Por Que Eu Tenho Essa Doença?

Luciane Almeida

Muitos de nós passamos por grandes dificuldades relacionadas à saúde. Algumas patologias parecem ser fardos bem mais pesados do que outras. No entanto, para quem sofre é sempre muito difícil independentemente do grau da sua doença. Muitas pessoas buscam tratamento, mudam hábitos para escolhas mais saudáveis e, nós espíritas, intensificamos a busca da tão sonhada reforma íntima. Mas a doença permanece lá. Por quê? E a pergunta não se cala: “Por que eu não me curo dessa doença?”

Como estudiosos da Doutrina Espírita, conhecemos bem as Leis que regem a Vida e sabemos que a Lei de Causa e Efeito é implacável. Mas por quanto tempo ficaremos colhendo os frutos amargos de um plantio irresponsável?

Precisamos nos atentar para o fato de que, mesmo que aprendamos a lição e que nos renovemos internamente, conscientizando-nos da falta cometida, o dano material causado não é restaurado como um passe de mágica. As lesões perispirituais, por exemplo, são restauradas aos poucos. Aprendemos, quando crianças, que qualquer machucado leva algum tempo para cicatrizar e, durante esse período, sentimos algum incômodo, compreendendo que é resquício de um trauma que só melhora quando finalizar todo o processo.

Então hoje, quando nos encontramos na iminência de “herdar a Terra”, através do planeta regenerado que se aproxima, já com alguma consciência das Verdades Sublimes do Evangelho, interrogamo-nos internamente: “por que eu ainda sofro com essa doença?”. Aí vem um benfeitor espiritual que nos intui amorosamente: “Filho, não vês que o reparo perispiritual é um processo do qual não se pode esquivar? A restauração está sendo feita. As fibras rompidas durante o ato insano estão, pouco a pouco sendo reconstruídas e, enquanto isso, seu órgão ainda reflete deficiências que se originam no seu corpo etéreo. Logo passará! Um longo caminho já foi percorrido, pois sua consciência já compreende a Luz. Agora é só esperar o tempo cicatrizar o ferimento e estarás liberto!”

Assim é que uma pessoa, hoje portadora de ansiedade, por exemplo, necessitando medicação para equilibrar a química cerebral, sente-se impotente e sofre ainda mais por não conseguir “controlar” as próprias emoções. “Por que os outros conseguem e eu não consigo?”. É nesta hora que devemos esperar resignados, e até entender que estamos bem próximos de expurgar essa dor, pois hoje é a ansiedade, ontem pode ter sido algo mais grave, uma paralisia cerebral, anencefalia, Parkinson, Alzheimer. Então estes graus em que as doenças se apresentam são resquícios de algo mais grave em processo de restauração, que só o tempo (e a não reincidência) neutralizará.

Sendo assim, cultivemos a paciência durante os processos de restauração física, seja ela na matéria densa ou na matéria etérea, confiantes de que Jesus nos ampara sempre.

Luciane Almeida

Fonte: Kardec Rio Preto

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Ante a Morte

Martins Peralva

ANTE A MORTE

LE Questão 149: Que sucede à alma no instante da morte?

R. :  Volta a ser Espírito, isto é, volve ao mundo dos Espíritos, donde se apartara momentaneamente.

Tranquiliza, desse modo, os companheiros que demandam o Além, suportando corajosamente a despedida temporária, e honra-lhes a memória, abraçando com nobreza os deveres que te legaram. (Emmanuel)

* * *

Além de seu papel eminentemente esclarecedor, caracterizando a base de sua filosofia, tem o Espiritismo outra função, não menos importante, junto à criatura humana, sujeita, por efeito da própria condição de nosso orbe, às mais dolorosas vicissitudes, no campo moral e físico: a de confortá-la, de consolá-la nos instantes cruciais da existência.

Apesar da “velhice do mundo” e da não menor “velhice das religiões”, sob o ponto de vista da cronologia, muito pouca gente acostumou-se com a separação dos entes queridos, em consequência da morte, ou desencarnação.

A dor de quem fica é, bem o sabemos, motivada pela falsa e errônea idéia de que a morte seja o fim, separando, para todo o sempre, irreparavelmente, os que partem dos que ficam na ribalta do mundo.

É bem verdade que as religiões orientais apontaram sempre a morte por simples fenômeno de separação da alma do corpo, com a continuidade, por aquela, em lugares de gozo ou sofrimento, de sua vida.

Nem por isso, porém, tais mensagens de imortalidade ressoaram, positiva e beneficamente, na inteligência humana. Apesar de todos os preceitos imortalistas das religiões que precederam a Doutrina dos Espíritos, a perda dos entes amados ainda repercute como tragédia, de angústia e sofrimento, para familiares e amigos mais chegados.

A partir da codificação espírita, nos idos de 1857, quando Allan Kardec editou “0 Livro dos Espíritos”, o assunto passou, na verdade, a ser encarado sob outro aspecto, atenuando, sensivelmente, a dor da separação e, por outro lado, acentuando a esperança de que, não sendo a morte o fim de tudo, a partida é, apenas, temporária ausência, com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, o reencontro se dará, em qualquer parte do Universo – no Espaço, noutros mundos, na própria Terra.

Não se vá dizer que esta compreensão espírita nos tornará insensíveis à dor ante a partida de um ente querido, familiar ou não. Não se predique seja o espírita uma pessoa proibida de sentir e chorar, realmente, a partida de um parente ou amigo, eis que uma e outra coisa representariam inexata idéia de que o Espiritismo seja uma Doutrina capaz de insensibilizar o coração humano, de extinguir as emoções normais da criatura, esterilizando-lhe o sentimento.

O conhecimento e a assimilação doutrinário-evangélicos têm a faculdade de fortalecer-nos o Espírito e o coração, tornando-nos capazes de, pela fé, pela certeza da imortalidade, chorarmos, sem dúvida, o desenlace do ser amado, sem, contudo, confiar-nos ao pranto enfermiço, doentio, por improdutivo, e que nunca se acaba.

A morte outra coisa não é senão uma viagem, quase sempre mais longa, que o Espírito realiza. E o reencontro com o “morto” muita vez se dá com muito maior brevidade do que nas viagens comuns, aqui na Terra, de pessoas encarnadas.

Não raro, especialmente num país como o Brasil, de imensa extensão territorial, um parente ou amigo despede-se de nós e, durante vinte, trinta ou quarenta anos não se dá o reencontro, e, às vezes, nunca mais ele é visto por nós ?!…

No fenômeno que o mundo impropriamente denomina “morte”, muita vez a criatura que desencarnou volta ao convívio dos seus, na condição de filho, sobrinho ou o que for, dois ou três anos depois.

Esta compreensão de que a morte não é o fim, mas um episódio inevitável, de transição, não impede o espírita de verter lágrimas ante o corpo inerte do ser amado. Emmanuel, na mensagem “Ante os que partiram”, pondera: “Nenhum sofrimento, na Terra, será comparável ao daquele coração que se debruça sobre outro coração regelado e querido que o ataúde transporta para o grande silêncio”.

A compreensão espírita apenas não o deixa eternizar o sofrimento, pois sabe que a separação é temporária, e que, além disso, a vida física não é a principal para as almas, malgrado sua importância, mas simples etapa destinada a favorecer-lhes o resgate de erros, o aprendizado indispensável à conquista da perfeição. A nosso ver, em nome da Doutrina Espírita ninguém deve reter as lágrimas sinceras, abundantes ou discretas, segundo as condições emocionais de cada um de nós, que, no instante da separação, brotam, dos olhos de quem fica; nossa idéia, a este respeito, é de que não devemos converter o pranto das primeiras horas ou dias em inconformada expressão de revolta, de insubmissão às leis divinas, que são sempre, o espírita esclarecido bem o sabe, de amor e misericórdia, de sabedoria e magnanimidade.

Há, ainda, sob o ponto de vista doutrinário, outros aspectos que situam o Espiritismo por mensagem altamente consoladora, ante o multimilenário problema da “morte”: pelas abençoadas vias da mediunidade, os que ficam podem-se comunicar com os que se foram, como se no corpo físico ainda estivessem, sentindo-lhes as emoções, identificando-lhes as idéias, reconhecendo-lhes os hábitos e pontos de vista.

A mediunidade – maravilhosa ponte que liga o mundo físico ao espiritual, a Terra ao Espaço – descerra as portas do Infinito, possibilitando o amoroso reencontro das almas desencarnadas com as encarnadas.

Além da mediunidade, que proporciona ainda, algumas vezes, a materialização ou corporificação dos que se foram, temos os sonhos espíritas, quando podemos estreitar nos braços e envolver nas vibrações puras do amor e do carinho os seres amados.

