Resignação Espírita

José Herculano Pires, 1915-1979

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Uma das acusações que se fazem ao Espiritismo é a de levar o homem ao conformismo. “Os espíritas se conformam com tudo, – escrevem-nos – e dessa maneira acabarão impedindo o progresso, criando entre nós um clima de marasmo, favorável às tiranias políticas do Oriente. A idéia da reencarnação é o caldo de cultura do despotismo, pois as massas crentes se entregam a qualquer jugo.”

Muitos confundem a resignação espírita com o conformismo religioso. Mas, contraditoriamente, acusam o Espiritismo e não acusam as religiões. Por outro lado, tiram conclusões teóricas de fatos que podem ser observados na prática. A idéia da reencarnação não é nova, não nasceu com o Espiritismo, e não precisamos teorizar a respeito, pois temos toda a história da humanidade ante os olhos, para nos mostrar praticamente os seus efeitos.

Vamos, entretanto, por ordem. E tratemos, primeiro, da resignação e do conformismo. A resignação espírita decorre, não de uma sujeição místico-religiosa a forças incontroláveis, mas de uma compreensão do problema da vida. Quando o espírita se resigna, não está se submetendo pelo medo, mas apenas aceitando uma realidade à qual terá de sujeitar, exatamente para superá-la, para vencê-la. Não é, pois, o conformismo que se manifesta nessa resignação, mas a inteligente compreensão de que a vida é um processo em desenvolvimento, dentro do qual o homem tem de se equilibrar.

Acaso não é assim que fazemos todos, espíritas e não-espíritas, em nossa vida diária? O leitor inconformado não é também obrigado, diariamente, a aceitar uma porção de coisas a que gostaria de furtar-se? Mas a diferença entre resignação ou aceitação, de um lado, e conformismo, de outro, é que a primeira atitude é ativa e consciente, enquanto a segunda é passiva e inconsciente. O Espiritismo nos ensina a aceitar a realidade para vencê-la.

“Se a doença o acossa, – dizem – o espírita entende que está sendo vítima do fatalismo cármico, do destino irrevogável. Se a morte lhe rouba um ente querido, ele acha que não deve chorar, mas agradecer a Deus. Se o patrão o pune, ele se submete; se o amigo o trai, ele perdoa; se o inimigo lhe bate na face esquerda, ele lhe oferece a direita. O Espiritismo é a doutrina da despersonalização humana.”

Mas acontece que essa despersonalização não é ensinada pelo Espiritismo, e sim pelo Cristianismo. Quando o Espiritismo ensina a conformação diante da doença e da morte, o perdão das ofensas e das traições, nada mais está fazendo do que repetir as lições evangélicas. Ora, como o leitor acusa o Espiritismo em nome do Cristianismo, é evidente que está em contradição. Além disso, convém esclarecer que não se trata de despersonalização, mas de sublimação da personalidade. O que o Cristianismo e o Espiritismo querem é que o homem egoísta, brutal, carnal, agressivo, animalesco, seja substituído pelo homem espiritual. A “personalidade” animal deve dar lugar à verdadeira personalidade humana.

Quanto ao caso das doenças, seria oportuno lembrar ao leitor as curas espíritas. Não chega isso para mostrar que não há fatalismo cármico? O que há é a compreensão de que a doença tem o seu papel na vida humana. Mas cabe ao homem, nesse terreno, como em todos os demais, lutar para vencê-la. O Espiritismo, longe de ser uma doutrina conformista, é uma doutrina de luta. O espírita luta incessantemente, dia e noite, para superar o mundo e superar-se a si mesmo. Conhecendo, porém, o processo da vida e as suas exigências, não se atira cegamente à luta, mas procurando realizá-la com inteligência, num constante equilíbrio entre as suas forças e o poder dos obstáculos.

Espiritualidade e Sociedade

Fonte: (as crônicas do irmão Saulo)

Editora Espírita Correio Fraterno do ABC

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Ocupações e Missões dos Espíritos

Julia Thaís Porciúncula Serra

Todos os Espíritos, encarnados e desencarnados, têm missões e ocupações para cumprir, sempre em prol de fazer o bem e com o objetivo de se aperfeiçoar, tanto para si mesmo quanto para a Humanidade, sempre em busca do desenvolvimento e da evolução. As missões e ocupações que são postas variam de Espírito para Espírito e também do que for preciso para o mesmo poder se desenvolver.

Nem todos as ocupações e missões são dadas como punições ou castigos, mas para que cada Espírito consiga desempenhar todas as funções e ver no que pode ser melhor trabalhando para ajudar de forma contínua. Em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, Capitulo X, que fala exatamente Das Ocupações e Missões Dos Espíritos, ele responde perguntas que podem nos ajudar a compreender melhor como é feita as atribuições a cada Espírito:

558. Os Espíritos têm outra coisa a fazer além do aperfeiçoamento pessoal?

“Eles cooperam para a harmonia do Universo executando as vontades de Deus, de quem são ministros. A vida espírita é uma ocupação contínua, mas que nada tem de penosa, como acontece na vida terrena, porque não há a fadiga corporal, nem as angústias da necessidade” (KARDEC, 2018, p. 196).

559. Os Espíritos inferiores e imperfeitos também cumprem um papel útil no Universo?

“Todos têm deveres a cumprir. O menos qualificado dos pedreiros não contribui para construir o edifício tanto quanto o arquiteto?” (KARDEC, 2018, p. 196).

560. Os Espíritos têm, cada um, atribuições específicas?

“Melhor dizendo, todos nós devemos habitar todos os lugares e adquirir o conhecimento de todas as coisas, presidindo sucessivamente todas as partes do Universo. No entanto, como é dito em Eclesiastes, há um tempo para tudo. Assim, certo indivíduo hoje cumpre seu destino neste mundo, outro o cumprirá ou cumpriu num outro tempo, na Terra, na água, no ar etc” (KARDEC, 2018, p. 196).

Fica claro que todos no Plano Espiritual recebem ordens e ocupações, seja de forma principal ou auxiliando, mas todas tendo o objetivo de desenvolvimento pessoal e espiritual, sempre. Mesmo tendo repouso absoluto, o Espírito continua desenvolvendo seu trabalho e transmitindo suas ocupações para o universo com o intuito de auxiliar, além de passar adiante seus ensinamentos. De acordo com a realização da tarefa proposta, se o Espírito se adaptar melhor em determinada atividade e gostar, poderá ter um trabalho prolongado nessa tarefa por concluí-la muito bem.

569. Em que consistem as missões das quais os Espíritos errantes podem ser encarregados?

“São tão variadas que seria impossível descrevê-las. Aliás, existem algumas que não podeis compreender. Os Espíritos executam as vontades de Deus, e não podeis penetrar todos os seus desígnios” (KARDEC, 2018, p. 198).

As missões dos Espíritos têm sempre o bem por objeto. Seja como Espírito, seja como homens, são encarregados de ajudar no progresso da humanidade, de povos ou de indivíduos, num círculo mais ou menos amplo de ideias – menos ou mais especializadas -, além de preparar o caminho para certos acontecimentos e de velar pelo cumprimento de certas coisas. Alguns têm missões mais restritas e, de certa forma, pessoais ou inteiramente locais, como dar assistência aos doentes, aos agonizantes, aos aflitos, velar por aqueles dos quais se tornam guias e protetores, e dirigi-los por meio de seus conselhos ou dos bons pensamentos que lhes sugerem. Pode-se dizer que há tantos gêneros de missões quantos são os tipos de interesses a resguardar, tanto no mundo físico como no mundo moral. O Espírito se adianta conforme a maneira que realiza sua tarefa (KARDEC, 2018, p. 198).

Os Espíritos a quem são atribuídas missões mais restritas, pessoais ou locais, é devido a sua necessidade de contribuir para aquele trabalho. É um trabalho específico para um Espírito específico, com o intuito de lhe aperfeiçoar e desenvolver tal missão. Ainda em O Livro dos Espíritos, é perguntado se todas as atribuições são permanentes a cada espírito:

561. As funções que os Espíritos desempenham na ordem das coisas são permanentes para cada um deles, e são atribuições exclusivas de certas classes?

“Todos têm que percorrer os diferentes graus da escala para se aperfeiçoar. Deus, que é justo, não poderia ter dado a ciência a uns sem trabalho, enquanto outros só a adquirem com esforço” (KARDEC, 2018, p. 196).

Kardec ainda completa que:

“O mesmo se dá com os homens: nenhum atinge o mais alto grau de habilidade, numa arte qualquer, sem ter adquirido, na prática das especialidades mais ínfimas dessa arte, os conhecimentos necessários” (KARDEC, 2018, p. 196).

Aos Espíritos que são considerados de má índole, ou que fizeram mal de alguma forma para a humanidade, e os Espíritos considerados preguiçosos, também recebem missões e ocupações, sempre em prol do desenvolvimento de si mesmo, mas também, com o intuito de aprendizagem para que o mesmo se importe e ajude a melhorar a humanidade. De acordo com as perguntas abaixo:

563 a. Isso é concebível para os Espíritos bons, mas acontece o mesmo com os Espíritos inferiores?

“Os Espíritos inferiores têm ocupações apropriadas à sua natureza. Confiais ao trabalhador braçal e ao ignorante os trabalhos de um homem culto?” (KARDEC, 2018, p. 197).

564. Entre os Espíritos, há os que são ociosos, ou que não se ocupam de nenhuma coisa útil?

Sim, mas esse estado é temporário e subordinado ao desenvolvimento de sua inteligência. Certamente há, como entre os homens, aqueles que só vivem para si mesmos. Mas essa ociosidade lhes pesa e, cedo ou tarde, o desejo de avançar faz com que sinta a necessidade da atividade, e ficam contentes em poder tornar-se úteis. Estamos nos referindo a Espíritos que chegaram a ponto de ter a consciência de si mesmos ou de seu livre-arbítrio; pois, em sua origem, os Espíritos são como crianças que acabam de nascer e que agem mais por instinto que por uma vontade determinada” (KARDEC, 2018, p. 197).

568. Os Espíritos que têm missões a cumprir, cumprem-nas em estado errante ou encarnado?

“Podem cumpri-las em ambos os estados. Para determinados Espíritos errantes, ter uma missão dessas é uma grande ocupação” (KARDEC, 2018, p. 198).

Dessa forma, visto que ninguém é perfeito, com trabalhos constantes, todos os Espíritos permanecem em desenvolvimento com cada atribuição que lhe é designada, sempre em busca da evolução. Vale lembrar que missões e ocupações específicas acontecem ao Espírito que é encarregado, para que tenha um desenvolvimento pessoal, entretanto, missões e ocupações são para todos os Espíritos, encarnados e desencarnados, com o objetivo de desenvolvimento e aperfeiçoamento para si e para a Humanidade.

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIA

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, tradução de Matheus R. Camargo. Editora EME: Capivari/SP. 2018.

