Somos os Construtores do Mundo

José Herculano Pires

Resultado de imagem para josé herculano pires imagemO final deste importante artigo, o intertítulo “Uma Tomada de Consciência”, tem sido divulgado erroneamente sob o título deste ensaio, que abrange diversas outras questões, não necessariamente as restritas ao movimento espírita. Inspirados neste artigo, vários eventos espíritas foram organizados, debates e confraternizações de jovens espíritas. Devido à sua profundidade e importância histórica, o PENSE publicou na íntegra este que é um dos mais inflamados e apaixonados textos do mestre Herculano Pires (1914-1979), jornalista e escritor espírita, um dos maiores pensadores espíritas do século 20. Publicado no periódico “Mensagem”, do qual era editor, em setembro de 1975, o texto foi redigido em meio a conflitos entre o ‘Guarda Noturno do Espiritismo’ e a Federação Espírita do Estado de São Paulo (Feesp), devido a uma tradução adulterada de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, feita pela Feesp e que foi denunciada por Herculano.

……………………………………………………………….

Os profetas da tragédia falam em cataclismos geológicos, guerra nuclear, guerra bacteriológica, pestes, epidemias arrasadoras para este último quartel do século 20. Aves agoureiras anunciam a fome mundial pelo aumento da população terrena, o desaparecimento da atmosfera planetária por efeito de explosões atômicas, da devastação das matas, da poluição ambiental. Estaríamos numa fase de contradições insanáveis. O progresso acelerado nos levaria fatalmente à desgraça total, ao cumprimento das profecias apocalíticas, ao fim do mundo.

Apesar deles e dos alarmistas que propagam as suas ideias mortíferas, dos terroristas do boato, há homens sensatos, cientistas ponderados, futurólogos que não se engajam no jogo dos trustes do medo. Estes procuram mostrar, através de dados concretos e raciocínios objetivos, que as crises atuais que enfrentamos são sintomas de desenvolvimento, comuns a todos os processos de crescimento. Outros, como Isaac Asimov, fazendo concessões às mentes delirantes, sugerem soluções curiosas de ficção científica: a colonização da Lua e de Marte, a construção de cidades submarinas e cidades espaciais, o controle maciço da natalidade, a aplicação de métodos químicos para a redução do tamanho do homem e assim por diante. Milhões de criaturas humanas poderiam viver em cidades metálicas, construídas em funis gigantescos localizados em zonas intermediárias da gravitação terrena e da gravitação lunar.

Não há dúvida que estamos numa era apocalítica, semelhante a que houve na Palestina na antevéspera do advento do Cristianismo, quando as profecias da destruição constituíam o alimento preferido do sadismo coletivo. Foi precisamente dessas profecias que resultou o Apocalipse evangélico atribuído ao apóstolo João, que o teria recebido do próprio Cristo na ilha de Patmos. Essa visão judaica do fim do mundo foi considerada por Renan, Harnak, Guignebert e outros investigadores conscienciosos como um livro apócrifo, referente à queda do Império Romano, e por mero equívoco anexado às páginas do Evangelho. Mas quem poderia convencer disso os piedosos adeptos das religiões do terror, cuja fé nas desgraças vindouras é hoje alentada e alimentada pelas novas previsões de catástrofes?

O HOMEM É O PERIGO

Essas visões remotas de um tempo há muito superado são hoje exploradas pelos grupos interessados em manter o mundo nas garras. Há perigo, sem dúvida, numa fase de transição como a em que nos encontramos. Mas o perigo não vem do céu, da ira de Deus, da instalação do Tribunal do Messias entre as nuvens, com anjos tocando trombetas assustadoras nos pontos cardiais da Terra e os mortos ressuscitando sob nevoeiros atômicos, com seus corpos mortais reconstituídos pela vingança divina. Essas apreensões ilógicas e ridículas, muitas vezes pregadas do púlpito das igrejas cristãs, de tribunas espíritas e até mesmo de cátedras universitárias, devolvem-nos à era das civilizações primitivas, agrárias e pastoris, e aos terrores do mundo mitológico ou dos sermonários medievais. O perigo existe e esse perigo é o homem, somos nós mesmos. Uma guerra nuclear não seria desencadeada pelos astros ou pela ira de Deus, mas pelos homens responsáveis pelo equilíbrio do mundo social, do mundo humano. O mundo natural, constituído pela Natureza, sofreria as consequências da loucura humana, mas poderia recuperar, através de suas leis de equilíbrio e conservação, as zonas devastadas.

A ideia de que o homem pode destruir o mundo provém de dois elementos de concepções antiquadas, hoje inaceitáveis:

1.) O orgulho humano, que pretende sobrepor a fragilidade da criatura à onipotência do Criador;

2.) A crença ingênua nos poderes mágicos, segundo a qual os mágicos podiam destruir as coisas, os seres e o próprio mundo com simples sinais cabalísticos.

O aumento do conhecimento científico provoca vertigens em cérebros pouco estáveis, pouco seguros, e a vaidade natural da espécie faz certos homens pensarem que descobriram a chave da Natureza e podem manipulá-la com seus novos instrumentos técnicos, que lhes dão um acréscimo enorme de poder. Por outro lado, o pensamento mágico, sempre necessariamente contraditório, aceita a existência do Gênio Maligno de Descartes (simples hipótese de pesquisa) e transforma Deus numa espécie de Frankenstein, um ser dotado de dupla personalidade, capaz de amar e odiar ao mesmo tempo.

Mas se compreendermos, para começar, que Deus não é uma personalidade humana, mas um centro cósmico de inteligência e poder, que mantém não apenas o equilíbrio da Natureza, da Terra e do Sistema Solar, mas de todo o Cosmos, com sua infinidade de galáxias, em que milhões e milhões de mundos existem, então será fácil entendermos a falácia e o delírio dessas profecias terroristas. A Terra é um grão de areia no infinito, de maneira que o temporal desencadeado nela pelo homem seria bem menos do que uma tempestade num copo d’água.

UMA VISÃO REAL

Os estudiosos, os pesquisadores, os cientistas honestos advertem-nos contra os abusos do poder humano, que podem causar muitos males desequilibrando o meio ambiente. Mas reconhecem, como vimos ainda recentemente no Congresso Internacional de Belgrado sobre a questão populacional, que a situação desastrosa do planeta refere-se a determinadas zonas superpovoadas, como os grandes centros urbanos, as nações altamente industrializadas, e não a toda a Terra. Enquanto, por exemplo, as megalópoles crescem envenenadas pelos seus próprios excessos industriais, as vastas zonas campestres se despovoam. A Terra tem capacidade para uma população muitas vezes maior do que a atual e do que a prevista pelos futurólogos para os próximos anos. A falta de alimentos não decorre da falta de produtividade, mas da falta de transportes e distribuição equitativa do alimento produzido. Além disso, há o problema evidente da falta de distribuição dos recursos financeiros, da falta de revisão da estrutura econômica mundial, sujeita cada vez mais a colapsos provenientes de suas deficiências, de seus clamorosos desequilíbrios.

Cabe ao homem reestruturar os seus esquemas sociais, reajustando-os à necessidade de harmonia e equilíbrio da vida planetária. Cabe ao homem encarar esses problemas por um prisma humanístico, em que prevaleça o princípio do respeito à criatura humana, acima da defesa de princípios sociais e econômicos que estabeleceram regimes de privilégios desumanos em todo o mundo, ainda vigentes, sustentados e estimulados tanto na chamada área socialista, quanto na área do capitalismo ou neocapitalismo, tanto nos países desenvolvidos, quanto nos subdesenvolvidos ou em processo de desenvolvimento.

Delegar a entidades divinas o que nos compete ou querer investir contra as divindades, como novos Prometeus que pretendam roubar o fogo do céu, é simples manobra de fuga ao cumprimento de nossas responsabilidades imediatas. Os princípios evangélicos, a evolução do Direito, a Carta dos Direitos Humanos, o avanço do pensamento filosófico, o desenvolvimento científico e tecnológico, o amadurecimento da razão, todos esses fatores e muitos outros abrem perspectivas novas para a solução dos nossos problemas sociais, culturais e econômicos. Mas, os interesses constituídos e a cegueira da maioria das criaturas (ou a miopia coletiva) impedem a ação eficaz para essa solução. Não precisamos de cidades em funis metálicos no espaço sideral. Aqui mesmo, na Terra, há lugares de sobra para a multiplicação inevitável de nossos centros urbanos. O neomaltusanismo dos nossos dias é ainda mais desarrazoado que o de Malthus. Nossas possibilidades de produção de alimentos cresceram em progressão geométrica, graças ao desenvolvimento científico e tecnológico. O que nos falta é o controle, a ordenação precisa e rigorosa dessas possibilidades, para que os perigos humanos que nos ameaçam sejam superados.

ADMINISTRAÇÃO TERRENA

Dos seus voos heroicos, hoje insignificantes ante o progresso espantoso dos voos aeronáuticos e astronáuticos, Saint-Exupéry chegou à conclusão que deu título ao seu livro famoso: “Terra dos Homens”. Tinha razão o poeta-voador. A Terra é nossa. Foi o ninho em que nascemos e nos desenvolvemos. Mas ainda não aprendemos a administrá-la. A reduzida população terrena dos milênios transcorridos, confinada em zonas determinadas do planeta, com suas civilizações ilhadas, legou-nos a experiência das administrações locais, reduzidas a técnicas dispersivas, desligadas da visão universal que o Cristianismo nos traria. Aprendemos a administrar pequenas nações, mesmo quando situadas em grandes territórios, e a lei da inércia, dominante na estática social e anquilosada nas tradições regionais, consagrou princípios inadequados, impondo-os ao mundo mais vasto e rico do futuro (hoje convertido em presente) como se tivessem validade universal e eterna. Percebemos isso, sentimos o desajuste, mas os interesses criados e a ambição estimulada continuam a agir como meios de contenção do processo renovador.

