CULPA E ESPIRITISMO

Marisa Fonte

– Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro:

“Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?”

– Respondeu-lhe Jesus:

“Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.” (S. MATEUS, 18:15, 21 e 22.) – O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo 10

Perdoemos sempre. E como disse o nosso Mestre, Jesus, não sete vezes, mas até setenta vezes sete. Essa é uma atitude realmente nobre, pois muitas vezes o outro erra conosco simplesmente por desconhecer uma forma diferente de fazer as coisas. Mas, será que aplicamos esse mesmo ensinamento de Jesus a nós mesmos? Será que perdoamos as nossas faltas ao menos sete vezes a fim de não vivermos nos acusando por havermos feito coisas das quais nos arrependemos e por causa das quais muitas vezes amargamos uma existência inteira de infortúnio? Será que perdoarmos a nós mesmos é difícil? Tudo indica que sim, pois a multidão de seres que se arrastam pela vida carregando culpas por vezes inexistentes e sempre inúteis é bem numerosa.

Por um lado, é o desconhecimento de como se fazer de modo diferente ou de como fazer melhor que nega a nós mesmos o perdão. Outras vezes é a falta de olhar para si usando da mesma compaixão que se aplica ao nosso próximo que nos impede de oferecermos a nós mesmos o tão necessário perdão das nossas faltas. E lá vamos nós carregando um fardo muito maior do que aguentamos levar, colocado em nossas costas por nós mesmos, que sem analisarmos os fatos simplesmente nos julgamos e condenamos, ou – ainda pior – muitas vezes apenas nos condenamos e sem qualquer julgamento ou análise, a carregar miseravelmente uma culpa que nunca deveria estar nas nossas costas.

A culpa é, na verdade, algo que nasce por entendermos que alguém errou, e, normalmente, não se para a fim de entender que cada um oferece apenas aquilo que possui. Ora, se eu errei foi por não saber fazer de modo diferente, ou por pensar que estava fazendo o mais acertado, uma vez que segundo o meu entender aquele era o melhor a fazer naquele momento.

Todos nós temos um lado chamado de sombra, que fica oculto no nosso inconsciente. Essa ideia da sombra foi desenvolvida pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), e podemos definir a sombra como o lado da nossa personalidade que engloba tudo o que julgamos negativo, seja por pensarmos assim, seja por aprendermos assim. Dessa forma, raiva, ciúme, inveja, entre outros sentimentos, ficam ocultos em nós, e a culpa por sentirmos coisas consideradas erradas ou menos nobres começa a pesar na nossa vida, assim como coisas que sabemos que poderíamos ter feito melhor, mas não sabíamos como, ou coisas que outros julgam que deveríamos ter feito de outro modo, mas que também não fizemos por não sabermos na ocasião, agir de modo diferente. O fato é que não podemos contentar a todos, e se indagarmos a várias pessoas sobre como teriam agido em nosso lugar, muitas teriam feito exatamente como fizemos e outras teriam agido de forma totalmente distinta.

Para muitos, esse lado sombrio é sinônimo de algo ruim de que não queremos nos lembrar, ou que evitamos reconhecer que temos. Porém, é preciso reconhecer esse lado da nossa personalidade, a fim de que possamos olhar tudo de frente e controlar e também equilibrar essas “qualidades negativas” que escondemos às vezes até de nós mesmos, e que se rejeitamos pode eclodir em algum momento da nossa vida.

E o sentimento de culpa? Ele também faz parte desse nosso lado sombra. E como lidar com esse sentimento nocivo? Antes de qualquer coisa, pare de se deixar sentir culpado, pois a culpa é o idealismo, o “eu deveria”. Nós erramos por ignorância, pois ignoramos como fazer de modo diferente. Concorda que se soubesse teria feito diferente? Pois é, fez como soube, como acreditou que seria melhor na ocasião. E, vamos parar de usar aquela ideia que sempre nos vem à mente quando sentimos que gostaríamos de ter feito diferente: “se eu soubesse teria feito diferente”. Aí está. Não sabia, não fez, fez o que soube, e é impossível voltar ao passado para mudar qualquer coisa. O importante é aprender com as lições e fazer melhor daqui em diante usando a experiência e o conhecimento que adquiriu. E aceite que haverá de errar ainda muitas vezes no decorrer da vida. E aqui cabe dizer que não falamos de erros absurdamente grandes, mas até de simples “foras” que damos a todo o momento. Então, aprenda a se perdoar e tenha a humildade de aceitar que não sabe tudo.

Segundo os preceitos espíritas, há duas causas psicológicas da culpa: a que procede da sombra escura do passado devido a males praticados contra outras pessoas e a que tem a sua origem na infância.

O espírito Nise da Silveira, diz que precisamos utilizar a culpa para o nosso crescimento. Segundo ela, é preciso reconhecer a culpa, arrepender-se e de, pois se transformar. Portanto, é preciso refletir e agir.

Concluindo, o primeiro passo para se livrar do peso da culpa é aceitar você sem se deixar sentir errado/a. Se insistir em sentir culpa a energia gira contra você. Então, seja melhor para você e dê força para você! Aceite os seus pontos fracos, assuma o seu poder e procure melhorar os seus pontos fortes e fortalecer os pontos fracos. Siga a sua intuição, o seu eu interior e a sua essência espiritual. Seja verdadeiro/a com você e assim se torne imune ao mal. Essa é a sua melhor proteção e a sua melhor defesa.

Fique do seu lado sempre, pois se ficar contra você, qual a reação que espera que os outros tenham em relação a você?

Marisa Fonte

Fonte: Blog Letra Espírita

Referências:

  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução e redação final de Matheus Rodrigues de Camargo. 43ª Reimpressão. Capivari-SP. Editora EME. 2019.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo espírito Emmanuel, psicografia, edição FEB
  • NORONHA, Iraci Campos. Reconstruindo Emoções. Pelo espírito Nise da Silveira, psicografia, Consciência/Intelítera
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DETERMINISMO E LIVRE-ARBÍTRIO

Rogério Miguez

“Então veio a mim a palavra do Senhor: […] No momento em que eu falar acerca de uma nação, ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe.

E no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar e plantar, se ela fizer o que é mal perante mim, e não der ouvidos à minha voz, então me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.” (Jeremias, 18:7 a 10).

* * *

Tanto o futuro do homem quanto, especialmente, o da Humanidade estão criptografados nas profecias de origem divina, contidas na Bíblia Sagrada e proferidas por Jesus e seus emissários, os profetas. Algumas são de cunho determinístico e terão fatalmente que se realizar, como o declarou o Cristo em Mateus, 5:17 e 18, enquanto o cumprimento ou não de outras, como visto na epígrafe, está subordinado ao procedimento coletivo do ser humano, no emprego inviolável de seu livre-arbítrio.