Maravilhosa doutrina que “luariza de esperança a noite de nossas vidas” – di-lo, com rara e bela definição, o Espírito de escol que transitou pelo mundo, no solo glorioso da França, com o nome respeitável de Léon Denis.

Como se observa, têm os espíritas elementos muito sérios, racionais e profundos, de ordem filosófica, para considerarem e conceituarem a nossa doutrina como a mais consoladora, a que maior soma de conforto pode dispensar ao homem nos instantes de dor, de maneira que, ao invés do pranto imoderado, possamos honrar a memória dos que partiram “abraçando com nobreza os deveres” que nos legaram, acentuando, assim, o outro aspecto, o educativo, que a caracteriza, que a situa por fator de extrema valia na obra de redenção da humanidade.

Que ninguém se entregue ao pranto inestancável, inconformado, ante o corpo estirado no esquife; que ninguém se envergonhe de ensopar os olhos com as lágrimas da saudade justa, compreensível, ante o coração amado que demanda outras regiões; mas, que o trabalho do bem seja a melhor forma de lhe cultuarmos a lembrança.

Esta é a mensagem que, em nosso pobre entendimento, o Espiritismo dirige a todos que se defrontam, em casa ou nos círculos pessoais de amizade, com o velho e sempre novo problema da “morte”.

Martins Peralva

Livro: Pensamento de Emmanuel – 4

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A caridade no pensar!

Maria Lúcia Garbini Gonçalves

Fora da caridade não há salvação, nosso Mestre ensina no capítulo 15 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, uma lição que se repete muito no meio Espírita por sua profundidade. Isso porque, como explica Paulo no item 10 da mesma obra, quem a pratica vive em paz e estará encurtando sua caminhada ao Reino de Deus, à terra prometida.

Porém, quando se fala em caridade, a maioria das pessoas imediatamente pensa em esmola, o que não deixa de ser caridade, se a intenção for a sincera vontade de ajudar o irmão, sem pensar em qualquer retorno. Entretanto, no item 10 da mesma obra, um espírito protetor nos esclarece que podemos praticar a caridade por pensamento, por palavras e por ações.

O foco deste ensaio é a caridade por pensamentos.

Infelizmente, a maior parte das pessoas também ignora a força de nossos pensamentos e que eles estão aliados às nossas intenções e que são veiculados por fluidos espirituais. Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre os fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, sem receio de errar, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e vibrações sonoras. (1)

O fato de as ondas e raios de pensamentos não se confundirem, já nos indica, por dedução lógica, que o pensamento realmente chega ao seu alvo, prejudicando-o ou ajudando-o.

O incrível é que nunca foi tão disseminada a ideia do poder do pensamento por muitos neste planeta, e no entanto, parece que nunca estivemos tão divididos pelos efeitos dos nossos pensamentos gerados pelos nossos sentimentos equivocados.

Os pensamentos que emitimos, ao escaparem de nós, se agrupam, por lei, aos seus semelhantes e, em muitos casos, voltam a nós, seus criadores, como nuvens de abelhas retornando ao apiário a atormentar-nos, ou a abençoar-nos, dependendo da sua formação no laboratório da mente. (2)

Então, quando os nossos pensamentos são bons, estamos fazendo caridade a nós mesmos e aos outros.

O nosso querido planeta Terra não nos aguenta mais, são muitos pensamentos negativos a se combinarem, juntando-se, a gerarem as consequências deletérias que testemunhamos hoje. Basta ver que raramente estivemos sem um conflito bélico por razões geopolíticas, umas vezes entre as nações poderosas, outras vezes entre as menos poderosas. Como nossos pensamentos são ainda belicosos, os resultados são sempre a discórdia, os duelos.

Quando iremos aprender a fazer a paz na prática? Sim, é uma questão de quando teremos um número suficiente de pessoas conseguindo gerar bons fluidos frutos de um real esforço de desejar o bem, de pensar em caridade, amor, até que formemos uma egrégora de luz, de paz, limpando a nossa maltratada Terra, e assim, atraindo mais e mais paz. Essa é a caminhada que precisamos percorrer para a luz, para a Regeneração.

Sabemos que esta regeneração está um parto difícil, mas que vai nascer a criança, já que “O progresso da Humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma lei. (2) Por isso precisamos de todos juntos, vibrando na paz, no amor. Se cada um de nós cultivarmos bons pensamentos, já estaremos irradiando essas vibrações a todos que estão nessa sintonia. Assim estaremos sendo mais caridosos para com os nossos irmãos, que são as outras pessoas, os animais, os vegetais, os minerais, enfim, com o planeta.

Pensamentos negativos são notas dissonantes na harmoniosa orquestração da mente, e as boas ideias fortalecem o cérebro, revigoram os nervos, estendendo as bênçãos do bem em todo o complexo biológico. É hora de participarmos com mais intensidade da nossa evolução mental, procurando conhecer todos os horizontes da mente, para trabalharmos com proveito na grande construção do homem de amanhã. Começando hoje, com sutis toques de reformas de costumes, amanhã o trigo já estará maduro. Poderemos arrancar o joio, para novos e fecundos plantios. Esse é o impulso irresistível da evolução. Avancemos. (2)

Maria Lúcia Garbini Gonçalves

Fonte: Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XIV – Os fluidos, item 15;

(2) KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XVIII – São chegados os tempos, item 2;

(3) MAIA, João Nunes. Psicografado pelo Espírito Miramez. Horizontes da Mente

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Riqueza e Pobreza Qual a Maior Provação?

Simara Cabral

“E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Mateus, 19:24)

Todos os dias vemos muitas pessoas jogando na loteria, outras trabalhando exaustivamente até o limite de suas forças, outras cometem atos ilícitos, todos em busca da riqueza e abundância dos bens terrenos, como se um grande patrimônio pudesse trazer a solução de todos os problemas. Mas será que uma grande soma em dinheiro realmente resolve os infortúnios ou será a riqueza uma tentação capaz de trazer maiores transtornos do que os que a pessoa tinha antes?

A desigualdade social existe em todos os lugares do mundo, mas em alguns países ela é mais acentuada. De acordo com o IBGE, em 2018 o rendimento mensal dos 1% mais ricos do Brasil era quase 34 vezes maior do que o rendimento da metade mais pobre da população. Durante a pandemia, essa desigualdade aumentou. De um lado vemos pessoas ostentando todo tipo de luxo: viagens, carros importados, mansões, roupas de grife enquanto a maior parte da população luta diariamente para ter acesso aos direitos básicos: alimentação, educação, saúde, direito à moradia, ao trabalho dentre outros.

O psicólogo norte americano Abraham H. Maslow criou um conceito chamado “A Pirâmide de Maslow” que determina as condições para que cada pessoa alcance sua satisfação pessoal, ou seja, se sinta feliz e realizada. Na base da pirâmide estão as necessidades básicas para a felicidade e elas vão se modificando até atingir o topo da pirâmide que seria a realização pessoal completa conforme a imagem abaixo.

Pirâmide das necessidades de Maslow

Fonte: Pirâmide de Maslow: o que é e para que serve – Significados

Conforme pode-se observar, para ter acesso à base da pirâmide é necessário que se tenha uma condição financeira que propicie acesso à alimentação, água e moradia, o que deveria ser um direito básico do ser humano. Em seguida, segurança do corpo, do emprego e de recursos, o que também depende do dinheiro. A partir daí as necessidades não são mais relacionadas aos bens materiais, e sim às boas relações sociais, amizades, desenvolvimento da auto estima, aceitação perante as dificuldades da vida entre outras. Portanto, de acordo com a psicologia o dinheiro pode trazer a segurança necessária para se obter um certo grau de satisfação, no entanto a felicidade plena não é atingida através de uma grande fortuna, luxo ou satisfação das vaidades.