A evolução cultural deu-nos a possibilidade de compreender Deus em plano superior, mas as nossas deficiências de formação impedem essa compreensão e ainda nos amarram a condicionamentos embaraçosos. Não somos capazes de entender a senha lírica de Saint-Exupéry e transformar o planeta na Terra dos Homens. Não compreendemos sequer a responsabilidade de organização e administração planetária, que decorre de nosso próprio livre-arbítrio, de nossa própria liberdade. Apelamos para esquemas rígidos e desumanos, baseados em processos de violência e opressão, esquecidos do princípio fundamental da fraternidade humana. Falamos em igualdade de direitos, em distribuição da riqueza, em oportunidades para todos, e continuamos a agir como barões feudais, sem forças para rejeitar os sistemas de escravidão e servidão que nos vêm do passado remoto.

Diante do sentimento de impotência gerado por essa situação e pelas dolorosas experiências recentes de soluções arbitrárias, impostas pela força, com o esmagamento das liberdades humanas, com o desrespeito à dignidade da criatura humana, apelamos para a descrença nos valores do espírito e mergulhamos no caos das concepções materialistas e pragmatistas.

Não é Deus, nem quaisquer outras divindades, que nos ameaçam com flagelos destruidores. Somos nós mesmos, os homens, os produtores de flagelos, os criadores de cataclismos.

DESENVOLVIMENTO DA INTELIGÊNCIA

Desenvolvemos a inteligência de maneira assombrosa. Reclamamos a falta de gênios, em comparação com as idades de ouro do passado, e não percebemos que temos mais ouro do que nunca e por isso mesmo os gênios não alcançam o destaque e a fama de outras eras. Aludimos ao inconsciente coletivo e não vemos o arejamento da consciência coletiva, o crescimento da inteligência no povo, nas massas.

Costuma-se atribuir à influência dos novos meios de comunicação a precocidade mental das crianças de hoje, esquecendo-se que a evolução natural da inteligência determinou o aprimoramento e a expansão dos meios de comunicação. As novas gerações manifestam-se inquietas, criando problemas, suscitando crises morais, políticas e sociais. Como afirma Ingenieros: “A juventude toca a rebate em toda renovação”. Dewey acentuou a importância da reelaboração das experiências pelas novas gerações. Cada jovem é um projeto de realizações renovadoras, em maior ou menor medida, e não temos o direito de frustrá-los com o nosso temor do futuro. Eles, os jovens, são o futuro e temos de ajudá-los na realização de suas aspirações, integrando-os nas experiências atuais e preparando-os para o amanhã.

A posição conservadora das velhas gerações decorre do instinto natural de conservação. Faz parte do processo evolutivo, como força moderadora dos impulsos de renovação. Mas os jovens representam a renovação em marcha e cabe-nos o dever de procurar compreendê-los, nunca o de exclui-los ou de querer reduzi-los a conservadores forçados ou fingidos. As velhas gerações vão passando e as novas poderão impor-se através de processos violentos, como reação às opressões sofridas.

O grau atual de desenvolvimento da inteligência humana permite-nos compreender perfeitamente esse processo da dialética da evolução e contribuirmos para manter o equilíbrio necessário na fase de transição que atravessamos. Muitos pedagogos, como Dewey, Kilpatrick, Hubert, Kerschensteiner, lutaram e vêm lutando para estabelecer um tipo adequado de educação a uma civilização em mudança. Essa adequação não pode prescindir de uma compreensão mais ampla do problema espiritual, superando o equívoco do laicismo e da formação sectária de tipo igrejeiro. A Educação Espírita apresenta-se como mediadora para a solução desse problema, oferecendo contribuições decisivas, mas infelizmente o próprio meio espírita não se mostra capaz de compreender o que seja educação espírita.

A única revista especializada do mundo, nesse setor de importância vital para este momento, foi lançada em São Paulo pela editora Edicel, sem finalidade comercial e não está podendo sustentar-se, ante o desinteresse geral, que abrange até mesmo a rede escolar espírita. A inteligência espírita, apegada a um misticismo antidoutrinário, revela-se tão inepta quanto os rabinos do Templo de Jerusalém, no tempo de Jesus, para compreender o seu dever na hora atual. Essa é uma responsabilidade muito mais grave do que geralmente se pensa, nesta hora de transição. E não só os espíritas devem arcar com ela, mas todos os homens de inteligência e cultura que podem contribuir para o esclarecimento popular.

UMA TOMADA DE CONSCIÊNCIA

O apego ao contingente, ao imediato, apaga na consciência dos nossos dias o senso da responsabilidade espiritual. Nem mesmo a ronda constante da morte consegue arrancar o homem atual da embriaguez do presente. O problema do espírito e da imortalidade só se aviva quando ligado diretamente a questões de interesse pessoal. O católico, o protestante e o espírita se equivalem nesse sentido. Todos buscam os caminhos do espírito para a solução de questões imediatistas ou para garantirem a si mesmos uma situação melhor depois da morte.

A maioria absoluta dos espiritualistas está sempre disposta a investir (este é o termo exato) em obras assistenciais, mas revela o maior desinteresse pelas obras culturais. Apegam-se os religiosos de todos os matizes à tábua de salvação da caridade material, aplicando grandes doações em hospitais, orfanatos e creches, mas esquecendo-se dos interesses básicos da cultura. Garantem os juros da caridade no pós-morte, mas contraem pesadas dívidas no tocante à divulgação, sustentação e defesa de princípios fundamentais da renovação da cultura planetária.

A imprensa, a literatura, o ensaio, o estudo, a fixação das linhas mestras da nova cultura terrena ficam ao deus-dará. Falta uma tomada de consciência, particularmente no meio espírita, da responsabilidade de todos na construção e na elaboração da Nova Era, que é trabalho dos homens na Terra.

Ninguém ou quase ninguém compreende que sem uma estruturação cultural elevada, sem estudos aprofundados no plano cultural, que revelem as novas dimensões do mundo e do homem na perspectiva espírita, o Espiritismo não passará de uma seita religiosa de fundo egoísta, buscando a salvação pessoal de seus adeptos, precisamente aquilo que Kardec lutou para evitar.

A finalidade do Espiritismo, como Kardec acentuou, não é a salvação individual, mas a transformação total do mundo, num vasto processo de redenção coletiva. Proporcionar aos jovens uma formação cultural apoiada na mais positiva e completa base espiritual, que mostre a insensatez das concepções materialistas e pragmatistas, dando-lhes a firmeza necessária na sustentação e defesa dos princípios doutrinários, não é só caridade, mas também realização efetiva dos objetivos superiores do Espiritismo nesta fase de transição. Sem esse trabalho não poderemos avançar com segurança e eficácia na direção da Era do Espírito. Temos de dar às novas gerações a possibilidade de afirmarem, diante do desenvolvimento das Ciências e do avanço geral da Cultura, como disse Denis Bradley: “Eu não creio, eu sei!” Porque é pelo saber, e não pela crença, pela fé racional e não pela fé cega, pelo conhecimento e não pelas teorias indemonstráveis que o Espiritismo, como revelação espiritual, terá de modelar a nova realidade terrena, apoiado na confirmação científica, pela pesquisa, dos seus postulados fundamentais. A revelação humana confirma e comprova a revelação divina.

Esse é o problema que ninguém parece compreender. Todos sonham com o momento em que a Ciência deverá proclamar a realidade do espírito. Mas, essa proclamação jamais será feita se a Ciência Espírita não atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura, a visão materialista do mundo e a concepção materialista do homem. Por isso precisamos de Universidades Espíritas, de Institutos de Cultura Espírita dotados de recursos para uma produção cultural digna de respeito, de Laboratórios de Pesquisa Psíquica estruturados com aparelhagem eficiente e orientados por metodologia segura, planejada e testada por especialistas de verdade, capazes de dominar o seu campo de trabalho e de enfrentar com provas irrefutáveis os sofismas dos negadores sistemáticos. É uma batalha que se trava, o bom combate de que falava o apóstolo Paulo, agora desenvolvido com todos os recursos da tecnologia.

Chega de pieguice religiosa, de palestras sem fim sobre a fraternidade impossível no meio de lobos vestidos de ovelhas. Chega de caridade interesseira, de imprensa condicionada à crença simplória, de falações emotivas que não passam de formas de chantagem emocional. Precisamos da Religião viril que remodela o homem e o mundo na base da verdade comprovada. Da caridade real que não se traduz em esmolas, mas na efetivação da fraternidade humana oriunda do conhecimento de nossa constituição orgânica e espiritual comuns, ou seja, da inelutável igualdade humana. De exposições sábias e profundas dos problemas do espírito, nascidas da reflexão madura e do estudo metódico e profundo. Temos de acordar os dorminhocos da preguiça mental e convocar a todos para as trincheiras da guerra incruenta da sabedoria contra a ignorância, da realidade contra a ilusão, da verdade contra a mentira. Sem essa revolução em nossos processos não chegaremos ao mundo melhor que já está batendo, impaciente, às nossas portas.

Não façamos do Espiritismo uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece uma concepção realista do mundo e uma visão viril do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão, os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais. Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos da força e do poder do espírito encerrado no corpo. Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não façamos da existência um muro de lamentações. Somos artesãos, artistas, operários, construtores do mundo e temos de construi-lo segundo o modelo dos mundos superiores que esplendem nas constelações. Estudemos a doutrina aprofundando-lhe os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas do seu Evangelho. Essa é a nossa tarefa.

José Herculano Pires

Fonte: Jornal “Mensagem”, órgão de divulgação do Grupo Espírita Cairbar Schutel, sob a direção de J. Herculano Pires – setembro de 1975 – ano I, nº 4 – São Paulo-SP.

Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Trabalhando os Trabalhadores

 Joana Abranches

Líder trabalhando em conjunto com funcionários e trabalhadores para  trabalhar duro com incentivo e ajuda. 363592 Vetor no Vecteezy

Uma das coisas mais complexas no cotidiano de uma Casa Espírita é administrar as diferenças comportamentais entre os trabalhadores. Aqui e ali, por um motivo ou por outro, pipocam os atritos e melindres, muitas vezes encobertos pelo silêncio em nome da “caridade”, mas evidentes nos olhares atravessados, nos recadinhos indiretos e não raras vezes no afastamento inexplicável daquele companheiro que parecia tão entusiasmado… Quando chega a este ponto é que a guerra de persona, idéias e vibrações já atingiu o seu ponto máximo.

