Bulimia e Espiritismo

Fernanda Oliveira

“Meu corpo, não meu agente, meu envelope selado, meu revólver de assustar, tornou-se meu carcereiro me sabe mais que me sei. “(Carlos Drummond de Andrade)

No momento atual a sociedade associa beleza e sucesso à magreza. A magreza apresenta-se como a forma mais representativa de sucesso social, a gordura é encarada como desleixo e falta de controle pessoal sendo considerada como verdadeiro sinônimo de feiúra. A procura por um padrão ideal de beleza e a obsessão pela estética “perfeita” imposta pela sociedade promove o aumento de casos de transtornos alimentares.

Os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas caracterizadas por desvios do comportamento alimentar, com elevadas taxas de morbidade e mortalidade, principalmente na população jovem. As pessoas que sofrem de transtornos alimentares, geralmente tem características psicológicas bastante parecidas, como por exemplo a falta de autoconfiança e autoestima, por vezes excesso de perfeccionismo ou necessidade de controlar tudo. Os transtornos alimentares também costumam ter como desencadeante algum evento significativo como perdas, separações, mudanças, doenças orgânicas, distúrbios da imagem corporal (como a insatisfação), depressão, ansiedade e até mesmo traumas de infância. Tendo a sua incidência aumentada nas últimas décadas, afeta predominantemente as mulheres e são mais frequentes nos países ocidentais.

Os fatores sociais são verdadeiros influenciadores e pressionam de todos os modos com as marcas colocando em seus comerciais, em sua maioria só pessoas magras, a publicidade alimentar com os seus produtos dietéticos e light e a valorização de uma imagem padrão estética conduzem a alterações do comportamento alimentar responsáveis por uma série de problemas físicos, mentais e emocionais que, quando não causam situações irreparáveis, só com grande dificuldade são ultrapassados. Os padrões de beleza e magreza a serem seguidos como sinônimos de sucesso feminino expressam, no corpo das mulheres, uma série de práticas e normas de controle social que podem ser entendidas como novas exigências da atualidade.

A bulimia é um transtorno alimentar com episódios repetidos e alternados de um grande desejo alimentar com uma enorme ingestão de alimentos seguidos por comportamentos compensatórios inapropriados, como, o vômito induzido, diuréticos, laxantes ou outras medicações, jejum ou exercício físico excessivo com o intuito de impedir o aumento do peso.

O corpo físico expressa o que vai nos nossos pensamentos, atitudes, no nosso interior e coração. Segundo Kardec : “ As doenças fazem parte das provas e das vicissitudes da vida terrena; são inerentes à grosseria da nossa natureza material e à inferioridade do mundo que habitamos.” . As doenças são resultado de um comportamento desequilibrado da mente que acaba promovendo desequilíbrio físico, emocional e psíquico. Através de escolhas equivocadas e ilusórias feitas durante a vida acabamos desequilibrando nosso corpo físico e mente.

A Lei da Conservação é uma lei natural que ensina que a vida num corpo físico é necessidade ao aperfeiçoamento dos seres e que o corpo é um instrumento de trabalho e evolução;  que é necessário moderação para manter o equilíbrio. Conforme a questão 727 de O Livro Dos Espíritos : “Contra os perigos e os sofrimentos é que o instinto de conservação foi dado a todos os seres.” A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde para proporcionar seu crescimento moral e espiritual.

A Doutrina Espírita tem como um de seus propósitos melhorar e auxiliar nossa jornada evolutiva, de forma consciente e na pratica do bem. O Espírito é responsável por seus atos e atitudes, por sua livre escolha, enquanto não procurar se aperfeiçoar será responsável pela sua condição de felicidade ou infelicidade A filosofia espírita abre as portas das investigações e da reflexão enobrecendo assim o conhecimento do ser humano.

A cura de qualquer patologia está condicionada a vontade e ao mérito do individuo que procura terapia, tratamentos para aliviar os sintomas e busca se modificar para as causas do transtorno; essa analise significa reforma intima, trabalho de autoconhecimento, dialogo interno o resgate e conhecimento de si mesmo.

Necessitamos nos localizar no Universo, perceber nossa oportunidade de amadurecimento, escolher o caminho que vamos percorrer, fazendo da nossa vida terrena um aperfeiçoamento moral. Onde o Evangelho segundo o Espiritismo deixa de ser um livro e passa ser um roteiro de bem viver.

Não se pode falar em uma vida digna sem saúde. Ter saúde é o primeiro requisito de uma vida minimamente satisfatória. A saúde objetiva a vida do ser humano com ela pode-se pensar em desenvolvimento e crescimento da qualidade de vida da sociedade. Não há como pensar em educação, trabalho, lazer sem a saúde. A cura é a restauração biológica que reorienta o espírito, é como perder o caminho, a direção e depois retornar para a rota. Dentro de cada um está a sua cura para todos os males. Não existe mudança nos efeitos se não mudarmos as causas.

Ao aceitarmos aquilo que somos, a nossa mente fica relaxada e serena. A busca pelo equilíbrio faz com que cuidemos de todas as áreas de nossa vida com atenção e cuidado proporcionando assim uma vida plena e saudável.

Vamos caminhando buscando o equilíbrio em nossas atitudes, conhecendo nossos propósitos e promovendo o bem.

Fernanda Oliveira

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

1- O corpo- Carlos Drummond de Andrade – Editora Companhia das Letras

2- O Evangelho segundo o Espiritismo. Allan Kardec-Editora Federação Espírita Brasileira.

3- O Livro dos Espíritos. Allan Kardec-Editora Federação Espírita Brasileira.

4- O Consolador- Chico Xavier- Editora Federação Espírita Brasileira.

5- Transtornos Mentais- Suely Schubert- Editora InterVidas

6- Os 12 principais tipos de transtorno alimentar, de anorexia a compulsão | Veja Saúde (abril.com.br)

7- Transtorno alimentar: O que é, os sintomas e como ele afeta a sua vida (psicologiaviva.com.br)

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TER MEDO É BOM OU RUIM?

Eduardo Battel

Todos nós sentimos medo em algum grau e isso é bom ou ruim? Sentir medo é normal pois ele está relacionado ao nosso instinto de conservação, sobrevivência e perpetuação da espécie. Conforme nos mostra Allan Kardec na questão 702 de O Livro dos Espíritos: “O instinto de conservação é uma Lei da Natureza? Resposta: Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, seja qual for o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente mecânico; noutros, é racional”.

