Como conviver com as tentações?

Francisco Rebouças

COMO CONVIVER COM AS TENTAÇÕES?

“Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência.”– (Tiago, 1:14.)

Iniciamos este nosso artigo, recorrendo ao dicionário da língua portuguesa para entender o significado da palavra “Tentação”, conforme segue: Substantivo feminino. Atração por coisa proibida. Movimento íntimo que incita ao mal. Desejo veemente.

Os Espíritos Superiores atendendo às questões formuladas pelo codificador da Doutrina Espírita, sobre o assunto, esclareceram-nos nas perguntas abaixo, extraídas de O Livro dos Espíritos que seguem.

712 – Com que fim pôs Deus atrativos no gozo dos bens materiais?

“Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por meio da tentação.”

– Qual o objetivo dessa tentação?

“Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.”

Se o homem só fosse instigado a usar dos bens terrenos pela utilidade que têm, sua indiferença houvera talvez comprometido a harmonia do Universo. Deus imprimiu a esse uso o atrativo do prazer, porque assim é o homem impelido ao cumprimento dos desígnios providenciais. Mas, além disso, dando àquele uso esse atrativo, quis Deus também experimentar o homem por meio da tentação, que o arrasta para o abuso, de que deve a razão defendê-lo.

713. Traçou a Natureza limites aos gozos?

“Traçou, para vos indicar o limite do necessário. Mas, pelos vossos excessos, chegais à saciedade e vos punis a vós mesmos.”

714. Que se deve pensar do homem que procura nos excessos de todo gênero o requinte dos gozos?

“Pobre criatura! Mais digna é de lástima que de inveja, pois bem perto está da morte!”

– Perto da morte física, ou da morte moral?

“De ambas.”

O homem, que procura nos excessos de todo gênero o requinte do gozo, coloca-se abaixo do bruto, pois que este sabe deter-se, quando satisfeita a sua necessidade. Abdica da razão que Deus lhe deu por guia e quanto maiores forem seus excessos, tanto maior preponderância confere ele à sua natureza animal sobre a sua natureza espiritual. As doenças são, ao mesmo tempo, o castigo à transgressão da lei de Deus.

Parece-nos claro que o desenvolvimento da razão é algo, imprescindível, ao indivíduo para que atenda ao impositivo da Lei Maior, que estabelece que todo excesso é desnecessário, principalmente, em relação aos bens materiais que nos levam ao abuso indiscriminado desses recursos, causando prejuízos não só à sociedade como também a nós mesmos.

Por essa razão, o dinheiro, o poder, a evidência pessoal e etc podem representar obstáculos difíceis de serem vencidos e se tornarem causas de quedas e atrasos em nossa caminhada rumo à felicidade e a paz de espírito que tanto almejamos desfrutar um dia, conforme nos mostra a história da humanidade onde o que não faltam são exemplos de personalidades ilustres, em todos os setores da vida humana, que se deixaram arrastar pelos prazeres ilusórios das tentações.

Precisamos atentar para as instruções que os Emissários Superiores nos falam também sobre o papel da razão, que representa o equilíbrio e se alcança com o desenvolvimento da inteligência que Deus nos concedeu para o nosso crescimento intelectual, moral, e espiritual conforme podemos observar nas questões seguintes.

780. O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente.” (192-365)

– Como pode o progresso intelectual engendrar o progresso moral?

“Fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

Peçamos a Deus, na prece ensinada por Jesus que “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”, não nos esquecendo dos desafios que, muitas vezes, entendemos por mal e que, na verdade, são oportunidades necessárias ao nosso equilíbrio e quitação dos débitos contraídos diante das sábias e justas Leis Divinas.

Encerrando este artigo com as palavras de Emmanuel no capítulo 88 do livro Religião dos Espíritos conforme segue.

“…Recorda, porém, que toda dificuldade é teste renovador. Todos somos tentados na imperfeição…”

A única fórmula clara e segura de vencer, no teste contra as influências inferiores, será sempre, o que for, com quem for e seja onde for, esquecer o mal e fazer o bem.

Francisco Rebouças

Fontes:  Espiritismo na Rede

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Romances psicografados são melhores?

Gabriela Dias

O romance é um gênero literário que traz uma narrativa em prosa, ficção, conto ou novela.

Os romances espíritas têm por objetivo trazer ensinamentos, lições e respostas de uma forma mais leve e prática, através de narrativas e personagens, baseadas em histórias verídicas ou não (no caso de uma ficção, por exemplo), nos auxiliando na compreensão dos ensinamentos da Doutrina Espírita.

Comumente, entre os apreciadores da literatura espírita, observamos o seguinte questionamento: essa obra é psicografada? ou seja, ela foi ditada por um espírito através da psicografia ou foi o próprio autor que a escreveu? E muitos, diante da negativa à essa pergunta, perdem o interesse pelo livro sem nem ao menos examinar seu conteúdo.

Enquanto adeptos da Doutrina Espírita, não estaríamos caindo em contradição ao dar mais atenção a obras psicografadas em detrimento de obras que não o são? Não estaríamos nos interessando mais pelo misticismo do que pelo espiritismo, de fato?

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXI, no item 10, Kardec nos aconselha em nota:

Em geral, “desconfiai das comunicações que trazem um caráter de misticismo e de estranheza ou que prescrevem cerimônias e atos bizarros; então, há sempre um motivo legítimo de suspeição.”

Não devemos nos apegar tanto aos misticismos e aos fenômenos mediúnicos, mas ao ensinamento que aquele conteúdo nos traz. A Doutrina Espírita não deve ser palco e seus adeptos não devem ser protagonistas de manifestações de misticismo que pouco agregam e sempre devem ser questionadas.

Se hoje lemos, estudamos e temos capacidade intelectual para escrever sobre assuntos ligados à Doutrina Espírita, devemos esperar o desencarne para ditar o que sabemos a um médium (algumas vezes com menos instrução) para que nossas palavras tenham credibilidade?

Vejam, não se trata de dizer que uns são melhores que os outros por terem mais instrução em nível de conhecimento terreno, material, mas de questionarmos e avaliarmos um trabalho por seu conteúdo doutrinário e não descredibilizá-lo por não ter diretamente um espírito por trás pois, assim, ignoramos o fato presente em O Livro dos Espíritos, na questão 459, onde os espíritos ao serem questionados por Kardec se os Espíritos influem nossos pensamentos e ações, respondem:

“Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto, que, de ordinário, são eles que vos dirigem.”

Assim sendo, todos somos médiuns e, ainda que o trabalho não tenha sido concebido através da psicografia, todo conteúdo que busca instruir e disseminar as leis de amor e caridade pode e, provavelmente foi também inspirado, mesmo que de uma forma inconsciente.

No livro O Que é o Espiritismo, durante diálogo com o visitante Kardec elucida que:

“(…) Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo. Aquele que empreende essa tarefa, deve fazê-la sem ideias preconcebidas. Mas, se antes de abrir o livro já o condenou em seu pensamento, seu exame não pode ser imparcial.”

A crítica se aplica tanto ao lado “negativo”, quando ao “positivo” quando julgamos que um romance é melhor por ter sido concebido através da psicografia.

Analisando ainda mais, se considerarmos bom um romance simplesmente por ter sido psicografado e não nos atentarmos a seu alinhamento doutrinário, como identificaremos possíveis contradições com o espiritismo e até mesmo processos obsessivos? (Sim, mesmo os médiuns psicógrafos que já exercem sua mediunidade de forma ostensiva e trabalham há anos podem ser obsidiados.)

Em Armadilhas da Obsessão, a autora Rafaela Paes de Campos nos explica que:

“(…) a obsessão não é fruto apenas da inferioridade de certos espíritos, mas também, fruto de um descuido do obsidiado, que se deixa levar pela negatividade de pensamentos e sentimentos, abrindo portas imensas para que esses espíritos menos esclarecidos exerçam seu poderio.”

Dessa forma, devemos sempre analisar o conteúdo dos livros sem nos apegar aos misticismos e à possível fama do médium que, independente do tempo que já atua, não detém o conhecimento absoluto da verdade. E, se acha que detém, precisamos desconfiar ainda mais pois, em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXIII, intitulado Da Obsessão, Kardec nos explica como os diversos tipos de obsessão podem se manifestar e nos esclarece sobre a fascinação:

A” fascinação tem consequências muito mais graves. É uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium, e que paralisa de alguma forma seu julgamento com respeito às comunicações. O médium fascinado não crê ser enganado. (…)”

Portanto, torna-se imprescindível o cuidado e o critério imparcial daqueles que avaliam uma obra durante seu processo de publicação, impedindo que venha a público conteúdos duvidosos que visam apenas o retorno material. E a nós, leitores e amantes dos romances espíritas, cabe o dever de não julgar o livro apenas pela capa ou pela psicografia, mas passar os livros pelo crivo da razão e não desconsiderar o conhecimento e os ensinamentos que nos são oferecidos.

