Não existem milagres, existem leis físicas…que a nossa ciência ainda não alcançou

Entrevista especial com Dr. Paulo César Fructuoso

Escrito por: Redação do Correio Espírita

Médico, escritor e estudioso em ectoplasmia fala sobre Doutrina, trabalho mediúnico e a morte do médium Gilberto Arruda

A entrevista aconteceu dentro de um hospital público no Rio de Janeiro, durante um tempo cedido por gentileza na agenda repleta de responsabilidades e compromissos de Paulo César Fructuoso. Médico oncologista, mastologista e cirurgião geral, Fructuoso é também palestrante espírita, estudioso de ectoplasmia e materialização dos espíritos, médium e autor de 4 livros: A Face Oculta da Medicina, Espíritos Decaídos e Materializados, Reflexões Espiritualistas e Científicas de um Médico e Alienígenas ou Médiuns? este último lançado no mês de março deste ano. Não é à toa que ele é membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores.

Espírita desde criança, começou a se interessar por ectoplasmia quando estava no terceiro ano de medicina, em 1972. Na época, um episódio acontecido com o pai chamou a atenção: “meu pai tinha chegado de uma reunião do grupo Frei Luiz, a qual eu pertenço até hoje, e estava com uma mancha enorme de sangue na camisa. Eu perguntei o que tinha acontecido e ele me disse que tinha sido submetido a uma cirurgia hiperfísica, uma “cirurgia espiritual”. Para um acadêmico de medicina isso era uma coisa muita estranha, até difícil de acreditar, principalmente quando não existia nenhuma cicatriz”, lembrou Fructuoso. Intrigado, o na época jovem aspirante a médico decidiu levar o pai para fazer exames e avaliações: “o radiologista perguntou se o meu pai tinha se submetido a alguma cirurgia. Evidentemente que falei que não. Mas aquilo me causou muita estranheza, porque ele via sinais de que alguma cirurgia tinha sido feita. Mas eu só passei a ter tempo para estudar mais efetivamente esses fenômenos em 1978, aí eu ingressei e nunca mais saí”, contou o médico.

Depois de tantas oportunidades de acompanhar e estudar de perto diversas curas, Dr. Fructuoso é categórico em dizer: “não acredito em milagres! Não existem milagres! Existem leis físicas, químicas e biológicas que a nossa ciência ainda não alcançou”, e ainda complementou: “a minha experiência já me comprovou que nenhum médico está sozinho, nem os que não acreditam nisso estão sozinhos. Porque nós, como médicos, só podemos tratar da parte material do nosso ser, mas quem está tratando da parte mais importante, que é a espiritual? Então todo o médico, mesmo o que não acredite nisso, está acompanhado por médicos espirituais que o ajuda na missão. E eles são tão humildes que nem deixam que percebamos a ajuda”.

Dr. Paulo César Fructuoso falou também sobre a morte do amigo Gilberto Arruda, assassinado em casa, dentro do Lar de Frei Luiz, em julho 2015. Gilberto Arruda era um dos principais médiuns do Centro, na Zona Oeste do Rio, e trabalhava diretamente nas reuniões de cirurgias espirituais em pacientes graves. Acompanhe abaixo a entrevista:

Correio Espírita – Embora saibamos que o Espiritismo é ciência, filosofia e religião, no meio acadêmico, a Doutrina ainda é vista com restrição. O senhor acredita que estamos avançando neste aspecto?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Sim. Porque a tecnologia médica está cada vez mais avançando. Mais cedo ou mais tarde, a tecnologia se tornará tão sensível que permitirá a detecção da presença do ser energético espiritual acoplado ao corpo. E no momento da morte, essa tecnologia médica vai nos auxiliar, pela sensibilidade, a perceber a separação exata entre o corpo e o espírito. Isso é questão de tempo!”

Correio Espírita – Ciente da ajuda incansável dos amigos espirituais, o senhor costuma fazer prece antes de um atendimento ou cirurgia?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Eu não entro em nenhuma cirurgia sem antes dizer a seguinte frase: ’Deus nos ajude’! Sempre é bom pedir. E quando eu não digo essa frase, fico só pensando, meus assistentes, residentes, me perguntam se eu não esqueci de falar nada”.

Correio Espírita – O senhor é estudioso de efeitos físicos, ectoplasmia e materialização. Todos os livros têm esse cunho. Mas o que presenciamos é cada vez menos atividades deste porte nas casas espíritas. Por que isso acontece?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Efeito físico é movimento de objeto sem força aparente, ruídos sem causa aparente, presença de odores inexplicáveis no ambiente como éter, cânfora, arruda… Isso é efeito físico, que culmina com a materialização de espíritos. São fenômenos extremamente raros em toda a história humanidade!

Já o ectoplasma, que é energia, é utilizado pelos espíritos presentes em uma reunião, mas raramente os fenômenos físicos acontecem. Apenas médiuns videntes percebem isso. E essa energia, o ectoplasma, é utilizada em auxílio dos pacientes que se encontram na reunião.

Nos meus livros eu falo da ectoplasmia e dos fenômenos de efeitos físicos, incluindo a materialização de espíritos, porque eu convivi com isso nos últimos 40 anos.

Essas reuniões são raríssimas porque os médiuns de efeitos físicos também são muito raros. Eles foram dizimados na idade média pela inquisição, porque foram tachados de feiticeiros e magos. E como toda a mediunidade, as de efeitos físicos também são transferidas geneticamente para as gerações futuras. Ora, se se dizimou uma geração quase inteira, a propagação dessa mediunidade ficou muito abalada, diminuída.

Outra razão para essa escassez de reuniões de materialização é a grande quantidade de energia envolvida neste processo. Precisa estar em mãos de pessoas muito conscientes da responsabilidade de se estar nessa reunião.

Só há dois motivos para que a materialização de espíritos seja autorizada pelo plano espiritual: atendimento de pessoas enfermas, que apresentem doenças que a nossa medicina pouco ainda pode fazer, como o câncer. E o fornecimento de lampejos que mostram como será a medicina do futuro. Porque os médicos do futuro serão médiuns. Não vão precisar de Raio X, ressonância, ultrassom, porque com a própria mediunidade eles vão saber descortinar o corpo humano.

Correio Espírita – Explique para nós como acontece a materialização de espíritos?

Dr. Paulo César Fructuoso – “O médium de efeito físico entra em transe profundo, porque há uma liberação, sob o comando de entidades espirituais, de neurotransmissores existentes no nosso sistema nervoso, chamados endorfinas e encefalinas. Essas endorfinas e encefalinas são anestésicos, soníferos. Então como é feita uma grande descarga, uma grande liberação no médium de efeito físico, ele entra em transe. Quando ele entra nesse transe mediúnico, começa a expelir, pelos orifícios naturais do corpo, o ectoplasma de forma fluídica, que se liquefaz e se solidifica. É essa energia ectoplasmática, esse fluido energético que reveste o perispírito das entidades presentes e elas se corporificam, se materializam.

Se estivermos em alguma reunião em que aconteça a materialização de espíritos, todos os presentes verão, e não só os médiuns videntes. Se o Espírito falar alguma palavra, todos os presentes o ouvirão. Se ele exalar algum odor, todos também sentirão.

Para que essas reuniões aconteçam, há uma série de exigências, exigências científicas, como por exemplo a ausência da luz. Isso porque os fótons das luzes natural e artificial afetam o ectoplasma e o médium quando em transe. São reações físicas e químicas que precisam da ausência da luz, assim como era preciso a ausência da luz para se revelar os filmes fotográficos no passado.

Correio Espírita – Qual a importância dos efeitos físicos ao longo da história humana?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Os fenômenos físicos foram que levaram a ratificação do Cristianismo. Eu falei que o ectoplasma sai principalmente pelos orifícios naturais, como boca e nariz. O que os discípulos de Jesus viram e escreveram no seu testemunho, quando Ele curou um cego? Jesus cuspiu na terra, formou um cataplasma com a saliva que saiu da boca dele e aplicou na vista do cego, que voltou a enxergar. Mas e se não foi saliva que saiu da boca de Jesus? Se foi ectoplasma? Ele também era médium, o maior médium que já passou pelo planeta. Os discípulos devem ter visto, na minha opinião, ectoplasma saindo da boca de Jesus.

Correio Espírita – E para o futuro?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Acredito que as reuniões de materialização ficarão mais frequentes no futuro, porque estão previstas a chegada de quatro grandes vertentes de espíritos na Terra, como já foi adiantado por Divaldo Pereira Franco. Uns ligados à corrente da engenharia, que trarão grandes invenções; o segundo grupo com grande senso de justiça; o terceiro voltado para o ramo das artes; e o quarto, e me parece ser o mais importante, espíritos com grande capacidade mediúnica”.

Correio Espírita – Sobre a morte do médium Gilberto Arruda. Todos ficamos chocados com o crime na época. O que o senhor, que foi amigo dele, tem a nos falar sobre esse acontecimento?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Todos os médiuns de efeito físico são indivíduos altamente endividados. É dada as eles a missão da mediunidade de efeito físico para que mais rapidamente possam resgatar as dívidas do passado. Muitos não imaginam o que é ser um médium de efeito físico. Nós temos um envoltório em torno do nosso espírito chamado tela búdica, que impede que sintamos o contato dos espíritos que estão à nossa volta. Os médiuns de efeito físico têm a tela búdica mais fina e fenestrada, e por isso expelem com mais facilidade o ectoplasma. Mas isso traz um inconveniente, eles sentem o toque dos espíritos. O Gilberto sentia, do nada, bofetadas, beliscões, pontapés, puxões de cabelo… Além disso, geralmente, os médiuns de efeito físico têm morte violenta. O médium José Arigó, por exemplo, morreu em um desastre de automóvel.

O Gilberto tinha dificuldade para dormir, tamanha era a tortura que ele sofria por parte dos espíritos inimigos do plano espiritual, quando era criança e adolescente. Ele só conseguia adormecer quando deitava entre o pai e mãe, segurava a mão dos dois e eles entravam em prece.

Já se sabe quem cometeu esse crime contra Gilberto Arruda. Ele está preso. Mas esse trabalho que o Correio Espírita está fazendo é muito importante, pois esclarece sobre o fato”.

Correio Espírita – Já se teve notícias do médium Gilberto Arruda do plano espiritual?

Dr. Paulo César Fructuoso – “Sim. Ele está recuperado, emocionado em saber do apoio daqueles que aqui ficaram e feliz em estar com os entes queridos”

Postado por Sérgio Vencio às terça-feira, maio 31, 2022

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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Somos os Construtores do Mundo

José Herculano Pires

Resultado de imagem para Imagem José Herculano Pires. Tamanho: 195 x 104. Fonte: amigosdaboanova.com.br

O final deste importante artigo, o intertítulo “Uma Tomada de Consciência”, tem sido divulgado erroneamente sob o título deste ensaio, que abrange diversas outras questões, não necessariamente as restritas ao movimento espírita. Inspirados neste artigo, vários eventos espíritas foram organizados, debates e confraternizações de jovens espíritas. Devido à sua profundidade e importância histórica, o PENSE publicou na íntegra este que é um dos mais inflamados e apaixonados textos do mestre Herculano Pires (1914-1979), jornalista e escritor espírita, um dos maiores pensadores espíritas do século 20. Publicado no periódico “Mensagem”, do qual era editor, em setembro de 1975, o texto foi redigido em meio a conflitos entre o ‘Guarda Noturno do Espiritismo’ e a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp), devido a uma tradução adulterada de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, feita pela Feesp e que foi denunciada por Herculano.