Se fôssemos totalmente destemidos, estaríamos fadados à extinção. Emmanuel nos orienta: “Embora devas caminhar sem medo, não te cases à imprudência, a pretexto de cultivar o desassombro”. Caso não tenhamos temor de nada, crendo que tudo está premeditado, estaremos sujeitos a passar por situações ruins e até a abreviar a nossa encarnação e tudo o que fazemos, consciente ou inconscientemente, que antecipa o nosso retorno à Pátria Espiritual, é considerado um suicídio. Nós temos a obrigação de preservar a nossa existência na matéria e de cuidar do nosso corpo, pois eles são uma dádiva oferecida pelo Criador para que possamos evoluir.

Por outro lado, o medo em excesso também é prejudicial. Quando temos muito temor, com aquela sensação de angústia, geramos uma energia de baixo padrão vibratório. Nós ficamos imersos nessa energia que provém de nossos sentimentos e pensamentos e se ela for deletéria, irá prejudicar todo o nosso ser. Ela age em todos os trilhões de células do nosso corpo físico, alterando o seu funcionamento, nos causando malefícios e doenças. Poderemos ficar, dessa forma, mais suscetíveis a termos vários problemas de ordem física e espiritual.

O que temos que fazer então? A resposta é o equilíbrio. Não devemos ter falta nem tampouco excesso de medo. Para termos esse equilíbrio, devemos ficar atentos a fatores internos e externos que possam causar a desarmonia em nossas vidas. Conforme nos ensina Chico Xavier: “Nossa vida é um dom precioso que Deus nos deu e funciona como um jardim, onde podemos semear as flores da alegria ou as pragas do medo, da raiva e da depressão. O que você anda plantando no seu jardim?”

Sentimos medo de muitas coisas, alguns em especial sentem muito medo da morte. A Doutrina Espírita nos orienta muito bem em relação a isso, nos ensinando que a vida continua após o desencarne e que retornamos ao Mundo Espiritual, que é onde estávamos antes de encarnar, sendo lá a nossa verdadeira vida. Allan Kardec nos orienta na questão 941 de O Livro dos Espíritos: “Para muitas pessoas, o temor da morte é uma causa de perplexidade. De onde lhes vêm esse temor, já que têm diante de si o futuro? Resposta: Não há fundamento para semelhante temor… A morte não inspira ao justo nenhum temor, porque, com fé, ele tem a certeza do futuro; a esperança o faz esperar por uma vida melhor; e a caridade, a cuja lei obedece, lhe dá a segurança de que não encontrará, no mundo para onde terá de ir, nenhum ser cujo olhar lhe deva temer”.

Não devemos temer a morte, tendo em mente que ninguém desencarna antes da hora, a não ser que, consciente ou inconscientemente, se esforce para isso. Temos que nos preocupar sim em sermos corretos, fazermos o bem, praticando o amor tão ensinado por Jesus. André Luiz nos fala através de Chico Xavier: “As virtudes são o passaporte para uma entrada tranquila no Mundo Espiritual: a compreensão, a humildade, a paciência, a ternura e a caridade”.

Em tempos de pandemia, façamos a nossa parte, seguindo as recomendações das agências de saúde, por enquanto ainda necessárias, como usar máscaras, higienizar as mãos com água e sabão ou álcool em gel e praticar o distanciamento social. Mas não devemos ficar demasiadamente temerosos e angustiados com toda essa situação do Covid, pois o medo em excesso pode nos deixar mais suscetíveis a desenvolver uma forma mais grave da doença. Devemos manter o equilíbrio emocional, ficando atentos com a nossa saúde mental além da do corpo material, fazer o que nos cabe e ter fé em Deus, sabendo que tudo o que acontece é para o nosso aprendizado e evolução.

Eduardo Battel

Fonte: Agenda Espírita Brasil

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VOZ DE DEUS?

Divaldo P. Franco

Onde se ouvirá a voz de Deus, neste Universo majestoso em contínua expansão?

Nos infinitos aglomerados de galáxias, que bailam magicamente no Cosmo imensurável, ou nas micropartículas que formam os ciclópicos mundos adornados de fogo e matéria em ebulição, que as mentes mais audaciosas apenas podem conceber, por mais avançadas sejam as suas percepções?

Examinando-se a Terra, esse ponto quase insignificante da gentil e bela Via Láctea, os mais complexos e extenuantes cálculos matemáticos registram-na, no conjunto em que se encontra, como pequenino sinal perdido na imensidão.

Estará a voz de Deus no delicado aroma das violetas que, pisadas, continuam recendendo perfume nas patas selvagens dos animais que as esmagaram? Ou talvez na tempestade que devasta a Natureza e a satura de raios destruidores, deixando tudo revolto e destroçado?

Será ouvida em cada amanhecer e entardecer, através dos pássaros em gorjeios celestiais, que desatam melodias refinadas que flautas de prata e violinos dulçorosos somente as copiam?

Provavelmente, essa voz ressoa nos filhos dos animais tombados nos locais em que se escondem na furna e estão ameaçados de morte? É bem provável que, nas guerras entre as nações, o clamor das multidões sendo dizimadas sensibilizou-O, e Sua voz veio em seu socorro?…

A voz de Deus parece silenciosa neste momento em que a Terra, havendo atingido o seu mais alto grau de tecnologia, estertora nas multidões enlouquecidas que perderam a ética existencial, o sentido nobre de viver, atirando-se nos calabouços do prazer.

Houve tempos, em Israel, que a boca dos Céus silenciou por mais de quatrocentos anos e não se ouviu o som de qualquer profecia falando da realidade divina, que o povo menoscabou na correria desesperadora das orgias e bacanais.

A atualidade faz lembrar os dias de Sodoma e Gomorra, quando o fogo dos Céus as destruiu.

Neste momento, é a peste traiçoeira que ataca sem compaixão e aplica os acúleos férreos da sua maldade nas pessoas avisadas como nas descuidadas.

A soberba e o ódio, a insensatez, que caracterizam as populações quase sempre afortunadas em tecnologia e empobrecidas em sentimentos de amor à vida, facultam o caldo de cultura para que a peste e suas sequelas dizimem as vítimas desestruturadas para os sofrimentos libertadores.

A voz de Deus ecoa hoje nas vozes dos imortais que nos convidam à reflexão e à ordem, ao respeito às Leis do Universo e aos objetivos do renascimento na carne.

Adotando o comportamento materialista e matando Deus, caminha-se na orfandade da Causa existencial, atropelando os desafios auxiliares para o renascimento espiritual e a convivência com a vida plena.