Gabriela Dias

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 365° edição, 2009, p. 202.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillion Ribeiro. Rio de Janeiro, RJ, FEB, 84° edição, 2003, p. 246.

KARDEC, Allan. O Que é o Espiritismo. Tradução de Salvador Gentile. Araras, SP, IDE, 74° edição, 2009, p. 13.

CAMPOS, Rafaela Paes de. Armadilhas da Obsessão. Campos dos Goytacazes, RJ, Editora Letra Espírita, 1° edição, 2020, p. 24.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP, IDE, 85° edição, 2008, p. 209.

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Falar e Fazer

Aldevair David

Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não (…) (1)

Sem dúvida deverá sempre existir entre a fala e a ação uma certa coerência, até para que o falante tenha alguma credibilidade.

É certo que esta é a forma ideal de fazer, porém, não existem perfeitos no mundo em que habitamos. Os seres aqui são classificados pelos espíritos superiores como imperfeitos e bem distantes da perfeição, por isso o que ainda predomina no mundo é o mal, fruto do que cada um produz com a sua condição moral a ser aperfeiçoada.

Entender a condição que nos nivela nesse mundo, a de espíritos atrasados moralmente, não nos dá o direito de fazer o que queremos, pois mesmo não tendo total consciência do que fazemos, respondemos por nossos atos, pensamentos e sentimentos perante a lei divina, essa lei que está em nossa consciência e nos mostra sempre o certo e o errado. Nossas paixões nos aconselham mal, ainda cedemos aos impulsos de fazer o que nos agrada, o que nos dá prazer mesmo que em detrimento do outro.

Muitos justificam que não se aventuram a falar do bem porque ainda não são bons, que não opinam sobre a luz uma vez que ainda tateiam em alguma escuridão, então, transformam-se em críticos de plantão, dizendo que não sendo perfeitos aqueles que falam, não deveriam ter a ousadia de se colocarem à frente dos outros para ensinar. Não há dúvida de que nenhum falante possui em plenitude todas as virtudes sobre as quais fala, mas isso não é motivo decisivo para não o fazer, tendo em vista que ao fazê-lo estão recordando para si mesmos os seus deveres morais para com a vida e os seus irmãos. Comenta o codificador do espiritismo que, “se Deus não houvesse concedido a palavra, senão aos que são incapazes de dizer coisas más, haveria mais mudos que falantes”. (2)

Compreendemos que o ideal é que nos esforcemos para sermos melhores, assim, o que estivermos falando encontrará abrigo na alma de quem nos ouve porque vem de um coração sincero que está procurando melhorar-se, se falamos sem desejar nossa própria corrigenda, a hipocrisia provocará irritação e repulsa. Somente a sinceridade de propósitos dará autoridade moral àquele que fala.

Vejamos o Modelo e Guia da humanidade, Jesus, ao procurar seguir os seus ensinamentos, verdadeiramente falaremos com sincero amor e real desejo do bem.

A LUZ QUE ILUMINA A PALAVRA VIRÁ SEMPRE DO EXEMPLO.

Adelvair David

Fonte: Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Mateus, 5:37; e

(2) O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap XXIV, item 12.

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A Alegria dos Outros

Momento Espírita

Um jovem, muito inteligente, certa feita se aproximou de Chico Xavier e indagou-lhe:

Chico, eu quero que você formule uma pergunta ao seu guia espiritual, Emmanuel, pois eu necessito muito de orientação.

Eu sinto um vazio enorme dentro do meu coração. O que me falta, meu amigo?

Eu tenho uma profissão que me garante altos rendimentos, uma casa muito confortável, uma família ajustada, o trabalho na Doutrina Espírita como médium, mas sinto que ainda falta alguma coisa.

O que me falta, Chico?

O médium, olhando-o profundamente, ouviu a voz de Emmanuel que lhe respondeu:

Fale a ele, Chico, que o que lhe falta é a “alegria dos outros”! Ele vive sufocado com muitas coisas materiais. É necessário repartir, distribuir para o próximo…

A alegria de repartir com os outros tem um poder superior, que proporciona a alegria de volta àquele que a distribui.

É isto que está lhe fazendo falta, meu filho: a “alegria dos outros”.

* * *

Será que já paramos para refletir que todas as grandes almas que estiveram na Terra, estiveram intimamente ligadas com algum tipo de doação?

Será que já percebemos que a caridade esteve presente na vida de todos esses expoentes, missionários que habitaram o planeta?

Sim, todos os Espíritos elevados trazem como objetivo a alegria dos outros.

Não se refere o termo, obviamente, à alegria passageira do mundo, que se confunde com euforia, com a satisfação de prazeres imediatos.

Não, essa alegria dos outros, mencionada por Emmanuel, é gerada por aqueles que se doam ao próximo, é criada quando o outro percebe que nos importamos com ele.

É quando o coração sorri, de gratidão, sentindo-se amparado por uma força maior, que conta com as mãos carinhosas de todos os homens e mulheres de bem.

Possivelmente, em algum momento, já percebemos como nos faz bem essa alegria dos outros, quando, de alguma forma conseguimos lhes ser úteis, nas pequenas e grandes questões da vida.

Esse júbilo alheio nos preenche o coração de uma forma indescritível. Não conseguimos narrar, não conseguimos colocar em palavras o que se passa em nossa alma, quando nos invade uma certa paz de consciência por termos feito o bem, de alguma maneira.

É a Lei maior de amor, a Lei soberana do Universo, que da varanda de nossa consciência exala seu perfume inigualável de felicidade.

Toda vez que levamos alegria aos outros a consciência nos abraça, feliz e exuberante, segredando, ao pé de ouvido: É este o caminho… Continue…

* * *

Sejamos nós os que carreguemos sempre o amor nas mãos, distribuindo-o pelo caminho como quem semeia as árvores que nos farão sombra nos dias difíceis e escaldantes.

Sejamos os que carreguemos o amor nos olhos, desejando o bem a todos que passam por nós, purificando a atmosfera tão pesada dos dias de violência atuais.

E lembremos: a alegria dos outros construirá a nossa felicidade.

Redação do Momento Espírita, com base em relato sobre episódio da vida de Francisco Cândido Xavier, de autor desconhecido, e que circula pela Internet

Fonte: G.E. Casa do Caminho de S. Vicente

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O que a física quântica tem a ver com o espiritismo?

Por Eliana Haddad                                                         Alexandre Fontes Fonseca

Alexandre Fontes Fonseca

Afinal, o que a física quântica tem a ver com o espiritismo? Muitos autores e palestrantes têm comentado sobre a relação existente entre espiritualidade e as descobertas da ciência, principalmente no que se refere à física quântica, e é preciso compreender bem esse assunto para evitar confusões. Há pouco mais de um século, o físico Max Planck tentava compreender a energia irradiada pelo espectro da radiação térmica, calor que todos os corpos emitem, e chegou a algumas conclusões que balançaram os princípios da física clássica. Nascia assim a física ou mecânica quântica, trazendo novos conceitos, como a não localidade. Em entrevista ao Correio Fraterno, o doutor e professor de física no Departamento de Física da Faculdade de Ciências da UNESP, em Bauru, Alexandre Fontes da Fonseca, fala sobre o assunto e alerta para as conclusões apressadas e indevidas ao se falar sobre o tema no meio espírita.

O que é física quântica?

Física quântica é o ramo da física que estuda e descreve o comportamento da matéria em escala microscópica (atômica e subatômica). Ela se baseia no fato de que trocas de energia entre sistemas atômicos só podem ocorrer em múltiplos de um determinado valor que é, então, chamado de quantum, daí o adjetivo ‘quântico’. A energia do sistema não pode ter qualquer valor, mas apenas valores associados a determinados ‘estados físicos’. Podemos comparar esses ‘estados físicos’ a prateleiras de uma estante. Os livros só podem se situar em alturas dadas por cada prateleira, mas nunca entre uma prateleira e outra. A física quântica, é preciso enfatizar, é uma teoria da matéria, isto é, desenvolvida para descrever o comportamento de objetos materiais.

O que a física quântica tem a ver com o espiritismo? Precisamos dela para compreendê-lo?

Não tem nada a ver com o espiritismo. Ambas são teorias diferentes, desenvolvidas para descrição de ‘objetos’ de estudo distintos. Enquanto a física quântica é uma teoria da matéria, o espiritismo é a ciência do espírito.

Para apreender e compreender o espiritismo e seus pontos fundamentais, em nada precisamos da física quântica ou de outras teorias modernas da ciência.

Percebe-se um alvoroçado interesse dos espíritas pela física quântica, muitas vezes para justificar a existência do espírito. Isso está correto?

