APÓS O DESENCARNE

Quem Vou Reencontrar Após o Desencarne?

– Jéssica Araújo

No desencarne, o perispírito se desliga do corpo físico e dos restos mortais. As sensações ligadas entre o corpo físico e o espiritual podem perduram por algumas horas após o desencarne, não havendo mais a dor física, podendo ter um pouco de dor moral, dependendo de suas condutas e das consequências destas, quando ele terá que justificar isso a si mesmo. Conforme a evolução espiritual e moral, o desenlace terrestre acontece de forma leve e natural. Muitas vezes o desencarnado não sabe que desencarnou e continua com seus costumes de quando encarnado. Cada desencarnação é diferente da outra. Podemos observar o caso de André Luiz que, ao desencarnar, foi para o umbral e lá permaneceu por 8 anos. Ao ser resgatado pelos Espíritos socorristas, foi direcionado para Nosso Lar e levou um tempo para receber a visita da mãe, que estava em um plano superior ao dele.

Quando os Espíritos instrutores ou auxiliadores percebem que o desencarnado não tem noção de sua passagem, em alguns casos, montam imagens holográficas parecidas com a família terrena dos indivíduos. Assim, ficam algum tempo imaginando que ainda estão encarnados, a fim de tranquilizar esse Espírito e poderem encaminhá-lo para a continuidade. Sendo auxiliados por enfermeiros e espíritos preparados para auxiliar.

Em O Livro dos Espíritos são abordados e esclarecidos os reencontros após o desencarne:

Questão 286: Ao abandonar seus despojos mortais, a alma vê imediatamente os parentes e amigos que a precederam no mundo dos Espíritos?

– Imediatamente nem sempre é a palavra adequada, pois, como dissemos, a alma precisa de algum tempo para reconhecer-se e libertar-se do véu material. (KARDEC, 2001).

Cada desencarne é único e o desenlace do corpo espiritual dependerá do seu grau de evolução.

Questão 289: Nossos parentes e amigos às vezes vêm ao nosso encontro quando deixamos a Terra?

– Sim, eles vão ao encontro da alma que amam; cumprimentam-na como ao retorno de uma viagem, se ela escapou dos perigos do caminho, e ajudam-na a se desprender dos laços corporais. É um favor concedido aos Espíritos bons quando aqueles que os amam vão ao seu encontro, ao passo que aquele que ainda é impuro permanece nesse isolamento, ou rodeado apenas por Espíritos semelhantes a ele: é uma punição. (KARDEC, 2001).

Os Espíritos amigos esclarecem que o laço de amor supera dimensões, pois reencontraremos aqueles que nos amam verdadeiramente auxiliando no regresso da pátria espiritual; assim como os Espíritos atrasados, menos evoluídos, que permanecem na insistência do caminho sem amor e luz, atraem semelhantes que, muitas vezes, irão atrasar sua evolução.

Questão 290: Os parentes e amigos sempre se reúnem após a morte?

– Depende da sua elevação e do trajeto que seguem procurando progredir. Se um deles está mais adiantado e anda mais depressa que o outro, eles não poderão ficar juntos; poderão ver-se algumas vezes, mas só estarão juntos para sempre quando puderem caminhar lado a lado, ou, quando tiverem atingido a igualdade na perfeição. E depois, a privação da sua visão de seus parentes e amigos às vezes é uma punição. (KARDEC, 2001).

Quando estamos no mesmo grau de elevação e os que desencarnaram antes de nós não reencarnaram, poderemos nos reunir por um tempo, até a próxima reencarnação. A evolução do Espírito necessita da reencarnação para sua evolução.

A espiritualidade nos esclarece amorosamente que nossos atos são fundamentais para nossa evolução na infinitude do universo; são necessárias lapidações do Espírito para aparar as arestas do ego, vaidade, mesquinharia, inveja, preguiça, calúnias, e outros, para a evolução e elevação espiritual, para, assim, começar a colher os frutos do seu merecimento.

O Espírito nunca fica sozinho, a misericórdia de Deus é para todos sem distinção, sem julgamentos. Equipes socorristas e protetores sempre auxiliarão os necessitados.

O retorno ao mundo espiritual nos espera e, aqueles que amamos, que estão na erraticidade, olham e zelam por nós. Ao desencarnar, dependendo dos nossos méritos, poderemos revê-los com amorosidade e carinho.

Jéssica Araújo

Fonte:  Blog Letra Espírita

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1ª ed. Capivari, SP: Editora EME, 2001.

XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Disponível em:  https://sites.google.com/site/spirityss/cx1fsadf/19-ChicoXavier-AndreLuiz-NossoLar.pdf?attredirects=0&d=1. Acesso em 10/10/21.

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O LIVRE ARBÍTRIO

Livre arbítrio: A Liberdade do Espírito na sua Trajetória Espiritual

Camila Vieira

Em leitura de algum texto ou obra espírita é bem provável que você tenha se deparado com o termo “livre arbítrio”, que nada mais é que o poder de escolha de um Espírito sobre alguma coisa. Por trás deste conceito razoavelmente simples, guarda um dos grandes pilares do espiritismo: a Lei da Liberdade.

Enquanto algumas doutrinas seguem uma linha de proibição e rígido controle das ações dos indivíduos, a Doutrina Espírita trata a liberdade como uma lei, entendida como a faculdade de escolha do Espírito. Tal liberdade se inicia desde o seu planejamento encarnatório ainda no plano espiritual. O próprio espírito tem o poder de escolha de algumas provas que deseja passar em suas encarnações, visando o desenvolvimento do seu ciclo evolutivo.

Tal planejamento não significa que o Espírito firma um “Contrato de Adesão”, pelo qual é obrigado a segui-lo à risca. O Espírito tem total liberdade de escolha na tomada de decisões no seu ciclo terreno, que podem, inclusive, alterar substancialmente a jornada programada. Pensar que tudo que acontece em nossa vida é fruto de programação é equivocado, já que dependendo das decisões que tomarmos no curso do caminho seremos aproximados ou desviados do planejamento inicial.

A liberdade é uma das bases da Doutrina Espírita e a chave para a evolução: o Espírito constrói o alicerce da sua trajetória a partir das suas próprias escolhas e decisões, sendo responsável pelas suas ações. Claro que existe o amparo constante da Espiritualidade nestas decisões, mas certo que são fruto da faculdade de escolha do Espírito.

O Livro dos Espíritos contém um capítulo específico sobre a Lei de Liberdade (Capítulo 10). Estudando-o, é possível compreendermos que a liberdade faz parte da natureza do Espírito, mas não de forma absoluta [1]. Na medida que convivemos com outros Espíritos que também estão em caminhada evolutiva, há a necessidade do compartilhamento de suas liberdades. Assim, há um limite entre a liberdade de um para com o outro, visando o equilíbrio das relações.

Ainda, o Livro dos Espíritos ensina que todos os Espíritos, mesmo aqueles com faculdades limitadas, como uma criança, na medida de suas capacidades, têm o livre arbítrio de suas decisões [2]. É inerente do Espírito o poder sobre suas decisões.

Intrinsicamente ligada a ideia do livre arbítrio, vem a ideia da “ação e reação”. O Espírito tem a liberdade de escolha, mas é responsável por suas decisões.

Nesta lógica é possível compreender que a maldade não é inerente ao Espírito, na medida que ele pode escolher entre o bem e o mal. Serão as consequências das escolhas que fez durante a sua trajetória espiritual que definirão sua escala evolutiva.

Não podemos nos confundir que sendo a Terra um planeta ainda de provas e expiações, o ambiente ainda contém grande volume de espíritos com condutas desviadas para o mal, contudo não significa que todos os Espíritos aqui encarnados possuem em sua essência a maldade.

A pergunta 845 do Livro do Espíritos nos responde que por mais que existam predisposições instintivas de um Espírito que possam levá-lo à uma ação ruim, este Espírito tem o livre arbítrio.

A influência do ambiente sobre o Espírito também pode persuadi-lo, na medida que ambientes onde prevalecem paz e a bondade podem inspirá-lo para boas escolhas e ambientes mais carregados negativamente podem motivá-lo à más escolhas.

