Por que pessoas altruístas podem ser vistas de forma negativa pelos outros

Ações de caridade são geralmente bem recebidas, mas podem gerar suspeita em alguns – José Luis Pelaez/Getty Images/BBC

David Robson – BBC WorkLife

BBC News Brasil – Você por acaso já se deparou com alguém incrivelmente gentil e moralmente correto –e ao mesmo tempo incapaz de qualquer sofrimento? A pessoa pode tentar fazer qualquer coisa para ajudar você ou se engajar em uma série de atividades importantes e úteis que beneficiem seus amigos e a comunidade de forma geral. Ainda assim, ela parece um pouco satisfeita demais com seus gestos de bondade, e você, sem nenhuma boa razão aparente, suspeita que exista alguma coisa calculada naquele altruísmo.

Perceber que você tem uma atitude tão negativa em relação a pessoas que estão apenas tentando tornar o mundo um lugar melhor pode ser desconfortável. Mas esse ceticismo é, na verdade, um comportamento conhecido, descrito por psicólogos como “menosprezo a benfeitores”. Apesar de esse fenômeno parecer totalmente irracional, há algumas boas razões evolutivas para suspeitarmos de altruísmo sem reciprocidade.

Com a compreensão de nossa inata suspeita diante de atos públicos de bondade, nós podemos identificar específicas situações em que a generosidade é bem-vinda e em que ela é ressentida –com algumas importantes lições para nosso próprio comportamento.

PUNIÇÃO PARA ATOS DE BONDADE

Uma das mais antigas e sistemáticas análises de menosprezo de benfeitores vem de um estudo global feito por Simon Gächter, professor de psicologia na Universidade de Nottingham, no Reino Unido.

Como muitos estudos sobre altruísmo, seu experimento tomou a forma de um “jogo dos bens públicos” [experimento econômico para medir o grau de contribuição de uma pessoa à sociedade]. Os participantes foram divididos em grupos de quatro, e cada pessoa recebeu fichas representando uma soma de dinheiro. Todos então receberam a possibilidade de contribuir parte daqueles recursos a um pote comunitário em cada rodada do jogo. Depois que todos colocaram seu investimento, cada um receberia 40% do total da soma investida pelo grupo.

Se os participantes jogam de maneira justa, cada rodada deveria produzir um retorno de investimento para cada um. Aqueles que são muito mesquinhos, porém, podem distorcer o jogo contribuindo pouco para o pote comunitário, mas recebendo o retorno do investimento feito por outros. É fácil como o ressentimento pode crescer nesse experimento. Após dez rodadas, portanto, os pesquisadores deram aos participantes a opção de penalizar outros jogadores deduzindo parte da receita que eles haviam recebido.

Baseado na teoria econômica clássica, você poderia esperar que os mais mesquinhos recebessem as punições –o que realmente aconteceu. Incrivelmente, no entanto, os participantes mais altruístas também foram alvos de punições –embora eles tivessem contribuído mais do que deveriam para os outros enriquecerem.

O resultado já foi repetido em muitos outros experimentos. Num “jogo dos bens públicos” semelhante, por exemplo, participantes foram questionados se eles gostariam de expulsar algum membro do grupo. Para espanto de muitos, eles expulsaram os extremamente altruístas com a mesma frequência com que tiraram os piores egoístas. Por alguma razão, egoísmo e altruísmo foram considerados moralmente equivalentes.

Essa tendência parece surgir no começo da vida de um ser humano – em torno dos oito anos de idade. Apesar de o tamanho de seu efeito depender do contexto, ela parece estar presente, em ao menos algum grau, na maioria das culturas –o que sugere que seja uma tendência universal.

RECIPROCIDADE E REPUTAÇÃO

Para compreender as origens desse comportamento aparentemente irracional, precisamos primeiro considerar como o altruísmo humano nasceu.

De acordo com a psicologia evolutiva, comportamentos humanos arraigados no cérebro devem evoluir para melhorar nossa sobrevivência e nossa capacidade de passar nossos genes para uma outra geração. No caso do altruísmo, ações generosas poderiam nos ajudar a produzir boas relações dentro de um grupo que, ao longo do tempo, ajudam a construir capital social e status.

“Adquirir uma boa reputação pode levar a benefícios, como ocupar uma posição mais central na rede social”, diz Nichola Raihani, professora de evolução e comportamento da University College London (Reino Unido) e autora de The Social Instinct (O Instinto Social). Isso pode significar que nós tenhamos mais ajuda quando precisarmos. “E também está ligado a sucesso reprodutivo”, afirma ela.

É importante dizer, entretanto, que reputação é algo relativo a posição –se uma pessoa sobe, outras caem. Isso pode criar um forte senso de competição, o que significa que nós estamos sempre alertas quanto à possibilidade de outras pessoas estarem à frente, mesmo que elas tenham alcançado seu status por meio do altruísmo. Nós ficamos especialmente ressentidos se acharmos que essa outra pessoa estava apenas buscando esses benefícios de reputação, em vez de agir a partir de um genuíno interesse nos outros, já que seu altruísmo pode sugerir, de forma mais geral, uma personalidade manipulativa e astuta.

Isso tudo significa que o comportamento altruísta pode nos levar a andar em uma corda bamba, metaforicamente falando. Nós precisamos equilibrar nossa generosidade perfeitamente, para que nós sejamos vistos como prestativos e bons, sem levantar a suspeita de que estamos agindo apenas pelo interesse em um novo status.

Resultados dos jogos de bens públicos parecem também ter mostrado isso, diz Raihani. “Quando você pergunta aos participantes por que eles querem excluir alguém, eles frequentemente lhe dão respostas ligadas à posição, do tipo ‘Oh, aquele cara, ninguém está fazendo o que ele faz –ele nos deixa numa posição ruim’.” Estudos com base em mídias sociais, afirma Raihani, mostram que as pessoas tendem a admirar menos uma ação altruísta se a pessoa anunciá-la no Facebook, por exemplo, do que se ela mantiver o gesto fora das redes.

A própria pesquisa de Raihani sobre páginas de arrecadação de recursos encontrou evidências de que algumas pessoas estão cientes da possibilidade de provocar uma reação hostil a sua generosidade. Analisando postagens do antigo site BMyCharity, ela identificou que são geralmente os mais altos (assim como os mais baixos) doadores que preferem permanecer anônimos. Eles parecem saber que um gesto de maior visibilidade pode resultar em ressentimento por parte de outras pessoas que visitem a página, então eles preferem escondê-lo.

