Princípio Inteligente

Jorge Andréa

PRINCÍPIO INTELIGENTE

O que podemos ver nos reinos da Natureza, a partir dos minerais até o reino hominal, são os ordenados aspectos morfológicos, que de tal complexidade, não podemos deixar de atribuir tais manifestações como consequências de leis responsáveis por tais eventos.

No reino mineral são expressivas as forças da atração e coesão das moléculas, a organizarem os diversos e bem ordenados sistemas cristalográficos, traduzindo orientação e equilíbrio na formação desse reino.

No reino vegetal as manifestações se mostram mais avançadas, onde a fotossíntese representa expressiva aquisição. Neste reino, a molécula orgânica afirma-se e já propiciando elementos construtivos da escola evolutiva dos seres.

O reino mineral é o reino que define as unidades inorgânicas, mesmo dentro de suas combinações, divergindo do vegetal, onde a matéria orgânica cresce, expandindo-se e combinando-se em muitos e novos elementos.

Tudo, é como se um princípio organizador, limitado no reino mineral, alcançasse novas possibilidades e atributos na organização vegetal, propiciando múltiplas combinações que se vão expressando na conhecida irritabilidade celular. Ao mesmo tempo, observam-se reações em face às condições do meio, como o heliotropismo, as variações de acidez e alcalinidade e muitas outras elaborações bioquímicas. Neste meio, os processos seletivos da quimiossíntese já apresentam novos avanços a expensas das bactérias, em que muitas delas fazem parte do reino animal.

No reino animal as elaborações são bastante complexas; além dos impulsos que lhe são próprios, consigo carrega as heranças dos reinos menores que o seu. Na fase animal, com as condições do próprio sustento relacionado ao meio onde militam, existem as novas condições equacionadas nos equilibradores orgânicos.

O princípio espiritual, trilhando independente na escala animal, aprimorando-se cada vez mais, inclusive na família dos primatas, alcançaria no homem, sua mais expressiva demonstração a expensas da glândula pineal.

É como se houvesse, há milhões de anos, uma elaboração onde a memória fragmentária dos animais fosse, pouco a pouco, adquirindo novas condições até alcançar, no hominal, a memória contínua (renovações reencarnatórias); nesta, o raciocínio seria acompanhado de novos fatores, inclusive os afetivos, a refletirem-se nos potenciais da responsabilidade (nascimento do livre-arbítrio).

Assim, do Ardipithecus ramidus, alcançando evolutivamente os australopithecus (aferensis, africanus, robustus), chegasse ao homo-habilis e seus continuadores, o erectus e o sapiens do reino hominal, em condições do mais expressivo estado de conscientização.

A complexa linha da vida planetária, com seus 3,5 bilhões de anos de existência, se considerarmos todo esse tempo representando apenas 1 ano, segundo alguns antropólogos, os répteis apareceram em meados de dezembro e o homem nos últimos 2 segundos.

O homem é recente no planeta (1 milhão e 600 mil anos). O homem autóctone, aquele que foi o resultado do aperfeiçoamento dos primatas, deveria ter passado um bom tempo até alcançar o chamado período paleolítico ou da pedra lascada, cuja máxima aquisição foi o fogo; sua palavra ainda rudimentar, e seu pensamento foi se transformando lentamente, do fragmentário da fase animal ao contínuo do reino hominal, onde múltiplos fatores se encontram coligados.

O período neolítico ou da pedra polida, cujas acentuações vocais, auxiliadas possivelmente pela música, já formavam palavras, embora reduzidas e muito pobres. Essas novas condições de comunicação propiciavam a formação de grupos humanos, cada vez mais acentuados, contribuindo na criação, embora lenta, da agricultura e consequente fixação no solo.

Com os milênios, aparecem as línguas chamadas analíticas, cujas palavras definem posições, ideias, como também os ideogramas, que alcançaram posições interessantes na civilização egípcia, chinesa e no Japão antigo e mais recentemente outras línguas foram aparecendo.

A ciência já possibilitou compreendermos as condições de análise e síntese que o nosso cérebro expressa. Os fenômenos analíticos estariam, nas manipulações psicológicas, a custa do hemisfério cerebral esquerdo, cabendo ao direito as expressões de conjunto e totalidade, tal acontece com a intuição em seus diversos estados criativos.

Também será fácil compreender que os mecanismos ligados, ora na análise, ora na síntese, encontram-se imbricados, ficando difícil demarcá-los, entretanto, quando existe predominância de uma dessas vertentes, a possibilidade de avaliação será de mais fácil compreensão.

Jorge Andréa

Fonte:  Correio Espírita

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Ampliemos Nossos Santos Patrimônios, Amando Nossos Demônios

José Reis Chaves

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Grandes erros doutrinários da Igreja foram originários de interpretações literais bíblicas. São Paulo nos adverte sobre isso. (2 Coríntios 3:6).

Mas são as igrejas evangélicas, não tanto as protestantes, que estão ainda atoladas nesses erros. É o caso da interpretação do fogo figurado do inferno ou o fogo esotérico, entendido como se fosse igual ao fogo do nosso mundo físico, fogo esse exotérico.

A respeito do diabo, então, fizeram uma confusão dos diabos! Misturaram o demônio com diabo, satanás, lúcifer, cobra e até com o dragão. Mas só o demônio é espírito e humano (“daimon” em grego é alma). Pelo ensino da hermenêutica, que trata da interpretação de textos antigos, vale o significado das palavras da época em que eles foram escritos. E não é só na Bíblia que “daimon” significa alma, mas também nas outras obras gregas, como as de Platão, de Homero e de outros autores da Antiguidade. Há mais de um século e meio que os enciclopedistas, os iluministas e os espíritas vêm mostrando esse erro. Não creio que seja tanto por ignorância dos líderes religiosos, mas por seus interesses egoístas, que eles mantêm esse erro.

Diabo (“diabolos” em grego é adversário), adversário porque prejudica a evolução do espírito. É como o joio no meio do trigo. E satanás e satã têm significados semelhantes ao de diabo. Já lúcifer (do latim lucem, luz, e do verbo latino ferre, transportar) é, pois, porta-luz ou inteligência figurada dos anjos rebeldes. (2 Pedro 2:4). Assim, Jesus é o verdadeiro Lúcifer. E os anjos são também espíritos humanos superevoluídos, mas justamente porque são humanos, podem pecar. E fala-se também em anjos maus, como há demônios bons ou almas boas, e demônios maus ou almas más. No sepultamento de uma criança, o povo diz muito que é um anjinho. Trata-se de reminiscências do passado em que já se sabia que anjo é espírito humano. O espírito da criança é tomado como sendo pequeno, por analogia com o seu corpo pequenino. E anjo (“aggelos” em grego) significa mensageiro, enviado, “office-boy”. A Bíblia está cheia de anjos ou enviados de Deus ou do mundo espiritual para nos trazerem mensagens.

Mas como já foi dito, só demônio é espírito. Por isso, Jesus nunca tirou diabo, satanás, lúcifer, serpente e dragão de ninguém, mas só demônios maus, pois os bons não atormentam nem obsidiam ninguém. Mas exatamente por isso, os teólogos antigos passaram a entender erradamente que todo demônio é mau, o que é um grande erro!

Amando, pois, os demônios maus e inimigos nossos, estamos enriquecendo o nosso santo patrimônio espiritual e moral. Jesus até disse que alguns são tirados das pessoas com muitas preces e jejuns. É o que os espíritas fazem e com sucesso. Realmente, se demônio é um espírito humano, mesmo que ele seja mau e inimigo nosso, temos que amá-lo, como nos ensina o excelso Mestre, não importando o fato de ele estar desencarnado.

Ou, por acaso, Jesus nos manda amar somente os espíritos encarnados? Não foi Ele, em Espírito (1 Pedro 4:6), pregar também o evangelho para eles lá nos infernos?

José Reis Chaves

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

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A vida futura

Allan Kardec

Resultado de imagem para Imagens A vida futura. Tamanho: 164 x 170. Fonte: luzdoespiritismo.com

A vida futura já deixou de ser um problema. É um fato apurado pela razão e pela demonstração para a quase totalidade dos homens, porquanto os que a negam formam ínfima minoria, sem embargo do ruído que tentam fazer. Não é, pois, a sua realidade o que nos propomos demonstrar aqui. Fora repetir-nos sem acrescentarmos coisa alguma à convicção geral. Admitido que está o princípio, como primícias, o a que nos propomos é examinar-lhe a influência sobre a ordem social e a moralização, segundo a maneira por que é encarada.

As consequências do princípio contrário, isto é, do nadismo, já são por demais conhecidas e bastante compreendidas, para que se torne necessário desenvolvê-las de novo. Apenas diremos que, se estivesse demonstrada a inexistência da vida futura, nenhum outro fim teria a vida presente, senão o da manutenção de um corpo que, amanhã, dentro de uma hora, poderá deixar de existir, ficando tudo, nesse caso, inteiramente acabado. A consequência lógica de semelhante condição para a Humanidade seria concentrarem-se todos os pensamentos na incrementação dos gozos materiais, sem atenção aos prejuízos de outrem. Por que, então, haveria alguém de suportar privações, de impor-se sacrifícios? Por que haveria de constranger-se para se melhorar, para se corrigir de defeitos? Seria também a absoluta inutilidade do remorso, do arrependimento, uma vez que nada se deveria esperar. Seria, afinal, a consagração do egoísmo e da máxima: O mundo pertence aos mais fortes e aos mais espertos. Sem a vida futura, a moral não passa de mero constrangimento, de um código convencional, arbitrariamente imposto; nenhuma raiz teria ela no coração. Uma sociedade fundada em tal crença só teria por elo, a prender-lhe os membros, a força e bem depressa cairia em dissolução.