De acordo com a Doutrina Espírita, a prova da riqueza e a da pobreza são difíceis, porém necessárias ao aprimoramento moral, pois enquanto na pobreza o ser humano precisa desenvolver a resignação, a paciência e a humildade, na riqueza ele precisa praticar a caridade, evitar abusos e tentações que aparecem das mais variadas formas. É preciso lembrar que as duas provas são situações temporárias que podem ser alternadas na mesma ou na próxima encarnação. No livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, Lacoirdaire (Constantina, 1863) diz: “Sabei contentar-vos com pouco. Se sois pobres, não invejeis os ricos, pois a fortuna não é necessária à felicidade. Se sois ricos, não esqueçais que esses bens vos foram confiados e que tendes de justificar o emprego deles, como uma prestação de contas de tutela. Não sejais administradores infiéis, fazendo-as servir à satisfação do vosso orgulho e vossa sensualidade. Não vos julgueis no direito de dispor exclusivamente em vosso favor daquilo que não é senão um empréstimo, e não uma doação. Se não sabeis restituí-lo, não tendes mais o direito de pedir. E recordai que aquele que dá aos pobres, quita-se da dívida que contraiu com Deus.” Por isso quando a prova da miséria chega até o homem, ele deve enfrentá-la com confiança e resignação, e caso a prova da riqueza venha a aparecer, deve-se recordar das palavras do Mestre Jesus no Evangelho de Mateus 6:19-21: “Não acumulem tesouros sobre a terra, onde as traças e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntem tesouros no céu, onde as traças e a ferrugem não corroem, e onde ladrões não escavam, nem roubam. Porque, onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração.”

Em “O livro dos Espíritos”, nas questões de 814 a 816, é explicado que Deus concede a riqueza a uns e a miséria a outros para experimentar os espíritos de formas diferentes e é dito que as duas provas apresentam graus elevados de dificuldade: “A alta posição do homem neste mundo e a autoridade sobre os seus semelhantes são provas tão grandes e tão escorregadias como a miséria, porque, quanto mais rico e poderoso é ele, tanto mais obrigações tem que cumprir e tanto mais abundantes são os meios de que dispõe para fazer o bem e o mal. Deus experimenta o pobre pela resignação e o rico pelo emprego que dá aos seus bens e ao seu poder. A riqueza e o poder fazem nascer todas as paixões que nos prendem à matéria e nos afastam da perfeição espiritual. Por isso foi que Jesus disse: “Em verdade vos digo que mais fácil é passar um camelo por um fundo de agulha do que entrar um rico no reino dos céus.” Lembrando apenas que na tradução do hebraico, a mesma palavra era usada para “camelo” e “cabo” e o mais provável é que “cabo” fosse a tradução correta, pois faria mais sentido. Desta frase dita por Jesus, pode-se compreender que a prova da riqueza é mais perigosa para o homem pois a tentação de abusar dos recursos e de apegar-se aos bens materiais é quase irresistível para o homem comum, caso ele não esteja focado na vida futura e no seu desenvolvimento moral.

Deste modo aquele que acredita ser a riqueza uma solução para as dificuldades da vida terrena ignora o real objetivo de sua encarnação, que é a evolução espiritual e não a aquisição de bens materiais ou a satisfação dos desejos fugazes da carne. Quando se deixa levar pelas paixões materiais e busca apenas os prazeres efêmeros, o homem perde de vista a vida futura e se afasta do seu aprimoramento moral. Por isso, a despeito de que qualidade seja a provação que esteja enfrentando, o importante é que se empenhe para alcançar o desenvolvimento das virtudes da alma, seja a paciência, a resignação ou a submissão à vontade de Deus, e sempre que possível que o homem lembre-se de trabalhar ativamente no auxílio ao próximo e na construção de um mundo melhor, onde todos possam ter dignidade para viver. E como disse Chico Xavier: “Você nem sempre terá o que deseja, mas enquanto estiver ajudando os outros, encontrará os recursos de que precisa”.

Portanto, ao buscar o aperfeiçoamento moral além da melhoria das condições materiais, o homem estará desenvolvendo suas próprias virtudes e simultaneamente, levando todo a humanidade a progredir, elevando a categoria do planeta a um patamar onde não exista a miséria, a fome e a violência e onde todos tenham a oportunidade de viver e não apenas de tentar sobreviver. O progresso da humanidade depende do esforço de cada um dos habitantes do planeta, desde que abdiquem de seus desejos egoístas, sua ambição, seu orgulho e deixem predominar o amor ao próximo, a caridade e a benevolência dado que somente assim as injustiças sociais não terão mais vez e a fraternidade, a solidariedade e o amor reinarão na Terra.

Simara Cabral

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS:

  1. Bíblia Online. Disponível em: <Bíblia Online – ACF – Almeida Corrigida Fiel (bibliaonline.com.br)>. Acessado em 10 de Julho de 2021.
  2. Desigualdade social. Disponível em < Desigualdade social: um problema sistêmico e urgente – Politize!>. Acesso em 08 de Julho de 2021.
  3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Matheus Rodrigues de Carvalho. 43ª reimpressão. Capivari, SP: Editora EME, 2018.
  4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Carvalho.24ª reimpressão. Capivari, SP: Editora EME, 2019.
  5. Pirâmide de Maslow. Disponível em: <Pirâmide de Maslow: o que é e para que serve – Significados>. Acesso em 14 de Julho de 2021.
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Penitenciárias Espirituais: O Momento de Evolução em Outros Planetas

Amanda Teixeira Dourado

Sim, as penitenciárias espirituais existem, porém, muitos não sabem disso. Com certeza, ao lerem um pouco mais sobre o assunto, entenderão onde se encontram os espíritos em condições de cumprir sua estrada evolutiva.

Segundo o mineiro Geraldo Lemos Neto, responsável por preservar a memória de Chico Xavier, em uma de suas conversas, Chico relatou:

’Em nosso sistema solar, temos penitenciárias espirituais que são: Plutão, Mercúrio e na nossa Lua terrena’’.

Acredito que em um primeiro momento, você leitor, apenas acreditava que existia o famoso umbral, não é mesmo? Mas não existe apenas o umbral, o destino para os irmãos que estão em baixa vibração.

Nem sempre o umbral é considerado o lugar adequado para alguns, e sim as penitenciarias espirituais que se encontram em outros planetas. Isso mesmo, planetas! Aproveito para falar sobre os termos penitenciárias e prisões. Podem soar forte, mas vamos atribuir a lugares onde essas almas estão em recuperação, assim como numa escola, no qual seus integrantes estão lá para aprender.

’Deve-se considerar que na Terra não está a Humanidade toda, mas apenas uma pequena fração da Humanidade. (O evangelho segundo espiritismo cap III)’’.

Vejamos a questão 55 do ‘’O Livro dos Espíritos’’, que nos informa que o planeta Terra não é exclusivo:

’São habitados todos os globos que se movem no espaço? Sim e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que só para eles criou Deus o Universo.” Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objetivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil. Certo, a esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria do que a de nós recrearem a vista. Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze do privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes.’’

Hoje, nós encarnados, nos encontramos no planeta Terra, estamos em um mundo de expiação e provas, que é a atual situação da Terra, no qual o mal prevalece e é essa a razão de tantas tragédias, maldades que o homem vive. Todos nós já passamos por estágios evolutivos, e agora, na Terra, temos a necessidade e a oportunidade de experimentar as situações cruéis que nos ocorrem, para entendermos, evoluirmos e valorizarmos o bem. Situação de miséria, fome, doenças e sofrimentos, que alguns encarnados devem passar por, para que prosperem. No mundo de provas e expiações existe muita maldade, e temos muito que aprender, mesmo assim existem almas que praticaram o mal ainda mais de maneira grandiosa, severa, e é a partir desse mundo que algumas almas são direcionadas as prisões espirituais.

Qual o objetivo das penitenciárias espirituais?

As prisões espirituais não servem como castigo, e sim por amor e misericórdia ao próprio condenado e todos os prejudicados por ele. Um ato de misericórdia pela carga negativa que a alma esteja transportando, ou sendo obsediado. É fornecida a chance para se arrepender. Vítimas e familiares das almas destinadas às prisões, também são beneficiadas, pois muitos podem estar sedentos de vinganças e assim atrasariam suas evoluções, focariam em ódio atras dessa alma, e autoprejudicaria sua jornada. Tudo tem seu fundamento, Deus é justo em todos os detalhes. Ou seja, aos espíritos destinados as penitenciárias espirituais, o objetivo maior é a proteção, e a chance de eles cumprirem uma ‘’pena’’ devida aos seus erros gravíssimos, de terem oportunidade que, em outros planetas, por exemplo, esses espíritos não conseguiriam evoluir, pois a chance de serem desvirtuados e interrompidos, seria grande.

Como funciona cada prisão?

Lua: local de transmigração de almas de espíritos muito devedores que promoveram guerras, corrupções massivas, que levou pessoas a fome, que promoveram grandes estragos.

Segundo o livro “Valiosos Ensinamentos com Chico Xavier” de Cezar Carneiro de Souza, o capítulo “Os exilados do planeta ” diz:

’Em conversa fraterna com Heigorina Cunha, distinta amiga, médium espírita da cidade de Sacramento (MG), comentávamos sobre os momentos de dificuldades por que passa a humanidade.