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A FUNÇÃO DA CASA ESPÍRITA

Nena Galves analisa o movimento espírita na virada de 2020

Por Eliana Haddad

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Aos 92 anos de idade, Nena Galves já assistiu muita coisa em matéria de movimento espírita. Ao lado de Chico Xavier, Nena e Francisco Galves conviveram por décadas pelos estreitos laços de amizade, testemunhando momentos marcantes da história do espiritismo no Brasil, como o programa Pinga-Fogo, na tv Tupi, em 1971. Convidada a fazer um balanço sobre mais uma década de movimento espírita, Nena Galves nos concedeu esta entrevista, com toda sua franqueza e transparência.

Mais uma década se vai. Como a senhora analisa esse tempo que passou e o que espera da nova década que se inicia?

Perante o mundo espiritual uma década são frações segundos, porque somos imortais. Não mantenho expectativas de grandes mudanças, porque o progresso é lento. Nós nos perdemos nos atalhos da existência e o tempo passa sem que percebamos que a oportunidade da encarnação muitas vezes está sendo mal aproveitada, no meio da comunicação rápida, do momento que se esvai, das coisas descartáveis. Quanto ainda malbaratamos o tempo, que é um tesouro para a transformação espiritual! Quantas mudanças deixamos de fazer por estarmos apegados a problemas do passado ou a preocupações com o futuro e deixamos de investir no nosso aprendizado de agora.

Qual o papel do legado de Jesus na passagem do tempo?

Jesus viveu 33 anos. Não tinha os meios de comunicação que temos hoje. Desses 33, teve 3, 4 anos de pregação e fez tanto! E nós, nesse tempo que vivemos, quanto fizemos? O legado de Jesus estava baseado na humanidade e a nossa comunicação atual, no desafio do mundo moderno, não está voltada ao homem, mas às coisas, ao material. E a gente se perde muito mais querendo ter do que ser.

Como a senhora vê a atuação do movimento espírita frente às atuais dores humanas?

O espírita está fazendo o que pode, mas como todos, está também muito apegado com as conquistas materiais. Veja que quase não fundamos mais casas espíritas para acolher e esclarecer os que sofrem. E espiritismo sem centro espírita é o mesmo que doente sem pronto-socorro.

Sem muitas casas espíritas não vão adiantar tantos congressos, encontros, simpósios, viagens ao exterior para palestras, porque a dor, a emergência, não espera. A casa espírita é a representação do verdadeiro legado de Jesus. Você tem que estar lá, pronto para dar o consolo, o seu principal papel. É isso que Kardec nos pedia.

Estamos conseguindo levar adiante o Consolador Prometido?

Estamos fazendo muita força, mas ainda temos tanto a aprender e a oferecer! O tempo passa e precisa ser bem aproveitado. Também se exige muito de quem muito recebeu e o Consolador Prometido veio para quê? É claro que se deve esclarecer. Mas, se você não consola, não esclarece. Quando se tem muita dor, o raciocínio falta. Temos que primeiro ajudar a resolver o sofrimento para que se tenha coragem de continuar a vida e compreender os seus vários aspectos. Kardec nos mostrou que muito mais do que o fenômeno, importa o raciocínio lógico, o aprendizado do Cristo. Não o milagre. O aprendizado do amor é o nosso maior crescimento espiritual.

A senhora atende as mais variadas pessoas há mais de 50 anos, em entrevistas fraternas no Centro Espírita União. Vê mudança nas dores de hoje?

Antigamente as pessoas eram mais sofridas para a dor humana – a dor de perder um filho, a dor de perder o dinheiro, algo querido, a saúde. Hoje o sofrimento é outro. Os jovens aportam desesperados porque fracassaram nas profissões, porque erraram nas escolhas, porque não têm um meio de atendimento como eles esperam. Tanta comunicação e as pessoas se sentem sozinhas com seus sofrimentos! E muitas vezes também não sabemos o que dizer. Temos apenas que escutar. Os jovens não encontram o apoio para suas dores na família, porque os pais estão ocupados em ganhar dinheiro para lhes dar cada vez mais. Muitas vezes só vão perceber o sofrimento do filho depois que ele já foi adotado pelo traficante, já tentou o suicídio, entrou em depressão.

Como podemos enfrentar melhor os desafios da vida?

Há muitas queixas e precisamos treinar a ser fortes. Acreditar na vida, sabendo que ela tem, sim, suas amarguras, mas também momentos de alegria. É a nossa condição atual. Os desafios do mundo moderno chegaram muito depressa. Intelectualmente, o homem cresceu, o mundo tornou-se pequeno e nos foram escancaradas as portas do saber, da comunicação, da rapidez.

O desafio é que o homem se comunica cada vez mais e melhor com a máquina, mas não está sabendo se comunicar verdadeiramente com a essência humana, que sofre com tantas carências. A família não se comunica, os amigos pensam que estão juntos. Há um afastamento do ser humano e isso prejudica a nossa evolução moral. O espiritismo ensina que precisamos estar, até mesmo em confronto, de braços dados com o ser humano, transmitindo energia, conhecimento, trocando experiências, errando e acertando, exercendo a escuta fraterna, discutindo-se valores.

O que fazer?

Parar e pensar. Sair dessas atitudes mecânicas, ouvir o coração, prestar atenção nos sentimentos. Não é o mundo moderno que está errado. Nós é que não estamos sabendo conviver com ele. Há depressão, suicídio, ansiedade, medo e desespero quando perdemos os valores materiais que tanto investimos e amealhamos. Não estávamos preparados para esse mundo consumista e não nos conformamos de ficar de fora. Criamos a necessidade desses valores para viver.

O que a senhora orienta quando chega alguém se queixando de depressão?

Escuto com muita atenção para compreender como a parte espiritual pode ajudar. Isso depois da doença já haver sido diagnosticada, e a pessoa já estiver sendo tratada. Mas sempre pergunto: o que você perdeu? E logo se percebe o fio do novelo – ou perdeu alguém que amava, ou o emprego, o dinheiro, a saúde, a vida que tinha antes… enfim nosso orgulho se ressente quando nos sentimos perdedores. Como se tivéssemos apenas que ganhar em tudo, esquecendo-nos de que não viemos aqui a passeio, mas para aprendizados.

A senhora acha que as pessoas estão muito pessimistas?

Precisamos prestar melhor atenção às queixas e tentar descobrir as causas. O espírita ainda acha que para auxiliar é preciso fazer assistências, mas está esquecendo de priorizar o amparo espiritual. Está interpretando o legado de Jesus de maneira ingênua, sem perceber que pode aplicar melhor esse conhecimento tão grande que Kardec nos deu. Ele soube também enfrentar isso tudo na sua época. Foi um desafio a vida dele!

A senhora está dizendo que estamos acomodados, distraídos? Por que isso estaria acontecendo?

Porque o prazer e a glória falam mais alto que o conhecimento. O espiritismo é claro. Nós é que estamos obscurecidos por esses prazeres, pela nossa vaidade e incompreensão. É preciso pensar no tempo que já perdemos. Jesus atuou direto com o ser humano e nós estamos fugindo disto. Está faltando essa aproximação, porque se você prestar atenção nas grandes assembleias, nos vídeos, nos eventos, o ser humano é o último. Quem brilha é o orador, na maioria das vezes fazendo shows. E a doutrina, brilha? Não é só a ideia, é o exemplo. A casa espírita tem que funcionar lado a lado com o sofrimento, porque ela tem condições de ser o consolador prometido.

Quando vou a um lugar e pago, me sinto desobrigada e ainda exijo. Mas se eu recebo de graça eu me doo, eu trabalho, eu agradeço, eu cresço espiritualmente. A doutrina espírita está avançando muito lentamente, porque está fugindo da ideia principal a que veio.

Mas a senhora não acha que todos esses eventos, em áreas tão diversas, estão levando as ideias espíritas?

Levam a ideia, mas se ficam só na ideia, sem a ação, e não compreendem as dores, não vão consolar o coração. A ideia se perde. Você pode ter a ideia de um projeto, mas se não entrar a ação do trabalhador, você não levanta a casa.

As casas espíritas estão buscando especialistas para palestras sobre depressão, ansiedade. Que instrumentos de consolo teríamos dentro do espiritismo para os que nos procuram?

O espiritismo não faz milagres. É a mudança do ser humano que faz com que ele melhore. E é isso que devemos incentivar: a conscientização sobre a existência do lado espiritual da vida, o imenso valor do trabalho do autoconhecimento e a esperança de dias melhores. A psicologia é o estudo da alma. O espiritismo tem a obrigação de estudar e compreender a alma para poder levar o socorro a quem sofre. Se o psicólogo, o psiquiatra, o médico ou o especialista, sem cobrar, tiver a postura de olhar olho no olho das pessoas que o assistem em uma palestra no centro e sentir que estão sofrendo, ele estará preparado para falar sobre as dores humanas em seu sentido espiritual. No consultório, o especialista leva o conhecimento acadêmico; na casa espírita, ele  deve levar o coração, o sentimento.

O que a senhora diria aos jovens, que têm se afastado das casas espíritas?

A linguagem do amor é uma só: acolhimento e exemplo. Também existe a questão de maturidade espiritual; muitas vezes uma criança entende muito mais uma mensagem do que um adulto que não sai das primeiras fileiras das palestras na casa. A vida se resume em 50, 60, 70 anos. O jovem tem que realmente lutar, trabalhar, fazer. E não facilmente vai alcançar o sucesso só porque saiu da faculdade. Mas ele hoje é apressado; não quer esperar. Quer rapidamente ter muito dinheiro, viajar todo ano, ter o melhor carro, ser influente. A vida não é assim.

Acabam não vivendo as etapas necessárias para o amadurecimento e realização. Precipitam-se, tendo como meta a conquista material, que acaba e não preenche o vazio.

Nunca houve tão cedo a prática do sexo, porque é angustiante demais para o jovem esperar. E amar é também esperar. O jovem precisa da experiência do mais velho. Estamos dando a ele essa experiência, estamos sendo humildes o suficiente para perceber que também precisamos aprender com o jovem? Estamos vivendo numa sociedade repartida, sem aproveitarmos as experiências uns dos outros. Assim, não se criam laços fortes de confiança, de respeito.

O que fazer para se manter atualizado, a senhora que tem 92 anos…

O trabalho. Eu vou ao centro quatro vezes por semana. E, quando me sento à mesa, enquanto o palestrante fala, eu olho no olho de cada um na plateia para ver como as pessoas estão. Eu conheço os problemas de todos. Se você se afasta da casa espírita, você não cresce no contato. Fica longe dos que te ouvem e não fala a mesma língua.

Qual a mensagem para 2020?

Que possamos ser mais fraternos com os companheiros. Brigar menos, atacar menos, falar menos e trabalhar mais. Que possamos estar atentos à capacidade que temos de desenvolver e multiplicar nossos talentos. Que o tempo não se perca em coisas bobas e que tenhamos sempre Jesus como o maior exemplo de investimento. Ele foi um bom investidor nas ideias do Pai.

Fonte: correio.news

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A matéria obscura do materialismo

Escrito por Cesar Boschetti

a materia obscura do materialismo

“É de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o quê, sua opinião não tem valor. Para combater um cálculo é necessário opor-se-lhe outro cálculo, o que exige saber calcular. O crítico não se deve limitar a dizer que tal coisa é boa ou má; é preciso que justifique a opinião por uma demonstração clara e categórica, baseada sobre os princípios da arte ou ciência a que pertence o objeto da crítica. Como poderá fazê-lo, quando não conhecer esses princípios?”(O que é o espiritismo – Allan Kardec)

Ainda nessa obra, Kardec acrescenta o seguinte em relação à crítica:

“…em sua acepção própria e segundo a etimologia, ela significa julgar, apreciar. A crítica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa. Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo; quem empreende essa tarefa, deve fazê-lo sem ideias preconcebidas; porém, se antes de abrir o livro, já o condena em pensamento, o exame não pode ser imparcial.”