Faze silêncio e ouve a voz de Deus.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 12/08/21

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Patrimônio Inútil

Richard Simonetti

Conta Esopo (século VI a.C.), que um homem extremamente zeloso de seus haveres, decidido a resguardar-se de qualquer prejuízo, tomou radical providência: vendeu todos os seus haveres e comprou vários quilos de ouro que fundiu numa única barra. Em seguida, enterrou-a em mata cerrada.

À noite, solitário e esquivo, contemplava, em êxtase, seu tesouro. Algo de tio Patinhas, o milionário sovina das histórias em quadrinhos, que se deleita mergulhando num tanque cheio de moedas.

Um dia foi seguido por amigo do alheio. Quando se afastou, após a adoração rotineira, o gatuno desenterrou o ouro e escafedeu-se. O avarento quase enlouqueceu, tamanho o seu desespero. Um vizinho, ao saber do fato, ponderou:

– Não sei por que está tão transtornado! Afinal, se no lugar do ouro estivesse uma pedra seria a mesma coisa. Aquela riqueza não tinha nenhuma serventia para você…

Difícil encontrar na atualidade pessoas dispostas a enterrar seus haveres. Raras os têm sobrando. Além disso, seria correr risco inútil. As instituições financeiras guardam com segurança nosso dinheiro. Até produzem rendimentos, sem surpresas desagradáveis, salvo quando têm o mau gosto de quebrar, por incompetência ou corrupção.

Não obstante, muita gente costuma enterrar um bem muito mais precioso, uma riqueza inestimável – a existência. Se nos dermos ao trabalho de analisar a jornada terrestre, com suas abençoadas possibilidades de edificação, perceberemos como é valiosa. Traz-nos inúmeros benefícios:

O esquecimento do passado ajuda-nos a superar paixões e fixações que precipitaram nossos fracassos.

A convivência com desafetos transmutados em familiares favorece retificações e reconciliações indispensáveis.

O contato com companheiros do pretérito, nas experiências do lar e na atividade social, estreita os laços de afetividade.

A armadura de carne inibe as percepções espirituais, minimizando a influência de adversários desencarnados.

As necessidades do corpo induzem à bênção do trabalho.

O esforço pela subsistência desenvolve a inteligência.

As limitações físicas refreiam os impulsos inferiores.

As enfermidades depuram a alma.

As lutas fortalecem a vontade.

A morte impõe oportuno balanço existencial, sinalizando onde estamos, na jornada evolutiva.

No entanto, à semelhança do unha-de-fome de Esopo, muita gente troca o tesouro das oportunidades de edificação por uma barra luzente de efêmeras realizações, cuidando apenas de seus interesses, de seus negócios, de suas ambições…

Quando tudo corre bem, há os que se deslumbram com essa “riqueza”, como aquele lavrador da passagem evangélica: construiu grandes celeiros, guardou neles toda a sua produção e proclamou para si mesmo (Lucas, 12:18-20):

– Tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te…

Mas Deus lhe disse:

– Insensato, esta noite pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?

Exatamente assim acontece com aquele que se apega às ilusões humanas, buscando realizações de brilho efêmero. Um dia vem o indefectível ladrão – a morte –, e lhe rouba o corpo. Indigente na vida espiritual, desespera-se. Chora, inconformado. Recusa-se a aceitar a nova situação.

Esopo lhe diria: – Por que o lamento? Houvesse você estagiado nas entranhas de uma pedra e o resultado seria quase o mesmo. A experiência humana pouco lhe serviu!

Richard Simonetti

Fonte: Kardec Rio Preto

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Diferentes Formas de Apresentação da Mediunidade

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

As diferentes formas pelas quais se apresenta a mediunidade são objeto de detalhamento no capítulo 14, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. A referida obra informa que todas as pessoas estão sujeitas a receber algum grau de influência dos espíritos, ainda que seja comum denominar como médium as pessoas que possuem a faculdade mediúnica nitidamente caracterizada (KARDEC, 2018, p. 134). Tais caracterizações levam em conta as diferentes manifestações observadas, dentre as quais destacam-se as ocorrências relacionadas aos médiuns das seguintes categorias:  médiuns videntes, médiuns auditivos, médiuns intuitivos, médiuns de efeitos físicos e médiuns escreventes ou psicógrafos.

Na categoria de médiuns videntes estão aqueles que são capazes de enxergar os espíritos. A obra explica que essa capacidade não é algo permanente e que está relacionada com a possibilidade de que determinados espíritos sejam visualizados ao se aproximarem do médium em situações específicas. Logo, uma pessoa que seja considerada médium vidente não irá necessariamente visualizar espíritos frequentemente, mas terá essa possibilidade de modo permanente, diferente de outras pessoas que podem, em momentos momentâneos e passageiros, ver aparições de pessoas amadas ou conhecidas que tenham recém desencarnado. Na obra “A Gênese”, Kardec apresenta explicação sobre como ocorrem as aparições:

“No seu estado normal, o perispírito é invisível para nós; como, porém, é formado de matéria etérea, o Espírito pode, em certos casos, por ato da sua vontade, fazê-lo passar por uma modificação molecular que o torna momentaneamente visível. É assim que se produzem as aparições, que não se dão do mesmo modo que os outros fenômenos, fora das leis da natureza. Nada tem esse de mais extraordinário do que o do vapor que, invisível quando muito rarefeito, se torna visível quando condensado” (Kardec, 2013, p. 252).

Na obra “Desafios da Mediunidade”, psicografada por Raul Teixeira a partir de comunicações do Espírito Camilo, os autores esclarecem que a faculdade mediúnica se apoia tanto nos recursos da mente quanto nos do corpo do médium encarnado. No caso da vidência, audiência e inspiração mediúnica, não há exteriorização do fenômeno através do corpo do médium, situação que dificulta a verificação de autenticidade:

“…o exame terá que ser mais exigente, haja vista que os fenômenos são subjetivos, “impalpáveis” detendo grandes possibilidades de ser confundidos com produtos da mera imaginação, tipicamente anímicos, decorrentes de muitas mentes excitadas e ansiosas, que julgam estar “vendo”, “ouvindo” ou “sentindo” coisas elaboradas por elas mesmas. Não é à toa que Allan Kardec propõe que “há muito que desconfiar dos que se inculcam possuidores dessa faculdade” ao se referir à vidência (Teixeira, 2012, p. 22).