Aquela companheira contou-me interessante conversa que tivera com Chico Xavier:

“Ao me aproximar, após cumprimentá-lo, disse-me:

— Heigorina, você também escuta o choro e as lamentações deles, não escuta?!

— De quem Chico? Não estou entendendo.

E ele explicou:

— Os espíritos rebeldes ligados ao mal estão sendo excluídos da Terra. Com a permissão de Jesus, os Benfeitores Espirituais os levam para a Lua. De lá são conduzidos para mundos bem mais inferiores que o nosso. Mediunicamente, ouço o choro deles.

Observando o meu espanto, ele concluiu:

— A Lua é uma plataforma da Terra. Você também escuta os lamentos, não é?…’’

Plutão: destinada aos piores casos, genocidas, pessoas que foram responsáveis por milhares mortes, propagaram ódio gigantesco na Terra, atrapalharam a evolução do planeta através de tanta maldade. O maior exemplo foi Adolf Hitler. Um planeta que oferece a seus habitantes, a chance de repensarem a tudo de ruim que realizaram a seus irmãos, enquanto encarnados. A prisão serve também, para o tratamento espiritual, desintoxicação da alma.

Mercúrio: Segundo a Revista Espírita (1858 – FEB) em sua página 435 ‘’Mercúrio e Saturno vêm depois da Terra’’, melhor dizendo, se enquadram nos mundos regeneradores. Na obra “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no capítulo 3, item 17, temos o seguinte ensinamento do Espírito Santo Agostinho:

“Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os felizes. A alma que se arrepende, neles encontra a paz e o descanso, acabando por se purificar.”

Vejamos que as nossas atitudes ao longo de nossa encarnação, determinam os próximos passos após o desencarne, para assim, cumprirmos nosso desenvolvimento. Vamos a um exemplo: uma pessoa, que possuiu a chance de crescer espiritualmente em uma nova encarnação, e ainda sim, desperdiçou, se entregando a prática de assassinatos, consumo de vícios, em seu desencarne, poderá sim, ter seu destino uma penitenciaria espiritual.

Temos um exemplo famoso de Hitler, que vive em Plutão, devido sua grande visibilidade por número grande de espíritos, aguardando o tempo necessário de regeneração, pois se ele não fosse a Plutão, Hitler não conseguiria colher evolução, devido a muitos espíritos sedentos de vingança, a tudo que realizou em sua jornada na Terra. Para saber mais sobre esse caso específico, o no nosso Blog possui um artigo falando apenas desse tema.

As prisões são penitenciárias que possuem guardiões, justamente para que não seja atrapalhado o “tratamento” desses espíritos, através da influência de vingadores, ou do próprio espírito que queira “fugir” do planeta que lhe foi destinado.

Por que esses espíritos estão nessas prisões?

Caso esses espíritos não cumpram seus destinos para as prisões, eles podem reencarnar novamente, e assim, continuar praticando em suas próximas vidas esses atos graves, além de acumular vinganças daqueles que prejudicou algum dia. Deus sabe de todas as coisas.

Você já parou para orar por esses espíritos? Sabe da importância da oração na evolução deles? Muitas vezes julgamos apenas o que eles realizaram ou representaram, entretanto esquecemos o principal, não julgar. Cabe a nós, orarmos, para que assim, contribuamos para o progresso de suas almas.

E que fique claro que não existe uma regra para o espírito destinado as prisões espirituais! Não é seguido um protocolo, tudo depende sempre daquilo que foi praticado. Somente Deus pode nos julgar.

Consideremos a obra ” O céu e o inferno” de Allan Kardec:

‘’Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina. Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas. Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo da guarda (guia) que por eles vela, espreita-lhe os movimentos da alma, e se esforçam por suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir, de reparar em uma nova existência o mal que praticaram.”

Percebeu no texto acima citado que todos possuem seu guia, e sim, até esses espíritos que cumprem sua evolução nas prisões espirituais? O caso de Hitler nos traz uma história emocionante dele e de Mahatma Gandhi. Gandhi quando encarnado, tentou propagar a não violência, solicitou através de cartas pedidos a Hitler, para que não propagasse a guerra, e atos monstruosos. Não era por acaso esse pedido no mundo físico, infelizmente a guerra aconteceu e suas consequências fatais vieram juntas.

Gandhi foi assassinado por patriotismo, e ao ser desencarnado, teve ciência da situação de Hitler em Plutão, solicitou ao Cristo para que pudesse ser mentor de Hitler durante seu tempo na prisão, e foi aceito seu pedido. Gandhi é um exemplo de amor, caridade, ele poderia apenas desejar ódio, achar que Hitler merece ser castigado, ou simplesmente não se envolver, mas não, preferiu contribuir com amor e misericórdia.

Temos a tendência em desejar o castigo de nossos irmãos que algum dia nos feriram, principalmente de pessoas que marcaram de alguma forma nosso país, enfim, deixou história registrada através de muita dor, mas não podemos deixar o ódio nos dominar, devemos vigiar sempre. Temos muito que evoluir, estamos atrasados. Você já orou por essas almas? Você tem o conhecimento da importância da oração para eles?

Vejamos planetas prisão como uma escola, no qual seus integrantes estão lá para se reeducar. Será que somos prisioneiros do nosso próprio ego? Paixões? Vícios? Prazeres? Enquanto não aprendermos a trabalhar o amor entre nós, não deixaremos de viver em meio a tantas tragédias. Busquemos energias positivas. Devemos ser gratos por todas as experiências que passarmos, mesmo as negativas, para que sejamos pessoas melhores. Muita luz a todos!

Amanda Teixeira Dourado

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

http://www.vinhadeluz.com.br/site/noticia.php?id=1041 (acesso em 13/05/2021)

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Pág. 86. FEB, 2014.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 3, item 17. Editora; FEB, 2014.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos de janeiro. FEB, 2004.

Revista Espírita. Vol. 1. FEB, 1858.

SOUZA, Cezar Carneiro de. Valiosos Ensinamentos com Chico Xavier. Ide – Inst. De Difusão Espírita.

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Laços de Amor além do Tempo

LAÇOS DE AMOR ALÉM DO TEMPO

A médium Yvonne do Amaral Pereira é uma das personalidades mais importantes da história do Espiritismo no Brasil. Portadora de uma mediunidade exuberante, desde cedo teve que aprender a lidar com as presenças espirituais em sua vida. Enfrentou a doença e os estados psíquicos perturbadores provocados pelas potencialidades anímicas e mediúnicas que lhe caracterizavam, atravessando toda a infância e a juventude em meio a interferências de desencarnados e recordações de sua encarnação anterior, que lhe provocavam tormentos, às vezes, insuportáveis.

Quando eu a conheci, dialogamos muito e nos identificamos bastante, vindo a saber que, quando jovem, ela experimentou muitas sensações psíquicas e dificuldades que eu também havia vivenciado.

Ao entregar-se à Doutrina Espírita, D. Yvonne dedicou-se como poucos à causa do Bem, exercendo a mediunidade com a nobreza e a abnegação que são próprias aos Espíritos disciplinados, decididos a levar adiante os compromissos assumidos antes do retorno aos caminhos terrestres.

O seu livro Memórias de um Suicida é uma obra de beleza ímpar, devassando as dimensões espirituais e revelando ao mundo o sofrimento atroz que se instala na vida de quem opta pela fuga dolorosa mediante o suicídio. Sendo ela própria uma ex-suicida, a recepção mediúnica do livro constituiu-lhe, de certa forma, um sacrifício, porque ela foi obrigada a rever cenas de situações que havia vivenciado na erraticidade. No entanto, a obra tornou-se uma advertência de valor inestimável para os viajantes da vida física, muitos dos quais certamente devem a esse livro o fato de terem-se afastado das consequências devastadoras do autoextermínio.

Certo dia, quando fui visitá-la, por ocasião de uma de minhas viagens, encontrei-a com o braço fraturado, suspenso por uma tipoia para poupá-la de fazer movimentos bruscos. Ao perguntar sobre o ocorrido, a médium elucidou-me gentilmente:

— Divaldo, você deve saber que a publicação do livro Memórias de um Suicida não agradou aos Espíritos vampirizadores que no mundo espiritual exploram seres suicidas em regiões inferiores. Pois bem. Um dia estava saindo de casa e, ao abrir a porta, senti duas mãos vigorosas empurrando-me pelas costas. Sem conseguir segurar-me eu caí de forma desajeitada e quebrei o braço com o qual psicografo. Esparramada no chão, olhei para cima, tentando identificar o autor do empurrão. Então eu vi um Espírito com fisionomia retorcida e com ar de ódio que me disse: “Isso é para você aprender a não receber esse tipo de livro, que prejudica os nossos planos de dominação dos seres miseráveis que nós exploramos!”. Então, eu pude entender o porquê da queda e do braço fraturado.