Sabendo da nossa responsabilidade perante nossas escolhas, daí a importância de buscarmos a melhor sintonia interior e exterior para que sejamos intuídos pela Espiritualidade às escolhas que mais se aproximem dos propósitos que devemos seguir nesta caminhada espiritual, por vezes tão árdua.

Afinal, “Lembrai-vos de que querer é poder”. [3]

Camila Vieira

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIAS

[1] Pergunta 844, Livro dos Espíritos.

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. [Traduzido por Renata Barboza da Silva; Simone T. Nakamura Bele da Silva].São Paulo: Petit, 1999. p.284.

[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. [Traduzido por Renata Barboza da Silva; Simone T. Nakamura Bele da Silva].São Paulo: Petit, 1999. p.284.

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Conhecimento e Segurança – Joanna de Ângelis

CONHECIMENTO E SEGURANÇA

Uma análise isenta de paixão a respeito das pregações de Jesus leva o estudioso a perceber a grande preocupação do Mestre em não sobrecarregar as pessoas com a culpa, a acusação ou qualquer outro instrumento psicológico de punição.

Toda a Sua mensagem é assinalada pela esperança, revestida de otimismo e de alegria de viver.

Jamais Ele exprobrou alguém que Lhe haja buscado a orientação, sobrecarregando-o com censuras e acrimônias. Antes, pelo contrário, sempre procurou aliviar o peso da sua aflição, para depois sugerir, às vezes, com energia, o novo comportamento, aquele que é capaz de proporcionar a saúde integral e a verdadeira paz espiritual.

Ele nunca expôs as misérias morais e espirituais dos enfermos do corpo e da alma, que Lhe buscavam a misericórdia, à consideração das massas irresponsáveis, permitindo que o opróbrio e a humilhação fizessem parte da Sua terapêutica de amor.

Ele sempre encontrava um recurso emocional para despertar a consciência adormecida e a responsabilidade pessoal de cada um, mediante o conhecimento moral responsável pela segurança de conduta.

Contudo, a ignorância, em todas as épocas, tem sido um inimigo severo da criatura humana, respondendo por muitos males que a afligem.

Quando luz, porém, o esclarecimento em torno da problemática existencial, facilmente ocorre a libertação dos atavismos infelizes a que se está jugulado.

Permanecendo o desconhecimento das razões enobrecidas da vida física, mantém-se a infelicidade, enquanto que, à medida que a verdade toma conta dos painéis mentais da criatura, dilata-se-lhe a visão da realidade e assomam valores antes ignorados ou menos considerados, facultando-lhe o empreendimento da reforma íntima e da mudança total de conduta para melhor.

Invariavelmente, psicólogos e psiquiatras inadvertidos, atendendo às aflições humanas, ficam vigilantes para a culpa e para os conflitos dos enfermos, esquecendo-se do indivíduo em si mesmo, para se deter nessas injunções penosas, punitivas, que procuram eliminar, às vezes, sem erradicar as causas profundas que as geraram.

Por sua vez, as religiões ortodoxas do passado impunham a penalização da culpa e da leviandade sobre os indivíduos fragilizados psicologicamente, para tentar libertá-los mediante promessas espirituais decorrentes dos óbolos e pagamentos monetários, em nefário comércio com a saúde e os elevados objetivos existenciais.

Como efeito, a leviandade reinava soberana, facultando a repetição do erro e do crime, desde que fosse providenciada a recuperação pelo arrependimento superficial e a absolvição pelo dinheiro ou concessões outras de natureza material. Na Sua incomparável condição de psicoterapeuta, Jesus nunca excluía o infeliz da oportunidade auto-renovadora, e quando Lhe eram trazidos aqueles que haviam tropeçado nos deveres e infligido os códigos da justiça para que Ele determinasse a punição cabível, Ele observava os acusadores e os interrogava a respeito da própria responsabilidade, das condições morais em que se encontravam… Nada obstante, orientava o enfermo espiritual, ensejando-lhe a reparação do mal praticado através do Bem que lhe competia fazer. Toda a Sua mensagem é de libertação da consciência adormecida, arrebentando a grilheta perversa da culpa, ensejando o encontro com a sua realidade e as admiráveis bênçãos ao alcance de todos quantos desejem a harmonia pessoal e a saúde real.

Ele sempre acolhia a todos com a mesma generosidade e carinho, exceção feita, uma que outra vez, aos fariseus e aos pusilânimes que O desejavam desequilibrar, promovendo situações perturbadoras ou objetivando atirá-lo em suas armadilhas soezes.

Sempre desatrelou da ignorância as suas vítimas, facultando movimento moral e intelectual aos engessados na paralisia espiritual.

Acreditam, equivocamente, alguns cristãos novos, que a crença nos ensinamentos do Mestre Incomparável, ora libertada pelo Espiritismo, produz super-homens e mulheres míticas indenes ao sofrimento e livres das aflições, ações, mesmo algumas inusitadas, sem que afetem perturbadoramente o comportamento e a alegria de bem viver.

A insegurança atual assim como a passada no Planeta, considerada sob muitos aspectos, é perfeitamente normal, no entanto, em razão do discernimento dos valores que devem constituir o patrimônio de cada pessoa, em se tratando dos espirituais, esses proporcionam paz e sempre estimulam à conquista da transcendentalidade.

Por mais te encontres fixado nos deveres relevantes, não poderás viver sem a experiência do estresse sob controle, da ansiedade em condições normais, das interrogações a respeito da vida e dos seus programas, isso porque anelas ascender rumando em direção ao Infinito.

….E, em uma análise honesta das possibilidades de crescimento intelecto-moral constatarás quanto ainda necessitas conseguir para que logres a satisfação interior.

Com essa visão lúcida, cada vez mais se te imporá a necessidade de ser profundo lúcido e conhecedor da verdade, resultando em mais segurança na conduta e nas atividades em desenvolvimento a que te entregas.

Joanna de Ângelis

Médium: Divaldo P. Franco

Livro: Liberta-te do Mal

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Jesus, Modelo e Guia

Luiz Julião Ribeiro

Emmanuel, na mensagem intitulada Hegemonia de Jesus, no livro Caminho, Verdade e Vida, pela psicografia de Francisco C. Xavier, nos esclarece:

Antes de Abraão, ou precedendo os grandes vultos da sabedoria e do amor na História mundial, o Cristo já era o luminoso centro das realizações humanas. De sua misericórdia partiram os missionários da luz que, lançados ao movimento da evolução terrestre, cumpriram mais ou menos bem, a tarefa redentora que lhes competia entre as criaturas, antecedendo as eternas edificações do Evangelho. (XAVIER, 2016b).

Pelo menos parte da Humanidade ainda não compreendeu que a Natureza não se autoconstrói e não se administra a si mesma e que uma obra desse jaez não pode prescindir de um construtor, mantenedor e administrador que corresponda à sua real magnitude.

Na monumental obra A Caminho da Luz, Emmanuel, mais uma vez pela psicografia missionária de Chico Xavier, enfatiza a inigualável missão de Jesus Cristo, por determinação direta de Deus, junto ao nosso planeta Terra, incumbindo o Divino Mestre de promover não só a criação desta bela morada, mas sua condução ao seu supremo e fatal destino de mundo celeste ou divino, quando será habitado por Espíritos puros, que poderemos ser nós mesmos (XAVIER, 2016a).

Assim, dentro do contexto dessa singela reflexão, podemos conceituar modelo como aquele ou aquilo que deve ser imitado por representar a expressão de perfeição que se pode almejar, e guia como o que deve ser seguido porque conhece, sem erros, o caminho reto a ser percorrido; já o exemplo é aquele ou aquilo que serve de aprendizado, por evidenciar ora o erro ora o acerto e por isso mesmo constitui advertência ou referência relevante para os aprendizes.

Todos os apóstolos de Jesus são exemplos vivos deixados para a Humanidade, não só por terem convivido diretamente com o Cristo, mas porque vieram à Terra devidamente preparados para a elevadíssima missão de contribuírem direta e decisivamente com a semeadura da mais importante mensagem de amor e sabedoria que Deus enviou ao orbe: a mensagem cristã.