Apesar de a intenção ser boa, isso não está correto! Esse interesse decorre de algumas interpretações ‘estranhas’ da teoria quântica (isto é, que estão fora do senso-comum) que fazem pensar que os fenômenos espíritas (também considerados fora do senso-comum) devam ter relação direta com essas interpretações. Esse tipo de extrapolação ou relação superficial entre conceitos da física e do espiritismo não é uma prática científica!

Como assim, interpretações estranhas? Pode dar um exemplo?

Ao tentar entender o comportamento quântico das partículas em nível microscópico, surgem interpretações como: um objeto pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo; influência da consciência do observador nas medidas experimentais; uma partícula pode se comportar como uma onda e vice-versa; a existência de universos paralelos; ligação não local, etc.

Essas interpretações são estranhas, pois decorrem da tentativa de se perceber o comportamento das partículas microscópicas com as impressões que temos do mundo macroscópico, através dos nossos cinco sentidos. Essa é apenas uma das razões para evitar que se façam relações superficiais entre conceitos quânticos e conceitos espíritas.

Mas que problemas acarretariam a aceitação desse tipo de relação entre física quântica e espiritismo?

A invigilância e a falta de conhecimento sobre o que é ciência e de como ela progride favorecem a abertura de brechas no movimento espírita para a assimilação de teorias e doutrinas pseudocientíficas que, por usarem conceitos da física quântica na sua descrição, encantam as pessoas fazendo-as achar que se trata de teorias e doutrinas científicas. Como Kardec, em A gênese, propõe que o espiritismo esteja sempre de acordo com a ciência, alguns companheiros espíritas um pouco apressados e sem entendimento profissional do assunto adotam e propagam algumas teorias e práticas místicas, só porque elas se consideram científicas por usarem conceitos da física. Esquecem-se de que o espiritismo orienta que “é melhor repelir dez verdades do que admitir uma só falsidade” (Erasto, item 230 de O livro dos médiuns). A vigilância, portanto, com relação a esse tipo de assunto deve ser mais que redobrada! E tem gente se aproveitando da ignorância do público leigo para ganhar dinheiro com venda de livros, dvds, seminários, documentários, cursos, congressos, etc., todos utilizando-se o adjetivo “quântico” sem ter respaldo formal e rigoroso da física. O movimento espírita deve se precaver contra isso. Se estudarem a fundo o que é ciência, o que é física e, o mais importante, o que é o espiritismo, muitas dessas confusões vão deixar de existir.

Você teria exemplos de teorias e práticas baseadas na física quântica que mesmo bem intencionadas carecem de bases científicas?

Sim. Uma dessas teorias, que tem sido muito divulgada no movimento espírita, como demonstração científica de conceitos como Deus, alma, reencarnação e mediunidade, está contida na obra Física da alma, de Amit Goswami. Segundo ele, a alma após o desencarne permanece num estado permanente de sono, que perdura até a próxima encarnação. Para Goswami, o mundo espiritual não tem graça, por permanecerem os espíritos inconscientes. Nosso Lar e André Luiz não existem no mundo espiritual de Goswami. Vê-se que não precisa saber de física quântica para perceber o absurdo doutrinário de suas teorias!

Outra teoria que tem atraído alguns companheiros espíritas é a chamada apometria. Ela surgiu como uma técnica de desdobramento destinada a ajudar pessoas com problemas espirituais e de saúde. Suas obras básicas são apresentadas como totalmente baseadas em conceitos e equações da física. Porém, a teoria usa de maneira equivocada os conceitos da física, faz extrapolações no campo da pesquisa de maneira inapropriada e define equações sem nenhuma coerência interna ou com relação à física, não satisfazendo os rigores mínimos de desenvolvimento nessa área.

Há também uma teoria baseada na física conhecida e respeitada no movimento espírita. O autor dedicou muitos anos à pesquisa de fenômenos espíritas e foi muito idealista, além de pessoa fraterna e inteligente deixando inúmeros amigos e seguidores. Trata-se da teoria corpuscular do espírito ou, mais recente, teoria do psi quântico, de Hernani G. Andrade. Hernani propôs uma teoria para a matéria psi similar à teoria quântica da matéria, propondo que o espírito fosse composto por essa matéria. A ideia é interessante, porém a forma como as partículas da matéria psi foram propostas não seguiram metodologia e rigores que se empregam na pesquisa e desenvolvimento de novas teorias em física. A teoria de Hernani contém erros de física, além de extrapolar conceitos sem o devido rigor formal usado na física. Apesar de valer a leitura pelas informações e pela criatividade, o psi quântico não pode ser considerado uma teoria científica legítima.

Para o espiritismo, temos na base de tudo Deus, espírito e matéria. Onde a física quântica se encaixaria?

A física quântica nada mais é do que uma criação humana para tentar descrever alguns fenômenos naturais em escala microscópica. É uma tentativa de entender, utilizando-se uma sofisticada linguagem matemática, algumas leis naturais válidas para a matéria.

Afinal, existe uma ‘nova física’ que possibilitaria outras vias de acesso ao conhecimento, além dos métodos da ciência atual? Que novidade é essa?

Não existe ‘nova física’ que possibilite outra via de acesso ao conhecimento! “Para coisas novas precisamos de palavras novas”, já dizia Kardec! Quando uma nova via de acesso ao conhecimento surgir, será preciso dar um nome novo para distingui-la das vias de acesso conhecidas. Precisará também ser testada e verificada como, de fato, uma “via de acesso ao conhecimento”. Os defensores de uma nova física apenas estão pretendendo valorizar conceitos místicos, usando o status que a física tem na sociedade. Isso é uma forma moderna de enganar o público leigo que não conhece física e não sabe avaliar cientificamente a ‘novidade’. É preciso tomar muito cuidado, lembrando que Kardec sempre apoiou a ciência formal e não movimentos pseudocientíficos.

Na sua visão, a física quântica vai identificar a existência do espírito, como inteligência, independente da matéria?

Não! Não é a física quântica a origem da inteligência no espírito! O espírito se revela pelo conteúdo de suas mensagens! E foi assim que o espiritismo identificou e comprovou a existência da alma, sua sobrevivência e a possibilidade de comunicação com os encarnados. No máximo, a física um dia irá contribuir no entendimento de como ocorre a interação entre fluidos espirituais (perispírito, por exemplo) e matéria (corpo físico).

Devemos combater a tentação de obter mérito sem o devido aprofundamento no estudo. Espiritismo é uma doutrina ao mesmo tempo simples e robusta. Simples nos seus propósitos de regeneração da humanidade através da regeneração de cada um de nós; e robusta nas suas bases que não são somente científicas, mas também divinas. O espiritismo é a única doutrina conhecida na humanidade que tem um duplo caráter de uma revelação: o caráter divino e o científico (Kardec, item 13 do cap. I de A gênese). Portanto, saibamos valorizar o espiritismo na forma como foi revelado pelos bons espíritos, pois temos um compromisso de estudá-lo e compreendê-lo, para então poder ajudá-lo a se desenvolver dentro dos parâmetros de qualidade e seriedade que o tornarão conhecido e respeitado por todos.

(Artigo original publicado no Jornal Correio Fraterno)  12 de agosto de 2019

Fonte: correio.news

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Atividade Espiritual

Martins Peralva

ATIVIDADE ESPIRITUAL

LE – Questão 401: Durante o sono, a alma repousa como o corpo?

– Não, o Espírito jamais está inativo.

Nos círculos mais elevados do Espírito, o trabalho não é imposto. A criatura consciente da verdade compreende que a ação no bem é ajustamento às leis de Deus e a ela se rende por livre vontade. – Emmanuel

* * *

Incessante é a atividade do Espírito, seja na vigília, seja durante o sono.

Habituados, sempre, a examinar os problemas em função das leis conhecidas, atuantes na esfera fisiológica, os menos afeitos aos temas espíritas encontram dificuldade em compreender não tenha a alma necessidade de repouso.

Levemos em conta, no estudo do assunto, o trinômio “Espírito-Perispírito-Corpo”, para que se facilite nosso entendimento.

Para o corpo o descanso é imperativo, objetivando o refazimento da estrutura celular, cujo desgaste, naturalmente, provoca a exaustão, o enfraquecimento orgânico.

O perispírito, igualmente, por refletir, nas almas pouco evoluídas, o condicionamento a impressões e sensações de natureza fisiológica, acusa reações de cansaço e aflição, de dor e sofrimento, consoante observamos nas sessões mediúnicas, ao se comunicarem entidades ainda ligadas, mentalmente, ao veículo corpóreo. Além da referência dos Espíritos a Allan Kardec, a literatura de André Luiz comprova a necessidade do “descanso perispiritual”, que se reflete, inclusive, em sua densidade e coloração.