Essas colocações de Kardec ocorreram em seu diálogo com o crítico que pretendia criticar, no sentido de censurar, e não de apreciar, o espiritismo, baseado apenas no acompanhamento de uma ou duas reuniões. Percebe-se, contudo, que o que disse Kardec tem ampla aplicação em todos os setores das atividades humanas.

Kardec foi um grande crítico do materialismo de sua época. Mas precisamos atentar com muito cuidado qual era a compreensão do materialismo à época de Kardec. Como era a Paris de Kardec. Que movimentos sociais, políticos, filosóficos e científicos estavam em curso na França e no mundo daquela época. Sem um mínimo de exame desse contexto, caímos no achismo. Caímos no erro da opinião preconceituosa sobre algo que não temos mais que um mero vislumbre. E tanto faz qual seja essa opinião. Contra ou a favor será sempre uma opinião desqualificada. Será sempre uma opinião que, em lugar de alargar os horizontes da filosofia espírita, acaba promovendo o contrário.

Não sei se estou à altura dos requisitos de conhecimento de causa prescritos por Kardec, sou um simples aprendiz, mas consegui reunir algumas informações que julgo apropriado compartilhar.

A França do século XIX era um dos principais centros da cultura europeia e mundial. Paris era uma espécie de capital do mundo ocidental. Tudo que era importante na cultura, na filosofia, na política, na ciência e na economia tinha como um dos principais polos, senão o principal, Paris. E não era para menos. O iluminismo, uma revolução do pensamento, sobretudo na política, na filosofia e na economia, iniciado na Europa do século XVIII, ganhou grande expressão na França com Diderot, Rousseau e Voltaire, este último, um dos principais inspiradores da revolução francesa de 1789. Esse evento foi um marco na história da humanidade. Pôs fim à monarquia absolutista, depondo e decapitando Luis XVI e instituindo a primeira república francesa. Algo inédito na história. O iluminismo francês teve profunda repercussão no mundo. Inspirou a independência Americana, inclusive, com a França apoiando com tropas a guerra de independência dos Estados Unidos contra a Inglaterra. A inconfidência Mineira, aqui no Brasil, também teve inspiração iluminista. Até a distante Rússia sofreu grande influência francesa. As obras de Dostoiévski e Tolstoi, dois gigantes russos da literatura mundial, têm seus romances fartamente recheados de dizeres e reflexões franceses. Mas a revolução francesa não foi exatamente o fim de uma era. O século XIX que se seguiu foi um período dos mais complexos e tumultuados da história da França e da Europa. Foi um período recheado de revoluções, conflitos, crises, guerras, avanços e retrocessos sociais e políticos. Só para ilustrar houve em 1830 uma nova revolução de importância e impacto similar à do final do século XVIII. Também em 1848 e em 1872 duas outras revoluções com impacto por toda a Europa. Isso tudo permeado por ondas de desemprego e uma epidemia de cólera em 1832. Sem falar na guerra franco prussiana de 1870 que resultou na derrota de Napoleão III, sua queda e a instituição da terceira república francesa. Além da derrota, a França saiu do conflito com enormes prejuízos financeiros e geopolíticos como a unificação da Alemanha, por exemplo. Não podemos esquecer que o século XIX foi também um período de grandes avanços científicos e tecnológicos em quase todas as áreas do conhecimento, sendo marcado principalmente pela segunda revolução industrial na metade do século. Todo esse complexo conjunto de fatores, nos autoriza supor que a escolha da França como berço do espiritismo não foi algo feito às pressas sem qualquer planejamento.

Evidentemente, Kardec não deveria estar imune a todas essas circunstâncias sociais, políticas e econômicas que afetavam a vida de toda a sociedade francesa. É difícil, senão impossível, avaliar o quanto e de que forma, eventos externos tiveram influência sobre Kardec, sobre os médiuns e até sobre as orientações dos espíritos superiores. O que é importante notar é que o espiritismo não é uma filosofia dogmática, engessada em seu contexto histórico. O espiritismo foi estruturado como uma filosofia dinâmica, aberta às novas ideias, sem contudo sacrificar seus princípios fundamentais. Sua origem em uma França tumultuada por revoluções sociais, políticas e filosóficas, quase certo, não foi algo fortuito desconexo da realidade do ser humano. E se o espiritismo não vingou na França pós Kardec, não parece ter sido por conta de conflitos, pois ele nasceu em meio aos conflitos. É importante pesar todos esses fatores se quisermos obter uma compreensão mais ampla da filosofia espírita e vivenciar uma experiência de fé raciocinada mais profunda e significativa.

Não podemos deixar de levar em conta duas importantes correntes filosóficas surgidas no século XIX na Europa. A saber, o positivismo de Auguste Comte, na França, na primeira metade do século, e o Darwinismo, na Inglaterra, na segunda metade do século. Essas duas correntes de pensamento representaram a consolidação de um processo que havia se iniciado no século passado com o iluminismo. A ciência natural tornou-se mais natural e menos filosófica. Teologia e ciências foram substancialmente separadas. A argumentação que Deus podia ser deduzido da natureza, era agora uma questão para os teólogos apenas. A linguagem da física passou a restringir-se às medidas e à matemática. A ciência passou a descrever o mundo e a natureza em seus próprios termos e não mais com referência aos propósitos de um Criador. Isso ensejou o surgimento de uma visão materialista, um tanto quanto radical e dogmática, do mundo.

Para Comte, o positivismo era uma doutrina filosófica e política com aplicações e implicações sociais. Em linhas gerais, ele propunha valores completamente humanos para a existência humana. Comte refutava radicalmente a teologia e a metafísica, defendendo a ideia de que o conhecimento científico, baseado exclusivamente na observação, era a única forma de conhecimento verdadeiro. Se hoje achamos complicada a situação do Brasil e do mundo, a época de Comte e, portanto, de Kardec, era um verdadeiro caos. Comte perseguia o objetivo de compreender as leis que regiam as relações dentro da sociedade de sua época. Uma sociedade complexa, filha de revoluções, conflitos, avanços e retrocessos políticos e econômicos. Ele pretendia obter a compreensão e trazer alguma ordem e estrutura para a sociedade a partir das leis da natureza. É considerado o pai da sociologia. Na verdade, ele deu o nome de física social a essa nova ciência, tal era sua convicção na capacidade das ciências naturais explicarem e possibilitarem o planejamento da sociedade. O lema de Comte era “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”.

Vale notar que Marx, que também tinha como ideal o progresso da sociedade humana, entendia que isso só seria possível por meio de uma revolução armada do proletário contra os burgueses. Comte, entedia que o progresso deveria vir por meio de uma reforma social tendo por base a ordem. Percebemos aqui uma analogia com Kardec, que também ansiava pelo progresso da humanidade, mas a partir da compreensão que a vida humana não se restringe ao mundo material. Ao contrário de Marx e Comte, Kardec propunha a compreensão da sociedade humana em dois planos, o material e o espiritual.

O positivismo teve grande influência no mundo. Teve inclusive impacto maior no Brasil que na própria França. A nossa Proclamação da República com um golpe militar derrubando o império é fruto de ideias positivistas no exército. O lema “Ordem e Progresso” de nossa bandeira é um lema positivista.

Apesar da completa refutação dos valores teológicos, Comte não era contra a religião. Ele inclusive percebeu a importância dos princípios religiosos para o progresso da sociedade, mas entendia que esses princípios deveriam apoiar-se na ciência, nas leis observáveis da natureza e não em conceitos transcendentais. Por isso Comte propôs a religião da humanidade. Existe hoje no Brasil o templo positivista do Rio de Janeiro (http://templodahumanidade.org.br/) e outro no Rio Grande do Sul (https://templopositivista.org.br/), marcas da influência positivista em nossa cultura.

De outro lado, na Inglaterra, Charles Darwin publicava em 1859 a “A Origem das Espécies” que veio a causar profundo impacto ético e religioso na sociedade. Vale notar que o zoólogo Alfred Russel Wallace, espírita, havia chegado a conclusões muito próximas de Darwin que foi alertado a apressar a publicação de seu livro antes que Wallace anunciasse seus estudos.

Todos esses acontecimentos marcaram profundamente a maneira como o ser humano passava a compreender a vida, a sociedade e a natureza. Como consequência surgiram em vários meios acadêmicos, visões materialistas carregadas de radicalismo. Eram correntes que não aceitavam outras perspectivas e visões de mundo. Queriam impor a todo custo sua verdade como verdade única, depreciando e combatendo qualquer coisa que não estivesse alinhada com sua visão. Era esse grupo de materialistas dogmáticos que Kardec precisou enfrentar e combater. Kardec não era contra a visão positiva ou materialista da ciência. Não era isso que incomodava Kardec. Kardec via nesse aspecto apenas uma atitude racional. Era o dogmatismo materialista que Kardec precisou combater.

Vale a pena uma leitura bastante atenta das palavras de Kardec em seu artigo na Revista Espírita de agosto de 1868. Não vamos replicar esse texto na íntegra, mas alguns trechos merecem destaque. Os grifos são meus.

“O Materialismo e o Direito:- Exibindo-se como não o tinha feito em nenhuma outra época e se apresentando como supremo regulador dos destinos morais da Humanidade, o materialismo teve por efeito apavorar as massas pelas consequências inevitáveis de suas doutrinas para a ordem social. Por isto mesmo provocou, em favor das ideias espiritualistas, uma enérgica reação, que deve provar-lhe que está longe de ter simpatias tão gerais quanto supõe, e que se ilude singularmente se espera um dia impor suas leis ao mundo…”

“…Seguramente as crenças espiritualistas dos tempos passados são insuficientes para este século; elas não estão no nível intelectual de nossa geração; sobre muitos pontos estão em contradição com os dados positivos da Ciência; deixam no espírito um vazio incompatível com a necessidade do positivo, que domina na sociedade moderna; além disso, cometem o erro imenso de se imporem pela fé cega e de proscreverem o livre-exame…”

“…Mas em vez de apresentar algo de melhor que o velho espiritualismo clássico, o materialismo preferiu tudo suprimir, o que o dispensava de procurar, e parecia mais cômodo àqueles a quem importuna a ideia de Deus e do futuro…”

“…O que é de admirar é encontrar na maioria dos materialistas da escola moderna esse espírito de intolerância levado aos últimos limites, logo eles que reivindicam sem cessar o direito de liberdade de consciência. Seus próprios correligionários políticos acham-se sem graça diante deles, assim que fazem profissão de espiritualismo, como o Sr. Jules Favre, a propósito de seu discurso na Academia (Fígaro de 8 de maio de 1868), e como o Sr. Camille Flammarion, afrontosamente ridicularizado e denegrido, num outro jornal, cujo nome esquecemos, porque ousou provar Deus pela Ciência. Segundo o autor dessa diatribe, não se pode ser sábio senão com a condição de não crer em Deus…;

      “…Ninguém contesta a esse partido o direito de ter a sua opinião, de discutir as opiniões contrárias, mas o que não se lhe poderia conceder é a pretensão, no mínimo singular para homens que se apresentam como apóstolos da liberdade, de impedir que os outros creiam à sua maneira e de discutir as doutrinas que não partilham…”

Segue-se na sequência dos trechos introdutórios acima, uma réplica do artigo publicado pelo jornal Droit que vale a pena ler. Não caberia replicá-lo aqui, mas o artigo é riquíssimo e esclarecedor.