SEGUNDAS INTENÇÕES

Ryan Carlson, um estudante de graduação na Universidade Yale, nos Estados Unidos, concorda que comportamentos altruístas são frequentemente avaliados a partir de muitos ângulos além da própria generosidade da ação. “Nós não apenas valorizamos o altruísmo –nós valorizamos a integridade e a honestidade, que são outros sinais de nosso caráter”, diz ele. Um aparente ato de generosidade que pareça motivado por algum interesse pessoal pode, portanto, nos levar a receber pontos bem negativos nessas outras qualidades.

Para um estudo recente, Carlson entregou aos participantes várias ilustrações, com exemplos de situações envolvendo pessoas, e pediu que eles dessem uma nota ao aparente altruísmo da personagem – em que -5 seria extremamente egoísta e +5, extremamente altruísta.

No geral, os participantes não se importaram se as personagens recebiam benefícios acidentais com suas ações. Se a pessoa foi doar sangue –um gesto modestamente altruísta– e acabou causando a admiração seu amigo, por exemplo, os participantes ainda viam a pessoa de forma positiva. De forma semelhante, se a personagem recebia um vale de compras pelo seu esforço, os participantes não se incomodavam– contanto que tivesse sido um bônus acidental.

A penalização vinha se eles eram informados que esses benefícios faziam parte da motivação original. Isso mudou as notas de avaliação do altruísmo, de positivo para negativo. Embora as pessoas ainda estivessem fazendo, sem dúvida, um gesto de bondade, elas eram consideradas egoístas.

Como explica Raihani, nós estamos constantemente tentando adivinhar os motivos das ações realizadas por outras pessoas– e nós as punimos duramente quando suspeitamos que seus motivos não sejam puros. Essas suspeitas instintivas podem ou não ser verdade, claro. Nós frequentemente baseamos nossos julgamentos na intuição, não em fatos concretos.

REGRAS PARA A VIDA TODA

É importante nos lembrarmos dessas conclusões sempre que questionarmos os comportamentos de pessoas em nosso entorno. Se não houver uma boa evidência sugerindo que seus atos de generosidade vêm de interesses pessoais, nós podemos decidir dar-lhes o benefício da dúvida, sabendo que nossas próprias intuições podem estar sendo alimentadas pelo nosso próprio medo de perder status social.

As pesquisas também podem nos ajudar a evitar gafes acidentais quando nós mesmos agirmos de forma altruística. No mínimo, as conclusões desses estudos mostram que você deveria evitar fazer muito barulho em torno de suas boas ações. “E, se outras pessoas as mencionarem, você deveria minimizá-las”, diz Raihani. Mesmo que você ache que você esteja simplesmente compartilhando uma informação animadora sobre uma causa com que você se importa, você deveria ficar mais próximo da modéstia.

E, se você por acaso receber algum benefício devido a um gesto altruísta, é melhor que você seja honesto sobre isso. Imagine, por exemplo, que um gesto de gentileza no escritório acabe chamando a atenção de um chefe, que então lhe oferece uma promoção. Você poderá ser visto por outras pessoas de forma mais favorável se você admitir publicamente essa consequência, em vez de deixar que os outros fiquem ruminando a ideia de que você, de alguma maneira, planejou isso antecipadamente.

“Se nós acabarmos recebendo benefícios por causa de uma ação de bondade, faz sentido ser transparente sobre isso”, afirma Carlson. Caso contrário, pode parecer que você estava deliberadamente administrando sua reputação para adquirir status.

Pode ser que a única forma garantida de evitar o chamado “menosprezo a benfeitores” seja realizar suas boas ações em completo segredo. E, se outros descobrirem a verdade, apesar de suas tentativas de escondê-las –bem, nesse caso a boa reputação que virá em seguida será simplesmente um bônus.

Oscar Wilde pode ter descrito isso da melhor forma, mais de um século atrás. “A melhor sensação do mundo é realizar uma boa ação de forma anônima –e alguém descobri-la depois.”

* David Robson é um escritor científico baseado em Londres, Reino Unido. Seu próximo livro, The Expectation Effect: How Your Mindset Can Transform Your Life (O Efeito da Expectativa: Como Sua Postura Mental Pode Transformar Sua Vida) será publicado pela editora Canongate and Henry Holt no início de 2022.

Fonte: https://f5.folha.uol.com.br/viva-bem/2022/01/por-que-pessoas-altruistas-podem-ser-vistas-de-forma-negativa-pelos-outros.shtml

espiritualidades.com

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O Suicídio – Reflexões

Adelvair David

REFLEXÕES – O SUICÍDIO

É uma realidade triste e presente em todas as sociedades, em 2019, mais de 700 mil pessoas morreram por suicídio: uma em cada 100 mortes, o que levou a OMS a produzir novas orientações para ajudar os países a melhorarem a prevenção do suicídio e atendimento.

As razões, as suas causas vão ao infinito, pois que, cada pessoa sente o mundo e a si mesma conforme seus valores morais, sua evolução e seus sentimentos, mesmo quando o problema é semelhante a percepção de cada um é diferente.

De forma alguma desejamos minimizar o tormento que invade a alma de quem crê que essa é a solução, porém, compreendemos que a morte não existe, então o motivo que levou o aflito ao suicídio permanece acicatando o seu coração no outro plano da vida, o espiritual. Muitos que assim procedem dizem em mensagens que se pudessem voltariam atrás.

É necessário compreender que Deus não abandona os seus filhos em situação alguma, nem mesmo o suicida, sempre haverá no além mais de um amigo amoroso socorrendo, aconchegando, amando a fim de minimizar as ardências íntimas devido ao ato tresloucado, porém, importante sabermos que o enfrentamento da consciência é inevitável e dolorosa é a consequência, e ela dirá que nenhum de nós tem o direito de dispor da própria vida, pois somente Deus o pode.

Não devemos ser simplistas com relação à dor alheia, todos podemos acolher alguém que se encontra em desespero e sofrendo grande angústia, amparando, abraçando, aconselhando e encaminhando para os atendimentos especializados da ciência médica e psicológica, e ainda religioso quando a pessoa tem ou aceita uma religião. Mas é importante cientificar carinhosamente a pessoa que a morte não existe e que ela despertará com as impressões do seu ato muito presentes e perceberá que nada se resolveu, mas ao contrário, agravou-se.