Para o escritor Grove Wilson (1883-1954) – Newton, Kepler e Galileu formavam “o trio que havia forçado o Sol e as estrelas a contarem aos homens sua verdadeira história”.

Se trabalharmos também com dedicação e afinco, convenceremos as profecias a nos descerrarem seu seio e entregarem o ouro que tão zelosamente guardam no escrínio de sua intimidade.

Entrando diretamente na questão, coloquemo-la da seguinte forma: se o futuro está determinado e, por isso, pode ser previsto, então há um determinismo ou fatalismo, traçado pela Lei Divina, que pode abranger desde o minuto seguinte até os milênios futuros, tornando o homem um mero autômato no jogo da existência humana. Se isto está correto, onde fica, nesse universal e inexorável fluir, o livre-arbítrio humano? A explanação de Sua Voz, mentor de Pietro Ubaldi, lança esclarecedora luz sobre a questão:

Não confundais a ordem e a presença da Lei com um automatismo mecânico e um fatalismo absurdo. A ordem, já vos disse, não é rígida, mas contém espaços de elasticidade, possui subdivisões de desordem, de imperfeição; complica-se em reações, mas permanece ordem e lei no conjunto, no absoluto.

Um exemplo: ante a vontade da Lei tendes a vontade do vosso livre-arbítrio; mas é vontade menor, contida, circunscrita por aquela vontade maior; podeis vos agitar a vosso bel-prazer, mas sempre como num recinto, nunca fora dele.

Este movimento vos é concedido, porque é necessário que, num certo âmbito que vos diz respeito, sejais livres e responsáveis e possais assim, em liberdade e responsabilidade, conquistar a vossa felicidade.

Tenho resolvido, assim de passagem, o conflito, para vós insolúvel, entre determinismo e livre-arbítrio. Estes conceitos levar-vos-ão, depois, à concepção de uma moral científica e exata (1).

O tema já permeava, com um século de antecedência, a Doutrina Espírita e foi tratado exaustivamente por Allan Kardec em várias passagens de O livro dos espíritos, mormente nas questões 259, 526, 527, 859-a e 861, bem como na 872.

Nesta última, há um abalizado estudo do mestre intitulado “Resumo teórico do móvel das ações do homem” (2).

Atrevemo-nos a apresentar uma imagem singela que, de certa forma, poderá ilustrar o argumento. Suponhamos que certo passageiro embarque numa composição ferroviária em São José do Rio Preto com destino a Campinas, 350 km adiante, como nós mesmo costumávamos fazer na década de 1970. Os pontos de origem e de destino estão previamente traçados. Ele nada poderá fazer quanto a isso. No entanto, terá liberdade, durante a viagem, para almoçar no vagão-restaurante; caminhar do primeiro ao último vagão e vice-versa, se assim o desejar; dormir numa poltrona-leito ou no carro-dormitório; ler um jornal ou uma revista e até mesmo descer em alguma estação do caminho, nas escalas para embarque e desembarque, e tomar depois o trem seguinte. E o curioso é que, mesmo caminhando dentro do trem ao arrepio do movimento deste, ainda assim o passageiro avançará para a meta, porque, para cada passo dado a contrapelo, o comboio terá avançado vários metros.

Prisão cósmica

O mesmo, em tese, ocorre com os integrantes da Humanidade, em qualquer ponto do Universo. E mesmo antes do período em que o ser passa a integrar o reino humano, naquela fase em que o princípio espiritual – ainda não Espírito completamente formado – começa a se tornar consciente de sua existência. Quando ele desperta para a realidade exterior, já se vê encaixado (sem possibilidade de fuga) nesse gigantesco mecanismo universal que o conduz inexoravelmente pela trilha da evolução à estação de chegada, que é a perfeição no Infinito.

Ele não tem competência para deter esse movimento.

Poderá, no entanto, dentro de seu respectivo âmbito de influência, ao movimentar-se desde os pródromos da volição, fluir com ele naturalmente ou então embaraçar essa fluência, postando-se contra a corrente. Neste caso, seu panorama evolutivo se afunila, ele é mergulhado em planos mais condensados do Universo, onde, constrito nessa gaiola de espaço-tempo, se vê compelido a reconquistar sua antiga liberdade por meio da reescalada à posição de origem.

Observe o habitante da Terra:

Ele está chumbado a um planeta que se movimenta a cerca de 1.700 km por hora em torno de seu eixo, 107.000 km por hora em torno do Sol e 1 milhão de km por hora em torno da Via Láctea.

O que ele pode fazer em relação a isto? Pode acaso dizer “pare o mundo que eu quero descer”?

Aprende-se mais na Doutrina Espírita: como aquele passageiro que desceu numa estação para esperar o trem seguinte, o Espírito pode até “estacionar” ali por um tempo relativamente prolongado. Mas essa atitude negativa tem limite. Aprendemos com Kardec, em nossa luminosa Doutrina, que o Espírito não degenera: pode permanecer estacionário, mas não retrograda, (3) visto que “[…] O rio não remonta à sua nascente” (4).

Esse é um dos postulados básicos da Doutrina, e esta segundo o Codificador, “[…] é inquebrantável em sua base […]”; (5) grifo nosso.

É o caso do ricaço que, numa existência, abusa egoisticamente da riqueza, como na Parábola do Filho Pródigo, e, na encarnação seguinte, renasce numa condição de miserabilidade e vai comer alfarrobas com os porcos, para aprender a valorizar os bens terrenos.

Ou do político de intelecto poderoso e verve fácil, que ilude o povo, e volta com a mente destrambelhada, ou portador de deficiência da fala, para redimensionar suas atitudes e aprender a glorificar os dons conquistados, de acordo com a Lei Divina.

Essa estagnação pode até ser mais profunda, como no caso de Espíritos que são trasladados, em exílio, de planetas superiores para planetas inferiores, naquelas épocas de seleção planetária que ocorrem periodicamente no Universo.

É, porém, muito mais de forma do que de substância.

O Espírito nada perde do que já haja conquistado, malgrado algumas províncias de seu ser psíquico ficarem temporariamente segregadas da consciência normal, numa prudente operação espiritual de prevenção de recaídas.

É o que aprendemos com as Entidades Superiores, quando Kardec lhes dirige a seguinte pergunta:

Mudando de corpo, pode o Espírito perder algumas faculdades intelectuais, deixar de ter, por exemplo, o gosto das artes?

“Sim, se corrompeu sua inteligência ou a utilizou mal.

Além disso, uma faculdade qualquer pode ficar adormecida durante uma existência inteira, se o Espírito quiser exercitar outra que com ela não guarde relação. Neste caso, permanece em estado latente, para ressurgir mais tarde.” (6) (Grifo nosso).

Enfim, conquanto tratado aqui de forma ligeira, o assunto é realmente fascinante e merece mais profundas reflexões.