Fica claro nas colocações acima, que a oposição de Kardec era contra os materialistas dogmáticos que queriam impor pela força, pela fé cega, os seus princípios. Kardec não combatia o materialismo científico. Ao contrário, Kardec respeitava a ciência e adotava sua metodologia para suas pesquisas.

O dogmatismo materialista da época chegou ao ponto de combater o próprio positivismo de Comte. Julgavam que Comte não era suficientemente materialista. A réplica abaixo da Revista Espírita de outubro de 1868 ilustra bem esse ponto. Também aqui replico apenas alguns trechos mais importantes.

“Profissão de Fé Materialista (o texto abaixo é de A. Regnard, antigo interno dos hospitais):- A filosofia de A. Comte teve a sua utilidade e a sua glória no tempo em que o ‘cousinismo*’ reinava como senhor. Hoje que a bandeira do materialismo foi erguida na Alemanha por nomes ilustres, na França por gente moça, em cujo meio tenho orgulho e pretensão de me contar, é bom que o positivismo se recolha ao modesto papel que lhe convém. É bom, sobretudo, que não afete por mais tempo, a respeito do materialismo, seu mestre e seu antepassado, um desdém ou reticências que são, no mínimo, inoportunas…”

* Filosofia espiritualista devida a Victor Cousin

Agora sim, temos os comentários de Kardec sobre o texto acima.

“Como se vê, o materialismo também tem o seu fanatismo. Há alguns anos apenas, ele não teria ousado exibir-se tão audaciosamente; hoje traz abertamente o desafio ao espiritualismo, e o positivismo já não é, aos seus olhos, suficientemente radical.”

“Tem suas manifestações públicas, e é ensinado publicamente à juventude; tem a mais o que censura nos outros: a intolerância, que vai até a intimidação. Imagine-se o estado social de um povo imbuído de semelhantes doutrinas!”

“Esses excessos, no entanto, têm a sua utilidade, a sua razão de ser; amedrontam a sociedade, e o bem sempre sai do mal. É preciso o excesso do mal para fazer sentir a necessidade do melhor, sem o que o homem não sairia de sua inércia; ficaria impassível diante de um mal que se perpetuaria em favor de sua pouca importância, ao passo que um grande mal desperta sua atenção e lhe faz buscar os meios de o remediar. Sem os grandes desastres ocorridos no início das estradas de ferro, e que apavoravam, já que os pequenos acidentes isolados passavam quase despercebidos, ter-se-iam desprezado as medidas de segurança. No moral é como no físico: quanto mais excessivos os abusos, mais próximo está o termo.”

A causa primordial do desenvolvimento da incredulidade está, como temos dito muitas vezes, na insuficiência das crenças religiosas, em geral, para satisfazer a razão, e no seu princípio de imobilidade, que lhes interdita toda concessão sobre os seus dogmas, mesmo diante da evidência. Se, em lugar de ficarem na retaguarda, elas tivessem seguido o movimento progressivo do espírito humano, mantendo-se sempre no nível da Ciência, por certo difeririam um pouco do que eram no princípio, como um adulto difere da criança de berço, mas a fé, em vez de se extinguir, teria crescido com a razão, porque é uma necessidade para a Humanidade, e elas não teriam aberto a porta à incredulidade que vem sapar o que delas resta; recolhem o que semearam.”

“O materialismo é uma consequência da época de transição em que estamos; não é um progresso, longe disso, mas um instrumento de progresso. Desaparecerá, provando a sua insuficiência para a manutenção da ordem social e para a satisfação dos espíritos sérios, que procuram o porquê de cada coisa; para isto era necessário que o vissem em ação. A Humanidade, que precisa crer no futuro, jamais se contentará com o vazio que ele deixa atrás de si, e procurará algo de melhor para o compensar.”

Aqui também fica claro que não é a premissa materialista da ciência que deve ser combatida. Essa premissa, é uma ferramenta de trabalho compreendida e respeitada por Kardec. Hoje, o radicalismo materialista praticado no século XIX não se extinguiu completamente, mas já está bem mais contido. Hoje já temos diversos setores acadêmicos dedicando-se a pesquisas em temas relacionando espiritualidade com saúde (https://www.ufjf.br/nupes/), e temas relacionados às experiências de quase morte  (https://med.virginia.edu/perceptual-studies/our-research/near-death-experiences-ndes/). Essa temática ainda divide os neurocientistas, mas são cada vez maiores os indicativos de que a consciência (espírito) não necessita do cérebro para existir.

Não poderíamos encerrar nossas considerações sem apontarmos uma certa contradição existente no movimento espírita. Contradição essa, possivelmente inconsciente, mas que precisa ser examinada. O materialismo continua sendo combatido e acusado como o grande vilão do progresso moral e espiritual do ser humano. Continua sendo apontado como a causa de todos os males existentes na sociedade humana. Continua sendo acusado de causa direta do egoísmo, do orgulho, do individualismo e da ambição desmedida do ser humano.

Trata-se de estratégia completamente equivocada. É inegável que o materialismo científico ou filosófico serve muito bem como desculpa a essa conduta nefasta do ser humano, assim como o cristianismo da idade média serviu muito bem como desculpa para as fogueiras da inquisição. Nós espíritas precisamos estudar e ponderar com muito cuidado o que é causa e o que é efeito no que se refere à conduta humana. Precisamos fazer a leitura correta da história.

Ao que tudo indica o materialismo, historicamente, foi associado ao Marxismo que também era ateísta e seguidor de Epicuro, erroneamente vinculado ao hedonismo, isto é, o culto dos prazeres. Isso reflete a leitura preconceituosa da história feita por muitos espíritas e, não apenas isto, resulta numa inversão de valores. Combate-se o socialismo por ser materialista e defende-se o capitalismo pelo seu caráter liberal, deixando de considerar que o capitalismo liberal é o maior estimulante que existe para o egoísmo, o individualismo, a ambição, as mazelas sociais e a degradação da natureza. Estes sim os grandes vilões do progresso humano.

Que fique claro que não há aqui defesa de nenhuma ideologia de esquerda nem de direita. Esse assunto já foi abordado em artigo anterior ((https://geae.net.br/publicacoes/artigos-gerais/1225-as-utopias-nao-morrem). Nem socialismo, nem capitalismo são a solução para os problemas da humanidade. Somente a conscientização efetiva de que somos todos irmãos e dependentes uns dos outros é que nos levará ao futuro. Socialismo imposto resultará, como já ocorreu, em fracasso. O capitalismo liberal selvagem, aparente mola de progresso, nos cobrará alto preço para que, finalmente, despertemos nossa consciência de que o progresso da sociedade requer a fraternidade e a liberdade responsável dentro de um ambiente de cooperação e não de competição selvagem. Kardec parece ter previsto isso. Veja seus comentários acima, relativos aos excessos materialistas combatendo até o positivismo de Comte. A frase de Kardec cai como luva para nossa realidade atual – “O materialismo (leia-se capitalismo) é uma consequência da época de transição em que estamos; não é um progresso, longe disso, mas um instrumento de progresso”

Espíritas! Fé raciocinada! Bom senso e bons estudos!

Nossa luta não é contra o materialismo. Mas sim contra o deus Mercantilista.

Cesar Boschetti

Sobre o autor:

Cesar Boschetti: Graduado em Física pela Universidade de São Paulo (1978), com mestrado e doutorado na área de tecnologia de materiais semicondutores. Atuou como pesquisador, tecnologista e coordenador de setor de P&D englobando materiais especiais, física de plasmas, computação aplicada e combustão do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais de 1979 a 2019 quando se aposentou.

Fonte: geae.net.br

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Espiritismo e Previsões: A propósito da acalentada “data-limite”

Escrito por Marcelo Henrique Pereira

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O assunto não é novo. Nem será a última vez. Parece-nos que os espíritas, em sua maioria, adoram cogitar sobre previsões e muitos consultam certos “médiuns” para saber o que lhes advirá, em breve ou mais à frente.

Em torno da Doutrina dos Espíritos, ultimamente, tem-se falado muito na tal “data-limite”. É como se a paciência do Criador estivesse se esgotando e houvesse um “planejamento” para dar um basta a tantas iniquidades e violências perpetradas por todos os cantos deste ínfimo planeta de um pequenino sistema, o solar.

Atribuem ao médium mineiro – conhecido por sua imensa fraternidade e abnegação, ao mesmo tempo, sua serenidade e compaixão – a “previsão” de uma data, que estaria prestes a ocorrer, para a “depuração” planetária.

Uma releitura, evidentemente, do “juízo final” das religiões cristãs, onde se separariam, à direita e à esquerda (sem qualquer conotação política, é claro) os “bem quistos” e os “amaldiçoados”. Em “leitura dita espírita”, seria a progressão do planeta requerendo novos ares e novos protagonistas. Ou seja, os não-credenciados seriam retirados, compulsoriamente, do orbe para dar lugar a espíritos “mais comprometidos”.

Lendo e estudando sobre a Lei do Progresso – que alcança a todos, individual e coletivamente – na Terceira Parte de “O livro dos espíritos”, a “seleção espiritual” acima soa despropositada, equivocada e, até, bárbara. Os processos evolutivos são permanentes e lentos, ocorrendo, naturalmente. Os Espíritos Superiores, inclusive, em distintas partes da obra codificada pelo Professor Francês, já declinaram suficientemente sobre a ação humana para fazer progredir a(s) Sociedade(s), não sendo possível entender nenhuma ação efetiva e pontual, da “Espiritualidade” para mudar, num só ato, a “atmosfera espiritual” da Terra. Não, mesmo!

Perdoem-me se, com estas linhas, eu “decepciono” aqueles que “esperam” um “momento de libertação espiritual”. Guardadas as devidas proporções, o povo judeu também ansiou por isso, com Moisés e, na própria estada do Galileu entre nós, também esperaram, seus convivas, que ele fosse o efetivo apascentador de ovelhas. Ou, quem sabe, os que “acham” que uma eleição é suficiente para “plasmar” uma sociedade melhor, mais igualitária e próspera, e os seus cidadãos, nacionalmente, mais felizes.

Kardec, visionário, antecipou esta discussão – que também era objeto de sua preocupação, para entender de fato o “papel” dos Espíritos na vida dos homens (também, Espíritos), diante do quadro de interdependência e correlação entre as duas realidades, a física e a espiritual. Sim, o Codificador admoestou as Inteligências Invisíveis acerca do que poderia (ou não) se informado aos viajores na carne. E recebeu, às vezes, na forma de orientações, chamadas importantes no sentido de que, a nós, encarnados, não estão acessíveis determinados “conhecimentos”, em face das próprias Leis Espirituais e porque, em nossas trajetórias, devemos agir e não esperar que os “Céus” façam algo por nós.