Os profetas da tragédia falam em cataclismos geológicos, guerra nuclear, guerra bacteriológica, pestes, epidemias arrasadoras para este último quartel do século 20. Aves agoureiras anunciam a fome mundial pelo aumento da população terrena, o desaparecimento da atmosfera planetária por efeito de explosões atômicas, da devastação das matas, da poluição ambiental. Estaríamos numa fase de contradições insanáveis. O progresso acelerado nos levaria fatalmente à desgraça total, ao cumprimento das profecias apocalíticas, ao fim do mundo.

Apesar deles e dos alarmistas que propagam as suas ideias mortíferas, dos terroristas do boato, há homens sensatos, cientistas ponderados, futurólogos que não se engajam no jogo dos trustes do medo. Estes procuram mostrar, através de dados concretos e raciocínios objetivos, que as crises atuais que enfrentamos são sintomas de desenvolvimento, comuns a todos os processos de crescimento. Outros, como Isaac Asimov, fazendo concessões às mentes delirantes, sugerem soluções curiosas de ficção científica: a colonização da Lua e de Marte, a construção de cidades submarinas e cidades espaciais, o controle maciço da natalidade, a aplicação de métodos químicos para a redução do tamanho do homem e assim por diante. Milhões de criaturas humanas poderiam viver em cidades metálicas, construídas em funis gigantescos localizados em zonas intermediárias da gravitação terrena e da gravitação lunar.

Não há dúvida que estamos numa era apocalítica, semelhante a que houve na Palestina na antevéspera do advento do Cristianismo, quando as profecias da destruição constituíam o alimento preferido do sadismo coletivo. Foi precisamente dessas profecias que resultou o Apocalipse evangélico atribuído ao apóstolo João, que o teria recebido do próprio Cristo na ilha de Patmos. Essa visão judaica do fim do mundo foi considerada por Renan, Harnak, Guignebert e outros investigadores conscienciosos como um livro apócrifo, referente à queda do Império Romano, e por mero equívoco anexado às páginas do Evangelho. Mas quem poderia convencer disso os piedosos adeptos das religiões do terror, cuja fé nas desgraças vindouras é hoje alentada e alimentada pelas novas previsões de catástrofes?

O HOMEM É O PERIGO

Essas visões remotas de um tempo há muito superado são hoje exploradas pelos grupos interessados em manter o mundo nas garras. Há perigo, sem dúvida, numa fase de transição como a em que nos encontramos. Mas o perigo não vem do céu, da ira de Deus, da instalação do Tribunal do Messias entre as nuvens, com anjos tocando trombetas assustadoras nos pontos cardiais da Terra e os mortos ressuscitando sob nevoeiros atômicos, com seus corpos mortais reconstituídos pela vingança divina. Essas apreensões ilógicas e ridículas, muitas vezes pregadas do púlpito das igrejas cristãs, de tribunas espíritas e até mesmo de cátedras universitárias, devolvem-nos à era das civilizações primitivas, agrárias e pastoris, e aos terrores do mundo mitológico ou dos sermonários medievais. O perigo existe e esse perigo é o homem, somos nós mesmos. Uma guerra nuclear não seria desencadeada pelos astros ou pela ira de Deus, mas pelos homens responsáveis pelo equilíbrio do mundo social, do mundo humano. O mundo natural, constituído pela Natureza, sofreria as consequências da loucura humana, mas poderia recuperar, através de suas leis de equilíbrio e conservação, as zonas devastadas.

A ideia de que o homem pode destruir o mundo provém de dois elementos de concepções antiquadas, hoje inaceitáveis:

1.) O orgulho humano, que pretende sobrepor a fragilidade da criatura à onipotência do Criador;

2.) A crença ingênua nos poderes mágicos, segundo a qual os mágicos podiam destruir as coisas, os seres e o próprio mundo com simples sinais cabalísticos.

O aumento do conhecimento científico provoca vertigens em cérebros pouco estáveis, pouco seguros, e a vaidade natural da espécie faz certos homens pensarem que descobriram a chave da Natureza e podem manipulá-la com seus novos instrumentos técnicos, que lhes dão um acréscimo enorme de poder. Por outro lado, o pensamento mágico, sempre necessariamente contraditório, aceita a existência do Gênio Maligno de Descartes (simples hipótese de pesquisa) e transforma Deus numa espécie de Frankenstein, um ser dotado de dupla personalidade, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo.

Mas se compreendermos, para começar, que Deus não é uma personalidade humana, mas um centro cósmico de inteligência e poder, que mantém não apenas o equilíbrio da Natureza, da Terra e do Sistema Solar, mas de todo o Cosmos, com sua infinidade de galáxias, em que milhões e milhões de mundos existem, então será fácil entendermos a falácia e o delírio dessas profecias terroristas. A Terra é um grão de areia no infinito, de maneira que o temporal desencadeado nela pelo homem seria bem menos do que uma tempestade num copo d’água.

UMA VISÃO REAL

Os estudiosos, os pesquisadores, os cientistas honestos advertem-nos contra os abusos do poder humano, que podem causar muitos males desequilibrando o meio ambiente. Mas reconhecem, como vimos ainda recentemente no Congresso Internacional de Belgrado sobre a questão populacional, que a situação desastrosa do planeta refere-se a determinadas zonas superpovoadas, como os grandes centros urbanos, as nações altamente industrializadas, e não a toda a Terra. Enquanto, por exemplo, as megalópoles crescem envenenadas pelos seus próprios excessos industriais, as vastas zonas campestres se despovoam. A Terra tem capacidade para uma população muitas vezes maior do que a atual e do que a prevista pelos futurólogos para os próximos anos. A falta de alimentos não decorre da falta de produtividade, mas da falta de transportes e distribuição equitativa do alimento produzido. Além disso, há o problema evidente da falta de distribuição dos recursos financeiros, da falta de revisão da estrutura econômica mundial, sujeita cada vez mais a colapsos provenientes de suas deficiências, de seus clamorosos desequilíbrios.

Cabe ao homem reestruturar os seus esquemas sociais, reajustando-os à necessidade de harmonia e equilíbrio da vida planetária. Cabe ao homem encarar esses problemas por um prisma humanístico, em que prevaleça o princípio do respeito à criatura humana, acima da defesa de princípios sociais e econômicos que estabeleceram regimes de privilégios desumanos em todo o mundo, ainda vigentes, sustentados e estimulados tanto na chamada área socialista, quanto na área do capitalismo ou neocapitalismo, tanto nos países desenvolvidos, quanto nos subdesenvolvidos ou em processo de desenvolvimento.

Delegar a entidades divinas o que nos compete ou querer investir contra as divindades, como novos Prometeus que pretendam roubar o fogo do céu, é simples manobra de fuga ao cumprimento de nossas responsabilidades imediatas. Os princípios evangélicos, a evolução do Direito, a Carta dos Direitos Humanos, o avanço do pensamento filosófico, o desenvolvimento científico e tecnológico, o amadurecimento da razão, todos esses fatores e muitos outros abrem perspectivas novas para a solução dos nossos problemas sociais, culturais e econômicos. Mas, os interesses constituídos e a cegueira da maioria das criaturas (ou a miopia coletiva) impedem a ação eficaz para essa solução. Não precisamos de cidades em funis metálicos no espaço sideral. Aqui mesmo, na Terra, há lugares de sobra para a multiplicação inevitável de nossos centros urbanos. O neomaltusanismo dos nossos dias é ainda mais desarrazoado que o de Malthus. Nossas possibilidades de produção de alimentos cresceram em progressão geométrica, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. O que nos falta é o controle, a ordenação precisa e rigorosa dessas possibilidades, para que os perigos humanos que nos ameaçam sejam superados.

ADMINISTRAÇÃO TERRENA

Dos seus voos heroicos, hoje insignificantes ante o progresso espantoso dos voos aeronáuticos e astronáuticos, Saint-Exupéry chegou à conclusão que deu título ao seu livro famoso: “Terra dos Homens”. Tinha razão o poeta-voador. A Terra é nossa. Foi o ninho em que nascemos e nos desenvolvemos. Mas ainda não aprendemos a administrá-la. A reduzida população terrena dos milênios transcorridos, confinada em zonas determinadas do planeta, com suas civilizações ilhadas, legou-nos a experiência das administrações locais, reduzidas a técnicas dispersivas, desligadas da visão universal que o Cristianismo nos traria. Aprendemos a administrar pequenas nações, mesmo quando situadas em grandes territórios, e a lei da inércia, dominante na estática social e anquilosada nas tradições regionais, consagrou princípios inadequados, impondo-os ao mundo mais vasto e rico do futuro (hoje convertido em presente) como se tivessem validade universal e eterna. Percebemos isso, sentimos o desajuste, mas os interesses criados e a ambição estimulada continuam a agir como meios de contenção do processo renovador.

A evolução cultural deu-nos a possibilidade de compreender Deus em plano superior, mas as nossas deficiências de formação impedem essa compreensão e ainda nos amarram a condicionamentos embaraçosos. Não somos capazes de entender a senha lírica de Saint-Exupéry e transformar o planeta na Terra dos Homens. Não compreendemos sequer a responsabilidade de organização e administração planetária, que decorre de nosso próprio livre-arbítrio, de nossa própria liberdade. Apelamos para esquemas rígidos e desumanos, baseados em processos de violência e opressão, esquecidos do princípio fundamental da fraternidade humana. Falamos em igualdade de direitos, em distribuição da riqueza, em oportunidades para todos, e continuamos a agir como barões feudais, sem forças para rejeitar os sistemas de escravidão e servidão que nos vêm do passado remoto.

Diante do sentimento de impotência gerado por essa situação e pelas dolorosas experiências recentes de soluções arbitrárias, impostas pela força, com o esmagamento das liberdades humanas, com o desrespeito à dignidade da criatura humana, apelamos para a descrença nos valores do espírito e mergulhamos no caos das concepções materialistas e pragmatistas.

Não é Deus, nem quaisquer outras divindades, que nos ameaçam com flagelos destruidores. Somos nós mesmos, os homens, os produtores de flagelos, os criadores de cataclismos.

DESENVOLVIMENTO DA INTELIGÊNCIA

Desenvolvemos a inteligência de maneira assombrosa. Reclamamos a falta de gênios, em comparação com as idades de ouro do passado, e não percebemos que temos mais ouro do que nunca e por isso mesmo os gênios não alcançam o destaque e a fama de outras eras. Aludimos ao inconsciente coletivo e não vemos o arejamento da consciência coletiva, o crescimento da inteligência no povo, nas massas.