Dessa forma, determinismo e livre-arbítrio não se anulam reciprocamente, como seria a primeira impressão, mas coexistem, como bem informa Emmanuel, estabelecendo que o “[…] primeiro é absoluto nas mais baixas camadas evolutivas e o segundo amplia-se com os valores da educação […]”, cumprindo-nos “[…] reconhecer que o próprio homem, à medida que se torna responsável, organiza o determinismo da sua existência, agravando-o ou amenizando-lhe os rigores, até poder elevar-se definitivamente aos planos superiores do Universo”; (7) grifo nosso.

Segue na mesma esteira o esclarecimento de Sua Voz:

Todo ato é sempre livre em suas origens; não depois, porque então passa imediatamente a pertencer ao determinismo da lei de causalidade, que impõe as reações e as consequências.

O destino, como efeito que é do passado, contém por isso zonas de absoluto determinismo, mas a este se sobrepõe, a todo momento, a liberdade do presente, continuamente aproveitável, que tem o poder de imitir [introduzir] sempre novos impulsos e, nesse sentido, corrigir os precedentes […] (8).

Rede ativo-reativa

É possível, portanto, prever que o trem que deixa a cidade rio-pretana chegará a Campinas, porque isto já faz parte de um plano pré-traçado, que não deverá sofrer alterações em sua programação.

Mas prever o que determinado passageiro fará em uma das etapas da viagem (se preferirá dormir num vagão-dormitório ou numa poltrona-leito; se descerá em certa estação ou continuará a viagem até o fim), é entrar no campo do livre-arbítrio, da aleatoriedade da conduta humana, e, nesse campo, há alguns complicadores.

Supor o homem “[…] submetido a uma fatalidade inexorável, com relação aos menores acontecimentos da vida, é despojá-lo do seu mais belo atributo: a inteligência; é assimilá-lo ao bruto [….]”, pondera Kardec. Algumas linhas à frente, porém, deslindando em parte a questão, acena com alguns vetores importantes, adiantando que se fosse fortuito o futuro, se dependesse daquilo a que se chama acaso, “[…] se nenhuma ligação tivesse com as circunstâncias presentes, nenhuma clarividência poderia penetrá-lo e nenhuma certeza, nesse caso, ofereceria qualquer previsão […]”. O verdadeiro vidente – acrescenta – “[…] apenas prevê as consequências que decorrerão do presente […]”;(9) (grifo nosso).

Então, a dedução lógica é que passado, presente e futuro estão entrançados de tal forma numa complexa rede ativo-reativa que, numa certa porcentagem, a Humanidade será induzida a agir hoje sob a regência preponderante do lastro resultante de suas ações do passado, assim como projeta no futuro tendências e atitudes decorrentes de suas atividades do presente.

A previsão de tais fatos nos leva à cena do homem sobre a montanha (de que se vale o Codificador no citado capítulo), o qual tem uma visão abrangente do que ocorre na campina e, por isso, pode tomar certas providências, fazer determinadas revelações, antecipar o conhecimento de acontecimentos que estão fora do ângulo de visão dos habitantes da planície. Suponhamos, agora, que esse homem hipotético fosse o próprio Deus, ou seus mais altos Emissários, e aí teremos a gênese das coordenadas subjacentes que estabelecem as profecias.

Dizer, portanto, que o trem chegará a Campinas é o mesmo que dizer que a Humanidade atingirá a perfeição – e isto é determinismo.

Não é, porém, um determinismo inflexível quanto ao tempo de sua realização, mas elastecível, na medida em que a volição dos Espíritos e dos homens pode apressar ou retardar a sua consecução, conforme a previsão constante no Planejamento Divino – e isto é livre-arbítrio.

Essa providencial elasticidade do determinismo divino pode ser vista na resposta obtida por Kardec em uma de suas importantes consultas às Entidades Superiores:

  1. – Disseram os Espíritos que os tempos são chegados em que tais coisas [acontecimentos sociais graves] têm de acontecer: em que sentido se devem tomar essas palavras?
  2. – Em se tratando de coisas de tanta gravidade, que são alguns anos a mais ou a menos?

Elas nunca ocorrem bruscamente, como o chispar de um raio; são longamente preparadas por acontecimentos parciais que lhes servem como que de precursores, quais os rumores surdos que precedem a erupção de um vulcão. Pode- -se, pois, dizer que os tempos são chegados, sem que isso signifique que as coisas sucederão amanhã. Significa unicamente que vos achais no período em que se verificarão (10). (Grifo nosso).

Em suma: a Lei Divina, em sua dupla compleição de fatalismo e liberdade, irá cumprir se de qualquer forma para aqueles que têm o que ressarcir perante a Consciência Cósmica (ou seja, toda a Humanidade), apresentando-se de forma impositiva para os recalcitrantes e resiliente para os dóceis e inclinados à obediência.

Rogério Miguez

Revista Reformador – Março 2020

rogmig55@gmail.com

Referências:

  • 1 UBALDI, Pietro. A grande síntese. 9. ed. São Paulo: Lake. cap. 7 – Aspecto Estático, Dinâmico e Mecânico do Universo, p. 41.
  • 2 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2019.
  • 3 ______. ______. q. 118.
  • 4 ______. ______. q. 612.
  • 5 ______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. ano 8, n. 2. fev. 1865. Perpetuidade do Espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2015.
  • 6 ______. O livro dos espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 7. imp. Brasília: FEB, 2019. q. 220.
  • 7 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2018. q. 132.
  • 8 UBALDI, Pietro. A grande síntese. 9. ed. São Paulo: Lake. cap. 77 – Destino – o direito de punir, p. 300.
  • 9 KARDEC, Allan. Obras póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 1. ed. 1. reimp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2011. cap. A segunda vista, it. Conhecimento do futuro. Previsões.
  • 10 ______. ______. 2a pt., cap. A minha primeira iniciação no Espiritismo, 12 de maio de 1856 (Sessão pessoal em casa do Sr. Baudin) Acontecimentos.
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ESPIRITISMO E SOCIEDADE

Marco Milani

“Se quiserdes que os Homens vivam como irmãos na Terra, não basta dar-lhes lições de moral; é preciso destruir a causa do antagonismo existente e atacar a origem do mal: o orgulho e o egoísmo.”  Allan Kardec – Obras Póstumas

A construção de uma sociedade melhor, baseada em relações justas, fraternas, em condições de liberdade e pleno desenvolvimento do indivíduo, ainda é um grande desafio para a humanidade. Essa questão não se restringe a um povo, nação ou bloco econômico, mas expande-se à maioria da população mundial, mesmo considerando-se as diversidades culturais existentes.

Obviamente ainda verificamos aqueles que permanecem sob um coercitivo isolamento cultural, refletindo o próprio estágio evolutivo em que se encontram. Desde o primeiro agrupamento familiar, passando pelas mais diferentes formas de relações políticas, sociais e econômicas, desenvolvemos as bases do conhecimento atual, orientados por um impulso evolucionista inerente ao Ser humano.