Não desanimemos. Onde há gente há problemas. Graças a Deus!… Porque onde há gente há também muito trabalho a ser feito e muita oportunidade de crescimento espiritual em contato com o outro. A grande questão é como trabalhar as tais diferenças de forma que, apesar delas, haja uma convivência realmente fraterna e saudável sem prejuízo do trabalho.

Todos somos diferentes e isso obedece a um propósito Divino. A natureza é assim. Se os iguais se atraem, os diferentes se complementam. Aquilo que para mim é prazeroso e fácil de realizar, já não é para o outro e vice-versa. É preciso apenas saber identificar, respeitar e integrar essas diferenças, abandonando aquele equivocado conceito de uniformidade que robotiza, que exige consenso em nome de uma harmonia questionável e disponibilidade integral em nome da dedicação; Que deixa implícita a exigência de todos rezarmos na mesma cartilha e de estarmos aptos e disponíveis todo o tempo a todo o tipo de tarefa na Casa Espírita se quisermos figurar no rol dos “trabalhadores da última hora”, dos “escolhidos”. Pronto. Já temos aí o estereótipo criado e “sacramentado”. Quem não se enquadrar está fora.

Este é o ponto. Os problemas nos Grupos Espíritas acontecem não por causa das diferenças, mas pela nossa inabilidade em trabalhar com elas enquanto trabalhadores e lideranças.

Lembremos que a diversidade das flores e ramagens é que confere a beleza e harmonia que nos encanta num jardim, mas por trás de tudo está o trabalho do paisagista, que traçou canteiros e reuniu espécies, combinando cores, formas e, sobretudo, considerando os níveis de resistência e fragilidade para dispor a localização de cada planta. O mesmo se dá na Instituição Espírita. Companheiros com características diversas de personalidade, amadurecimento e aptidão podem estabelecer uma perfeita harmonia em sua diversidade. Mas o “paisagismo” cabe aos dirigentes.

Quem não conhece no seu grupo, por exemplo, alguém que se encaixe no perfil trabalhador “Faz-tudo”? Isso mesmo. Ele parece ter mil e uma utilidades. Dinâmico, disponível, ágil, este companheiro pode ser extremamente útil na execução de atividades práticas. Mas não o chame para reuniões de planejamento porque ou não vai comparecer ou vai cochilar. Para ele é um martírio ficar parado.

Já tem aquele que é o “viajante de plantão”; é aquele companheiro idealista, que sonha, faz projetos para o futuro e de vez em quando chega com uma idéia fantástica que ele jura que foi uma inspiração do mundo espiritual (e não importa de onde venha se for viável e positiva). Excelente para atuar no planejamento, estruturação e reestruturação das atividades, com ele em cena não há acomodação que resista. Está sempre propondo, ousando, criando, buscando alternativas inovadoras para a solução de velhos problemas de uma forma que “ninguém tinha pensado nisso antes…” Mas na hora de desmontar uma mesa… é parafuso pra todo lado e martelada no dedo.

Ah, e que grupo não tem o “certinho”? Extremamente racional e organizado, tudo ele anota, quantifica, formaliza. Para ele tudo tem que estar “preto no branco”. Quem melhor para atuar na área administrativa? Afinal, registrar, fazer contas, controlar e distribuir recursos na medida certa é com ele mesmo.

Por outro lado, temos o “artista”, aquele que não abre mão do lúdico e está sempre a inserir música, teatro e outras manifestações de arte em todas as atividades. Graças ao seu espírito sensível e talentoso as reuniões comemorativas vão estar salpicadas daquela chama de emoção e entusiasmo tão necessária para reabastecer os ânimos e impulsionar pra frente. Ideal para desenvolver trabalhos que envolvam crianças e jovens, este companheiro sacode a mesmice, dá aquele toque de motivação e estimula como ninguém a integração fraterna.

Não poderíamos esquecer ainda do “paizão” ou “mãezona” do grupo. Afetivos, sensíveis, conciliadores, os companheiros com este perfil tem o poder de unir, reunir, apaziguar, conferir um sentido real de família à equipe. Sua habilidade em promover o diálogo e quebrar resistências quando há conflitos é imensa porque falam diretamente ao coração dos demais. Queridos e respeitados pelo amor e equilíbrio que irradiam, esses irmãos são fundamentais para a manutenção da paz na Instituição. São elementos que, entre outros, podem dar uma contribuição importantíssima nas reuniões de Atendimento Fraterno, pois possuem um elevado grau de afetividade que os dispõe naturalmente a acolher e abraçar os que sofrem.

Temos ainda o introspectivo, o extrovertido, o estudioso, o afoito, o ponderado, o questionador, o acomodado, o “modernoso”, o conservador e por aí vai. E quem de nós se aventuraria a discorrer sobre a maior ou menor importância deste ou daquele trabalhador, conforme os perfis aqui relacionados?

Na verdade, todos se completam. Todos são insubstituíveis e indispensáveis em suas peculiaridades porque – enquanto não conseguimos ser perfeitos – este é um excelente exercício de aperfeiçoamento, já que é imprescindível aparar as arestas para nos encaixar nesse desafiador quebra cabeças que é formar uma equipe onde somos chamados a trabalhar para nada mais nada menos do que Jesus.

Quando interiorizamos isto buscamos o entendimento. E quando buscamos o entendimento – olhem só que coisa maravilhosa! – as peças se encaixam. Enquanto uns sonham outros ponderam, enquanto uns planejam outros concretizam, enquanto uns organizam outros adornam, enquanto uns são música outros são livro, enquanto uns são silêncio outros são sonoridade. E assim vamos nós. Trabalhando com as diferenças e assegurando a continuidade da obra. Enquanto isso estamos crescendo, amadurecendo, aprendendo a fazer concessões, a ser voto vencido, a discordar sem “rosnar” e tantos outros exercícios de reforma íntima.

O grande e real problema é este radicalismo autoritário ainda tão impregnado nas lideranças, que inadvertidamente impõem o enquadramento de seres diferentes em um padrão de comportamento rígido e único. Todo mundo tem que pensar igual, tem que ter a mesma disponibilidade, senão é sinal de que não se esforçou o suficiente. Alguém aí tem um “esforçômetro”?

Sim, porque para medir o quanto cada companheiro está se esforçando para dar a sua contribuição, mesmo que aparentemente pequena, precisaríamos de um.

O segredo é nos valer das diferenças para potencializar o trabalho. Ninguém espere mar de rosas. Impossível não haver conflito onde existe diversidade, imperfeição e forças espirituais contrárias prontas para acionar o estopim do orgulho e da vaidade tão presentes ainda em todos nós. Aqui é aquele companheiro veterano que rejeita as novas idéias dos recém-chegados porque só ele é o detentor absoluto da experiência; ali é outro que chega querendo mudar tudo, desconsiderando aqueles que ali já estavam muito antes da sua chegada construindo o que ele encontrou; Acolá é aquele que quer colocar o mundo dentro da casa espírita; mais além é aquele outro que quer tirar a casa espírita do mundo… e um sem fim de situações corriqueiras no cotidiano espírita.

Cabe às lideranças estabelecer um processo de observação e pacificação. Há que se administrar os conflitos para que as relações não sejam abaladas, pois o relacionamento interpessoal é a coluna vertebral da Casa Espírita; se ele está abalado, não se caminha ou se caminha para o caos. E não adianta julgar. Não adianta vir com aquele discurso que o fulano é espírita e deveria agir assim ou assado, porque todos nós sentimos na pele a dificuldade de sermos na prática tudo o que, teoricamente, sabemos que precisamos ser. Como já dizia o meu velho e sábio avô “muitas pessoas entraram para o Espiritismo, mas o Espiritismo ainda não entrou nelas”… e por falar nisso… Será que o Espiritismo, de verdade, já “entrou” em nós de forma tal que nos confira autoridade para avaliar os demais companheiros como bons ou maus espíritas? Há que se ter a humildade de admitir que todos estamos engatinhando em relação à transformação moral que nos fará o verdadeiro espírita que ainda não somos. Só assim trocaremos o dedo em riste por mãos unidas no mesmo esforço.

Um eficaz antídoto contra os atritos é promover a avaliação periódica das atividades do grupo. Mas avaliar não é colocar os companheiros no paredão. Avaliar é reunir todos os trabalhadores sistematicamente, num clima familiar, onde todos são ouvidos de forma democrática e imparcial; é levar a equipe a se debruçar sobre o que está sendo feito, discutir sobre as dificuldades e possibilidades, mantendo, aperfeiçoando ou corrigindo a rota onde for necessário.

Mas é também urgente repensar as decisões de cima pra baixo. Não raro, a diretoria decide e os demais trabalhadores executam, sem que de alguma forma tenham sido ouvidos enquanto elementos fundamentais para a execução das tarefas. Questionar nem pensar, sob pena de serem incluídos imediatamente no tratamento de desobsessão diante da afirmativa paternalista que  “o nosso irmão está precisando muito de preces…” esta é a pena impiedosa de descredibilização “caridosamente” imputada àqueles que ousam “subverter” a ordem vigente.

E diante disto a gente se pergunta: Quando é que nós espíritas vamos conseguir estabelecer a diferença entre hierarquia e autoritarismo? Quando é que vamos parar de medir o valor dos companheiros pelos cargos que ocupam ou pelos títulos que ostentam? Quando é que vamos parar, enquanto dirigentes, de usar os trabalhadores enquanto mão de obra passiva para projetos que não são de todos, mas de alguns? Quando é que vamos parar de tomar questionamentos legítimos como ofensas pessoais e influência de obsessores? Já passou da hora de abandonar tais heranças reacionárias de existências passadas e avançar para a postura simples, respeitosa e justa que minimamente se espera de uma liderança espírita.

A saída é um diálogo constante, fraterno e o mais transparente possível, recorrendo a uma conversa amorosa, não só nas reuniões regulares de avaliação, que é o momento certo de refletir sobre o que não anda bem, mas buscando este diálogo no cotidiano da Instituição – em nível individual ou coletivo – sempre que os problemas surgirem. Omissão por medo de provocar ruptura é um equívoco. Se não criamos coragem de pegar o boi pelos chifres, intervindo junto aos conflitos e divergências quando necessário, estaremos perigosamente contribuindo para que se avolumem. Esconder os problemas não nos liberta deles, pelo contrário, faz com que ganhem força. E de repente lá estão eles, nas conversas de corredor, nos afastamentos repentinos ou nos debates acalorados em momentos impróprios, determinando de forma totalmente negativa a dinâmica das relações e, consequentemente, da Instituição.