A saída da infância para a maturidade espiritual, assim, depende da mudança de paradigmas conceituais. O “crente” – mesmo o espírita – ainda entende Deus de uma forma pessoalizada e antropomorfizada, resultando daí as conhecidas expressões que são utilizadas, diuturnamente, na vida em geral e nas assembleias espíritas, como se Deus agisse, Deus protegesse, Deus abençoasse, Deus provesse, Deus afastasse, e tudo, absolutamente tudo, ocorrendo com base na “vontade de Deus”.

Esta “vontade”, entendamos, é a própria resolução da vida, a partir da aplicabilidade, total e permanente, dos efeitos de suas Leis Universais, todas elas autoaplicáveis e regentes de todos os Espíritos e todos os Mundos, sem que ele, o Criador, a Fonte, a Essência, esteja participando dos mínimos e comezinhos atos da existência humana. Em outras palavras, Deus não olha nem deixa de olhar por qualquer de suas criaturas, ainda que, pela poesia das religiões, o filho entenda necessário e possível estar “cuidado” pelo pai. Quando será, então, que “sairemos de casa para a nossa vida independente”, se ainda queremos que o “Papai do Céu” nos vele e guarde em cada curva do caminho?

Esta independência, esta autonomia é a principal aspiração da Humanidade em marcha, neste quadrante evolutivo. E veja-se que Kardec, ao interpretar o conteúdo trazido pelos Luminares, até arriscou, ele mesmo, a estabelecer um cronograma espiritual para a amplitude espiritual planetária, quando mencionou, na Revue Spirite, os “períodos do Espiritismo”. Quanto à nomenclatura dos mesmos – escudado nas informações espirituais recebidas – nenhum reparo. As denominações (curiosidade, filosófico, de luta, religioso, intermediário e de renovação social) nos parecem ser pontuais e verossímeis. Evidentemente, quando Kardec escreveu tais linhas, vivia o terceiro dos períodos e esperava que viessem os demais em curtos espaços temporais, como os anteriores. Tanto que a dissertação de que nos valemos para ilustrar a conduta do Codificador tem como título “Período de Luta” e está na Revue Spirite, edição de dezembro de 1863. Mas os curtos períodos sequenciais não se verificaram. Um pouco pela própria ambiência planetária e o recrudescimento dos ideais espirituais em face dos dois grandes conflitos bélicos mundiais e, em parte considerável pelo “enamoramento” dos espíritas pelas questões religiosas (de todos os tempos), fazendo com que a faceta de religião (cristianismo redivivo) se tornasse mais evidente, principalmente em terras brasileiras (adjetivadas poética e ufanisticamente como a “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”). Então, desde a publicação de “Imitação de O evangelho segundo o Espiritismo (1864) até o presente momento, ainda estamos “patinando” no período religioso, apesar da existência de um grupo cada vez mais numeroso, pelo menos em manifestações nas redes sociais e presença nas instituições espíritas, que bradam acerca da necessidade de superação do “comportamento meramente religioso” das assembleias e associações espiritistas, para dar prosseguimento ao “curso do rio”, levando-nos a assumir a condição afeta ao tal “período intermediário”, condutor à melhora ou progresso coletivos (“regeneração social”).

Se Kardec flerta com a previsão, ele o faz para tentar, ele mesmo, entender o processo de maturação das ideias espíritas e da própria conjuntura social, e não por mera curiosidade ou por necessidade de atuação dos Espíritos em tarefas que a nós são cabíveis e exigidas, para nos envolvermos, conscientemente, com a trajetória progressiva de nossas Sociedades. Kardec, homem prático e de ciências, filósofo perspicaz também possuía – mesmo que muitos o neguem – suas características humanas, relativas à trajetória comum de cada Espírito. Mesmo missionário na tarefa que abraçou, guardava ele as condições e características de um espírito reencarnado num “plano de provas e expiações”. Não é novidade que os “crentes”, portanto, tentem atribuir aos “ídolos” posição espiritual que eles, ainda, não possuem. Embevecidos, os olhares ficam turvos e enevoados, e não permitem, por vezes, que se vislumbrem as essências e as reais condições de espiritualidade. Natural, portanto.

Rivail, em dois momentos significativos de sua produção espírita, pergunta aos Orientadores Espirituais acerca do conhecimento do futuro. Primeiro, por volta de 1857, quando ao preparar a obra primeira, questiona se o futuro poderia ser revelado aos homens. E, dos Preclaros Amigos, recebe a contundente resposta: “Em princípio o futuro lhe é oculto e só em casos raros e excepcionais Deus lhes permite a sua revelação (“O livro dos espíritos”, item 868). Ao interpretar o conjunto das respostas contidas neste segmento, que compõe o Cap. X (Lei de Liberdade) da referida obra, assim sentencia o Codificador: “Quanto mais se reflete sobre as considerações que teria para o homem o conhecimento do futuro, mais se vê como a Providência foi sábia ao ocultá-lo. A certeza de um acontecimento feliz o atiraria na inação; a de um desgraçado, no desânimo; e num caso como no outro suas forças seriam paralisadas. Eis porque o futuro não é mostrado ao homem senão como um alvo que ele deve atingir pelos seus esforços, mas sem conhecer as vicissitudes porque deve passar para atingi-lo. O conhecimento de todos os incidentes da rota lhe tiraria a iniciativa e o uso do livre-arbítrio; […] Quando o sucesso de uma coisa está assegurado, ninguém mais se preocupa com ela”.

Veja-se a acurada sensibilidade e a aguçada sabedoria do Mestre Lionês. Não se pode cogitar das ocorrências futuras senão como projeto, como ideal, como aspiração. Aquele velho sonho que todos acalentamos, no cotidiano corriqueiro, de termos melhores condições, de sermos mais felizes, de vencermos as (próprias) dificuldades. Sem saber o que ocorrerá e, muito menos, os detalhes das situações futuras.

Poderão os mais “apressados” dizerem que o doce e Cândido Xavier teria “estatura espiritual” e “conhecimento espírita” para revelar-nos a previsão da “data-limite” e que deveríamos nos curvar diante dessa “benesse espiritual” vinda pelas mãos do médium. Engraçado é que esta aludida “revelação” contrasta totalmente com a postura (não-mediunizada) do homem Francisco, que sempre se posicionou cauteloso e reconheceu sua condição de “eterno aprendiz”, não se prostrando a realizar ações “em nome do Espiritismo”. E, como médium, também ressalvou a sua condição de mensageiro e ressaltou e relevou, sempre, que as mensagens derivadas de suas trêmulas mãos deveriam passar pelo crivo kardeciano, repetindo, sempre, o que teria ouvido, como advertência, de seu principal mentor, Emmanuel: “na dúvida, fique com Kardec”.

Os espíritas em geral não querem saber de Kardec. Até acham relevante – mas ultrapassado – o trabalho que ele realizou. Rebaixam-no, quase sempre, à condição mínima de “secretário dos Espíritos” ou de “organizador da Doutrina dos Espíritos”, tão-somente, esquecendo-se da premissa de que, se não houvesse Rivail, a referida doutrina não existiria. Não, certamente, no contexto em que o recebemos das mãos do hábil professor francês, com sua produção magnífica de 32 (trinta e duas obras) em quase doze anos de produção literária, de pesquisa e de prática espiritistas.

Kardec é, praticamente, o “livro da estante” ou o “livro em cima da mesa” nas instituições espíritas em geral, ainda que, vez por outra, lá num cômodo mais escondido, um grupo pouco numeroso – em relação à lotação das assembleias de palestras e passes – teimosamente ainda tente entender a lucidez do Mestre, em suas obras fundamentais. Ou, que, na própria reunião pública, de “exortação da mensagem”, uma página aberta a esmo, de “O evangelho” ainda sirva para a “preparação do ambiente”. Sim, senhores! Como sempre disse o sensato Professor Herculano Pires, Kardec (e o próprio Espiritismo enquanto filosofia) ainda são o “grande – e ilustre – desconhecido” dos próprios espíritas.

A “turma” gosta mesmo é de novidade (e a “previsão” da futura data “transformadora”, para que nós “estejamos avisados e conscientes” é a grande novidade “da vez”)! Novidades estão nos romances – desde os mais “antigos” da “série André Luiz”, os “históricos” de Emmanuel, ambos advindos das mãos chiquistas, as “histórias românticas” ou as “orientações de conduta” de Lucius, Rochester, Victor Hugo, Miramez, Marco Prisco, Ivan de Albuquerque e tantos outros… Estas são, digamos, mais “fascinantes”, mais “interessantes”. É como assistir a uma novela, série ou filme, não é mesmo? Não foram poucas as vezes que ouvi de amigos frequentadores de casas espíritas: “- São muito boas, porque falam a língua da gente, refletem situações das nossas vidas e são mais fáceis de entender!”.

Quantas delas, assim, a pretexto de serem tidas como “espíritas” e, igualmente, tratando de conceitos ou questões que fazem parte do “vocabulário espírita” não encerram, TODAS, visões particulares, pessoais, do Espírito comunicante e, muitas mais, não estão sujeitas à excessiva incidência das opiniões anímicas o médium que as recepcionou, ou dos revisores, editores e dirigentes espíritas? Não há mensagem “nula” nem “inocente” ou “despretensiosa”. Todo texto – inclusive este, meu – visa a um propósito. No meu caso, cogitar da necessidade de sermos MAIS ESPÍRITAS e menos românticos e fantasiosos. E, ao invés de “plasmarmos” a Terra pós-data-limite, trabalharmos para melhorar a ambiência e a “energética” espiritual aqui presente e reinante, com nossa dose de esforço e participação.

A “data-limite” é uma fantasia de quem realmente está mais preocupado com “destino”, “fatalidade”, “carma”, “resgates” e outros pseudoconceitos espíritas, tão incorporados à rotina das atividades espíritas que, tanto os mais novos nelas acreditam e passam a repeti-las, quanto os mais antigos deixaram de lado a segurança das afirmações contidas na Codificação para, atraídos por “quinquilharias”, trocarem o ouro pela pirita, que brilha tanto quanto aquele.

Vejamos outra importante passagem, contida em outro livro do nosso francesinho, agora em “O Livro dos Médiuns”, no Cap. XXVI, item 288, subitem 7. Questiona o Codificador: “Os espíritos podem nos desvendar o futuro?”. A admoestação encontra-se no capítulo em que Kardec leciona acerca da tipologia de perguntas que podem ser feitas aos espíritos, onde importa a forma e o fundo. E, ainda mais, continua o preclaro professor, o encadeamento entre os questionamentos constitui o próprio MÉTODO de aferição das mensagens e, também, o proveito do diálogo que se trava com os Seres Desmaterializados, sendo conveniente prepará-las com antecedência e clareza, evitando questões salteadas e “ao acaso”. Isto porque também o Espírito (desencarnado) se prepara para responder ao que se lhe pergunte, ao contrário da formatação que se lhe dá (à comunicação mediúnica) nos centros espíritas de todo o Mundo. Ou seja, para os espíritas “comuns”, basta a concentração do médium (e do ambiente) e a seriedade de propósitos, que a “boa comunicação” se dará. Mas, retornando à perquirição feita por Rivail, assim lhe disseram os Instrutores: “Se o homem conhecesse o futuro, negligenciaria o presente. […] Trata-se de um grave erro, porque a manifestação dos Espíritos não é meio de adivinhação. Se insistirdes numa resposta, ela vos será dada por um Espírito leviano. Temos dito isso a todo instante”.