Costuma-se atribuir à influência dos novos meios de comunicação a precocidade mental das crianças de hoje, esquecendo-se que a evolução natural da inteligência determinou o aprimoramento e a expansão dos meios de comunicação. As novas gerações manifestam-se inquietas, criando problemas, suscitando crises morais, políticas e sociais. Como afirma Ingenieros: “A juventude toca a rebate em toda renovação”. Dewey acentuou a importância da reelaboração das experiências pelas novas gerações. Cada jovem é um projeto de realizações renovadoras, em maior ou menor medida, e não temos o direito de frustrá-los com o nosso temor do futuro. Eles, os jovens, são o futuro e temos de ajudá-los na realização de suas aspirações, integrando-os nas experiências atuais e preparando-os para o amanhã.

A posição conservadora das velhas gerações decorre do instinto natural de conservação. Faz parte do processo evolutivo, como força moderadora dos impulsos de renovação. Mas os jovens representam a renovação em marcha e cabe-nos o dever de procurar compreendê-los, nunca o de exclui-los ou de querer reduzi-los a conservadores forçados ou fingidos. As velhas gerações vão passando e as novas poderão impor-se através de processos violentos, como reação às opressões sofridas.

O grau atual de desenvolvimento da inteligência humana permite-nos compreender perfeitamente esse processo da dialética da evolução e contribuirmos para manter o equilíbrio necessário na fase de transição que atravessamos. Muitos pedagogos, como Dewey, Kilpatrick, Hubert, Kerschensteiner, lutaram e vêm lutando para estabelecer um tipo adequado de educação a uma civilização em mudança. Essa adequação não pode prescindir de uma compreensão mais ampla do problema espiritual, superando o equívoco do laicismo e da formação sectária de tipo igrejeiro. A Educação Espírita apresenta-se como mediadora para a solução desse problema, oferecendo contribuições decisivas, mas infelizmente o próprio meio espírita não se mostra capaz de compreender o que seja educação espírita.

A única revista especializada do mundo, nesse setor de importância vital para este momento, foi lançada em São Paulo pela editora Edicel, sem finalidade comercial e não está podendo sustentar-se, ante o desinteresse geral, que abrange até mesmo a rede escolar espírita. A inteligência espírita, apegada a um misticismo antidoutrinário, revela-se tão inepta quanto os rabinos do Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, para compreender o seu dever na hora atual. Essa é uma responsabilidade muito mais grave do que geralmente se pensa, nesta hora de transição. E não só os espíritas devem arcar com ela, mas todos os homens de inteligência e cultura que podem contribuir para o esclarecimento popular.

UMA TOMADA DE CONSCIÊNCIA

O apego ao contingente, ao imediato, apaga na consciência dos nossos dias o senso da responsabilidade espiritual. Nem mesmo a ronda constante da morte consegue arrancar o homem atual da embriaguez do presente. O problema do espírito e da imortalidade só se aviva quando ligado diretamente a questões de interesse pessoal. O católico, o protestante e o espírita se equivalem nesse sentido. Todos buscam os caminhos do espírito para a solução de questões imediatistas ou para garantirem a si mesmos uma situação melhor depois da morte.

A maioria absoluta dos espiritualistas está sempre disposta a investir (este é o termo exato) em obras assistenciais, mas revela o maior desinteresse pelas obras culturais. Apegam-se os religiosos de todos os matizes à tábua de salvação da caridade material, aplicando grandes doações em hospitais, orfanatos e creches, mas esquecendo-se dos interesses básicos da cultura. Garantem os juros da caridade no pós-morte, mas contraem pesadas dívidas no tocante à divulgação, sustentação e defesa de princípios fundamentais da renovação da cultura planetária.

A imprensa, a literatura, o ensaio, o estudo, a fixação das linhas mestras da nova cultura terrena fica ao deus-dará. Falta uma tomada de consciência, particularmente no meio espírita, da responsabilidade de todos na construção e na elaboração da Nova Era, que é trabalho dos homens na Terra.

Ninguém ou quase ninguém compreende que sem uma estruturação cultural elevada, sem estudos aprofundados no plano cultural, que revelem as novas dimensões do mundo e do homem na perspectiva espírita, o Espiritismo não passará de uma seita religiosa de fundo egoísta, buscando a salvação pessoal de seus adeptos, precisamente aquilo que Kardec lutou para evitar.

A finalidade do Espiritismo, como Kardec acentuou, não é a salvação individual, mas a transformação total do mundo, num vasto processo de redenção coletiva. Proporcionar aos jovens uma formação cultural apoiada na mais positiva e completa base espiritual, que mostre a insensatez das concepções materialistas e pragmatistas, dando-lhes a firmeza necessária na sustentação e defesa dos princípios doutrinários, não é só caridade, mas também realização efetiva dos objetivos superiores do Espiritismo nesta fase de transição. Sem esse trabalho não poderemos avançar com segurança e eficácia na direção da Era do Espírito. Temos de dar às novas gerações a possibilidade de afirmarem, diante do desenvolvimento das Ciências e do avanço geral da Cultura, como disse Denis Bradley: “Eu não creio, eu sei!” Porque é pelo saber, e não pela crença, pela fé racional e não pela fé cega, pelo conhecimento e não pelas teorias indemonstráveis que o Espiritismo, como revelação espiritual, terá de modelar a nova realidade terrena, apoiado na confirmação científica, pela pesquisa, dos seus postulados fundamentais. A revelação humana confirma e comprova a revelação divina.

Esse é o problema que ninguém parece compreender. Todos sonham com o momento em que a Ciência deverá proclamar a realidade do espírito. Mas, essa proclamação jamais será feita se a Ciência Espírita não atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura, a visão materialista do mundo e a concepção materialista do homem. Por isso precisamos de Universidades Espíritas, de Institutos de Cultura Espírita dotados de recursos para uma produção cultural digna de respeito, de Laboratórios de Pesquisa Psíquica estruturados com aparelhagem eficiente e orientados por metodologia segura, planejada e testada por especialistas de verdade, capazes de dominar o seu campo de trabalho e de enfrentar com provas irrefutáveis os sofismas dos negadores sistemáticos. É uma batalha que se trava, o bom combate de que falava o apóstolo Paulo, agora desenvolvido com todos os recursos da tecnologia.

Chega de pieguice religiosa, de palestras sem fim sobre a fraternidade impossível no meio de lobos vestidos de ovelhas. Chega de caridade interesseira, de imprensa condicionada à crença simplória, de falações emotivas que não passam de formas de chantagem emocional. Precisamos da Religião viril que remodela o homem e o mundo na base da verdade comprovada. Da caridade real que não se traduz em esmolas, mas na efetivação da fraternidade humana oriunda do conhecimento de nossa constituição orgânica e espiritual comuns, ou seja, da inelutável igualdade humana. De exposições sábias e profundas dos problemas do espírito, nascidas da reflexão madura e do estudo metódico e profundo. Temos de acordar os dorminhocos da preguiça mental e convocar a todos para as trincheiras da guerra incruenta da sabedoria contra a ignorância, da realidade contra a ilusão, da verdade contra a mentira. Sem essa revolução em nossos processos não chegaremos ao mundo melhor que já está batendo, impaciente, às nossas portas.

Não façamos do Espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construi-lo segundo o modelo dos mundos superiores que esplendem nas constelações. Estudemos a doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é a nossa tarefa.

Fonte: Jornal “Mensagem”, órgão de divulgação do Grupo Espírita Cairbar Schutel, sob a direção de J. Herculano Pires – setembro de 1975 – ano I, nº 4 – São Paulo-SP.

Espiritualidade e Sociedade

José Herculano Pires (1914-1979), jornalista, poeta, filósofo, escritor e um dos maiores pensadores do espiritismo contemporâneo, é autor de mais de 80 obras sobre espiritismo, parapsicologia, educação, filosofia dentre outros temas.

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O Ódio nas Redes Sociais e as Energias Negativas

Geane O. Lanes

No âmbito da internet, as redes sociais são estruturas compostas por diferentes pessoas que buscam compartilhar experiências e criar relações. Embora sejam valorosas ferramentas de aprendizado e de propagação de mensagens positivas, infelizmente, as redes sociais são utilizadas por muitas pessoas como veículo para disseminação da violência e de discursos de ódio.

Muitas vezes anônimas ou disfarçadas sob falsos pretextos de obter justiça, as postagens de ódio mostram mais sobre quem as propaga do que a respeito das pessoas a quem são direcionadas, porque, mesmo sem perceber, os que disseminam esse tipo de mensagem geralmente são impulsionados pela vaidade e pela insatisfação pessoal. Dessa forma, independentemente das ações cometidas pelos alvos dessas postagens, as mensagens e comentários nas redes sociais que incitam a violência e o ódio evidenciam o que seus autores ainda carregam em seu íntimo, uma vez que “todo pensamento mau resulta, pois, da imperfeição da alma” (KARDEC, 2013a).

Segundo a Constituição Brasileira (BRASIL, 1988), todos têm o direito a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo (art. 220). Por outro lado, essa liberdade é limitada pelo Código Penal (BRASIL, 1940), o qual determina como crimes contra a honra: caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime (art. 138); difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação (art. 139); injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro (art. 140). Dessa forma, o nosso direito de expressão não nos exime das consequências de nossas ações e não deve desrespeitar o direito do próximo.

Além disso, devemos avaliar quais são os nossos reais objetivos ao propagar mensagens que ofendam uma ou mais pessoas, compreendendo o peso que nossas atitudes podem ter em nossas vidas e também no coletivo. O ódio disseminado nas redes sociais atrai a atenção de pessoas que comungam com os mesmos objetivos e opiniões, os quais podem enxergar nessas mensagens o estímulo necessário para também propagarem o ódio e até mesmo colocá-lo em prática por meio de atos de violência. Como apontado na Bíblia, mesmo que essa não seja a sua intenção, “o violento recruta o seu próximo e o leva por um caminho ruim” (Provérbios 16: 29).

Também precisamos lembrar que os discursos de ódio nas redes sociais alcançam não apenas aqueles que têm acesso a eles, já que os encarnados influenciados por essas mensagens também têm poder de influência sobre outros encarnados. Assim, aqueles que compactuam e concordam com essas mensagens podem retransmiti-las em seu convívio pessoal e também em suas redes sociais, disseminando a mensagem original para um grande número de pessoas e, muitas vezes, atribuindo a ela mais ódio e preconceito.

Se as nossas ações locais impactam aqueles que estão ao nosso lado, quando ganham a amplitude oferecida pela internet, elas podem chegar a todos os cantos do mundo, influenciando negativamente muitos irmãos invigilantes e levando dor e sofrimento a quem nem mesmo conhecemos. Em acréscimo, as energias atreladas às mensagens e comentários que postamos nas redes sociais não chegam apenas aos encarnados, mas também aos desencarnados, que, por sua vez, também influenciam outros desencarnados e encarnados.

Mas como as mensagens nas redes sociais poderiam ter impacto sobre os desencarnados? Estariam eles também ligados à internet? Com o estudo da Doutrina Espírita, nossas companhias espirituais são determinadas pelos pensamentos que alimentamos, visto que “Espíritos só se apegam aos que, pelos seus desejos, os chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem” (KARDEC, 2013b). Dessa forma, as energias negativas que emanamos têm o grande poder de atrair irmãos que compartilham os mesmos pensamentos e ideais, os quais, em um processo de retroalimentação, ajudam-nos a inflar ainda mais o ódio e o rancor.