Poeira acumulada debaixo do tapete leva a uma alergia tal que aos poucos vai tornando impossível a permanência no ambiente, ou seja, se fecharmos os olhos às dificuldades, quando os abrirmos poderemos tristemente constatar o esvaziamento da Casa, de forma literal ou pior: O desencanto, a ausência da fraternidade legítima, a presença pela “obrigatoriedade” de cumprir o compromisso e não pela alegria de estar junto, que é a base de tudo.

A responsabilidade é grande. Se não quisermos ser “cegos a guiar cegos”, precisamos compreender que conhecimento doutrinário, por si só, não habilita ninguém a estar à frente de Instituições Espíritas. É preciso também muita autocrítica e um mínimo de humildade. Quando convidados a assumir a liderança de nossos grupos, antes devemos nos perguntar se temos perfil para tal, se temos equilíbrio suficiente para atuar como mediadores, aglutinadores, pacificadores, como líderes e não chefes ou donos de coisa alguma, porque senão, ao menor estranhamento vamos ser os primeiros a pegar a nossa malinha e sair por aí atrás do utópico grupo ideal, deixando para trás companheiros divididos e desnorteados.

As chances de êxito são infinitamente maiores quando nos dispomos a exercitar esse tal amor, que não é algo tão longínquo quanto podemos supor; que começa se expressando simplesmente pela valorização dos pontos positivos dos companheiros, em detrimento dos negativos que possam ter; que se faz presente no exercício da tolerância, não porque somos bonzinhos e amamos todos os companheiros de forma igual – porque isto não acontece nesse estágio em que nos encontramos – mas porque temos consciência de que todos estamos no mesmo barco em termos de deficiências espirituais e que cada um precisa da tolerância do outro.

Se não buscarmos nutrir pelos companheiros esse amor possível, vamos continuar brincando de espírita bonzinho e, no fundo, só nos aturando, assim como qualquer profissional no seu ambiente de trabalho. Mas se existir afeto, a gente cede aqui, cede ali ou não cede, porque existem coisas que não dá para transigir, mas diz o que tem que dizer de uma forma sincera, porém amorosa, fraterna e, lembrando Jesus, vamos conversando com o nosso irmão em reservado “e se ele vos entender”, diz o mestre, “então tereis ganho o vosso irmão”.

Difícil?… Mas quem foi que disse que é fácil evoluir… e que se evolui sem conviver?!?

Pensemos nisto.

Joana Abranches – Assistente Social e Presidente da Sociedade Espírita Amor Fraterno – Vitória/ES

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário

O Papel dos Espíritos Missionários na Transição Planetária

Fernanda Oliveira

Reprodução de artigo originalmente publicado na Revista Letra Espírita, ed. 33: 26 de maio de 2022

Todos os Espíritos foram criados por Deus de forma simples e ignorante; somos seres imperfeitos com a capacidade de aprender, errar, pensar, reaprender e evoluir. Somos Espíritos longe da perfeição, com capacidade tanto para o mal como para o bem. A vida em sociedade é aprendizado constante para o progresso. Temos que ter a consciência que somos espíritos eternos e devemos ter um propósito na vida.

O objetivo maior da reencarnação é a capacidade que o ser possui de aprender, discernir e de fazer escolhas válidas para o seu próprio progresso.

O planeta Terra é visitado por inúmeros Espíritos que reencarnados assumem a responsabilidade de ser exemplo e acelerar o progresso mediante invenções, descobertas, inspirações. Podemos entender esses Espíritos como Espíritos missionários.

Segundo o dicionário missionário é aquele que recebeu ou assumiu a incumbência de realizar determinada tarefa ou promover a sua concretização.

Os Espíritos missionários já são designados antecipadamente antes de reencarnarem, trazendo com a sua missão amor, caridade e paz. Nem sempre esses Espíritos possuem a consciência de sua missão. As missões dos Espíritos nobres e altruístas tem sempre por finalidade a promoção do bem, a melhoria do nosso padrão moral, a fraternidade, empatia e o perdão.

Conforme esclarecimento de O Livro dos Espíritos as missões correspondem as capacidades e a elevação do espírito. Como exemplo de alguns espíritos missionários temos Moises, Francisco de Assis, Joana d’Arc, Buda, Gandhi, Alveiro Vargas, Chico Xavier; como Kardec que além do seu trabalho como pedagogo, escritor de diversos livros, também pesquisou, estudou e codificou a Doutrina Espírita com a ajuda dos Espíritos encarnados e desencarnados. Seres humanos diferentes entre si, em diferentes locais, com diferentes graus de conhecimento, mas todos com muita relevância no auxílio de outras pessoas. Jesus ensinou que a maior representação de Deus na Terra é o próximo.

Nenhum sinal excêntrico surgirá na terra ou no céu; não serão vistos descendo do céu; não usarão capas ou alegorias, serão pessoas comuns; em O Evangelho Segundo o Espiritismo aprendemos que: “os verdadeiros missionários de Deus ignoram-se a si mesmos, em sua maior parte; desempenham a missão a que foram chamados pela força do gênio que possuem, secundado pelo poder oculto que os inspira e dirige a seu mau grado, mas sem desígnio premeditado”, acrescentando que são humildes e modestos. Reconhecem-se, então, os Espíritos missionários, pelas suas obras, pelo progresso que realizam, pelo trabalho na seara do bem; no poder de influenciar moralmente e elevar espiritualmente.

Toda mudança de ciclo evolutivo da terra acarreta profundas alterações materiais e espirituais que depende do melhoramento de todos. Durante a transição planetária as criaturas que perceberem a necessidade de mudar irão acompanhar e auxiliar a transformação planetária.

O mundo tem evoluído bastante principalmente no aspecto material: novas tecnologias, globalização, evolução da medicina, transformações cientificas, inovações na engenharia e arquitetura; mas é urgente que as mudanças morais acompanhem todo o progresso material.

Em A Gênese, Kardec esclarece sobre a necessidade da evolução moral para que o planeta realmente passe para um próximo estágio de transição planetária a regeneração. Precisamos colaborar com a evolução moral do planeta já que cada um de nós também temos uma missão pessoal, precisamos desenvolver nossa inteligência emocional, fortalecer nosso espírito com estudos e atividades no bem, bom senso, capacidade de respeitar as diferenças e compreender que cada ser tem seu roteiro divino próprio. Estamos aqui para aprender com as novas situações dessa encarnação.

O estudo da Doutrina Espírita e a reforma intima (autoconhecimento) continuam sendo o caminho mais seguro para se manter o equilíbrio e evoluir. Não podemos seguir valores herdados de organizações sociais e religiões, confundindo o espiritismo com crendices e dogmas que não fazem parte da Doutrina Espírita. O Espiritismo ciência de observação e doutrina filosófica atual e universal não tem nacionalidade, não faz culto particular, não é imposto, não tem hierarquia, não tem símbolos ou logotipos, não tem autoridade máxima, não castiga, não pune, segrega, não resolve os problemas por nós. Busca aproximar o ser humano de Deus onde o que importa é aprender e evoluir buscando a melhoria dos padrões morais.

E de tempos em tempos Espíritos missionários com missões coletivas estão presentes na terra para contribuir no nosso aprendizado e melhoria intelectual, moral e espiritual. A existência terrena é uma responsabilidade do ser para aprender agir no bem através do cuidado, da renovação, da empatia, da solidariedade, da transformação do caráter.

Esses Espíritos missionários seguindo a lei do progresso serão pessoas comuns com o propósito de acelerar o desenvolvimento moral, espiritual, social e intelectual.

Vamos caminhando repensando nossa maneira de viver, lembrando que a regeneração começa dentro de nós. Orando, agindo e vigiando sempre em sintonia com energias positivas e elevadas.

“A transição planetária se inicia quando cada um procura fazer a transição individual moral.” – Murilo Viana

Fernanda Oliveira

Fonte:

==========

REFERÊNCIAS:

KARDEC, Allan – O Evangelho Segundo o Espiritismo – Editora Boa Nova

KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos – Editora EME

Allan KARDEC – A Gênese – Editora IDE

XAVIER, Francisco Cândido / Emmanuel – Missionários da Luz – Editora FEB

CALDINI, Alexandre Neto – A Vida na Visão do Espiritismo – Editora Sextante

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A Intuição

Marta Antunes Moura

Em levantamento estatístico realizado pelo respeitado Instituto de Pesquisa Suíço IMD, IMD (international Institute for Management Development), em 1997, portanto há mais de vinte anos, constatou-se que 80% dos 1.312 executivos entrevistados, em nove países, admitiram que a intuição é importante ferramenta que deveria ser usualmente utilizada na formulação de estratégias e planejamentos empresariais. A maioria dos respondentes (53%) afirmou que recorria à intuição e ao raciocínio lógico em igual proporção, a fim de executar as suas atividades diárias. Em outras palavras, o “ que eles estão dizendo é que administrar é mais do que contar, pesar e medir”.1

Independentemente dos diferentes conceitos emitidos pela Ciência que procura explicar como alguém pode conhecer algo sem utilizar a razão ou raciocínio, para o Espiritismo a palavra intuição pode refletir três tipos básicos de ocorrências : a) manifestação da faculdade anímica ou emancipação da alma b) expressão da faculdade mediúnica; c) lembrança de aprendizado adquirido em épocas passadas e/ou no plano espiritual.