Os espíritas contemporâneos, em sua grande maioria, parecem se comportar como os crentes retratados no Antigo Testamento, logo após a retirada de Moisés para alguns afazeres, deixando ao povo a Tábua da Lei (Dez Mandamentos). Ao retornar, encontrou seu povo novamente adorando os bezerros de ouro, não obstante a diretriz de não cultuarem imagens. Mesmo com as orientações precisas contidas na Codificação, os espíritas se maravilham ante determinadas páginas ditadas por Espíritos que são “tradicionais” e “reconhecidos” por suas identidades e qualificações – quando em vida – recepcionados por médiuns idôneos, é verdade, fraternos e envolvidos em atividades assistenciais, quando, isto por si só, fosse suficiente para a aferição de veracidade e oportunidade das mensagens. Em outras palavras, trocou-se a segurança do exame comparativo e detalhado da mensagem pela “autoridade” do Espírito comunicante ou do médium que a divulga. Sai a Codificação e entra a Revelação Mediúnica Brasileira. Sai a Tábua da Lei e entra o Bezerro Mensageiro!

Estas previsões acerca do futuro que grassam por aí, assim como determinados relatos de médiuns, até convictos, dizendo que espíritos da Revolução Francesa, por exemplo, estão por aqui, para “acelerar” o progresso do nosso (maior) país (espírita do mundo), nada mais são do que meras suposições, sem qualquer base doutrinária. Se temos, aqui ou ali, alguns espíritos fazendo estas previsões, o que poderia representar, a priori, o elemento de generalidade das informações, já que estão sendo ditas por espíritos diferentes em lugares distintos e em momentos separados, MUITO CUIDADO! Não é a repetição, pura e simples, da mesma mensagem (por fontes esparsas, ou seja, médiuns diferentes) que simboliza a expressão do Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE) estabelecido por Kardec. Podem ser – e notadamente o são – espíritos brincalhões, a zombar de nossa credulidade ou da falta de discernimento em comparar, selecionar e separar o que é crível do que é fantasioso. Numa expressão: “preferível repelir dez verdades do que acatar uma só mentira” (Erasto).

Efetivamente, o advento do Plano de Regeneração, que é o estágio adiantado àquele em que nos encontramos (Provas e Expiações) será realidade, tão como no-lo disseram os Espíritos Superiores, ao tratarem da Progressão dos Mundos. As mudanças planetárias serão a conclusão das modificações inseridas nas sociedades (Estados) e, estas, resultantes do progresso individual dos homens que as integram. Os que aqui estão e os que irão reencarnando, pouco a pouco, num processo natural de “depuração” do orbe.

Sem, portanto, a definição de uma data (ano) e, tampouco, com celebrações a respeito. Acreditar em previsões desta natureza, mesmo com a melhor das intenções, é ato similar àquele indivíduo que consulta um babalorixá, pedindo-lhe os números da loteria; ou à senhora que consulta a cartomante para saber se será feliz no amor; ou, ainda, o jovem que consulta o médium para aconselhar-se sobre qual carreira seguir. Os Espíritos Superiores, que estão ao nosso derredor e que podem ser consultados sobre questões relevantes, de importância para a Humanidade, não se ocupam com questões mundanas, de mera curiosidade, ou de interesse particular. Mas haverá os desencarnados que se locupletam com tais questiúnculas, tal qual os encarnados que se comprazem com divertimentos pouco edificantes e que logram proveitos à base da credulidade e ingenuidade alheia.

Façamos, pois, o melhor que nos compete, a cada dia, a cada encarnação, credenciando-nos para ocupar espaços em melhores condições existenciais, em planos mais adiantados, colaborando com a “obra da Criação”, no continuum de nosso progresso espiritual. Hoje, amanhã e sempre!

Marcelo Henrique Pereira

Sobre o autor:

Marcelo Henrique Pereira: Formado em direito e acadêmico em administração pública pela UFSC, mestre em Ciência Jurídica com doutorado em direito pela Universidade Católica de Santa Fé-Argentina é professor e auditor fiscal do Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina. Escritor e conferencista espírita é secretário executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo.

Fonte: geae.net.br

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Para os mexeriqueiros de plantão

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Brasília – DF

Tiago anota em sua epístola “Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de um irmão, fala mal da lei e julga a lei; e, se tu julgas a lei, já não és observador da lei, mas juiz.” [1] Ora, o fuxico espera a boa-fé para turvar-lhe as águas e inutilizar-lhe esforços justos. O mal não merece o laurel dos avisos sérios. Atribuir­-lhe muita importância nas atividades verbais é alagar-lhe a esfera de atuação.

Emmanuel adverte que “falar mal” será render homenagem aos instintos inferiores e renunciar ao título de cooperador de Deus para ser crítico de suas obras. A maledicência é um tóxico sutil que pode conduzir o discípulo a imensos disparates. Quem sorva semelhante veneno é, acima de tudo, servo da tolice, mas sabemos, igualmente, que muitos desses tolos estão a um passo de grandes desventuras íntimas. [2]

Quando se fala mal de algo ou de alguém para um cúmplice e este concorda com o que é dito, ambos por autoengano sentem-se “melhores” e “avigorados”, pois ambos legitimam aquele sentimento ruim, e faz com que “percebam” mais força, e ganhem uma imensa “autoconfiança” para o mal. O filósofo Platão admoestou: “Calarei os maldizentes continuando a viver bem; eis o melhor uso que podemos fazer da maledicência” [3].

Amaldiçoada e destrutiva é a palavra na boca de quem alista falhas do próximo; tóxico perigoso é a demonstração condenatória a escoar nos beiços de quem fuxica; barro podre, exalando enxofre, é a oscilação desafinada das cordas vocais de quem recrimina; braseiro tenebroso, escondendo a verdade, é a intriga destrutiva. “Ai do mundo por causa dos escândalos, porque é necessário que venham os escândalos, mas, ai daquele homem porque venham os escândalos.”. [4]

Quem se afirme espírita não pode esquecer que os críticos do comportamento alheio acabam, quase sempre, praticando as mesmas ações recriminadas. Deploramos o clima de invigilância admitida pelas aventuras do entusiasmo desapiedado dos caluniadores, com suas mentes doentias, sempre às voltas com a emissão ardente da fofoca generalizada. Confrades que ficam “felizes” ante as dificuldades e eventuais deslizes do próximo. Assestam a volúpia do fuxico, com acusações infames sobre fatos que ignoram, sempre em direção às aflições e lutas íntimas de pessoas que tentam se erguer de algum desacerto na caminhada.

Aos mexeriqueiros malévolos e viciados críticos dos erros de conduta do próximo recomendamos a seguinte reflexão: na viagem de mil quilômetros, como dizia Chico Xavier, não nos podemos considerar vitoriosos senão depois de chegarmos à meta almejada, porque nos dez últimos metros, a ponte que nos liga ao ponto de segurança pode estar caída e não atingiremos o local para onde nos dirigimos.

Finalmente, não esqueçamos que a palavra constrói ou destrói facilmente e, em segundos, estabelece, por vezes, resultados gravíssimos para séculos.

Jorge Hessen

Fonte: Artigos Espíritas – J. Hessen

Referências bibliográficas:

[1] Tiago, 4: 11)

[2] XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva, ditado pelo Espirito Emmanuel, RJ: Ed FEB 1990

[3] Platão, disponível em http://pensador.uol.com.br/autor/platao/ a cessado em 6/5/2013

[4] Mateus 18:7

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Casas e Prédios do Mundo Espiritual

Já foi dito que, como na Terra, no Plano Espiritual existem casas, ruas, flores e quaisquer outros objetos dos concebidos, cultivados e construídos pelo homem encarnado. E todas essas notícias têm intrigado muita gente. Qual será, então, o processo utilizado pelos Espíritos desencarnados em suas a criações e construções? E Allan Kardec responde: é o manejo da vontade e do pensamento.

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O pensamento é força criadora: a vontade é força propulsora. Por meio destas duas forças, os Espíritos constroem tudo o que desejam. O Universo é seu laboratório.

Assunto dos mais polêmicos é o que trata da construção de prédios e cidades no Mundo Espiritual. As informações se multiplicam, uma vez que infinitos são os Espíritos e locais onde estes habitam. Excetuando alguns aspectos concordantes, inúmeras informações individuais a respeito de minúcias sobre estilos e móveis são fornecidas pelos Espíritos comunicantes, de acordo com o aprendizado e experiências por que passaram.

A ação dos Espíritos sobre os fluidos tem a mesma força criadora na construção das Cidades Espirituais, com suas casas, palácios e jardins, resultando em um mundo invisível aos olhos carnais, todavia bastante intenso e vibrante aos de seus habitantes. Empregando o pensamento e a vontade, os Espíritos atuam sobre os elementos materiais espalhados por todo o espaço e lhes imprimem a direção desejada, exatamente como os encarnados fazem com as mãos ao construir qualquer objeto.

Em A Vida Além do Véu, de George Vale Owen, o Espírito comunicante descreve sua casa como…(…) bem acabada interna e externamente. Dentro, possui banheiro, um salão de música e aparelhos registradores do nosso trabalho. É um edifício amplo. Segundo declarações do Mundo Espiritual, os tamanhos e tipos de imóveis variam de acordo com a importância do trabalho desempenhado pelos Espíritos que os ocupam e segundo seus caracteres. Há, mesmo, verdadeiros palácios com grandes torres, altas abóbadas, grandes cúpulas e praças públicas ou reservadas. Os templos destinados às religiões, imitando os gostos terrenos, são, geralmente, suntuosos, verdadeiras catedrais cujas torres se perdem nas alturas.

Em A Vida nos Mundos Invisíveis, o Espírito Monsenhor Robert Hugh Benson se dedica a relatar como se processou a sua morte e as subsequentes viagens através de várias regiões do Mundo Espiritual. De suas experiências, oferece informações sobre os fascinantes aspectos da vida dos Espíritos. Sobre a estrutura das Cidades Espirituais e estruturas das moradias, diz ele:

Ao nos aproximarmos da cidade, foi possível avaliar a sua enorme extensão. Nem preciso dizer que era totalmente diversa de tudo que jamais víramos. Consistia de grande número de majestosos edifícios, rodeados de magníficos jardins e árvores, onde brilhavam, aqui e acolá, espelhos de água, límpida como cristal, refletindo, além das cores já conhecidas na Terra, outras mil tonalidades jamais vistas.

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Comparados com as estruturas terrenas, os edifícios não eram muito altos, mas apenas extremamente amplos. E impossível descrever de que materiais se compunham, por serem essencialmente espirituais. A superfície é lisa como mármore, e tem a delicada consistência e a transparência do alabastro, ao mesmo tempo que cada prédio emite uma corrente de luz da mesma pálida tonalidade. No caso de uma obra complexa e importante como a formação das Colônias Espirituais Socorristas, informam alguns Espíritos comunicantes que a tarefa é confiada às falanges de Espíritos que nisso se especializaram.