Yvonne não se deixou, porém, abater pelo acontecimento e prosseguiu sem vacilar no trabalho de amor que lhe cabia executar.

A médium dedicada, proveniente de um passado reencarnatório marcado pelo insucesso, nunca conseguiu adaptar-se a uma vida social mais ampliada, razão pela qual sempre trabalhou em sua própria casa, realizando costuras para fora a fim de obter o sustento material. Ela desejava casar-se e construir uma família, o que não estava no seu programa espiritual porque na existência anterior houvera se suicidado por causa de uma tragédia familiar desencadeada por ela mesma em Portugal, no século XIX. Na ocasião, a morte prematura da sua filha de quase sete anos e o falecimento do seu marido trouxeram-lhe uma dor insuportável, uma vez que ela havia cometido o adultério que destruiu o próprio lar e precipitou as duas desencarnações. Dominada pelo remorso, a jovem portuguesa atirou-se nas águas do Rio Tejo, morrendo afogada e experimentando todas as sensações angustiantes da imersão e da decomposição do cadáver. Ela trazia na memória espiritual as recordações desses episódios com lucidez impressionante, que incrementavam a sua dificuldade em permanecer com o psiquismo equilibrado para trabalhar na mediunidade. Sua infância e sua juventude foram assinaladas por sofrimentos indescritíveis, por causa da mente conturbada pelas lembranças amargas, que somente o Espiritismo conseguiu explicar para que obtivesse algum alívio já na fase adulta (115).

Dessa forma, Charles, um Espírito protetor que havia sido seu pai por mais de uma encarnação, inclusive naquela existência em solo português, advertiu-a para o fato de que a solidão deveria ser o seu caminho na Terra, provação necessária para que aprendesse que o remorso pelos danos provocados à sua família jamais poderia justificar o desespero a que viesse a entregar-se, culminando com o gesto insano de tirar a própria vida. Por isso, nesta encarnação no Brasil, a nobre trabalhadora do Bem precisava aprender o respeito à vida por meio da renúncia e da entrega total ao amor fraterno.

Certo dia, contrariando as orientações dos seus guias espirituais, D. Yvonne começou a estreitar laços afetivos com um rapaz. A aparente amizade foi-se dilatando até o ponto em que o jovem a convidou para um jantar. Após o restaurante, os dois assistiriam a um filme no cinema e completariam a noite agradável.

Muito empolgada, ela se vestiu com simplicidade, mas com elegância. Não poderia descuidar-se naquele momento de aproximação, que poderia resultar em um compromisso futuro. Tinha a certeza de que ele seria uma ótima companhia para um momento de espairecimento sem maiores consequências. Desejava conversar, e via no moço um ar de educação que a deixou tranquila.

Naquele tempo os rapazes eram muito cuidadosos ao se aproximar de uma jovem para tentarem namorar. Não seria, portanto, em um primeiro encontro que avançariam o sinal do equilíbrio. Estava tranquila.

O rapaz também se preparou convenientemente, não descuidando da roupa e do perfume que causariam boa impressão.

Na hora marcada, ele foi buscá-la em casa e ambos se dirigiram ao local do jantar. Durante todo o tempo, ele correspondeu às expectativas de D. Yvonne, com uma postura exemplar de educação e sem utilizar qualquer expressão vulgar. Era um verdadeiro cavalheiro. Por sua vez, a médium procurou demonstrar que se tratava de uma pessoa lúcida, simples e destituída de maiores ambições, apresentando-se sempre de forma muito reservada aonde quer que fosse.

A certa altura, o jantar se encerrou e os dois tomaram o caminho do cinema para darem curso à segunda etapa daquele momento de lazer ingênuo e respeitoso.

Quando estavam na porta do cinema, o rapaz comprou os ingressos e se dirigiu para a entrada da sala de projeção, seguido pela enamorada. Nesse exato momento apareceu o Espírito Charles e perguntou-lhe:

— Aonde pensas que vais?

— Vou assistir a um filme, meu irmão. Nada demais — respondeu ela.

— Tu tens certeza de que não há nada com que te preocupares?

— Claro que sim. Ele é um rapaz educado e gentil. Não irá tomar nenhuma atitude para me desrespeitar.

— Infelizmente a tua ingenuidade é imensa… Depois de ter oferecido um jantar tu não achas que ele irá cobrar-te o pagamento?

Yvonne ficou surpresa com a informação do amigo espiritual. Enquanto dialogava psiquicamente com Charles, o rapaz estranhou o fato de que ela não o seguiu, atravessando a porta para entrar na sala de projeção.

— Mas ele me pareceu ser um bom rapaz…

— Pois bem. Agora tu já sabes que as aparências enganam e que deves estar mais atenta às circunstâncias da vida. E mesmo que ele fosse uma pessoa bem intencionada, há muito tempo tu já conheces o teu caminho nesta existência física. Estamos aqui, os Espíritos que se comprometeram contigo para o trabalho da mediunidade, para a tarefa de aprimoramento e de renúncia que assumiste. Portanto, quero dizer-te que terás de escolher. Se tu fores com ele, nós não iremos contigo. O nosso compromisso de trabalho estará finalizado e aqui mesmo iremos despedir-nos.

Nesse momento o jovem, percebendo que havia algo estranho acontecendo, insistiu para que ela entrasse no cinema:

— Yvonne, você não vai entrar? — perguntou ansioso.

A nobre senhora, refletindo sobre as palavras de Charles, tomou a sua decisão:

— Fulano, infelizmente eu não poderei acompanhá-lo! Lembrei-me agora mesmo de que tenho uma costura para entregar a uma cliente linda hoje. Até logo!

Ao dizer isso, a médium saiu apressada, sem olhar para trás, deixando o rapaz sem entender o que aconteceu. E os dois nunca mais voltaram a ver-se.

De fato, D. Yvonne sentia a falta de um companheiro que alegrasse os seus dias. Mas o casamento não estava no seu programa reencarnatório. Ela necessitava transitar pelo mundo mantendo uma atitude de reflexão acerca dos valores da vida conjugai e da família.

Depois disso, nossa querida D. Yvonne mergulhou ainda mais no trabalho mediúnico, psicografando romances, participando de reuniões de desobsessão, consolando as pessoas e atuando no receituário mediúnico homeopático conduzido pelo Espírito Bezerra de Menezes.

A partir de certa época, ela entrou em contato com o idioma esperanto, a língua neutra internacional proposta pelo polonês Lázaro Luiz Zamenhof. Com isso, a médium pôde fazer muitos amigos dentro e fora do Movimento Espírita, especialmente entre estudiosos da Cortina de Ferro, como eram chamados os que viviam nas repúblicas soviéticas, que se unem pelo ideal de uma comunicação sem barreiras linguísticas e permeada pelo sentimento de fraternidade.

Um dos esperantistas com os quais ela se correspondia despertou-lhe um afeto especial. Era um homem mais jovem do que ela e que denotava ser portador de boa cultura, ao lado de um expressivo espírito de generosidade. A amizade entre ambos foi aos poucos estreitando-se e o rapaz também confessou-lhe sentir por ela uma ternura especial.

Numa época em que não havia internet, a correspondência era feita por cartas, que se tornavam cada vez mais frequentes. Até que em uma ocasião o jovem polonês escreveu-lhe confessando que a amava. Não sabia dizer como, porque os dois não se conheciam pessoalmente, mas sabia que, ao dialogarem através das correspondências, D. Yvonne parecia-lhe muito familiar. O mesmo sentimento era compartilhado por ela, o que lhe causava sofrimento por reconhecer que não poderia alimentar qualquer ilusão de um relacionamento próximo ou remoto. Contudo, aquela sensação de conhecer esse rapaz perturbava-a.

Vamos abrir um parêntese explicativo.

Durante toda a sua infância e parte da juventude, D. Yvonne registrava a presença de um Espírito que nutria por ela um grande amor. Ela o chamava Roberto de Canalejas, nome que possuíra na sua última reencarnação, quando nasceu na França e foi morar em Portugal, casando-se com ela. Esse Espírito era exatamente o marido a quem havia traído, gerando a consciência de culpa e o desespero que culminaram no suicídio doloroso a que me referi (116).

Depois de um largo período de convivência com a médium, esse Espírito afastou-se para reencarnar, e a jovem Yvonne nunca mais recebeu suas visitas, que lhe faziam muito bem ao coração.