Por conseguinte, quando propagamos pensamentos negativos nas redes sociais, além de atraímos irmãos espirituais em sintonia conosco, contribuímos para que esse mesmo processo aconteça com aqueles que, por negligência, deixam-se influenciar por nossas ações. De forma alguma, devemos nos culpar pelas ações que os outros cometem influenciados por nós, mas precisamos refletir como as atitudes que tomamos e, muitas vezes, consideramos insignificantes, podem repercutir negativamente em nossas vidas e na humanidade como um todo.

Também devemos estar atentos àquilo que nos move, pois apenas quando nos flagramos em equívoco é que podemos identificar o que precisa ser lapidado em nosso íntimo. Ademais, devemos compreender que as redes sociais podem ser um terreno fértil para a propagação do bem. Se desejamos um mundo mais tolerante e pacífico, cabe a nós plantar a semente do respeito e do amor ao próximo, usando as redes sociais como um meio de propagar mensagens que estimulem a caridade e a paz.

Fonte: Letra Espírita

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REFERÊNCIAS:

BRASIL. Decreto-Lei 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União, Rio de Janeiro, 31 dez.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. tradução de Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa, revista, corrigida e modificada pelo autor em 1866. Ed. 131: Editora FEB. 2013a.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Ed. 93: Editora FEB. 2013b.

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Filosofia Espírita

Por Eliana Haddad

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Entrevista com Humberto Schubert

Graduado em filosofia, com especialização em Filosofia da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora, MG, Humberto Schubert Coelho concluiu em agosto de 2020 seu pós-doutorado em filosofia no Centro para Ciências e Religião Ian Ramsey da Universidade de Oxford, Reino Unido, sobre os temas Deus, espírito e liberdade. Nascido em berço espírita (ele é neto da escritora Suely Caldas Schubert), Humberto é palestrante internacional, autor espírita com artigos, ensaios e livros espíritas, sobretudo com enfoque filosófico e histórico. Também está à frente do Grupo de Estudo Filosófico Espírita, que se reúne virtualmente todas as semanas, arregimentando espíritas de vários países, atualmente estudando sob sua batuta a obra de Léon Denis. Acompanhe-o na entrevista.

Como vê o espiritismo atualmente? Acredita que seja a vez do seu aspecto filosófico?

Precisamos ter cuidado com as ondas frequentes de pessimismo e de entusiasmo idólatra. Ambas ocorrem em qualquer movimento de ideias, mas como o espiritismo carece de uma barreira institucional, por não ser igreja ou seguir decretos e estatutos fixos, somos mais acometidos por modismos. O fato de não sermos um corpo institucional dogmático e autoritário é uma de nossas maiores vantagens, mas é natural que essa estrutura também crie dificuldades. Vejo o espiritismo envolvido na típica crise propiciada pela proliferação de agentes, vozes, plataformas e segmentos. A maioria dessas vozes dissonantes brota do puro personalismo e da fascinação com novidades. Mas também há crescimento, enriquecimento, diversificação e maturação do movimento espírita nesse processo. Entre outras transformações positivas, parece haver uma tendência ao resgate da natureza filosófica do espiritismo. Os adeptos e praticantes do espiritismo têm se mostrado mais abertos à filosofia, e também a um embate com os clássicos, fora da visão catequética de uma “formação espírita pura”, a partir exclusivamente da literatura espírita.

Você se especializou na academia em filosofia da religião. Como a filosofia pode auxiliar na compreensão do espiritismo?

Optei por estudar filosofia da religião pela análise racional dos elementos da vida religiosa e pela necessidade de compreender a fusão entre filosofia e religiosidade operada pelo espiritismo. Hoje, encontro-me satisfeito com essa escolha de percurso formativo, pois avalio que ela me ajudou nessas que eram grandes demandas do meu espírito.

A primeira contribuição concreta da filosofia para o espiritismo é a possibilidade de aclaramento conceitual, particularmente necessário em uma doutrina que está suspensa a meio do caminho entre filosofia, ciência e religião, cuja falta vem causando, desde o seu surgimento, problemas facilmente solúveis, pelo correto emprego das palavras e o discernimento entre temáticas, tipos de discurso e perspectivas. Também, a filosofia contribui fortemente para o melhor entendimento da ética, da metafísica e da própria religião no seio do mundo contemporâneo. Grande parte dos espíritas mais instruídos são levados a um estado de confusão a respeito desse “lugar” de Deus, da alma e da moralidade, em face de teorias que as reduzem a funções culturais, psicológicas ou sociais.

O que é, afinal, a filosofia espírita?

A filosofia espírita e o espiritismo são a mesma coisa. Diante da emergência dos fenômenos espetaculares que marcaram um renascimento espiritualista no século 19, o espiritismo foi a resposta propriamente filosófica de que careceram inúmeros outros pesquisadores que, apesar de sua indiscutível competência e valor, não extraíram dos fenômenos conclusões morais, deixando-se paralisar diante do pórtico do esclarecimento, talvez por medo das consequências negativas que certamente teriam de enfrentar. Aceitando com abnegação cristã a destruição de sua carreira, seu nome, sua vida profissional e sustento, Allan Kardec cruzou o pórtico, e retornou com lições profundamente consoladoras, que não haviam sido oferecidas pelos seus contemporâneos dedicados à pesquisa psíquica e ao espiritualismo. Sem idealizações idólatras, que suponham ser Kardec autoridade infalível e incapaz de errar, a razão deve ceder a ele o laurel de organizador da filosofia espiritualista, para a qual ele cunhou o nome de espiritismo.

Distinta das demais escolas filosóficas por condição e natureza bem peculiares, o espiritismo não é facilmente reconhecível pela sociedade como projeto filosófico que é, uma vez que assenta sobre o estudo de fenômenos ainda radicalmente negados pela comunidade científica. Este o principal motivo pelo qual desenvolveu-se, enquanto movimento e até certo ponto enquanto doutrina, como religião e não como escola filosófica.

Você reúne um grupo online de espíritas espalhados pelo mundo todo para estudos filosóficos espíritas. Como surgiu esse projeto, como pode ser acessado?

O projeto foi idealizado pelo amigo Fabrício Assunção, fundador da Sociedade Espírita de Bournemouth, na Inglaterra, após um evento que organizamos naquela cidade, focando o aspecto filosófico do espiritismo. Muitos outros membros do movimento espírita na Europa já me haviam relatado que o discurso evangelista é fortemente repudiado naquelas culturas, e que o espiritismo encontra ouvidos mais receptivos quando é apresentado como visão moderna, liberal, científica e filosófica. Rapidamente, contudo, residentes no Brasil, com os quais comentamos sobre a iniciativa, também se interessaram pela proposta. O grupo ainda está em gestação, mas já cresceu para além da Europa, com participantes inclusive da África. Os vídeos estão hospedados nos canais de Youtube de nossas respectivas sociedades espíritas: Spiritist Society Bournemouth e Sociedade Espírita Primavera, à qual pertenço, em Juiz de Fora.

Você acredita que a formação de grupos virtuais para estudos espíritas seja uma tendência que veio para ficar?

Já acreditava no potencial e importância de tais tecnologias desde que surgiram, mas a atual pandemia consolidou e provou que são muito benéficas e ilimitadas. Embora os encontros presenciais sejam fundamentais, e melhores sob muitos aspectos, a liberdade e a radical equalização das oportunidades marcam o encontro virtual como meio de divulgação por excelência. Trata-se de avanço que evidencia a verdadeira primazia do intelecto, do espírito sobre a matéria, pois podemos nos comunicar, compartilhar vivências e estabelecer profundas sintonias estando a milhares de quilômetros uns dos outros.

Atualmente, você está analisando com o grupo a obra O problema do ser, do destino e da dor, de Léon Denis? Ele pode ser considerado mesmo um filósofo?

Os estudos e publicações sobre Léon Denis, como sobre outros pensadores espíritas, são ainda lamentavelmente incipientes e aquém do que mereceriam. Na falta total de condições materiais e educacionais, Denis foi capaz de elaborar uma obra monumental e de erudição assombrosa. E ele pode, sim, ser considerado um filósofo. Denis pôde integrar o espiritismo ao todo do saber humano porque pensava como filósofo, filosofava, e não recebeu os textos de Kardec como catequese ou manifestos para serem repetidos mecanicamente. Pensou como espírita, e por isso foi de fato espírita. A obra de Denis oferece uma contribuição grandiosa ao pensamento espírita. Em alguns aspectos ele reforçou ou contextualizou o pensamento kardequiano em face das novas realidades de sua geração. Em outros, como no caso da estética e da aplicação da filosofia espírita à arte, ele realmente expandiu o escopo do próprio espiritismo. Espírita por excelência, Denis refletiu a essência da proposta de Kardec e dos espíritos da Codificação porque soube absorvê-la e pensar de acordo com ela, em vez de a repetir apenas na letra.

Qual sua opinião sobre o espiritismo como proposta de autoconhecimento?

Quando não encarado como seita religiosa, e sim como ferramenta civilizatória acrescentada a um conjunto de outras, o espiritismo contribui extraordinariamente para o autoconhecimento, exatamente em razão das peculiaridades de sua natureza, que incentivam o seu praticante a intensificar ao mesmo tempo a fé e a crítica, a empatia e o bom senso, a disposição caritativa e o entendimento filosófico da perfeita justiça de Deus.

Como o movimento espírita pode aprofundar esse conhecimento sobre o aspecto filosófico da doutrina?

Há muitas décadas esse aspecto basilar da doutrina espírita não tem sido suficientemente enfatizado pelos esforços de divulgação. Acredito que os divulgadores de até meados do século 20 sabiam compreendê-lo melhor. Isso ocorre porque o nível cultural do adepto e do trabalhador espírita hoje está aquém da complexidade e profundidade da proposta. O excesso de romances de fraco propósito, livros de mensagens mais subconscientes do que psicográficas, ao lado de obras outras de baixíssimo nível intelectual e moral exerceram um papel. A construção cultural do palestrante como figura encantadora, cativante e capaz de entreter, sem necessariamente esclarecer e instigar ao despertamento, também exerceu indubitavelmente papel deletério.

O remédio, contudo, está à nossa disposição. Basta comparar a literatura espírita dos primeiros oitenta ou cem anos com a mais recente para percebermos que, na média, algo de errado aconteceu. Em sua natureza, a filosofia espírita é filosofia enquanto tal, evoca nas consciências a urgência da meditação filosófica sobre as mais graves questões humanas, provoca o autoexame, e não se pode dissimular essa natureza para aqueles que conhecem os clássicos e buscam leituras comparativas, como recomendaram e fizeram Kardec e Denis, por exemplo.

Em seu livro Genealogia do espírito (Feb) você afirma que o exercício da intuição seria um grande passo para a mudança da mentalidade atual que tudo divide em extremos. A intuição seria o caminho do meio. Como desenvolvê-la?