Motivação esta que não é derivada exclusivamente do processo histórico, como desejam alguns, mas é a manifestação da potencialidade do Espírito buscando a própria realização. Não cabe somente aos filósofos, economistas e sociólogos esta reflexão, visto que todos contribuem ativamente para o equilíbrio (ou desequilíbrio) social. O conhecimento formal do objeto – a sociedade – para uma análise crítica, favorece a identificação de pontos relevantes para a sua harmonia, porém nem todos estes pontos estão significativamente compreendidos.

Os séculos XVIII e XIX foram bastante fecundos em ideias e experiências nesse contexto, destacando-se a forte influência que muitos de seus pensadores legaram aos nossos dias. Naquela época, procuraram planejar e, muitas vezes, estabelecer os rumos da chamada sociedade “civilizada”, considerando principalmente as relações entre o Estado e Governo, justiça e liberdade, propriedade privada e comum, atividade produtiva e consumo. Naquele mesmo período, vozes de um outro movimento revolucionário faziam-se ouvir pelo planeta. Após séculos de dormência preparadora, aguardando a maturidade intelectual da humanidade, vigorosos sinais do mundo invisível atraíam a atenção para a sua realidade. Uma invasão das ideias espiritualistas procurava acordar os seres para este fato “admirável” nos diferentes continentes.

Não que tais fatos fossem novidade, pois a existência e comunicação com entidades espirituais constituem parte da crença de todos os povos da Terra, desde os primórdios da civilização até hoje. Esta comprovação é realizada pela Antropologia, considerando ainda que esta crença é a base de toda a filosofia das religiões. Porém, o entendimento destes fatos é que demandam um despertar intelectual.

Em 1857, vivenciando uma Europa onde fervilhavam projetos de transformações socioeconômicas e discussões de âmbito religioso, que uma das mais poderosas propostas para o desenvolvimento humano já vista surge de maneira clara, objetiva e lógica: a Doutrina dos Espíritos, por Allan Kardec. O advento do Espiritismo permitiu que o Espírito, elemento fundamental não considerado adequadamente nas demais doutrinas espiritualistas e ideologias políticas, sociais e econômicas florescentes, fosse abordado. Os preceitos cristãos revitalizaram-se sob o aspecto racional da doutrina que aproxima a ciência, filosofia e religião, desenvolvendo de forma límpida a essência moral dos ensinamentos de Jesus.

É justamente o conhecimento da realidade espiritual e de todas as suas consequências morais que norteia o comportamento de qualquer componente de uma sociedade para que essa possa apresentar, de fato, as condições propícias para a felicidade individual e coletiva. A Doutrina Espírita causa a verdadeira revolução, pois atinge a base do pensamento humano, a naturalidade do próprio ser e sua relação com a realidade que o cerca. Modificando essa concepção, os valores morais são revistos e toda noção de sociedade é logicamente alterada (não destruída, mas aprimorada). Trata do aspecto social de maneira profunda, destacando a necessidade de que a real transformação ocorra no coração do Homem, combatendo com a fé raciocinada os maiores inimigos do progresso: o orgulho e o egoísmo. Com muita pertinência, invalida qualquer tentativa de imposição ao comportamento fraterno como aquele pretendido por governos autoritários, considerando que a fraternidade é resultado do aprimoramento moral e não de medidas governamentais. Valoriza a educação do indivíduo como fator transformador, conscientizando sobre o processo evolutivo do Ser. A liberdade e a meritocracia são as características esperadas de uma sociedade formada por cidadãos responsáveis e que se respeitam. Não há progresso sustentável sem a confiança e o investimento no presente para as gerações futuras, marchando com a certeza do bem-estar resultante dos atos equilibrados. Atos estes que são efetuados com coragem, determinação e uma fé inabalável, fundamentada na razão e na moral.

Neste final de século XX, percebemos que o impacto cultural gerado pelas novas formas de integração socioeconômicas (globalização) propicia um momento reflexivo de valores nunca antes alcançado. O acesso à informação e ao conhecimento deixa de ser privilégios de poucos para tornarem-se acessíveis a um número cada vez maior de pessoas em diversas nações. Depois de verificarmos o fracasso de sistemas políticos e econômicos que se escondiam sob a máscara da igualdade e justiça social, mas que procuravam impor seus preceitos pelo autoritarismo brutal, ainda nos deparamos com sérios problemas estruturais em âmbito mundial: desemprego, fome, analfabetismo, desrespeito aos direitos humanos etc. Imperceptível para alguns e muito lenta para outros, a perseverante transformação moral do planeta está em curso, decorrente da própria evolução do Ser. Espalham-se pelo mundo valorosos indivíduos e organizações de diversas crenças visando atenuar ou eliminar os desequilíbrios expostos, incentivando o progresso humano. Organizações de âmbitos religiosos, políticos, econômicos, civis etc. Mesmo que nem todos estejam conscientes do processo evolutivo do Espírito, todas as ações são meritórias se agem com sinceridade para alcançar esse objetivo, sem preconceitos ou violências de qualquer espécie.

Porém, desde a sua codificação, a Doutrina Espírita lança suas luzes de forma cada vez mais intensa, libertando consciências dos grilhões da ignorância que entravam o crescimento da Alma. Enquanto ideias e movimentos fragilizados não resistem ao tempo, a sua força reside na solidez de seus princípios. É a liberdade de consciência, o desenvolvimento pelo mérito e a convivência fraterna e ética pelo esclarecimento sobre a realidade espiritual e leis naturais que o Espiritismo busca promover.

Marco Milani

Fonte: Agenda Cristã

Notas do editor:

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SERVE-NOS O HUMANISMO DE KARDEC?

Marcelo Henrique Pereira

Como se formou o pensamento de Rivail-Kardec e como ele pode ser resgatado e aprofundado na contemporaneidade

O Professor francês Rivail, na França do Século XIX, hauriu grande parte do seu conhecimento, naquela existência (encarnação), a partir da orientação (teórico e prática) no Instituto de Yverdon (Suécia) com Pestalozzi. Pode-se dizer, assim, que o Humanismo, enquanto corrente filosófica, foi essencial na formação daquele homem que, depois, veio a ser o responsável direto pela introdução dos conhecimentos espirituais sistematizados (Espiritismo) para a Humanidade.

Em que consistia, pois, o Humanismo de Kardec? Quais suas bases filosóficas? Como foi aplicado em relação às práticas espíritas?

Em linhas gerais, o Humanismo foi um conjunto de ideias, nascidas antes e durante o Renascimento, cujo escopo era a valorização das ações humanas e dos valores morais (como justiça, respeito, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc.). Sua configuração partiu do antropocentrismo, com o homem no centro do pensamento filosófico, resgatando alguns conceitos da cultura clássica antiga (sobretudo dos gregos), com destacada valorização dos direitos humanos e das expressões de cidadania. Para o Humanismo o homem é o centro de interesse e é em torno dele que tudo acontece.

