cármicos, dos fatores psíquicos, pois ambos procedem de uma mesma fonte, qual seja, o espírito imortal.

Torna-se vital avaliarmos o papel que desempenha o cérebro e o corpo físico como um todo no processo da evolução espiritual. O cérebro e o sistema endócrino-humoral é um grande sistema cibernético ou computadorizado, de natureza analógica e não digital, isto é, responde às gradações de forma gradual e não pelo tudo ou nada. Isto faculta ao cérebro ser um meio modulador dos impulsos mentais advindos do espírito, atenuando-os ou potencializando-os, conforme as necessidades adaptativas ou educativas da interação espírito- matéria.

Em assim sendo, as tendências patológicas agem como um alarme, fazendo o espírito automodular-se nas tendências e paixões. É a própria Lei de Causa e Efeito a serviço da educação, finalidade maior de sua existência no grande plano pedagógico de Deus.

À guisa de metáfora, seria como um mau motorista que, notório abusador dos recursos do veículo, desgastando-o prematuramente no descontrole da velocidade e nas frenagens, arriscando-se e levando riscos aos outros, recebesse como parte do seu processo reeducativo um veículo com deficiência nos freios, obrigando-o a restringir a velocidade e a utilizar marchas adequadas, de modo a lhe permitir o devido controle no direcionamento veicular.

Assim podemos melhor compreender a injunção cármica dos transtornos mentais como um todo, que servem de recursos retificadores dos trânsfugas espirituais que, destarte, corrigem em si mesmos os desvios das paixões alucinantes, do suicídio direto e indireto, dos abusos da inteligência e de outras formas de viciação e alienação do espírito.

No âmbito do tratamento, embora a própria enfermidade seja em si mesma uma forma de cura da causa original do problema, a providência divina concedeu à medicina humana os meios paliativos e mesmo efetivos de controlar, digamos, o descontrole. No caso do transtorno bipolar temos uma imensa gama de substâncias chamadas de estabilizadores do humor que se utilizam no tratamento de crise e no de longo prazo desta devastadora doença.

Sob o ponto de vista espiritual, strictu sensu, a reforma íntima, a vigilância e a oração, o propósito no bem, as ações beneficentes constituem-se na melhor profilaxia e tratamento. Não raro, os portadores de TB trazem um séquito de cobradores do passado que podem vir a ser soezes obsessores, complicando um quadro já em si complexo e difícil. O transtorno bipolar do humor parece ser um facilitador da manifestação de faculdades mediúnicas, o que junto às afinidades espirituais do passado e os seus compromissos, vulnerabilizam sobremaneira o enfermo, que se torna assim presa fácil de múltiplos fatores alienantes.

É desnecessário dizer que a utilização da terapêutica espírita é de grande valia, se acompanhada do devido esforço regenerativo por parte do doente. A doença em si é um grande processo de cura, dentro da qual se insere a abordagem espírita, a funcionar como psicoterapia cognitiva e, ao utilizar os recursos fluídicos e ectoplásmicos, como recurso relevante na cura quântica do desequilíbrio, mas sempre secundariamente à adequada abordagem médica.

Postado por Sérgio Vencio

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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SOCIOLOGIA E ESPERANÇA

Capitalismo, humanismo e espiritismo

Por Jerri Almeida

SOCIOLOGIA E ESPERANÇA

Capitalismo, humanismo e espiritismo

Em outubro de 2011, foi realizado pelo Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo um seminário sobre o tema: Sociologia e Esperança, com pesquisadores da USP, Universidade de Cambridge e da Universidade de Lisboa. Dentre os vários enfoques, coube ao professor Alfredo Bosi [1] discutir o tema: “Economia e humanismo”.[2] Apesar do desencanto que possamos nutrir por essa relação, trata-se de uma reflexão oportuna e necessária.

O movimento Economia e Humanismo, citado por Bosi, surgiu na França em meados dos anos 40. Fundado por Louis-Joseph Lebret, um ex-marinheiro que se tornou oficial da Marinha, servindo na Primeira Guerra Mundial. Aos 26 anos, ainda muito jovem, Lebret decidiu abandonar sua sólida carreira na Marinha e entrar para a ordem dos padres dominicanos. Após sua ordenação, em 1928, esse jovem da Bretanha, fundou na região de Saint-Malo a Associação dos Jovens Marítimos, passando a dedicar-se aos estudos da estrutura familiar e social dos pescadores. Logo, percebeu as dificuldades dos pescadores locais em concorrer com grandes pesqueiros japoneses.

Era a indústria de capitais e dimensões internacionais que causava um duplo dano à pesca artesanal: suplantava a ponto de eliminar os seus meios de trabalho e, ao mesmo tempo, dizimava os cardumes do mar do Norte, desrespeitando os períodos de reprodução e desova. Assim, até mesmo a economia de subsistência acabava subtraída ao pescador pobre da região.[3]

Lebret tratou de aproximar os pescadores num sistema de cooperativa, formando uma comunidade de produção e distribuição, organizada por pequenas redes locais e familiares. Criou-se, assim, uma relação de rede solidária que, em momentos de crise, desemprego, fome ou doença, se ajudava mutuamente. Ali, para Alfredo Bosi, estavam plantadas as primeiras sementes do pensamento de “Economia e Humanismo”. A partir de 1943, quase no final da Segunda Guerra, o padre Lebret se voltou para a criação formal do movimento economia e humanismo, construindo sua teoria sobre essa relação. A exploração da pesca por indústrias estrangeiras em prejuízo dos trabalhadores locais deu-lhe o conhecimento da injustiça de um sistema que não se limitava aos problemas de uma determinada região. Era, portanto, necessário pensar de modo mais profundo sobre essas estruturas exploratórias.

As teorias sociais que examinavam a opressão do sistema econômico sobre o trabalhador foram por ele exaustivamente estudadas. Entretanto, o seu caminho não foi o de se filiar a nenhuma corrente ideológica ou partidária existente. Assim, os fundamentos da Economia Humana defendiam uma economia voltada para atender às exigências fundamentais do ser humano em sociedade, avessa tanto ao jogo corrosivo do liberalismo econômico, como também ao controle rígido do Estado. Uma economia humana deveria se voltar para aspectos reais, já que o capitalismo cria necessidades e bens fictícios para estimular o consumismo.

Em sua perspectiva, existiam demandas pessoais e coletivas que precisavam ser atendidas pela economia, como por exemplo: a produção necessária de alimentos, bens e serviços fundamentais, como farmácias e médicos de bairro; vida cultural, educação. Para ele, a capacidade de se compreender uma obra literária também integraria a necessidade por dignidade. É preciso que o indivíduo tenha tempo o suficiente para pensar, estudar, meditar, contemplar e/ou produzir arte. O trabalho excessivo afasta o humano da arte, da literatura, do pensamento.

Uma questão bastante atual, considerando-se o ritmo acelerado dos compromissos impostos pela sociedade capitalista contemporânea. Curiosamente, no entanto, os discursos de Lebret e seu movimento, ocorriam num contexto de crescente industrialização do pós-guerra, de êxodo rural e de aumento da urbanização. O seu ideário de uma economia humanizada não logrou competir com o fascínio do progresso material. O padre Louis-Joseph Lebret faleceu em 26 de julho de 1966, deixando suas contribuições e reflexões para um desenvolvimento não economicista.

Nunca existiu um sistema econômico intrinsecamente justo, humanizado, livre da exploração do homem pelo homem. Seja no feudalismo, no mercantilismo ou no capitalismo, cada um com sua especificidade histórica, o ser humano se defrontou com injustiças das mais diversas. No capitalismo, seria um erro ou muita ingenuidade, crer que produzir riqueza seja o suficiente para tornar uma sociedade humanamente mais digna. Por isso, temos uma certa consciência de que, sendo a economia amoral, necessitamos também da justiça e da política. E como justiça e política também não bastam, é necessário ética, amor e solidariedade.