O Espírito, a centelha divina, o elemento inteligente, incorpóreo, não repousa, não dorme, segundo os atuais conhecimentos doutrinários.

Tão logo entorpece o corpo, pelo sono, afasta-se o Espírito e demanda regiões do seu agrado, de sua preferência, para o desempenho de atividades peculiares ao seu estado evolutivo, o qual lhe dita os gostos.

Assegurando que O ESPIRITO JAMAIS ESTÁ INATIVO, a Codificação complementa o ensino:

“Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos”.

Os sonhos – dizem os Amigos de Mais Alto – comprovam a liberdade e atuação do ser, enquanto dorme o homem.

Quantos encontros, à noite, realiza nossa alma com amigos e desafetos, com entidades inferiorizadas ou com almas superiores, causando-nos alegria ou tristeza, segundo for o caso, provocando um despertar suave e esperançoso, inquieto ou sufocante!

Os pesadelos – abstraindo-nos, é bem verdade, dos arrolados pela Medicina, e que se verificam por anomalias fisiológicas, envolvendo perturbações digestivas -, são, sob o ponto de vista espírita, o resultado de desagradáveis encontros com adversários, encarnados ou desencarnados, que nos atacam, que conosco duelam.

Leia-se André Luiz, entidade que não cessa de estudar, no plano espiritual, e de transmitir-nos o que vai aprendendo, e ter-se-á conhecimento de tudo isto.

Encontros felizes, reuniões encantadoras, aulas edificantes, tertúlias plenas de amor, dos quais guardamos, algumas vezes, clara recordação, realizam-se durante o sono, além da vida orgânica, em prolongamento das experiências diuturnas.

Problemas aparentemente insolúveis, no quadro dos argumentos e providências simplesmente humanos, são equacionados, via de regra, na Espiritualidade, no contato com almas generosas e amigas, que, dotadas de mais ampla visão, experientes e sábias, vislumbram ângulos e implicações que nos escapam, aqui no plano terrestre, onde mais limitadas são as nossas percepções.

A vida real é a espiritual.

A imersão da Alma no corpo de carne representa, apenas, a necessidade do comparecimento do viajor da eternidade ao cenário do mundo, no cumprimento de missão, de provas ou no resgate de enganos que lhe comprometeram a felicidade e o equilíbrio.

O Espírito movimenta-se, trabalha, atua e age enquanto dormem os sentidos físicos, muito mais do que imaginar se possa.

Durante o sono, apenas o consciente adormece.

Liberta-se o inconsciente, pelo afrouxamento da “vigília”.

Os sonhos premonitórios e uma série de outros fenômenos psicológicos evidenciam, de maneira incontestável, a atividade do Espírito durante o sono, aglomerando fatos do passado e do presente e aspirações futuras.

Examinando o problema dos sonhos, no capítulo da atividade espiritual, consideramos oportuno recorrer, mais uma vez, à obra extraordinária de André Luiz – “No Mundo Maior”, explanação de Calderaro, no capítulo “Casa Mental” -, para melhor entendimento da mecânica dos sonhos, em sua profunda complexidade, tendo em vista as naturais reações psicológicas do homem fisicamente adormecido, mas com o Espírito em plena atividade.

Eis o que nos diz o categorizado Instrutor:

“Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultaneamente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiões distintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares.”

Nossa visualização gráfica:

Casa Mental:

SUPERCONSCIENTE = Casa das noções superiores

CONSCIENTE = Domicílio das conquistas presentes

SUBCONSCIENTE = Residência dos impulsos automáticos.

Classificando, desta maneira, nos três andares do “prédio”, o superconsciente, o consciente e o subconsciente, complementaríamos ainda – porque nosso propósito é tornar compreensivo o assunto – a elucidação, já suficientemente clara e lógica, porque sobretudo singela, com mais um esquema:

SUPERCONSCIENTE = Idealismo Superior = FUTURO

CONSCIENTE = Conquistas atuais = PRESENTE

SUBCONSCIENTE = Síntese dos serviços já realizados = PASSADO.

Lições maravilhosas são-nos ministradas à noite, enquanto repousa o corpo.

Experiências valiosas são-nos transmitidas enquanto passam, tranquilas, as horas noturnas.

Oportunos avisos são-nos dados enquanto dormimos.

Muitas resoluções, tomadas durante o dia, constituem o resultado, a soma de conselhos, de orientações, de roteiros que os amigos espirituais – os “anjos da guarda” de nossos caros irmãos do catolicismo – fornecem-nos à noite, ocorrência que justifica, sem dúvida, o bem conhecido dito popular de que “a noite é boa conselheira”.

Quem gosta de bons assuntos, bons assuntos procurará durante o sono.

Quem prefere bons ambientes, bons ambientes buscará, em Espírito.

A regra prevalece, é bom acentuar, em sentido inverso, indicando a predominância do Espírito nas ações humanas. Inclinações da criatura encarnada vigem no campo espiritual, no sono ou na desencarnação, não tenhamos a este respeito a menor dúvida.

Imperioso, portanto, cultivemos, aqui na Terra, tudo quanto representa amor e convicções nobres.

Indulgência para com os nossos semelhantes.

Desambição ante os valores do mundo.

Cultivo da solidariedade.

Exercitemos, na vigília, o que de melhor nos seja possível fazer, de modo não seja o sono, para nós outros, desagradável pesadelo, mas algumas horas de ventura, nas sociedades de Além-Túmulo, a garantirem, pela manhã, um suave despertar e reconfortante dia de trabalho.

O superconsciente poderia ser designado por “Região da Esperança”, nela situando eminências espirituais que nos compete atingir. As intuições dos gênios e as criações dos santos significam penetrações no compartimento superconsciencial.

O consciente (zona intermediária), campo de atividade da vida presente, contém energias utilizáveis para as manifestações peculiares ao nosso “modo de ser” atual.

Vida moral equilibrada, estudos edificantes, amor evangélico, culto à verdade, etc., são recursos que, adotados na vida presente, criarão condições para que se formem os gênios e os santos.

Na zona subconsciente, situa-se a “residência de nossos impulsos automáticos”. Ê a vida mecanizada, dela eclodindo impulsos que contam a nossa história pretérita.

A fim de nos mantermos equilibrados na direção do Mais Alto, devem as nossas mentes se valer das conquistas passadas, desde que nobres, na orientação do presente, que, por sua vez, deve-se amparar na luminosa esperança que flui do idealismo elevado, para que se concretizem os notáveis cometimentos do futuro – “meta superior a ser alcançada”.

Martins Peralva

O Pensamento de Emmanuel – 21

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Melindrismo

Rogério Coelho

MELINDRISMO

A autoevangelização e a estruturação doutrinária impõem-se como medidas impostergáveis

“Toda a casa dividida contra si mesma não subsistirá”. – Jesus. (Mt., 12:25.)

Uma equipe de Espíritos capitaneada pelo Dr. Bezerra de Menezes foi convocada a prestar socorro de emergência em uma determinada Casa Espírita, não pelas condições oferecidas pelos trabalhadores da Casa, mas pelos méritos da criatura que ia receber o benefício. Tratava-se de uma senhora, portadora de um carcinoma em insidioso estágio de metástase, já desenganada pelos médicos, vez que falharam todos os recursos da medicina conhecida na Terra. A desencarnação fora prevista para dentro de no máximo 1 ou 2 meses, segundo os prognósticos baseados nos exames realizados nos sofisticadíssimos equipamentos de última geração. Fazia-se urgente, então, o auxílio da medicina espiritual da qual nós, os encarnados estamos longe de avaliar a dimensão e a potencialidade dos recursos…

Os integrantes da equipe à exceção do Dr. Bezerra de Menezes, já veterano das lides socorristas, não disfarçavam a surpresa ao se depararem com a indigência espiritual a que estava relegado aquele Centro Espírita. Notava-se claramente que ali abundavam as reuniões mediúnicas e faltavam as reuniões de estudo. Os trabalhadores eram extremamente personalistas e ciosos de suas respectivas “sapiências e autoridades”. Por um “dá cá esta palha” implantava-se a cizânia entre eles, dificultando a aproximação dos Espíritos do Senhor. A maledicência campeava solta, à vontade, sem peias; a vigilância há muito já havia batido em retirada…

Não sem despender muita energia para assegurar um mínimo de equilíbrio e higiene no ambiente, a tarefa foi concluída, por sinal com tão retumbante sucesso que até hoje mantém abertas de perplexidade as bocas dos facultativos que prognosticaram, sem apelação, a morte da paciente.

Na viagem de volta aos páramos celestes, um neófito integrante da equipe espiritual, um tanto reticente e tímido aproxima-se do bondoso Mentor e pergunta: “como é possível tanta dissidência e invigilância num agrupamento de pessoas que dizem estar reunidas em nome de Jesus? É válida tal “prática” de Espiritismo?