Para fugir dos clichês e vocabulário místico que também têm sido prejudiciais, poderíamos identificar a intuição com a lucidez do espírito maduro. Não se trata, portanto, de técnica esotérica, como alguns procuram desenvolver com grande esforço e pouco resultado, nem ocorrência espetaculosa, e sim um “senso” da verdade, do bem e do belo que brota naturalmente na alma dos que conheceram a verdade, o bem e o belo. Esta lucidez do espírito, portanto, desenvolve-se inevitavelmente como somatório dos progressos intelecto-morais do espírito, mas, por isso mesmo, será aquisição lenta e gradual.

Como você analisa o desenvolvimento da mediunidade nos dias atuais e como a enxerga no futuro?

Eu a enxergo muito na esteira da resposta anterior. Para desmistificarmos a mediunidade e integrarmos ao conhecimento espírita o que vem sendo desenvolvido pelas neurociências, pela psicologia e, principalmente, pelas atuais pesquisas em espiritualidade, precisamos nos abrir para novas possibilidades de interpretação de nuanças ainda não percebidas ou pouco exploradas desse que não é um fenômeno, mas todo um campo fenomênico. Nossos maiores especialistas em mediunidade reconhecem que, se temos o roteiro prático e a experiência, a ciência profunda do mediunismo e do psiquismo em geral é realização futura ainda distante.

Suas considerações finais

Precisamos pensar na valorização do aspecto filosófico da cultura espírita. Essa nova luz se caracterizará, certamente, como uma onda de estudos, textos e reflexões sobre o que o espiritismo realmente é, o que representa e como pode e deve ser praticado.

Fonte: correio.news

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Nossos conhecimentos nos ajudam a crescer?

Sérgio Vencio

No livro Vinha de Luz, psicografado por Chico Xavier e de autoria do espírito Emmanuel, no capítulo 60 vemos um texto maravilhoso, intitulado, Que fazeis de especial?

Nesse texto Emmanuel nos leva a refletir que apesar dos conhecimentos derramados pela espiritualidade maior sobre a Terra, talvez não estejamos aproveitando todo esse potencial pra nós.

– “A vida prossegue vitoriosa após a morte.”

Esse conceito tão disseminado nos coloca em um ponto da história onde nunca estivemos. Ciência e espiritualidade caminham para interagir em uma interface única que provavelmente nos remeterá aos primórdios da criação. Não há mais desculpas para a desinformação. Todos sabemos que a vida pulsa forte após a morte do corpo físico. Mas apesar disso, o que fazemos com essa crença? Será que acreditar nisso está nos levando no caminho do Pai? Esse conceito torna a nossa vida mais feliz?

– “Nos encontramos na escola temporária da Terra, em favor da iluminação espiritual que nos é necessária.”

A temporalidade é um dos grandes atributos do progresso. pensar nos extremos dificulta nossa marcha. Os que pensam que quando a morte chegar não haverá mais nada não se sentem motivados a mudar, aliás, usam essa desculpa esfarrapada para fugir dos compromissos assumidos. Os que agem como se eternamente fossem ficar na Terra, acabam por distorcer a ótica correta de enxergar as coisas, valorizando mais o transitório, material, o aparente.
Acreditar, pensar e agir como se tudo fosse acabar a qualquer momento nessa realidade, sendo substituído por outra melhor, mais sutil e eterna, é o que nos faz atingir o grau de maturidade necessário para continuar lutando, construindo mas entendendo que tudo é do Pai, todas as conquistas e posses. A tudo usamos, mas nada nos pertence de verdade. Mas apesar disso, o que fazemos com essa crença? Será que acreditar nisso está nos levando no caminho do Pai? Esse conceito torna a nossa vida mais feliz?

– “O corpo carnal é simples veste a desgastar-se a cada dia”

Esse é talvez um dos conceitos mais difíceis de colocar em prática. Vivemos na ditadura da beleza a qualquer preço. Ninguém mais pode ser feio, gordo, magro, pobre, todos temos de ser sarados, lindos, ricos e famosos. Mas pouca gente parece se importar em não ser egoísta, nervoso, orgulhoso, ansioso, etc… Desde que seja VIP.
O corpo físico, maravilhoso instrumento, merece mesmo ser cuidado. Alimentação adequada, exercício, cosméticos, tudo é bem vindo, mas sem exageros. Nunca deixar que isso se torne o objetivo final.
Pensar no corpo físico perecível nos faz entender que nossas atitudes, pensamentos, intenções determinam a saúde do corpo espiritual. Vale a pena viver com um corpo físico perfeito, belo, cuidado, mas com a alma em frangalhos, desencarnando como os zumbis, com o corpo astral doente, sem alegria, sem asas para alçar o voo verdadeiro.
Mas apesar disso, o que fazemos com essa crença? Será que acreditar nisso está nos levando no caminho do Pai? Esse conceito torna a nossa vida mais feliz?

– “Que a nossa colheita futura se verificará conforme a sementeira de agora.”

Hoje somos o resultado da somatória de tudo o que já vivenciamos. Colhemos do ontem, do ano passado, da década, do século e dos milênios onde fomos construindo nossa personalidade. Obtemos frutos de tudo aonde colocamos nossos esforços. Investimos na carreira e vamos colhendo os dividendos disso. Assim é com a família, com a saúde, etc, nada foge a essa regra, e assim é com a vida espiritual. Mesmo com tantas horas disponíveis investimos pouco ou nada na nossa relação com o sutil. Sabemos desse conceito. Mas apesar disso, o que fazemos com essa crença? Será que acreditar nisso está nos levando no caminho do Pai? Esse conceito torna a nossa vida mais feliz?

– “Que a justiça não é uma ilusão e que a verdade surpreenderá toda a gente.”

A verdadeira justiça divina age em nós através de nós mesmos, da nossa consciência. Ninguém escapará do autoexame ao desencarnar e por mais que aqui usemos e abusemos das máscaras, vernizes, disfarces do lado de lá estaremos nús, despidos de roda falsidade, nos apresentando como somos de verdade. Mas apesar disso, o que fazemos com essa crença? Será que acreditar nisso está nos levando no caminho do Pai? Esse conceito torna a nossa vida mais feliz?

A pergunta de Emmanuel é muito objetiva. O que fazemos de especial? O que esse conhecimento nos acrescenta. Não como uma cobrança, mas como uma atitude que nos faz mais leves, mais amorosos, mais felizes. Pra que conhecimento das verdades espirituais se elas não nos trazem libertação? Sem esse movimento esses conceitos se transformam em algemas que nos prendem à culpa por não conseguirmos cumprir as indicações.
Eu creio em um Deus misericordioso, amoroso, que age por amor, com luz e sutilidade. Ele nos dá infinitas oportunidades, sem castigos, sem punições. O sofrimento se torna opção nossa, quando escolhemos o caminho mais difícil. É tempo de caminhos leves. É hora de utilizar os conhecimentos para a nossa melhoria.

Paz e luz!

Sérgio Vencio, endocrinologista, vice-presidente eleito da Sociedade Brasileira de Diabetes, fundador e ex-presidente da Comunidade Espírita Ramatís

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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A doença não pode ser instrumento de punição

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Brasília/DF

Os órgãos do corpo físico respondem a todos os estímulos (internos ou externos), determinando um encadeamento de reações, além dos estímulos físicos que impactam, através dos sentidos, as emoções ou sentimentos que também provocam reações. Estas excitam ou bloqueiam os mecanismos de funcionamento. Em verdade, o processo de preservação e deterioração de qualquer órgão tem uma relação direta com as emoções e os sentimentos.

A cólera, a raiva, o temor, a ansiedade, a depressão, o desgosto, a aflição, assim como todas as emoções derivadas delas, sobrecarregam a economia saudável do corpo. Há outros fatores emocionais que podem influenciar patologias físicas, como relacionamentos afetivos infelizes, penúria econômica, desigualdade de renda e estresse relacionado ao trabalho profissional. Quando estamos tristes e depressivos por uma desilusão amorosa, ou quando estamos ansiosos e irritados por causa de dívidas, também desenvolvemos enfermidades.

Mens sana in corpore sano (“uma mente sã num corpo são”) é uma célebre frase latina, proveniente da Sátira X do poeta romano Juvenal. Nós somos o que sentimos. René Descartes já dizia que somos aquilo que pensamos. Quando as nossas emoções são reprimidas, elas acabam se constituindo na fonte de um conflito emocional crônico, segundo Sigmund Freud, que gerará distúrbios físicos ou psicológicos, se não forem aliviadas, mediante os canais fisiológicos competentes.

O estresse é como um conjunto de reações fisiológicas produzidas pelo nosso organismo para reagir e se adaptar às situações apresentadas no dia a dia. O problema é que tais reações, psíquicas e orgânicas, podem provocar um desequilíbrio no nosso organismo caso ocorram de forma exagerada ou intensa, dependendo também do tempo de duração. Quanto mais durar o estresse, obviamente a ruína será maior.

Adquirimos doenças porque não conseguimos conviver em harmonia com o meio e com as pessoas ao nosso redor. Enfermamos porque mantemos antipatias, inimizades, desgostos, culpas, arrependimentos, ressentimentos, temores e frustrações que não queremos superar. Por desconhecermos as nossas próprias emoções, muitas vezes desejamos ocultá-las dos outros, e de nós mesmos, mormente os pensamentos e os sentimentos egoísticos.

Cada doença, cada dor, cada sofrimento, cada frustração, cada sintoma traz uma mensagem única e exclusiva para nós e apenas para nós. Quando estivermos prontos para abrigá-los e compreendermos o que elas querem nos dizer, estaremos aptos a andar firmes pelo caminho do nosso aperfeiçoamento espiritual que decisivamente passa pelas vias da nossa saúde moral.

Naturalmente, as nossas doenças são advertências da vida para que venhamos a ter mais consciência de nós mesmos e dos nossos compromissos na família, na natureza e na sociedade, governando-nos pela vida caridosa, solidária e amorosa.

Precisamos ter consciência de que doença e saúde são consequências das nossas livres escolhas através das emoções ou sentimentos, e tal responsabilidade não pode ser terceirizada. Além do quê, a doença não pode ser instrumento de punição. Na verdade, deve ser um expediente de aprendizado, na sábia pedagogia divina, convidando-nos ao exercício do amor.

Jorge Hessen

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Humanização em centro espírita!

Wellington Balbo

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Costumo dizer que o processo de espiritualização passa necessariamente pelo processo de humanização da criatura. Em outras palavras: necessitamos antes de pensar em “plano espiritual” refletirmos sobre a importância de sermos humanos, solidários e benevolentes uns com os outros antes de olharmos para os Céus. Nosso campo de trabalho por enquanto é aqui na Terra, ou seja, devo atender bem os amigos que estão aqui na Terra, os companheiros da “boa luta” que fazem parte do meu cotidiano e que são meus próximos mais próximos.

Outro dia recebi um e-mail com o seguinte conteúdo: o dirigente de minha reunião mediúnica é educado e gentil com os espíritos que se manifestam, todavia quando dirige a palavra para um membro encarnado de nosso grupo sempre vem bronca e de forma acintosa. Diante do desabafo indago: Por que tratar bem o espírito desencarnado e não dar o mesmo tratamento ao espírito encarnado? Ora, somos todos iguais independentemente da condição em que nos encontramos, ou não?