Os médiuns auditivos possuem a capacidade de ouvir a voz dos espíritos, assim como sons vocais imitando a voz humana ou gritos produzidos em fenômeno denominado pneumatofonia. No “Livro dos Médiuns”, ao tratar de pneumatofonia e de audiência, Kardec alerta para a necessidade de que se busque ter certeza de que se trata de uma comunicação externa, que possui sentido, e não de algum ruído provocado por motivos fisiológicos, como zumbidos no ouvido ou frases ouvidas no momento em que se está próximo do adormecimento:

“Ocorre com bastante frequência ouvirmos, quando meio adormecidos, pronunciarem distintamente palavras nomes e algumas vezes até frases inteiras, alto o suficiente para nos acordar, sobressaltados. Embora possa acontecer em certos casos que isso seja realmente uma manifestação, esse fenômeno nada tem de suficientemente positivo para não ser atribuído a uma causa análoga à que desenvolvemos na teoria da alucinação. O que se ouve dessa maneira não tem, de resto, nenhuma consequência; não ocorre o mesmo quando estamos completamente acordados, porque, se é um espírito que se faz ouvir, poderemos trocar ideias com ele e manter uma conversa regular” (Kardec, 2018, p. 130).

As características da mediunidade de efeitos físicos também são tratadas no capítulo 14, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. A obra explica que os médiuns de efeitos físicos são particularmente aptos a produzir fenômenos materiais, como os movimentos de corpos inertes e os ruídos. (KARDEC, 2018, p. 134).  A popularização de tais ocorrências nos salões de Paris chamou a atenção de Allan Kardec e o motivou a estudar as suas causas, iniciativa que deu origem às pesquisas que originaram as obras básicas da Doutrina Espírita. As observações de Kardec na condição de estudioso, tinham inicialmente o intuito de verificar a natureza das ocorrências, em busca de evidências de possíveis fraudes. Todavia, além de perceber que os ruídos e as movimentações de objetos eram intermediados pela atuação de médiuns presentes às sessões, percebeu-se que em determinados casos eram seguidas instruções quanto ao número de batidas ou à posição dos objetos o que levou à conclusão de que se tratavam de manifestações inteligentes nas quais havia comunicação entre os envolvidos. Kardec destaca que a faculdade de produzir efeitos materiais é considerada rudimentar, na comparação com meios mais aperfeiçoados de comunicação, como a escrita e a fala. Assim, pode-se concluir que os efeitos físicos atestam a continuidade da existência após a morte do corpo físico, ao chamar a atenção para a possibilidade de que os desencarnados exerçam influência sobre objetos manuseados pelos encarnados. Já as comunicações através da escrita e da fala permitem o intercâmbio de ideias mais elaboradas entre os dois planos em situações nas quais atuam os médiuns dotados das faculdades da intuição e da psicografia.

A forma como ocorre a psicografia é explicada no capítulo 15, da segunda parte do “O Livro dos Médiuns”. Por considerar a escrita manual como a forma mais simples, cômoda e completa de comunicação, a obra recomenda que seja desenvolvida com exercícios pelos médiuns. No caso dos médiuns mecânicos, o espírito utiliza a escrita do médium para colocar no papel suas ideias:

“O espírito pode, pois, exprimir diretamente o seu pensamento, seja pelo movimento de um objeto para o qual a mão do médium serve apenas de apoio, seja pela ação sobre a própria mão do médium. Quando o espírito age diretamente sobre a mão, dá-lhe um impulso completamente independente da vontade do médium; ela avança sem interrupção e à revelia deste, enquanto o espírito tiver alguma coisa a dizer, e para quando ele termina. O que caracteriza o fenômeno, nessa circunstância, é que o médium não tem a menor consciência do que escreve. A inconsciência absoluta, nesse caso, caracteriza o que chamamos de médiuns passivos ou mecânicos. Essa faculdade é preciosa pelo fato de não deixar a menor dúvida sobre a independência do pensamento daquele que escreve” (Kardec, 2018, p. 146).

Por fim, no caso dos médiuns intuitivos, diferente da psicografia, o médium tem consciência do que escreve, embora reconheça não se tratar de ideias originalmente formuladas pelo encarnado. Dentre os médiuns intuitivos, encontram-se os médiuns inspirados, que recebem, pelo pensamento, comunicações estranhas às suas ideias previas. Kardec considera que há maior dificuldade para atestar as ocorrências de mediunidade por intuição. (Kardec, 2018, p. 146-147).

Além de apresentar as situações que definem as diferentes formas de apresentação da mediunidade, das mais rudimentares, como os efeitos físicos, às mais sutis, como mediunidade por intuição, as obras da Doutrina Espírita instruem as pessoas estudarem os fenômenos e a buscar compreender as motivações que levam os espíritos a se comunicarem através dos médiuns. Dessa forma, tendo conhecimento ampliado a respeito do assunto, a mediunidade pode ser vista com maior naturalidade e compreendida por um número maior de pessoas.

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

Fonte: Blog Letra Espírita

REFERÊNCIAS

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo, (com base na 11ª edição francesa, de 1869) 1ª ed. 1ª reimpressão. Capivari-SP: Editora EME, 2018.

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra, da 5ª edição francesa, de 1869) 2ª ed. 1ª impressão. Brasília: FEB, 2013.

CAMILO (Espírito). Desafios da Mediunidade. [Psicografado por] J. Raul Teixeira, 3ª ed. Niterói: Fráter Livros Espíritas, 2012.

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O FLUIDO VITAL E O SUICÍDIO

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

A maior certeza da vida do corpo físico durante a encarnação terrena é o seu caráter finito. Muitos aspectos da existência humana dão margem a dúvidas e opiniões diferentes, mas não há como negar que o corpo físico possui fragilidades que lhe impõem um determinado prazo de validade. O Espiritismo considera o corpo físico como uma morada do espírito, um instrumento destinado a permitir a evolução do indivíduo encarnado. Nos casos de morte natural, considera-se que o princípio ou fluido vital que anima o corpo se extingue por completo. Na obra “A Gênese”, Kardec explica o conceito de princípio vital utilizando analogias com o calor e a eletricidade: “Mas seja qual for a opinião que se tenha sobre a natureza do princípio vital, o certo é que ele existe, pois que se apreciam os seus efeitos. Pode-se, portanto, logicamente, admitir que, ao se formarem, os seres orgânicos assimilaram o princípio vital, por ser necessário à destinação deles; ou, se o preferirem, que esse princípio se desenvolveu, por efeito mesmo da combinação dos elementos, tal como se desenvolvem, em certas circunstâncias, o calor, a luz e a eletricidade.” (KARDEC, 2013, p. 168).