Os fenômenos de emancipação da alma ou anímicos (de anima, alma) são produzidos pelo próprio Espírito encarnado sobretudo nos momentos de desprendimento (desdobramento)espiritual . Nessa situação, o Espírito tem consciência de ocorrências do plano físico como do espiritual, podendo participar ativamente de ambas.2 Retornando ao corpo físico, a pessoa recorda intuitivamente dos acontecimentos vividos, como ensinam os Espíritos orientadores: “Em geral, guardais a intuição dessas visitas ao despertardes. Muitas vezes essa intuição é a fonte certas ideias que vos surgem espontaneamente, sem que possais explicá-las […].”3

Os fenômenos mediúnicos (de médium, meio) decorrem da ação dos Espíritos sobre um instrumento humano, o médium. A intuição manifestada pela via mediúnica é muito sutil: “Frequentemente se torna difícil distinguir o pensamento do médium daquele que lhe é sugerido, o que leva muitos médiuns deste gênero a duvidar da sua faculdade.[…].” 4 Com o passar do tempo e com a prática mediúnica contínua, o médium aprende a fazer distinção entre as próprias ideias e as alheias. A intuição mediúnica está bem explicada por Allan Kardec quando ele analisa as diferentes formas da psicografia:

A transmissão do pensamento também se dá por meio do Espírito do médium, ou melhor, de sua alma, já que designamos por esse nome o Espírito encarnado. O Espírito comunicante não atua sobre a mão para fazê-la escrever; não a toma, nem a guia. Atua sobre a alma, com a qual se identifica. A alma do médium, sob esse impulso, dirige sua mão e a mão dirige o lápis. Notemos aqui uma coisa importante: o Espírito comunicante não substitui a alma do médium, visto que não poderia deslocá-la; domina-a, à revelia dela, e lhe imprime a sua vontade. Em tal circunstância, o papel da alma não é inteiramente passivo; é ela quem recebe o pensamento do Espírito comunicante e o transmite. Nessa situação, o médium tem consciência do que escreve, embora não exprima o seu próprio pensamento. É o que se chama médium intuitivo. 5

A lembrança é outra forma da intuição acontecer. Pode estar vinculada a algum acontecimento que a pessoa presenciou nos momentos de desdobramento pelo sono e que surgem na mente, posteriormente, sob a forma de sonhos. Mas também pode ser uma lembrança que assomou ao consciente, vindo do subconsciente e que se manifesta no mundo íntimo do encarnado. Pode ser uma lembrança que reflete aprendizado adquirido pelo Espírito em vidas passadas e nos intervalos das reencarnações, quando ele se encontrava no plano espiritual, ou é um lembrete relacionado, em geral, a provações existenciais. A primeira possibilidade caracteriza as lembranças denominadas como ideias inatas e tendências instintivas, boas ou ruins. O lembrete relacionado a provas e expiações é um mecanismo de apoio que pode fazer parte do planejamento reencarnatório.

As provações da vida são momentos decisivos para a nossa felicidade futura. A reparação de erros cometidos e aquisição de novos aprendizados exigem esforço permanente no Bem. Assim, usualmente, contamos com o auxílio de Espíritos benfeitores que nos fazem recordar os compromissos assumidos e que nos apoiam nesse processo de melhoria moral e intelectual. Assim, em razão da lei de causa e efeito, o Espírito escolhe, antes de renascer, “[…] provas semelhantes àquelas por que passou ou as lutas que considere apropriadas ao seu adiantamento e pede a Espíritos que lhe são superiores que o ajudem na nova tarefa que porá em execução. […].” 6 Kardec acrescenta outras ponderações: “Embora em nossa vida corpórea não nos lembremos com exatidão do que fomos e do que fizemos de bem ou de mal nas existências anteriores, temos a intuição de tudo isso, sendo as nossas tendências instintivas uma reminiscência do nosso passado, tendências contra as quais a nossa consciência, que é o desejo que sentimos de não mais cometer as mesmas faltas, nos adverte para resistir.” 7

Nos dias atuais, as ideias intuitivas mantêm estreita relação com a criatividade. Para os estudiosos, a mente das pessoas intuitivas desenvolveu a capacidade de lidar com figuras ou configurações. Neste sentido, a intuição é uma forma peculiar do pensamento que emite imagens mentais denominadas não-lógicas.8 “[…] O valor da intuição estaria na habilidade da mente produzir e interpretar imagens não-lógicas e, ao mesmo tempo, coexistir harmonicamente com as emissões do pensamento racional-lógico.”9 Este é o ponto exato que reflete o atual interesse dos estudiosos pela intuição e pelos intuitivos. Empresários e tecnólogos, psicólogos e educadores da atualidade incentivam ou desenvolvem estudos, pesquisas e análises, confiantes de que os insights ou a súbita percepção, próprios dos intuitivos, representam um jeito novo de fazer algo, e pode ser a solução para problemas e desafios complexos, existentes na civilização hodierna.9

Emmanuel esclarece: “A faculdade intuitiva é instituição universal. Através dos seus recursos, recebe o homem terrestre as vibrações da vida mais alta, em contribuições religiosas, filosóficas, artísticas e científicas, ampliando conquistas sentimentais e culturais, colaboração essa que se verifica sempre, não pela vontade da criatura, mas pela concessão de Deus.” 10

Marta Antunes Moura

Fonte: A Intuição (marcoaureliorocha5.blogspot.com)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLECHER, Nelson. Essência da Intuição. São Paulo: Editora Martin Claret, 1997, p. 76.
KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2020. XIX, it. 223, q.2 a 5, p.225-226.
O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2020. Q. 415, p. 213.
__Obras Póstumas. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2019. 1.ª parte, § 6.º, item 50, p. 71.
__O livro dos médiuns. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2020. XV. It. 180, p..184.
O livro dos espíritos. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 9. imp. Brasília: FEB, 2020. Q. 393, p. 202.
__Q. 393- comentário, p. 203.
FISHER, Milton. In: Essência da Intuição. São Paulo: Editora Martin Claret, 1997, p. 59-62.
EPSTEIN, Gerald. In: Essência da Intuição. São Paulo: Editora Martin Claret, 1997, p. 30.
XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. ed. 17. imp. Brasília: FEB, 2020. Cap. 156, p.328.
Publicado em por admin | Deixe um comentário

MENSAGEM DE BEZERRA DE MENEZES 9 DE NOVEMBRO 2014

Saiba quem foi Bezerra de Menezes, o 'médico dos pobres' - TNOnline

Filhas e filhos da alma!

Abençoe-nos o Senhor com a sua paz.

Estes são dias de turbulência.

A sociedade terrestre, com a inteligência iluminada, traz o coração despedaçado pela angústia do ser existencial. Momento grave na historiografia do processo evolutivo, quando se operam as grandes mudanças para que se alcance a plenitude na Terra, anunciada pelos Espíritos nobres e prometida por Jesus. Nosso amado planeta, ainda envolto em sombras, permanece na sua categoria de inferioridade, porque nós, aqueles que a ele nos vinculamos, ainda somos inferiores, e à medida que se opera nossa transformação moral para melhor, sob a égide de Jesus, nosso modelo e guia, as sombras densas vão sendo desbastadas para que as alvíssaras de luz e de paz atinjam o clímax em período não muito distante.

Quando Jesus veio ter conosco, a humanidade experimentava a grande crise de sujeição ao Império Romano, às suas paixões totalitárias e aos interesses mesquinhos de governantes arbitrários. O Espiritismo, a seu turno, instalando-se no planeta, enfrenta clima equivalente em que o totalitarismo do poder arbitrário de políticas perversas esmaga as aspirações de enobrecimento das criaturas humanas e, por consequência, o ser, que se agita na busca da plenitude, aturde-se e, confundindo-se, não sabe como vivenciar as claridades libertadoras do Evangelho.

Com a conquista do conhecimento científico e o vazio existencial, surgem as distrações de vário porte para poder diminuir a ansiedade e o desespero. Naturalmente, essa manifestação de fuga da realidade interfere no comportamento geral dos seareiros da Verdade que, nada obstante, considerando serem servidores da última hora, permitem-se os desvios que lhes diminuem a carga aflitiva.

Tende, porém, bom ânimo, filhas e filhos do coração!

É um momento de siso, de decisões, para a paz no período do porvir.

Recordai-vos de que o Cristianismo nascente experimentou também inúmeras dificuldades. A palavra revolucionária do apóstolo Paulo, a ruptura com as tradições judaicas ainda vigentes na igreja de Jerusalém geraram a necessidade do grande encontro, que seria o primeiro debate entre os trabalhadores de Jesus que se espalhavam pelo mundo conhecido de então.

No momento grave, quando uma ruptura se desenhava a prejuízo do Bem, a humildade de Simão Pedro, ajoelhando-se diante da voz que clamava em toda parte a Verdade, pacificou os corações e o posteriormente denominado Concílio de Jerusalém se tornou um marco histórico da união dos discípulos do Evangelho.

Neste momento de desafio e de conflitos de todo porte, é natural que surjam divergências, opiniões variadas, procurando a melhor metodologia para o serviço da Luz. O direito de discordar, de discrepar, é inerente a toda consciência livre. Mas, que tenhamos cuidado para não dissentir, para não dividir, para não gerar fossos profundos ou abismos aparentemente intransponíveis.

Que o espírito de união, de fraternidade, leve-nos todos, desencarnados e encarnados, à pacificação, trabalhando essas anfractuosidades para que haja ordem em nome do progresso.

O amor é o instrumento hábil para todas as decisões. Desarmados os corações, formaremos o grupo dos seres amados do ideal da Era Nova.

Nunca olvideis que o mundo espiritual inferior vigia as nascentes do coração dos trabalhadores do Bem e, ante a impossibilidade de os levar a derrocadas morais, porque vigilantes na oração e no trabalho, pode infiltrar-se, gerando desequilíbrio e inarmonias a benefício das suas sutilezas perversas e a prejuízo da implantação da Era Nova sob o comando do Senhor.

Nunca olvidemos, em nossas preocupações, que a Barca terrestre tem um Nauta que a conduz com segurança ao porto da paz.

Prossegui, lidadores do Bem, com o devotamento que se vos exige de fazerdes o melhor que esteja ao vosso alcance, em perfeita identificação com os benfeitores da humanidade, especialmente no Brasil, sob a égide de Ismael, representando o Mestre inolvidável.

Venceremos lutando juntos, esquecendo caprichos pessoais, de imposições egotistas, pensando em todos aqueles que sofrem e que choram, que confiam em nossa fragilidade e aguardam o melhor exemplo da nossa renúncia em favor do Bem, do nosso devotamento em favor da caridade, da nossa entrega em novo holocausto.

Já não existem as fogueiras, nem os empalamentos. Os circos derrubaram as suas muralhas e agora expandem as suas fronteiras por toda a Terra, mas o holocausto ainda se faz necessário.