Então, de que adianta sermos educados com os espíritos se não o somos com os companheiros aqui da Terra? É preciso, pois, humanizar-se!

Outro ponto: algumas pessoas dão mais valor ao que vem dos espíritos do que dos homens. Se um Espírito diz algo ela acredita piamente, mas se é alguém encarnado logo passa pelo crivo da razão. Allan Kardec ensina que os Espíritos são apenas os homens que aqui viveram e deixaram a vestimenta carnal, portanto, não possuem nem todo o saber e nem toda a moral, refletem na espiritualidade suas tendências, manias e outras coisas que os caracterizavam quando encarnados. Diante do ensinamento de Kardec concluímos que os Espíritos não sabem tudo e que palavras boas podem vir tanto dos Espíritos quanto dos homens que ainda estão na Terra. É preciso, pois, humanizar-se!

Dia desses visitei o CE Eterna Amizade de Pederneiras SP e o CE Cairbar Schutel em Matão SP e notei a recepção calorosa dos amigos aos que chegavam à casa. Designaram voluntários para recepcionar as pessoas e entregar mensagens. Ótima iniciativa. Tem muita gente que chega pela primeira vez ao centro espírita e é necessário receber com carinho essas criaturas. O centro espírita precisa ser um lar também para os que ainda estão aqui na Terra. É preciso, pois, humanizar-se!

Outra coisa interessante foi o que ocorreu em CE Eterna Amizade, o mesmo que citei acima. Dia de finados e realizaram uma palestra para abordar o tema: Perda de entes queridos. Entretanto não se restringiram a divulgar aos frequentadores da casa, foram além, arregaçaram as mangas e divulgaram para toda a cidade. Foi uma noite memorável. Mães e pais, católicos, evangélicos e sem religião recebendo em seus corações o consolo proporcionado pela doutrina espírita. Uma beleza!

Por isso estou sempre batendo nesta tecla:

Antes de cogitarmos das bênçãos dos Céus é necessário trabalhar aqui na Terra.

Antes de nos espiritualizarmos é imprescindível sermos mais humanos.

Pensemos nisso.

Wellington Balbo

 (Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano7/317/wellington_balbo.html Crônicas e Artigos)

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Inquietações Sexuais Após a Morte

Marlene Nobre

Como é natural, muitas pessoas têm curiosidade em saber se há constituição de lares no além e, consequentemente, se há relações sexuais entre os seres que se unem em matrimônio e, mais, se existe gestação no mundo espiritual.

As respostas encontrei-as nas mensagens que os desencarnados enviaram a seus pais e parentes encarnados, através de Chico Xavier.

Nas 500 mensagens que estudei, publicadas em mais de uma centena de obras, encontrei as respostas que procurava e coloquei-as no meu livro Nossa Vida no Além. No capítulo Inquietações da Libido, abordo muitas dessas questões.

Aprendi que nas regiões mais evoluídas há também o casamento das almas, que se unem conjugadas pelo amor puro, gerando obras admiráveis de progresso e beleza.

No caso, porém, em que esse enlace deva ser adiado, por circunstâncias inamovíveis, os Espíritos de comportamento superior aceitam, na Terra, a luta pela sublimação das forças genésicas, aplicando-as em trabalho digno.

Por isso vemos muitas criaturas encarnadas que, embora separadas de sua alma gêmea, desenvolvem serviços de amor aos semelhantes, a fim de aplicarem de forma útil suas energias sexuais, até que, um dia, possa reencontrá-la, nas outras dimensões da vida infinita, e integrar-se em seu halo energético, na complementação ideal.

Ivo de Barros Correia Menezes, o Ivinho, enviou vinte cartas para sua mãe, através do médium Chico Xavier, seis delas estão no livro Retornaram Contando, cinco outras em Gratidão e Paz, e algumas esparsas. Em 1983, cinco anos após a sua desencarnação, ocorrida aos 18 anos, desabafou com sua mãe Neide (28):

Continuo desencarnado e prossigo querendo casar-me e ser pai de família. Estimo os avós que me favorecem aqui com os melhores ensejos de ser feliz, mas, no fundo de mim mesmo, o que desejo realmente será formar na juventude do meu tempo e adotar uma vida caseira, pródiga de bênçãos de paz. Mãe Neide, é que seu filho anda partido em dois, tamanho é o meu anseio de realizar-me na condição de homem.

Em sua sexta carta, psicografada em 26 de maio de 1984, Ivinho continuou a dialogar francamente com o coração materno, expondo seus anseios mais íntimos: aquele desejo de passear com uma garota a tiracolo observando se ela nos serviria para um casamento futuro prevalece comigo.

Muitos rapazes se desligam com facilidade desses anseios. Tenho visto centenas que me participam estarem transfigurados pela religião e outros adotam exercícios de ioga com o objetivo de cortarem essas raízes da mocidade com o mundo. (…)

Meu tio Ivo fala em amor entre os jovens, apenas usufruindo o magnetismo das mãos dadas, e até já experimentei, mas a pequena não apresentava energias que atraíssem para longos diálogos sobre as maravilhas da vida por aqui. Fiz força e ela também; no entanto, nos separamos espontaneamente, porque não nos alimentávamos espiritualmente um ao outro.

Creio que meu caso é uma provação que apenas vencerei com o apoio do tempo. (…)

Se estivesse aí faria 25 anos em janeiro próximo; um tempo lindo para se erguer um lar e criar filhos (…)

Realmente a provação, com vistas à disciplina emotiva, parece implícita no caso de Ivinho, à semelhança de milhares de outros jovens, como ele mesmo pôde constatar, entre seus companheiros de Vida Nova. Mas é interessante anotar a sinceridade de seu coração, abrindo a alma por inteiro para a mãe à procura de apoio.

Nesta mesma carta, continuou:

Mamãe Neide, por que será que o homem passa por este período de necessidade de integração com uma outra criatura no casamento? Sei lá… A minha avó Celeste considera fácil esta abstenção por aqui, porque nos afirma que, em nossa esfera não há possibilidade de gravidez. Mas com gravidez ou sem ela eu queria uma companheira loura ou morena, que se parecesse com você, que me protegesse, que me conseguisse organizar os lugares para descanso, que eu pudesse beijar muitas vezes para compensá-la do carinho que me consagrasse. (…)

Dizem por aqui que os pares certos trocam emoções criativas e maravilhosas no simples toque de mãos; no entanto, estou esperando o milagre.

Em seus apontamentos, Ivinho lembrou que, na Terra, rapazes e moças buscam dedicar-se aos esportes na tentativa de liberar o magnetismo do sexo, no entanto, para ele nem mesmo isso daria jeito.

O jovem não disse, mas o esporte na Espiritualidade tem outras modalidades uma vez que o sistema muscular estriado ou esquelético existente no corpo físico não permanece no perispírito, é transformado, durante a histogênese espiritual. Lá não se utiliza senão a força mental e os deslocamentos individuais operam-se na faixa da volitação.

Referiu-se aos estudos e trabalho que desenvolve sob a orientação dos instrutores espirituais, e quando interrogado por eles, não teve coragem de mentir quanto ao seu verdadeiro estado mental em relação ao sexo:

Enfim, esta é minha atualidade e não podia omitir o que sinto perante você, minha mãe, minha confidente e minha melhor amiga. Com o tempo, vamos regularizar tudo isso. Esteja tranquila. Refiro-me ao assunto, porquanto noto que a maioria dos jovens desencarnados, que se comunicam dão uma volta no caso e passam por cima; no entanto, sei que a maioria deles está em posição semelhante à minha. Mas não há de ser nada. Acredito que vou entrar no cordão das mãos entrelaçadas e depois lhe darei notícias.

As cartas do jovem Ivo à sua mãe constituíram, a nosso ver, um esforço enorme de seu Espírito para adaptar-se ao Plano Espiritual. Com esse desabafo, possibilitado, durante tantos anos, pela psicografia, ganhou forças para resistir, contando principalmente com a compreensão da mãe e da avó.

No mundo espiritual, seu avô Barros chegou a sugerir-lhe uma nova encarnação, mas o jovem apavorou-se: (…) isso é um assunto grave, porque não desejo assumir outra personalidade esquecendo os vínculos que me ligam ao seu querido coração.

Enganam-se lamentavelmente quantos possam admitir a incontinência sexual como regra de conduta nos planos superiores da Espiritualidade. (…)

Como vemos, ainda temos muito que aprender lendo as cartas recebidas por Chico Xavier, enviadas por aqueles que partiram, sobretudo os jovens, aos entes queridos que ficaram na Terra.

Marlene Nobre

Fonte: kardecriopreto

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A MEDIUNIDADE RECONHECIDA PELOS PAPAS

Recebemos o texto seguinte e dispomos aqui para a apreciação de nossos amigos. Seu autor é Washington L. N. Fernandes, originalmente publicado na Revista Espiritismo e Ciência, da Mythos Editora.

A MEDIUNIDADE RECONHECIDA PELOS PAPAS

Já se sabe que os fenômenos envolvendo a mediunidade não são recentes, mas que têm sido registrados desde os tempos mais antigos da civilização. A Igreja também reconheceu o fenômeno, e muitos papas estiveram envolvidos em ocorrências mediúnicas.

Em 18 de abril de 2005, ocorreu a eleição de Joseph Ratzinger (1927), o novo papa da Igreja Católica Apostólica Romana, que adotou o nome Bento XVI, em substituição a Karol Wojtyla (1920-2005), chamado papa João Paulo II.

Aproveitaremos a oportunidade para destacar a mediunidade e a comunicabilidade dos Espíritos, presentes entre os papas desde a origem do papado e ao longo de sua história de quase dois mil anos. Tínhamos ouvido referência de fenômenos espirituais com Pio V e Pio XII, em palestras do médium Divaldo Franco (1927-), e quisemos aprofundar e completar o assunto.

Consultando a historiografia católica sobre a origem doutrinária do papado, o imperador romano Constantino (272-337) é apontado entre os teólogos como um dos seus principais precursores, pois foi ele quem historicamente começou a dar forma ao Sistema Católico Romano. Constantino presidiu o 1º Concílio das Igrejas, no ano 313, construindo depois a primeira basílica em Roma, tornando o cristianismo religião oficial do Império, seguido de Teodósio (347-395) e outros imperadores.

Começava-se a criar os fundamentos que possibilitaram que Valentiniano III (Flávio Plácido, 419-455), no ano 445, reconhecesse oficialmente ao papa (a palavra “papa” significa pai) o exercício de autoridade sobre as Igrejas, ganhando o papado poder mundial com Carlos Magno (747-814), no século 8.

Ocorre que Constantino, que os católicos consideram como o precursor da estruturação papal, converteu-se ao cristianismo através de uma visão espiritual, conforme relatou o historiador católico Eusébio de Cesaréia (275-339), em sua obra Vita Constantini (Cap. XXVIII). Durante a batalha contra o imperador Maxêncio (séc. 3/4), com seu exército em desvantagem, Constantino viu no céu um grupo de Espíritos, liderados pelo Espírito (chamado Anjo) São Miguel, mostrando-lhe uma cruz luminosa com os dizeres: “Com este sinal vencerás”.