Nas últimas décadas, com a evolução da tecnologia e da medicina, houve aumento na expectativa de vida. Tais mudanças levaram a uma maior discussão sobre as maneiras pelas quais o estilo de vida pode influenciar a saúde do corpo físico na velhice. Entende-se que a adoção de hábitos adequados de alimentação e prevenção de doenças físicas e psicológicas podem contribuir para que seja possível usufruir de maneira mais satisfatória desse período. Os ensinamentos das obras espíritas incentivam tais cuidados, pois a preservação da saúde física pode favorecer a evolução espiritual, conforme ensina a Lei de Conservação detalhada em “O Livro dos Espíritos”. No capítulo V, do Livro III da referida obra, há incentivo para que as pessoas busquem o bem-estar durante a vida terrestre, desde que isso não seja obtido à custa de outrem ou causa de enfraquecimento de suas forças morais e físicas (Kardec, 2018, p. 238). No capítulo XI da obra “A Gênese” o codificador discorre sobre a necessidade de que o corpo físico seja adequadamente preservado para que ocorra o necessário progresso individual: “A obrigação que tem o Espírito encarnado de prover ao alimento do corpo, à sua segurança, ao seu bem-estar, força-o naturalmente a empregar suas faculdades em investigações, a exercitá-las e desenvolvê-las. Desse modo, sua união com a matéria é útil ao seu adiantamento, e é por isso que a encarnação é uma necessidade. Além disso, pelo trabalho inteligente que ele executa em seu proveito, sobre a matéria, auxilia a transformação e o progresso material do globo que lhe serve de habitação. É assim que, progredindo, colabora na obra do Criador, da qual se torna fator inconsciente. (KARDEC, 2013, p. 184).

Nos casos em que a morte do corpo físico decorre de causas naturais, atribuídas ao esgotamento do fluido vital, a separação do corpo físico pode ocorrer de maneira tranquila segundo a explicação dada pela espiritualidade no Livro II, Capítulo III de “O Livro dos Espíritos” em resposta a um questionamento sobre o momento da separação entre alma e corpo:

“Frequentemente o corpo sofre mais durante a vida do que no momento da morte: neste a alma nada sente. Os sofrimentos que se experimentam algumas vezes no momento da morte são um prazer para o Espírito, que vê chegar o fim de seu exílio. Na morte natural, a que ocorre pelo esgotamento dos órgãos em consequência da idade, o homem deixa a vida sem o perceber, é uma lâmpada que se apaga por falta de energia” (KARDEC, 2018, p. 152).

Essas considerações levam ao entendimento de que o fluido vital está diretamente relacionado com o funcionamento dos órgãos do corpo físico. Disso decorre a compreensão de que a morte por causas naturais ocorre quando essa reserva de energia se esgota: “Os corpos orgânicos seriam então verdadeiras pilhas elétricas, que funcionariam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em condições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar quando tais condições desaparecem: é a morte. Segundo essa maneira de ver, o princípio vital não seria mais que uma espécie particular de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se desprende pela ação dos órgãos, sua produção cessa por ocasião da morte, por se extinguir tal ação.” (KARDEC, 2013, p. 169).

O medo do desconhecido e do sofrimento é o principal motivo pelo qual os seres humanos temem o momento do encerramento da existência terrena. Esse temor poderia ser menor, caso a todos fosse garantida a possibilidade de uma passagem tranquila para o plano espiritual, conforme descrito acima. É de se considerar que a morte por causas naturais, em tais condições, possa constituir um objetivo a ser alcançado, pois certamente resultaria em uma sensação de “dever cumprido”. Essa tranquilidade poderia ser alcançada após uma vida de longevidade, possibilitada por escolhas corretas que garantiriam a saúde dos órgãos do corpo físico. A necessidade de preservação dos órgãos também é destacada pela sua relação com a atividade do fluido vital, na obra “A Gênese”: “A atividade do princípio vital é alimentada durante toda a vida pela ação do funcionamento dos órgãos, do mesmo modo que o calor, pelo movimento de rotação de uma roda. Cessada aquela ação, por motivo da morte, o princípio vital se extingue, como o calor, quando a roda deixa de girar. Mas o efeito produzido sobre o estado molecular do corpo pelo princípio vital subsiste após a extinção desse princípio, como a carbonização da madeira persiste após a extinção do calor” (KARDEC, 2013, p. 168).

Em um outro extremo, em oposição à possibilidade de uma transição tranquila do plano físico para o plano espiritual, encontram-se as vítimas do suicídio. O sofrimento experimentado pelo indivíduo que atenta contra a própria vida pode ser considerado como uma consequência do desrespeito à ordem natural dos acontecimentos, já que a morte natural está relacionada com o caráter finito do princípio ou fluido vital que anima o corpo. Entende-se que a abreviação prematura da existência, tanto no caso do suicídio quanto no caso de acidentes fatais, implica na separação traumática do corpo físico, por ocorrer em um momento no qual ainda existe uma reserva considerável do fluido vital. No caso do suicídio, ao tratar de suas consequências no Livro IV, Capítulo I de “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec apresenta as seguintes observações: “A observação mostra, de fato, que os efeitos do suicídio nem sempre são os mesmos. Alguns há, porém, que são comuns a todos os casos de morte violenta e à consequente interrupção brusca da vida. Primeiramente, é a persistência mais prolongada e tenaz do laço que une o Espírito ao corpo, laço que se encontra quase sempre em todo o seu vigor no momento em que é rompido, ao passo que, em caso de morte natural, se enfraquece gradualmente, e muitas vezes se desfaz antes que a vida seja completamente extinta. As consequências desse estado de coisas são o prolongamento da perturbação espiritual, além da ilusão que, durante um período de tempo mais ou menos longo, faz o Espírito acreditar que ainda está entre os vivos. A afinidade que persiste entre o Espírito e o corpo produz, em alguns suicidas, uma espécie de repercussão do estado do corpo sobre o Espírito, que sente, independente de sua vontade, os efeitos da decomposição, experimentando uma sensação cheia de angústia e de horror, e esse estado pode persistir pelo tempo que devia durar a vida interrompida” (KARDEC, 2018, p. 307-308).

Assim sendo, percebe-se que a manutenção do vínculo potencializa o sofrimento experimentado pelo suicida, pois além de carregar a culpa pelo gesto extremo, sente as dores que o processo de decomposição impõe ao corpo inanimado, já que nesses casos se mantém uma parcela de fluido vital não consumido. Diversas obras espíritas esclarecem quanto à variabilidade da duração desse sofrimento causado a si mesmo pelo suicida. Na obra “Suicídio – A Falência da Razão”, por exemplo, o autor Luiz Gonzaga Pinheiro esclarece que não se pode adotar uma regra geral para todos os casos, pois inúmeros fatores podem levar a diferentes conclusões para cada situação específica (Pinheiro, 2018, p.77): “Ao se suicidar, o espírito que pôs termo ao seu corpo físico, abaixa seu campo vibracional automaticamente, sendo a causa o crime cometido contra a si mesmo. Isso leva a inúmeras sensações de baixos níveis, podendo causar no espírito incríveis sentimentos de culpa, já que no mundo espiritual a consciência do ser tem voz muito mais ativa que no mundo corporal. Passa então o suicida a sofrer por muitos anos de uma culpa que corrói o seu psiquismo, de uma necessidade de autopunição que o leva à beira da loucura espiritual. Existem casos nos quais o espírito fica de tal forma alucinado, que acaba sendo presa fácil de vampiros energéticos, espíritos sombrios que se aproveitam de desgraçados errantes em sofrimento para sugar-lhes as energias residuais pós-desencarnação” (Pinheiro, 2018, p.77).