Entretanto, iremos nos referir à participação de apenas um deles, o intrépido Apóstolo Pedro, cujos atos diante de Jesus constituem lições grandiosas para as nossas mais profundas e profícuas reflexões.

Narra-nos o Evangelista Mateus (16:13 a 23) sobre aquele momento em que Jesus, pela primeira vez, anunciou que iria ser perseguido pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas, quando então seria preso e morto, mas enfatizando que ressuscitaria ao terceiro dia.

Pedro indignou-se com tal revelação, para ele absurda, e protestou com veemência, dizendo: “Que Deus não permita isso, Senhor! Isso não te acontecerá!” (Mateus, 16:22).

“Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás, tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mateus, 16:23).

Extrai-se dessa passagem a lição de que Pedro, diante da gravidade do inesperado anúncio, agiu com sincero, mas limitado impulso de visão humana, como de ordinário ainda fazemos, não vislumbrando os elevados auspícios espirituais, tanto assim que Jesus decretou: “teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens”.

Os dias transcorreram e, naquela inesquecível noite de quinta-feira, quando Jesus efetivamente foi preso no Monte das Oliveiras, realizou Ele, antes de sua prisão, um encontro de despedida, compartilhando com seus apóstolos uma ceia muito mais espiritual do que material, durante a qual ministrou seus últimos ensinamentos, entre os quais o da humildade, e o fez lavando os pés de seus seguidores e enxugando um a um com uma toalha com a qual se cingia.

Registram as Escrituras que por fim chegou a vez de Pedro, que tudo observava sem nada compreender e, por isso mesmo, recusou com veemência que o Mestre lhe lavasse os pés, conforme consta no Evangelho de João, (13:6 a 9):

Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro lhe disse: Senhor, queres lavar-me os pés! Respondeu-lhe Jesus: O que faço não compreendes agora, mas compreendê-lo-ás em breve. Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés!… Respondeu-lhe Jesus: Se eu não os lavar, não terás parte comigo…

Observa-se que, para Pedro, a prática da humildade era uma atitude indigna, aviltante, humilhante e inconcebível, por ser, em sua compreensão espiritual, injusta, como ainda hoje muitos de nós concebemos.

Salienta-se nessa passagem que o Mestre, na sua celestial sabedoria, inverte as práticas pedagógicas e, em vez de pedir que lhe lavem os pés, apresenta o modelo de perfeição e humildade, servindo a todos.

Escreveu o Evangelista Lucas (22:31 a 34) que, no transcurso da mesma Ceia, Pedro asseverou enfático que estava pronto para ser preso e até mesmo morto em companhia de Jesus, nos seguintes termos:

Simão, Simão, eis que Satanás vos reclama para vos peneirar como um trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. Pedro disse-lhe: Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão quanto para a morte. Jesus respondeu-lhe: Digo-te, Pedro, não cantará hoje o galo, até que três vezes hajas negado que me conheces.

Sabe-se que logo após, quando interpelado por funcionários do palácio do sumo sacerdote Caifás, Pedro efetivamente negou por três vezes que conhecesse o Cristo ou fizesse parte de seu grupo e, ao ouvir o canto do galo, lembrou-se da sábia advertência e deixou o palácio chorando amargamente, reconhecendo seu momento de fraqueza.

Já tinha terminado a ceia e Jesus se encontrava agora no Monte das Oliveiras, na parte onde havia um jardim, em companhia de onze dos seus discípulos, com exceção de Judas Iscariotes, que havia ido ao encontro das autoridades de Jerusalém.

Jesus realizou sucessivas orações, sabedor que era de que havia chegado o momento de sacrificar sua integridade moral e a própria vida por amor à Humanidade.

Aguardava jubiloso, quando se ouviu o burburinho da multidão de servos, guardas e autoridades que se aproximavam eufóricos e fortemente armados para executar a nefasta prisão.

O próprio Jesus protesta, não contra a prisão, mas por causa do aparato bélico utilizado para prendê-lo, conforme narrado por Lucas (22:52 e 53):

Saístes armados de espadas e varapaus, como se viésseis contra um ladrão. Entretanto, eu estava todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim; mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

Pedro surpreende e dá o seu testemunho de coragem, lealdade e amor ao Mestre, sacando da espada e partindo para a luta, em legítima defesa do Divino Cordeiro, assim narrado o episódio por João (18:10 a 12):

Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O servo chamava-se Malco. Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não irei beber eu o cálice que o Pai me deu? Então a corte, o tribuno e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o ataram.

Com isso, Jesus primeiramente evitou uma tragédia de enormes proporções, uma vez que Pedro, com a sua impetuosidade e demonstração de coragem humana, havia deflagrado a batalha sangrenta. Além disso, Jesus apresentava a outra face, a do perdão e da coragem espiritual, como alicerces insubstituíveis da paz.

Observa-se que o grande apóstolo sempre foi sincero, quando dizia que estava preparado para morrer junto com o Mestre, mas fica claro que ainda não estava preparado para viver com Ele, renunciando à própria vida, uma vez que necessitava a todo tempo de sua amorosa proteção, como de resto todos nós ainda carecemos dela profundamente.

O certo é que Jesus, o enviado de Deus, em momento algum utilizou da violência para se defender e jamais autorizou que alguém o fizesse, considerando que aquele que ensinou a amar os inimigos só se utiliza de uma única arma: o amor.

Sabemos que a missão de Jesus era eminentemente espiritual, pois representava a presença de Deus entre nós, bem como de seus auxiliares diretos, os apóstolos, os quais, já àquela época, eram Espíritos devidamente preparados para o celestial mister.

A propósito da real posição espiritual dos colaboradores mais diretos de Jesus, quando de suas missões entre nós, o Espírito Emmanuel, na monumental obra Paulo e Estêvão, psicografada pelo não menos apóstolo de Jesus, Francisco Cândido Xavier, no capítulo 8, intitulado O martírio em Jerusalém, revela a conclusão a que chegou o Apóstolo dos Gentios, Paulo de Tarso, no que concerne aos Apóstolos do Cristo, nos termos seguintes:

A palavra de Tiago toava imantada de bondade e sabedoria e valia por consoladora revelação.

Os galileus eram muito mais sábios que qualquer dos rabinos mais cultos de Jerusalém. Ele, que chegara ao mundo religioso por intermédio de escolas famosas, que tivera sempre, na mocidade, a inspiração de um Gamaliel, admirava agora aqueles homens aparentemente rústicos, vindos das choupanas de pesca, que, em Jerusalém, alcançavam inesquecíveis vitórias intelectuais, somente porque sabiam calar quando oportuno, aliando à experiência da vida uma enorme expressão de bondade e renúncia, à feição do Divino Mestre. (XAVIER, 2017; grifo nosso).

Depois das irretocáveis palavras do escolhido de Jesus para disseminar o seu Evangelho na Ásia, acerca da grandeza espiritual dos apóstolos, resta-nos apenas mergulhar no oceano do silêncio, para melhor refletir sobre tudo.

Luiz Julião Ribeiro

Revista Reformador – Setembro 2017

Fonte: G.E. Casa do Caminho de São Vicente

Referências:

  • KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB 2017. cap. 3, its. 3 e 19.
  • XAVIER, Francisco C. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. 38. ed. 5. imp. Brasília: FEB, 2016a. cap. 1 – A gênese planetária.
  • Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 1. ed. 11. imp. Brasília. FEB, 2016b. cap. 133.
  • Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 45. ed. 11. imp. Brasília: FEB. 2017. Pt. 2.
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A Vida e a Morte

PROCESSO DE DESLIGAMENTO NO MOMENTO DA MORTE

Rafaela Paes de Campos

A vida e a morte são os dois grandes movimentos da existência. O primeiro sempre vem acompanhado de imensa alegria por aqueles que esperam a chegada do novo ente e, o último, sempre carrega o fardo da tristeza pela separação. A vida não nos assusta, mas a morte, via de regra, sim, e muito se pensa a respeito da forma pela qual esse processo de partida se dá. Para isso, socorre-nos a sabedoria de O Livro dos Espíritos.