O impacto que sentiu foi tão grande que mandou pintar uma cruz em todas as bandeiras, venceu a batalha e se converteu ao cristianismo, estabelecendo o famoso Edito de Milão, do ano de 313. O escritor Nicéforas (séc. 16) escreveu que Constantino viu este Espírito mais duas vezes – numa delas, orientando-o a edificar Constantinopla; e, na outra, para ajudá-lo numa revolta por parte dos moradores da antiga Bizâncio.

Portanto, encontramos visões espirituais nos primórdios da estruturação da Igreja e da criação do papado.

Encontramos exemplos de mediunidade dos papas numa ocorrência com Antônio Michele Ghislieri (1504-1572), o papa Pio V, que foi o Sumo Pontífice no período de 1566 a 1572. Em 1570, os turcos otomanos invadiram a ilha de Chipre e tomaram Veneza, e os venezianos pediram ajuda. O papa Pio V enviou uma frota de 208 navios, sob o comando de Don John da Áustria. Essa frota encontrou 230 navios turcos em Lepanto, Grécia, em 7 de outubro de 1571. A batalha durou três horas. Miguel de Cervantes (1547-1616), o novelista espanhol, autor de D. Quixote, participou dessa batalha histórica. Em Roma, Pio V aguardava notícias, orava e jejuava, juntamente com monges, cardeais e fiéis. Em 7 de outubro, ele trabalhava com seu tesoureiro, Donato Cesi, que lhe expunha problemas financeiros. De repente, separou-se de seu interlocutor, abriu uma janela, entrou em êxtase e teve uma visão em desdobramento espiritual. Voltou-se para Donato e lhe disse: “Ide com Deus. Agora não é hora de negócios, mas sim de dar graças a Jesus Cristo, pois nossa esquadra acaba de vencer a batalha”. Duas semanas depois chegaram as notícias da vitória de sua esquadra, confirmando sua visão espiritual.

Mais recentemente, no século 20, encontramos outro exemplo de ação espiritual entre os papas, com o Cardeal Eugênio Pacelli (1876-1958), que viria a ser o papa Pio XII, no período de 1939 a 1958. O fato foi relatado pela própria Igreja Católica, em seu jornal oficial L’Observatore Romano, e depois publicado no Brasil, no jornal Ave Maria, de Petrópolis, transcrito pelo Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, em setembro de 1956.

Em 19 de fevereiro de 1939, nos aposentos do Vaticano, na ala esquerda da Catedral de São Pedro, o cardeal Eugênio Pacelli estava orando; ele era um diplomata da Santa Sé junto aos governos do Ocidente. Em seus aposentos de cardeal, ele ouviu uma voz chamando: “Pacelli, Pacelli”. Ele se voltou e viu o Espírito do papa Pio X (1835-1914). Emocionado, ele se ajoelhou e chamou-o de Santidade. O Espírito respondeu-lhe: “Não sou Santidade, mas apenas um irmão; venho avisá-lo que, dentro de alguns dias, se tornará papa, e que a Terra será devorada por uma avalanche de tragédia.

É da vontade do Senhor que seja papa para governar a Igreja com sabedoria, bondade diplomática e equilíbrio”.

O cardeal Eugênio Pacelli redarguiu dizendo que não entendia aquilo, porque Pio XI (1857-1939) era o papa de então, e governava a Igreja com sabedoria. O Espírito Pio X não discutiu com o cardeal, desvaneceu-se.

Emocionado, Eugênio Pacelli desceu de seus aposentos e adentrou na Catedral de São Pedro. Foi até o subterrâneo, onde estão os túmulos papais, ajoelhando-se na cripta de Pio X, permanecendo em oração até o amanhecer. Ao raiar do dia, adentrou novamente na Catedral de São Pedro, e um guarda suíço perguntou-lhe se estava sentindo-se bem, pois estava muito pálido. Eugênio Pacelli respondeu que tinha dialogado com Pio X. Surpreso, o guarda contrapôs que Pio X estava morto. Mas Eugênio Pacelli disse que, naturalmente, o sabia, pois fora ele quem tinha feito o discurso laudatório. Além do quê, Pio X tinha sido seu padrinho de cardinalato.

Pio X disse-lhe que ele seria papa e, em seguida, a humanidade entraria em guerra. O fato permaneceu em sigilo, mas dois ou três meses depois, Pio XI morreu de uma doença misteriosa. Eugênio Pacelli foi eleito o novo papa, Pio XII, e logo depois eclodiu a Segunda Guerra Mundial, conforme lhe dissera o Espírito Pio X. É mais um fato mediúnico, registrado pela história, de comunicabilidade espiritual com os papas.

É interessante registrar que não foi por acaso que Pio X apareceu em Espírito e se comunicou mediunicamente com Pio XII. O papa Pio X conhecia os fenômenos espíritas, pois seu médico, dr. José Lapponi (1851-1906), foi uma pessoa interessada nos estudos espíritas e até publicou um livro à época – Hipnotismo e Espiritismo (1897) – aprovado pelo papa Leão XIII, e que foi traduzido e publicado no Brasil pela editora da Federação Espírita Brasileira.

O Dr. Lapponi também foi médico do papa Leão XIII (1810-1903). Vale anotar que, quando da segunda edição do livro Hipnotismo e Espiritismo, em 1904, o periódico Diário de Noticias, de Madri, do dia seis de julho, publicou carta do dr. Lapponi na qual ele comentava que o órgão jesuíta La Civilitá Cattolica censurava seu livro porque ele divulgava teorias que não eram aprovadas pela Igreja, e que o próprio papa Pio X reprovara a obra. Mas à época, dom Eduardo Checci, redator do Giornale d’Italia, foi entrevistado sobre isso, desmentindo que o papa Pio X tivesse reprovado a obra. O dr. Lapponi acrescentou que Pio X conhecia o trabalho desde sua primeira edição e o tinha aprovado, e que o livro tinha merecido louvores até do papa Leão XIII, que disse que a ciência católica não devia ser contrária ao estudo do Espiritismo e suas manifestações.

É importante esclarecer que o dr. Lapponi não era espírita e, nesse livro, ele adotou uma postura até de prevenção com relação aos fenômenos do hipnotismo e do Espiritismo, porque poderiam ensejar fraudes e mistificações. Chega a ser curiosa essa sua atitude, pois a verdade é que, se ele admitiu os fenômenos espíritas (e, para nós, é o que importa), não se compreende por que ele recrimina sua prática.

O dr. Lapponi demonstrou que não conheceu realmente o Espiritismo, uma vez que se ateve somente à parte fenomênica; não conheceu a parte filosófica e ética da Doutrina Espírita. Nem no aspecto fenomênico ele se aprofundou, pois só se referiu às situações duvidosas; por temer fraudes e a ação de Espíritos brincalhões e zombeteiros (que, portanto, ele admitia), achou temerário e perigoso ocupar-se do Espiritismo.

Para nós vale que o dr. Lapponi, médico de dois papas, historiou a ocorrência de fenômenos espíritas desde a Antiguidade e reconheceu a intervenção dos Espíritos no mundo material.

A transfiguração de Jesus é citada como exemplo de fenômeno mediúnico que aparece na Bíblia, com Moisés e Elias aparecendo em espírito material. Ao final do livro, ele afirmou que o Espiritismo só deveria ser estudado com as necessárias precauções e por ação de pessoas reconhecidamente competentes (op.cit., pág. 219).

Portanto, a Doutrina Espirita e os fenômenos mediúnicos transitaram pelo Vaticano no século 19, entre os papas e pelo médico que cuidou de dois deles nesse período e escreveu um livro sobre o assunto, reconhecendo sua existência, apesar de sua atitude de temor.

Mesmo nos tempos mais recuados, os fenômenos mediúnicos estavam presentes na sociedade, em todos os lugares, já que fazem parte da Natureza. Por isso, encontramos referência a eles desde há dois mil anos. Basta citarmos o apóstolo Pedro, que é considerado como o primeiro papa da Igreja. Na Bíblia, encontramos várias ocorrências mediúnicas e de interferência dos Espíritos, ocorridos com Pedro. Por exemplo:

a) em Mt: 17, 1-6, está descrita a transfiguração de Jesus na qual, estando Ele num monte, acompanhado por Pedro, Tiago e João, apareceram, em Espírito, Moisés e Elias, que já estavam mortos havia séculos, e conversaram com Jesus;

b) em At: 2, 1-14, ocorreu o fenômeno chamado Pentecostes, no qual os doze apóstolos ouviram um som vindo do céu, como um vento, e como que línguas de fogo pousaram sobre cada um deles, que então começaram a falar em diversos idiomas;

c) At: 3, 2-8, é descrita a mediunidade curativa de Pedro, quando ele curou um coxo de nascimento que todo dia ia à porta do templo para pedir esmolas. Ele tomou o coxo pela mão e ordenou-lhe que se levantasse e andasse, e assim ocorreu;

d) At: 11,5-10, Pedro teve um arrebatamento espiritual e teve vidência e audiência. Viu, a céu aberto, um vaso que descia, como grande lençol atado pelas quatro pontas, vindo para a terra, e ouviu uma voz: “Levanta-te Pedro, mata e come”. Pedro disse ao Senhor que nunca tinha comido coisa imunda. A Voz disse-lhe que não devia chamar de imundo o que Deus purificou; isso se repetiu por três vezes;

e) At:11, 11-1, Pedro viu três homens de Cesaréia que o buscavam, e estavam em frente à casa onde estava; um Espírito lhe disse que fosse com eles, nada duvidando;

f) At:12, 5-11, Pedro estava dormindo na prisão, vigiado por dois guardas. Quando Herodes ia chamá-lo, houve uma luz na prisão, e apareceu um Espírito (chamado anjo) despertando-o, rompendo as correntes e dizendo-lhe para fugir; e conduziu-o, fazendo-o passar pelos guardas, chegando à porta da cidade, pela qual saíram. E Pedro percebeu que Deus havia enviado um Espírito para ajudá-lo.

Para encerrar esse importante registro histórico sobre a mediunidade e seu reconhecimento entre os papas, temos necessariamente que citar o recém-falecido papa João Paulo II, reconhecido como um grande missionário do bem. A revista Veja, de 6 de abril de 2005, na página 93, transcreveu uma frase pronunciada por ele numa pregação na Basílica de São Pedro, em novembro de 1983, e que dispensa comentários: “O diálogo com os mortos não deve ser interrompido, pois, na realidade, a vida não está limitada pelos horizontes do mundo”.

Portanto, fica registrado, segundo as próprias fontes católicas e as não espíritas, que a mediunidade e a comunicabilidade espiritual têm se manifestado e sido reconhecidas pela Igreja, mesmo entre os seus maiores representantes, desde a Antiguidade. E ainda hoje ocorre, demonstrando que a vida não se restringe à realidade material nem é interrompida com a morte.

By LUZ ESPÍRITA – dezembro 29, 2010

Extraído de: Espiritismo em Movimento

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Resignação Espírita

José Herculano Pires

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Uma das acusações que se fazem ao Espiritismo é a de levar o homem ao conformismo. “Os espíritas se conformam com tudo, – escrevem-nos – e dessa maneira acabarão impedindo o progresso, criando entre nós um clima de marasmo, favorável às tiranias políticas do Oriente. A idéia da reencarnação é o caldo de cultura do despotismo, pois as massas crentes se entregam a qualquer jugo.”