O capitalismo é um sistema econômico para gerar riqueza. Produzir, com riqueza, mais riqueza. Mas, não para todos. Nem mesmo para uma grande parcela da sociedade. Somente, para alguns. Os mais pobres, por definição, estão excluídos dos benefícios gerados pelo próprio sistema. Qualquer observador mais atento, independentemente de sua “linha ideológica”, perceberá – desde que tenha um mínimo de honestidade intelectual e bom senso – que o capitalismo é um sistema excludente.

Segundo dados do Banco Mundial [4], quase metade da população no mundo vive abaixo da linha da pobreza. Isso representa algo em torno de 3,4 bilhões de pessoas. Trata-se de um dado alarmante e torna evidente que a prosperidade capitalista não é compartilhada. Mais de 1,9 bilhão de pessoas, ou 26,2% da população mundial, viviam com menos de 3,20 dólares por dia, em 2015. Cerca de 46% da população mundial vivia com menos de 5,50 dólares por dia. O relatório do Banco Mundial constata ainda, que mulheres e crianças são mais afetados pela pobreza, pois são mais vulneráveis socialmente.

Na verdade, não se trata apenas de implantar políticas de desenvolvimento econômico, que potencializem o crescimento da riqueza nacional e global. O problema está representado numa famosa frase: “é preciso deixar o bolo crescer, para depois dividi-lo”.  Em algum momento, se coloca muito fermento na economia e o “bolo cresce”, mas os gananciosos não desejam dividi-lo, comem sozinhos, enquanto os mais famintos apenas observam. É desumano o velho e esdrúxulo argumento no qual os pobres são acomodados, inaptos ou despreparados para saírem da pobreza. O sistema que os gera, também os culpa e os condena. Mas, como alertou o filósofo André Comte-Sponville, não devemos cair no erro de pensarmos que um sistema econômico seja “moral”.

A filosofia social espírita não busca argumentos reencarnatórios para justificar os históricos problemas da fome, miséria e exploração, de um lado, e da concentração de riquezas, do outro. A teoria espírita do conhecimento insiste, entre outros aspectos, numa dinâmica humanista. O ser humano deve exercer seu protagonismo na edificação de um mundo melhor, inclusive, questionando os sistemas econômicos, ideologias e políticas de Estado que aumentam o fosso das desigualdades sociais.

Em seu importante ensaio sobre o humanismo espírita, Eugenio Lara aponta para uma interessante estatística: a palavra “homem”, no sentido de ser humano, aparece 679 vezes na segunda e definitiva edição de O Livro dos Espíritos.  Da mesma forma, a palavra “humanidade” tem 81 ocorrências e a palavra “humano” surge 50 vezes na referida obra. Para Lara: “Esses números são suficientes para demonstrar, ao menos em termos quantitativos, que a filosofia espírita tem no homem, no ser humano, o objeto primordial de suas reflexões, conceituações e ensinamentos”.[5]

No mesmo sentido que o problema das desigualdades das condições sociais é obra do homem, por meio de suas ações no tempo e no espaço, a questão da exploração seja ela antiga ou moderna, não poderá encontrar justificativas plausíveis no espiritismo. Estar numa condição de miserabilidade, por exemplo, não é uma experiência “programada” no mundo dos espíritos. Se assim fosse, estaríamos todos conformados com as injustiças sociais ou com os seis milhões de judeus mortos pelos nazistas. A lógica é a mesma.  Haveria um completo imobilismo histórico e jurídico, contrariando a lei do progresso.

O escritor e pensador argentino, Manuel S. Porteiro, rejeitou o “falso argumento da causalidade reencarnatória”.[6] O espiritismo, por sua natureza racionalista, progressista, pluralista e humanista, não poderia naturalizar a exploração do homem sobre o homem. A reencarnação, à luz da filosofia espírita, faz parte, intrinsicamente, da lei natural, oportunizando etapas biológicas de aprimoramento no cenário da vida física. Todavia, o ser humano é o agente principal que, a partir de sua autonomia, vai construindo o enredo de sua existência. O indivíduo e a sociedade são, portanto, os elementos responsáveis pelo grande projeto de um mundo melhor e mais humanizado. Herculano Pires [7], situou o espiritismo também como uma cosmosociologia, com toda a sua complexidade na interpretação do fato social, a partir de uma perspectiva mais abrangente das realidades sócio-político-espiritual.

Poderemos, então, situar o pensamento social espírita dentro de uma “sociologia da esperança”, permeada de desafios. E, talvez, o maior deles seja o de colocar definitivamente o ser humano no centro de todas essas discussões. Pensar uma sociologia da esperança implica em questionarmos uma estrutura não apenas política e econômica, mas também uma cultura centralizada na ideia capitalista de progresso. O progresso com base na destruição da natureza, na exploração dos recursos naturais, finitos, no esgotamento da vitalidade dos ecossistemas, na concentração de riquezas, na cultura do descartável e da obsolescência imediata.

A realidade histórica, econômica e cultural predominante na sociedade global, ainda que transitória, define um contexto marcadamente distante do pensamento humanista inserido em O Livro dos Espíritos. O curso da história é formado por permanências e mudanças. A doutrina espírita ao argumentar sobre a Lei do Progresso, abre um horizonte confortador, na medida em que os processos sociológicos não estão estagnados. Em todos os períodos da história houveram reações às injustiças sociais visando a construção de uma nova ordem social.

Esse é um processo lento, pautado no amadurecimento da consciência humana de indivíduos e de grupos. São forças e vozes de resistências que reencarnam na Terra contribuindo para fomentar novos ciclos históricos. A transformação estrutural da sociedade do mercado, na sociedade do amor e do humanismo, é uma meta evolutiva. Reformas sociais são, portanto, processos históricos inseridos numa perspectiva de longa duração. Mas, os espíritas não deveriam depositar seus discursos somente nessa “meta evolutiva”, eximindo-se das responsabilidades de influir, como cidadãos e agentes políticos, nos rumos dessas transformações.

Os dilemas sociais devem ser pautas de reflexão permanente, de fomento para novos questionamentos que contribuam com o humano, numa sociedade ainda tão desumana. A filosofia espírita é esperançosa, mas não ingênua. Precisamos pensar sobre nossa identidade humana, sobre nossa natureza espiritual e, também, sobre o amargor da indiferença. Uma sociologia da esperança à luz do espiritismo implica, inexoravelmente, numa atitude dinâmica e crítica do mundo em que vivemos, e dos nossos posicionamentos como seres na existência. É um tema de reflexão e ação que ainda está por ser descortinado nos movimentos espíritas.

Jerri Almeida

Fonte: ÁGORA ESPÍRITA

NOTAS

[1] Alfredo Bosi é titular de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo e pertence à Academia Brasileira de Letras.

[2] Disponível em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/39496

[3] BOSI, Alfredo. Economia e Humanismo. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/eav/article/view/39496

[4] Disponível em: https://www.worldbank.org/pt/news/press-release/2018/10/17/nearly-half-the-world-lives-on-less-than-550-a-day-brazilian-portuguese

[5] LARA, Eugenio. Breve Ensaio sobre o Humanismo Espírita. Santos, SP: CPDoc, 2012. p.91.

[6] MOREIRA, Milton Rubens Medran. Direito Natural, Lei Natural e Justiça Social. In. Perspectivas Contemporâneas da Reencarnação. REIS, Ademar Arthur Chioro dos. NUNES, Ricardo de Morais. (Org).  Santos-SP: CPDoc & CEPA Brasil, 2016. p.142.

[7] Ver o livro: Introdução à Filosofia Espírita, de J. Herculano Pires.