O “Médico dos Pobres”, com certa tristeza na entonação de voz, respondeu paternalmente: “filho, infelizmente, muitas Casas Espíritas não nos oferecem a mínima condição de trabalho em benefício dos sofredores da Terra. Mas Jesus, sempre atento, em Sua infinita misericórdia oferece-nos os recursos adicionais para vencermos a má-vontade dos encarnados, quando o beneficiário dispõe de méritos que justifiquem a interferência do Mundo Maior.

Naquela Casa Espírita que acabamos de deixar não existe, na verdade, a prática do Espiritismo, mas sim a prática do melindrismo, onde pululam os Espíritos malfazejos que estão a todo tempo insuflando a acrimônia entre os “soi-disants”(1) trabalhadores do Cristo, contumazes na invigilância”.

Recolhendo-se em profundas reflexões o inexperiente neófito entregou-se a sentida oração em favor dos “espíritas imperfeitos” que enxameiam nas hostes espiritistas.

No Mundo Espiritual, em conversa com o Dr. Odilon Fernandes, Ramiro Gama obteve a seguinte explicação (2): “(…) existem Centros Espíritas que não se preocupam com reuniões de estudo, apesar de promoverem reuniões mediúnicas a semana inteira… Os diversos grupos de mediunidade, inclusive, chegam a disputar entre si – médiuns contra médiuns, dirigentes contra dirigentes e, pasmem, Espíritos contra Espíritos!…

E quando as desavenças existem entre os membros de um mesmo grupo mediúnico? Aí é que a coisa se transforma num “prato cheio” onde os obsessores se locupletam! A incompatibilidade entre os integrantes de uma mesma equipe de serviço mediúnico, acaba por atrair Espíritos que não comungam as mesmas ideias. Assim como em uma casa espírita ocorrem lamentáveis divisões, com grupos de tarefeiros se isolando uns dos outros, os Espíritos, que nada mais são do que homens fora do corpo, também mutuamente se rebelam, sustentando entre si intermináveis polêmicas doutrinárias… Evidentemente que tais coisas ocorrem devido à falta de assimilação dos ensinamentos de Jesus agravada pela falta de estudo doutrinário. Os médiuns ficam tão preocupados em doutrinar os Espíritos, que não se preocupam com a própria evangelização… Aliás, nessas casas às quais nos referimos há mais mediunismo que mediunidade. Em suas múltiplas reuniões, a mistificação e o animismo danoso campeiam livres, induzindo à fascinação a maioria dos seus componentes.

Um templo Espírita bem orientado preocupa-se, primeiro, em estruturar-se doutrinariamente; apenas quando os seus integrantes revelem, da mediunidade, o mínimo de conhecimento necessário é que se deve cogitar da formação de um grupo consagrado às atividades mediúnicas propriamente ditas. (Estudar primeiro, praticar depois, tal é a diretriz kardequiana).

As maiores perturbações que pude conhecer assolando uma Casa Espírita começaram justamente através da invigilância do que denominamos reunião de desobsessão… Uma reunião mediúnica seja ela qual for, pode, quando não bem orientada, ser uma porta escancarada para o desequilíbrio do grupo onde medrarão infrenes as disputas, os ciúmes, inveja, personalismo, etc… Se uma atividade mediúnica qualquer estiver perturbando o bom andamento das demais atividades do Centro, é melhor que ela seja extinta e que, em seu lugar, se crie uma reunião de estudos sistematizados da Doutrina ou… nada! E que ninguém fique de consciência pesada, se semelhante providência tiver de ser tomada…

Temos que ser apologistas da mediunidade com responsabilidade. Os Espíritos irresponsáveis, que enxameiam pelos caminhos da Terra, sentem-se extremamente à vontade nos Centros onde as reuniões de mediunidade prevaleçam sobre as reuniões de estudo; já os Espíritos esclarecidos frequentam com maior assiduidade os grupos onde haja uma predominância do estudo que se alie à prática, ou seja, do conhecimento teórico que se vincule à vivência do bem no cotidiano”.

Jesus foi muito claro ao ensinar (3): “(…) não resistais ao mal que vos queiram fazer; se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhe entregueis o manto; se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil”.

Desenvolvendo este ensinamento de Jesus, o Mestre Lionês aduz (4): “(…) dizendo que apresentemos a outra face àquele que nos haja batido numa, disse Jesus sob outra forma, que não se deve pagar o mal com o mal; que o homem deve aceitar com humildade tudo o que seja de molde a lhe abater o orgulho; que maior glória lhe advém de ser ofendido do que de ofender, de suportar pacientemente uma injustiça do que de praticar alguma; que mais vale ser enganado do que enganador, arruinado do que arruinar os outros. É, ao mesmo tempo, a condenação do duelo, que não passa de uma manifestação de orgulho. Somente a fé na vida futura e na justiça de Deus, que jamais deixa impune o mal, pode dar ao homem forças para suportar com paciência os golpes que lhe sejam desferidos nos interesses e no amor-próprio. Daí vem o repetirmos incessantemente: lançai para diante o olhar; quanto mais vos elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos magoarão as coisas da Terra”.

Rogério Coelho

Fonte: Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Pretensos;

(2) BACCELLI, C.A. Diário da mediunidade. Votuporanga: DIDIER, cap. 37;

(3) Mt., 5:38 a 42; e

(4) KARDEC, Allan. O Evangelho Seg. o Espiritismo. 125.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, cap. XII, item 8.

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O impulso das crises na transformação social

Por Eliana Haddad

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A vida de Nancy Puhlmann Di Girolamo sempre esteve ligada à Instituição Beneficente Nosso Lar, dedicada às pessoas portadoras de deficiências, fundada em São Paulo, em 1946, por sua mãe, Maria Augusta Ferreira Puhlmann. Escritora, articulista, Nancy publicou vários livros enfocando pessoas com deficiências, enfatizando a importância do desenvolvimento das potencialidades humanas. Enfermeira pela Universidade Federal de São Paulo com especialização em neuropediatria e socióloga pela Escola de Sociologia e Política da Universidade de São Paulo, Nancy tem mestrado em antropologia cultural e é pós-graduada em reorganização neurológica na Filadélfia (EUA). Aos 91 anos, recém-completos em 21 de março, Nancy recebeu com muita alegria o Correio Fraterno em sua residência para esta entrevista. Atenta à modernidade, simples e fiel ao seu raciocínio rápido, Nancy analisou a história e o papel do espiritismo nas transformações sociais, compartilhando ainda com satisfação suas ricas experiências em tempos de longevidade.

O que está ocorrendo com a nossa sociedade e qual o papel do espiritismo neste momento?

A sociedade está em crise, mas as crises sempre existiram. Elas são necessárias, porque fazem parte do processo sociológico do progresso. Percebo também que a doutrina espírita entrou na fase sociológica, tendo dado mais ênfase antes à psicologia e à medicina, no sentido espírita. Toda literatura espírita é sociológica porque o espiritismo é um ensino do destino e dos objetivos do espírito e suas relações com o mundo corpóreo, com o mundo social. Kardec, quando coloca na terceira parte do O livro dos espíritos as leis morais, ele entra no social, mas como uma atitude comportamental interior que se expande sempre através das relações com o próximo.

Em sua opinião, o espiritismo já conseguiu cumprir com esse objetivo no aspecto social?

Acho que sim, pelo sentido real das propostas e ideações ultimamente desenvolvidas. Houve com Chico Xavier uma grande expansão do social na divulgação das ideias espíritas, baseadas na obra estruturada de Kardec. E isso está ocorrendo também com o trabalho de Divaldo no mundo.

A senhora está falando de expoentes. Mas e o espírita de maneira geral, está conseguindo enxergar o papel do espiritismo ou ainda está voltado para si mesmo?

Prioritariamente, sim, ainda. Todo ser humano faz parte de uma história que o obriga a olhar para si mesmo num processo normal de conhecimento. E isso vai permanecer por muito tempo, é um problema de evolução. Na realidade, é na vida social que exercitamos nossos papéis. É no intercâmbio mesmo que o progresso se dá, na lei de sociedade.

Como a senhora vê a bandeira do espiritismo “Fora da caridade não há salvação” na sociedade hoje?

Acho que apesar da insistência de Kardec, de fazer inclusive uma pergunta específica sobre isso aos espíritos, ainda não se compreendeu muito bem o que seja isso. Kardec obteve a resposta clara e definitiva de que a ideia de caridade retrata o pensamento de Jesus: “Benevolência para com todos, indulgência com as faltas alheias e perdão das ofensas”. São três atitudes interiores do ser. Dar é sempre um desprendimento, com valor ou não, mas a caridade não acaba aí. Apenas começa assim e depois esse sentimento vai se desenvolvendo em outros aspectos no relacionamento humano. Caridade é uma atitude sempre nova como agente transformador das relações de uma maneira geral.