Sacrificai as próprias imperfeições, particularmente neste sesquicentenário de evocação da chegada do Evangelho à Terra, decodificado pelos Imortais.

Recordai também, almas queridas, que o Espiritismo é, sem qualquer contradita, o Cristianismo que não pôde ser consolidado e que esteve na sua mais bela floração nos trezentos primeiros anos, antes das adulterações nefastas, e que foi Jesus quem o denominou Consolador.

Este Consolador sobreviverá a todas as crises e quando, por alguma circunstância, não formos capazes de dignificá-lo, a irmã morte arrebatará aqueles que não correspondem à expectativa do Senhor da Vinha, substituindo-os por outros melhormente habilitados, mais instrumentalizados para os grandes enfrentamentos que já ocorrem na face do planeta.

Todos sabemos que a transformação moral de cada indivíduo é penosa, de longo curso, por efeito do atavismo ancestral, e que a Lei dispõe do recurso dos exílios coletivos para apressar a chegada da Era Nova.

Abençoados servidores! Abençoadas servidoras da Causa! Amai! Amai com abnegação e espírito de serviço a Doutrina de santificação, para que os vossos nomes sejam escritos no livro do reino dos Céus e possais fruir de alegrias, concluindo a etapa como o apóstolo das gentes, após haverdes lutado no bom combate.

Os mentores da brasilidade, neste momento grave por que também passa o nosso país, assim como o planeta, estão vigilantes.

Permiti-vos ser por eles inspirados e saí entoando o hino do otimismo e da esperança, diluindo a treva, não fixando o medo nem a sombra, que por momento domina muitas consciências. Não divulgando o mal, somente expondo o bem, para que a vitória não seja postergada.

E ide de volta, seareiros da luz! O mundo necessita de Jesus, hoje mais do que ontem, muito mais do que no passado, porque estamos a caminho da intuição, após a conquista da razão, para mantermos sintonia plena com aquele que é o nosso guia de todos os dias e de todas as horas.

Muita paz, filhas e filhos do coração!

São os votos do servidor humílimo e paternal, em nome dos obreiros da seara de todos os tempos, alguns dos quais aqui conosco nesta hora.

Muita paz!…

Bezerra

(Mensagem psicofônica recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, no encerramento da Reunião Ordinária do Conselho Federativo Nacional, em Brasília, DF, na manhã de domingo, em 9 de novembro de 2014.)

Publicado em por admin | Deixe um comentário

A Carne é Fraca?

Allan Kardec

A CARNE É FRACA?

A carne só é fraca porque o Espírito é fraco, o que inverte a questão deixando àquele a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, destituída de pensamento e vontade, não pode prevalecer jamais sobre o Espírito, que é o ser pensante e de vontade própria.

O Espírito é quem dá à carne as qualidades correspondentes ao seu instinto, tal como o artista que imprime à obra material o cunho do seu gênio. Libertado dos instintos da bestialidade, elabora um corpo que não é mais um tirano de sua aspiração, para espiritualidade do seu ser, e é quando o homem passa a comer para viver e não mais vive para comer.

A responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta; mas a razão nos diz que as conseqüências dessa responsabilidade devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito. Assim, quanto mais esclarecido for este, menos desculpável se torna, uma vez que com a inteligência e o senso moral nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto.

Esta lei explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde que o temperamento é um efeito e não uma causa, todo o esforço para modificá-lo se nulifica ante as disposições morais do Espírito, opondo-lhe uma resistência inconsciente que neutraliza a ação terapêutica. Por conseguinte, sobre a causa primordial é que se deve atuar.

Dai, se puderdes, coragem ao poltrão, e vereis para logo cessados os efeitos fisiológicos do medo. Isto prova ainda uma vez a necessidade, para a arte de curar, de levar em conta a influência espiritual sobre os organismos.

Allan Kardec

Revue Spirite, março de 1869, p. 65.

Extraído da obra “O Céu e o Inferno (ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo)”, de Allan Kardec.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

O Sono nas reuniões espíritas

Francisco Rebouças

Ver a imagem de origem

Todos nós sabemos da necessidade do sono para o refazimento do nosso organismo físico. No entanto, é preciso que se atente para o fato, de que nem sempre nos é adequado fazer uso dessa bênção para nos restabelecer o equilíbrio, havendo mesmo ocasiões em que ele pode até se tornar fatal para nossas vidas.

Há momentos em que não se pode admitir que alguém possa estar dormindo como, por exemplo, na hora do trabalho remunerado, que pode lhe custar até mesmo a demissão por justa causa; ou quando estiver com a responsabilidade de cuidar de uma criança; ou ainda no trânsito ao volante de um veículo nas rodovias brasileiras, imagine um médico dormindo ou mesmo cochilando, durante uma cirurgia delicada, etc. etc. Assim, podemos afirmar que, “o sono exercido à hora em que se solicita a vigília, pode tornar-se inimigo cruel e implacável”.

Alan Kardec nos esclarece a respeito da utilidade do sono conforme segue:

À hora de dormir

“O sono tem por fim dar repouso ao corpo; o Espírito, porém, não precisa de repousar. Enquanto os sentidos físicos se acham entorpecidos, a alma se desprende, em parte, da matéria e entra no gozo das faculdades do Espírito. O sono foi dado ao homem para reparação das forças orgânicas e também para a das forças morais. Enquanto o corpo recupera os elementos que perdeu por efeito da atividade da vigília, o Espírito vai retemperar-se entre os outros Espíritos. Haure, no que vê, no que ouve e nos conselhos que lhe dão, idéias que, ao despertar, lhe surgem em estado de intuição. É a volta temporária do exilado à sua verdadeira pátria. É o prisioneiro restituído por momentos à liberdade.

Mas, como se dá com o presidiário perverso, acontece que nem sempre o Espírito aproveita dessa hora de liberdade para seu adiantamento. Se conserva instintos maus, em vez de procurar a companhia de Espíritos bons, busca a de seus iguais e vai visitar os lugares onde possa dar livre curso aos seus pendores.

Eleve, pois, aquele que se ache compenetrado desta verdade, o seu pensamento a Deus, quando sinta aproximar-se o sono, e peça o conselho dos bons Espíritos e de todos cuja memória lhe seja cara, a fim de que venham juntar-se-lhe, nos curtos instantes de liberdade que lhe são concedidos, e, ao despertar, sentir-se-á mais forte contra o mal, mais corajoso diante da adversidade.” ¹

Nas reuniões espíritas, sejam nas palestras, nos grupos de estudos, nas reuniões mediúnicas, ou outra qualquer, não se pode admitir que o trabalhador espírita dê menos importância aos labores da Seara do Mestre de Nazaré, que nos afazeres normais do seu dia a dia, visto que, em sendo ele admitido para essas tarefas na seara da mediunidade, acredita-se que esteja consciente de sua responsabilidade nas referidas atividades da casa espírita que frequenta.

Temos visto muitos companheiros, alistados nas tarefas das cassas espíritas, que são protagonistas de situações realmente desagradáveis, por se entregarem ao sono nas reuniões doutrinárias, que normalmente já chegam atrasados com a intenção única de dar passes no final das palestras, para que sejam observados por todos como tarefeiros passistas de suas instituições. Quando se vêem chamados a dar algumas explicações sobre o sono que lhes dominam, saem com as maiores e mais absurdas desculpas tais como:

1- Estou sendo utilizado pelos espíritos para ceder fluidos para ajuda ao orador;

2- Estou trabalhando em parcial desdobramento;

3- Alguns chegam a afirmar, que aprendem muito mais desdobrados que em vigília, etc.

Claro que esse desculpismo infundado e sem lógica doutrinária é natural naqueles que se julgam mais sabidos que os outros, mas, que na verdade em nada condiz com alguém que conhece os preceitos de uma doutrina clara e lógica como a nossa. Sabemos, que o cansaço físico de um dia atribulado no trabalho profissional, aliado à falta de motivação e a monotonia de determinados oradores, muito pode contribuir para a sonolência de quem já tem o mau hábito de dormir nas atividades espirituais da casa espírita.

Mas, esses fatores predisponentes aqui citados, não representam a verdadeira causa do adormecimento nesse tipo de reunião, que na sua grande maioria se processa pela interferência de mentes viciosas do mundo espiritual inferior, que operam magneticamente à distância, com a finalidade de não permitirem que o indivíduo adormecido se beneficie do tema edificante da palestra.

Sobre o assunto, vejamos o que diz o assistente “Aulus” para André Luiz:

“(…) Os expositores da boa palavra podem ser comparados a técnicos eletricistas, desligando «tomadas mentais», através dos princípios libertadores que distribuem na esfera do pensamento.

Sorriu bem-humorado e prosseguiu:

— Em razão disso, as entidades vampirizantes operam contra eles, muitas vezes envolvendo-lhes os ouvintes em fluidos entorpecentes, conduzindo esses últimos ao sono provocado, para que se lhes adie a renovação”.2

Irmã Zélia, também confirma a ação perniciosa dos desencarnados infelizes que se aproveitam da invigilância de certos tarefeiros, que imprevidentes e despreparados para os misteres da mediunidade se deixam envolver por essas influências negativas conforme narra a Otila Gonçalves:

“Alguns – prosseguiu – penalizada –, embora libertados momentaneamente das expressões obsidentes, penetram o recinto, com desrespeito e indiferença, entregando-se, durante o trabalho, ao sono reprochável, resultante da intoxicação mental de que são portadores, ou se deixam conduzir pelos pensamentos habituais, refazendo as ligações mentais e ameaçando o serviço venerando, pela possibilidade de invasão intempestiva dos seus algozes revoltados, constrangidos, na retaguarda, e que, destarte, encontram brechas no conjunto que deve ser protegido e defendido por todos.” 3

Dessa forma, é de suma importância que nos preparemos adequadamente, para exercer as atividades no labor mediúnico, em nossas casas espíritas, observando alguns ensinos ministrados pelos amigos espirituais dentre os quais destacamos:

a- Quando possível, fazer um pequeno relaxamento físico e mental, antes de se dirigir ao trabalho espiritual da casa espírita;

b- Evitar alimentação exagerada e de difícil digestão;

c- Dedicar-se com alegria e empenho às atividades espirituais, por saber que estamos representando Jesus ante o necessitado que o busca;

d- Evitar conversas negativas, como críticas, comentários sobre doenças, queixas, etc., portando-se de forma mais digna exigida para um trabalhador da Seara do Mestre de Nazaré;

e- Manter-se em sintonia elevada, orando e vibrando positivamente, contribuindo para o êxito do trabalho.