Os ideias e valores humanistas acham-se presentes na obra de Allan Kardec como um todo e fundamentam os princípios e os elementos da Doutrina dos Espíritos, que ele fundou, sistematizou e difundiu, na segunda metade do Século XIX. Os elementos fundantes e originários de tal doutrina permanecem válidos e atuais, em termos teóricos, mesmo considerando que grande parte dos que se afiliam ao chamado “movimento espírita”, fundando, dirigindo, participando em funções e atividades ou, ainda, apenas frequentando instituições espíritas (associações civis), no Brasil e em outras partes do mundo, não sejam totalmente fiéis nem aos conceitos e teorias, nem às práticas e roteiros de atividades introduzidos e recomendados por Kardec.

“O Humanismo se opõe, frontalmente, ao Deísmo, porque coloca o ser humano no centro das realizações (materiais e espirituais) do Planeta, e salienta cada um dos avanços das sociedades em busca do aperfeiçoamento (material e espiritual) e a necessidade de mudanças (progresso) do Direito e das sociedades. O já citado antropocentrismo, assim, substitui a primazia pelo teocentrismo, escopo de todas as religiões deístas.”

Na estruturação da Doutrina dos Espíritos, ao dialogar com as Inteligências Invisíveis, Kardec trabalha em dois contextos muito claros. Primeiro, o da ambiência terrena, material, da vida encarnada, contextualizada naquele momento histórico, fazendo análises detalhadas e aprofundadas de várias questões sociológicas, políticas, pedagógicas, associativas, entre outras. Analisa a sociedade vigente e projeta as futuras, neste orbe. Segundo, com as informações de Espíritos que já se encontram em outras posições na “Escala Espírita”, trata da realidade (espiritual e material) futura, como a projeção do progresso individual e coletivo da Humanidade terrena. E, com isso, influencia decisivamente no quesito participação, isto é o compromisso dos humanos (encarnados) na transformação social, a partir da individual, um dos objetivos finalísticos da própria Doutrina.

Então, ao nos debruçarmos sobre a proposta de Kardec (Espiritismo), em face da conjuntura planetária do Século XXI, torna-se oportuno perguntar se os conceitos e fundamentos do Espiritismo, vinculados ao Humanismo, estão conformes à atualidade planetária e o que é possível fazer, em termos de ações possíveis, para retomar o Humanismo de Kardec e aperfeiçoar as atividades e intenções do chamado “movimento espírita”.

“O Humanismo Espírita, então, tem a ver com a implantação do “Reino”, ou seja, concretizar, pela ação dos Espíritos encarnados, um estágio mais adiantado de vida em Sociedade, onde a Justiça Social já é realidade. Em muitas passagens da chamada Codificação Espírita, Kardec e os Espíritos Superiores dissertam sobre ela, quer no aspecto negativo, quando Kardec e os Espíritos dissertam acerca das injustiças e limitações do nosso organismo social humano, quer no positivo quando prescrevem um estado futuro, em planos mais adiantados, no qual as ações humanas já se achariam melhor adequadas aos ditames das Leis Morais (que são explicitadas na parte terceira de “O livro dos espíritos”), quer, ainda, subjetivamente, quando são analisadas situações pontuais egressas da conduta dos Espíritos, encarnados ou desencarnados, a partir das perguntas de Kardec.”

Assim, as inteligências já despertas devem empreender todo e qualquer esforço – teórico ou técnico e prático – para o aperfeiçoamento da Sociedade, dentro da missão espiritual que cada individualidade tem para consigo mesmo, em relação ao(s) seu(s) semelhante(s) e para com o todo. O teórico ou técnico deriva dos estudos científicos e da promulgação de leis “melhores”; o prático compreende um rol de ações individuais e coletivas, para acelerar o progresso social.

O Espiritismo, Humanista que é, como doutrina filosófico-científica com consequências morais, concebe então uma ética espírita baseada nos valores de solidariedade, fraternidade e Justiça Social. Aos espíritas de nossos dias, compete a atribuição de contribuir para a instauração de um novo padrão de relações humanas, capazes de ensejar beleza na convivência humana e alcançando questões essenciais que gravitam em torno da satisfação das necessidades materiais e espirituais dos homens, a partir de um outro referencial de valores, o espiritual.

Trabalhar para a concretização desta Sociedade Justa, portanto, deve privilegiar a preocupação para amenizar as desigualdades sociais, permitindo o acesso aos direitos básicos (dignidade humana, educação, saúde, trabalho, moradia, acesso à justiça, etc.), por meio de políticas públicas e não pelo mero assistencialismo e clientelismo, primando, inclusive, pela transparência das ações governamentais, com a divulgação de recursos empregados e ações materiais realizadas, sobretudo na direção de pessoas e comunidades consideradas socialmente vulneráveis.

O Projeto Social Espírita, assim, é dialógico porque permite que todos os atores sociais dialoguem entre si, conhecendo dificuldades e problemas e laborando por superá-los. É humanista, porque está centrado na figura humana, o agente e objeto de todos os esforços e iniciativas em favor do progresso e, com ele, do atingimento da justiça. É livre-pensador, porquanto seja despido de preconceitos e dogmas, que poderiam particularizar entendimentos, permitindo que o entendimento espiritual, amplo e completo, referencie a busca pela erradicação das injustiças.

“Kardec aponta o norte para este percurso quando, ao dissertar sobre “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, em “Obras Póstumas”: “destruí nas leis, nas instituições, nas religiões, na educação, até os últimos vestígios, os tempos de barbárie e de privilégios, e todas as causas que mantêm e desenvolvem esses eternos obstáculos ao progresso, que se recebe, por assim dizer, desde a meninice e se aspira por todos os poros na atmosfera social; só então os homens compreenderão os deveres e benefícios da fraternidade; então, também, se estabelecerão por si mesmos, sem abalos e sem perigo, os princípios complementares da igualdade e da liberdade”.”

Os espíritas, destarte, imbuídos do Humanismo Espírita, devem agir e influenciar os não-espíritas, sem qualquer intenção proselitista, mas pela “força das ideias e das ações”, propugnando e materializando as mudanças de estrutura e da própria ordem social, a partir da noção de justiça dada pela reencarnação, mas, no plano material, atribuindo a cada indivíduo o dever de auxiliar o seu semelhante e eliminar quaisquer diferenças existentes, por meio de uma prática social efetiva e permanente.

“É por isso que se diz, ao conhecer a essência da proposta espiritista, que todos os espíritas comprometidos com a construção de uma sociedade socialmente justa e fraterna, acham-se seriamente preocupados com os destinos (físicos, materiais) da Humanidade e mantêm a capacidade mobilizadora da indignação e da solidariedade capaz de direcionar esforços para, com a fundamentação crítica da Doutrina dos Espíritos. Engajam-se, deste modo, os espíritas em movimentos e iniciativas voltados à luta para superar este perverso modelo social, substituindo-o, aos poucos e perseverantemente, por um melhor e mais ajustado aos reais propósitos da encarnação neste orbe.”