Que análise podemos fazer, nesse sentido, do momento atual?

Estamos numa fase de mudanças tremendas. Mas é preciso compreender que esse processo já vem se realizando há mais tempo. Quando os espíritos anunciaram “os tempos são chegados” não se referiam a um exato momento de 1857, como uma transformação que surgisse de um dia para outro, mas assinalavam as circunstâncias que começavam a se fazer presentes e favoráveis às mudanças necessárias e inevitáveis. Quando as mudanças sociais são rápidas, provocam uma crise que exige muita reflexão, pois nem sempre há maturidade suficiente da sociedade para assimilá-las. É preciso comandar, dirigir e administrar a mudança para não sermos engolidos por ela. A lei social humana é lei de progresso.

Mas também podemos atrasar o progresso.

Sim, claro. Isso é exatamente o que Kardec obteve de resposta dos espíritos. Não se pode entravar o progresso, mas pode-se atrasá-lo, sim. Não é que possamos paralisá-lo definitivamente, porque ele é uma força de lei, supremamente superior ao estacionamento e à inércia. Por isso está também presente mesmo quando dizemos que o que vale mesmo é o aqui e agora, que se deve se concentrar somente no presente. O maior perigo é que a inércia pode trazer é o pessimismo.

É o que acontece hoje com a humanidade diante de tantos conflitos?

A situação econômica e política mundial, no Oriente e no Ocidente, está conflitante, confusa. Podemos ter um pensamento pessimista porque aparentemente parece que tudo está perdido. Como se quiséssemos permanecer numa zona de conforto, de acomodação. Ora, a realidade não é essa. Aliás, aí entra o pensamento da doutrina espírita. A sociedade está submetida à lei maior, a lei do progresso, e os conflitos atuais não são um retrocesso, um risco iminente, mas uma maneira de se processar o avanço. Lembro que no meu tempo de estudante de sociologia, a gente estudava o mesmo processo: conflito, competição, interação e miscigenação. Hoje, ultrapassamos essas fases que são repetitivas e entramos na fase da inclusão. Hoje nós incluímos tudo. Incluímos preconceitos que eram rechaçados e que hoje estão em moda. Damos realce, exageramos o seu valor. Isso também não é correto, porque toda oposição reforça o oponente.

E qual seria então, sociologicamente, o próximo passo desse sistema que estamos vivendo?

Falar sobre o próximo passo é o mesmo que indagar sobre qual será nosso futuro. E isso a doutrina espírita mostra ser único. Só há um caminho: o progresso intelecto-moral. Lembrando-se sempre, porém, de que não é pelo desenvolvimento intelectual que o moral se desenvolve. Na questão da inclusão, quando as oportunidades são mais amplas,  ela é uma bênção, porque se num primeiro momento ela chega  confundindo, miscigenando tudo, na sequência virá a organização. Precisamos refletir e perceber que a lei divina está acima de ideias pessoais, grupais, institucionais. Querendo ou não, estamos progredindo e é reforçando-se o bem que se enfrenta o oponente. É como ensinou Jesus na parábola do joio e do trigo. Eles crescem juntos e somente quando estão bem grandes é que se consegue separá-los. Para curar a sociedade é preciso também sanear a forma de pensar, ter noção de que o pensamento e a mente são nossos grandes colaboradores, se soubermos direcioná-los adequadamente. Nesse sentido, devemos nos trabalhar interiormente na procura do bem. É preciso achar o bem. E se procurar, acha.

E teremos condições de fazer essa separação naturalmente no estágio evolutivo em que nos encontramos?

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Sim. Não digo nós, referindo-me à população presente no globo hoje. Mas a população que virá, pelo próprio processo da reencarnação, que poderemos ser nós mesmos. Nossa responsabilidade continua. Não há ruptura. Oxalá, possamos estar encarnados, participando ativamente dessa transformação. Ela não vem de graça, mas está aguardando pelas nossas atitudes, coletivamente, porque sozinhos somos poucos, não iremos conseguir. Por isso há uma lei divina, que é da sociedade. É juntos que precisamos fazer isso.

Com tanta violência, conflitos, a primeira impressão é a de que o bem está distante, que estamos retrocedendo…

A grande questão é: a crise, a dificuldade, é um empecilho ou um avanço? Toda dificuldade é um avanço, porque todo erro é uma experiência já realizada e aí está o aprendizado. Se não errássemos, não conheceríamos. Estamos numa época catártica, colocando para o exterior aquilo que está nos incomodando por dentro. É sempre um momento importante, muitas vezes dolorido, mas o que vai nos fazer crescer, tirando-nos do conforto e nos impulsionando à ação.

Qual seria o papel do espiritismo nessa transição?

Primeiro, é preciso que ele seja muito bem conhecido como doutrina kardeciana, de bom senso. Quanto mais se lê, mais se descobre, mais se admira o pensamento de Kardec, a pesquisa que ele fez, a doutrina como ele organizou. Ela é um farol na escuridão a se projetar para nos auxiliar, inclusive na busca do lado positivo. Acreditando e não desanimando. Tudo é uma questão de sintonia.

O que a senhora proporia para a divulgação da doutrina atualmente? Estamos conseguindo acender essa luz, levar essa mensagem?

Tenho a impressão de que, no sentido sociológico, o grupamento espírita iniciou a unificação de ideias, não no sentido institucional, orgânico, mas de pontos de vista, de forma a centrar e valorizar a base, a obra de Kardec. Mas não podemos esquecer que o Cristo transcende na obra de Kardec. Há uma filiação fidedigna de Kardec para com o cristianismo, o que quer dizer que, se nos centrarmos nesse aspecto, encontraremos inúmeras modalidades de seguir o exemplo do espírito mais elevado que esteve entre nós e alavancar o nosso progresso na contextualização do seu evangelho.  Através de perguntas e respostas, Kardec leva-nos a deduzir o que é preciso ser feito. Antes disso, o cristianismo estava devaneando, podemos dizer, estava disperso, avariado, ortodoxo, fundamentalista, tendencioso. Agora, por exemplo, sentimos uma mudança muito grande no sistema sociológico-religioso. Vemos que as religiões estão se abrindo.

A senhora acha que em questão de liderança, o movimento espírita pode se ressentir com o desencarne e a falta de tantos líderes desbravadores?

De jeito nenhum! Pelo contrário, na história do movimento espírita, de Kardec aos dias de hoje, houve fases em que predominou um ou outro aspecto da doutrina, em seu complexo filosofia, ciência, religião, ou moral, como preferirem. Ela é generalista e abrangente. Mas acho que atualmente ela está ainda mais pujante. Na nossa época, éramos poucos líderes. Hoje a própria palavra tem outra conotação, mais participativa. Havia no passado muita projeção intelectual pessoal, quase que uma pessoa dirigia grandes grupos. Hoje somos muitos a dirigir uma multidão. Digo isso por experiência própria, por que no Nosso Lar também foi assim. Durante muito tempo a instituição foi dirigida por minha mãe, depois por mim. O grande salto é quando se muda isso. Tivemos, por exemplo, uma grande mudança há seis anos e dissemos: chega, vamos dividir, tem que haver uma diretoria colegiada, mas que não haja quem predomine. Tem que ser democrática, no sentido espírita, mas que todos  participem. E foi aí que tudo melhorou. Mas tivemos que passar por uma grande crise.

E sobre a experiência do avançar da idade? Como aproveitar melhor tal condição?

O envelhecimento não é absolutamente o final de tudo, como se faz parecer, como se você fosse perdendo tudo da vida – a vista, o ouvido, o movimento, as células do corpo que já não se renovam tanto, embora os neuropeptídios estejam aí acenando para mudanças, através das pesquisas da neurociência. O envelhecimento nos traz a ponderação que fez falta a vida inteira. Faço hoje com muita alegria retrocessos da vida e vejo quantas coisas fiz por personalismo. O envelhecimento traz uma oportunidade maravilhosa de se fazer uma revisão, sem artifícios, sem o selo do ‘faz de conta’. Você começa realmente a se descobrir e a achar graça de si mesmo.  Estou à procura de mim mesmo. E me pergunto sempre: quem sou eu agora? Isso é uma bênção, compensador. O tempo é precioso e envelhecer pode não ser tão assustador. Querendo ou não a longevidade veio pra ficar. Não temos que ter medo do envelhecimento. É a vida.  http://www.ibnossolar.org.br/

Eliana Haddad

Fonte: correio.news

(Publicado no Jornal Correio Fraterno – Edição – 462 mar./abr. 2015)

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Senhora no passado, indigente no presente

Antonio Carlos Navarro

Certa feita, em uma sessão mediúnica destinada a desobsessão e esclarecimento de espíritos em condições menos felizes, um espírito se apresentou bastante revoltado e endurecido por conta de suas convicções e condições de sofrimento.