Não se objete que, entre os negadores da vida futura, há pessoas honestas, incapazes de cientemente causar dano a quem quer que seja e suscetíveis dos maiores devotamentos. Digamos, antes de tudo, que, entre muitos incrédulos, a negação do porvir é mais fanfarronada, jactância, orgulho de passarem por espíritos fortes, do que resultado de uma convicção absoluta. No foro íntimo de suas consciências, há uma dúvida a importuná-los, pelo que procuram eles atordoar-se. Não é, porém, sem dissimulação que pronunciam o terrível nada, que os priva do fruto de todos os trabalhos da inteligência e despedaça para sempre as mais caras afeições. Muitos dos que mais forte deblateram são os primeiros a tremer ante a ideia do desconhecido; por isso mesmo, quando se lhes aproxima o momento fatal de entrarem nesse desconhecido, bem poucos são os que adormecem, no derradeiro sono, na firme persuasão de que não despertarão algures, visto que a Natureza jamais abdica dos seus direitos.

Afirmamos, pois, que, na maioria dos incrédulos, a incredulidade é muito relativa, isto é, que, não lhes estando satisfeita a razão, nem com os dogmas, nem com as crenças religiosas, e nada tendo encontrado, em parte alguma, com que encherem o vazio que se lhes fizera no íntimo, eles concluíram que nada há e edificaram sistemas com que justificassem a negação. Não são, conseguintemente, incrédulos, senão por falta de coisa melhor. Os absolutamente incrédulos são raríssimos, se é que existem.

Uma latente e inconsciente intuição do futuro é, portanto, capaz de deter grande número deles no declive do mal e uma imensidade de atos se poderiam citar, mesmo da parte dos mais endurecidos, testificantes da existência desse sentimento secreto que os domina, a seu malgrado.

Cumpre também dizer que, seja qual for o grau da incredulidade, o respeito humano é o que torna reservadas as pessoas de certa condição social. A posição que ocupam os obriga a uma linha de proceder muito discreta; temem acima de tudo a desconsideração e o desdém que, fazendo-os perder, por decaírem da categoria em que se encontram, as atenções do mundo, os privariam dos gozos de que desfrutam; se carecem de um fundo de virtudes, pelo menos têm destas o verniz. Mas, aos que nenhuma razão se apresenta para se preocuparem com a opinião dos outros, aos que zombam do “que dirão”, e não há contestar que esses formam a maioria, que freio se pode impor ao transbordamento das paixões brutais e dos apetites grosseiros? Em que base assentar a teoria do bem e do mal, a necessidade de eles reformarem seus maus pendores, o dever de respeitarem o que pertence aos outros, quando eles próprios nada possuem? Qual pode ser o estímulo à honradez, para criaturas a quem se haja persuadido que não passam de simples animais? A lei, respondem, aí está para contê-los; mas, a lei não é um código de moral que toque o coração; é uma força cuja ação eles suportam e que iludem, se o podem. Se lhe caem sob o guante, isso é por eles tido como resultado de má sorte ou de inabilidade, a que tratam de remediar na primeira ocasião.

Os que pretendem que os incrédulos tem mais mérito em fazer o bem, por não esperarem nenhuma recompensa numa vida futura, em que não creem, se valem de um sofisma igualmente mal fundado. Também os crentes dizem que é pouco meritório o bem praticado com vistas em vantagens que possam colher. Vão mesmo mais longe, porquanto se acham persuadidos de que o mérito pode ser completamente anulado, tal o móvel que determine a ação. A perspectiva da vida futura não exclui o desinteresse nas boas obras, porque a ventura que elas proporcionam está, antes de tudo, subordinada ao grau de adiantamento moral do indivíduo. Ora, os orgulhosos e os ambiciosos se contam entre os menos aquinhoados. Mas, os incrédulos que praticam o bem são tão desinteressados como o pretendem? Será que, nada esperando do outro mundo, também deste nada esperem? O amor-próprio não tem no caso a sua parte? Serão eles insensíveis aos aplausos dos homens? Se tal acontecesse, estariam num grau de perfeição rara e não cremos haja muitos que a tanto sejam induzidos unicamente pelo culto da matéria.

Objeção mais séria é esta: Se a crença na vida futura é um elemento moralizador, como é que aqueles a quem se prega isso desde que vêm ao mundo são igualmente tão maus?

Primeiramente, quem nos diz que sem isso não seriam piores? Não há duvidar, desde que se considerem os resultados inevitáveis da popularização do nadismo. Não se comprova, ao contrário, observando-se as diferentes graduações da Humanidade, desde a selvajaria até a civilização, que o progresso intelectual e moral vai à frente, produzindo o abrandamento dos costumes e uma concepção mais racional da vida futura? Essa concepção, no entanto, por muito imperfeita, ainda não pode exercer a influência que necessariamente terá, à medida que for mais bem compreendida e que se adquiram noções mais exatas sobre o futuro que nos está reservado.

Por muito sólida que seja a crença na imortalidade, o homem não se preocupa com a sua alma, senão de um ponto de vista místico. A vida futura, definida com extrema falta de clareza, só muito vagamente o impressiona; não passa de um objetivo que se perde muito ao longe e não um meio, porque a sorte lhe está irrevogavelmente assinada e em parte alguma lha apresentam como progressiva, donde se conclui que aquilo que formos, ao sair daqui, sê-lo-emos por toda a eternidade. Aliás, o quadro que traçam da vida futura, as condições determinantes da felicidade ou da desventura que lá se experimentam, longe estão, sobretudo num século de exame, como o nosso, de satisfazer completamente a razão. Acresce que ela não se prende muito diretamente à vida terrestre, nenhuma solidariedade havendo entre as duas, mas, antes, um abismo, de maneira que aquele que se preocupa principalmente com uma das duas quase sempre perde a outra de vista.

Sob o império da fé cega, essa crença abstrata bastará às inspirações dos homens que, então, se deixavam conduzir. Hoje, porém, sob o reinado do livre exame eles querem conduzir-se por si mesmos, ver com seus próprios olhos e compreender. Aquelas vagas noções da vida futura já não estão a altura das novas ideias e já não correspondem às necessidades que o progresso criou. Com o desenvolvimento das ideias, tudo tem que progredir em torno do homem, porque tudo se liga, tudo é solidário em a Natureza: ciências, crenças, cultos, legislações, meios de ação. O movimento para a frente é irresistível, porque é lei da existência dos seres. O que quer que fique para trás, abaixo do nível social, é posto de lado, como vestuário que se tornou imprestável e, finalmente, arrastado pela onda que se avoluma.

O mesmo acontece com as ideias pueris sobre a vida futura, com que os nossos pais se contentavam; persistir hoje em impô-las seria propagar a incredulidade. Para que a opinião geral a aceite e para que ela exerça sua ação moralizadora, a vida futura tem que ser apresentada sob o aspecto de coisa positiva, de certo modo tangível e capaz de suportar qualquer exame, satisfazendo à razão, sem nada deixar na sombra. No momento em que a precariedade das noções sobre o porvir abria a porta à dúvida e à incredulidade, novos meios de investigação foram conferidos ao homem, para penetrar esse mistério e fazer-lhe compreender a vida futura na sua realidade, em seu positivismo, nas suas relações íntimas com a vida corpórea.

Por que, em geral, se cuida tão pouco da vida futura? Trata-se, no entanto, de uma atualidade, pois que todos os dias milhares de homens partem para esse destino desconhecido. Tendo cada um de nós de partir por sua vez e podendo a hora da partida soar de um momento para outro, parece natural que todos se preocupem com o que sucederá. Por que não se dá isso? Precisamente porque é desconhecido o destino e porque, até ao presente, ninguém tinha meio de conhecê-lo. A Ciência inexorável, o desalojou dos lugares onde o tinha limitado. Está ele perto? Está longe? Acha-se perdido no infinito? As filosofias de antanho nada respondem, porque nada sabem a respeito. Diz-se então: “Será o que for.” Indiferença.

Ensinam-nos que seremos felizes ou infelizes, conforme houvermos vivido bem ou mal. Mas, isso é tão vago! Em que consistem essa felicidade e essa infelicidade? O quadro que de uma e outra nos traçam tão em desacordo está com a ideia que fazemos da justiça de Deus, tão cheio de contradições, de inconsequências de impossibilidades radicais, que involuntariamente a dúvida se apresenta, senão a incredulidade absoluta. Ao demais, pondera-se que os que se enganaram com relação aos lugares indicados para moradas futuras também podem ter sido induzidos em erro, quanto às condições que estatuem para a felicidade e para o sofrimento. Aliás, como seremos nesse outro mundo? Seremos seres concretos ou abstratos? Teremos uma forma ou uma aparência? Se nada de material tivermos, como poderemos experimentar sofrimentos materiais? Se os ditosos nada tiverem que fazer, a ociosidade perpétua, em vez de uma recompensa, será um suplício, a menos que se admita o Nirvana do budismo, que não é mais desejável do que aquela ociosidade.

O homem não se preocupará com a vida futura, senão quando vir nela um fim claro e positivamente definido, uma situação lógica, em correspondência com todas as suas aspirações, que resolva todas as dificuldades do presente e em que não se lhe depare coisa alguma que a razão não possa admitir. Se ele se preocupa com o dia seguinte, é porque a vida do dia seguinte se liga intimamente à vida do dia anterior; uma e outra são solidárias; ele sabe que do que fizer hoje depende a sua posição amanhã e que do que fizer amanhã dependerá a sua posição no dia imediato e assim por diante.

Tal tem de ser para ele a vida futura, quando esta não mais se achar perdida nas nebulosidades da abstração e for uma atualidade palpável, complemente necessário da vida presente, uma das fases da vida geral, como os dias são fases da vida corporal. Quando vir o presente reagir sobre o futuro, pela força das coisas, e, sobretudo, quando compreender a reação do futuro sobre o presente; quando, em suma, verificar que o passado, o presente e o futuro se encadeiam por inflexível necessidade, como o ontem, o hoje e o amanhã na vida atual, oh! então suas ideias mudarão completamente, porque ele verá na vida futura não só um fim, como também um meio; não um efeito distante, mas atual. Então, igualmente, essa crença exercerá sem dúvida, e por uma consequência toda natural, ação preponderante sobre o estado social e sobre a moralização da Humanidade.