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Casos de demência devem triplicar até 2050, aponta estudo

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O número de indivíduos afetados por males como Alzheimer pode ultrapassar os 150 milhões até 2050

Um novo levantamento do Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde da Universidade de Washington (EUA) indicou que, até 2050, o número de indivíduos que sofrem de demência pelo mundo será quase triplicado. Os maiores aumentos nos índices de incidência da doença devem ocorrer na África e no Oriente Médio, de acordo com os pesquisadores.

Segundo o estudo, a quantidade de pessoas afetadas pela demência chegará a casa dos 152 milhões em três décadas. Algumas das principais causas para esse fenômeno são o envelhecimento da população global e o crescimento da obesidade e da diabetes entre jovens.

Espera-se que, em 2050, os indivíduos com mais de 65 anos formem 16% da população do mundo. Para efeitos de comparação, em 2010, a taxa era de 8%. Com esse processo, torna-se mais provável o desenvolvimento da demência, frequentemente associada a idosos.

Atualmente, existem cerca de 350 mil novos casos de demência precoce todos os anos. Nas últimas décadas, tem-se observado uma aceleração de doenças ligadas à demência no mundo. Só nos   Estados Unidos, por exemplo, a taxa de mortalidade por Alzheimer (responsável por sete em cada dez casos de demência) cresceu 88% entre 1999 e 2019.

Somente no Brasil, há mais de 29 milhões de pessoas acima de 60 anos. Não à toa, estudos recentes apontam que a proporção de brasileiros com demência mais que dobrou ao longo de trinta anos. Trata-se de uma importantíssima questão de saúde pública à qual autoridades devem se atentar para evitar maiores problemas no futuro.

Notícia publicada na Veja, em 29 de junho de 2021

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Fabiana Shcaira Zoboli* comenta:

“Mente distante” – era essa a ideia que se tinha quando a palavra “demência”, derivada do latim “dementia”, passou a ser utilizada para descrever quadros de desorientação, perda da memória e perda de habilidades cognitivas e sociais.

O nome “Doença de Alzheimer” deve-se ao psiquiatra alemão Alois Alzheimer que, em 1906, descreveu a síndrome pela primeira vez, associando-a à morte de células cerebrais após estudar o caso de sua paciente, Auguste Deter, que desenvolveu os sintomas e tornou-se, aos poucos, incapaz de cuidar de si mesma, desencarnando aos 55 anos.

Hoje, sabe-se que a Doença de Alzheimer não é a única, mas, sim, a principal causa de demência, alcançando cerca de 35,6 milhões de pessoas em todo o mundo. Embora ainda não exista cura, os atuais recursos da medicina permitem um diagnóstico precoce que é fundamental no controle do avanço da doença e para proporcionar ao paciente e familiares melhor qualidade de vida.

Daí a importância de conversar sobre o assunto e a razão pela qual foi instituído o 21 de setembro como “Dia Mundial do Alzheimer”, mês em que são reunidos esforços, em uma campanha internacional, com o objetivo de conscientizar a população sobre a doença e promover apoio ao doente, cuidadores e familiares.

E o que o Espiritismo diz sobre a Doença de Alzheimer? É uma pergunta recorrente diante do anseio humano de compreender as causas das grandes dores que nos afetam.

Mas, para bem refletirmos, precisamos lembrar que, embora tudo o que nos aconteça tenha uma causa, não há uma única causa para as mesmas dores; além disso, ao contrário do que muitos ainda acreditam, as situações difíceis com as quais nos defrontamos não são castigos de Deus em razão desse ou daquele ato que tenhamos cometido.

A Bíblia traz diversas passagens advertindo que a cada um será dado conforme suas obras. Jesus confirma o ensinamento (Mt 16:27), mas o Mestre também ensina que Deus é “Pai Nosso”, infinitamente Sábio, Justo e Amoroso. Assim, embora esteja claro que sejamos os artífices do nosso próprio destino, não devemos ter dúvidas quanto a Misericórdia e o Amor de Deus.

Dessa forma, as dores pelas quais passamos não são castigos ou “pagamentos”, mas experiências que atraímos conforme a nossa necessidade espiritual e que servirão, sempre, para nos ajudar a alcançar a pura e eterna Felicidade, a qual estamos destinados, como ensinam os Benfeitores da Humanidade, em “O Livro dos Espíritos”, na resposta à questão 115:

“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, e para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus lhes impõe, os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa ao seu destino final. Outros só a suportam murmurando e assim, por sua culpa, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.”

O objetivo das dores pelas quais passamos, assim como das provas e, até, das experiências felizes, não é trazer sofrimentos ou alegrias circunstanciais, que hão de acabar em um momento, mas conduzir o Espírito a um caminho onde possa reconsiderar suas ações, suas crenças, repensar valores, descobrir sua força, desenvolver potenciais e virtudes – são, então, processos educativos, por vezes, dolorosos, mas sempre de acordo com a nossa necessidade de aprendizado e crescimento espirituais.

Jesus, na obra Boa Nova, de Humberto de Campos, pela psicografia de Chico Xavier, ensina:

“Tiago, nem todos podem compreender a verdade de uma só vez. Devemos considerar que o mundo está cheio de crentes que não entendem a proteção do céu, senão nos dias de tranquilidade e de triunfo. Nós, porém, que conhecemos a vontade suprema, temos que lhe seguir o roteiro. Não devemos pensar no Deus que concede, mas no Pai que educa; não no Deus que recompensa, sim no Pai que aperfeiçoa.”

Por isso, quando somos desafiados por situações tão dolorosas como a Doença de Alzheimer, ou ainda, quando um familiar recebe o diagnóstico, não nos perguntemos o que fizemos para “merecer isso” ou o “por que comigo?”, mas reflitamos sobre o que essa experiência quer ensinar ao nosso Espírito.

Somos convidados ao aprendizado, ao crescimento – não ao sofrimento. E sempre alcançaremos grandes conquistas espirituais quando procurarmos superar as dificuldades da melhor forma possível, e quando não for possível a superação, que as vivenciemos com fé, esperança e amor no coração.

Mesmo na fase mais grave da doença, quando a alma parece estar completamente distante, lembremos que a limitação do corpo não impede o Espírito de aprender virtudes como paciência e resignação, assim como os familiares que podem exercitar a paciência, do amor incondicional, por vezes até do perdão…

Coragem!! Busquemos o consolo no Evangelho, lembrando que as dores passam e o Espírito sobrevive às adversidades da vida física, demandando à Vida espiritual com mais experiência e virtudes quando consegue vencer a si mesmo. Como as inspiradoras palavras de Léon Denis, na obra, “O Problema do Ser e do Destino”:

“Nossos sofrimentos, ocultos ou aparentes, são consequências do passado ou também a escola austera onde se aprendem as altas virtudes e os grandes deveres. Através dos ciclos do tempo, todos se aperfeiçoam e se elevam; os criminosos do passado virão a ser os sábios do futuro. Chegará a hora em que nossos defeitos serão eliminados, em que nossos vícios e nossas chagas morais serão curadas. As almas frívolas tornar-se-ão sisudas, as inteligências obscuras iluminar-se-ão. Todas as forças do mal que em nós vibram ter-se-ão transformado em forças do bem. Do ser fraco, indiferente fechado a todos os grandes pensamentos, sairá, com o perpassar dos tempos, um Espírito poderoso, que reunirá todos os conhecimentos, todas as virtudes, e se tornará capaz de realizar as coisas mais sublimes.”

Tenhamos fé e estejamos certos de que todas as dores podem ser superadas quando trazemos Jesus para dentro do nosso coração, iluminando nossos sentimentos e renovando nossas forças, ajudando a cada um de nós, dentro das experiências que nos cabem, a alcançar a verdadeira Felicidade.