Após algumas sessões, já mais aliviado, contou parte de sua história.

Falou de uma reencarnação sua há cerca de trezentos anos, quando, na condição de adulto, envergou a posição de feitor de escravos em uma fazenda no interior do Brasil, e sem nenhum sentimento humano tratava-os conforme as ordens dos proprietários em sintonia de sentimentos.

Os valores morais da Senhora proprietária da fazenda eram voltados para a avareza, para a frieza de coração, e portava uma vaidade doentia. Sobrepunha-se ao marido na questão dos castigos infligidos aos escravos.

Passaram-se mais algumas sessões e o espírito comunicante apontou o local onde o casal estava reencarnado, no último quarto do século vinte, conclamando os componentes do grupo mediúnico a visitá-los para amparo espiritual, e também material.

A família que os recebera como irmãos era numerosa e sobreviviam, penosamente, do resultado do trabalho pouco remunerado do pai adotivo, e também da ajuda caritativa de voluntários da benemerência. Em termos sociais a condição era precaríssima, porém de bom nível moral, mas a condição reencarnatória pessoal dos dois era ainda mais terrível.

Estavam reencarnados dentro da raça negra, e quase que vegetavam em um quartinho nos fundos, os dois juntos. Ele, outrora dono de fazenda, portava deficiências física e mental severas, mas conseguia manter-se sentado, e portava um humor surpreendente ao receber visitas. Não falava, apenas balbuciava alguns monossílabos.

Ela apresentava uma condição ainda mais complexa. Sua insuficiência mental era quase total, e a sua condição física quase não permitia outra posição senão a de manter-se deitada de lado, com todo o corpo encolhido, como que na posição fetal. Vivia grunhindo e numa agitação física constante. Quando recebia visitas precisava ser sustentada sentada, por curto período de tempo.

No entanto, era surpreendente ver sua reação ao receber visitas que portavam adereços como anéis, relógios e pulseiras, colares e brincos. Ela se excitava de tal forma que chegava a avançar, pacificamente, para acariciar os objetos, e quando lhe era permitido tocá-los, o fazia com um carinho excedido, deslumbrando-se e acalmando-se.

Confirmaram-se as informações do espírito comunicante, e constatava-se que a vaidade da antiga senhora tornara-se multissecular.

Em O Livro dos Espíritos encontramos esclarecimentos a respeito:

Questão 395: Podemos ter algumas revelações de nossas existências anteriores? – Nem sempre. Muitos sabem, entretanto, o que foram e o que fizeram; se fosse permitido dizer abertamente, fariam singulares revelações sobre o passado.

Questão 399: Os acontecimentos da vida corporal são, ao mesmo tempo, uma expiação pelas faltas passadas e provas que visam ao futuro. Pode-se dizer que da natureza dessas situações se possa deduzir o gênero da existência anterior? – Muito frequentemente, uma vez que cada um é punido pelos erros que cometeu; entretanto, não deve ser isso uma regra absoluta. As tendências instintivas são a melhor indicação (grifo nosso), visto que as provas pelas quais o Espírito passa se referem tanto ao futuro quanto ao passado.

Podemos, portanto, ter algumas revelações do passado para bom uso no presente, e no presente o espírito apresenta suas tendências e aptidões, para correção das más e desenvolvimento das boas.

A condição reencarnatória está em consonância com as necessidades espirituais particulares do espírito, e visa sempre o melhor para cada um, em obediência ao princípio da lei de ação e reação, restando a nós outros mudar nossos valores para que, no futuro, o que fazemos hoje não seja refletido penosamente, tanto quanto o passado esteja se fazendo presente na atual reencarnação.

Pensemos nisso.

Antônio Carlos Navarro

Fonte:  Kardec Rio Preto

Referências Bibliográficas:

O Livro dos Espíritos, Allan Kardec

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Os mecanismos da cura espiritual

Por Edvaldo Kulcheski

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MECANISMOS DA CURA ESPIRITUAL

A mediunidade de cura é a capacidade possuída por certos médiuns de curarem moléstias por si mesmos, provocando reações reparadoras de tecidos e órgãos do corpo humano, inclusive as oriundas de influenciação espiritual. Assim como existem médiuns que emitem fluidos próprios para a produção de efeitos físicos concretos (ectoplasmia), temos igualmente os médiuns que emitem fluidos que operam todas as reparações acima referidas.

Na essência, o fluido é sempre o mesmo, uma substância cósmica fundamental. Mas suas propriedades e efeitos variam imensamente, conforme a natureza da fonte geradora imediata, da vibração específica e, em muitos casos (como este de cura, por exemplo), do sentimento que precedeu o ato da emissão.

A diferença entre os dois fenômenos é que no primeiro caso (ectoplasmia), o fluido é pesado, denso, próprio para elaboração de formas ou produção de efeitos objetivos por condensação, ao passo que no segundo (curas), ele é sutilizado, radiante, próprio para alterar condições vibratórias já existentes.

Médium curador

Além do magnetismo próprio, o médium curador goza da aptidão de captar esses fluidos leves e benignos nas fontes energéticas da natureza, irradiando-os em seguida sobre o doente, revigorando órgãos, normalizando funções, destruindo placas e quistos fluídicos produzidos tanto por auto-obsessão como por influenciação direta.

O médium se coloca em contato com essas fontes ao orar e se concentrar, animado pelo desejo de fazer uma caridade evangélica. Como a lei do amor é a que preside todos os atos da vida espiritual superior, ele se coloca em condições de vibrar em consonância com todas as atividades universais da criação, encadeando forças de alto poder construtivo que vertem sobre ele e se transferem ao doente. Por sua vez, este se colocou na mesma sintonia vibratória por meio da fé ou da esperança.

Os fluidos radiantes interpenetram o corpo físico, atingem o campo da vida celular, bombardeiam os átomos, elevam-lhes a vibração íntima e injetam nas células uma vitalidade mais intensa. Em consequência, acelera as trocas (assimilação, eliminação), resultando em uma alteração benéfica que repara lesões ou equilibra funções no corpo físico.

Nas operações cirúrgicas feitas diretamente no corpo físico, os espíritos operadores incorporam no próprio médium que dispõe desta faculdade. Este, como autômato, opera o paciente com os mesmos instrumentos da cirurgia terrena, porém sem anestesia e dispensando qualquer precaução de assepsia. Em certos casos, embora raros, o espírito incorporado logra o mesmo resultado cirúrgico utilizando objetos de uso doméstico (facas, tesouras, garfos ou estiletes comuns) como instrumentos operatórios, igualmente sem quaisquer cuidados anti-sépticos.

O cirurgião invisível incorporado no médium corta as carnes do paciente, extirpa excrescências mórbidas, drena tumores, desata atrofias, desimpede a circulação obstruída, reduz estenoses ou elimina órgãos irrecuperáveis. Semelhantes intervenções, além de seu absoluto êxito, são realizadas em um espaço de tempo exíguo, muito acima da capacidade do mais abalizado cirurgião do mundo físico. Em tais casos, os médicos desencarnados fazem seus diagnósticos rapidamente, com absoluta exatidão e sem necessidade de chapas radiográficas, eletrocardiogramas, hemogramas, encefalogramas ou quaisquer outras pesquisas de laboratório.

Nessas operações mediúnicas processadas diretamente na carne, os pacientes operados tanto podem apresentar cicatrizes ou estigmas operatórios como ficarem livres de quaisquer sinais cirúrgicos. Em seguida à operação, eles se erguem lépidos e sem qualquer embaraço ou dor, manifestando-se surpreendidos por seu alívio inesperado e a eliminação súbita de seus males.

Quando opera incorporado no médium, o espírito sempre é auxiliado por companheiros experimentados na mesma tarefa, que cooperam e ajudam no controle da intervenção cirúrgica, no diagnóstico seguro e rápido e no exame antecipado das anomalias dos enfermos a serem operados. Entidades experimentadas na ciência química transcendental preparam os fluidos anestesiantes e cicatrizantes, transferindo-os depois do mundo oculto para o cenário físico através da materialização na forma líquida ou gasosa, conforme seja necessário.

Cirurgias à distância

Embora o êxito das operações mediúnicas dependa especialmente do ectoplasma a ser fornecido por um médium de efeitos físicos e controlado pelos espíritos de médicos desencarnados, há circunstâncias em que, devido ao teor sadio dos próprios fluidos do enfermo, as operações produzem resultados miraculosos no corpo físico, apesar de processadas somente no perispírito.

O processo de “refluidificação”, com o aproveitamento dos fluidos do próprio doente, lembra algo do recurso de cura adotado na hemoterapia praticada pela medicina terrena, na qual o médico incentiva o energismo da pessoa debilitada extraindo-lhe algum sangue e, em seguida, injetando-o novamente nela, em um processo que acelera a dinâmica do sistema circulatório.