A chamada “Revolução Espírita” permite que se penetrem as bases do comportamento humano resultando na revisão de princípios morais, para promover, adiante, a revisão completa dos princípios jurídicos, econômicos e sociais. Desta revisão, que fará concretizar uma Justiça Social material, advirá a futura Justiça Social Espiritual.

Neste sentido, vale ponderar acerca de nossa efetiva participação na construção de uma Nova Sociedade. A organização social, este tecido formado por linhas que são as individualidades encarnadas, precisa refletir o grau de adiantamento (progresso) dos seres que a compõem e, neste contexto, devem os espíritas se adiantar, em posição de proeminência e organização para, com a visão aclarada que o Espiritismo propugna, criar, manter e aperfeiçoar mecanismos e ferramentas de inclusão, acolhimento, proteção e promoção de todos os seres nela inseridos. Em uma palavra: sejam garantidos os direitos elementares do homem e a cidadania, pilares essenciais de uma Sociedade Justa e Fraterna.

Não é outra, senão essa, a proposta do Humanismo de Kardec, ou do Humanismo Espírita.

Teoricamente, então, estamos prontos, suficientemente embasados e motivados para a implantação da Justiça Social na Terra. O que nos falta, então, na prática?

Marcelo Henrique Pereira

Fonte:  Porta Casa Espírita Nova Era

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COMO IDENTIFICAR PESSOAS DE MAU-CARÁTER

Josie Conti

O que é caráter?

Caráter é um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo. É um feitio moral. É a firmeza e coerência de atitudes.

O conjunto das qualidades e defeitos de uma pessoa é que vai determinar a sua conduta e a sua moralidade, o seu caráter.

O que é falha de caráter:

As falhas de caráter são características naturais do ser humano. Errar faz parte do desenvolvimento e é graças aos erros que muitas de nossas aprendizagens, e mesmo evolução como pessoas, acontece. A falha está relacionada com consciência e busca sincera por mudanças.

E o que é FALTA de caráter:

A falta de caráter é percebida quando, mesmo errando repetidamente com os outros, causando prejuízo a terceiros, e ferindo sentimentos através de manipulações e mentiras, a pessoa insiste no ato. A falta de caráter é característica de pessoas com baixa consciência moral, uma vez que essas pessoas não objetivam melhorar, pelo menos não sinceramente.

Alguns exemplos de FALTA de caráter:

1) Mentiras:

Todos nós mentimos, quer admitamos, quer não. As mentiras podem ser coisas banais do dia a dia, como dizer que vamos para casa, quando realmente não queremos sair com alguém. (nesse caso, até uma maneira de tentar abrandar um mal-estar). Mas podem ser mentiras mais graves e que envolvem consequências importantes.

Entretanto, todos estamos sujeitos a um erro grave. A diferença entre uma mentira acontecer em uma pessoa normal (cheia de falhas, mas que tem consciência), e em uma pessoa com falta de caráter, será a repetição e a não correção do ato, mesmo após ter passado por situações delicadas com as mentiras anteriores. Uma, duas mentiras são aceitáveis. Entretanto, um mentiroso (a) frequente mostra sérios sinais de falta de caráter.

2) Traição:

Longe de ser um tópico moralista, a traição pode ser entendida como falta de caráter, quando também acontece recorrentemente em uma relação em que o pacto do casal é de fidelidade. A traição também deve ser lembrada nos contextos de sociedade, no trabalho e amizade, em que o raciocínio é o mesmo: quebra de acordos e confiança.

3) Dívidas:

Uma coisa é a pessoa passar por situações complexas e que impossibilitem o pagamento de suas contas, outra coisa é a má administração do dinheiro, o consumismo desnecessário e o “comprar sem ter a intenção de pagar”. Um exemplo que deve ser observado são as pessoas que emprestam dinheiro de familiares e/ou amigos e não se veem na obrigação de pagar, aproveitando-se do vínculo afetivo existente. Mais uma vez, a falta e caráter será observada na frequência das ações.

4) Tratamento diferenciado:

O que motiva alguém a tratar bem algumas pessoas em detrimento de outras? O que pensar de alguém que só trata bem àqueles que têm dinheiro ou que podem lhe oferecer algo em troca? A arrogância, a hipocrisia e comportamento interesseiro também são, sem dúvidas, sinais de falta de caráter.

5) Manipulação:

Tentar convencer alguém a pensar ou fazer algo de maneira diferente são coisas completamente diferentes de manipular pessoas a fazerem coisas que elas, se estivessem em plena consciência de seus atos, talvez não fizessem. A manipulação é um comportamento egoísta, uma vez que tira o direito de escolha do outro, e mostra falta ou total ausência de consideração pelo outro. O manipulador sempre visa driblar vontades e regras para favorecimento pessoal.

6) Falta de palavra:

A falta de palavra pode caminhar próximo à mentira e à manipulação. Quando alguém combina algo ou assume um compromisso, a espera social é que o mesmo seja cumprido. Mais uma vez, descartando os casos isolados, uma “Palavra” quebrada com frequência oferece sérios indícios de falta de caráter.

7) Não assumir as próprias responsabilidades:

Um dos maiores sinais de maturidade que pode ser encontrado em alguém é a capacidade de assumir as próprias responsabilidades. A falta de caráter pode ser observada se uma pessoa repetidamente atribui a outros a responsabilidade por atos que deveriam ser assumidos pessoalmente, principalmente, no que se refere às quebras de regras e leis que infringem com frequência.

Nota da página: Não é por acaso que as características acima são frequentes em sociopatas, pessoas com ausência de consciência e consideração pelos outros.

Josie Conti*

Fonte: Kardec Rio Preto

*Josie Conti: Psicóloga, blogueira e empresária. Abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais e hoje trabalha prioritariamente na internet com a administração de sites e redes sociais da área da Psicologia e Literatura.

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GEMÊOS UNIVITELINOS

Ricardo Di Bernardi

Ao observarmos um par de gêmeos univitelinos constatamos a incrível semelhança dos caracteres físicos, ou seja, de seu fenótipo. Sabemos que este fenótipo semelhante decorre de ambos provirem de um “pool” de genes idênticos, ou seja, os dois provêm de um único genótipo.

Um gameta masculino e um feminino, jungidos durante o fenômeno da fecundação, formaram um único ovo que, ao se dividir em dois blastômeros no início da embriogênese, separou-se em duas células idênticas, cada qual contendo exatamente e mesma mensagem genotípica. Assim, genótipos iguais expressam fenótipos também iguais.

Conforme nossos estudos espirituais, somos informados que a cisão do óvulo fecundado, originando duas células que se desenvolvem separadamente, sucede em função da presença de duas entidades reencarnantes ligadas ao óvulo.