Muitos confundem a resignação espírita com o conformismo religioso. Mas, contraditoriamente, acusam o Espiritismo e não acusam as religiões. Por outro lado, tiram conclusões teóricas de fatos que podem ser observados na prática. A idéia da reencarnação não é nova, não nasceu com o Espiritismo, e não precisamos teorizar a respeito, pois temos toda a história da humanidade ante os olhos, para nos mostrar praticamente os seus efeitos.

Vamos, entretanto, por ordem. E tratemos, primeiro, da resignação e do conformismo. A resignação espírita decorre, não de uma sujeição místico-religiosa a forças incontroláveis, mas de uma compreensão do problema da vida. Quando o espírita se resigna, não está se submetendo pelo medo, mas apenas aceitando uma realidade à qual terá de sujeitar, exatamente para superá-la, para vencê-la. Não é, pois, o conformismo que se manifesta nessa resignação, mas a inteligente compreensão de que a vida é um processo em desenvolvimento, dentro do qual o homem tem de se equilibrar.

Acaso não é assim que fazemos todos, espíritas e não-espíritas, em nossa vida diária? O leitor inconformado não é também obrigado, diariamente, a aceitar uma porção de coisas a que gostaria de furtar-se? Mas a diferença entre resignação ou aceitação, de um lado, e conformismo, de outro, é que a primeira atitude é ativa e consciente, enquanto a segunda é passiva e inconsciente. O Espiritismo nos ensina a aceitar a realidade para vencê-la.

“Se a doença o acossa, – dizem – o espírita entende que está sendo vítima do fatalismo cármico, do destino irrevogável. Se a morte lhe rouba um ente querido, ele acha que não deve chorar, mas agradecer a Deus. Se o patrão o pune, ele se submete; se o amigo o trai, ele perdoa; se o inimigo lhe bate na face esquerda, ele lhe oferece a direita. O Espiritismo é a doutrina da despersonalização humana.”

Mas acontece que essa despersonalização não é ensinada pelo Espiritismo, e sim pelo Cristianismo. Quando o Espiritismo ensina a conformação diante da doença e da morte, o perdão das ofensas e das traições, nada mais está fazendo do que repetir as lições evangélicas. Ora, como o leitor acusa o Espiritismo em nome do Cristianismo, é evidente que está em contradição. Além disso, convém esclarecer que não se trata de despersonalização, mas de sublimação da personalidade. O que o Cristianismo e o Espiritismo querem é que o homem egoísta, brutal, carnal, agressivo, animalesco, seja substituído pelo homem espiritual. A “personalidade” animal deve dar lugar à verdadeira personalidade humana.

Quanto ao caso das doenças, seria oportuno lembrar ao leitor as curas espíritas. Não chega isso para mostrar que não há fatalismo cármico? O que há é a compreensão de que a doença tem o seu papel na vida humana. Mas cabe ao homem, nesse terreno, como em todos os demais, lutar para vencê-la. O Espiritismo, longe de ser uma doutrina conformista, é uma doutrina de luta. O espírita luta incessantemente, dia e noite, para superar o mundo e superar-se a si mesmo. Conhecendo, porém, o processo da vida e as suas exigências, não se atira cegamente à luta, mas procurando realizá-la com inteligência, num constante equilíbrio entre as suas forças e o poder dos obstáculos.

Fonte: (as crônicas do irmão Saulo)

Extraído de Espiritualidade e Sociedade

A verdade sobre o pseudônimo “Irmão Saulo”

A missão de Herculano Pires começava a exigir muito mais e o mestre passou a atender os pedidos de instituições sediadas fora de São Paulo para realizar palestras e cursos de Espiritismo. No mês de agosto de 1948 esteve em Matão. Hospedou-se na residência de seu amigo e médium Urbano de Assis Xavier e proferiu no Centro Espírita “Amantes da Pobreza”, fundado pelo notável apóstolo Cairbar Schutel, três conferências: “O Espiritismo e o Cristianismo”, “O Espiritismo e os Problemas Humanos” e “O Espiritismo em face da Educação da Mocidade”. A reportagem do tradicional jornal de Matão “A Comarca” esteve presente e em crônica na primeira página assim se referiu a Herculano Pires:

“Ouvimos as primeiras conferências do jovem espírita e brilhante jornalista, de quem podemos dizer que é um orador completo, pela maneira simples de explicar os assuntos de suas teses, pela simpatia com que se apresenta na tribuna e pela sinceridade que imprime às suas palavras.”

Um pormenor que não pode passar despercebido: Herculano Pires, para bem realizar sua missão espírita, se viu obrigado em 1948 a reduzir a atividade profissional. Deixou a “folha da Manhã” e o “Jornal de São Paulo”, ficando apenas nos “Diários Associados”, embora o salário fosse pequeno. É quando passou a fazer uso do pseudônimo “Irmão Saulo”, cuja história com lances dramáticos merece registro especial.

Em 1948 publicava o “Diário de São Paulo” uma coluna espírita diária sob a responsabilidade da Federação Espírita do Estado de São Paulo. O precioso espaço era mal aproveitado porque a FEESP divulgava apenas mensagens psicografadas já conhecidas do público e trechos da obra A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi. Foi por essas razões que a coluna saiu das mãos do redator da FEESP para as de “Irmão Saulo”, que a tornou famosa. O fato serviu para que Adenolf Póvoas, que se dizia espírita, mas era autor de Lama no Espiritismo (tenebroso livro que caluniava companheiros nossos) acusasse “Irmão Saulo” de haver roubado da FEESP a coluna. Herculano Pires achou melhor calar-se, já que Adenolf era escritor desacreditado; mas a pulga ficara atrás da orelha de alguns confrades invejosos… O tempo, no entanto, tudo esclarece. Vamos, pois, agora narrar com detalhes a verdade.

Em seu diário íntimo, escreveu Herculano Pires estas palavras:

“Acusava-me de haver roubado a coluna Espírita, que durante vinte e tantos anos publiquei no “Diário de São Paulo”, das mãos dos dirigentes da Federação Espírita do Estado de São Paulo. E citava, como sua fonte de informações, Benedito Godoy Paiva, autor de Quando o Evangelho diz não. Nunca me interessei por apurar a verdade. Tratava-se de uma tolice. Passei a fazer a crônica quando Hermínio Sacchetta, assumindo a direção do “Diário”, considerou inútil a coluna que a Federação mantinha e resolveu suprimi-la.23 Chamou então Wandick de Freitas e eu, que éramos redatores, e propôs-nos que assumíssemos a seção e lhe déssemos um caráter jornalístico mais dinâmico e atualizado.”

E Herculano Pires prossegue:

“Eu e o Wandick nos prontificamos a atender, evitando a perda da coluna, e convidamos Odilon Negrão para nos ajudar. Foi então que inventei o pseudônimo coletivo de Irmão Saulo, em homenagem a Saulo de Tarso, o apóstolo espírita da 1ª Epístola aos Coríntios, onde expõe vários princípios espíritas e relata como se faziam sessões mediúnicas no seu tempo. Wandick e Odilon me deixaram só e o pseudônimo coletivo se tornou individual. Póvoas não sabia nada disso.”

Adenolf Póvoas padecia de forte obsessão espiritual. Desencarnou em São Paulo quando intervinha em um assalto a mão armada no armazém que ele frequentava. Recebeu três tiros no peito por haver aconselhado os delinquentes a desistirem do assalto. O infeliz Adenolf contava mais de setenta anos de idade.

A seção espírita do “Diário de São Paulo” tinha, aproximadamente, quinze centímetros de altura e era diária. Manteve-se assim por quinze anos, mas depois tornou-se dominical e em compensação passou a ocupar duas colunas de vinte centímetros de altura, ganhando destaque. Além de uma crônica ou artigo, divulgava nela Herculano Pires os principais acontecimentos, mas se necessário defenderia a integridade da Doutrina, mesmo se atacada dentro do movimento doutrinário, porque entendia o apóstolo que “aqueles que desejam oferecer ao público uma imagem artificial do movimento espírita enganam-se a si mesmos, antes de enganar os outros”. E mais: O Espiritismo, por oferecer a Verdade, “não pode conciliar-se com as simulações e fantasias das convenções humanas”.

A Coluna Espírita marcou época. Boa parte do público interessado nos problemas espirituais adquiria o jornal devido às crônicas. O pseudônimo tornara-se respeitado porque “Irmão Saulo” discutia os temas com profundidade jamais igualada, encantando os leitores; inclusive, porque era seu estilo literário incisivo e elegante, mas sóbrio, pleno de musicalidade e magia. Estilo olímpico. Redigidas com o bom senso kardeciano, ou seja, com muita sabedoria, mas sem paixão, as crônicas do apóstolo movimentavam a opinião pública. Uma delas, por exemplo, transcrita em setembro de 1960 pelo jornal “O Imparcial”, de Araraquara, e intitulada “Praticar a caridade é cumprir o mandamento do amor ao próximo”, repercutiu na Câmara Municipal daquela cidade. Os vereadores Célio Biller Teixeira e Flávio Thomaz de Aquino, fizeram constar em ata um voto de louvor a Irmão Saulo por haver “defendido de maneira impecável sua fé espírita com profundo respeito à opinião de outros religiosos”.

Herculano Pires, agradecendo o voto de louvor, declarou: “O gesto de Vossas Excelências é tanto mais significativo por ter partido de quem não segue os meus ideais religiosos. Essa compreensão humana, que supera os sectarismos exclusivistas do passado, é característica da civilização. Defendendo-a, defendemos o próprio homem, cuja essência e cujo destino devem estar sempre acima dos sistemas de ideias ou de crenças.”

O célebre médium Chico Xavier, em carta datada de 31 de outubro de 1971 endereçada a Herculano Pires, assim se referiu às crônicas:

“As suas crônicas aos domingos, no “Diário” estão admiráveis. A Doutrina Espírita sempre brilhando em seus conceitos e esclarecimentos com o equilíbrio, elegância, elevação e bom senso que lhe caracterizam os recursos de Missionário da Nova Revelação.”

É evidente que as crônicas do apóstolo de Kardec não poderiam permanecer soterradas no arquivo dos jornais. E, por sugestão de Jorge Rizzini, o editor Frederico Giannini lançou em 1962, com o selo da Editora Edicel, uma coletânea que recebeu de Herculano Pires o título Os Três Caminhos de Hécate. Vinte anos depois a Editora Correio Fraterno do ABC lançaria mais quatro coletâneas: O Homem Novo, O Infinito e o Finito, Visão Espírita da Bíblia e O Mistério do Bem e do Mal. É de esperar-se que outras surjam…

A extinção da coluna espírita no “Diário de São Paulo” foi um momento amargo na vida de Herculano Pires. Ele a redigiu por mais de vinte anos, ininterruptamente – e sem aceitar um centavo a mais do jornal.

Fonte: A verdade sobre o pseudônimo “Irmão Saulo” – J. Herculano Pires, considerado o maior intelectual espírita brasileiro… (se-todo.com)

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