Além de falar da imortalidade da alma, da busca do atendimento profissional adequado, podemos ajudar a pessoa a compreender que a prova neste mundo é temporária, que tudo passa e que a cada momento é possível recomeçar, esquecer ocorrências ruins, confiar na providência divina que permite o sofrimento a fim de lhe extinguir a causa que pode ser desta ou de outra vida, dizer ainda que Deus jamais nega ajuda a quem pede, orientar para a oração, orar com a pessoa, fazê-la perceber que não está sozinha.

Ensinam-nos os espíritos venerandos que o melhor preservativo contra o suicídio e a loucura são a calma, a resignação e a fé no futuro, porque dão serenidade para os enfrentamentos. Cultivemos esses valores e auxiliemos nossos irmãos também a fazê-lo, pois hoje servimos, amanhã somos os necessitados de que alguém nos sirva com o seu amor e dedicação.

Lembremo-nos sempre que ninguém foge da vida, porque ela prossegue, o amor será sempre o abrigo, o refúgio para todas as nossas dores, o amor que dermos nos abençoará os passos em toda parte.

Porque estaremos sempre vivos, vamos contribuir espalhando vida.

Adelvair David

Fonte:  Agenda Espírita Brasil

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Teoria da Iluminação natural em Santo Agostinho

FILOSOFIA

Agostinho nunca negou a existência de Deus

Agostinho nunca negou a existência de Deus

Sempre almejando a sabedoria e mais ainda a verdade, Agostinho de Hipona passou por diversas experiências filosóficas, desde seu materialismo racionalista, passando pelo ceticismo, até sua substituição por uma concepção espiritualista. Porém, nunca negou a existência de Deus. Estas experiências fizeram com que o filósofo cristão amadurecesse bastante, inclusive no que diz respeito às Sagradas Escrituras, que passou a compreender de forma mais significativa e profunda.

Em princípio, Agostinho havia se integrado à seita Maniqueísta, uma doutrina persa que pregava a existência de dois polos equivalentes e em permanente luta no universo: o Bem e o Mal. Perceba que segundo esse modo de pensar, além de existirem, isto é, possuírem realidades concretas, esses elementos têm o mesmo valor ou a mesma força. Assim, os cristãos representavam os adeptos do Bem e os pagãos e bárbaros, os do Mal.

No entanto, foi no neoplatonismo que Agostinho percebeu a existência das coisas incorpóreas, reorientando sua busca em um sentido transcendente. Segundo interpretações de Platão, o Mal não existe enquanto entidade, só o Bem como ideia ontológica por excelência. O Mal não é uma realidade, é um juízo e uma ação errôneos por ignorância. A partir daí, Agostinho verificou que todas as coisas são boas, porque são obras de Deus e que o Mal é culpa da forma como utilizamos o livre arbítrio. Mas verificou também que todos buscam a felicidade e o Bem (pensamentos semelhantes aos de Sócrates!). Eis, então, o problema: como reconhecer o Bem e a felicidade? Agostinho constatou, pois, que a felicidade somente se encontra em Deus, o Bem Supremo, e que nós temos esse conhecimento em nosso íntimo, de forma confusa.

Desse modo, Agostinho estabelece uma ordem de perfeição, uma graduação ou distinção dos seres para alcançar esse conhecimento que nos levaria a uma vida beata. O corpo é mortal e a alma é seu princípio de vida. Esta distinção vai dos seres inanimados e passa pelos vegetais, animais até o homem. Mas não termina aqui. Acima da razão (do homem) ainda há verdades que não dependem da subjetividade, pois suas leis são universais e necessárias: as matemáticas, a estética e a moral. Só acima destas está Deus, que as cria, ordena e possibilita o seu conhecimento, que deve, agora, ser buscado na interioridade do homem.

Nessa ordem e por um processo de interiorização e busca, pode-se encontrar essas verdades porque Agostinho admite que Deus as ilumina, estando elas já anteriormente em nosso espírito. A doutrina da Iluminação divina caracteriza-se por uma luz que não é material e que se atinge quando do encontro com o conhecimento da verdade para que o homem possa ter uma vida feliz e beata. O lembrar-se disto, isto é, o recordar-se de um conhecimento prévio é o que o filósofo/teólogo denomina de rememoração de Deus (herança da teoria da reminiscência platônica).

Agostinho teve, portanto, muita importância para a consolidação da Igreja. Isto porque em um momento de crise sobre posições divergentes, o seu pensamento evidenciava a necessidade de conciliar razão e fé, utilizando a filosofia como um instrumento que esclarecia ou explicava a relação do homem com Deus, ainda que nesta devesse prevalecer a fé. Também porque isso auxiliava os interesses da Igreja com relação à conversão dos pagãos ao invés de lutar contra eles, ampliando o número de propagadores da fé. E, assim com uma relativa estabilidade, a Igreja poderia expandir-se ainda mais, buscando o seu ideal de universalidade e comunidade em cristo.

Por João Francisco P. Cabral

Colaborador Brasil Escola

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU

Mestrando em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP

Filosofia – Brasil Escola

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Mexericos reencarnatórios: a curiosidade. . .

Marco Milani

MEXERICOS REENCARNATÓRIOS: A CURIOSIDADE DE SE SABER QUEM FOI QUEM

Não é de hoje que a questão sobre quem foi quem em reencarnações anteriores alimenta a fantasia de várias pessoas, geralmente aquelas desejando identificar em seu próprio passado elementos para satisfazer a curiosidade vaidosa.

No capítulo VII, de “O Livro dos Espíritos”, esclarece-se sobre a utilidade do esquecimento do passado. Em nosso atual estágio evolutivo, é proposital a inexistência de lembranças precisas sobre as experiências anteriores, pois, se assim não fosse, estaríamos expostos a gravíssimos inconvenientes.

Em alguns casos, as lembranças poderiam nos humilhar extraordinariamente; em outros, exaltar o nosso orgulho.

Allan Kardec sinaliza que, se quisermos saber como éramos, basta examinarmos as nossas tendências instintivas de hoje. Tendências boas expressam progresso moral. Tendências más explicitam orgulho e egoísmo, cabendo-nos o esforço do autoaprimoramento por meio de ações equilibradas.