*Fabiana Shcaira Zoboli é espírita e colaboradora do Espiritismo.net

Fontes:

Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde BVSMS

https://bvsms.saude.gov.br/21-9-dia-mundial-da-doenca-de-alzheimer-e-dia…

Manual MDS Versão para a família

https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-cerebrais,-da-medula-espinal-e-dos-nervos/delirium-e-dem%C3%AAncia/doen%C3%A7a-de-alzheimer

 

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Vocação

Emmanuel

VOCAÇÃO

A vocação é a soma dos reflexos da experiência que trazemos de outras vidas.

É natural que muitas vezes sejamos iniciantes, nesse ou naquele setor de serviço, diante da evolução das técnicas de trabalho que sempre nos reclamam novas modalidades de ação; todavia, comumente, retomamos no berço a senda que já perlustramos, seja para a continuação de uma obra determinada, seja para corrigir nossos próprios caminhos.

De qualquer modo, o título profissional, em todas as ocasiões, é carta de crédito para a criação de reflexos que nos enobreçam.

O administrador, o juiz, o professor, o médico, o artista, o marinheiro, o operário e o lavrador estão perfeitamente figurados naquela parábola dos talentos de que se valeu o Divino Mestre para convidar-nos ao exame das responsabilidades próprias perante os empréstimos da Bondade Infinita.

Cada espírito recebe, no plano em que se encontra, certa quota de recursos para honrar a Obra Divina e engrandecê-la.

Acontece, porém, que, na maioria das circunstâncias, nos apropriamos indebitamente das concessões do Senhor, usando-as no jogo infeliz de nossas paixões desgovernadas, no aloucado propósito de nos antepormos ao próprio Deus.

Daí a colheita dos reflexos amargos de nossa conduta, quando se nos desgasta o corpo terrestre, com o doloroso constrangimento do regresso às dificuldades do recomeço, em que o instituto da reencarnação funciona com valores exatos.

E como cada região profissional abrange variadas linhas de atividade, o juiz que criou reflexos de crueldade, perseguindo inocentes, costuma voltar ao mesmo tribunal, onde exercera as suas luzidas funções, com as lágrimas de réu condenado injustamente, para sofrer no próprio espírito e na própria carne as flagelações que impôs, noutro tempo, a vítimas indefesas.

O médico que abusou das possibilidades que lhe foram entregues, retorna ao hospital que espezinhou, como apagado enfermeiro, defrontado por ásperos sacrifícios, a fim de ganhar o pão.

O grande agricultor que dilapidou as energias dos cooperadores humildes que o Céu lhe concedeu, para os serviços do campo, vem, de novo, à gleba que explorou com vileza de sentimento, na condição de pobre lidador, padecendo o sistema de luta em que prendeu moralmente as esperanças dos outros.

Artistas eméritos, que transformaram a inteligência em trilho de acesso a desregramentos inconfessáveis, reaparecem como anônimos companheiros do pincel ou da ribalta, debaixo de inibições por muito tempo insolúveis, à feição de habilidosos trabalhadores de última classe.

Mulheres dignificadas por nomes distintos, confiadas ao vício e à dissipação, com esquecimento dos mais altos deveres que lhes marcam a rota, freqüentemente voltam aos lares que deslustraram, na categoria de ínfimas servidoras, aprendendo duramente a reconquistar os títulos veneráveis de esposa e mãe…

E, comumente, de retorno suportam preterição e hostilidade, embaraços e desgostos, por onde passem, experimentando sublimes aspirações e frustrações amargosas, porquanto é da Lei venhamos a colher os reflexos de nossas próprias ações, implantados no ânimo alheio, retificando em nós mesmos o manancial da emoção e da idéia, para que nos ajustemos à corrente do bem, que parte de Deus e percorre todo o Universo para voltar a Deus.

Pelo Espírito Emmanuel

Do livro: Pensamento e Vida

Médium: Francisco Cândido Xavier

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Mensagem aos evangelizadores

Joanna de Ângelis

MENSAGEM AOS EVANGELIZADORES

A fim de ministrarmos as sublimes lições da Doutrina Espírita às novas gerações que ainda se encontram na infância e na juventude, tornam-se-nos indispensáveis o conhecimento e a vivência dos seus nobres conteúdos.

O estudo cuidadoso da Codificação kardequiana, incluindo o sentimento de amor em benefício de uma sociedade justa e nobre no futuro, deve viger no imo do coração de quem se candidata a esse ministério.

Consciente da responsabilidade que lhes é conferida, o evangelizador e a evangelizadora esforçar-se-ão para assimilar os métodos pedagógicos e psicológicos mais eficientes aplicando-os nas aulas, que devem ser alegres e enriquecidas dos sentimentos de afetividade e de interesse por cada aluno.

Na infinita variedade de caracteres humanos, ter-se em mente que os Espíritos ali presentes vêm de experiências passadas nem sempre felizes, portando agressividade, desinteresse e revolta, ao mesmo tempo, sendo vítimas de perturbações de adversários desencarnados severos que os perseguem, o que exigirá paciência e os recursos terapêuticos do passe, da água fluidificada, da ternura e da irrestrita confiança em Deus.

Evangelizar é desdobrar fibra por fibra os sentimentos perversos e as heranças doentias, instalando no seu lugar os tecidos da jovialidade e da afeição fraternal, a fim de que predominem os caracteres do bem em todas as suas formas de expressão.

Evangelizar espiritizando constitui um tesouro que faculta a aplicação do amor em todas as situações, em razão dos postulados inabaláveis do Espiritismo com o seu potencial de informações luminosas e verdadeiras, que decifram os enigmas do pensamento filosófico da Humanidade.

Confiante em que estamos todos integrados nas diretrizes doutrinárias, sigamos Jesus e Allan Kardec, guardando a certeza de que alcançaremos a vitória sobre todo o mal, e implantaremos na Terra o Reino de Sua Soberana Justiça.

A servidora humílima e devotada,

Joanna de Ângelis

Mensagem psicografada por Divaldo Pereira Franco, em Salvador, Bahia, em 25/02/22.

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A Confluência

José Herculano Pires

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A obra de Deus é tão vasta, tão rica, tão complexa que, não podendo abrangê-la em nossa curta visão, costumamos acusá-la de muitas e não raro violentas contradições. A dialética nos oferece uma chave para a superação dessa deficiência. Hegel mostrou-nos que as contradições não são mais do que as fases sucessivas do desenvolvimento dos processos criadores. Tese, antítese e síntese representam as etapas da evolução. Através dessa dinâmica espiritual a semente se transforma na plântula e esta afinal se faz planta, para nos devolver a semente multiplicada. O processo do Reino segue também esse caminho dialético, como já vimos no caso da lei da negação da negação.

Os atalhos do Reino parecem-nos contraditórios entre si e contrários aos caminhos do Reino. Por outro lado, parecem-nos contrários ao Reino. Mas a verdade é que todas essas estranhas manifestações do anseio do Reino no coração humano se entrosam num grande sistema. Não é fácil compreendermos essa ligação. As religiões se livram das dificuldades apelando para o mistério dos desígnios de Deus, insondáveis ao nosso próprio entendimento. Mas o mistério é apenas aquilo que não compreendemos. E só não compreendemos o que não conhecemos. Desde que penetremos a natureza de uma coisa, por mais misteriosa que ela nos pareça, o seu mistério desaparece.