Tal o ponto de vista donde o Espiritismo nos faz considerar a vida futura.

Fonte: Revista Espírita, Ano XII, Volume 11, novembro de 1869

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Os desertores

Allan Kardec

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Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre elas têm seus desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza humana. Ele também teve os seus e a esse respeito não serão inúteis algumas observações.

Nos primeiros tempos, muitos se equivocaram sobre a natureza e os fins do Espiritismo e não lhe perceberam o alcance. Antes de tudo mais, excitou a curiosidade; muitos eram os que não viam nas manifestações espíritas mais do que simples objeto de diversão; divertiram-se com os Espíritos, enquanto estes quiseram diverti-los. Constituíam um passatempo, muitas vezes complementar das reuniões familiares.

Esta maneira por que a princípio a coisa se apresentou foi uma tática hábil dos Espíritos. Sob a forma de divertimento, a ideia penetrou por toda parte e semeou germens, sem espavorir as consciências timoratas. Brincaram com a criança, mas a criança tinha de crescer.

Quando os Espíritos brincalhões sucederam os Espíritos sérios, moralizadores; quando o Espiritismo se tornou ciência, filosofia, as pessoas superficiais deixaram de achá-lo divertido; para os que se preocupam sobretudo com a vida material, era um censor importuno e embaraçoso, pelo que não poucos o puseram de lado. Não há que deplorar a existência desses desertores, porquanto as criaturas frívolas não passam de pobres auxiliares, seja no que for. Todavia, essa primeira fase não se pode considerar tempo perdido. Graças àquele disfarce, a ideia se popularizou cem vezes mais do que se houvera, desde o primeiro momento, revestido severa forma, e daqueles meios levianos e displicentes saíram graves pensadores.

Postos em moda pelo atrativo da curiosidade, constituindo um engodo, os fenômenos tentaram a cupidez dos que andam à cata do que surge como novidade, na esperança de encontrar aí uma porta aberta. As manifestações pareceram coisa maravilhosamente explorável e não faltou quem pensasse em fazer delas um auxiliar de seus negócios; para outros, eram uma variante da arte da adivinhação, um processo, talvez mais seguro do que cartomancia, a quiromancia, a borra de café, etc., etc., para se conhecer o futuro e descobrir coisas ocultas, uma vez que, segundo a opinião então corrente, os Espíritos tudo sabiam.

Vendo, afinal essas pessoas que a especulação lhes escapava dentre os dedos e dava em mistificação, que os Espíritos não vinham ajudá-las a enriquecer, nem lhes indicar números que seriam premiados nas loterias, ou revelar–lhes a boa sorte, ou levá-las a descobrir tesouros, ou a receber heranças, nem ainda facultar-lhes uma invenção frutuosa de que tirassem patente, suprir-lhes em suma a ignorância e dispensá-las do trabalho intelectual e material, os Espíritos para nada serviam e suas manifestações não passavam de ilusões. Tanto essas pessoas deferiram louvores ao Espiritismo, durante todo o tempo em que esperaram auferir dele algum proveito, quanto o denegriram desde que chegou a decepção. Mais de um dos críticos que o vituperam tê-lo-iam elevado às nuvens, se ele houvesse feito que descobrissem um tio rico na América, ou que ganhassem na Bolsa. Das categorias dos desertores, é essa a mais numerosa; mas, compreende-se que os que a formam não podem ser qualificados de espíritas.

Também essa fase apresentou sua utilidade. Mostrando o que não se devia esperar do concurso dos Espíritos, ela deu a conhecer o objetivo sério do Espiritismo e depurou a Doutrina. Sabem os Espíritos que as lições da experiência são as mais proveitosas; se, logo de começo, eles dissessem: Não peçais isto ou aquilo, porque nada conseguireis, ninguém mais lhes daria crédito. Essa a razão por que deixaram que as coisas tomassem o rumo que tomaram: foi para que da observação ressaltasse a verdade. As decepções desanimaram os exploradores e contribuíram para que o número deles diminuísse. Eram parasitos de que elas, as decepções, livraram o Espiritismo, e não adeptos sinceros.

Alguns indivíduos, mais perspicazes do que outros, entreviram o homem na criança que acaba de nascer e temeram-na, como Herodes temeu o menino Jesus. Não se atrevendo a atacar de frente o Espiritismo, esses indivíduos incitaram agentes com o encargo de o abraçarem para asfixiá-lo; agentes que se mascaram para em toda parte se intrometerem, para suscitarem habilmente a desafeição nos centros e espalharem, dentro destes, com furtiva mão, o veneno da calúnia, acendendo, ao mesmo tempo, o facho da discórdia, inspirando atos comprometedores, tentando desencaminhar a Doutrina a fim de torná-la ridícula ou odiosa e simular em seguida defecções.

Outros ainda são mais habilidosos: pregando a união, semeiam a separação; negativamente levantam questões irritantes e ferinas; despertam o ciúme da preponderância entre os diferentes grupos; deleitam-se, vendo-os apedrejar-se e erguer bandeira contra bandeira, a propósito de algumas divergências de opiniões sobre certas questões de forma ou de fundo, as mais das vezes provocadas intencionalmente. Todas as doutrinas têm tido seus Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles ainda não lhe faltam.

Esses são espíritas de contrabando, mas que também foram de alguma utilidade: ensinaram ao verdadeiro espírita a ser prudente, circunspecto e a não se fiar nas aparências.

Por princípio, deve-se desconfiar dos entusiasmos demasiado febris: são quase sempre fogo de palha, ou simulacros, ardores ocasionais, que suprem com a abundância de palavras a falta de atos. A verdadeira convicção é calma, refletida, motivada; revela-se, como a verdadeira coragem, pelos fatos, isto é, pela firmeza, pela perseverança e, sobretudo, pela abnegação. o desinteresse moral e material é a legítima pedra de toque da sinceridade.

Tem esta um cunho sui generis; exterioriza-se por matizes muitas vezes mais fáceis de ser compreendidos do que definidos; é sentida por efeito dessa transmissão do pensamento, cuja lei o Espiritismo regulou, sem que a falsidade chegue nunca a simulá-la completamente, visto não lhe ser possível mudar a natureza das correntes fluídicas que projeta de si. Ela, a sinceridade, considera erro dar troco à baixa e servil lisonja, que somente seduz as almas orgulhosas, lisonja por meio da qual precisamente a falsidade se trai para com as almas elevadas.

Jamais pode o gelo imitar o calor.

Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda aí depararemos com certas fraquezas humanas, das quais a Doutrina não triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencer-se são o egoísmo e o orgulho, as duas paixões originárias do homem. Entre os adeptos convictos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele que desertasse, por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver desfalecimentos. Pode dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção, de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma ferida no amor-próprio, de uma prova difícil. Há o recuo ante o sacrifício do bem-estar, ante o receio de comprometer os interesses materiais, ante o medo do “que dirão?”; há o ser-se abatido por uma mistificação, tendo como consequência, não o afastamento, mas o esfriamento; há o querer viver para si e não para os outros, o beneficiar-se da crença, mas sob a condição de que isso nada custe.

Sem dúvida, podem os que assim procedem ser crentes, mas, sem contestação, crentes egoístas, nos quais a fé não ateou o fogo sagrado do devotamento e da abnegação; às suas almas custa o desprenderem-se da matéria. Fazem nominalmente número, porém não se pode contar com eles.

Todos os outros são espíritas que em verdade merecem esse qualificativo. Aceitam por si mesmos todas as consequências da Doutrina e são reconhecíveis pelos esforços que empregam por melhorar-se. Sem desprezarem, além dos limites do razoável, os interesses materiais, estes são, para eles, o acessório e não o principal; não consideram a vida terrena senão como travessia mais ou menos penosa; estão certos de que o emprego útil ou inútil que lhe derem depende o futuro; têm por mesquinhos os gozos que ela proporciona, em face do objetivo esplêndido que entreveem no além; não se intimidam com os obstáculos com que topem no caminho; veem nas vicissitudes e decepções provas que não lhes causam desânimo, porque sabem que o repouso será o prêmio do trabalho Daí vem que não se verificam entre eles deserções, nem falências.

Por isso mesmo, os bons Espíritos protegem manifestamente os que lutam com coragem e perseverança, aqueles cujo devotamento é sincero e sem ideias preconcebidas; ajudam-nos a vencer os obstáculos e suavizam as provas que não possam evitar-lhes, ao passo que, não menos manifestamente, abandonam os que se afastam deles e sacrificam a causa da verdade às suas ambições pessoais.

Devemos incluir também entre os desertores do Espiritismo os que se retiram porque a nossa maneira de ver não lhes satisfaz; os que, por acharem muito lento ou muito rápido o nosso método, pretendem alcançar mais depressa e em melhores condições a meta a que visamos? Certamente que não, se têm por guia a sinceridade e o desejo de propagar a verdade. – Sim, se seus esforços tendem unicamente a se porem eles em evidência e a chamar sobre si a atenção pública, para satisfação do amor-próprio e de interesses pessoais!…

Tendes um modo de ver diferente do nosso, não simpatizais com os princípios que admitimos! Nada prova que estais mais próximos da verdade do que nós. Pode-se divergir de opinião em matéria de ciência; investigai do vosso lado, como nós investigamos do nosso; o futuro dará a ver qual de nós está em erro ou com a razão. Não pretendemos ser os únicos a reunir as condições fora das quais não são possíveis estudos sérios e úteis; o que temos feito podem outros, sem dúvida, fazer. Que os homens inteligentes se agreguem a nós, ou se congreguem longe de nós, pouco importa!… Se os centros de estudos se multiplicarem, tanto melhor; será um sinal de incontestável progresso, que aplaudiremos com todas as nossas forças.