Precisamos atentar para o fato de que, somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos e não podemos ficar acusando este ou aquele indivíduo, ou este ou aquele motivo para nos desculpar dos nossos insucessos perante as tarefas de cunho espiritual a nós confiadas pela Espiritualidade Maior.

Sobre esse assunto, ouçamos o que nos diz André Luiz:

“Não acuse os Espíritos desencarnados sofredores, pelos seus fracassos na luta. Repare o ritmo da própria vida, examine a receita e a despesa, suas ações e reações, seus modos e atitudes, seus compromissos e determinações, e reconhecerá que você tem a situação que procura e colhe exatamente o que semeia”. 4

Que Jesus nos guarde em sua paz, e que não sejamos nós os responsáveis pelo fracasso das atividades de intercâmbio nas tarefas a que nos candidatamos por livre e espontânea vontade.

Francisco Rebouças

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

Referências:

1) E.S.E. – Cap. XVIII, item 38.

2) Livro: Nos domínios da mediunidade , 23ª edição– Cap. 4, pag. 39.

3) Livro: Além da Morte , 9ª edição – Cap. XVI, pag. 239.

4) Livro: Agenda Cristã – Cap. 18.

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Mediunidade

Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

MEDIUNIDADE OSTENSIVA

Lembrando que a questão fenomênica é acessória e não mais constitui ponto essencial para as propostas doutrinárias, Emmanuel admoesta: São muito poucas as casas espíritas que se podem entregar ao exercício da mediunidade. Os dirigentes vigilantes devem intensificar reuniões de estudos teóricos, meditação e debates racionais para entendimentos seguros, fugindo de um prematuro intercâmbio com as forças advindas do além-túmulo. (1)

Para melhor compreendermos os objetivos da mediunidade nos seus matizes básicos, temos que separar, com discernimento, o exercício mediúnico, dos postulados Espíritas e definirmos fenômeno, por elemento material de análise e Espiritismo, como a base teórica que esclarece os fenômenos. Esse comportamento é para nos libertarmos das fantasias, mitos e crendices. Em face disso, ressaltamos a urgente necessidade do estudo continuado do Livro dos Médiuns, um compêndio insuperável para o entendimento da sensibilidade mediúnica.

A palavra médium advém do latim, médium ou seja: meio, intermediário. Pessoa que pode servir de intermediário entre os Espíritos e os homens conforme instrui Allan Kardec.

Incorreremos em grave distorção doutrinária se concluirmos que todos nós somos mais ou menos médiuns no sentido restrito e usual da palavra, ou seja, se julgarmos que todos podem produzir manifestações ostensivas, tais como psicofonia, psicografia, efeitos físicos, etc.. Um aspecto central, relativo à natureza da mediunidade, acha-se exposto na resposta à pergunta que Kardec endereçou aos Espíritos: “O desenvolvimento da mediunidade guarda proporção com o desenvolvimento moral dos médiuns? Não; a faculdade propriamente dita prende-se ao organismo; independe do moral. O mesmo, porém, não se dá com o seu uso, que pode ser bom ou mau, conforme as qualidades do médium”. (2)

Infere-se, do exposto, que mediunidade (ostensiva) é faculdade especial que certas pessoas possuem para servirem de intermediárias entre os Espíritos e os homens. É de origem orgânica e independe da condição moral do médium, de suas crenças, de seu desenvolvimento intelectual.

No parágrafo 200, de O Livro dos Médiuns, Allan Kardec deixa claro que não há senão um único meio de constatar a existência da faculdade mediúnica em alguém: a experimentação. Ou seja, só poderemos saber se uma pessoa é médium, observando se ela é, efetivamente, capaz de servir de intermediária aos Espíritos desencarnados. Isso, naturalmente, remete-nos à importante questão do estudo metódico e educação da mediunidade.

O desenvolvimento da faculdade mediúnica depende da natureza mais ou menos expansível do perispírito(*) do médium e da maior ou menor facilidade de assimilação das energias dos Espíritos; depende, portanto, do organismo e pode ser desenvolvida quando existir um relacionamento fluídico entre o médium e o espírito comunicante; caso contrário, não há fórmula sacramental para desenvolver esse dom de Deus.

Incorre em erro grave quem queira forçar, a todo custo, o desenvolvimento de uma faculdade que ainda não aflorou, pois, como sabemos todos os homens têm o seu grau de mediunidade, nas mais variadas posições evolutivas (…) (3) Emmanuel explica à questão 384 no livro O Consolador: Dever-se-á provocar o desenvolvimento da mediunidade? Ninguém deverá forçar o desenvolvimento dessa ou daquela faculdade, porque, nesse terreno, toda a espontaneidade é necessária; observando-se contudo, a floração mediúnica espontânea, nas expressões mais simples, deve-se aceitar o evento com as melhores disposições de trabalho e boa-vontade (…)(4) E reitera: A mediunidade não deve ser fruto de precipitação nesse ou naquele setor da atividade doutrinária, porquanto, em tal assunto, toda a espontaneidade é indispensável, considerando-se que as tarefas mediúnicas são dirigidas pelos mentores do plano espiritual. (5)

Estejamos, pois, vigilantes quanto à aplicação prática da mediunidade, lamentavelmente, tão mal conduzida em nossas hostes. As pessoas quando procuram os centros espíritas, cedo ou tarde, são encaminhadas, irrefletidamente, às chamadas reuniões de desenvolvimento mediúnico, antes mesmo de se evangelizarem ou nem mesmo apresentarem indícios rudimentares dessa faculdade. Os orientadores argumentam que, se são pessoas que apresentam desequilíbrios múltiplos de saúde que desafiam a perícia médica, ou se revelam distúrbios de comportamento que, de alguma forma, fogem aos costumes estipulados pela sociedade, devem entregar-se, imediatamente, ao desenvolvimento da mediunidade, o que é um absurdo. Sugerem, ainda, que, se alguém tem grande interesse pelo Espiritismo, ela tem todas as condições para o exercício do sublime mandato mediúnico, incorrendo em outro grande erro.

Recordemos, porém, que a educação mediúnica promovida nos centros espíritas não deve, jamais, ser entendida como aprendizado de técnicas e métodos para fazer surgir a mediunidade, mas, exclusivamente, como aperfeiçoamento e norteamento eficaz para o equilibrado das faculdades brotadas naturalmente, o que conduz ao aperfeiçoamento moral do médium por meio do estudo sério e de seus esforços continuados para o ajuste de suas práticas às recomendações evangélicas.

“Os médiuns que fazem mau uso de suas faculdades, que não se servem delas para o bem, ou que não as aproveitam para se instruírem, sofrerão as conseqüências dessa falta? Se delas fizerem mau uso, serão punidos duplamente, porque têm um meio a mais de se esclarecerem e não o aproveitam. Aquele que vê claro e tropeça é mais censurável do que o cego que cai no fosso.” (6)

Emmanuel ainda alerta: O exercício da mediunidade nas tarefas espíritas exige larga disciplina mental, moral e física, assim como grande equilíbrio das emoções. (7)

Portanto, a mediunidade mal exercida significará sofrimento para o médium, pois, a invigilância por falta de conhecimento prévio de seus mecanismos, fatalmente, o conduzirá à confusão, à dúvida, à mentira, insuflando o egoísmo, o orgulho, a vaidade e o personalismo. Mediunidade sem estudo sério da doutrina e sem Jesus sedimenta a emissão de forças mentais deletérias, abrindo espaço à perseguição dos Espíritos que insistem em permanecer nas trevas.

(*) O perispírito desempenha papel de suma importância no processo, sendo o mesmo o agente de todos os fenômenos mediúnicos, e estes só podendo produzir-se pela ação recíproca dos fluidos que emitem o médium e o Espírito, temos como regra sem exceções que, ocorrendo um fenômeno de comunicação com o mundo espiritual, necessariamente haverá a participação de um médium. Em alguns casos, como em certas manifestações de efeitos físicos, não se nota a presença do médium, mas podemos estar certos de que haverá alguém, em algum lugar, servindo de médium, ainda mesmo que este não esteja consciente do papel que desempenha.

Jorge Hessen

Fonte: G.E. Casa do Caminho São Vicente

FONTES:

(1) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, RJ: Ed.FEB-2000, ditado pelo Espírito Emmanuel, questão

(2) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, RJ: Ed. FEB, 1997, parágrafo 226

(3) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, RJ: Ed.FEB-2000, ditado pelo Espírito Emmanuel, questão 383

(4) Idem Ibidem questão 384

(5) Idem Ibidem

(6) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, RJ: Ed. FEB, 1997, parágrafo 226

(7) Xavier, Francisco Cândido. Encontro Marcado, Capítulo Examinando a Mediunidade, ditado pelo Espírito Emmanuel

Publicado em por admin | Deixe um comentário

Vampiros Espirituais

Autoria: Sylvinha Gonçalves

Certa noite, cansado do Umbral, resolvi ir à festa. Entrei, sem a menor dificuldade, numa boate e me aproximei de um casal. Sentados na área externa do ambiente, o homem e a mulher tomam suas bebidas em grandes goles e riam descontroladamente, visivelmente embriagados.

– É agora! – Disse, animado

Simplesmente colei neles me beneficiando do álcool que fortemente exalavam. Ainda não era suficiente para o meu próprio “barato” e os influenciei para que comprassem mais bebida.

O homem se levantou e foi até o bar, enquanto que a mulher, para a minha alegria, tirou da bolsa um maço de cigarros, mas não encontrava o isqueiro. Agitada, começou a vasculhar a bolsa, mas eu, o localizando, dei meu comando e logo ela acendeu o seu cigarro. Aspirei profundamente a fumaça, ainda quente de seus pulmões, relaxando com minha parceira da noite.

Após uns minutos, avistei duas jovens, que eram bem mais vantajosas. Elas se dirigiram ao banheiro e peguei carona, pois sabia que o melhor estava por vir.