O mistério do Reino nos mostra a sua face oculta quando conseguimos abrangê-lo numa visão de conjunto. Deixa de ser mistério para tornar-se a mais bela realidade. O Reino é o alvo do espírito. Todos avançamos para ele, através das existências sucessivas, na Terra e no espaço. Todos ansiamos por ele. Mas nem todos estamos em condições de percebê-lo na sua plena realidade. Uns o veem por um ângulo, outros por outros ângulos. As visões diferem e mais ainda as interpretações, em que a mente humana é tão fértil. Pitágoras já dizia que a Terra é a morada da opinião. Cada qual opina como entende e as divergências se acentuam. Há deturpações horrendas do Reino, como há deformações horrendas do Cristianismo. Mas em todas elas está presente a atração do Reino, que se exerce sobre todas as almas.

O Cristo dos maometanos é um profeta que nasceu no deserto, sob uma palmeira. O Alcorão nos dá um episódio árabe do Natal. O Deus antropomórfico dos brâmanes é muito diferente do Deus antropomórfico dos Católicos. O Jeová guerreiro e intrigante da Bíblia, alcoviteiro e partidário, é o contrário de Deus de amor do Novo Testamento. Mas em cada uma dessas ideias de Deus, quer o entendamos ou não, Deus está presente. E a presença de Deus em cada uma dessas concepções é relativa à capacidade de compreensão de determinadas etapas da evolução humana. Mas as etapas não se sucedem por gradação simples. É tão complexo, múltiplo e dinâmico o processo evolutivo, que a mais elevada concepção de Deus pode caber, em virtude de fatores diversos, numa etapa inferior, da mesma forma que a concepção mais primitiva pode enquadrar-se numa etapa superior.

Toda essa complexidade desnorteia os mais atilados observadores. É preciso muitas vezes que se dê o insight, o chamado estalo de Vieira, numa cabeça ilustrada e capaz, para que ela perceba essa complexidade e se liberte de certos preconceitos, de certos estereótipos mentais. Por isso brigam, não se entendem e acabam criando partidos. O Reino de Deus é um só e os seus caminhos correspondem precisamente aos seus princípios. Todo caminho de violência, de acomodação, de subterfúgio, não leva ao Reino, mas aos reinozinhos humanos, contraditórios e mesquinhos, quando não brutais. Os atalhos sectários e ideológicos variam de gradação na percepção do Reino, mas todos são atalhos. Por mais generosos que sejam nos seus princípios, os meios de que se servem são em geral contrários aos fins. Essa a tragédia religiosa e política em que nos perdemos.

Mas a visão de conjunto, a percepção gestáltica do problema do Reino, nos mostra a suprema inteligência que preside a todas essas manifestações. No final, todas essas correntes fluem para um delta comum. E há um momento de confluência em que as dissensões se apagam, as contradições se fundem numa síntese superior. É no tempo que se realiza a fusão. Por mais absurda que essa tese possa parecer, a verdade é que os processos gerais da natureza a comprovam. Basta vermos a sucessão de fases inferiores do embrião humano, no seu desenvolvimento; a sucessão das fases psicológicas do espírito humano, no processo da sua formação; as etapas do desenvolvimento de uma dada sociedade ou da própria Humanidade. Em todas essas fases encontramos divergências profundas, que podem parecer-nos insolúveis, mas que os especialistas nos mostram ligadas por uma unidade substancial, que as conduz ao mesmo objetivo.

O mensageiro do Reino me disse, nesta tarde, ao ver-me examinar esses problemas:

– Examine o caso de Ananias e Safira, no capítulo V do livro de Atos. E veja depois, no mesmo capítulo, o versículo 15. Veja se é possível conciliar a contradição aparente.

Corri ao livro de Atos e ali encontrei o tenebroso caso. Ananias e Safira queriam entrar para o Reino. Venderam sua propriedade, que era apenas um campo, mas só depuseram aos pés dos apóstolos uma parte do dinheiro, escondendo outra parte. Então primeiro Ananias entrou e foi Pedro quem o recebeu, admoestando-o imediatamente a respeito:

– Por ventura não te era lícito ficar com todo o dinheiro?

E Ananias, ouvindo a exprobração de Pedro, caiu morto aos seus pés. Os jovens presentes carregaram o corpo. Três horas depois veio Safira, que não sabia do ocorrido. Pedro a interpelou e ela confirmou a mentira do marido. Então Pedro respondeu com firmeza:

“Concertastes a mentira entre vós. Eis aí à porta os que levaram há pouco o corpo do teu marido e agora levarão o teu”.

No mesmo instante Safira caiu morta e os jovens a levaram.

O versículo 15 nos diz que as virtudes dos apóstolos eram tais que os doentes eram expostos às ruas, deitados em leitos e enxergões, para que, ao passar por eles o apóstolo Pedro, sua sombra os curasse. Que estranhas virtudes emanavam de Pedro! Suas palavras matavam e sua sombra curava. A contradição aparente está aí. Pedro mata e cura em nome do Reino. E mata sem piedade, friamente, primeiro o marido, depois a mulher; somente porque haviam mentido e escondido, com receio de não dar certo a Tentativa do Reino, parte de suas economias. Não seria mais de acordo com o amor e a justiça do Reino que Pedro lhes devolvesse o dinheiro e lhes recusasse entrada na comunidade?

Sim, seria mais certo. Mas acontece que não foi Pedro que matou Ananias e Safira. O Apóstolo limitou-se a cumprir o seu dever, advertindo-os. Acontece que Ananias não suportou o choque provocado pela revelação de Pedro em sua consciência culposa. Ananias foi vítima de sua própria manobra. Mas no caso particular de Safira as coisas não parecem tão simples. Pedro declara que ela vai morrer, parece mesmo ameaçá-la, predispô-la à morte. O Apóstolo era dotado do que hoje chamamos cientificamente percepção extra-sensorial, possuía a mediunidade profética. Ao entrar a mulher de Ananias no recinto, ele viu o que ia acontecer. E em benefício da própria mulher preparou-a para o momento inevitável.

Entretanto, as duas ações de Pedro conduziam ao Reino. A cura despertava as consciências, tocava os corações, preparando-os para o Reino. A repreensão tinha por fim corrigir as imperfeições morais dos que não se encontravam em condições de entrar no Reino, embora o desejassem. A morte de Ananias e Safira, consequência natural de seus atos fraudulentos, parecia uma expulsão definitiva de ambos do portal do Reino. Mas só lhes acontecera o que vimos no caso do rico da parábola: Ananias e Safira não haviam deixado os seus fardos que não cabiam na portinhola estreita. O rico, em espírito, já morto para o mundo, precipitara-se no abismo. O casal fraudulento caíra em vida no abismo da morte. Mas assim como a queda do rico era uma lição de após morte, que o ajudaria a corrigir-se na próxima encarnação, assim a morte de Ananias e Safira lhes ensinava a buscar a sinceridade e a verdade no mundo espiritual.

Os que não acreditam ou não querem compreender que só podemos entrar no Reino pelo renascimento, não encontram explicação para as contradições que apontamos. Aplicam em defesa de Pedro o argumento de justiça. Mas onde fica o argumento do amor? Já vimos que o Reino não se constitui apenas de justiça, o que seria uma negação do amor de Deus. Não podemos, pois, compreender o Reino sem compreender a advertência do jovem Carpinteiro a Nicodemos: “É necessário nascer de novo”. Como poderiam todos chegar ao Reino, se são tantos os que fazem como Ananias e Safira? E como agiria o amor do Reino em favor dos que não dispõem de tempo e oportunidade para se tornar aptos a habitá-lo?

É o princípio da reencarnação a chave do Reino. A grande maioria das criaturas humanas estaria impedida de entrar no Reino se Deus não lhes concedesse a oportunidade do reinício. Então o Reino não seria de todos, mas de alguns. Deus não seria o Pai do Evangelho mas o guerreiro da Bíblia. A balança da justiça tem dois pratos, mas um deles é do amor. A balança de Jeová tem o prato da justiça abaixado, pois é nela que o Deus Bíblico põe a sua força. A balança do Deus-Pai está sempre equilibrada, porque o seu amor se mede pela sua justiça e vice-versa. O Reino não está reservado a estes ne àqueles, mas abre sua pequena porta aos homens de todas as raças, de todas as nacionalidades, de todos os quadrantes da Terra.