Em casos específicos há utilidade em conhecer experiências passadas, porém sempre com seriedade e jamais para satisfazer uma curiosidade vã.

Modernamente, a Terapia de Vidas Passadas pode atuar nesse sentido, objetivando sanar transtornos e desconfortos psicológicos presentes por meio da revivência de experiências traumatizantes do passado. A catarse gerada atuaria favoravelmente na vida atual do indivíduo, alterando padrões de comportamentos nocivos para outros mais adequados. Certamente, essa técnica terapêutica deve ser desenvolvida por profissionais competentes que conseguirão avaliar a pertinência ou não de sua aplicação conforme as necessidades de cada paciente.

No movimento espírita, em particular, há adeptos com diferentes graus de maturidade sobre o assunto.

Alguns não se contentam com a curiosidade sobre si mesmos e também desejam perscrutar o passado alheio, especulando sobre as encarnações de personalidades variadas.

Nenhuma informação sobre “quem foi quem” revelada por um suposto médium, por mais famoso que esse seja, é isenta de dúvida. Toda revelação merece cuidado, principalmente se oriunda de uma única fonte.

Nos últimos anos, os entusiastas pelas reencarnações alheias dedicam tempo precioso para especular sobre o paradeiro de Emmanuel, o mentor espiritual de Chico Xavier que, segundo o médium mineiro, reencarnaria por volta do ano 2000.

Ora, supondo que essa informação seja verdadeira, qual é a utilidade de se saber onde está Emmanuel? Como ele se chama hoje? O que ele faz? A resposta é: nenhuma, além de se alimentar fantasias e misticismos.

Diferentemente de algumas tradições orientais que tentam identificar personalidades relevantes à própria religião, como os budistas fazem à procura do Buda reencarnado, não existe qualquer motivo útil no Espiritismo para buscas especulativas.

A Doutrina Espírita liberta consciências e esclarece sobre as reais necessidades dos seres. Todos nós reencarnamos para continuar a progredir moral e intelectualmente e refletimos as conquistas e erros que já tivemos em nossas muitas encarnações.

Hoje somos melhores do que ontem e trabalhemos para amanhã sermos melhores do que hoje.

Marco Milani

Jornal Correio Fraterno. Ed. 463. Jun/2015. p.6.

Fonte:  Agenda Espírita Brasil

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Déja Vu é um fenômeno Instigante

Jorge Hessen

DÉJÀ VU É UM FENÔMENO INSTIGANTE

O fenômeno se traduz por uma estranha impressão de já ter vivenciado a cena presente e mesmo saber o que se vai passar em seguida, ainda que a situação que esteja a ser vivida seja inédita. Conhecido como déjà vu, ou paramnesia (como também é conhecido), tem sido, ao longo dos anos, objeto das mais díspares tentativas de interpretação. Para Sigmund Freud, as cenas familiares seriam visualizadas nos sonhos e depois esquecidas e que, segundo ele, eram resultado de desejos reprimidos ou de memórias relacionadas com experiências traumáticas. Fabrice Bartolomei, Neurologista francês, a paramnesia é resultado de uma fugaz disfunção da zona do córtex entorrinal, situado por baixo do hipocampo e que se sabia já implicada em situações de “déjà vu”, comuns em doentes padecendo de epilepsia temporal.

Experiências, conduzidas por investigadores do Leeds Memory Group, permitiram recriar, em laboratório e através da hipnose, as sensações de “déjà vu”. Outros dados explicam que situações de stress ou fadiga possam favorecer, nesse contexto disfuncional, o aparecimento do fenômeno, mas a causa precisa deste “curto-circuito” cerebral permanece, ainda, uma incógnita.

Muitos de nós já tivemos a sensação de ter vivido essa situação que acabamos de relatar. Como já ter estado em um determinado lugar ou já ter vivido certa situação presente, quando, na realidade, isto não era de conhecimento anterior? Em alguns casos, ocorre a habilidade de, até, predizer os eventos que acontecerão em seguida, o que é denominado premonição. Seria um bug cerebral, premonição ou mera coincidência? A psiquiatria e a Doutrina Espírita explicam esta questão de formas diferentes.

Sabe-se que nossa memória, às vezes, pode falhar e nem sempre conseguimos distinguir o que é novo do que já era conhecido. “Eu já li este livro?” – “Já assisti a este filme?” – “Já estive neste lugar antes?” – “Eu conheço esse sujeito?” Estas são perguntas corriqueiras de nossa vida. No entanto, essas dúvidas não são acompanhadas daquele sentimento de estranheza que é indispensável ao verdadeiro déjà vu. Para alguns estudiosos, quando a sensação de familiaridade com as situações, lugares ou pessoas desconhecidas é frequente e intensa, pode, até, ser um dos sintomas da epilepsia, na área do cérebro responsável pela memória, mas, essa mesma sensação pode indicar outros sintomas. Déjà Vu é um fenômeno anímico muito comum, embora de complexa definição científica.

Pode ocorrer com certa freqüência em indivíduos com distúrbios neuropatológicos, como a esquizofrenia e a epilepsia. Mas há, também, outras predisposições maiores por fatores não patológicos, como fadiga, estresse, traumas emocionais, excesso de álcool e drogas. Há, ainda, as teorias da psicodinâmica, da reencarnação, holografia, distorção do senso de tempo e transferência entre hemisférios cerebrais. São tão complexas as análises, que especialistas reagem contra a limitação do “vu”, que restringiria ao mundo do que pode ser “visto”, e já utilizam formas paralelas que fariam referência mais específica aos vários tipos de situação: “déjà véanus” (“já vivido”), “déjà lu” (“já lido”), “déjà entendu” (“já ouvido”), “déjà visité” (“já visitado”) – o que pode, um dia, acarretar um “déjà mangé” (“já comido”) ou um “déjà bu” (“já bebido”).

Os especialistas, ainda, não sabem, concretamente, como ocorre, exatamente, a sensação do déjà vu em pessoas não epilépticas. A que ocorre em pessoas com a doença, no entanto, existem algumas hipóteses, como a batizada, pelo psicólogo Alan Brown, de “duplo processamento”. (1) Segundo o psicólogo Alan Brown, professor da Universidade Southern Methodist, nos Estados Unidos, e autor do livro “The Déjà Vu Experience” (a experiência do déjà vu), dois terços da população mundial relatam ter tido, ao menos, um déjà vu na vida.