As obras estudadas ensinam que a reserva de fluido vital é consumida naturalmente com o passar dos anos, em relação direta com a energia dispendida durante as atividades cotidianas, que por sua vez demandam um bom funcionamento dos órgãos do corpo físico. A abreviação repentina da encarnação, sobretudo no caso dos indivíduos que atentam contra a própria vida gera sofrimento ao espírito, pois em situações assim não ocorre o desligamento gradual do corpo físico que ocorreria naturalmente. Não é possível afirmar qual será a duração deste período de sofrimento ao qual um suicida estará sujeito. Porém, tal período tende a ser maior do que o tempo restante para a conclusão do período de vida na terra devido ao impacto da culpa e pela possibilidade de que tais espíritos sofredores passem a estar sob domínio de outros espíritos de baixa vibração. Essa possibilidade leva mais uma vez à conclusão de que o suicídio não deve ser visto como uma solução para fugir das dificuldades, mas sim como um potencial causador de sofrimentos cuja intensidade não somos capazes de imaginar.

Andresa Küster e Rodrigo Oliveira

Fonte: Blog Letra Espírita

 Referências:

KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra da 5ª edição francesa, de 1869) 2ª ed. 1ª imp. – Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo, 1ª ed. 22ª reimpressão. Capivari-SP: Editora EME, 2018.

PINHEIRO, Luiz Gonzaga. Suicídio: a falência da razão. 2ª reimpressão. Capivari/SP: Editora EME, 2018.

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OS ALGOZES DE ONTEM E AS VÍTIMAS DE HOJE

Fernando Rossit

“Serão as vítimas da inquisição, hoje reencarnadas, as responsáveis pelos conflitos atuais do mundo?”

Vem da Idade Média o ódio de povos de várias nacionalidades, seitas e crenças religiosas contra os cristãos. E quem são os responsáveis por tudo isso? De acordo com Manoel Philomeno de Miranda, no livro “Transição Planetária”, somos nós mesmos, quando, no passado, nos autoproclamando “cristãos”, seguidores da Doutrina de Jesus, cometemos inumeráveis atrocidades contra o próximo, sob a acusação de hereges.

Vejamos alguns trechos do Capítulo 17 do livro citado:

“Em nome de Jesus, vinculamo-nos ao poder imperial, deixamos de ser perseguidos para nos tornarmos perseguidores, abandonamos a humildade, sob os mantos do orgulho e da soberba… Encontramos meios de afastar os inimigos aos quais deveríamos amar, os antipatizantes que pensávamos conquistar, os equivocados que nos cabia esclarecer, e demos início às aventuras da loucura, criando as Cruzadas, os Tribunais do Santo Ofício, as perseguições inclementes aos mouros e judeus, a todos aqueles que não compartilhavam das nossas idéias, afundando-nos no abismo das aberrações mais desastrosas. “(gg.nn)

“E martirizamos milhares de trabalhadores de Jesus nos mais diversos setores do pensamento e dos ideais, somente porque não se submetiam ao talante das nossas equivocadas determinações.”

“Na península ibérica, por exemplo, seguindo os exemplos terríveis de outros países, em nome da hegemonia católica e da fidelidade ao papa, utilizamo-nos de recursos ignóbeis para permanecermos em domínio político, religioso e cultural da sociedade, expulsando das formosas terras aqueles que chamávamos de hereges, somente porque não aceitavam o nosso Jesus. Naturalmente não O aceitavam em razão dos nossos exemplos de anticristianismo, de perversidade e de presunção com que nos vestimos para representá-lO, quando Ele se deixou dominar pelo amor, pela compaixão, pela misericórdia, pelo perdão…”

“E atualmente, o que ocorre? Não nos fazem recordar os comportamentos cavilosos a que nos entregamos no passado? É compreensível, portanto, que sejamos alvos que desejam atingir, em razão do mal que lhes fizemos, quando tivemos ensejo de ajudá-los a sair das deploráveis situações em que se demoravam. Os seus sentimentos inamistosos defluem dos ressentimentos que mantêm desde aqueles já recuados tempos, embora ainda vivos nas carnes das suas almas, que anelam por desforço e paz, que não têm ideia sequer, pensando que ela virá após atenderem a sede de vingança a que se entregam.”

“Lares e vidas foram destroçados, santuários de fé e educandários religiosos foram praticamente destruídos e a fúria da malta ensandecida, após incendiar as cidades e perseguir os sobreviventes, hasteou a bandeira da vitória onde antes tremulava a muçulmana…”

“Expulsos também os judeus, as suas sinagogas, seus lares foram destruídos, suas vidas tornadas banais e vendidas a peso de ouro, a fim de poderem permanecer depois da apostasia das doutrinas a que se vinculavam anteriormente, mudando os antigos nomes para aqueles que seriam denominados como cristãos. “

A fim de arrancar-se a confissão do infiel, eram usados todos os meios bárbaros concebíveis, incluindo-se o empalamento, a roda, a tortura da polé, e tudo quanto de hediondo a mente humana pode conceber quando enlouquecida. As mulheres eram violadas, as crianças assassinadas ou vendidas como escravas, separadas para sempre dos seus pais, os homens válidos eram igualmente vendidos, os idosos e doentes vilmente mortos após suplícios extenuantes… E dizíamos que assim nos comportávamos em nome de Jesus e de Sua doutrina…”

Significado de:

1) empalamento: é um método de tortura e execução que consistia na inserção de uma estaca pelo ânus, vagina, ou umbigo até a morte do torturado. A vítima, atravessada pela estaca, era deixada para morrer sentido dores terríveis, agravadas pela sensação de sede.

2) roda: tipicamente, a roda era nada mais do que uma grande roda de carroça com diversos raios. O condenado era amarrado a ela e seus membros, expostos entre os raios, eram quebrados com massas e martelos. O corpo despedaçado do condenado podia ficar exposto para o público.