E é graças a isso que os atalhos e os caminhos do Reino se encontram na confluência. Heresias e ideologias desempenham o seu papel no grande esquema do Reino. Preparam cada qual as criaturas colocadas em diversos planos evolutivos, de acordo com as sintonias de seus interesses e com os impulsos de suas tendências, para o momento supremo de compreensão gestáltica do Reino, que chegará normalmente para todos. Fanáticos religiosos e fanáticos políticos não perdem o seu tempo: são aprendizes de primeiro grau, exercitando-se para as virtudes do Reino, adestrando-se para amá-lo. Porque não é fácil amar o Reino. Os reinozinhos da Terra, esses pequenos e absorventes reinos dos homens, atraem poderosamente as almas inexperientes. Então o Reino se disfarça em estreitas concepções humanas e atrai aquelas almas que se perderiam nas atrações inferiores.

Deus sabe conduzir as almas para o Reino. Nós, os conduzidos, é que não sabemos ver e compreender o seu imenso trabalho. Por isso não o auxiliamos. Devemos aprender que Deus, nosso Pai, trata-nos como filhos. E em vez de guerrear os irmãos que procuram o Reino por atalhos ou caminhos diferentes dos nossos, devíamos ajudá-los. Todos os caminhos levam ao Pai. Isso, porém, não quer dizer que devamos esperar sentados o estabelecimento do Reino na Terra. Cada um de nós, em seu caminho ou seu atalho, tem a obrigação espiritual de trabalhar incessantemente pelo Reino, amando a todos, fazendo sempre justiça em todas as coisas, mas trabalhando sem cessar para despertar em todos a compreensão do Reino, que extinguirá do planeta o orgulho, a vaidade, o egoísmo e o ódio. A compreensão do Reino fará corar de vergonha os que hoje só pensam em conquistar para si mesmos. Os ricos do Reino serão os que ajuntam para todos.

Fonte: – no livro O Reino, cap. VII.

Espiritualidade e Sociedade

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O espiritismo não é apolítico

Texto do Eixo de Pesquisa: Espiritismo, Políticas e Promoção Social

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Produção: Márcio Alexandre

Uma questão está acalorando as conversas e até as prédicas nas casas espíritas do Brasil nos últimos anos: a política nacional. Em tempos de polarização desse cenário, o movimento não deixou de ser influenciado por esse momento que, vez ou outra, eleva ao ringue das discussões adeptos da causa kardeciana. Por que será que o exercício da política é ainda visto por muitos como algo malsão? O que tem de errado na política para que esta seja taxada como algo pernicioso no meio? Seria o espírita um indivíduo superior na escala dos encarnados e que por isso, inalcançável pelos problemas sociais para não ter que se (pre)ocupar com eles? Será que o adepto da doutrina dos Imortais não pode abrir a guarda no trato de tais assuntos sem se enlamear com sua suposta “sujeira”? Ou o espírita é um ser de dupla vida social: uma pura, dentro da casa religiosa e outra, devassa, fora dela?

Desejaria fugir do clichê de tentar usar o léxico para definir o verbete, mas não posso me furtar de expor o que, historicamente, entendo por política: Na Grécia Antiga a palavra referia-se às questões relativas à vida da cidade. A politikós não era uma atividade qualquer: dela dependia a organização cotidiana e o futuro da polis. O demos (povo) de cada cidade-Estado tinha que se interessar pelos problemas da comunidade, ou seja o indivíduo não seria um cidadão se não se interessasse pela política e não a praticasse. Tal concepção foi divulgada na obra Política de Aristóteles, o primeiro tratado sobre a natureza do governo, suas configurações e funções. A partir das revoluções liberais do século XVIII, a palavra passou a ser empregada para designar as atividades relativas ao controle do Estado, ganhando os contornos que temos atualmente.

Mas o verbo politicar não fica apenas restrito a essas definições técnicas e históricas e, muito menos, pode ficar dissociado da sua acepção comum. Por exemplo, quando Aristóteles afirma que “o homem é um ser político por natureza”, ele quer dizer que naturalmente temos a necessidade de viver em sociedade e que precisamos desse convívio para estabelecermos deliberações. Assim, nessa perspectiva não se deve deplorar a atividade política, classificando-a como algo pernicioso.

Opinar, concordar, discordar, apresentar propostas, contrapropostas e até ficar isento, é fazer política. Mesmo quando alguém diz não gostar dela, está politicando (no sentido negativo), já que se omite e abre espaço para o outro sujeito que é pernicioso para a coletividade. Digo que é até uma posição confortável, pra não dizer fingida e, por consequência, hipócrita, uma vez que somos políticos em todas as situações da vida, dentro e fora da casa espírita. Por que? Respondo: quem, na vida em sociedade, não opina sobre os preços das coisas, as qualidades dos serviços públicos, sobre os problemas na saúde, na educação e na segurança públicas? Quem não expõe sua opinião em questões polêmicas como o aborto, a eutanásia, sobre a pena de morte? Quando levamos (e levamos!) estes assuntos para a casa espírita, não tratamo-los de outra forma senão pela perspectiva do convencimento dos assistentes de que não se deve afrontar as leis divinas, de que devemos ser contra os projetos que relativizam a Vida tramitados nas esferas dos Poderes políticos e isso, não é outra coisa, senão politicar, ou seja, persuadir o outro sobre aquilo que achamos ser o correto. O mesmo acontece quando nos reunimos em assembleias para deliberar sobre decisões estatutárias ou regimentais na intenção de discutir, negociar ou convencer os associados sobre nossos projetos ou ainda quando deliberamos nas escolhas das chapas das diretorias que concorrem às direções das casas espíritas. Portanto, há várias esferas de atuação na política: as públicas, as de Estado, as filosóficas, as ideológicas, as político-partidárias, como também há as que exigem dos espíritas e dos cidadãos envolvimento, quando elas implicam no exercício da cidadania. O problema é que muitos acham que tal exercício é partidário. Eis o erro! Por que é impossível, por exemplo, não discutir política na casa espírita quando falamos da fome, do racismo, da xenofobia, da violência doméstica, do aborto etc., pois tais problemas não estão limitados à bolha de nossas atividades espirituais, são problemas de nossa geração! E estes, além de exigirem preces e vibrações, necessariamente, exigem ações de nossa parte, como fez a própria Federação Espírita Brasileira ao assinar petições com objetivo de pressionar os parlamentares para que estes rejeitem qualquer projeto que vá de encontro aos fundamentos de defesa da Vida que o Espiritismo endossa.