Para os conceitos espíritas tudo o que vemos e nos emociona, agradável ou desagradavelmente, nesta e nas encarnações pretéritas, fica, indelevelmente, gravado em alguma parte da região talâmica do cérebro perispiritual, e, em algumas ocasiões, a paramnesia emerge na consciência desperta. Pode, também, ser uma manifestação mediúnica se o médium entra, em dado momento, em um transe ligeiro, sutil, e capta a projeção de uma forma-pensamento emitida por um espírito desencarnado; essa é outra possibilidade.

A tese da reencarnação é difundida há milhares de anos. No Egito, um papiro antigo diz: “o homem retorna à vida várias vezes, mas não se recorda de suas pretéritas existências, exceto algumas vezes em sonho. No fim, todas essas vidas ser-lhe-ão reveladas.” (2)

Em que pese serem as experiências déjà vu, segundo o academicismo, nada mais do que incidentes precógnitos esquecidos, urge considerar, porém, que existem situações dessa natureza que não podem ser explicadas dessa maneira. Entre elas, está em alguém ir a uma cidade ou a uma casa, pela primeira vez, e tudo lhe parecer muito íntimo, ao ponto de prever, com exatidão, detalhes sobre a casa ou a cidade; descreve, inclusive, a disposição dos cômodos, dos móveis, dos objetos e outros detalhes que estão muito além do âmbito da precognição normal. “Em geral, as experiências precógnitas são parciais e enfatizam certos pontos notáveis, talvez alguns detalhes, mas nunca todo o quadro. Quando o número de detalhes lembrado torna-se muito grande, temos que desconfiar, sempre, de que se trata de lembranças de uma encarnação passada”. (3)

Apesar de não serem abundantes as publicações e depoimentos sobre o assunto, há teorias que associam o déjà vu a sonhos ou desdobramento do espírito, onde o espírito teria, realmente, vivido esses fatos, livre do corpo, e/ou surgiriam as lembranças de encarnações passadas, como disse acima, o que levaria à rememoração na encarnação presente. (4) Hans Holzer, registra uma história, em que ele descreve a experiência déjà vu: “durante a Segunda Guerra Mundial, um soldado se viu na Bélgica e, enquanto seus companheiros se perguntavam como entrar em determinada casa, em uma cidadezinha daquele país, ele lhes mostrou o caminho e subiu a escada à frente deles, explicando, enquanto subia, onde ficava cada cômodo. Quando, depois disso, perguntaram-lhe se havia estado ali antes, ele negou, dizendo que nunca havia deixado seu lar nos Estados Unidos, e estava dizendo a verdade. Não conseguia explicar como, de repente, se vira dotado de um conhecimento que não possuía em condições normais”. (5)

Cremos que a experiência déjà vu é muito profunda e o sentimento é de estranheza. Devemos distinguir um sintoma do outro, pois, cada caso é um caso e nada acontece por acaso. Por ser um fenômeno profundamente anímico, é prudente separarmos as teorias da reencarnação, sonhos ou desdobramentos, das teorias de desejos inconscientes, fantasias do passado, mecanismo de autodefesa, ilusão epiléptica, entre outras, para melhor discernimento do que, realmente, seja uma paramnesia e o que seja, apenas, uma fantasia de nosso imaginário fecundo.

Jorge Hessen

Fonte:  Blog Artigos Espíritas – Jorge Hessen

Referências:

(1) Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u566377.shtml

(2) Papiro Anana” (1320 A.C.)

(3) Revista Cristã de Espiritismo, edição 35

(4) Idem

(5) Idem

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Por que ainda existe tanta violência?

Donizete Pinheiro

POR QUE AINDA EXISTE TANTA VIOLÊNCIA? ELA UM DIA TERÁ FIM?

A violência reinante na Terra é sinal de que o instinto ainda prepondera. No princípio, quando o indivíduo era o troglodita das cavernas, equiparado a certos animais do nosso tempo, necessitava ele de mecanismos naturais que evitassem a destruição de sua espécie. Sem a razão que compreende e nem o sentimento que enobrece, só tinha a força bruta para repelir o ataque dos inimigos e proteger-se das intempéries. Forçado pela natureza a buscar mais conforto e segurança, desenvolveu a inteligência e amadureceu o sentimento, mas não o suficiente para dominar o instinto. Este, se importante no início da evolução da espécie humana, hoje se mostra perigoso aliado do orgulho, do egoísmo e da vaidade.

O valor que o indivíduo dá a si mesmo e às suas necessidades é inversamente proporcional à importância que ele dá ao seu próximo. Quanto mais gosta de si, menos vale o semelhante; quanto mais apego aos bens materiais, pouco se importa se os consegue em detrimento do patrimônio alheio. E quando se sente ferido em seu orgulho ou vê ameaçados os seus interesses, reage destruindo aquele ou aquilo que lhe é obstáculo, sem medir consequências. O instinto é perfeito, vai até o limite do necessário. Contrariamente, porém, o orgulho e o egoísmo não insaciáveis, sempre querem mais; são míopes, porque não conseguem enxergar senão a si próprios; e surdos, porque dão ouvidos somente aos apelos interiores.

Parece que o ser humano atual é mais violento do que o de ontem, mas na verdade, de uma maneira geral, ele é menos agressivo e menos cruel. Nessa avaliação, precisamos considerar que a população cresceu rapidamente desde o Século XIX e que hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas ocupando o mesmo espaço, então é natural que a violência também tenha aumentado, e ao ser divulgada pela mídia sensacionalista dá-nos a impressão de que domina.

E Deus permite que isso esteja acontecendo porque vivemos os chamados tempos finais, em que muitos Espíritos estão tendo a última oportunidade de se adaptarem ao nosso planeta, que passa por uma transição para ser a morada de Espíritos em melhores condições morais. É a separação do joio e do trigo. O exame final desta fase do planeta. Recordemos as palavras de Jesus quando afirmou “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra” (Mateus, 5:5).