No entanto, mesmo que se tratem de operações mediúnicas feitas diretamente na carne do paciente ou mediante fluidos irradiados à distância pelas pessoas de magnetismo terapêutico, o sucesso operatório exige sempre a interferência de espíritos desencarnados, técnicos e operadores, que submetem os fluidos irradiados pelos “vivos” a um avançado processo de química transcendental nos laboratórios do lado espiritual.

E quais são as diferenças entre as cirurgias realizadas com a presença do paciente e as realizadas à distância? No primeiro caso, os técnicos desencarnados utilizam o ectoplasma do médium de efeitos físicos e também os fluidos nervosos emitidos pelas pessoas presentes. Esta aglutinação polarizada sobre o enfermo presente possibilita resultados mais eficientes e imediatos. No segundo caso, os espíritos operadores procuram reunir e projetar sobre o doente os fluidos magnéticos obtidos pelas pessoas que se encontram reunidas à distância, no centro espírita. Porém, como se tratam de fluidos bem mais fracos do que os fornecidos pelo médium de fenômenos físicos, eles são submetidos a um tratamento químico especial pelos operadores invisíveis, a fim de se obterem resultados positivos. Mesmo assim, os fluidos transmitidos à distância servem apenas para as intervenções de pouco vulto, pois, sendo fluidos heterogêneos, exigem a “purificação” à qual nos referimos.

Existem alguns fatores que impedem as cirurgias à distância de serem tão eficazes e seguras como as intervenções diretas. Para muitos desses voluntários doadores de fluidos, faltam a vontade disciplinada e a vibração emotiva fervorosa, que potencializam as energias espirituais. Além disso, alguns deles não gozam de boa saúde, fumam em demasia, ingerem bebidas alcoólicas em excesso ou abusam de alimentação carnívora. Aliás, nos dias destinados a esses trabalhos espirituais, os médiuns deveriam se submeter a uma alimentação sóbria, já que, depois de uma refeição por vezes indigesta, o indivíduo não tem disposição para tomar parte em uma tarefa que exige concentração mental segura.

Dificuldades para os espíritos curadores

Durante o tratamento fluídico operado à distância, a cura depende muito das condições psíquicas em que os doentes forem encontrados durante a recepção dos fluidos. Os espíritos terapeutas enfrentam sérias dificuldades no serviço de socorro aos pacientes cujos nomes estão inscritos nas listas dos centros espíritas, pois além das dificuldades técnicas resultantes de certo desequilíbrio mental do ambiente onde eles atuam, outros empecilhos os aguardam, em virtude do estado psíquico dos próprios doentes.

Às vezes, o enfermo tem a mente saturada de fluidos sombrios, em face de conversas maledicentes, intrigas, calúnias e fofocas. Em outros casos, lá está ele em excitação nervosa por causa de alguma violenta discussão política ou desportiva, bem como é encontrado envolto na fumarada intoxicante do cigarro ou na bebericagem de um alcoólatra. Outras vezes, os fluidos irradiados das sessões espíritas penetram nos lares enfermos, mas encontram o ambiente carregado de fluidos agressivos, provenientes de discussões ocorridas entre seus familiares. É evidente que os desencarnados têm pouco êxito em sua tarefa abnegada de socorrerem os enfermos quando estes vibram recalques de ódio, vingança, luxúria, cobiça ou quaisquer outros sentimentos negativos.

Cirurgias durante o sono

As operações cirúrgicas realizadas no perispírito durante o sono só atingem a causa mórbida no tecido etérico deste, porém, depois de algum tempo, começam a desaparecer seus efeitos mórbidos na carne, pelo mesmo fenômeno de repercussão vibratória. Neste caso, como os enfermos operados ignoram o que lhes aconteceu durante o sono ou mesmo em momento de vigília e repouso, opõem dúvidas quanto a essa possibilidade.

Uma vez que esses doentes, tendo sido operados no perispírito, não comprovam de imediato qualquer alteração benéfica em seu corpo físico, geralmente supõem terem sido vítimas de uma fraude ou um completo fracasso quanto à intervenção feita. Acontece que a transferência reflexa das reações produzidas por essas operações se processa muito lentamente, levando semanas ou até meses para manifestarem seus efeitos benéficos no organismo. Além disso, há casos em que o enfermo recebe assistência de seus guias espirituais devido à circunstância de emergência, que não altera o determinismo de seu resgate cármico.

Toda cura se dá pela ação fluídica, já que o espírito age através dos fluidos. Tanto o perispírito como o corpo físico são de natureza fluídica, embora em diferentes estados, havendo relação entre eles. O agente da cura pode ser encarnado ou desencarnado e nela podem ser utilizados ou não processos como passes, água fluidificada e outros, além da intervenção no perispírito ou no corpo. Na cura por efeitos físicos, a alteração orgânica no corpo físico é imediatamente visível ou passível de constatação pelos sentidos ou aparelhamentos materiais.

Na ação fluídica sobre o perispírito, a cura será avaliada depois, pelos efeitos posteriores no corpo físico. Agindo através dos centros anímicos, órgãos de ligação com o perispírito, atinge-se este, que também se beneficia ao se purificar pela aceleração vibratória, tornando-se, assim, incompatível com as de mais baixo padrão.

É desta forma que se operam as curas de perturbações espirituais, na parte que se refere ao perturbado propriamente dito. Sabemos que a maior parte das moléstias de fundo grave e permanente não podem ser curadas porque representam resgates cármicos em desenvolvimento, salvo quando há permissão do Alto para curá-las. Entretanto, há benefícios para o doente em todos os casos, porque se conseguirá, no mínimo, uma atenuação do sofrimento.

A cura na mão de todos

A faculdade de curar pela influência fluídica é muito comum e pode se desenvolver por exercício. Todos nós, estando saudáveis e equilibrados, podemos beneficiar os doentes com passes, irradiações, água fluidificada etc. Aprendendo e exercitando, desenvolvemos nosso potencial de ação sobre os fluidos.

O poder curativo está na razão direta da pureza dos fluidos produzidos, como qualidades morais ou pureza de intenções, da energia da vontade, quando o desejo ardente de ajudar provoca maior força de penetração, e da ação do pensamento, dirigindo os fluidos em sua aplicação.

A mediunidade de cura, porém, é bem mais rara, espontânea e se caracteriza pela energia e instantaneidade da ação. O médium de cura age pelo simples contato, pela imposição das mãos, pelo olhar, por um gesto, mesmo sem o uso de qualquer medicamento. No evangelho, existem numerosos relatos onde Jesus ou seus seguidores curam por ação fluídica, alguns deles examinados por Allan Kardec no livro A Gênese, capítulo XV.

Condições fundamentais para a cura

É lícito buscar a cura, mas não se pode exigi-la, pois ela dependerá da atração e fixação dos fluidos curadores por parte daqueles que devem recebê-los. A cura se processa conforme nossa fé, merecimento ou necessidade. Quando uma pessoa tem merecimento, sua existência precisa continuar ou as tarefas a seu cargo exigem boa saúde, a cura poderá ocorrer em qualquer tempo e lugar, até mesmo sem intermediários (aparentemente, porque ajuda espiritual sempre haverá). No entanto, às vezes, o bem do doente está em continuar sofrendo aquela dor ou limitação, que o reajusta e equilibra espiritualmente, o que nos faz pensar que nossa prece não foi ouvida.

Para tanto, vejamos o que diz Emmanuel no livro Seara dos Médiuns, no capítulo “Oração e Cura”: “Lembremo-nos de que lesões e chagas, frustrações e defeitos em nossa forma externa são remédios da alma que nós mesmos pedimos à farmácia de Deus. A cura só se dará em caráter duradouro se corrigirmos nossas atuais condições materiais e espirituais. A verdadeira saúde e equilíbrio vêm da paz que em espírito soubermos manter onde, quando, como e com quem estivermos. Empenhemo-nos em curar males físicos, se possível, mas lembremos que o Espiritismo cura sobretudo as moléstias morais”.

De uma maneira primorosa, Allan Kardec nos situa sobre o assunto: “A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O poder curativo está, pois, na razão direta da pureza da substância inoculada, mas depende também da energia da vontade, que, quanto maior for, mais abundante emissão fluídica provocará e tanto maior força de penetração dará ao fluido. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura, seja homem ou espírito”.

Daí então se depreende que são quatro as condições fundamentais das quais depende o êxito da cura: o poder curativo do fluido magnético animalizado do próprio médium, a vontade do médium na doação de sua força, a influenciação dos espíritos para dirigir e aumentar a força do homem e as intenções, méritos e fé daquele que deseja se curar.

Edvaldo Kulcheski

Fonte: Vivência Espiritualista

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