3) polé: antigo instrumento de tortura no qual se pendurava o punido pelas mãos com uma corda e se prendia pesos de ferro nos pés, deixando-o cair com violência.

Fernando Rossit

Fonte: Kardec Rio Preto

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Culpa, Responsabilidade e o Espiritismo

Priscila Gonçalves

Algumas das definições no dicionário do vocábulo culpa entendem-se por atitude ou ausência de atitude de que resulta, por ignorância ou descuido, dano, problema ou desastre para outrem; falta, delito, erro.

Por outro lado, responsabilidade significa obrigação de responder pelas ações próprias ou dos outros; caráter ou estado do que é responsável.

Vamos entender um pouco sob a ótica Espírita sobre estes dois termos tão similares, porém tão distintos simultaneamente. Na questão 639 de “O Livro dos Espíritos” encontramos:

“639 – O mal que se comete, frequentemente, não é o resultado da posição que nos deram os outros homens? Nesse caso, quais são os mais culpáveis?

 – O mal recai sobre aquele que lhe é causa. Assim, o homem que é conduzido ao mal pela posição que lhe é dada pelos seus semelhantes, é menos culpável que aqueles que lhe são a causa, porque cada um carregará a pena, não somente do mal que haja feito, mas do que haja provocado”.

Vejamos que, quando por um determinado momento, é jogado em nossas costas um mal causado por um terceiro, somos, portanto, menos responsáveis pelo fato em si, do que pelo mal que causamos direta ou indiretamente a uma pessoa, pois, em pensamento que gerou ação, provocamos este mal.

Em outro ponto, na questão 992 também em “O Livro dos Espíritos”, temos:

“992 – Qual é a consequência do arrependimento no estado corporal?

 – Avançar, desde a vida presente, se tem tempo de reparar as faltas. Quando a consciência faz uma censura e mostra uma imperfeição, sempre se pode melhorar.”

Por apenas estes dois trechos contidos em uma das obras básicas, entendemos com perfeição que, nos culpar e nos responsabilizar são atos totalmente distintos.

A culpa nos faz vítimas de nós mesmos. Carregamos e remoemos o fardo, o ato que fez nossa consciência pesar, e esta culpa nos envenena pouco a pouco, uma vez, não conseguimos nos perdoar pela falta cometida.

Ressalto aqui, que discorro sobre culpa e responsabilidade próprias, não de terceiros que por ventura e de algum modo faltaram conosco em alguma situação seja ela de qual espécie for.

No segundo trecho onde se fala sobre arrependimento, vemos como é clara e sucinta a orientação da espiritualidade: Se arrepender, modificar o comportamento, reparar as faltas e seguir o caminho. Se o erro não pode ser corrigido por qualquer motivo, ter atitudes reparadoras é um bom caminho a seguir, uma vez que, a partir do momento que decidimos seguir os ensinamentos de Jesus, que em sua essência é a prática do Amor, este caminho pode ser trilhado e construído em bases sólidas.

Quando ouvimos que devemos ser responsáveis por nossas escolhas, e assumir as consequências dos nossos atos, entendemos as vezes que sejam as consequências boas ou ruins, ela é nossa, única e exclusivamente, intransferível.

Alguns indivíduos costumam se responsabilizar pelas falhas alheias, carregando para si o fardo da culpa, achando, erroneamente que estão fazendo um bem.

Quando, por exemplo, um pai ou mãe, assume a responsabilidade do erro do filho, e o eximi de responder por um dano causado, estes estão ensinando ao filho que sempre estarão ali para levarem a “culpa” e que a pessoa está livre para errar o quanto quiser. Pobre pensamento… Este fato, mesmo que isolado, pode causar danos irreparáveis no futuro, quando a corrigenda não ocorre no tempo e na forma devidos.

Nos responsabilizarmos pelas escolhas que fazemos, pelas atitudes que tomamos, significa entender que nada mais somos que os semeadores daquela semente que logo frutificará, e ali colheremos, seja bom ou não, e que teremos que prestar contas, seja para a sociedade ou para Deus.

Infelizmente, nossa sociedade nos condicionou por muitos séculos à autopunição quando falhamos, e mesmo que esta forma de correção não seja física como acontece em algumas culturas, com a auto flagelação e auto mutilação, somos levados a remoer, ressentir o erro reiteradas vezes até que venha o arrependimento, quando é muito mais simples e menos doloroso reconhecer para si mesmo que errou, reparar se possível, pedir perdão se possível, modificar o comportamento, entender que aquele erro resultou em consequências ruins, e seguir a vida como deve ser, sem a necessidade de se auto mutilar mentalmente.

Além do mais, algumas das consequências desta autoflagelação mental podem incluir, em certos casos, a presença de obsessores, uma vez que o estado vibracional baixa radicalmente, o sentimento tende a ser inferior, e vibrando nesta energia pouco agradável, atraímos companhias que só desejam nos ver mais e mais tristes, insatisfeitos, culpados, e podemos cometer atos de insanidade estando sob esta energia tão densa.

Então, podemos concluir que iremos sim cometer muitos e muitos erros em nossas vidas, muitas falhas conosco e com terceiros, mas, acima de tudo, nos cabe o entendimento de nos responsabilizar e não nos culpar. Carregar pesos desnecessários mais nos prejudica que ajuda, nos arrepender, e mudar nossa forma de pensar e agir, aprender com o erro, e seguir a vida, e não estagnar em cima da culpa, e sempre, como receita infalível, confiar mais em nossos Benfeitores espirituais e em Deus.

Priscila Gonçalves

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Capivari SP: EME, 2019. https://michaelis.uol.com.br/busca?id=OWQE

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CONVITE A INTERDEPENDÊNCIA

Fernanda Oliveira

Muita gente boa não percebeu que essa crise sanitária foi um convite a interdependência, em um mundo que anda tão permeado de individualismo, um nome gourmetizado do velho egoísmo.

Na década de 1980 (1986, mais precisamente) relançaram nos EUA e também no Brasil, o seriado “Além da imaginação” (Twilight Zone), original de 1959, uma criação de Rod Serling e, nessa nova roupagem (já teve outras reedições, inclusive uma dos tempos atuais na Amazon Prime), havia um episódio assustador, com o nome original “Button, Button”, e que veio a ser convertido em um filme chamado “A caixa”, datado de 2009, estrelado por Cameron Diaz.

Nesse episódio, um estranho presenteia um casal com uma caixa com um botão na parte superior, prometendo que, se eles o apertarem, irão receber uma grande quantia em dinheiro. Mas, ao apertar o botão, alguém que eles não conhecem irá morrer. Um mote de gelar a espinha que, para ilustrar o tema do presente artigo, vamos desenvolver com um pouco de spoilers, dado o tempo distante de exibição do mesmo.