Primeiramente há que se mencionar que a separação da alma e do corpo se dá pelo rompimento dos laços que prendem uma à outra e, com isso, a alma então se desprende. Esse processo não se dá de forma abrupta, mas gradual, eis que “o Espírito se desprende pouco a pouco dos laços que o prendiam: eles se desatam, não se rompem” (KARDEC, 2018, p. 89).

Para os que estão iniciando os estudos nas sendas Espíritas, cabe informar o que traz Kardec em nota à questão 155.a:

“Durante a vida, o Espírito está unido ao corpo por seu envoltório semimaterial ou perispírito. A morte é a destruição apenas do corpo, e não desse segundo envoltório, que se separa do corpo quando nele cessa a vida orgânica. A observação prova que, no instante da morte, o desprendimento do perispírito não se completa subitamente; opera-se gradualmente, com uma lentidão muito variável, conforme os indivíduos. Em alguns, é bem rápido, e pode-se dizer que o momento da morte é o mesmo da libertação, algumas horas depois. Mas em outros, sobretudo aqueles cuja vida toda foi exageradamente material e sensual, o desprendimento é muito mais lento e algumas vezes pode durar dias, semanas e até meses, o que não implica que haja nos corpos a menor vitalidade, nem a possibilidade de um retorno à vida, mas uma simples afinidade entre o Espírito e o corpo, que se deve sempre à importância que o Espírito deu à matéria durante a vida. De fato, é racional conceber que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais ele sofrerá para separar-se dela, ao passo que a atividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos, operam um início de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo, e quando chega a morte, o desprendimento é quase instantâneo. Este é o resultado de estudos feitos sobre todos os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam ainda que a afinidade que em certos indivíduos persiste entre a alma e o corpo é, às vezes, muito penosa, pois o Espírito pode experimentar o horror da decomposição. Esse caso é excepcional e peculiar a certos gêneros de vida e a certos gêneros de mortes; mostra-se em alguns casos de suicidas. (KARDEC, 2018, p. 89).”

Uma informação bastante importante é trazida neste trecho, eis que a velocidade do desprendimento da alma e do corpo será ditada pela forma com que a alma viveu na materialidade. Sabemos o quanto é importante que entendamos que os bens materiais são empréstimos transitórios para a vida terrena, ou seja, não os levaremos. É no aperfeiçoamento moral que mora a riqueza que nos permitirão levar no retorno à vida Espírita e, por isso, quanto mais nos apegamos à matéria, mais lento será o processo de desprendimento, eis que o Espírito dá demasiada importância aquilo que, pelas leis que regem a vida, é perecível.

Seguindo, esse desprendimento não é doloroso, pois a alma nada sente e pode até sentir certo prazer, uma vez que é o momento da libertação da prisão na qual se configura o corpo material (KARDEC, 2018, p. 88).

Outro questionamento importante está contido na questão 156 de O Livro dos Espíritos:

“156. A separação definitiva da alma e do corpo pode ocorrer antes que a vida orgânica cesse completamente?

Na agonia, a alma às vezes já deixou o corpo: há somente a vida orgânica. O homem não tem mais consciência de si mesmo e, no entanto, ainda lhe resta um sopro de vida. O corpo é uma máquina movida pelo coração; existe enquanto ao coração fizer circular o sangue nas veias, e não necessita da alma para isso. (KARDEC, 2018, p. 89).”

O que se leciona é que, quando o corpo se encontra em agonia, por vezes o Espírito já o abandonou, restando apenas a vida orgânica da qual não depende a presença da alma. Um breve parêntese para explicar que, na época da escrita de O Livro dos Espíritos, a morte era considerada com a cessação da atividade do coração, mas já sabemos que hoje a ciência considera a morte encefálica como aquela que dita o fim da vida orgânica.

Adiante, aprendemos que a alma, ao sentir romperem-se os laços que a prende ao corpo, esforça-se para rompê-los de forma total e, já parcialmente desprendida, consegue visualizar, em parte, o estado de Espírito no qual adentrará. Quando se vê no mundo dos Espíritos, finalmente, experimentará sensação condizente com a vida que levou na matéria, sentindo vergonha caso tenha feito o mal com o desejo de assim fazer ou sentirá alívio do peso da matéria, tendo sido justa durante a sua vida. (KARDEC, 2018, p. 90).

Por fim, cabe mencionar que, com o desprendimento, o Espírito reencontrará aqueles por quem possui afeição, pois estes, via de regra, vêm recebê-lo em seu retorno ao mundo Espírita e o auxiliam no desligamento da alma e do corpo (KARDEC, 2018, p. 90).

Diante de todo o exposto, portanto, compreende-se que o processo de desligamento da alma e do corpo se dá de forma gradual, sem que haja dor física. Entretanto, este processo guardará semelhanças com a vida vivida pelo Espírito e sua velocidade será ditada pelo apego ou não à matéria.

Por isso, que nos lembremos sempre de que o que é importante para o Espírito não é o que a vida material nos faz perseguir, mas sim aquilo que aprendemos ao longo dos caminhos, as lições ultrapassadas, os resgates bem-sucedidos e a moralidade desenvolvida, de forma a elevar o Espírito nas escalas espirituais.

Rafaela Paes de Campos

Fonte:  Blog Letra Espírita

Referências:

KARDEC. Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo. 23ª reimp. Capivari: Editora EME, 2018.

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Espiritismo e Política partidária

AS CASAS ESPÍRITAS NÃO SE ENVOLVEM EM POLÍTICA PARTIDÁRIA

Por: Wilson Garcia

“É, pois, necessária a união da Inteligência e da moralidade para haver legítima preponderância, a que a massa se submeterá, confiada em suas luzes. Esta será a última aristocracia, sinal do advento do reino do bem na Terra”. Esta previsão é de Allan Kardec e está contida em Obras Póstumas. Apesar de haver mais de um século que foi feita, pode-se notar que a oportunidade do brasileiro ser dirigido por uma aristocracia intelecto-moral, resultado da união da inteligência com a moralidade, como quis o Codificador, está ainda bastante distante. Desejar estar sob a direção de homens inteligentes e moralizados é ainda um sonho nos nossos dias.

No entanto, as eleições estão aí. A cada dois anos os cidadãos deste País se encontram diante da oportunidade de votar e renovar, manter, modificar, fortalecer ou excluir políticos. E o que tem a ver o espírita com isso? E a casa espírita, como se porta nestes instantes graves? Ambos, diríamos, com naturalidade e participação, guardados os limites de cada um.

Para que serve o cidadão espírita, se não for para participar ativamente da sociedade e ajudar a transformá-la para melhor? Ora, o Espiritismo não cria parasitas, homens inertes, para que se portem alheios ao que se passa em seu redor. Pelo contrário, a Doutrina Espírita os quer participativos, integrados ao meio, agentes do bem social. Assim sendo, sua ação neste momento que o povo deve ir às urnas é tão necessária quanto a de qualquer outro cidadão.

O que se espera de um cidadão espírita é um comportamento diferenciado, onde prepondere a inteligência e a moral, seja ele um cidadão comum seja um candidato a cargo público. No momento do voto, pela inteligência saberá discernir entre os enganadores e interesseiros e os políticos sérios, bem intencionados e corajosos o bastante par pôr em prática seus projetos. Se candidato, seu comportamento será o de um homem que conhece seus limites, que não faz promessas vãs, impossíveis. Mas, que, conhecendo a realidade social e sem interesses outros que não sejam trabalhar, para o povo, se coloca à disposição para ocupar os cargos a que se candidata.

A presença da casa espírita neste contexto é, de certa forma, um pouco diferente. Os seus horizontes lhe indicam que deve participar, de um lado, e ter cautela, de outro. Participar através da orientação clara, segura, aos seus frequentadores, de modo a oferecer-lhes condições de raciocinar sobre as questões políticas e poder decidir. Não se trata de mandar votar neste ou naquele, isto é óbvio, mas de ensinar a usar a razão para votar bem e certo, de acordo com a consciência.