Os Espíritos, após o sono reparador que se segue à desencarnação, chegam às Colônias Socorristas e encontram casas e hospitais confortáveis, lindos jardins e espaços acolhedores. Os sanatórios são luminosos e belos. Tudo construído pelos Espíritos que os precederam.

Quanto às residências, consta, das mensagens oriundas do Outro Mundo, que qualquer Espírito errante, desde que tenha desenvolvido capacidade para tal, poderá construir seu lar, atendendo às comodidades e estilo do que deixou na Terra. Se não consegue construir um por si mesmo, usará um construído por outro Espírito que dele não mais necessite. Os Espíritos são unânimes em afirmar que a estrutura urbana é das mais harmoniosas que já viram. O Espírito Irmão Jacob, por exemplo, testemunha, na obra Voltei, psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier, que, nas Colônias Espirituais que visitou:

Os domicílios não se torturavam uns aos outros como nas grandes cidades terrestres; ofereciam espaços regulares entre si, como a indicar que naquele abençoado reduto de fraternidade e auxílio cristão há lugar para todos. Não vi estabelecimentos comerciais, mas, em compensação, identifiquei grande número de instituições consagradas ao bem coletivo.

Entretanto, é bom observar que as mensagens sobre arquitetura espiritual divergem, algumas vezes: enquanto alguns Espíritos descrevem prédios suntuosos e belos, outros os caracterizam como simples e acolhedores, atendendo aos objetivos, caprichos e vontade de quem os construiu.

Esclareça-se, entretanto, que o aspecto do ambiente variará, segundo a condição moral daqueles que ele se acham. Os habitantes das trevas ocupam, e acordo com informação de alguns Espíritos errantes, cavernas lúgubres à semelhança das habitadas por animais ferozes. Exatamente como qualquer outra necessidade que os Espíritos errantes acreditem que devam ser atendidas, o abrigo nada mais é do que um condicionamento da vida terrena.

Na Terra, temos de nos abrigar das intempéries, as tempestades, do sol escaldante, dos ventos e dos rumais ferozes, além de preservar a intimidade da homília. No Mundo Espiritual, o ambiente difere totalmente do planeta, pois lá, como descrevem os Espíritos comunicantes, não há frio nem calor excessivos, não há terremotos nem tempestades, a luz do sol é agradável e reconfortante. As paredes não se constituem em barreiras para o desencarnado.

De tudo o Espírito usufrui quando não se encontra envolvido no emaranhado de suas paixões ou ainda ligado às sensações terrenas. Daí concluirmos que os Espíritos superiores, tendo superado essa fase, não mais precisem de qualquer habitação para seu uso exclusivo ou de seus familiares.

Lúcia Loureiro

Fonte: Associação Espírita Allan Kardec

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Mensagens de uma a mãe ao filho que morreu

As mensagens de uma mãe a um filho morto que causaram comoção em rede social

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“Meu filho, meu amor. Não consigo ir dormir sem te dizer que o teu irmão já chegou. Estão bem. Queria tanto saber se tu estavas bem. Amo-vos tanto meus filhos”, escreveu a professora aposentada Assunção Fernandes no Twitter no domingo (06/2).

A mensagem, assim como outras que ela escreve diariamente, foi direcionada a uma publicação feita no mesmo dia pelo perfil do filho mais velho dela, Pedro Gama.

O rapaz morreu em 2019. Assunção, porém, manteve uma rotina: responder a todas as mensagens compartilhadas diariamente no perfil de Pedro.

A história de mãe e filho ganhou repercussão na quinta-feira (10/2). Um post sobre o caso teve mais de 13 mil curtidas no Twitter e 500 compartilhamentos.

Nas redes, ela agradeceu o carinho que passou a receber. “Fico feliz em saber que há tanta gente solidária e que ainda podemos acreditar no amor”, escreveu a aposentada, de 69 anos, em seu perfil no Twitter.

Os tuítes

Pedro era funcionário público em Braga, Portugal, costumava viajar o mundo e gostava de conhecer diferentes culturas. Os amigos o descreviam como uma pessoa alegre e muito solidária.

“Ele sonhava com um mundo sem barreiras. Nunca, desde bem pequeno, admitia as palavras normal ou anormal para classificar as pessoas. Ele dizia que cada indivíduo era diferente e era assim que devíamos aceitar e respeitar”, diz Assunção à BBC News Brasil.

O rapaz costumava ajudar a mãe a mexer em diferentes tecnologias. Ele ensinou, por exemplo, Assunção a usar o Twitter.

“Ele era muito ativo no Instagram, no Facebook e no Twitter. Ele até ia a encontros com pessoas que tinha conhecido no Twitter”, relembra o irmão caçula de Pedro.

Foi justamente nas redes sociais que Pedro viu a chance de continuar, de certa forma, ativo mesmo após morrer. No Twitter, ele recorreu a um bot (robô) para programar diariamente a publicação de emojis. “Acredito que ele fez isso sabendo que continuaria postando coisas mesmo após isso (a morte)”, diz o irmão.

Pedro morreu aos 43 anos, em decorrência de um câncer de cólon (na parte do intestino grosso). Ele havia sido diagnosticado com a doença em 2018. Cerca de um ano depois, o quadro se agravou cada vez mais.

Nas redes, o perfil dele continuou compartilhando publicações diárias com emojis de teleféricos.

A escolha das figuras para essas publicações pode ser explicada por um post de Pedro no Twitter em novembro de 2018. Na época, ele fez uma publicação com esses emojis para lamentar que um perfil mencionou que eram os menos usados na rede social. “Os emojis menos utilizados não podem ser meios de transporte! Lute pelo que é certo”, escreveu.

Enquanto convivia com a dor da saudade intensa do primogênito, Assunção viu as publicações programadas no perfil dele e começou a interagir com elas. Ali, começou a compartilhar as novidades, detalhes sobre o cotidiano da família e nunca deixou de demonstrar o amor pelo filho.

“Tu sabes que te amo e jamais deixarei de te amar. Posso ficar com a memória reduzida a zero, mas estarás sempre no meu coração. Ontem não houve novidades conosco. Amo-vos tanto meus filhos”, escreveu em uma das interações recentes com o perfil do filho.

Segundo Assunção, essas publicações se tornaram uma forma de “desabafar” com Pedro. “Para atenuar a minha dor, e não podendo falar nele em casa por causa do meu marido, aproveitei a página dele do Twitter onde ele tinha um tuíte automático”, explicou em uma publicação na rede social nesta sexta-feira (11/2).

Essa atitude, acredita a mãe, a ajuda a enfrentar a dor da saudade e faz com que ela sinta Pedro mais perto.

A repercussão

Algumas pessoas costumavam compartilhar ou interagir com as publicações dela nas postagens automáticas do perfil do filho. Ela admite que nunca pensou que “as conversas fossem descobertas, a não ser por amigos íntimos”.

Na quinta-feira, a interação da mãe com o perfil do filho foi compartilhada por um perfil com 2,9 mil seguidores no Twitter e alcançou repercussão inesperada, pois passou a ser compartilhada por diversas pessoas.

“Ontem alguém encontrou uma das minhas conversas, comoveu-se, retuitou e a onda solidária tem sido tão grande que ainda não acabou. Não consigo responder a toda a gente e alguns tuítes que vi mas não respondi ontem, já não os consigo encontrar”, escreveu a aposentada nesta sexta-feira em seu perfil na rede social.

Os inúmeros compartilhamentos surpreenderam Assunção e o filho caçula, que atualmente tem 44 anos. A aposentada passou a receber diversas mensagens de apoio.

“Assunção, que lindo o amor de vocês. Isso é eterno. Mandando muitas energias boas aqui do Brasil”, digitou uma pessoa. “Fico sempre de coração partido quando a leio. Vejo nas suas palavras o amor que sente pelos seus e pelos outros. Ninguém neste mundo está preparado para a perda de um filho”, escreveu outra pessoa.

Para Assunção, as suas mensagens para o perfil do filho ajudaram a “despertar o coração de muitos filhos para o grande amor de mãe”.

Notícia publicada no  BBC News Brasil, em 11 de fevereiro de 2022

 Selma Trigo* comenta

A importância da compreensão da imortalidade da alma nos favorece melhor compreender que a vida é uma continuidade, e o que morre é o corpo físico. O espírito continua a ser o “Ser” em toda a sua individualidade.

A falta dessa compreensão causa dificuldade de aceitação desta realidade, e ficamos presos a atitudes e sentimentos que são prejudiciais para aquele que partiu para a Pátria Espiritual.

Mantemos pelo pensamento o espírito preso às vibrações de nossos sofrimentos por sua partida, e por mais que consideremos um ato de amor, essas lembranças e ações, na realidade, são extremamente prejudiciais, pois o espírito após ao seu desencarne passa, naturalmente, por um momento de “perturbação”, que é a transição de um estado para outro, até seu despertamento. E as vibrações que os encarnados devem emitir, em especial os pais, aqui no caso, a mãe, é o amor libertador, trabalhando o entendimento de que não existe idade para desencarnar. Cada um de nós somos seres à parte, que por um período convivemos juntos no plano terreno por uma série de motivos, que só os espíritos que são responsáveis pelo Laboratório Divino da Reencarnação são capazes de entender. Vidas passadas versus comprometimentos individual e coletivo.

A questão é que ainda estamos treinando o verdadeiro amor. O amor desprendido da posse do “meu” pelo egoísmo inconsciente. Ficar alimentando pensamento de inconformação, tristeza e de não aceitação, como também ficar apegado às coisas materiais que nosso ente querido tinha ou gostava de fazer, como uma forma de compensação de senti-lo mais próximo de nós, não é o melhor recurso.

O ideal é a lembrança saudosa, natural e compreensível, mas pautada na prece, com objetivo de ajudar ao nosso ente querido que desencarnou a sentir-se mais aliviado, confortável e fortalecido, para que possa seguir…

O apego é como “provocar a ferida aberta” no espírito, causando sofrimento e prisão.

Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no Cap. V, item 21, o tema em destaque é sobre a perda de pessoas amadas e morte prematura. Vamos a um trecho bem importante, que nos diz assim:

“Quando a morte vem até vossas famílias, levando, alguns jovens antes dos mais velhos, muitas vezes dizeis: “Deus não é justo, por quanto sacrifica o que é forte e cheio de vida, para conservar aqueles que viveram muitos anos (…)”

Precisamos compreender que não existe idade para retorno à vida espiritual. O que define o desencarne, dentro de um contexto natural, é a programação pré-estabelecida.