A política partidária, aquela que tem o papel de convencer terceiros a aderirem a projetos eleitorais não deve ser, claro, pautada nas casas espíritas. Não se deve fazer de palanque as tribunas do nosso movimento espiritual. Porque isso personifica e nos separa. Nesse sentido Kardec foi taxativo. E talvez seja esse o argumento levantado por muitos, de que política não deve fazer parte das reuniões espíritas. Baseiam-se no seguinte apontamento do codificador:

“(…)Também não vos deixeis cair nessa armadilha; afastai cuidadosamente de vossas reuniões tudo quanto disser respeito à política e às questões irritantes; nesse caso, as discussões não levarão a nada e apenas suscitarão embaraços, enquanto ninguém questionará a moral, quando ela for boa (…)” (1)

Mas este é um exemplo de que não devemos fazer leituras apressadas de Kardec. De qual política o mestre de Lion estava falando? Por que o codificador teve tal cautela? O que o preocupava? Os desavisados esquecem que o cenário político da época em que esse texto foi escrito, era perigosamente nocivo às liberdades individuais, sob pena de prisão, deportação ou pena de morte. Luiz Bonaparte (1848-1870) deu um Golpe de Estado em 1851 e proclamou-se imperador (Napoleão III), governando até 1870. Seu governo foi marcado pela “forte repressão ao movimento operário, implantou censura em todos os níveis, proibiu as greves e as organizações sindicais, perseguiu adversários e manteve a jornada de doze horas diárias de trabalho.” (2). Eis aqui um motivo da recomendação de Kardec aos irmãos de Lion: O Mestre não queria – e com razão – expor a Sociedade Espírita e muito menos os seus membros, às ameaças da repressão e aos embaraços de prisões políticas. Para um movimento nascente, que estava ainda por se estabelecer, não seria de bom tom peitar o regime autoritário do sobrinho de Napoleão Bonaparte, autoproclamado “Protetor da Igreja Latina” (3). Permitir discussões na Sociedade que afrontasse a política napoleônica aliada da Igreja não seria adequado naquela ocasião. Por isso, tomar a precaução de Kardec como justificativa de recomendação para não tratar de assuntos “políticos” na casa espírita é fazer interpretação superficial do codificador e mais ainda do conceito estudado por Aristóteles. Nesse sentido e apurando melhor o contexto de sua época, não podemos fazer das obras de Kardec o que muitas igrejas fazem com a bíblia: apoderar-se de suas letras como exclusivos intérpretes do que chamam a palavra de deus, numa explícita postura dogmática que toma para si a autoridade de ser a ‘única boca’ que Deus se utiliza na Terra para falar à humanidade.

As políticas que visam o progresso moral e intelectual devem ser obrigações de cada tarefeiro espírita. Kardec chega a comentar, na questão 783 que o “progresso sendo uma condição da natureza humana ninguém tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar.” (grifos meus) (4). Ora, como derrubar essas “leis más” sem mudar nossas legislações – para que estas se aproximem cada vez mais das divinas – e sem praticarmos o exercício da persuasão e da educação moral de terceiros?

O mundo de regeneração não virá como passe de mágica, nem será posto pelos espíritos nobres. A tal falada era da regeneração só virá depois que a fome não solapar mais as vidas, quando a pena de morte não fizer mais parte das legislações humanas, quando a xenofobia não for mais entrave à união dos povos, quando o machismo não mais existir e nem promover a violência contra a mulher, quando os empregadores não impuserem excessivos e humilhantes trabalhos aos seus inferiores. Esta Era Nova só será realizável a partir da mudança feita por cada um de nós, individualmente, influenciando os que estão ao nosso lado, trabalhando para acabar com tais mazelas e lutando o bom combate para que ninguém mais seja promotor desse estado inferior de coisas.

Em outro texto, na questão 781(a), Kardec recebe dos espíritos a resposta taxativa sobre nossas influências nas leis humanas: “(…) quando estas [leis humanas] se tornam incompatíveis com ele [progresso], despedaça-as juntamente com os que se esforcem por mantê-las” (5). Em seguida, na questão 783, se verifica: “As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco; dormitam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado.” (6) (grifos meus). Portanto, está clara como o Sol a constatação dos Espíritos nobres sobre as lutas sociais que, de tempos em tempos, animam as civilizações para uma ordem melhor das coisas. Ficou evidente a responsabilidade de cada indivíduo em fazer com que a sua realidade e a do seu próximo sejam melhores. Aliás, não foi outra a luta dos grandes mártires de nossa história, quando preferiram o cadafalso do que negar aquilo que acreditavam. As lutas pelas liberdades individuais e políticas derramaram muito sangue e não foram ações mágicas, de cima pra baixo, mas revoluções que “desmoronaram o carunchoso edifício do passado”.

Por fim, acreditamos que o cristão e, principalmente o espírita, deve se envolver com os movimentos de transformação da sociedade. Temas como LGBTfobia, extermínio da juventude negra, violência contra a mulher, indígenas, sem-terra, sem teto, refugiados, etc., são pautas de nossos debates com o intuito de buscar na doutrina de Kardec e em Jesus, referências que possam fortalecer nossos discursos para minimizar o preconceito e toda e qualquer forma de discriminação dessas minorias sociais. Para nós, o Jesus histórico foi um dos primeiros e mais inspiradores defensores dos direitos humanos e morreu por isso.

Jesus nasceu na ‘periferia’ (socialmente falando), viveu para a ‘periferia’ (seus contatos mais significativos eram com os despossuídos) e morreu na ‘periferia’ (a crucificação era a pena dada aos mais infames). Jesus, como disse o Frei Beto, não morreu de hepatite na cama nem de desastre de camelo numa esquina de Jerusalém. Morreu, como tantos presos políticos, da América Latina das décadas de 1960 a 1980: foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado a ser assassinado na cruz a pedido dos chefes religiosos de sua época, sob a acusação de ser desordeiro, imoral e subversivo da ordem estabelecida. Portanto, a pergunta para nós, do Ágora é: que fé cristã é essa que não questiona a desordem? Porque não há ninguém que não se envolva em política. Há quem, ingenuamente, se julgue neutro, isento ou alheio a ela e por isso se enquadra no perfil do analfabeto político declamado por Brecht.

Inspirado pelo iluminado pastor Henrique Vieira, afirmo que Jesus optou pelos oprimidos e renegados, pelos miseráveis, leprosos e prostitutas. Solidarizou-se com o refugo da sociedade em que viveu e contestou a ordem que os excluía. Jesus democratizou e ampliou a experiência de Deus e desmanchou a crença de que o culto à divindade só seria verdadeiro se ocorresse nos recintos ou sob a tutela da religião tradicional.

Jesus, no nosso entender, fez as mulheres serem protagonistas do seu movimento de renovação do planeta; denunciou o acúmulo de riquezas e exaltou os pobres. Na sociedade vazia de moral, andou com gente de má fama e denunciou a hipocrisia de líderes religiosos; naquela sociedade baseada na vingança do ‘olho por olho e do dente por dente’, ensinou o perdão infinito, por isso discordamos do discurso de ódio de que o “bandido bom é o bandido morto”. Jesus, no nosso entender, foi o grande defensor das minorias sociais do seu tempo, foi O POLÍTICO DO BEM.

É essa a nossa proposta e não temos nenhuma intenção de “empurrar goela abaixo” das casas espíritas, nossas ideias. Somos trabalhadores – ainda imperfeitos – de Jesus e de Kardec.

Fonte: ÁGORA ESPÍRITA

REFERÊNCIAS:

(1) KARDEC, Allan. Revista Espírita. Trad. Salvador Gentile. 1ª ed. São Paulo : IDE, 1994. 37 p.

(2) CAMPOS, Flávio de. Oficina da história : vol. 2. 2ª ed. São Paulo : LEYA, 2016. 165.

(3) http://www.infosbc.org.br/site/artigos/2627-capitulo-lvi-napoleao-iii-e-a-igreja (acessado em 07/06/2020)

(4) KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. José Herculano Píres. 64ª ed. São Paulo : LAKE, 2004. 262 p.

(5) KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. José Herculano Píres. 64ª ed. São Paulo : LAKE, 2004. 262 p.

(6) KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. José Herculano Píres. 64ª ed. São Paulo : LAKE, 2004. 262 p.

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Duendes, gnomos e fadinhas existem?

Os estágios que o ser espiritual passa entes de encarnar em um corpo humano. As tarefas que os “espíritos da natureza” executam e suas finalidades.