Quanto às rivalidades, às tentativas que façam por nos suplantarem, temos um meio infalível de não as temer. Trabalhamos para compreender, por enriquecer a nossa inteligência e o nosso coração; lutamos com os outros, mas lutamos com caridade e abnegação. O amor ao próximo inscrito em nosso estandarte é a nossa divisa; a pesquisa da verdade, venha donde vier, o nosso único objetivo. Com tais sentimentos, enfrentamos a zombaria dos nossos adversários e as tentativas dos nossos competidores. Se nos enganarmos, não teremos o tolo amor-próprio que nos leve a obstinar-nos em ideias falsas; há, porém, princípios acerca dos quais podemos todos estar seguros de não nos enganarmos nunca: o amor do bem, a abnegação, a proscrição de todo sentimento de inveja e de ciúme. Estes princípios são os nossos; vemos neles os laços que unirão todos os homens de bem, qualquer que seja a divergência de suas opiniões. Somente o egoísmo e a má-fé erguem entre eles barreiras intransponíveis.

Mas, qual será a consequência de semelhante estado de coisas? Indubitavelmente, o proceder dos falsos irmãos poderá de momento acarretar algumas perturbações parciais, pelo que todos os esforços devem ser empregados para levá-los ao malogro, tanto quanto possível; essas perturbações, porém, pouco tempo necessariamente durarão e não poderão ser prejudiciais ao futuro: primeiro, porque são simples manobras de oposição, fadadas a cair pela força mesma das coisas; depois, digam o que disserem, ou façam o que fizerem, ninguém seria capaz de privar a Doutrina do seu caráter distintivo, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consoladora e regeneradora. Hoje, estão lançadas de forma inabalável as bases do Espiritismo; os livros escritos sem equívoco e postos ao alcance de todas as inteligências serão sempre a expressão clara e exata do ensino dos Espíritos e o transmitirão intacto aos que nos sucederem.

Necessário não perder de vista que estamos num momento de transição e que nenhuma transição se opera sem conflito. Ninguém, pois, deve espantar-se de que certas paixões se agitem, por efeito de ambições malogradas, de interesses feridos, de pretensões frustradas. Pouco a pouco, porém, tudo isso se extingue, a febre se abranda, os homens passam e as novas ideias permanecem. Espíritas, se quereis ser invencíveis, sede benévolos e caridosos; o bem é uma couraça contra a qual sempre se quebrarão as manobras da malevolência!…

Nada, pois, temamos: o futuro nos pertence. Deixemos que os nossos adversários se debatam, apertados pela verdade que os ofusca; qualquer oposição é impotente contra a evidência, que inevitavelmente triunfa pela força mesma das coisas. É uma questão de tempo a vulgarização universal do Espiritismo e neste século o tempo marcha a passo de gigante, sob a impulsão do progresso.

Fonte: Revista Espírita, Ano XII, Volume 12, dezembro de 1869

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Relação Espírito – Matéria

Raul Franzolin Neto

espirito materia

Discorrer sobre esse tema não é uma tarefa fácil de fazer. Ele é muito mais complexo do que podemos imaginar no momento. Vou fazer uma análise geral e simplista de início, permitindo uma posterior discussão mais aprofundada por outras pessoas envolvidas cientificamente com o assunto.

O que é Espírito? E matéria? Qual a relação que existe entre eles? Para um leigo é muito fácil definir uma matéria como sendo um aglomerado de moléculas. Assim, um pedaço de madeira, uma pedra, um lápis e o corpo humano são corpos materiais. A questão maior é definir e provar o que é um espírito.

No Livro dos Espíritos encontramos as seguintes questões a esse respeito:

Questão 76: Qual a definição que pode ser dada ao Espírito?

R: Espíritos podem ser definidos como seres inteligentes da criação. Eles constituem a população do universo, em distinção as formas do mundo material.

Nota: A palavra espírito é aqui empregada para designar a individualidade de seres extracorpóreos, e não um elemento universal inteligente.

Questão 82: É correto dizer que Espíritos são imateriais?

R: Como é possível definir algo que não há termo de comparação e que sua linguagem é incompetente para expressar? Pode alguém que nasceu cego definir a luz? “Imaterial” não é uma palavra certa; “incorpórea” seria mais próxima da verdade para você entender que um espírito, sendo uma criação, deve ser algo real. Espírito é matéria quintessenciada, mas matéria existente em um estado que não há análogo dentro do círculo de sua compreensão e tão etérea que ele não poderia ser percebido pelos seus sentidos.

Nota: Nós dizemos que Espíritos são imateriais, devido suas essências diferirem de tudo o que conhecemos sob o nome de “matéria”. Um mundo de pessoas cegas não teria termos para expressar a luz e seus efeitos. Aquele que nasce cego imagina que os únicos modos de percepção são: audição, olfato, paladar e o tato: ele não compreende outras idéias que seriam dadas pela visão. Nós podemos definir os Espíritos por meio de comparações que são necessariamente imperfeitas ou por um esforço de nossa imaginação.

Vamos raciocinar com uma simples analogia, a grande família eletrônica, para termos uma visão do que chamamos de Espírito.

Estamos todos interligados através de uma rede de computadores espalhados no mundo todo. Cada um desenvolve as suas atividades normais no dia a dia. Levantamo-nos cedo, escovamos os dentes, trocamos de roupa, saímos, comemos, voltamos, dormimos etc. As pessoas com quem convivemos nos vêem, acabam nos conhecendo e sabem nos identificar pela nossa aparência física, nossos hábitos de vestir, falar, andar etc. É um mundo real e se processa dia a dia até a nossa morte.

Quando ligamos o computador e entramos em rede, estamos entramos em um outro mundo. Sem o uso de tecnologia sofisticada, você agora não está me vendo, portanto, não será capaz de me identificar, caso algum dia nos encontrarmos. Você não está ouvindo a minha voz e não poderá me conhecer pela minha voz. Não sabe como eu me visto e não será capaz de identificar os meus hábitos pela vestimenta. Não sabe a minha idade e não é capaz de me reconhecer como um moço ou um velho, enfim resta o meu nome, que poderá não ser verdadeiro.

Assim, nesse esforço mental, não existimos um para outro da forma material, ou seja, como um ser humano. Entretanto, cada um de nós é capaz de sentir alegria, mágoa, revolta, orgulho e até uma tristeza profunda quando alguém resolve se desligar da rede, como um amigo que parte do mundo terreno pela da morte. Nos conhecemos apenas espiritualmente. São os Espíritos que estão se comunicando.

Dessa forma, você pode nunca ver ou conhecer pessoalmente uma pessoa da rede, mas poderá ser capaz de identificar o autor de uma mensagem, ou pelo menos, reconhecer a linha de raciocínio dele de alguma forma.

É claro que isso não se faz de um dia para o outro, como também você não é capaz de conhecer totalmente a pessoa com quem convive e somente se pode chegar próximo dependendo da afinidade espiritual envolvida.

Às vezes um casal se separa na velhice com a morte sem se terem verdadeiramente conhecidos. Ainda é possível que se conhecêssemos pessoalmente alguém da rede ela não expressaria as mesmas coisas que estaríamos acostumados a ler.

O homem não pode ser definido pelo seu corpo físico e essa capacidade pensante individual própria é o Espírito, ou seja, a verdadeira e real pessoa. Eu existo! A matéria é perecível e o espírito é eterno. O fato consumado da morte não significa que a pessoa acabou. Apenas tudo continua de um outro lado do mundo terreno, como ser pensante eterno.

O cérebro não é a origem do pensamento. O cérebro é o órgão de exteriorização dele, gerado pelo espírito, assim como esta máquina eletrônica é o meio de transmissão dos meus pensamentos. O meu Espírito pode estar muito longe disso aqui. Mas ele existe e é indestrutível… é eterno.

O grande problema do homem é procurar na matéria a causa da nossa inteligência e dos nossos sentimentos, que são características próprias de cada Espírito. A tentativa de explicar que a variabilidade da inteligência humana é produto dos diversos tipos de corpos físicos existentes é, portanto, uma opção errônea. Na matéria, o efeito. No Espírito, a causa. Se o Espírito é inteligente, isso se deve ao seu esforço constante em busca do conhecimento.

A partir do conhecimento do Espírito, vem o conhecimento moral do homem, que consegue perceber que não importa que tipo de corpo físico esteja a 30 cm do vídeo e onde ele está no momento, se é preto ou branco, qual a forma de seus hábitos, se é homem ou mulher e sim o que ele esta dizendo e que jamais se construirá uma população que tenha os mesmos sentimentos e o mesmo nível de inteligência pelo simples melhoramento genético da raça humana. Aliás, falta pouco para o homem ver com os próprios olhos de espírito encarnado que dois seres humanos clonados e, portanto, apresentando a mesma e idêntica matéria, serão completamente diferentes como seres individuais.

Enfim, desligamos o computador e voltamos ao nosso mundo terreno.

geae.net.br

Fonte: Boletim GeaE, Ano, 01, Número 05, novembro de 1992

Sobre o autor:

Raul Franzolin Neto: nasceu em Botucatu-SP e desenvolveu sua infância e adolescência em Itatinga-SP. Formou-se Médico Veterinário e tornou-se Professor Titular e pesquisador da USP. Escritor espírita foi o fundador do primeiro grupo espírita da internet, o GEAE – Grupo de Estudos Avançados Espíritas. Atualmente é o editor principal e web designer da página do GEAE.

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Ligeira resposta aos detratores do espiritismo

Allan Kardec

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É imprescritível o direito de exame e de crítica e o Espiritismo não alimenta a pretensão de subtrair-se ao exame e à crítica como não tem a de satisfazer a todo o mundo. Pois, cada um é livre de aprovar ou rejeitar; mas, para isso, necessário se faz discuti-lo com conhecimento de causa. Ora, a crítica tem claramente provado que ignora os seus princípios mais elementares, fazendo-o dizer precisamente o contrário do que ele diz, atribuindo-lhe o que ele desaprova, confundindo-o com as imitações grosseiras e grotescas do charlatanismo, enfim, apresentando, como regra de todos, as excentricidades de alguns indivíduos. Também por demais a malignidade tem querido torná-lo responsável por atos repreensíveis ou ridículos, nos quais o seu nome foi envolvido incidentemente, e disso se aproveita como arma contra ele.