A cautela advém de determinados “perigos”. E dois deles se apresentam como os mais próximos: o uso da casa espírita como palanque e o engajamento político-partidário. Ambos inadmissíveis. Mas que não se confundam as coisas. Cautela não é proibição pura e simples da abordagem de assuntos políticos, mesmo porque quando a proibição impera, impera também a irresponsabilidade, a fuga do compromisso de orientar e bem o frequentador. Cautela é uma ação equilibrada que impede o estabelecimento de compromissos inconvenientes.

Muitos políticos e até falsos espíritas vão atrás das casas espíritas para obter seu apoio, muitas vezes em troca de favores, com a promessa de conseguir terrenos, prédios públicos e outros. A única coisa que exigem é que a casa lhe abra as portas para que eles exponham aos frequentadores o seu pensamento. Em primeiro lugar, ninguém pode garantir o cumprimento dessas promessas de campanha; em segundo lugar, tal atitude é totalmente imoral. Dar guarida a este tipo de candidato é contribuir para a manutenção do “status quo”, da política de interesses particulares, em detrimento da vinda da aristocracia intelecto-moral preconizada por Kardec.

Por outro lado, há que se separar a participação de certos dirigentes, que, tendo em vista sua presença – muito justa – em determinados partidos políticos, muitas vezes confundem as coisas e querem transformar o seu centro espírita numa extensão do partido. Nem uma coisa nem outra pode acontecer, ou seja, nem o partido político pode ser transformado em centro espírita nem o centro em partido. Cada um tem sua função.

Cada cidadão espírita tem o direito de agir socialmente da forma como lhe convier e de se filiar ao partido de seu interesse. Caso queira – e isto é aconselhável quando possui vocação – pode se candidatar aos cargos públicos. Mesmo porque, se souber se comportar como ensina o Espiritismo, muito terá para ajudar, a melhorar as nossas instituições políticas. Só não pode e não deve é usar o movimento espírita para alcançar objetivos políticos.

A ação política séria não acena com favores. Em sã consciência, ninguém vota em determinado político na esperança de obter dele favores pessoais. Esse tipo de política só interessa aos grupos dominadores, que não se importam com as condições miseráveis em que vive o nosso povo. Expressa, quando acontece, o egoísmo particular. É condenável a nível de pensamento espírita.

A união de casas espíritas com partidos políticos traz graves desvios. Em primeiro lugar, por levar para dentro de casa a discussão em torno de interesses políticos, com a intenção de alguns dominar o voto de outros. Isto gera a eliminação da liberdade de opção que cada pessoa possui. A tendência será de criação de um clima de confusão totalmente prejudicial aos desígnios maiores da casa. Por isso mesmo a casa espírita é apartidária. A política ali pode servir de estudo como tema amplo, geral, sem entrar no mérito dos interesses classistas, de grupos como meio de forçar a que todos tenham visão única das coisas. Como a política faz parte da vida do cidadão e da sociedade, consequentemente, deve ser preocupação de tantos quantos se dedicam a criar a sociedade justa e de paz. E entre estes se encontra a cada espírita.

A questão, portanto, parece clara. Espiritismo e política partidária são coisas que não se misturam. Espiritismo e política, esta no sentido amplo, são temas que se tocam e influenciam. É bom pensar

Wilson Garcia

Dirigente Espírita da USE (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo)

Ano I – No. 1 – Setembro/Outubro de 1990.

Fonte:  G.E. Casa do Caminho de São Vicente

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A MEDIUNIDADE

Todos somos, realmente, médiuns?

Leonardo Marmo Moreira

Introdução

Uma frase enunciada por grande parte dos adeptos do Espiritismo é a famosa sentença: “Todos somos médiuns”. E, de fato, uma série de procedimentos cotidianos do centro espírita é guiada por essa ideia básica.

No entanto, o tema mediúnico é conhecido por ser um assunto altamente complexo assim como a faculdade mediúnica é conhecida por apresentar nuances bem particulares e distintas de indivíduo para indivíduo. Portanto, cabe-nos questionar se essa generalização é coerente com a realidade.

Para uma melhor avaliação do tópico, precisamos questionar a origem desse paradigma. De fato, esse conceito é, em princípio, oriundo de um texto kardequiano. Resta saber se ele está sendo bem interpretado e bem empregado como fundamento para as práticas usuais das casas espíritas.

O texto kardequiano mais utilizado

Assim sendo, vejamos o texto kardequiano em questão, o qual é encontrado no item 159 do capítulo XIV, intitulado “Os Médiuns”, da Segunda Parte de “O Livro dos Médiuns” (estamos utilizando a tradução do Professor Herculano Pires):

“Toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium. Essa faculdade é inerente ao homem. Por isso mesmo não constitui privilégio e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar. Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns. Usualmente, porém, essa qualificação se aplica somente aos que possuem uma faculdade mediúnica bem caracterizada, que se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.

Deve-se notar, ainda, que essa faculdade não se revela em todos da mesma maneira. Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, pneumatógrafos, escreventes ou psicógrafos”. (Grifos meus)

Analisemos o início da discussão do Codificador do Espiritismo:

“Toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium.”

Kardec inicia a discussão estabelecendo que todos os que sentem os Espíritos “em qualquer grau de intensidade” poderiam ser considerados médiuns. No entanto, curiosamente, ele não diz que todos, sem exceção, sentem essa influência. Ademais, ele parece sugerir que os níveis de intensidade de sensibilidade mediúnica são muito variáveis.

“Essa faculdade é inerente ao homem.”

Nessa frase, Kardec sugere uma generalização para a ocorrência da mediunidade, ou, pelo menos, quer indicar uma naturalidade para o fenômeno. Para um texto publicado em torno de 160 anos atrás, é lícito supor que Kardec não estava se contradizendo em relação à sentença anterior, pois a ênfase pode ser no fato de se tratar de um fenômeno natural e não patológico ou maravilhoso, o que não deixa de ser um importante registro. Será que ele desejou frisar que se trata de fenômeno vivenciado por 100% dos indivíduos? Ou estava apenas rejeitando o caráter miraculoso normalmente atribuído aos fenômenos mediúnicos, sobretudo naquele tempo? Para avançar nesse entendimento, precisamos continuar a leitura do texto kardequiano.

“Por isso mesmo não constitui privilégio e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar.”

Essa colocação de Allan Kardec parece esclarecer a dúvida que surgiu com relação ao comentário anterior. Quando o Codificador afirma “Por isso mesmo não constitui privilégio…”, ele está deixando claro que o médium não deve ser tratado como um “super-homem”, um “predestinado”, ou um “fora de série”, como é comum, ainda mais no século XIX. Por conseguinte, essa colocação parece sinalizar que a afirmação anterior (“Essa faculdade é inerente ao homem”) é muito mais uma prevenção contra o excessivo misticismo que a mediunidade desperta, do que o estabelecimento de que tal faculdade é ocorrência observada na totalidade da população.

De fato, quando Kardec afirma “…e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar…”, ele admite que algumas pessoas poderiam não ter mediunidade alguma (ao utilizar a palavra “raras”). Portanto, estaria, em princípio, excluída a possibilidade de Kardec estar afirmando que 100% das pessoas são médiuns. Além disso, Kardec parece sugerir que muitos dos que a possuem, apresentam uma mediunidade apenas “em estado rudimentar”, o que seria, aparentemente, algo tão pouco expressivo, que, na prática, seria como se o indivíduo não tivesse mediunidade.

“Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns.”

Para simplificar a questão, Kardec afirma que “pode-se dizer que todos são mais ou menos médiuns.” Apesar dessa afirmação de Kardec realmente dar margem à afirmativa de que “todos são médiuns”, ele a constrói quase como se fosse uma concessão (“Pode-se dizer…”), ou seja, uma simplificação didática mais grosseira. Isso fica evidente principalmente se analisarmos em conjunto com a frase anterior. De fato, Kardec não cairia em contradição tão brutal, ainda mais em duas colocações justapostas. Ademais, o “…mais ou menos médiuns”, sugere que essa concessão deve ser utilizada com um certo cuidado, pois alguns podem ser “mais médiuns”, mas muitos poderiam ser “…menos médiuns”.