Ciente de suas intenções, distraí as duas mulheres que estavam na porta, fazendo com que elas desistissem e voltassem para a pista. Fiquei de sentinela, enquanto uma delas colocava sobre a pia um estojo espelhado com pó, oferecendo à amiga. Tudo sob controle, as duas se revezaram, limparam os narizes, lavaram as mãos e saíram.

Ainda não estava satisfeito. Foi então que segui um casal nada discreto, indo em direção à ala reservada somente aos casais. Facilmente os induzi à prática sexual, aproveitando-me das energias genésicas e disputando com outros, que grudaram em seus órgãos sexuais como lobos sobre um pedaço de carne.

Estava quase satisfeito – já bebera, fumara, experimentara as sensações do sexo, mas me faltava um pouco mais de emoção.

Deixei a casa noturna e peguei carona com uma turma de homens que planejavam um jogo, com aposta alta.

Na casa havia tudo o que eu já consumira. Fiquei na bebida e de olho no jogo. Percebi, pela conversa, qual era o indivíduo mais vulnerável e decidi atormentá-lo. Até agora eu apenas usufruíra, mas estava na hora de mais emoção e à custa dos panacas.

Célio era o seu nome. Faltava pouco para se divorciar. A esposa estava farta de suas noitadas, bebedeiras e das dívidas que contraíra. Eu o achei o alvo perfeito. Ele havia pedido dinheiro emprestado a um amigo, prometendo dividir com ele o prêmio e se perdesse, lhe pagaria uma caixa de bebidas.

Eu fiz de tudo para que Célio ganhasse a aposta. Confundi a cabeça dos jogadores, fiz com que trocassem as cartas, enfim, tudo entre xingamentos e brigas. Por fim, deixei que os ânimos se acalmassem para que Célio voltasse para casa… outra hora acertaria o que devia ao amigo.

Queria vê-lo em cena com a esposa, que o esperava, sem dormir, com os nervos alterados.

Nem bem entrara e Joana iniciou a discussão, o culpando, como sempre, por suas aventuras. Célio quis tranquiliza-la mostrando o dinheiro sujo e fazendo novas promessas de que tudo melhoraria, mas a mulher estava intratável e eu, eu dei uma forcinha, é claro. Para resumir, finalmente Joana pediu o divórcio e o resto, ah, o resto é resto; o que importa é que dei muita risada!

Já era de manhã e minha próxima parada foi na padaria, sendo que, logicamente eu não poderia comer, mas me fartaria através dos comilões. Me juntei a uma família, que fazia seu desjejum – um casal e dois filhos, dois meninos. A mesa era farta e eu abrira-lhes ainda mais o apetite. Comeram e beberam até não poderem mais e eu, igualmente estava cheio, cheio daquela energia toda.

Àquela hora, as lojas já estavam se abrindo. Para encerrar o meu passeio fui ao Shopping. Não foi difícil de localizar alguma madame. Acompanhei uma mulher bem vestida e a fiz parar em frente a uma vitrine de sapatos e bolsas. Agucei o seu interesse, dando dicas de sapatos e bolsas mais caros, sugestionando sua mente a se recordar dos cartões de crédito que ainda poderia usar.

Eu me sentia muito bem. Fiz a dondoca usar e abusar dos cartões. Ela estava feliz e eu, mais ainda, pois me alimentava de sua compulsão e euforia.

Agora era hora de voltar ao Umbral. Estavam me chamando e já me dava por satisfeito.

– Ah se estes encarnados soubessem como e o quanto podem ser manipulados! Eles podem e eu, quem disse que eu não posso? Vou, mas chamarei para o próximo passeio meus parceiros, assim nos divertiremos todos juntos! Afinal, tem para todos!

Sylvinha Gonçalves

Fonte: kardecriopreto.com.br

Publicado em por admin | Deixe um comentário

ESPIRITISMO, ÉTICA E CONHECIMENTO

Luiz Signates

Ver a imagem de origem

Resumo: Resposta à pergunta enviada por Carlos Alberto Iglesia Bernardo sobre hierarquia, comunicação e ética nas relações de poder dentro do movimento espírita.

…………………………………………………..

Sempre ouvimos que o Espiritismo não tem uma autoridade central, não tem hierarquias estruturadas, mesmo os Grupos Espíritas são associações formadas livremente por seus participantes. A definição do que é “Espírita” ou “não é Espírita” vem do consenso dos Espíritas, sua conformidade com os princípios estabelecidos por Kardec na Codificação Espírita e da uniformidade dos ensinamentos transmitidos pelos Espíritos. Informações lançadas por Espíritos ou grupos isolados são hipóteses ou opiniões pessoais até que o consenso se estabeleça a respeito.

Contudo tenho dificuldades, e já reparei não ser o único, de entender como isso funciona – ou deveria funcionar na prática. Consigo ver que a comunicação (principalmente a escrita) desempenha um papel importante na manutenção da unidade do movimento espírita – evitando que ele se decomponha em uma infinidade de “seitas”, mas não consigo visualizar as regras dessa comunicação. O consenso é uma realidade prática ou uma utopia? A comunicação continuará funcionando bem dentro de uma comunidade Espírita cada vez maior? Não corremos o risco de alguns poucos grupos espíritas melhor estruturados absorverem a função de definir o que é Espirita e o que não é (dando nascimento a hierarquias e poderes religiosos)? – Carlos Alberto Iglesia Bernardo Acho que a discussão a respeito do consenso ultrapassa o interesse demarcatório, que é onde se encontra a idéia da pureza doutrinária e da fidelidade a Kardec, não raro fundante de mecanismos de exclusão em nosso meio. Allan Kardec postulava o consenso intersubjetivo interexistencial como critério epistemológico, isto é, como critério de verdade. Gilberto Guarino, contudo, enfatiza com razão os problemas metodológicos desse critério, pois sua aplicabilidade é muito difícil, senão impraticável.

A saída que tenho pensado a respeito é observar o consenso a partir de uma perspectiva ética, buscando uma solução em que conhecimento e fraternidade se unam como uma ética da construção do saber espírita. O que significa isso, na prática? Significa que a idéia de consenso intersubjetivo se estabelece como vínculo de fraternidade em busca de um conhecimento conjunto. A razão, contudo, nesse caso, não é a da conformidade com conteúdos, e sim a dos princípios de relacionamento. Em lugar do interesse demarcatório (definição sociocultural do que é e do que não é espírita, para fazer emergir um suposto “Espiritismo puro”, sem as influências afro ou orientais, por exemplo), a idéia é a de buscarmos a construção pragmática da fraternidade vivida, justamente pela aceitação da diversidade e o relacionamento pacífico entre as diferenças e, somente a partir daí, tornarmos válida nossa busca por conhecimento. Tal idéia não procede de mim: é de Jesus Cristo, quando afirmou, peremptoriamente:

“Os meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem”, pontuando que “quem não é contra mim, é por mim”.

Os postulados fundamentais dessa proposta são, primeiro, o de que “é espírita todo tipo de procedimento que esteja em conformidade com a ética de Jesus Cristo” e, segundo, o de que “somente dentro de tal ética de procedimento, poderemos construir o Espiritismo como conhecimento válido”. Os critérios demarcatórios, entretanto, têm trabalhado pelo inverso: primeiro define-se o Espiritismo a partir de um conjunto de ideias até certo ponto dogmatizadas e, somente depois, é que se erige uma relação de fraternidade, não raro condicionada à aceitação daquele conjunto de ideias. Por isso se briga tanto no movimento espírita em torno de questões que, no fundo, não têm importância alguma, como o corpo fluídico de Jesus ou a reencarnação de Allan Kardec… Tal como nos negros períodos da história do cristianismo, embora sem os mesmos mecanismos de violência, passamos a justificar novos tipos de guerra santa, desta vez em defesa da verdade e da pureza doutrinárias, rompendo constantemente com a fraternidade em seu nome.

Segundo minha humilde forma de pensar, o que expressa o Espiritismo – e, por conseguinte, aquilo que define o espírita – são justamente as formas fraternas de vida que esse conhecimento desencadeia, e não um sistema de crenças que, no caso do Espiritismo, arrisca-se às vezes a erigir determinados supostos do positivismo e do racionalismo francês do século passado como verdades insofismáveis. E, para isso, como você muito bem pontua, erigem-se sistemas institucionalizados de poder com o privilégio de definir o que é e o que não é espírita, sistemas esses que passarão a disputar entre si a hegemonia de tais definições. Desencadeado o processo de disputa de poder, perde-se o essencial da ética cristã e, uma vez mais, Jesus Cristo volta para as ruas, a fim de começar de novo a construção do amor no mundo, do ponto onde ela parou…

Tal é o motivo pelo qual tenho por mim que nossa missão não é a de converter as pessoas para as coisas que pensamos, mas de estabelecer com elas uma relação de fraternidade autêntica.

A proposta do Espiritismo, penso eu, é fundar no mundo a sociedade das pessoas que se amam – e o amor só é possível na diversidade. Antes da relação de conhecimento (o “instruí-vos”) está a relação de fraternidade (o “amai-vos”), sendo que aquela somente é espiritamente válida se for fundada nesta. O movimento espírita, portanto, para ser espírita de fato, denomine-se ou não desta forma, é aquele que relativiza as pretensões de conhecimento e funda o diálogo fraterno entre elas. Esse argumento, inclusive, tem base kardequiana: o Espiritismo foi pensado pelo codificador como progressivo; ora, o progresso do conhecimento espírita (que se daria pela revelação dos espíritos em constante confronto com os métodos e postulados da ciência de cada época) só é possível em regime de diálogo cognitivo, e jamais pela fundação de um conjunto de conteúdos tidos por inamovíveis.

Nesse sentido, e para não cairmos no relativismo moral, define-se a busca espírita do conhecimento pela sua ética, esta sim, consensualizada e consensualista por natureza: a ética da fraternidade, a partir da qual os conhecimentos humanos relativos a respeito das coisas espirituais encontrariam sempre um caldo de cultura onde pudessem mostrar suas diferenças sem se estranharem e, sobretudo, sem o soerguimento de muros de preconceito e autoritarismo, dispensando, portanto, os movimentos de exclusão que vêm se tornando tão comuns entre nós.

Luiz Signates

Fonte: Espiritualidade e Sociedade

Publicado em por admin | Deixe um comentário