Antes de imputar a uma doutrina a culpa de incitar a um ato condenável qualquer, a razão e a equidade exigem que se examine se essa doutrina contém máximas que justifiquem semelhante ato.

Para conhecer-se a parte de responsabilidade que, em dada circunstância, caiba ao Espiritismo, há um meio muito simples: proceder de boa-fé a uma indagação, não entre os adversários, mas na própria fonte, do que ele aprova e do que condena. Isso é tanto mais fácil, quanto ele não tem segredos; seus ensinos são patentes e qualquer pessoa pode verificá-los.

Assim, se os livros da Doutrina Espírita condenam explícita e formalmente um ato justamente reprovável; se, ao contrário, só contém instruções de natureza a orientar para o bem, segue-se que não foi neles que um indivíduo culpado de malefícios se inspirou, ainda mesmo que os possua.

O Espiritismo não é solidário com aqueles a quem agrada dizerem-se espíritas, do mesmo modo que a Medicina não o é com os que a exploram, nem a sã religião com os abusos e até crimes que se cometam em seu nome. Ele só reconhece como seus adeptos aqueles que praticam os seus ensinos, isto é, que trabalham por melhorar-se moralmente, esforçando-se por vencer os maus pendores, por ser menos egoístas e menos orgulhosos, mais brandos, mais humildes, mais caridosos para com o próximo, mais moderados em tudo, porque é essa a característica do verdadeiro espírita.

Esta breve nota não tem por objeto refutar todas as falsas alegações que se lançam contra o Espiritismo, nem lhe desenvolver e provar todos os princípios, nem, ainda menos, tentar converter a esses princípios os que professem opiniões contrárias; mas, apenas, dizer, em poucas palavras, o que ele é e o que não é, o que admite e o que desaprova.

Resumem nas proposições seguintes:

O elemento espiritual e o elemento material são os dois princípios, as duas forças vivas da Natureza, as quais se completam uma a outra e reagem incessantemente uma sobre a outra, sendo ambas indispensáveis ao funcionamento do mecanismo do Universo.

Da ação recíproca desses dois princípios se originam fenômenos que cada um deles, isoladamente, não tem possibilidade de explicar.

Cabe â Ciência, propriamente dita, a missão especial de estudar as leis da matéria.

O Espiritismo tem por objeto o estudo do elemento espiritual em suas relações com o elemento material e aponta na união desses dois princípios a razão de uma imensidade de fatos até então inexplicados.

O Espiritismo caminha ao lado da Ciência, no campo da matéria: admite todas as verdades que a Ciência comprova; mas, não se detém onde esta última para: prossegue nas suas pesquisas pelo campo da espiritualidade.

Sendo o elemento espiritual um estado ativo da Natureza, os fenômenos em que ele intervém estão submetidos a leis e são por isso mesmo tão naturais quanto os que derivam da matéria neutra.

Alguns de tais fenômenos foram considerados sobrenaturais, apenas por ignorância das leis que os regem. Em virtude desse princípio, o Espiritismo não admite o caráter de maravilhoso atribuído a certos fatos, embora reconheça sua realidade ou a possibilidade. Para ele (o Espiritismo), não há milagres, no sentido de anulação das leis naturais, donde se segue que os espíritas não fazem milagres e que é impróprio o título de milagreiros que umas tantas pessoas lhes dão.

O conhecimento das leis que regem o princípio espiritual prende-se de modo direto à questão do passado e do futuro do homem. Cobre-se a sua vida à existência atual? Ao entrar neste mundo, ele vem do nada e volta para o nada ao deixá-lo? Já viveu e ainda viverá? Como viverá e em que condições? Numa palavra: donde vem ele e para onde vai? Por que está na Terra e por que sofre aí? Tais as questões que cada um faz a si mesmo, porque são para toda gente de capital interesse e às quais ainda nenhuma doutrina deu solução racional. A versão que o Espiritismo lhe dá, baseada em fatos — por satisfazer às exigências da lógica e da mais rigorosa justiça — constitui uma das causas principais da rapidez de sua propagação.

O Espiritismo não é uma concepção pessoal, nem o resultado de um sistema preconcebido. É a resultante de milhares de observações feitas sobre todos os pontos do globo e que convergiram para um centro que os coligiu e coordenou. Todos os seus princípios constitutivos, sem exceção de nenhum, são deduzidos da experiência. Esta precedeu sempre a teoria.

Assim, desde o começo, o Espiritismo lançou raízes por toda parte. A História não oferece nenhum exemplo de uma doutrina filosófica ou religiosa que, em dez anos, tenha conquistado tão grande número de adeptos. Entretanto, para se fazer conhecido, não empregou nenhum dos meios normalmente em uso; propagou-se por si mesmo, pelas simpatias que inspirou.

Outro fato não menos constante é que em nenhum país a sua doutrina não surgiu das ínfimas camadas sociais; em todos os lugares ela se propagou de cima para baixo na escala da sociedade e ainda é nas classes esclarecidas que se acha quase exclusivamente espalhada, constituindo insignificante minoria, no seio de seus adeptos, as pessoas iletradas.

Espiritismo seguiu marcha sempre ascendente, apesar de tudo quanto seus adversários fizeram para entravá-la e para lhe desfigurar o caráter, com o objetivo de desacreditá-lo na opinião pública. É mesmo admirável que tudo o que têm tentado com esse propósito lhe favoreceu a difusão; o arruído que provocaram por ocasião do seu advento fez que viessem a conhecê-lo muitas pessoas que antes nunca ouviram falar dele; quanto mais procuraram denegri-lo ou ridicularizá-lo, tanto mais despertaram a curiosidade geral, e, como todo exame só lhe pode ser proveitoso, o resultado foi que seus opositores, sem quererem isso, se fizeram ardorosos propagandistas seus. Se as críticas não lhe acarretaram nenhum prejuízo, é que os que o estudaram em suas legítimas fontes o reconheceram muito diverso do que o tinham figurado.

Nas lutas que precisou sustentar, os imparciais lhe testificaram a moderação; ele nunca usou de represálias com os seus adversários, nem respondeu com injúrias às injúrias.

O Espiritismo é uma doutrina filosófica de efeitos religiosos, como qualquer filosofia espiritualista, pelo necessariamente vai ter às bases fundamentais de todas as religiões: Deus, a alma e a vida futura. Mas, não é uma religião constituída, visto que não tem culto, nem rito, nem templos e que, entre seus adeptos, nenhum tomou, nem recebeu o título de sacerdote ou de sumo-sacerdote. Estes qualificativos são de pura invenção da crítica.

Pode-se ser espírita pelo só fato de simpatizar com os princípios da doutrina e por conformar com esses princípios o proceder. Trata-se de uma opinião como qualquer outra, que todos têm o direito de professar, como têm o de ser judeus, católicos, protestantes, simonistas, voltairiano, cartesiano, deísta e até materialista.

O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para os seus adeptos, do mesmo modo que para todo o mundo. Respeita todas as convicções sinceras e faz questão da reciprocidade.

Da liberdade de consciência decorre o direito de livre-exame em matéria de fé. O Espiritismo combate a fé cega, porque ela impõe ao homem que abdique da sua própria razão; considera sem raiz toda fé imposta, donde o inscrever entre suas máximas: Não é inabalável, senão a fé que pode encarar de frente a razão em todas as épocas da Humanidade.

Coerente com seus princípios, o Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram. Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor.

Fonte: Revista Espírita, Ano XII, Volume 09, setembro de1869

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Achei a causa

Orson Peter Carrara

CONFLITOS FAMILIARES: exemplos e como resolver brigas de família

Estive pensando nos conflitos de relacionamento, nas dificuldades todas que aí estão, inclusive nas artimanhas e intrigas de bastidores, em empresas, famílias, conhecidos, colegas e mesmo nas atividades voluntárias compartilhadas nas instituições movidas pelo ideal religioso, das variadas denominações no Brasil; estava meditando sobre os ciúmes, as manipulações, os desrespeitos, as agressões, as acusações e críticas sempre reinantes, nos comentários maldosos e mesmo nos desprezos calculados, nos crimes entre cônjuges, nos abandonos de crianças e idosos, nas enfermidades surgidas de abalos emocionais… campo vasto a se abrir quando começamos a pensar nos dramas humanos e na nossa mediocridade moral….

Foi quando me deparei com o trecho abaixo. Ele consta do livro Roteiro, de Emmanuel, e está no capítulo 1 – O Homem ante a vida.

Foi inevitável. Ao ler, nesse momento de tantas dificuldades que nos afetam a todos, em âmbito familiar, social, profissional, nacional…. pude constatar: achei a razão maior. Achei o “fio da meada”. Eis a causa. Acompanhe atentamente. Peço ler vagarosamente… Eis:

“(…) Confinado ao reduzido agrupamento consanguíneo a que se ajusta ou compondo a equipe de interesses passageiros a que provisoriamente se enquadra, sofre a inquietação do ciúme, da cobiça, do egoísmo, da dor. Não sabe dar sem receber, não consegue ajudar sem reclamar e, criando o choque da exigência para os outros, recolhe dos outros os choques sempre renovados da incompreensão e da discórdia, com raras possibilidades de auxiliar e ser auxiliado (…)”

Sugiro releia.  E vá pensando nas dificuldades que tem constatado. O amigo leitor se surpreenderá ao encaixar no acanhado ponto de vista que ainda nos situamos – seja no agrupamento familiar ou na equipe de interesses passageiros –, alimentando ilusões e pretensões descabidas, buscando autopromoção , exigindo além do equilíbrio, tentando imposições ou mesmo agredindo muitas vezes, seja com a omissão ou as posturas que não se conectam ao dever do bem que nos cabe.

Aí surgem os choques variados que temos experimentado, fruto todos de nossa imaturidade e mesmo leviandade muitas vezes.  E pior, criando barreiras para ajudarmos e nos ajudarmos na superação de todas essas lamentáveis mazelas morais.