Certamente que, a violência terá um fim, mas este chegará mais depressa se cada um de nós começar logo a cultivar a mansuetude, a fraternidade e o respeito ao próximo; se rechaçar as ofensas com o silêncio e o perdão; se renunciar um pouco, para que seja possível a paz. É claro que podemos dialogar para esclarecer e inclusive usar a autodefesa, porque também é nosso dever impedir o crescimento do mal, ao mesmo tempo em que procuramos recuperar o criminoso. Tampouco podem ser excluídos os sistemas penais de contenção da criminalidade, porque ainda necessários à manutenção da ordem, ante a presença de infratores renitentes à mudança.

E quando na Terra estiverem vivendo apenas os mansos, o ser humano não mais buscará o paraíso, pois terá descoberto que o paraíso da felicidade mora dentro de si mesmo.

Donizete Pinheiro

Fonte: Agenda Espírita Brasil

Nota do Autor:

Texto do capítulo 26 – VIOLÊNCIA de livro do autor deste ensaio.

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Atividades Espirituais

Manoel Philomeno de Miranda

A dinâmica da ação é lei da vida. Em toda parte, o movimento trabalha em favor da ordem e do equilíbrio. Por consequência, o repouso e a ociosidade propiciariam a ocorrência do caos.

Tudo quanto parece imóvel e imutável encontra-se em completa agitação, que os órgãos dos sentidos humanos e alguns delicados e complexos aparelhos não conseguem captar.

Sendo a vida terrestre natural efeito do mundo causal, de energia e de programação, neste as ações são responsáveis pelos valores que trabalham para a evolução espiritual do ser.

Nesses mundos intermediários entre o físico e os mais felizes reinam incomparáveis movimentos de edificação, porquanto, também eles prosperam com a sua comunidade espiritual ascendendo na escala superior infinitamente.

Os espíritos que neles estagiam, são convidados a atividades inumeráveis, graças às quais dão prosseguimento aos labores que experienciaram na existência corporal e a morte não conseguiu interromper.

De outras vezes, programaram futuras realizações que deverão enfrentar, contribuindo para a renovação do planeta e a superação dos males que afligem as criaturas que hospedam.

Pesquisas nas diversas áreas da ciência, da tecnologia, do pensamento, das artes, da fé religiosa ampliam a capacidade de entendimento dos seus realizadores, que mais tarde transferirão para o planeta em ministérios enriquecedores e felizes.

Escolas e Universidades especializadas transferem o conhecimento das Esferas ditosas para esses laboriosos buscadores da verdade, que se capacitam para os futuros cometimentos iluminativos.

Não havendo lugar para a inação, o trabalho fraternal de auxílio recíproco faculta que sejam organizadas caravanas especiais de socorro às criaturas humanas, que passam a ser tuteladas pelo nobre auxílio, a fim de que se renovem, tenham as suas aflições minoradas quando não cessadas, e o amor se encarregue de equacionar os tremendos conflitos gerados pelo ódio, pela vingança e pela revolta, que remanescem naqueles que pretendem desforçar-se dos males de que foram vítimas, e sem apoio na confiança irrestrita em Deus, que a tudo corrige pelo amor, tomam nas mãos á clava da justiça e enlouquecem, ampliando os círculos das obsessões e as manifestações de doenças e dramas de toda natureza, que infligem aos seus desafetos com objetivos destrutivos…

Aprende-se a ajudar em anonimato reconfortante, oferecendo-se apoio e inspiração àqueles que se encontram algemados aos vícios e aos tormentos, sem nunca deixarem desanimar, mesmo quando os resultados não se fazem auspiciosos.

Treinam misericórdia em visitas de auxílio e amparo às regiões de sofrimentos inenarráveis, de onde procuram retirar aqueles que se apresentam com melhores disposições íntimas para o refazimento pessoal.

Assumem responsabilidades com muitos daqueles que aportam às províncias onde residem como náufragos, e são internados em clínicas próprias de acordo com as mazelas que conduzem, assim como de repouso e refazimento, para a adequada reconquista da saúde e da paz interior.

Simultaneamente, reconstroem-se grupos familiares que volverão à Terra, a fim de repararem equívocos juntos ou construírem novas edificações de harmonia.

Não sendo necessários largos períodos para o repouso, em razão da inexistência do cansaço, o desenvolvimento de atividades é sempre ampliado, com intervalos de auspiciosos encontros de arte e de beleza ou para se poder fruir as esplendorosas mensagens da Natureza sem a poluição mental, geradora das demais que ameaçam a vida terrestre.

Os espíritos intercambiam sentimentos de afetividade pura e profunda, sem quaisquer tormentos egotistas e derivados das faixas primevas do processo evolutivo. O sexo apresenta-se sem as particularidades morfológicas, mantendo-se as expressões recentes da reencarnação anterior, porém, sem os impulsos perturbadores da libido, a manifestar-se em outros departamentos da emotividade.

Não há competição destrutiva, em que alguns pretendam o pódio da glória, porque o maior servidor sempre passa sem a ostentação nem a volúpia da fatuidade humana.

Todos empenham-se em trabalhar pelo próprio, assim como pelo crescimento geral, esforçando-se em cooperar e produzir, conscientes dos deveres que produzem a realização da felicidade.

Desde as mais inexpressivas até as mais desafiadoras atividades, esses mundos espirituais ensejam o prosseguimento da vida em contínuo dinamismo. Eis por que o ultrapassado conceito morrer para descansar, faz-se substituído por viver além-da-morte para prosseguir em crescimento infatigável no rumo do Infinito.

Treine-se na Terra a ação que prodigaliza ventura, e após a morte do veículo físico, prosseguir-se-á em atividade ordeira e confortadora com que sempre se apresentará a vida no seu sentido imortal.

Manoel Philomeno de Miranda

Psicografia de Divaldo Pereira Franco

Livro: Reencontro com a Vida – 17

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O fermento fundamental do “pão de cada dia”

Orson Peter Carrara

Peço ao leitor raciocinar comigo. O texto apresenta uma argumentação que pode ser encarada como um pedido de alguém que deseja acertar, que procura entender, que faz um esforço por ser melhor. E mais: enquadra-se perfeitamente em nosso tempo. Tanto nos conflitos e questionamentos interiores que todos fazemos como na realidade do cotidiano nacional e mundial, diante dos desmandos humanos. A tradução é de Salvador Gentile.