Dra. Irvênia Prada

Associação Médico-Espírita do Brasil

Em “Libertação”, cap. IV, André Luiz relata incursão a zonas inferiores, quando então o Instrutor Gúbio esclarece: “Estamos numa colônia purgatorial de vasta expressão. Quem não cumpre aqui dolorosa penitência regenerativa, pode ser considerado inteligência sub-humana. Milhares de criaturas, utilizadas nos mais rudes serviços da natureza, movimentam-se nestes sítios em posição infraterrestre. A ignorância, por ora, não lhes confere a gloria da responsabilidade. Em desenvolvimento de tendências dignas, candidatam-se à humanidade que conhecemos a Crosta. Situam-se entre o raciocínio fragmentário do macacóide e a idéia simples do homem Primitivo na floresta. Afeiçoam-se a personalidades encarnadas ou obedecem, cegamente, aos espíritos prepotentes que dominam em paisagens como esta. Guardam, enfim, a ingenuidade do selvagem e a fidelidade do cão. O contato com certos indivíduos inclina-os ao bem ou ao mal e somos responsabilizados pelas Forças Superiores que nos governam, quanto ao tipo de influência que exercermos sobre a mente infantil de semelhantes criaturas.

Interessante o relato da existência desses espíritos (“milhares de criaturas”) de inteligência sub-humana, utilizados em trabalhos na natureza, o que vem de encontro ao conteúdo do folclore de muitas culturas.

De fato, a, figura de gnomos, duendes, fadas, silfos e elfos acha se sempre presente em contos, lendas, estórias, enriquecendo a imaginação popular.

Mas, será que são apenas espíritos de inteligência sub-humana, os que se dedicam aos serviços da natureza?

Ao tratar da classificação dos espíritos, Kardec assim se refere à Nona Classe – Espíritos Levianos: “São ignorantes, malignos, inconsequentes e zombeteiros. Metem-se em tudo e a tudo respondem sem se importarem com a verdade. Gostam de causar pequenas contrariedades e pequenas alegrias, de fazer intrigas, de induzir maliciosamente ao erro, por meio de mistificações e de esperteza. A esta classe pertencem os Espíritos vulgarmente designados pelos nomes de duendes, diabretes, gnomos, trasgos. Estão sob a dependência de Espíritos superiores, que deles muitas vezes se servem como fazemos com os criados. Nas suas comunicações com os homens, a sua linguagem é muitas vezes espirituosa e alegre, mas quase sempre sem profundidade; apanham as esquisitices e os ridículos humanos, que interpretam de maneira mordaz e satírica . se tomam nomes supostos, é mais por malicia do que por maldade”.

No próprio LE 540, ainda encontramos mais esclarecimentos sobre esses espíritos. Kardec pergunta: – “Os espíritos que agem sobre os fenômenos da Natureza agem com conhecimento de causa, em virtude de seu livre arbítrio, ou por um impulso instintivo e irrefletido? R – Uns sim, outros não. Faço uma comparação: figurai essas miríades de animais que pouco a pouco fazem surgir do mar as ilhas e os arquipélagos; acreditais que não há nisso um objetivo providencial, e que essa transformação da face do globo não seja necessária para a harmonia geral? Há, entretanto, animais do último grau os que realizam essa coisas, enquanto vão provendo às necessidades e sem se perceberem que são instrumentos de Deus. Pois bem: da mesma maneira, os espíritos mais atrasados são úteis ao conjunto; enquanto eles ensaiam para a vida e antes de terem plena consciência de seus atos e de seu livre arbítrio, agem sobre certos fenômenos de que são agentes sem o saberem. Primeiro, executam; mais tarde ainda, poderão dirigir as coisas do mundo moral. E assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que o vosso espírito limitado ainda não pode abranger o conjunto.”

ESCALA EVOLUCIONÁRIA

Portanto, podemos entender que vários são os estágios dos espíritos que se ocupam da Natureza, desde aqueles que animam as “miríades de animais de ínfima ordem”, até os que, tendo alcançado um certo desenvolvimento, ordenam e dirigem primeiro as coisas do mundo material e, depois, as de ordem moral”.

Aliás, o que lemos no LE 538 não nos deixa dúvidas: – “Esses espíritos pertencem as ordens superiores ou inferiores da hierarquia espírita? R – Segundo o seu papel for mais ou menos material ou inteligente: uns mandam, outros executam. Os que executam as ações materiais, são sempre de uma ordem inferior, entre os espíritos como entre os homens”.

“O prezado confrade Divaldo Pereira Franco, em entrevista concedida à “Revista Espírita Allan Kardec”, ano V – agosto a outubro/92, esclarece que a grande maioria dos não evoluídos, que ainda não tiveram reencarnações na Terra apresentam-se, não raro, com formas especiais, de pequena dimensão, o que deu origem aos diversos nomes nas sociedades mitológicas do passado. Divaldo refere ainda que, pessoalmente, por experiências mediúnicas, acredita que alguns vivem o período intermediário entre as formas primitivas e as hominais, preparando-se para futuras reencarnações humanas.”

Nessa mesma revista encontra-se narrado interessante caso ocorrido com Chico Xavier. Diz o artigo que Chico foi procurado por um casal de fazendeiros que, aflitos, buscavam socorro para espantar as cobras que infestavam suas terras. Chico recomendou a eles que levassem à fazenda um benzedor, que naturalmente é um médium de efeitos materializantes. Quando ele fizer suas orações, recomendou Chico, os espíritos que cuidam da Natureza utilizarão esses fluidos, tocando as cobras dali para uma região de menos perigo. Quanto a mim, complementou Chico, minha tarefa é com os livros!

Voltemos ao LE “Ações dos Espíritos sobre os fenômenos da Natureza:

538 – “Os Espíritos que presidem aos fenômenos da Natureza formam uma categoria especial no mundo espírita, são seres à parte ou espíritos que foram encarnados, como nós?

R – Que o serão, ou que o foram”.

539 – “Na produção de certos fenômenos, das tempestades, por exemplo, é somente um espírito que age ou se reúnem em massa?

R – Em massas inumeráveis”.

ONDE VIVEM ESSE ESPÍRITOS DA NATUREZA?

Vejamos o LE 537: “…poderia, então haver espíritos habitando o interior da Terra e presidindo aos fenômenos geológicos? R – Esses espíritos não habitam precisamente a Terra, mas presidem e dirigem os fenômenos, segundo as suas atribuições…”

Divaldo Franco também dá a sua contribuição à elucidação ao assunto, na mesma fonte antes referida. Ao lhe perguntarem qual é o habitat natural desses espíritos, responde: “A Erraticidade, o mundo dos espíritos, pertencendo a uma classe própria e, portanto, vivendo em regiões compatíveis com o seu grau de desenvolvimento, de evolução. “Misturam-se” aos homens e vivem, na grande maioria, na própria Natureza, que lhes serve de espaço especial”.

Com o título de “Espíritos não Humanos”, foi publicado na “Folha Espírita”, artigo de Eduardo Simões, no qual entre outras informações, lembra a evidente correlação entre a existência dos elementares, espíritos não humanos ou espíritos da natureza, com o relato da passagem em que “Jesus apazigua a tempestade” (Mt. 8-23-27), repreendendo os ventos e o mar.

Conforme conclui o autor, de maneira bastante lógica, Jesus teria falado não aos ventos e ao mar, mas, sim aos espíritos não humanos que, conforme o LE 539, agem nos fenômenos da natureza.

Fica uma advertência importante, a exarada por Gúbio, de que esses espíritos são inclinados ao bem ou ao mal, na dependência do tipo de influência que sofram, dada a característica “infantil” de suas mentes e devendo, portanto, merecer o respeito de todos nós, como seres em evolução que certamente estão trilhando os mesmos caminhos que já percorremos.

Dra. Irvênia Prada

Nota: LE – O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

(Extraído da Revista Cristã de Espiritismo nº 2, páginas 26-28)

Fonte: Portal da Casa Espírita Nova Era – Blumenau – Santa Catarina – SC

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