Claro que isso não é nenhuma novidade. Todos já sabemos. O título foi para provocar curiosidade e levar ao precioso trecho do texto de Emmanuel.

O capítulo em questão é muito valioso e aborda as grandezas da vida, mas nos faz reconhecer a pequenez que ainda nos situamos. A solução continua na vivência cristã que teimamos em nos manter afastados. Estamos convocados a essa nova postura. Seja por gratidão à vida, seja pelo dever de progredir, seja para sairmos da mediocridade que ainda estamos. A vida conspira a nosso favor e o dever que se apresenta é respeitar a vida em toda sua amplitude.

Orson Peter Carrara

Fonte: gaes.net

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Causas cármicas do efeito da ação e reação?

Cesar Boschetti

acao reacao

Deus meu!

Que gororoba é essa?

Pois é! Esse angu de ideias, em princípio parecidas, são muito mal compreendidas no meio espírita e por isso demandam do estudante sério, profundo e detalhado exame, lembrando que somos todos estudantes na escola do espírito. E por que devemos nos debruçar com calma sobre esses conceitos? Estão errados? Comprometem nosso progresso espiritual? Estão em desacordo com a codificação?

Vamos ver isso com calma. Respostas apressadas podem acarretar mais confusão que esclarecimento. Vamos examinar cada ideia separadamente, analisando sua aplicabilidade e suas implicações morais e filosóficas dentro do contexto da fé raciocinada.

A primeira coisa a ser observada é que Kardec, em toda a sua obra, nunca utilizou os conceitos de “Carma” e de “Ação e reação” em substituição ao princípio de causa e efeito.

Esse fato merece reflexão de nossa parte. Kardec era um homem culto e bastante preocupado com a educação de seu tempo. Com certeza, conhecia o pensamento de Descartes, Kant, Hume, Pascal, Santo Agostinho e Espinoza, só para citar alguns nomes importantes que se ocuparam das temáticas filosóficas da causalidade, do bem e do mal e do livre arbítrio nos séculos anteriores ao século XIX de Kardec. Kardec era um pesquisador sensato. Conduziu sua pesquisa sobre as manifestações espíritas e suas consequências morais com extremo rigor e seriedade. Além disto, não se pode esquecer que Kardec contou com o auxílio e consenso de uma plêiade de espíritos de alta envergadura. Tudo isso recomenda muita atenção e respeito de todos os espíritas para com a codificação.

Inicialmente vamos examinar a lei de “ação e reação”. Essa lei foi importada da física Newtoniana para o espiritismo. Trata-se da terceira lei de Newton que estabelece que, a toda “ação” corresponde uma “reação” de mesma intensidade e sentido contrário. Em primeiro lugar, note que essa lei se refere a ação de uma força exercida por um objeto material sobre um segundo objeto material que reage no mesmo instante da ação com uma força de igual intensidade e sentido contrário. Pode-se pensar que a ação de uma força (causa) exercida por um corpo sobre outro corpo, tem como reação (efeito) uma segunda força de igual intensidade que se opõe a ação do primeiro corpo. Observe que se trata de uma lei material. A física clássica Newtoniana trata exclusivamente do mundo material. Vê-se também que “ação” e “reação” são forças materiais simultâneas, isto é, que ocorrem no mesmo instante de tempo devido a interação entre dois corpos ou objetos materiais quaisquer. Só existe reação (efeito) enquanto a ação (causa) estiver presente. Não faz sentido falar em ação e reação separados no tempo. Esse é um ponto fundamental da lei natural de ação e reação que desautoriza completamente sua aplicação da forma pretendida dentro do espiritismo.

Kardec conhecia muito bem as leis de Newton, pois era professor de Astronomia e Matemática, dentre outras matérias. Ele foi corretíssimo em não utilizar a lei de “ação e reação” dentro da codificação. Não havia e nem há razões que amparem esse uso. Nem mesmo no sentido figurado ou metafórico. Apesar disto, tornou-se comum entre os espíritas a referência à lei de “ação e reação” sempre que se queira encontrar explicações ou justificativas anteriores para as aflições presentes do espírito. A busca dessas explicações ou justificativas é perfeitamente válida, mas tem que ser sob uma perspectiva muito diferente sem relação alguma com a lei material de ação e reação. Vale enfatizar, ação e reação são eventos simultâneos envolvendo forças entre dois objetos materiais. Voltaremos a este ponto mais adiante.

Vejamos a lei do “Carma”. A palavra “Carma” vem do sânscrito, uma língua morta. Significa “ação”. Em termos simples, a lei do Carma é equivalente à lei de “causa e efeito”, mas com diferenças importantes na sua interpretação. Inclusive, a interpretação do carma não é exatamente a mesma nas diversas doutrinas orientais que abrigam esse conceito. Sem entrarmos em detalhes, o carma é cumulativo, isto é, boas ações não anulam o carma acumulado pelas más ações do espírito, que podem ocorrer inclusive na forma de simples pensamento ou intenção. Além disso, a lei do carma admite a transmigração do espírito para corpos de animais ou até vegetais como castigo.

Aqui também vale notar que, com certeza, Kardec tinha conhecimento das doutrinas reencarnacionistas do oriente, bem como de outras doutrinas como a Rosacruz e a Teosofia que também adotam o conceito de carma. Se Kardec sofreu ou não alguma influência dessas doutrinas espiritualistas, não temos informação. Sabemos apenas que não adotou o conceito de carma, seja por julgá-lo desnecessário, seja por julgá-lo inadequado ao contexto do espiritismo. Isso merece atenção do estudante espírita.

Finalmente, vejamos o princípio de causa e efeito. Trata-se de um princípio natural que estabelece que todo efeito tem uma causa. Observe que o simples enunciado desse princípio já revela uma diferença significativa com relação a lei de “ação e reação”. Esta última, evidentemente, traduz um efeito (reação) devido a uma causa (ação), todavia numa situação muito particular de eventos simultâneos entre dois corpos materiais distintos interagindo entre si. Ao contrário, o princípio de causa e efeito é geral e pode se aplicar não apenas a eventos com entidades diferentes, materiais ou espirituais, mas também a eventos separados no tempo, relativos a uma mesma entidade material ou espiritual. Vê-se a enorme diferença em relação a “lei de ação e reação” que é totalmente inadequada.

Entretanto, a causalidade, isto é, o princípio de causa e efeito não deixa de ter algumas dificuldades interpretativas. Vale insistir. Kardec foi muito criterioso com todas essas ideias. O estudante atento não irá encontrar em parte alguma da codificação a ideia de causalidade abordada em termos simplistas na forma do popular chavão, “lei de causa e efeito”, invocado sem qualquer reflexão para explicar todas as aflições humanas. Kardec, evidentemente, não deixa de se ocupar com as causas anteriores das aflições. É evidente que as aflições do espírito têm causas anteriores. Todo efeito tem uma causa. E toda ação tem consequências. Tudo isso tem lógica. Mas de que forma o “efeito” e a “causa” estão interligados no tempo e no espaço? Se todo efeito tem uma causa, essa causa seria também o efeito de uma causa anterior e assim sucessivamente. Na realidade, teríamos uma cadeia infinita de causas e efeitos intermediários interligados. Vê-se também que causa e efeito se tornam uma coisa só, pois uma causa nada mais é que o efeito de uma causa anterior. Isso pode acarretar alguns problemas relativos à liberdade e ao livre-arbítrio. Kardec devia conhecer bem essa problemática. São questões muito antigas e ao mesmo tempo sempre atuais da filosofia. Merecem uma abordagem a parte. Por hora ficaremos com o bom senso de Kardec que, sem abrir mão de tratar das causas anteriores das aflições e das possíveis consequências das ações dos espíritos, evitou a rotulagem apressada de um chavão “lei de causa e efeito” explicativo de todos os males.

Vamos explorar um pouco esse universo das causas do sofrimento e das consequências das ações do espírito. Façamos um exercício intelectual. Usemos nossa fé raciocinada. Vamos imaginar a trajetória do espírito a partir do momento que passa a revestir-se de um primeiro corpo com características humanas começando a se destacar. Vale lembrar que o princípio espiritual foi criado muito antes disso, tendo jornadeado pelos vários reinos da natureza. Ao iniciar sua jornada evolutiva no reino hominal, esse espírito é ainda um ser simples e ignorante, mas com o diferencial de já trazer consigo a semente da razão e da liberdade. Localizar no tempo e na história do planeta esse grande salto do princípio espiritual extrapola completamente nossos conhecimentos. Até mesmo os espíritos superiores que assessoraram Kardec foram humildes em reconhecer a total ignorância desse ponto. Sem pretendermos entrar nesse mérito, apenas a título de contextualização aproximada, sabemos que o homem moderno, homo sapiens, surgiu há cerca de 150.000 anos. Os primeiros hominídeos, isto é, indivíduos com características diferenciadas importantes em relação aos símios surgiram bem antes, há cerca de 7 milhões de anos na África. Seria pura especulação dizer se as primeiras encarnações do espírito humano começaram com o homo sapiens ou com os primeiros hominídeos há cerca de 7 milhões de anos. Contudo, apesar do gigantesco lapso de tempo no plano material, isso não nos impede de compreender que o espírito do homem primitivo já trazia dentro de si um germe divino capaz de conduzi-lo da total ignorância à radiosa perfeição dos espíritos puros da esfera Crística. É um caminho longo, muito longo. Nossa insignificância não nos permite vislumbrar a extensão e beleza dessa caminhada. No artigo (Uma história do fogo (geae.net.br) tento apresentar um possível recorte dessa caminhada. Mas continuemos exercitando nossa fé raciocinada. Fé porque acreditamos na infinita perfeição do Criador e de toda a sua criação. Raciocinada porque temos a inteligência, a razão e o livre arbítrio dados pelo Criador para guiar nossos passos.