Acompanhe comigo. Diz o texto: “(…) Afastai também de nosso espírito o pensamento de negar a vossa justiça, vendo a prosperidade do mau e a infelicidade que oprime, por vezes, o homem de bem. Sabemos agora, graças às novas luzes que vos aprouve dar-nos, que a vossa justiça se cumpre sempre e não falta a ninguém; que a prosperidade material do mau é efêmera como a sua existência corporal, e que terá terríveis reveses, ao passo que a alegria reservada àquele sofre com resignação será eterna. (…)”.

O trecho, que é parcial dentro de uma análise mais longa de mais de uma página, enquadra-se na realidade do que estamos vivendo no planeta. A prosperidade desonesta desenfreada e gerada pela ambição desmedida, em prejuízo de outros que se esforçam no trabalho e na honestidade, com infelicidade, indignação e as vezes até revoltas com os abusos de toda ordem.

Por outro lado, a constatação dessas ilusões que passam com a mesma rapidez com que passa a vida. E, claro, com as consequências advindas dos abusos e arbitrariedades praticadas com ou sem consciência dos malefícios que espalham.

Não falamos apenas das crises políticas que perduram. Falamos de nós mesmos, seres humanos que se permitem abusos, ilusões, desejando a todo custo a felicidade ou a prosperidade, mesmo que a custo do prejuízo alheio ou da infelicidade de outras pessoas, ainda que não diretamente.

Mas, o raciocínio é claro. Que nos afastemos do pensamento de achar que a justiça maior não age, nem é indiferente. Existe um comando para a vida que estabeleceu leis que geram consequências toda vez que ultrapassamos o dever de amar e respeitar a integridade alheia, em todos os sentidos, repetimos, ainda que indiretamente.

A justiça sempre se fará presente, senão pelos frágeis mecanismos humanos, mas perene nos tribunais da Divina Consciência.

Referida exortação é um convite para que não nos revoltemos com as injustiças, com os desmandos, com os abusos. Antes que tenhamos compaixão com os que ignoram a Lei de Amor que rege os destinos humanos. Nem duvidemos da justiça perene que comanda vida, anda que desrespeitada. As consequências dos abusos serão sempre amargas, exigindo reparações no tempo e no espaço.

Por isso muito mais sábio a resignação que aguarda, que tem compaixão e ainda ora em favor daqueles que se perdem nos equívocos.

O citado e brilhante trecho está no capítulo XXVIII na apreciação de Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, e contido no contexto que estuda a Prece Dominical, perfeitamente enquadrado no quesito “Dai-nos o pão de cada dia”. Como a indicar que o pão de cada dia também é essa postura de resignação e confiança na Paternidade Divina que tudo comanda, não abandona seus filhos e ainda permite os abusos para que aprendamos finalmente a respeitar e cumprir a Lei de Amor, mandamento máximo das leis divinas.

Dai-nos, pois, Pai, o pão da compreensão com as fraquezas, equívocos e abusos alheios a que todos estamos sujeitos, mas também o pão da fortaleza que alimenta para não cairmos nessas tolas e vazias ilusões do poder, da ganância, da vaidade, da ambição.

É o pão que alimenta em todos os sentidos, perde seu sentido figurado para ganhar em extensão de autêntico significado espiritual para o equilíbrio de nossas vidas.

Orson Peter Carrara

Fonte :  Kardec Rio Preto

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Brandos e Pacíficos

Divaldo P. Franco

Os brandos e pacíficos herdarão a Terra, e serão chamados filhos de Deus.

Esta frase monumental – reunimos dois textos em apenas um – encontra‑se no Sermão da Montanha, enunciado por Jesus, conforme o Evangelho de São Mateus, 5: 5 e 9.

Nunca foi tão necessária de ser repetida como na atualidade, em que a prepotência e a crueldade constituem fatores de primazia na cultura sociológica da Humanidade.

O ser humano, que alcançou as estrelas que reluzem ao longe e as estuda com afinco e determinação, assim como as micropartículas, em busca da energia no seu estado mais primitivo, que investe fortunas incalculáveis para a solução de pandemias e moléstias dilaceradoras, que se comove ante um gesto de ternura infantil, genericamente ainda não conseguiu disciplinar os instintos e as paixões asselvajadas que lhe permanecem no imo, devorando-lhe as sublimes aspirações ao bom, ao belo e ao nobre.

Com facilidade, entrega-se à alucinação do poder terreno, olvidado da sua fragilidade assim como da fugacidade com que transita no mundo.

O sentido ético do viver, as abençoadas escolas de pensamento filosófico edificante, as conquistas da Ciência, apresentando as glórias da vida, flutuam com rapidez nas suas reflexões, e deixa-se deslumbrar infeliz e ambicioso pela crueldade e a beligerância.

Os séculos e milênios, que varreram as civilizações, desde as mais recuadas até este momento grandioso, não conseguiram depositar nos sentimentos humanos a brandura e a pacificação. Como consequência, vivemos numa sociedade caracterizada por distúrbios de muitos gêneros, apresentando-nos inconstantes, ciumentos, invejosos, derrapando sempre na animosidade e na malquerença.

A antipatia e a amizade protocolar, própria para redes sociais em que as fantasias se apresentam como realidade, sob o estímulo de outros indivíduos atormentados que se lhes tornam modelos a serem seguidos, substituem a brandura e a paz que fazem falta em demasia.

As terríveis buscas do sentido da vida no prazer sensorial atiram as criaturas na viagem ao mundo exterior, olvidando-se da sua realidade de seres espirituais.

Por mais, no entanto, que o ser humano fuja da investigação e vivência dos seus valores morais, do retorno à reflexão íntima em torno da sua origem, de quem é e como liberar-se dos males íntimos que o afligem, mais cedo ou tarde será conduzido pelas circunstâncias a enfrentar-se.

As modernas doutrinas psicológicas têm procurado despertar as mentes e os corações para a conquista do sentido brando e pacífico da existência, mas há relutância forte entre o ego e o Self, mantendo-se os velhos hábitos que geram desequilíbrio.

Por essa razão, Jesus afirmou que os brandos e pacíficos herdarão a Terra.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 16/12/21

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Perispírito

Martins Peralva

LE Questão 93. – O Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem alguns, está sempre envolto numa substância qualquer? R. – Envolve-o uma substância, vaporosa para os teus olhos, mas ainda bastante grosseira para nós; assaz vaporosa, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde queira.