“Usualmente, porém, essa qualificação se aplica somente aos que possuem uma faculdade mediúnica bem caracterizada, que se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.”

Kardec conclui seu primeiro parágrafo, afirmando que comumente o termo “médium” é utilizado somente para aqueles que demonstram uma “intensidade” mediúnica significativa, “bem caracterizada”, com “efeitos patentes”. Ora, é fácil perceber que apenas uma minoria bem pequena da população é capaz de apresentar fenômenos mediúnicos nesse nível de intensidade.

“Deve-se notar, ainda, que essa faculdade não se revela em todos da mesma maneira. Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, pneumatógrafos, escreventes ou psicógrafos.”

Kardec inicia o segundo parágrafo destacando o caráter eminentemente pessoal e variável da mediunidade. Ademais, interessantemente, para diferenciar as nuances mediúnicas, Kardec cita como tipos mediúnicos até casos raríssimos de especialidade mediúnica, como é o caso dos médiuns “pneumatógrafos”. Isso permite inferir que devemos ter cuidado ao utilizar o termo “médium”, pois o mesmo era, na prática, utilizado para quem realmente era intermediário de fenômenos bem representativos.

Logo, é importante que registrar que a predisposição básica ao fenômeno, que não gera nenhuma percepção mediúnica concreta, passível de ser analisada em reuniões de experimentação, constitui, em princípio, a condição da maioria dos seres humanos. Por outro lado, aquilo que se convencionou chamar de “mediunidade ostensiva” ou “mediunidade de ação” constitui condição de uma micro minoria dos seres humanos. Kardec também destaca que essa condição “…depende de uma organização mais ou menos sensitiva”, dando a entender que, por depender de uma predisposição orgânica, haveria limitações em nossas possibilidades de expandi-la, em uma única encarnação, a partir de uma condição orgânica desfavorável às manifestações mediúnicas mais contundentes.

Implicações no Movimento Espírita

A partir da popularização, sem maior explicação, da frase simplista “todos são médiuns”, uma série de procedimentos questionáveis comumente encontrados no nosso movimento espírita têm sido explicados ou pretensamente justificados.

Encaminhamentos sistemáticos à reunião mediúnica de grande número de interessados ou apenas curiosos têm gerado reuniões em que não se percebe a presença de nenhum médium ostensivo ou de ação. Isso não seria necessariamente ruim, se a reunião fosse entendida apenas como um teste preliminar, isto é, se houvesse um entendimento mínimo de que o exercício mediúnico pode realmente não gerar algo concreto. No entanto, raramente esse é caso, implicando que a proposição e principalmente a manutenção de “reuniões mediúnicas sem médiuns” frequentemente tem gerado processos anímico-mistificadores difíceis de serem corrigidos. Isso ocorre em função de uma expectativa exagerada em relação ao que a reunião mediúnica pode proporcionar e também em função de um desconhecimento das limitações da fenomenologia mediúnica, sobretudo para quem não é “médium ostensivo”.

Cursos de iniciação à Doutrina Espírita, com variados nomes, e com maior ou menor ênfase no estudo da mediunidade, têm gerado um número enorme de grupos mediúnicos ou de desenvolvimento mediúnico. Resta saber se todos esses grupos apresentam pelo menos um médium ostensivo por reunião ou, pelo menos, se as reuniões que não apresentam médiuns ostensivos têm, da parte de seus participantes, uma noção clara das limitações em termos de intensidade mediúnica de todos os componentes.

Esse cuidado deve ser bem trabalhado previamente por dirigentes, doutrinadores, palestrantes e estudantes da mediunidade em geral, a fim de evitarmos a ocorrência de reuniões em que a autossugestão e a imaginação acabem sendo tomadas como fenômenos mediúnicos “patentes”.

Leonardo Marmo Moreira

Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano15/736/especial.html

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A Reencarnação na Visão Espírita

José Passini

A volta do Espírito ao mundo corpóreo é conhecida desde tempos remotos. Os Egípcios, os Hindus e os Gregos sabiam que a alma poderia voltar à Terra, usando um novo corpo. Esses povos acreditavam que, por efeito de determinada punição, essa volta à vida física poderia dar-se até num corpo animal.

Também os Judeus sabiam da volta do Espírito ao mundo corpóreo, mas não há referências que admitissem pudesse esse retorno dar-se num corpo que não fosse humano. A reencarnação, para eles, ocorria em algumas situações um tanto especiais: ou para concluir o que não tivessem conseguido terminar numa vida, ou para serem punidos, face a males praticados. Quando o doutor da lei perguntou a Jesus: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna”? (1), não estaria ele querendo que Jesus lhe ensinasse alguma fórmula especial, uma espécie de atalho, que o desobrigasse de voltar à Terra, numa nova encarnação? É difícil imaginar que o doutor da lei estivesse se referindo à obtenção da imortalidade, pois os Judeus tinham convicção profunda a esse respeito. Tudo indica que ele pretendia lhe ensinasse Jesus um procedimento que o livrasse do retorno aos trabalhos do mundo, como acontece ainda hoje com pessoas que, ao se inteirarem da reencarnação – sem levarem em conta a necessidade evolutiva –, solicitam expedientes que lhes possibilitem não terem mais que voltar à Terra…

Há outra situação em que os Judeus julgavam ser possível a reencarnação: o cumprimento de missão. O exemplo mais claro é o da esperada volta do Profeta Elias para a preparação dos caminhos do Messias, conforme atesta o próprio Mestre: “E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir” (2), referindo-se a João Batista.

Coube ao Espiritismo trazer o conhecimento da reencarnação ao mundo ocidental, e o fez dando uma visão muito mais ampla e profunda, demonstrando que todos os Espíritos reencarnam, não apenas para a solução de equívocos de uma vida passada, ou para o cumprimento de determinada missão, mas pela necessidade inerente a toda a criação: o imperativo do progresso, da evolução.

Em verdade, ainda que não houvesse nenhuma afirmação a respeito da pluralidade das existências, ela seria depreendida como necessidade absoluta, face à amplitude do programa de aperfeiçoamento da alma apresentado por Jesus, através do Evangelho.

De quanto milênios vamos necessitar para pormos em prática, integralmente, um ensinamento como esse: “Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam” (3)? De quantos milênios vamos necessitar, nós Espíritos ainda vacilantes entre o bem e o mal, que não sabemos amar plenamente nem os amigos? O Codificador demonstra sua visão lúcida a respeito do assunto, quando inquire os Espíritos: “Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?” (4).

A Reencarnação – opondo-se frontalmente à salvação gratuita pela fé – dignifica o Espírito imortal, que vai galgando os degraus do aperfeiçoamento ao longo dos milênios sucessivos, crescendo em sentimento e intelectualidade, num trabalhoso processo de exteriorização da herança divina, concedida igualmente a todos os Espíritos. No nascedouro, todos absolutamente iguais. As diferenças individuais, portanto, não decorrem de capricho divino, mas sim do empenho de cada Espírito no sentido de promover o seu próprio progresso. Nesse caminhar, vai recebendo, por justiça, os frutos de todo o bem semeado, e, em função dessa mesma justiça, é compelido a reparar os males praticados, mas não em igual medida, graças à misericórdia divina. O Espiritismo, ao revelar ao mundo ocidental a Reencarnação, prova que a verdade religiosa não é incompatível com a verdade científica, explicando que a evolução do Espírito caminha pari passu com a evolução física demonstrada por Darwin, ao tempo em que resgata diante da consciência humana um dos atributos básicos de um Ser Perfeito: a Justiça. Tudo provém de uma mesma fonte, todos partimos de um mesmo ponto, dotados da mesma potencialidade evolutiva, conforme ensinaram os Espíritos: “É assim que tudo serve, tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo ao arcanjo, que também começou por ser átomo.” (5). Por conhecer essa luz divina imanente em toda a criação, é que Jesus lançou o desafio evolutivo: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens (…)”. (6). A evolução do Espírito fica muito evidente nas palavras de Jesus, quando se declara, ele também, um Espírito em evolução: “Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas (….).” (7). É verdade que no dia em que chegarmos a fazer o que o Mestre fazia à época em que pronunciou essas palavras – daqui a alguns milhões de anos –, pensando que nos igualamos a ele, ele estará ainda à nossa frente, pois ele disse que poderíamos fazer obras maiores do que as que ele fazia, mas não disse que nós o ultrapassaríamos. Ultrapassaremos o ponto evolutivo em que ele se encontrava naquele dia, mas ele estará ainda à nossa frente, de vez que a evolução é infinita. E nós nem sabemos o que é infinito, a não ser através de uma definição terrivelmente circular: “aquilo que não tem fim”! Kardec, em brilhante ensaio (8), defende, com argumentação irretorquível, o imperativo da reencarnação sob a ótica da justiça e da misericórdia de Deus. É um trabalho monumental, até hoje não contestado por filósofo ou teólogo algum. Muitos livros foram escritos tendo como tema a reencarnação, mas não se conhece nenhum trabalho sério que rebata os argumentos ali apresentados.