Essa fé raciocinada não vem pronta com manual de usuário desde nossas primeiras encarnações no reino hominal. É algo a ser conquistado e desenvolvido ao longo do caminho evolutivo. O sucesso dessa aprendizagem que, em termos simples, se traduz na conquista da felicidade e na expansão moral e intelectual do espírito, é lento, muito lento e permeado de desafios. Mas está assegurado pelo germe divino plantado em nosso espírito.

Vale notar que o alpinista não quer ser transportado para o cume da montanha. Ele quer galgá-la, superar gradualmente seus desafios com inteligência, audácia e perseverança. Da completa simplicidade e ignorância ao atual estágio que nos encontramos hoje foi um longo caminho. Um caminho tortuoso repleto de desafios que gradualmente foram aprimorando nossa capacidade de julgamento e entendimento. Capacidade esta ainda muito longe de nos permitir escolhas completamente seguras e lúcidas das melhores ações que nos conduzam a um futuro melhor. Seria temerário afirmarmos, hoje, a posse de virtudes que mal começamos a compreender. Mas já estamos em condição de perceber que a Grandeza do Criador não está em punir ações equivocadas simplesmente porque não há ações equivocadas, apenas ações que precisam de permanente aprimoramento. Além disto, que lógica haveria no Criador infinitamente perfeito punir Sua criatura em processo de aprendizagem, sujeita a cometer todos os erros previstos pelo Criador no Seu Perfeito Plano pedagógico. Como bem colocado por Paulo de Tarso, “Nada é proibido, mas nem tudo convém”. A conveniência ou não das coisas é o motor da evolução do espírito. Não há carma nem lei de causa e efeito nem muito menos lei de ação e reação. Essas crenças são resquícios de ideias religiosas ultrapassadas, ainda presas ao antigo conceito de um Deus juiz a prescrever as penas do inferno para quem erra e as recompensas do paraíso para quem acerta. Se quisermos acreditar em um Deus infinitamente justo, bom e perfeito, temos que afastar de uma vez por todas a ideia de punição e resgate de erros passados. Isso não tem lógica. O sofrimento do espírito não é causado por erros, mas por ignorância e imperfeições. O sofrimento é um instrumento pedagógico. É como uma bússola que o espírito precisa aprender a usar. O alpinista, em sua escalada para atingir o pico da montanha, escorrega e cai muitas vezes. Mas não desiste e segue em frente. A cada escorregão e queda aprende o que deve e o que não deve fazer para seguir em frente em direção ao cume da montanha. Assim caminha o espírito. Somos todos alpinistas escalando a mais bela e mais alta de todas as montanhas. A montanha da vida. Precisamos mudar nossa perspectiva de bem e de mal. Por pior que seja, a nosso ver, um indivíduo brutalizado, inclinado a prejudicar o próximo, e a sociedade como um todo, cometendo friamente as maiores atrocidades, temos que admitir que se trata de uma criação Divina em processo de aprendizagem. Claro que não é fácil digerir isso. Quem foi que disse que evoluir seria fácil? Mas precisamos nos lembrar de Jesus que não colocava barreiras entre si e os bandidos, as prostitutas, os soldados e todos os demais elementos da sociedade. Em seu último suspiro na cruz deu-nos o seu maior testemunho de que somos todos ainda muito ignorantes em busca de conhecimento e felicidade– “Perdoai-os, Pai. Eles não sabem o que fazem”.

Nesta altura, alguns poderão protestar de forma muito justa que, vários autores e palestrantes conceituados usam a terminologia, “ação e reação”, “carma” e “causa e efeito” como sinônimos. Como explicar isso? Falta de conhecimentos? Falta de estudo? Má fé?

É complicado julgar as pessoas pelo uso de determinadas palavras em determinados contextos. É uma situação muito subjetiva que tem a ver não apenas com conhecimento, mas também com a intenção e esforço para se fazer entender. Como visto acima, falar sobre a justiça Divina por meio de uma ou duas palavras concisas não é tão simples assim. Nossa cultura está há muitos séculos sob o império de dogmas e conceitos distorcidos a respeito de Deus e do destino dos espíritos. A mudança de perspectiva é lenta. Talvez por isso muitos prefiram usar um termo já popularizado, mesmo que inexato. Não se deve desqualificar o trabalho das pessoas por conta de erros que estão mais para um vício de linguagem e de costumes arraigados que para falta de conhecimento e muito menos má-fé. Não há porque desmerecer e não respeitar o trabalho de vários autores e palestrantes porque mostram esses vícios de linguagem. Há que se compreender que as qualidades de muitas obras podem ser muito maiores que seus eventuais defeitos.

Mas está na hora do movimento espírita atentar mais seriamente para as obras da codificação. Está na hora do movimento espírita se conscientizar que Kardec ainda precisa ser muito melhor estudado e conhecido. Não tem mais cabimento continuarmos enxertando conceitos e novidades estranhas à doutrina. Uma doutrina que, sejamos honestos, ainda temos muito que aprender. A leitura e estudo do evangelho segundo espiritismo jamais será proveitosa e completa enquanto o estudante espírita se limitar a esse livro apenas. Mesmo as obras ditas complementares ou subsidiárias, como as de André Luiz e Emmanuel dentre várias outras, só poderão ser apreciadas, de fato, depois de havermos estudado muito bem Kardec.

Basta de ideias e expressões distorcidas agregadas ao espiritismo como se fossem inovações necessárias. Basta de “carma”, “ação e reação”, “corpo astral”, “kundaline”, “chakras” etc… etc… Está na hora do movimento espírita perceber que, com o devido respeito, as terminologias importadas ficam muito melhor nas respectivas doutrinas originais. São desnecessárias e até inadequadas ao espiritismo.

Se quisermos que o espiritismo seja respeitado como filosofia moral aliada à ciência e abrigo de uma vivência religiosa verdadeiramente cristã, bem como mediador de um diálogo inter-religioso despido de preconceitos, façamos dele o que propôs Kardec. Qualquer coisa diferente com enxertos indevidos só nos jogará no descrédito. Conduzirá o espiritismo a um movimento sem identidade. Em lugar de uma fé raciocinada, estaremos oferecendo apenas misticismo e modismos sem base.

O espiritismo não precisa de revisão, inovação ou acréscimo de conteúdos espúrios. O espiritismo precisa apenas ser melhor conhecido e estudado. Não basta crer em Deus e na reencarnação. É preciso entender o real significado e conexão disso tudo. Espiritismo sem estudo sério não é espiritismo, não edifica. É melhor procurar outro caminho.

Cesar Boschetti

Fonte: geae.net

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Sobre o Autor: – Cesar Boschetti

Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1978), mestrado em Eletrônica e Telecomunicações pelo INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1983) e doutorado em Engenharia Eletrônica e Computação pelo ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica (2000). É tecnologista sênior do INPE em São José dos Campos, SP. Tem experiência na área de Física da Matéria Condensada, com ênfase em compostos semicondutores IV-VI, técnicas de crescimento epitaxial de cristais semicondutores, tecnologia de alto-vácuo e fabricação e caracterização de dispositivos opto eletrônicos para o infravermelho. Foi coordenador geral do PCI/INPE – Programa de Capacitação Institucional do INPE de junho de 2009 a setembro de 2015. Foi chefe do Laboratório Associado de Sensores e Materiais – LABAS/COCTE/INPE e Coordenador Substituto da Coordenação de Laboratórios Associados – COCTE/INPE de outubro de 2016, quando se aposentou permanecendo em atividade na função até janeiro de 2019.

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A carne é fraca. Estudo fisiológico e moral

Allan Kardec

Esp.Per.Corp

Há inclinações viciosas que evidentemente são mais inerentes ao espírito, porque têm a ver mais com a moral do que com o físico; outras mais parecem consequência do organismo e, por este motivo, a gente se julga menos responsável. Tais são as predisposições à cólera, à moleza, à sensualidade, etc.

Está hoje perfeitamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os órgãos cerebrais correspondentes às diversas aptidões devem o seu desenvolvimento à atividade do espírito; que esse desenvolvimento é, assim, um efeito e não uma causa. Um homem não é músico porque tem a bossa da música, mas tem a bossa da música porque seu espírito é músico (Revista de julho de 1860 e abril de 1862).

Se a atividade do espírito reage sobre o cérebro, deve reagir igualmente sobre as outras partes do organismo. Assim, o espírito é o artífice de seu próprio corpo, por assim dizer, modela-o, a fim de apropriá-lo às suas necessidades e à manifestação de suas tendências. Assim sendo, a perfeição do corpo nas raças adiantadas seria o resultado do trabalho do espírito que aperfeiçoa o seu utensílio à medida que aumentam as suas faculdades. (A Gênese segundo o Espiritismo, cap. XI, Gênese Espiritual).

Por uma consequência natural desse princípio, as disposições morais do espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bile ou de outros fluidos. É assim, por exemplo, que o glutão sente vir a saliva, ou, como se diz vulgarmente, vir água à boca à vista de um prato apetitoso. Não é o alimento que pode superexcitar o órgão do paladar, pois não há contato; é, portanto, o espírito, cuja sensualidade é despertada, que age pelo pensamento sobre esse órgão, ao passo que, sobre um outro Espírito, a visão daquele prato nada produz. Dá-se o mesmo em todas as cobiças, todos os desejos provocados pela visão. A diversidade das emoções não pode ser compreendida, numa porção de casos, senão pela diversidade das qualidades do espírito. Tal é a razão pela qual uma pessoa sensível facilmente derrama lágrimas; não é a abundância das lágrimas que dá a sensibilidade ao espírito, mas a sensibilidade do espírito que provoca a abundante secreção de lágrimas. Sob o império da sensibilidade, o organismo modelou-se sob esta disposição normal do espírito, como se modelou sob a do espírito glutão.

Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um espírito irascível deve levar ao temperamento bilioso, de onde se segue que um homem não é colérico porque é bilioso, mas que é bilioso porque é colérico. Assim acontece com todas as outras disposições instintivas; um espírito mole e indolente deixará o seu organismo num estado de atonia em relação com o seu caráter, ao passo que, se ele for ativo e enérgico, dará ao seu sangue, aos seus nervos, qualidades bem diferentes. A ação do espírito sobre o físico é de tal modo evidente, que por vezes se veem graves desordens orgânicas produzidas por efeito de violentas comoções morais. A expressão vulgar: A emoção lhe fez subir o sangue, não é assim despida de sentido quanto se podia crer. Ora, o que pôde alterar o sangue senão as disposições morais do espírito?

Este efeito é sensível sobretudo nas grandes dores, nas grandes alegrias, nos grandes pavores, cuja reação pode chegar a causar a morte. Vemos pessoas que morrem do medo de morrer. Ora, que relação existe entre o corpo do indivíduo e o objeto que causa pavor, objeto que, muitas vezes, não tem qualquer realidade? Diz-se que é o efeito da imaginação; seja, mas o que é a imaginação senão um atributo, um modo de sensibilidade do espírito? Parece difícil atribuir a imaginação aos músculos e aos nervos, pois então não compreenderíamos por que esses músculos e esses nervos não têm imaginação sempre; por que não a têm após a morte; por que o que nuns causa um pavor mortal, noutros excita a coragem.

Seja qual for a sutileza que usemos para explicar os fenômenos morais exclusivamente pelas propriedades da matéria, cairemos inevitavelmente num impasse, no fundo do qual se percebe, com toda a evidência, e como única solução possível, o ser espiritual independente, para quem o organismo não é senão um meio de manifestação, como o piano é o instrumento das manifestações do pensamento do músico. Assim como o músico afina o seu piano, pode-se dizer que o Espírito afina o seu corpo para pô-lo no diapasão de suas disposições morais.

É verdadeiramente curioso ver o materialismo falar incessantemente da necessidade de elevar a dignidade do homem, quando se esforça por reduzi-lo a um pedaço de carne que apodrece e desaparece sem deixar nenhum vestígio; de reivindicar para ele a liberdade como um direito natural, quando faz dele um mecanismo, marchando como um boneco, sem responsabilidade por seus atos.

Com o ser espiritual independente, preexistente e sobrevivente ao corpo, a responsabilidade é absoluta. Ora, para a maioria, o primeiro, o principal móvel da crença no niilismo, é o pavor que causa essa responsabilidade, fora da lei humana, e à qual crê escapar fechando os olhos. Até hoje essa responsabilidade nada tinha de bem definido; não era senão um medo vago, fundado, há que reconhecer, em crenças nem sempre admissíveis pela razão. O Espiritismo a demonstra como uma realidade patente, efetiva, sem restrição, como uma consequência natural da espiritualidade do ser. Eis por que certas pessoas temem o Espiritismo, que as perturbaria em sua quietude, erguendo à sua frente o temível tribunal do futuro. Provar que o homem é responsável por todos os seus atos é provar a sua liberdade de ação, e provar a sua liberdade é revelar a sua dignidade. A perspectiva da responsabilidade fora da lei humana é o mais poderoso elemento moralizador: é o objetivo ao qual conduz o Espiritismo pela força das coisas.

Portanto, conforme as observações fisiológicas que precedem, podemos admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do espírito, que é causa e não efeito. Dizemos em parte, porque há casos em que o físico evidentemente influi sobre o moral: é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa externa, acidental, independente do espírito, como a temperatura, o clima, os vícios hereditários de constituição, um mal-estar passageiro, etc. O moral do Espírito pode, então, ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico, sem que sua natureza intrínseca seja modificada.

Escusar-se de suas más ações com a fraqueza da carne não é senão um subterfúgio para eximir-se da responsabilidade. A carne não é fraca senão porque o espírito é fraco, o que derruba a questão e deixa ao espírito a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, que não tem nem pensamento nem vontade, jamais prevalece sobre o Espírito, que é o ser pensante e voluntarioso. É o espírito que dá à carne as qualidades correspondentes aos instintos, como um artista imprime à sua obra material o cunho de seu gênio. Liberto dos instintos da bestialidade, o espírito modela um corpo que não é mais um tirano para as suas aspirações à espiritualidade de seu ser; então o homem come para viver, porque viver é uma necessidade, mas não vive para comer.

A responsabilidade moral dos atos da vida, portanto, permanece íntegra. Mas, diz a razão que as consequências dessa responsabilidade devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito, pois quanto mais esclarecido ele for, menos escusável será, porque, com a inteligência e o senso moral, nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto. O selvagem, ainda vizinho da animalidade, que cede ao instinto do animal, comendo o seu semelhante, é, sem contradita, menos culpável que o homem civilizado que comete uma simples injustiça.

Esta lei ainda encontra sua aplicação na Medicina e dá a razão do seu insucesso em certos casos. Considerando-se que o temperamento é um efeito, e não uma causa, os esforços tentados para modificá-lo podem ser paralisados pelas disposições morais do espírito que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação terapêutica. É, pois, sobre a causa primeira que devemos agir; se se consegue mudar as disposições morais do espírito, o temperamento modificar-se-á por si mesmo, sob o império de uma vontade diferente ou, pelo menos, a ação do tratamento médico será ajudada, em vez de ser tolhida. Se possível, dai coragem ao poltrão, e vereis cessarem os efeitos fisiológicos do medo. Dá-se o mesmo com as outras disposições.

Mas, perguntarão, pode o médico do corpo fazer-se médico da alma? Está em suas atribuições fazer-se moralizador de seus doentes? Sim, sem dúvida, em certos limites; é mesmo um dever que um bom médico jamais negligencia, desde o instante que vê no estado da alma um obstáculo ao restabelecimento da saúde do corpo. O essencial é aplicar o remédio moral com tato, prudência e convenientemente, conforme as circunstâncias. Deste ponto de vista, sua ação é forçosamente circunscrita, porque, além de ele ter sobre o seu doente apenas uma ascendência moral, em certa idade é difícil uma transformação do caráter. É, pois, à educação, e sobretudo à primeira educação, que incumbem os cuidados dessa natureza. Quando a educação, desde o berço, for dirigida nesse sentido; quando nos aplicarmos em abafar, em seus germes, as imperfeições morais, como fazemos com as imperfeições físicas, o médico não mais encontrará no temperamento um obstáculo contra o qual a sua ciência muitas vezes é impotente.

Como se vê, é todo um estudo, mas um estudo completamente estéril, enquanto não levarmos em conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo. Participação incessantemente ativa do elemento espiritual nos fenômenos da vida, tal é a chave da maior parte dos problemas contra os quais se choca a Ciência. Quando ela levar em consideração a ação desse princípio, verá abrir-se à sua frente horizontes completamente novos. É a demonstração desta verdade que o Espiritismo traz.

Fonte: Revista Espírita, Ano XII, V. 03, março de 1869

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A Obesidade mental

Ricardo Di Bernardi

Ao contrário do que a designação “obesidade mental” possa sugerir, não trataremos aqui do aspecto do ganho de peso excessivo causado por questões emocionais, mas adotaremos a expressão “obesidade mental ” para enfocar o excesso de volume ou “gordura desnecessária” de dados armazenados pelo nosso psiquismo.

Uma questão se impõe nos dias de hoje: o excesso de informações poderia trazer prejuízos ao nosso psiquismo e a nossa espiritualização?

Sim, quando se fala em excesso, não há dúvida que o agressivo volume de informações, quando nos impacta e nos impregna, torna-se acúmulo de dados que não conseguimos processar de forma organizada e psiquicamente saudável. São partículas ou ondas de informação que promovem em cada um de nós um fenômeno totalmente específico, pois cada um reage de forma diferente.

O excesso de informações cria reservas de energia em nossa intimidade psíquica, nosso inconsciente, e essas reservas pulsam, gerando campos vibratórios em nossa mente com consequências imprevisíveis para cada pessoa.  Este volume de campos energéticos armazenados seria a obesidade mental”.

Atualmente, estamos sujeitos ao bombardeio energético de informações através da internet, TV, telefone celular e outros veículos de informações. Cumpre a nós o bom senso de não nos alienarmos da vida moderna, não nos isolarmos, mas convivermos de forma equilibrada com a tecnologia.

Em qualquer forma de obesidade, mais importante do que o tratamento seria a profilaxia, ou seja, adotarmos um conjunto de medidas preventivas.

A medida preventiva mais eficaz seria, sem dúvida, uma dieta adequada. A dieta que sugerimos teria itens na prescrição. Analogamente à dieta preventiva da obesidade física, onde a redução de determinados alimentos, tais como carboidratos é recomendável, além da diminuição do volume de todos os alimentos, deve-se adotar na “obesidade mental ” uma dieta psíquica. Esta dieta psíquica prescreve, inicialmente, a redução quantitativa de estímulos mentais como primeiro item de orientação médica.

Assim, já nos deparamos com jovens que, simultaneamente, veem TV, digitam o teclado do computador, conversam com a pessoa ao seu lado, observam pela janela o que ocorre lá fora e pasmem: atendem o celular ou mantem um fone de ouvido… Caberia muito bem, neste caso, uma boa dieta. Uma redução na “ingestão” de alimentos psíquicos, montar um prato com uma montanha menor de alimentos psíquicos.

O segundo item da nossa prescrição seria, além da dieta quantitativa, uma dieta qualitativa. Da mesma forma como,  na obesidade física, recomendamos reduzir a ingestão de carboidratos, e aumentar a ingestão de alimentos ricos em  vitaminas,  seria, de fundamental importância, selecionarmos os programas, adequar o gênero de informações que estamos captando, inúmeras vezes ao dia, de forma repetida, ( insisto: sistematicamente repetida), e preenchermos parte deste tempo com leitura, música suave e contato com a natureza.

O último item da nossa prescrição constaria de uma transfusão, não uma transfusão sanguínea, mas uma transfusão de energia afetiva, social e familiar. O amor é fundamental em nossas vidas.

Dr. Ricardo Di Bernardi é médico pediatra, homeopata. Fundador e presidente do ICEF em Florianópolis. Autor de vários livros entre eles – Gestação Sublime intercâmbio.

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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