Essa observação que inseri tem o objetivo de elucidar que o jovem esperantista com o qual D. Yvonne se correspondia era o seu marido do pretérito, que retornava ao corpo físico em terras distantes, o que não lhe permitia uma aproximação mais pronunciada do antigo afeto a quem não deveria vincular-se na atual existência, a benefício de ambos. Acontece que o sentimento costuma trair-nos, precipitando-nos em situações não programadas que podem comprometer os nossos melhores esforços de sublimação e de resgate.

Em decorrência da extensa comunicação mantida pelo casal do passado reencarnatório, o rapaz decidiu viajar ao Brasil para conhecê-la, infringindo as normas do planejamento existencial traçado e tentando reencontrar o seu antigo amor. D. Yvonne foi advertida por Charles, informando-a de que não poderia encontrá-lo, visto tratar-se precisamente do antigo esposo em nova roupagem corporal. D. Yvonne tentou sem sucesso dissuadir o amigo estrangeiro de realizar tal viagem ao estado do Rio de Janeiro para visitada, apresentando mil alegações como empecilhos que deveriam desestimulá-lo. Nada obstante, o jovem esperantista veio ao Brasil, procurando D. Yvonne no endereço que constava nas cartas recebidas.

Ao chegar à porta da casa da médium, ele foi recepcionado delicadamente por um membro da família, que já estava instruído a não permitir o seu acesso ao interior da residência. D. Yvonne foi tomada de choque emocional ao vê-lo na porta de entrada. O seu coração vibrava ao sabor de uma balada de ternura que ecoava em sua memória desde tempos remotos. Ela se escondeu de uma forma que poderia olhá-lo sem que ele a percebesse. Por fim, quando o rapaz foi informado de que a médium havia iniciado uma longa viagem sem data certa para retornar, ele baixou a cabeça, profundamente entristecido, agradeceu a recepção e se retirou do local, deixando naquela residência todas as esperanças de conhecer pessoalmente o seu grande amor.

Yvonne ficou com a alma despedaçada, mas conformou-se com as provações afetivas que teria que arrostar para se redimir dos equívocos praticados em nome da invigilância e do desrespeito aos sagrados laços de família.

O tempo transcorreu célere e, certo dia, a médium recebeu notícias da desencarnação do amigo e afeto distante.

A vida de solteira, a sede de ternura e a dedicação à causa do Bem foram-lhe um bálsamo que lhe permitiram recuperar-se do passado de sombras compactas nos caminhos do coração, para que ingressasse definitivamente em uma nova fase de conquistas libertadoras.

Yvonne do Amaral Pereira desencarnou no ano de 1984, deixando um legado composto por obras psicografadas da mais alta qualidade, incluindo o extraordinário livro Memórias de um Suicida. Além disso, o seu amor às pessoas simples e aos Espíritos em sofrimento dão testemunho de que o compromisso espiritual assumido por ela foi honrado com todos os méritos possíveis, transformando-a em uma personalidade veneranda e atribuindo-lhe a condição de autêntica cristã, que conseguiu o mediunato.

Certo dia, quando eu fazia uma palestra sobre a mediunidade e mencionava a vida de D. Yvonne, referindo-me à sua história secular ao lado de Roberto de Canalejas, os dois se apresentaram à minha visão mediúnica, portadores de rara beleza Espiritual. Uma emoção peculiar invadiu-me o coração ao vê-los juntos, porque a cena era verdadeiramente comovedora. Estavam de mãos dadas, mais apaixonados do que nunca e muito felizes por se unirem novamente, revivendo em seus corações os laços de amor que prosseguem estudantes além do tempo (117)…

Livro: Sexo e Consciência – capítulo 9

Organizado por Luis Fernando Lopes a partir de palestras de Divaldo P. Franco

Fonte: G.E. Casa do Caminho de S, Vicente

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Alma e Pensamento

Martins Peralva

LE 89-a. – O pensamento não é a própria alma que se transporta?

R.: Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma quem pensa. O pensamento é um atributo.

* * *

Nossas emoções, pensamentos e atos são elementos dinâmicos de indução. – Emmanuel

A força do pensamento, e sua consequente influenciação no próprio destino humano, constitui realidade que ninguém pode, nem deve ignorar.

Se a alma está no lugar onde projeta o pensamento, por maior seja a distância percorrida, ou a percorrer, evidentemente devemos sempre “pensar bem”.

Pensar no bem, pelo bem e para o bem – nosso e de todos.

Pensar sempre no bem, a fim de que a nossa influenciação sobre os demais seja benéfica, salutar, construtiva.

O Espírito, elemento inteligente do Universo, pensa.

A Mente, “campo da consciência desperta”, segundo Emmanuel, reflete.

O Corpo, “máquina divina”, na feliz definição de André Luiz, executa, com o auxílio dos órgãos que lhe são peculiares.

“Cada Espírito – ensina Allan Kardec – é uma unidade indivisível, mas cada um pode lançar seus pensamentos para diversos lados, sem que se fracione para tal efeito.” Quando o pensamento, traduzindo, assim, atividade anímica, reveste expressões de alegria e bom ânimo, de entusiasmo e equilíbrio, semelhantes expressões se projetam no Tempo e no Espaço e tomam o rumo da criatura em quem pensamos, alcançando-a, inevitavelmente.

Em sua tríplice composição, pode o homem ser comparado a um “farol”, significando:

a) A Energia luminosa que se expande, ou seja: Espírito que pensa, por sua condição de elemento inteligente do Universo (“O Livro dos Espíritos”, cap. II, parte 1., questão n.° 23). É o ser responsável, que prestará contas à Lei, agora ou mais tarde, aqui ou em qualquer parte.

b) A Mente que coordena, integra, concentra e dirige a energia do pensamento. Espelho que reflete a energia espiritual (“Campo da consciência desperta” – Emmanuel), a refletir a dinâmica do ser inteligente.

c) O físico, a estrutura material de que é construído o “farol” e que serve de veículo de manifestação do espírito no plano material. É a parte destrutível, que se refaz, se recompõe tantas vezes quantas necessárias, até que o ser pensante dela não mais precise na obra que lhe cabe cumprir: o aperfeiçoamento moral e cultural (“Máquina divina” – André Luiz).

O Espírito, encarnado ou desencarnado, edificado no Bem, sintonizado com as lições cristãs, projeta sua luz, sua claridade por toda parte. A todos beneficia e serve, à maneira do farol que indica o rumo certo, em pleno oceano e por maior seja o negrume da noite, às embarcações que demandam portos longínquos.

A criatura atingida pelo nosso pensamento recebe o fruto mental por nós elaborado.

Assim sendo, ficamos sabendo que:

pensamentos de otimismo geram bem-estar,

pensamentos de esperança conduzem bom ânimo,

pensamentos de fé são instrumentos, vitais, de fortalecimento e coragem, de estímulo e segurança,

pensamentos de fraternidade se refletem, junto aos que amamos, am forma de inexplicável felicidade, de indefinível júbilo interior.

Costuma-se dizer que “o pensamento elimina distâncias”, mas, quase sempre, quem o diz não compreende a intrínseca e científica realidade do enunciado.

Todavia, com o preceito espírita de que, “se o pensamento está em alguma parte, a Alma também aí está”, o problema se esclarece, em definitivo.

O pensamento põe psiquicamente juntas duas criaturas, ou dois grupos de criaturas, unindo-as, intimamente, em simbiose que pode ser de natureza superior ou deprimente.

Emmanuel, cujos ensinamentos se afeiçoam, singularmente, à índole da Doutrina Espírita, tornando-se esse elevado instrutor, por isso mesmo, depositário não só do nosso carinho, mas, igualmente, do nosso integral respeito – Emmanuel, ao dizer, em judiciosa mensagem, que os pensamentos “são elementos dinâmicos de indução”, amplia-nos a responsabilidade, no que toca ao simples “ato de pensar”.

Responsabilidade que nos impõe uma conduta evangélica na emissão de pensamentos.

Responsabilidade que nos impõe não só o controle e a disciplina da atividade mental, mas, também, a criteriosa seleção dos pensamentos.

O nosso pensamento, expressando idealismo nobre ou desejo de rotina, pode levar tranquilidade ou inquietação aos que partilham, conosco, a experiência evolutiva.

O bom pensamento – pensamento de amor e solidariedade, de elevação e pureza – influencia não só do ponto de vista psíquico, como do físico.

O mau pensamento – pensamento de ódio e rancor, de inveja e despeito – produz as mais desagradáveis impressões, em consequência de cargas magnéticas que o destinatário recolhe, sente, mas, via de regra, desconhece a procedência.

A mente que vibra maldosamente desfere petardos maléficos, forças deletérias, fenômeno que a grande maioria da humanidade ignora.