Aos argumentos alinhados pelo Codificador, pode-se ainda acrescentar uma série de outros, graças aos esclarecimentos trazidos pelo Espiritismo: Se o Espírito fosse criado juntamente com o corpo, como ficaria a justiça divina ante a flagrante diferença que existe entre as oportunidades deferidas ao homem e à mulher, na família, na sociedade e até mesmo nas religiões? Seria o caso de a mulher perguntar – e muitas perguntam – por que Deus as criou mulheres, sem as consultar, para sofrerem, em muitos casos, cerceamento de liberdade por parte dos pais, e depois as exigências e, não raro, a brutalidade dos maridos, enquanto lhes pesam nos ombros as sérias responsabilidades no encaminhamento e na manutenção da saúde dos filhos. O Espiritismo, dentro de uma visão evolucionista, mostra que o Espírito não tem sexo, podendo encarnar-se como homem ou como mulher, segundo o seu livre-arbítrio. De acordo com a doutrina da unicidade das existências, a criação de novas almas não seria decorrente da vontade do Criador, mas estaria sujeita ao arbítrio dos casais, pois que poderiam usar um contraceptivo, impedindo Deus de usar o Seu poder de criar uma nova alma. O Espiritismo nos ensina que, ao usar qualquer recurso anticoncepcional, um casal apenas impede que um Espírito, já criado por Deus, que já encarnou-se outras vezes, volte à Terra para uma nova etapa de aprendizagem. No caso de um estupro, por que se valeria Deus de um ato de violência, de ultraje, de desrespeito, para criar um Espírito? Onde estaria a justiça divina, se outros são criados, ao contrário, em momentos de amor sublime, como filhos altamente desejados? Por que teria esse Espírito, fruto de uma violência, de ficar estigmatizado por toda a Eternidade? Através dos esclarecimentos da Doutrina Espírita, sabe-se que o acontecimento brutal que se deu tem causas anteriores, e que o Espírito que se reencarna, aceitando ou sendo compelido a aceitar uma situação dessa natureza, tem ligações de natureza vária, estabelecidas no passado, principalmente com aquela que lhe será mãe.

Se não houvesse experiências anteriores, como explicar a rebeldia, a brutalidade, o mau caráter de um filho que tem toda uma ancestralidade constituída de pessoas dignas? Alguém poderá objetar, dizendo que é herança genética de um parente longínquo. Mas que culpa têm os pais? Por que Deus permitiria que esses gens danosos entrassem na formação daquela alma? A prosperar essa idéia, chegar-se-ia ao absurdo de, no esforço de impedir Deus de criar Espíritos de mau caráter, dever-se-ia esterilizar todos os que não fossem portadores de virtudes. Seria assim fácil “aperfeiçoar” a raça humana, como pretenderam, no campo físico, os cultores da louca teoria da raça pura.

O Espiritismo esclarece que ninguém herda inteligência, virtudes ou defeitos morais, por serem atributos do Espírito, que os traz como bagagem própria, intransferível quando reencarna. Se um casal tem um filho que lhes nega as linhas morais da família, trata-se de um Espírito que foi por eles adotado, em função do desejo de auxiliá-lo, ou o receberam como consequência de um passado comprometido com ele, “porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo.” (9).

Dentro dessa linha de raciocínio, chega-se à conclusão que todos os filhos são adotivos, enquanto Espíritos criados por Deus. O casal apenas “fornece o invólucro corporal.” (9).

Diga-se, de passagem, que, para um ajustamento de linguagem, dever-se-ia dizer: filhos consanguíneos e não-consanguíneos, porque todos são adotivos.

A doutrina reencarnacionista é a única que não é racista, pois demonstra que Deus não seria justo se criasse um Espírito imortal dentro de uma raça. O Espírito é criado por Deus e evolui, passando pela humanização, no processo de angelizar-se. Ao humanizar-se, encarna-se inúmeras vezes, nas mais variadas raças, mas seu início, sua criação não está vinculada a grupo étnico nenhum. A bem dizer, todos os Espíritos pertencemos a uma única raça, pertencemos à raça divina, porque somos filhos de Deus…

José Passini

Fonte: Publicado no Reformador – set. 2004

Bibliografia:

  • Novo Testamento:
  • (1) – Lc, 10: 25
  • (2) – Mt, 11: 14
  • (3) – Mt, 5: 44
  • (6) – Mt, 5: 16
  • (7) – Jo, 14:12
  • O Livro dos Espíritos:
  • (4) – item 166
  • (5) – item 540
  • (8) – item 222
  • O Evangelho segundo o Espiritismo:
  • (9) Cap. 14, item 8
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Como o ego pode ser seu aliado?

Francine Schemer

Antes de explicar como exatamente o ego poderá ser o seu aliado, eu vou brevemente explicar o que é o ego. Ego é parte do nosso ser, então com certeza você já ouviu frases do tipo: você está com o ego inflado, isso é tudo culpa do ego ferido, entre tantas outras.

Importante sabermos que para viver aqui neste plano precisamos do ego, ele é essencial e caminha juntamente com a nossa mentalidade do “eu sobrevivente”.

O “eu sobrevivente” é um arquétipo da sua mente que está totalmente voltado para os sentimentos que te mantém vivo, ou seja, te conecta aos sentimentos mais primitivos do ser humano. Os sentimentos que ficam nessa parte do seu cérebro são aqueles mais violentos e de sobrevivência mesmo, como o arquétipo já indica.

O “ego”, por outro lado, é aquele que sempre está tentando te proteger, de uma dor, de um esforço, de uma rejeição. Podemos perfeitamente ilustrar o ego agindo após o término de um relacionamento, onde uma das partes não aceita o término muito bem, nesse caso, nós falamos sobre o tal ego ferido. “Como assim você não me quer? Como assim você está melhor sem mim?” Esse é o ego negativo, prazer!

Mas, e o tal do ego positivo? Como identificar?

Estamos tão automáticos no nosso subconsciente que não nos damos conta da energia positiva que o ego pode exercer sobre nós. Aliás, o nosso “eu sobrevivente” sempre nos coloca no foco do que nos falta, e por isso muitas vezes temos a dificuldade de enxergar as coisas positivas que estão por trás de cada situação que passamos.

O ego positivo é o responsável por nos manter vivos e nos ajudar a buscar soluções em nosso arquivo dos aprendizados. Ele pode nos ajudar a ter mais confiança em nós mesmos através das nossas experiências de sucesso, e aprendizados que deram certo pela perspectiva da realidade de cada um. Ele também será responsável por te ajudar a acessar suas memórias através de regressões e projeções.

O ponto que é mais importante, além de reconhecer o ego positivo, é você reconhecer a positividade do ego negativo e como ele poderá ser o seu aliado na sua jornada de autoconhecimento. Você deve estar se perguntando, “Como eu posso fazer isso? Como reconhecer esses pontos?”