O dilema moral consome todo o episódio. Os protagonistas jogam a caixa fora, mas no outro dia ela aparece na porta da frente de novo. E por fim, após grande conflito, eles apertam o botão, e no dia seguinte, surge novamente o misterioso homem de outrora, pegando a caixa de volta e entregando a eles uma vultosa soma em dinheiro. Ao indagarem o homem sobre o destino da caixa, este responde que ela será entregue a alguém que eles não conhecem.

“Fora a noite mal dormida depois de ter assistido esse episódio na minha juventude, ele trouxe uma profunda reflexão, que foi resgatada agora, nesse período da crise sanitária derivada do Novo Coronavírus. O sagaz episódio trata da interdependência que nos vincula, enquanto espíritos encarnados, e que emerge com força agora com a pandemia da Covid-19. Trata, enfim, da solidariedade.”

Sim, pois essa pandemia (como outras da história), apesar de ser evitada pelo isolamento social, exige que saiamos de nossa individualidade para adotar pactos coletivos entre as pessoas e que impeçam a proliferação do vírus. Assim, ao nos comprometermos a reduzir a nossa circulação, a usar máscaras e álcool em gel, percebemos que esses ritos só têm efetividade na adoção destes por uma grande maioria.

Da mesma forma, a solução para essa pandemia, como em outras – a vacinação – não é uma questão individual e sim coletiva, pois a proteção efetiva só ocorre quando uma parte significativa da população está imunizada. Uma realidade na qual importa a vacinação geral e não a vacinação de uma pessoa apenas com a vacina A ou B, como têm defendido os pesquisadores.

Para além de esvaziar argumentos dos chamados “sommeliers de vacina”, essa discussão da crise sanitária se assemelha a lógica da Caixa do Twilight Zone. O homem misterioso oferece um benefício que depende de uma escolha, mas essa escolha pode afetar alguém que você não conhece. Mas, esse alguém amanhã pode ser você!

Da mesma forma, o contexto de prevenção da Covid-19 nos convidou a escolhas, que poderiam nos trazer o benefício imediato, como desprezar protocolos sanitários, mas que poderiam prejudicar alguém que não conhecemos. E esse mal nos atingiria, em algum momento, seja pela doença ou por outras consequências advindas desta, em um verdadeiro circuito fechado.

“Muita gente boa não percebeu que essa crise sanitária foi um convite a interdependência, em um mundo que anda tão permeado de individualismo, um nome gourmetizado do velho egoísmo. Tão ocupados com as nossas questões, nos vimos obrigados a pensar no coletivo, como foi com a varíola, que causou a revolta da vacina no Rio de Janeiro, em 1904. Aliás, a varíola, chaga mortal, só foi erradicada do planeta em 1980, quando houve uma articulação dos países para o seu combate, inclusive nos bolsões de pobreza em muitos países.”

A Covid-19 é uma doença terrível, mortal, e no Brasil e no mundo acumula mazelas na grande quantidade de óbitos, sem contar os problemas derivados das sequelas e dos reflexos sociais, em um universo de grande desconhecimento da extensão dos males derivados dessa enfermidade. Cabe a nós se solidarizar pelas vítimas e trabalhar para a sua efetiva erradicação.

Mas, é inconteste que a solução das mazelas desse vírus passam pelo resgate da interdependência, da percepção de que cada espírito encarnado é um irmão de jornada, de que cada país é parte do mesmo planeta, e que o nosso agir será efetivo não somente para nos resguardar, mas também para proteger uma pessoa que não conhecemos. Uma pessoa que amanhã pode ser a gente.

Fernanda Oliveira

Fonte: Portal Casa Espírita Nova Era

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DESAFIOS DA EXISTÊNCIA HUMANA

Divaldo P. Franco

O curso da existência humana é assinalado pelas conquistas do dia a dia.

A busca do que se denomina felicidade é, sem dúvida, a que todos aspiramos.

A multiplicidade de roteiros, seja do ponto de vista ético, seja do sociológico e comportamental, nem sempre permite as escolhas corretas para o êxito. Por mais bem desenhada que seja a jornada, no entanto, ela é constituída de surpresas perturbadores que exigem cuidados especiais, nem sempre utilizados no momento adequado.

É por essa razão que em existências róseas, perfumadas pelas bênçãos, de um instante para outro altera-se a paisagem com insucessos inesperados, situações asfixiantes, problemas na área da saúde e do comportamento.

Não preparados para tais acontecimentos, o indivíduo que supunha jamais terminarem as opções formosas entrega-se à rebeldia, ao desespero, quando não às fugas psicológicas perigosas, usando drogas perversas e deixando-se arrastar pelo pessimismo, tombando em efeitos mais danosos.

No sentido oposto, em pessoas que nasceram em redutos de abandono, sofreram na infância e na juventude, de repente surgem-lhes oportunidades saudáveis e compensadoras, transformando dificuldades em conquistas valiosas, e sofrimento em paz.

Naturalmente que uma transformação de tal natureza exige conduta muito segura, a fim de converter incertezas em segurança, podendo contribuir para o próprio e o progresso da sociedade.

Eis por que se cunhou o conceito: Não há felicidade que sempre dure, nem desgraça que um dia não se acabe.

Infelizmente, a escala de valores que se apresenta em toda parte é portadora de ambições desmedidas, interesses pelo prazer veloz a qualquer preço, não se oferecendo lucidez para a conduta responsável e a busca da vivência equilibrada e honesta.

A cada instante o carro da morte conduz milhares de viajantes liberados do corpo, e os que sobrevivem pensam na imortalidade do corpo, acreditando-se invulneráveis à desencarnação.

Esse ledo engano contribui para que as desgraças sejam mais recordadas que as bênçãos, e os sentimentos vis predominem no cardápio das aspirações.

Desse modo, torna-se indispensável que, seja qual for a situação em que cada um se encontre, haja a reflexão em torno da impermanência do corpo, da rapidez com que se passa a existência e amealhe-se valores morais, mediante comportamentos compensadores pelo amor e pela fraternidade.

A existência física é, quase sempre, aquilo que se faça dela.

Começa agora a tua reflexão e pensa no amanhã, apoiando-te nos exemplos de mulheres e homens valorosos que se tornaram modelo de felicidade, por haverem construído um mundo melhor para todos.

Alegra-te com a tua existência e torna-a melhor a cada dia, valorizando os bons e os maus momentos da evolução.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 08/07/21

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