O magnetismo exercido pela presença dos dois espíritos á que estimula a separação das células iniciais. Sem dúvida, há uma predisposição no terreno materno que facilita o processo.

Aliás, se assim não fosse, isto é, se a separação das células originando dois corpos é que desse origem à atração a dois espíritos, haveria uma inversão de valores e a não preponderância do mundo extrafísico ou energético sobre o mundo físico ou biológico.

Desenvolvem-se os gêmeos e podemos contemplá-los na sua fantástica semelhança física. Realmente, todas as suas células são geneticamente idênticas. Também tiveram a mesma alimentação e os mesmos cuidados familiares. Conviveram no mesmo útero materno, sob as mesmas influências magnéticas e impressões mentais do meio ambiente. Possuem um cérebro com idênticas possibilidades biológicas e potenciais bioquímicos. São gêmeos idênticos.

Não há, portanto, seja por influência do meio gestacional, educacional ou fatores genéticos, alguma justificativa convincente que explique as significativas diferenças comportamentais que às vezes eles apresentam.

Hoje nós os vemos, adultos, cada qual voltado para uma área diferente do conhecimento humano. Um deles aprecia música clássica, o outro, música popular, o primeiro é voltado para a vida mais intelectual, enquanto que o segundo dedica-se à ginástica aeróbica e à educação física. Enfim, pendores peculiares que não podem ser considerados muito semelhantes.

Paralelamente, ao analisarmos pelo prisma reencarnacionista, sabemos que o ser pensante, o espírito, traz o seu patrimônio profundamente estratificado pelas vivências anteriores. Cada um passou experiências peculiares que registram em sua textura energética tendências intelecto-morais absolutamente particulares.

São dois espíritos distintos e com uma razão básica para reencarnarem sob o mesmo teto: o passado. Os vínculos do pretérito os prendiam ao mesmo núcleo familiar. Ali, encontrariam os afetos de romagens anteriores que lhes dariam o amparo necessário à sua jornada evolutiva.

Ali, voltariam a conviver com seus desafetos antigos que, sob o véu do esquecimento, teriam oportunidades de perdoar e sobretudo de amar.

Só a pré-existência do espírito poderia nos esclarecer racionalmente a razão de tão significativas diferenças entre dois indivíduos geneticamente idênticos, porém, embora anatomo-isiologicamente possam possuir as mesmas fragilidades e potencialidades a nível orgânico, psiquicamente diferem muito.

São comuns, também, os relatos de gêmeos interligados emocionalmente; embora diferentes em suas tendências psíquicas, um capta as vibrações de sofrimento e angústia do outro. Percebem, à distância, os traumas sofridos pelo seu irmão e até os registram de algum modo. As ligações de vidas anteriores que os mantinham mutuamente interligados, e tendo continuidade na gestação, permitem a rápida e fácil sintonia de ondas entre os dois. Mesmo de forma inconsciente, percebem, às vezes, as situações difíceis que o outro vivencia. Não se pode, no entanto, generalizar estas ocorrências, sob pena de se criar um mito.

Há gêmeos que não possuem esta sensibilidade e mesmo a facilidade de sintonia vibratória. Há, inclusive, gêmeos que reencarnam junto em função de dívidas mútuas e situações cármicas complexas, com envolvimento conjunto em dramas familiares.

A grande verdade é que há sempre uma razão superior e transcendental que os colocou próximos. Sobretudo, são individualidades diferentes e como tal devem ser respeitados.

Ricardo Di Bernardi

Fonte: Medicina e Espiritualidade

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O Nazismo Sob o Olhar Espírita

Rafaela Paes de Campos

Oficialmente chamado Nacional-Socialismo, o Nazismo foi uma ideologia associada a Adolf Hitler e ao Partido Nazista, sendo considerada uma forma de fascismo “que despreza a democracia liberal e o sistema parlamentar. Incorpora o racismo científico, o antissemitismo, o anticomunismo e o uso da eugenia no seu credo” (WIKIPEDIA, 2021, on-line).

Durante a Segunda Guerra Mundial, sob o comando de Hitler entre os anos de 1933 e 1945, culminou no Holocausto, o extermínio de mais de dez milhões de pessoas, principalmente de origem judia, mas também eslavos, ciganos, homossexuais, testemunhas de Jeová, opositores políticos, deficientes físicos e mentais e negros e maçons (WIKIPEDIA, 2021, on-line).

A ideologia nazista foi derrotada em 1945 e as lideranças nazistas que sobreviveram foram julgadas por seus crimes pelo conhecido Tribunal de Nuremberg, criado pelos governos dos Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética. Foi um tribunal de exceção. “Foi através do tribunal que houve uma ressignificação do direito internacional, configurando um novo modelo no sistema externo que buscou cada vez mais o acolhimento aos direitos humanos. Ele direcionou a novo caminhos processuais e estabeleceu limites no que concerne a brutalidade, crueldade e violência da guerra” (POLITIZE, 2021, on-line).

Das tantas atrocidades cometidas, trago um texto do livro “Os Fornos de Hitler’, escrito por Olga Lengyel, uma sobrevivente do período, para que se visualize as barbáries cometidas:

“Algumas vezes, escolhiam prisioneiras para as fábricas de guerra, mas em geral só selecionavam para as câmaras de gás. A cada vez, separavam de 20 a 40 pessoas para o barracão. Quando a seleção era feita em todo o campo, de 500 a 600 prisioneiros eram mandados para a morte. Os escolhidos eram no mesmo instante cercados por stubendiensts que deveriam, sob pena de sofrer castigos terríveis, evitar que fugissem. Os homens e as mulheres condenados eram levados para a entrada principal. Lá, um caminhão aguardava para transportá-los até as câmaras de gás. Quando havia superlotação nas instalações mortíferas, as pessoas eram mandadas para barracões especiais, ou para os lavatórios, e esperavam ali por horas, por vezes dias, até chegar a hora de serem asfixiados. Tudo feito com muita ordem, sem qualquer sentimento de compaixão por parte dos nossos captores. Além das chamadas, havia outro evento denominado zahlappel, que acontecia dentro do barracão. De repente, o local era isolado e o médico-chefe da SS, assistido por uma médica responsável pelas deportadas, também ela uma prisioneira, entrava e se preparava para fazer seleções adicionais. As mulheres recebiam ordens de remover os trapos. Então, com os braços erguidos, desfilavam diante do dr. Mengele. Não faço ideia do que ele via naquelas figuras alquebradas. Mas escolhia suas vítimas. Ordenavam que subissem num caminhão e eram levadas dali, completamente nuas. Esse espetáculo era sempre trágico e humilhante. Humilhante para as pobres sacrificadas e para toda a humanidade. Porque aquelas criaturas desgraçadas levadas para abatedouros eram seres humanos – como eu e você” (LENGYEL, 2018, p. 53).