O perispírito é, ainda, corpo organizado que, representando o molde fundamental da existência para o homem, subsiste, além do sepulcro, demorando-se na região que lhe é própria, de conformidade com o seu peso especifico. – Emmanuel

Os conceitos acima definem, muito bem, o perispírito, envoltório com que os Espíritos se apresentam e com o qual, no mundo espiritual, assinalam sua vivência.

Em seu estudo, temos a considerar, basicamente:

a) – Funções.

b) – Forma.

c) – Organização.

d) – Densidade.

e) – Coloração.

Com tais elementos fundamentais, pode-se ter uma idéia, aproximada, do que seja perispírito, uma vez que, “tão arrojada é a tentativa de transmitir informes sobre a questão aos companheiros encarnados, quão difícil se faria esclarecer à lagarta com respeito ao que será ela depois de vencer a inércia da crisálida”, explica Emmanuel.

Funções: Reveste o Espírito, quando desencarnado, e serve de intermediário entre o Espírito e o corpo, durante a encarnação.

Do corpo para o Espírito, transmite sensações; do Espírito para o corpo, conduz impressões.

Forma: Quando os Espíritos possuem determinada elevação, podem modificá-la, à sua vontade. Caso contrário, sob a influência das leis que regem o mundo mental, ou sob a ação de entidades cruéis, como acontece nos processos de zoantropia (aparência de monstros animalescos) e licantropia (aspecto de lobo), pode haver alterações na forma perispirital, independente da vontade do Espírito.

Organização: Organiza-se o perispírito com o fluido peculiar ao mundo onde vive: “Passando de um mundo a outro, o Espírito muda de envoltório, como mudais de roupa.”

Densidade: Quintessenciada ou rarefeita, nas almas grandemente evoluídas, pastosa ou opaca, nas almas muito imperfeitas.

Coloração: Luminosa e brilhante, nos Espíritos Superiores; sem qualquer brilho, nas almas inferiorizadas.

A existência do perispírito, que é termo espírita designativo desse singular corpo que reveste o Espírito desencarnado, é conhecida desde a mais remota antiguidade, tendo recebido, através do tempo, várias denominações.

Entre os homens primitivos, no alvorecer da humanidade, dão-lhe o estranho nome de CORPO-SOMBRA.

Entre os egípcios, KÁ.

Os teosofistas denominam-no CORPO ASTRAL.

Paulo de Tarso designa-o CORPO CELESTE.

Filósofos do século XIX chamavam-lhe MEDIADOR PLÁSTICO.

Allan Kardec, codificando o Espiritismo, deu-lhe o nome de PERISPIRITO.

Nas palavras de Jesus – “Os teus olhos são a candeia do teu corpo” – identificamos clara referência ao perispírito, pois sabemos que olhos maus densificam-no, enquanto olhos bons e puros dão-lhe claridade.

Emmanuel, o elevado Instrutor Espiritual, define-o por “campo eletromagnético, em circuito fechado, constituído de gases rarefeitos”, classificando o seu desenvolvimento, no tempo e através das espécies, da seguinte maneira:

I) – Subhumana (forma) – Animais

II) – Protoforma humana – Macacóides

III) – Psicossoma primitivo – Selvagens

IV) – Psicossoma inferior – Homens animalizados

V) – Psicossoma normal – Homens normais

VI) – Psicossoma superior – Almas metanormais

VII) – Almas sublimadas – Angelitude

No tocante à densidade normal da 5.” classificação, a coloração, o psicossoma tem três categorias, a saber:

a) – Esforço

b) – Sacrifício

c) – Grandes Causas

Expliquemos:

Esforço: Almas que se esforçam no sentido do auto-aperfeiçoamento, lutando por superar as próprias imperfeições.

Sacrifício: Almas capazes de se sacrificarem pelo bem do próximo.

Grandes Causas: Almas que reencarnam para missões que interessam ao seu progresso e de parcelas ponderáveis da humanidade.

Essa variação, no sentido da densidade e tonalidade, não significa ter a alma ingressado na classificação VI: PSICOSSOMA SUPERIOR, próprio das almas metanormais, isto é, além do normal.

As alterações perispiritais processam-se gradualmente, acompanhando a evolução espiritual, que é, como todos sabem, muito lenta.

Sob a influência e comando mentais, é o perispírito extremamente sensível, daí as variações quanto à sua densidade e coloração.

Em termos esquemáticos, busquemos transmitir rudimentar idéia da densidade do mediador plástico, em suas naturais transformações:

a) No estado de primitivismo, pode o perispírito ser tosca e figuradamente comparado ao gelo (sólido, espesso).

b) O perispírito do homem pouco evoluído pode ser exemplificado em forma líquida, aquosa (flexível, maleável).

c) O perispírito do homem realmente evoluído, especialmente no estado de desencarnado, sem a menor constrição corporal, seria como o vapor (rarefeito, expansível).

Embora reconheçamos precária a imagem, cremos, no entanto, deixa no estudante certa compreensão, partindo, como estamos, da comparação básica: água e perispírito.

Uma e outro constituem a base para a transmissão do que desejamos dizer em torno de um assunto decerto ainda inacessível à mente humana, conforme se depreende da referência de Emmanuel, no início deste capítulo.

Entendamos, pois, que o estado de organização varia da concreção à volatilidade, do enclausuramento à expansibilidade.

Alcançado o estado de sublimação espiritual, desaparece a necessidade de acondicionar-se o Espírito no envoltório perispiritual, podendo, no entanto, reorganizá-lo tantas vezes quantas desejar, para efeito de apresentação a médiuns videntes, no plano terrestre, ou nas assembléias da Espiritualidade das quais participem entidades de menor gabarito.

As virtudes evangélicas, sintetizadas nas grandes conquistas do conhecimento, do amor e da pureza, dão ao Espírito beleza, encantamento, luminosidade.

As imperfeições do caráter, sintetizando as degradações morais do Espírito, no corpo material ou fora dele, dão-lhe ao perispírito feiúra, opacidade, pastosidade.

Na Parábola das Bodas, faz Jesus alusão, incontestável, ao perispírito: “Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia a veste nupcial, e perguntou-lhe: “Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial? E ele emudeceu”.

Martins Peralva

Livro: Pensamento de Emmanuel – 3 – FEB

Martins Peralva

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