Desta maneira, para que nos seja possível exercer influência, benéfica ou maléfica, sobre os nossos semelhantes, não há necessidade, precípua, de estarmos fisicamente aproximados, nem, tampouco, de assestarmos, contra eles, instrumentos materiais de destruição e morte.

Recolhamos, pois, das claras fontes do Evangelho do Senhor, a cristalina água da fraternidade, pura e desinteressada, para que nos seja possível:

saciar os famintos,

dessedentar os sequiosos,

reconfortar os tristes,

– erguer os que tombaram nos desfiladeiros do sofrimento, enviando a todos os caravaneiros da redenção com Jesus, mesmo a distância, nas luminosas asas do pensamento reto, os suprimentos da alegria.

Os fertilizantes do bem.

O adubo do amor cristão.

A suave melodia do otimismo e da esperança.

A nossa presença, mesmo através do pensamento, junto aos que palmilham, conosco, os roteiros aprimoratórios, deve ser uma presença sadia e alegre, edificante e fraterna.

Isso depende, essencialmente, de cada um de nós. O meio é a seleção, criteriosa, dos nossos pensamentos. O coadjuvante, valioso e indispensável, é a nossa boa-vontade.

A boa-vontade que persevera até o fim.

Martins Peralva

Livro: O Pensamento de Emmanuel – 2

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Por trás do ‘cancelamento’ nas redes sociais

David Monducci

POR TRÁS DO ‘CANCELAMENTO’ NAS REDES SOCIAIS

Vivemos uma época muito conturbada de esgarçamento dos valores morais e de padrões comportamentais estabelecidos, em função de mudanças sociais rápidas.

Nesse cenário, de alguma forma caótico, presenciamos um ‘apagar’ dos limites entre o certo e o errado, o bem e o mal, o normal e o anormal, o lícito e o conveniente (1 Co 10:23). Simultaneamente, vivemos o período da imposição do politicamente correto e da pós-verdade, representada por declarações pessoais, com forte apelo emocional e apoiada exclusivamente em um conjunto de crenças, impostas no grito e na força, como uma suposta verdade alternativa para influenciar a opinião pública e o comportamento social. Isso tudo cria um pano de fundo desafiador, no qual os indivíduos ou grupos que não se amoldam a um determinado perfil ou modelo, são vistos como nocivos e perniciosos, e por isso, passíveis de serem desprezados, excluídos e cancelados.

Em cenários complicados assim, de tantos ‘cancelamentos’, fica evidente a falta de tolerância dos que se enrijecem em torno de um discurso e de ideias naturalmente falíveis, agindo de modo a cancelar, ou eliminar, as vozes dissonantes, erroneamente imaginando que silenciando os mensageiros podem cancelar as ideias.

A visão espírita

O livro dos espíritos (782 e 783) traz uma interessante explicação sobre essa questão. Kardec pergunta se não há homens que de boa-fé entravam o progresso, acreditando favorecê-lo porque o veem segundo seu ponto de vista. “Assemelham-se a pequeninas pedras que, colocadas debaixo da roda de um grande carro, não o impedem de avançar”, respondem os Espíritos, complementando logo a seguir, sobre a marcha progressiva e lenta do aperfeiçoamento da humanidade, que “há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto deveria, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma”.

Allan Kardec comenta ainda que “o homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se esclarece pela força das circunstâncias. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco, dormitam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações. Nessas comoções, o homem muitas vezes não percebe senão a desordem e a confusão momentâneas que o ferem nos seus interesses materiais. Aquele, porém, que eleva o pensamento acima da sua própria personalidade admira os desígnios da Providência, que do mal faz sair o bem. São a tempestade e o furacão que saneiam a atmosfera, depois de a haverem revolvido”.

Distúrbio mental, emocional?

A dominação da organização psíquica por uma única ideia ou associação mental, configurando um estado prolongado de monoideísmo (ideia fixa), pode ser incluído como um sintoma em alguns transtornos psicológicos. Isso, se pensarmos em um distúrbio como aquilo que atrapalha ou perturba alguma coisa. Se pretendermos, porém, uma interpretação biológica, equiparando com uma enfermidade orgânica, não.

Segundo a doutrina espírita, é plausível argumentar que quando o psiquismo se acha fixamente dominado por uma ideia, ele cria as condições para o desenvolvimento de um quadro obsessivo autoinduzido, cenário que foi muito bem representado recentemente no desenho animado Soul (Pixar, 2020).

Por si só, o radicalismo e a intolerância por mais nefastos que possam ser, não configuram um estado doentio. Mas é interessante termos em mente a possibilidade de um distúrbio social como nos resultados do experimento social da “Terceira Onda”, conduzido pelo professor de história americano Ron Jones, em 1967, e transformado no filme alemão A onda de 2008. A experiência de Jones evidenciou como a diversidade e a pluralidade de ideias e visões enriquecem o mundo, a vida das pessoas e os contextos sociais. A história é farta de registros de épocas e contextos sociais nos quais as divergências de ideias e comportamentos foram suprimidas em nome de uma (pseudo) uniformidade.

Os contrários da vida

Os intolerantes não percebem que suas próprias vidas ficam pobres, monocromáticas, enfadonhas e monótonas quando cancelam os que pensam diferente.

A vida pode ser comparada com os brinquedos em um parque infantil. Quer na gangorra ou no balanço o que se tem é uma alternância entre pontos divergentes e opostos, para frente x para trás, em cima x embaixo, mocinho x bandido, quem pega x quem esconde. Se suprimimos um dos lados, a brincadeira acaba e só resta o tédio, o vazio de um espaço não preenchido.

Toda necessidade advém de uma ausência, carência ou insuficiência. No esforço de tentarmos preencher um vazio, buscamos alguma coisa que nos dê motivo e uma razão significativa para nos movermos. A percepção, mais ou menos consciente, de uma sensação de vazio existencial pode funcionar como a força motriz que leva os indivíduos a se identificarem com uma ideia ou grupo que lhes dê significado de vida ou que os acolha. O fato de nos identificarmos com um grupo ou um sistema de ideias propicia-nos o sentimento de pertencer a algo maior e mais importante do que a nós mesmos.

O prazer pelo mal Freud propôs uma teoria sobre o funcionamento da energia psíquica que se mostra suscetível a aumentos, diminuições e equivalência, de modo que poderíamos falar em prazer, sofrimento e substituição. Para evitarmos a angústia e o sofrimento do vazio existencial, quando não temos uma vida repleta de amor e ternura, buscamos algum tipo de prazer ao pertencermos a um grupo ou a um movimento mesmo que ele gere algum ônus. Uma metáfora famosa pode ser vista no conto de Claude Steiner Uma história de carícias com a paródia entre carinhos quentes e espinhos frios.

Numa visão simplista, podemos interpretar o prazer pelo mal, segundo a teoria freudiana da economia psíquica, pleiteando alcançar um estado de prazer pessoal ou coletivo impondo uma dor ou castigo ao outro. Seriam os traços de personalidade sádica descritos na literatura.

Para melhor lidarmos com esses desafios é preciso buscar a serenidade, o equilíbrio e algum distanciamento. Serenidade para não nos deixarmos envolver em um torvelinho de emoções e paixões que impeçam uma visão clara e lúcida do momento e dos movimentos da sociedade na qual estamos inseridos (Jo 17: 15-23). Equilíbrio para discernir o bem do mal, a verdade da impostura, o certo do errado, a luz das trevas, a essência da aparência, o eterno do passageiro (Mt 10: 16-23). Distanciamento na higiene mental que permite ir até os ímpios sem se fazer como eles (Mt 16: 6).

David Monducci*

Fonte:  Correio News

 *David Monducci é neurocirurgião, mestre em filosofia e autor do livro Saúde e Vida, uma abordagem espiritual sobre emoções e doenças, Correio Fraterno, 2016.

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A Evolução dos Mundos na Visão Espirita

Victor Hugo Freitas

Provavelmente você já se perguntou sobre vida em outros planetas, se elas existem, de que forma existem e se oferecem algum risco à nossa existência na Terra. Sempre aprendemos de forma científica que foi preciso um monte de variáveis para que o corpo humano se adaptasse aos diferentes mundos como calor demais, frio demais, gravidade, etc. Mas você já parou para pensar nos diferentes mundos, nos diferentes seres?

“Mundos” na visão da doutrina espírita é um tema recorrente entre os médiuns e estudiosos. Segundo nos revelam os Espíritos, a Terra nunca foi o único planeta habitado. Jesus sempre disse que na casa do Pai, há muitas moradas. O universo é a casa, as moradas são os diferentes planetas, os mundos. Assim como a doutrina sempre fala sobre a evolução do espírito, os mundos também podem progredir e cada um deles se encontra em diferentes graus na escala evolutiva. Quando um mundo evolui, os Espíritos que não acompanham são exilados para outro mundo, um mais inferior.