Continuemos a refletir, na mesma obra, Cap. V, Item 21:

“(…) A morte prematura muitas vezes é um benefício que Deus concede àquele que desencarna e que assim fica resguardado das misérias que a vida apresenta, ou das tentações que poderiam causar a sua perdição. Aquele que morre na flor da idade não é vítima da fatalidade, Deus simplesmente julga que lhe é útil não permanecer mais tempo sobre a Terra. (…)”

Mediante a beleza desse capítulo tão consolador, Fénelon, o Espírito que trouxe esta mensagem, deixa uma reflexão para as mães, em especial, dizendo:

“(…) mães, vós sabeis que vossos filhos bem-amados estão perto de vós, sim, eles estão bem perto; seus corpos fluídicos vos cercam, seus pensamentos vos protegem, vossa lembrança os enche de alegrias, mas as vossas dores sem razão os afligem, porque elas denotam falta de fé e porque são uma revolta contra a vontade de Deus. (…)”

As lágrimas da saudade são naturais aos olhos de uma mãe, pedindo a Deus e à Espiritualidade luzes abençoadas em benefício do filho que “desceu na estação da vida” antes dela. Só assim o seu coração pulsará em frequência de amor livre de apego e o filho sentirá ecoar em si o amor verdadeiro de sua mãe como recurso medicamentoso, para sua recuperação.

 * Selma Trigo Oliveira é palestrante espírita, professora e pedagoga. Pós-graduada em Supervisão Escolar pela UCAM e Pós-graduada em Avaliação Escolar pela UERJ. Coordenou por 15 anos o Seminário de Pedagogia Espírita na Educação promovido pelo Centro Espírita Léon Denis, no Rio de Janeiro.

Bibliografia:

KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo – 1ª ed. – Rio de Janeiro: CELD, 2012.

Fonte: espiritismo.net

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O quão difícil é conversar sobre a morte?

Antônio Moreira

A nossa cultura não nos ensinou a falar sobre a morte. E isso nos dificulta no enfrentamento de situações de perda de entes queridos, mesmo sendo essas experiências inevitáveis em nossas vidas. Apesar de sabermos que estamos aqui só de passagem, e que todos nós desencarnaremos um dia, raramente conversamos sobre esse assunto.

Se perguntarmos para alguém qual é o contrário da palavra vida, possivelmente ouviremos que é morte. Mas morte é o contrário de nascimento. E assim, chegamos à conclusão de que não existe o contrário de vida, pois a vida existe sempre. A vida é eterna.

O princípio básico de todas as religiões, é que a vida continua após aquilo que chamamos de morte. A vida não tem fim, pois somos seres eternos, evoluindo sempre. E assim, num processo de crescimento, aprendizagem e transformação permanente, nos aproximamos cada vez mais de Deus.

Outro fator interessante sobre a morte do corpo físico é o fato de que esse acontecimento é muito democrático. Nivela a todos: ricos e pobres, cultos e ignorantes, bons e maus, crentes e descrentes, e nos traz uma percepção de que, no final, somos todos iguais!

Precisamos ampliar a nossa compreensão sobre esse momento de nossas existências, pois a morte é a plenitude de uma vida. Ela encerra um ciclo, no tempo certo. Não no nosso tempo, mas no tempo de Deus. Aliás, somente justificaria pensar que a morte teria sido antes do tempo, se existisse uma única vida. Mas tudo acontece na época certa, no tempo em que foi planejado, em um momento especial, muito antes da nossa chegada no ventre materno.

É muito comum ouvir das pessoas, sobre o medo de morrer, por não se acharem preparadas ainda para esse momento. E, possivelmente, nunca estaremos preparados, pois sempre teremos pendências a resolver em nossas vidas. Também nos preocupamos e questionamos se uma pessoa que desencarnou estaria bem do lado de lá. E a resposta certa é que sim, muito melhor do que se ainda estivesse aqui, pois a vida verdadeira é no plano espiritual. Em algumas situações em que uma pessoa se encontrava enferma antes do falecimento, questiona-se se ela estaria doente do outro lado também. Ela estará se recuperando de forma muito mais rápida, pois agora habita um mundo muito mais evoluído, com um corpo perispiritual muito mais sutil e mais fácil de ser tratado do que a veste física que utilizava tempos atrás.

Outra preocupação que corrói o coração de familiares, acontece nos casos de suicídio. Cabe esclarecer que quem abrevia a própria vida, não quer acabar com a vida, mas com uma dor imensa que tornou-se insuportável. Mas, após perceber que a vida não acaba e ser acolhido no plano espiritual com a amorosidade do Cristo, tudo se transforma. Ninguém é abandonado! E aqueles que passaram por esse processo tão doloroso, poderão, o mais breve possível, a depender de cada caso, superar a dor de outrora e seguir sua caminhada evolutiva.

Passar pelo processo do luto, todos nós passaremos um dia, nessa vida e/ou em outras. Todavia, a nossa relação com a morte, como a entendemos, como a aceitamos, muda tudo. Ninguém quer passar por esse tipo de dor, isso é certo, mas compreender a vida além dessa encarnação transforma a forma de olhar os fatos. E quando mudamos a forma como olhamos os fatos, os fatos mudam.

Não existe castigo. Aquilo que chamamos de carmas, são necessidades de experienciar dificuldades e dores, para aliviar os sentimentos de culpa por nossos atos infelizes do passado. Assim, após experienciarmos a dor, e nos desvencilharmos de energias negativas do passado, nos tornaremos mais leves espiritualmente, e poderemos seguir, gratos pela oportunidade, a nossa caminhada rumo a mundos mais elevados.

O significado da palavra reclamar é clamar duas vezes. Ou seja, é pedir novamente. O Universo e o seu corpo entendem o seu pensamento como a sua vontade. Então, é extremamente necessário que aceitemos as experiências difíceis da vida como elas são. Aconteceu e não tem como mudar essa realidade, mas a vida precisa seguir em frente, apesar da dor.

E para finalizar, se acreditamos que Deus é justo e bom, podemos concluir que não se justifica a tentativa de negociar com Deus, visando não enfrentar dificuldades. Cabe sim, um olhar sincero para dentro de nós, buscando uma compreensão maior e a percepção honesta daquilo que poderia ser transformado para melhor. Aliás, a verdadeira bondade em nossas vidas seria aquela que a fizéssemos sem ser uma obrigação e de forma espontânea. Devemos fazer o bem naturalmente, pois amar o próximo está em nossa essência, nós apenas não nos despertamos para isso ainda.

Antônio Moreira Júnior é terapeuta de Clean Language e PNL

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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As revelações de Chopin através da mediunidade

Por Izabel Vitusso

Uma das mais respeitadas médiuns do movimento espírita brasileiro, que ganhou reconhecimento por sua dedicação e rara capacidade mediúnica, Yvonne do Amaral Pereira (1900-1984) escreveu grandes clássicos da literatura espírita, trazendo histórias marcantes, muitas delas envolvendo suas próprias experiências em outras vidas, sob a inspiração de grandes nomes da literatura, como Camilo Castelo Branco, Léon Tolstói, Victor Hugo, dentre outros.

Em um de seus livros, Devassando o Invisível (FEB, 1963), Yvonne fala sobre as sutilezas da mediunidade e também sobre os anseios de grandes espíritos e suas relações com o plano terrestre.

Frédéric Chopin (1810-1849) é um desses grandes nomes, com os quais a médium estabeleceu uma grande amizade por mais de 30 anos de convívio entre os dois planos. Polonês de nascença, Frédéric Chopin viveu na França na época de Allan Kardec, quando tornou-se um dos grandes gênios da música, como compositor e pianista.

O primeiro encontro

Yvonne Pereira relata sobre a emoção que sentia ao perceber a presença do artista, pela ternura e pela confiança que os envolviam. Conta que se viu surpreendida por ele pela primeira vez em 1931 e que o prenúncio da sua chegada se fazia sempre com um perfume de violeta, mais precisamente com o cheiro de folha de violeta apanhada na chuva, como certa vez ele explicou para a médium.

Os encontros eram sempre promovidos e acompanhados por Charles, um dos mentores da médium, — quando Chopin falava de seus sentimentos e anseios, como o fato de se sentir intensamente atraído para os planos terrestres pelas “intensas forças telepáticas”. Dizia que, naquele tempo, estavam reencarnadas no Brasil personalidades que lhe eram muito caras, que ele viveu em várias épocas na Terra servindo às belas artes, à arquitetura, à pintura, e finalmente à música, o ponto culminante da manifestação artística em nosso planeta.

Atenta para tecer comentários instrutivos, Yvonne lembra que grandes artistas não se tornam espiritualmente superiores só por sua genialidade. “Como homens, cometeram muitas vezes deslizes graves. Por isso é que muitos retornaram a reencarnações obscuras após curto estágio no além”. Isso aconteceu também com o espírito Chopin, que se submeteu a uma rápida existência na Terra, humilde, apagada, porém triunfante.

Vínculos com o Brasil

Falando sobre sua relação com os planos terrestres, Chopin contou em um dos encontros – que se davam em estado de desdobramento da médium ou por materialização do próprio espírito — que sabia ser muito amado pelos brasileiros, o que o deixava muito enternecido, mas que às vezes sentia falta de preces dirigidas a ele, que serviriam de estímulo para as tarefas que empreenderia na próxima reencarnação. Tinha planos de servir a Deus e ao próximo, o que não havia feito ainda por meio da música. Pretendia reencarnar no Brasil, um país que “futuramente muito auxiliará no triunfo moral das criaturas necessitadas de progresso”, mas que tal só aconteceria a partir do ano 2000, quando desceria à Terra brilhante falange de espíritos com o compromisso de moralizar e sublimar as artes, sob a tutela de Victor Hugo, espírito capaz de executar missões dessa natureza, a quem Chopin se achava ligado por afinidades espirituais seculares.

Yvonne traz informações asseguradas pelo mentor Charles de que espíritos como Chopin, Beethoven, Mozart, Bellini, Rossini etc, “embora ainda não santificados ou plenamente redimidos, não têm grande necessidade da reencarnação, porque progredirão mesmo no Espaço, e que vêm à Terra quando o desejam e por uma especial solidariedade para com os humanos, a fim de estimularem entre estes o amor pelo Belo, pois que esse atributo é tão necessário às almas em progresso quanto o Amor”.

O exercício do amor

Yvonne reproduz no livro o diálogo que teve com o gênio da música quando este lhe disse que estava aprimorando seus estudos no campo a medicina psíquica, preparando-se para a próxima encarnação:

— Quer dizer que… ao voltar à reencarnação será médium curador, talvez receitista? —  interroga Yvonne.

Chopin sorriu satisfeito e sacudiu a cabeça, afirmativamente.

— Então, não virá mais como artista? — ela insiste.

— Por que não poderei aliar as duas qualidades, se os artistas, muitas vezes, não passam de médiuns? Nada me impede de continuar como artista nas reencarnações vindouras, pois não profanei as artes nem cometi quaisquer deslizes nesse setor. Mas, no momento, o que me preocupa mais é o desejo de servir aos pequeninos e sofredores, aos quais nunca protegi. Em minhas passadas existências, apenas servi aos grandes da Terra. Não desejo nem mesmo auferir proventos monetários, pessoais, da música. As artes, em geral, deverão ser praticadas gratuitamente, com amor e unção religiosa — explica o artista.

Yvonne Pereira busca com Frédéric Chopin o aval para dividir com os encarnados todos aqueles fragmentos de vida a ela contados, de alguém muito querido, um artista que encantou o mundo e até hoje arrebata nossa alma com sua genialidade.

Fonte: correio.news

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