A resposta é simples, apesar de parecer algo distante, pois por muito tempo lutamos contra o ego, e quase sempre olhamos ele como o “vilão” das situações. Para que seja possível nos aprofundar na nossa essência, é necessário fazer as pazes com o nosso ego. O ego sempre está lá para nos proteger, dessa maneira quando estamos em desequilíbrio em algum ponto do nosso emocional, o ego entendeu algum benefício ali e um mecanismo de proteção.

Em determinado trabalho terapêutico que estava fazendo comigo, percebi que tinha dificuldade de aceitar ser corrigida ou pedir ajuda a alguém, e então eu perguntei ao meu ego, “O que estamos ganhando de positivo com isso? Como isso me afeta?”

E a resposta que recebi da minha mente foi: se protegendo de ser inferior às outras pessoas, pedir ajuda é para os fracos, você tem que provar que é forte!

O benefício central do ego nesse caso, é evitar demonstrar a minha fraqueza, pois ele entende que se alguém souber dessas fraquezas, essa pessoa poderá me ferir,

Percebe que o ego está sempre querendo de alguma maneira te proteger? E dessa forma criamos muitos padrões limitantes, pois o ego negativo é a voz que te limita, ele vai te paralisar para te proteger. O ego facilmente aplica a lei do menor esforço, onde ele entende que quanto mais paralisado, mais seguro estará, por isso prorrogamos tanto.

Quando falamos sobre o ego inflado, por exemplo, também falamos sobre um sistema de proteção, nesse caso a pessoa tem medo da rejeição e do abandono, então ela precisa se sentir superior aos outros para criar uma camada de proteção para que ela possa se preservar desse sentimento que ela tanto teme.

Nestes casos onde você identifica que está sendo limitado pelo seu ego, ou sente que está em desequilíbrio com seu “eu”, é indicado que você se pergunte: “O que eu ganho de positivo nessa situação? Como isso me afeta?”, você prontamente pode responder, “Nada!” Mas permita que a resposta venha, pois já adianto que nunca é nada, sempre haverá algo, pois nosso sistema de crenças é sempre construído por entendimentos “positivos”, que na verdade não são tão positivos assim, em grande parte das situações.

Dessa forma podemos nos aliar ao nosso ego, nos conhecer melhor e limpar padrões de medo, limitações, reatividade e inflexibilidade. Faça as pazes com seu ego, e deixe sua vida fluir com mais leveza. Afinal, ter aliados nessa jornada do autoconhecimento caiu muito bem, não é mesmo?

Francine Schemer

Fonte:  Editora Dufaux

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PROGRESSO – Joanna de Ângelis

CONCEITO

Desdobramento de possibilidades valiosas, o progresso é agente do engrandecimento que tudo e todos experimentam, sob o impositivo das leis sábias da evolução, de que nada ou ser algum se poderá eximir.

Presente em todo lugar, impõe-se a pouco e pouco pela força de que se reveste, terminando por comandar com eficiência o carro da vida.

Inutilmente a agressividade de muitos homens tenta detê-Io; vãs as insistentes maquinações dos espíritos astutos, pensando obstaculizá-lo; inoperantes os recursos da prepotência, supondo impedi-lo…

O progresso pode ser comparado ao amanhecer. Mesmo demorando aparentemente culmina por lograr êxito.

A ignorância, travestida pela força e iludida pela falsa cultura, não poucas vezes se há levantado, objetivando criar embaraços ao desenvolvimento dos homens e dos povos, gerando, por fim, lamentáveis constrições para os seus apaniguados, sem que conseguisse, todavia, nas lutas travadas, alcançar as cumeadas dos desejos ignóbeis.

Inevitavelmente ele chega, altera a face e a constituição do que encontra pela frente e desdobra recursos, fomentando a beleza, a tranquilidade, o conforto, a dita.

CONSIDERAÇÕES

Criando sempre e incessantemente, o Pai determina a evolução pela esteira dos evos intermináveis. Transformando-se e progredindo, o impulso criador, em se manifestando, evolute infinitamente na rota em que busca a relativa perfeição que lhe está destinada.

Pensamento que consubstancia forma, psiquismo que avança, invólucro que se aprimora, adquirindo preciosos recursos e inestimáveis conquistas que somam abençoados tesouros no incessante curso da indestrutibilidade…

Em todos os tempos a prosápia humana, decorrente do impositivo inferior, que procede do mecanismo primário donde o homem inicia a marcha, tem criado óbices ao progresso.

Assim, em vez de utilizar as conquistas que logra, fomentando ações edificantes, a criatura iludida com a transitoriedade da organização física se levanta impondo ideias infelizes, exigindo subalternidade, em detrimento a quanto vê, observa e experimenta na própria vida.

Dos excrementos o homem retira essências puras, de delicado odor, como a planta, do húmus, do adubo haure incomparáveis belezas e inimitáveis fragrâncias…

Desse modo, são de ontem os quadros lamentáveis, em que os inimigos do progresso dominavam, soberanos, supondo impedirem a fixação e a proeza da magnitude do desenvolvimento.

São destes dias as utopias, as ilusões dos vencedores que não se conseguiram vencer, sustentando a força opressiva com que vitalizam as sombras que os mantêm equivocados, ora usurpados pela desencarnação e esquecidos, enquanto o carro do progresso prossegue inalterável.

Examinando a palpitante atualidade do progresso que irrompe de todos os lados, são inequívocas quão inadiáveis as necessidades do adiantamento moral-espiritual do homem, do que decorre o avanço material, seja na Administração, na Cultura, na Política, na Arte, na Ciência, a fim de que se não entorpeçam os valores éticos, ante a inteligência deslumbrada em face das conquistas do conhecimento, que, sem as estruturas íntimas da dignificação que comanda os sentimentos e destroça os desatinos, tudo transformaria em caos.

Buscando equacionar o mecanismo do Universo, quando jovem, Albert Einstein emprestou ao Cosmo as condições e requisitos intrínsecos necessários à sua própria explicação, adotando a cómoda elucidação do materialismo mecanicista. Amadurecido e experiente, mais tarde clarificado pela excelência do progresso moral, reformulou a teoria, resolvendo-se pela legitimidade de um “Poder Pensante” existente e precedente e um “Poder Atuante”… Somente o progresso moral responde pelas verdadeiras conquistas humanas, no plano da evolução.

Em face de tais considerações a realidade dos postulados imortalistas, fundamentados na tónica espiritual legítima do após a desarticulação celular, é a única diretriz que pode comandar com eficiência a máquina das modernas conquistas do pensamento tecnológico, de modo a facultar o progresso da Terra e do homem, por meios eficazes, verdadeiros, sem a constrição aberrante dos crimes, engodos, erros, ultrajes e agressões – velhos arrimos em que se sustenta a animalidade! – muito a gosto dos violentos construtores do passado, que se deixaram asfixiar pelos tóxicos do primarismo e da alucinação.

Ante os clarões da Imortalidade o homem contempla o futuro eterno, sem deter-se nas balizas próximas do fascínio mentiroso. Faz-se construtor para a Eternidade e não para o agora célere que se decompõe em campo de experiências próximas. Não tem pressa, porque sabe que tudo quanto não conseguir hoje, realizá-lo-á amanhã.

Ante a desencarnação – que era fantasma cruel anteriormente – adquire confiança na vida que prossegue, e depois do túmulo acompanha o esforço dos continuadores do trabalho que deixou, esforçando-se para retornar e prosseguir afervorado no labor da edificação da ventura geral.

CONCLUSÃO

À hora própria, conforme anunciado, fulguram as lições espiritistas, exatamente quando há recursos capazes de avaliarem a extensão filosófica e moral da Doutrina do Cristo na face em que Ele a ensinou e a viveu.

Reservando aos laboratórios próprios o estudo da transcendência do espírito e da vida, na atual conjuntura do progresso entre os homens, a religião espiritista penetra os espíritos, auxilia-os no progresso necessário e impele-os à glória do amor com que passam a sentir todos e tudo, rumando jubilosamente para Deus.

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereira Franco

Livro: Estudos Espíritas – 9

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