No universo, há diferentes categorias de mundos: os primitivos, os mundos de provas e expiação, mundo de regeneração, mundos ditosos, mundos celestes ou divinos. Nossa amada Terra se encontra na condição de provas e expiações, mas sabemos que estamos nos preparando para um novo ciclo da evolução, o mundo da regeneração. Nesta transição, recebemos a oportunidade valiosa de acompanharmos o progresso ou então nos tornamos fortes candidatos a recomeçar em algum planeta mais inferior que o atual.

Vamos entender um pouco mais sobre os diferentes mundos…

Mundos Primitivos: destinados às primeiras encarnações do Espírito. São os mundos mais jovens, recém-formados. Neles se encontram todos os seres nas suas fases iniciais de progresso. Nesses mundos, os espíritos ainda estão em estado primitivo, com senso moral pouco desenvolvido.

Mundos de Expiação e Provas: são mundos nos quais os espíritos reencarnam para expiar seus erros de vidas passadas e passar por provas que vão contribuir para a sua evolução. Nesses mundos o mal ainda é dominante entre os Espíritos, embora já haja a prática do bem. É muito fácil entendermos este tipo de mundo. Vemos o quanto precisamos evoluir, mas já vemos o quanto de bem é praticado.

Mundos de Regeneração: são mundos nos quais os Espíritos que ainda têm o que expiar e extraem novas forças. Nestes mundos, há muito crescimento moral, amor ao próximo é base das relações sociais, rejeição ao materialismo. A Terra passará por grandes transformações.

Mundos ditosos: aqui o bem já sobrepuja o mal. Os espíritos já sabem que o propósito da existência é o da evolução moral. O bem é tão comum que se torna algo normal, corriqueiro, semelhante ao uso da tecnologia no nosso mundo hoje em dia.

Mundos celestes ou divinos: habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem. Mundos onde estão os Espíritos puros que governam outros mundos em evolução.

Em “O Livro dos Espíritos” podemos encontrar algumas respostas sobre as Casas do Pai. Questão 55: Todos os globos que circulam no espaço são habitados?

– Sim e o homem terreno está bem longe de ser, como acredita, o primeiro em inteligência, bondade e perfeição. Há, entretanto, homens que se julgam espíritos fortes e imaginam que só este pequeno globo tem o privilégio de ser habitado por seres racionais. Orgulho e vaidade! Crêem que Deus criou o Universo somente para eles.

A questão 56 esclarece que a constituição física não se assemelha nos diferentes mundos. Cada globo possui uma constituição de massa diferente da outra.

Podemos achar que estaremos sempre encarnados aqui, na Terra, com esse modelo de corpo físico. Mas Kardec pergunta aos espíritos na questão 172 se todas as nossas existências seriam aqui. Os espíritos respondem que podemos vive-las em diferentes mundos. As encarnações da Terra não são as primeiras tampouco as últimas, porém as que vivemos aqui são as mais materiais e bem distantes da perfeição.

Na questão 176, Kardec questiona se espíritos encarnados em outros mundos podem vir para a Terra sem que jamais tenham aqui estado. Os espíritos são categóricos em afirmar que sim e do mesmo modo que nós em outros mundos também. Todo e qualquer mundo é solidário.       E há muitos Homens que estão na Terra pela primeira vez, uns com baixo grau de evolução e outros em graus mais adiantados.

Devemos ficar atentos à evolução do nosso mundo. Ocorrerão mudanças nos aspectos físico e espiritual, no processo de desencarnação e reencarnação e é previsto que nosso planeta tem uma nova identidade entre nas próximas décadas. E podemos entender por regeneração a mutação dos mundos que saem do modelo material e partem ao modelo mais espiritual.

Que Jesus nos guie e oriente para essa nova fase planetária!

Victor Hugo Freitas

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

Kardec, A. (2013). O Livro dos Espíritos (93ª ed.). Brasília: Federação Espírita Brasileira.

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No Fortalecimento da Alma

Francisco Rebouças

NO FORTALECIMENTO DA ALMA

Em momentos de aflições e dificuldades quais os que vivenciamos nos dias da atualidade, entre as imposições e cuidados com a pandemia, e as incertezas do futuro trazidos pela invasão da Ucrânia pela Rússia, é fácil observar que muitos dos cristãos perderam a fé que antes exibiam afirmando possuir.

Clamam pelos benefícios que o Cristo poderia realizar, operando o “milagre” que a situação merece em benefício da paz, pela presença da sua ação divina. Como ainda não sentiram essa ação milagrosa do Mestre, transformaram seus melhores sentimentos em inquietação, e estão se deixando vencer pelo desânimo.

Perguntam entre desiludidos e desesperançosos, onde está Jesus que não lhes deu retorno sobre os rogos intermitentes? Por que se mantém o Senhor tão distante de suas tormentas?

“Claro está que a Boa Nova não ensina a genuflexão ante a tirania insolente; entretanto, pede respeito às ordenações humanas, por amor ao Mestre Divino.

Se o detentor da autoridade exige mais do que lhe compete, transforma-se num déspota que o Senhor corrigirá, através das circunstâncias que lhe expressam os desígnios, no momento oportuno. Essa certeza é mais um fator de tranquilidade para o servo cristão que, em hipótese alguma, deve quebrar o ritmo da harmonia.

Não te faças, pois, indiferente às ordenações da máquina de trabalho em que te encontras. É possível que, muita vez, não te correspondam aos desejos, mas lembra-te de que Jesus é o Supremo Ordenador na Terra e não te situaria o esforço pessoal onde o teu concurso fosse desnecessário.

Tens algo de sagrado a fazer onde respiras no dia de hoje. Com expressões de revolta, tua atividade será negativa. Recorda-te de semelhante verdade e submete-te às ordenações humanas por amor ao Senhor Divino.” (1)

Não são capazes de perceberem que é através de cada um de nós os mensageiros operantes e dedicados à causa do bem que o Cristo se encontra, no dia a dia de nossas experiências trabalhando incessantemente ao lado de todos os discípulos sinceros na implantação da luz do evangelho no coração do ser humano.

É importante não esquecermos que ainda estamos muito distantes de entendermos os intrincados pormenores da causa de tais acontecimentos delicados e doloridos, que por certo não estão começando agora. Para que alguém perceba e sinta a influência santificadora do Cristo, é preciso corrigir sua visão distorcida de que sempre fizemos uso.

Muitos choram a ação criminosa de indivíduos que se locomovem pelas rotas escuras do crime, repetindo erros sistemáticos, mas que por sua vez, invocam o ampara das forças superiores, sem o necessário desapego das paixões escravizantes no campo material.

Em tais condições, não é justo dirigir-se ao Sublime Salvador, quando sabemos que no lugar desses indivíduos que ora condenamos as ações tirânicas e Cruéis, certamente não faríamos nada de diferente. É preciso o quanto antes nos decidirmos por “limpar” as mãos para que Deus possa fazer também maravilhas através das nossas, como fez com as mãos de Paulo de Tarso. (2)

“São muito raros ainda, na Terra, os que reconhecem a necessidade de preservação das energias psíquicas para engrandecimento do Espírito eterno.

O homem vive esquecido de que Jesus ensinou a virtude como esporte da alma, e nem sempre se recorda de que, no problema do aprimoramento interior, não se trata de retificar a sombra da substância e sim a substância em si mesma. (…)

(…) O homem que pratica verdadeiramente o bem vive no seio de vibrações construtivas e santificantes da gratidão, da felicidade, da alegria. Não é fazer teoria de esperança. É princípio científico, sem cuja aplicação, na esfera comum, não se liberta a alma, descentralizada pela viciação nas zonas mais baixas da Natureza.” (3)

Se verdadeiramente queres que Jesus venha santificar as tuas necessidades, atividades, desejos, endireita os caminhos da tua existência seguindo pelas rotas seguras traçadas por Jesus em seu evangelho libertados, regenera os teus impulsos. Desfaze as sombras que te rodeiam e certamente senti-Lo-ás, ao teu lado, abençoando-te com seu sublime amor.

Francisco Rebouças

Fonte:  Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Xavier, Francisco Cândico, pelo espírito Emmanuel, livro Caminho Verdade e vida, FEB, 1ª edição especial. Cap. 81;

(2) Atos/19/11; e

(3) Xavier, Francisco Cândico, pelo espírito André Luiz, livro os Mensageiros, FEB, 24ª edição. Cap. 2.

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