Não é necessário dizer que, sob um olhar Cristão, trata-se de um período e de um pensamento totalmente repreensíveis, abjetos e sem qualquer justificativa. Não há defesa para embasar o ato de tirar a vida de uma pessoa, que dirá causar um genocídio como ocorreu nessa triste época da história humana.

A guerra demonstra de forma inequívoca a predominância da natureza animal do homem, que tem como seu guia as paixões desenfreadas. Em tempos onde a barbárie é dominante, vale a lei do mais forte e, para quem vê na guerra as justificativas de seus desejos, esse é um estado normal (KARDEC, 2018, p. 243).

Aquele que provoca a guerra em benefício próprio, tal qual ocorreu na época do Nazismo, eis que seus adeptos tinham pensamentos fixos e que sabemos ser infundados, pregando a hegemonia de raças e exterminando quem não se enquadrava em seus doentios padrões, “é o verdadeiro culpado, e precisará de muitas existências para expiar todos os homicídios de que foi causa, pois responderá por cada homem cuja morte tiver provocado para satisfazer sua ambição” (KARDEC, 2018, p. 244).

Sabemos por meio dos estudos de O Livro dos Espíritos, que há flagelos destruidores que ocorrem e atingem a humanidade de tempos em tempos a fim de fazer com que ela progrida em maior velocidade. Entretanto, é preciso que se faça importante distinção entre o que é vontade de Deus e o que é fruto de um livre arbítrio guiado pelas grandes mazelas humanas, o orgulho e o egoísmo.

É claro que sim, Deus sabe o que faz e jamais nos desampara. Essa é a “fé-crença”, a certeza de uma força maior olhando por nós e cuidando de nossos passos. Entretanto, é de suma importância que se compreenda que a maior prova de amor dada por Deus a cada um de nós é a de nos criar como espíritos em igualdade de primitivismo e, por meio de nossas escolhas, decisões e esforços, permitir que progridamos. Somos criados iguais, mas os louros de nossas vitórias e as lições de nossos erros nos atingem de forma individual.

Não estamos encarnados, hoje, todos num mesmo estágio evolutivo. Uns já chegaram mais longe, outros ainda tropeçam nas pedras espalhadas por si mesmo ao longo do caminho. Essa é a materialidade desse amor que transcende o nosso entendimento. A ninguém é dado o que não semeou. Somos nós quem ditamos a velocidade do nosso progresso!

Portanto, faz-se mister a compreensão de que uma situação inexplicável e abjeta como a ocorrida no período nazista, não foi vontade de Deus! E muito menos que constava nos planejamentos reencarnatórios de cada um dos milhões que foram exterminados, que desencarnariam daquela forma horrenda. Não!

Quando se adentra aos estudos espíritas, é preciso que se tenha cuidado para não colocar todos os ensinamentos dentro de uma única cesta, transformando-os em regra absoluta! A maldade em sua pior face, a crueldade e o domínio, são escolhas humanas, ou seja, fruto de seu livre arbítrio, e cada um colherá as consequências correspondentes aos seus atos.

A Espiritualidade superior jamais permitiria que alguém reencarnasse com um destino tão cruel, mas ela sabe que o livre arbítrio é faculdade poderosa que permite o progresso e o aprendizado e, por isso, o respeita!

E diante de tudo isso, é preciso que nós, aqueles que já enxergam claramente o horror praticado por essa ideologia, nos mantenhamos alertas, pois ela não morreu nos idos anos de 1945. Ainda hoje há grupos que se denominam neonazistas, pessoas que buscam resgatar elementos do nazismo e que, inclusive, incorrem em negacionismo com relação ao Holocausto, dizendo que ele nunca existiu. São grupos violentos, que abominam as chamadas minorias e trazem à tona o pior da história.

Diante de tudo e do que ainda ocorre, um pedido de Olga Lengyel, sobrevivente e escritora do livro citado anteriormente: “As pessoas devem se unir em momentos de perigo. Colocar em risco um grupo significa colocar em risco todos nós […] memórias não servem apenas para nos lembrarmos do que aconteceu. Elas guiam nossas ações no futuro” (LENGYEL, 2018).

Por isso, conheçamos o passado para que no futuro, não presenciemos atos inumanos ocorrendo mais uma vez!

Rafaela Paes de Campos

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

  • LENGYEL, Olga. Os Fornos de Hitler. Tradução de Celina Portocarrero e Thereza Christina Motta. 2ª edição. São Paulo: Planeta do Brasil. 2018.
  • POLITIZE. Tribunal de Nuremberg: o que foi? Disponível em: https://www.politize.com.br/tribunal-de-nuremberg/. Acesso em: 16 de julho de 2021.
  • WIKIPEDIA. Nazismo. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nazismo. Acesso em: 16 de julho de 2021.
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FOME, SISTEMA ECONÔMICO E EXCLUSÃO

Marcelo Teixeira

O filósofo, professor e escritor Mário Sérgio Cortella, em palestra gravada em vídeo no ano de 2019, narra um episódio ocorrido 30 anos antes entre ele, alguns colegas e dois caciques da tribo xavante, que estavam visitando a cidade de São Paulo pela primeira vez. O primeiro local da visita era o Mercado Municipal, onde os clientes e visitantes encontram uma variada gama de frutas, verduras, legumes, importados, massas, peixes, aves, frutos do mar, doces variados… Uma abundância de comida num prédio histórico de 12.600m² que também abriga um espaço gastronômico no qual se pode provar variadas iguarias.

O objetivo de Cortella e equipe era mostrar aos dois índios algo que eles nunca haviam visto: comida acumulada. Afinal, índios não estocam comida. Eles plantam, colhem, caçam e pescam.

Os caciques ficaram estupefatos ao verem tanta comida e começaram a andar por todo o local, sempre acompanhados pelos cicerones. De repente, um deles viu algo que ninguém havia visto. Uma cena corriqueira para nós, cidadãos urbanos, mas que chamou a atenção de quem não está acostumado a transitar pelos contrastes sociais das cidades grandes. O índio havia visto uma criança pobre, negra e maltrapilha pegando comida do chão.

– O que ele está fazendo? ­– Indagou o cacique. Ninguém do grupo havia registrado, até então, a presença do menino. Tanto que um deles questionou o cacique: – Ele quem? O xavante, então, apontou para a criança, que recolhia, do chão, tomates amassados, batatas estragadas, alfaces pisadas e afins. A resposta ao xavante foi terrivelmente óbvia: – Ele está pegando comida.

O ilustre visitante nada disse, e a visita ao Mercadão continuou. Quinze minutos depois, ele voltou ao assunto: – Eu não entendi. Por que ele está pegando comida estragada com tanta pilha de comida boa? Cortella retrucou dizendo que, para pegar comida das pilhas, era preciso ter dinheiro, algo que o garoto não tinha. – Por que ele não tem dinheiro? – Insistiu, para incômodo de Mário Sérgio e equipe, que estavam sendo cutucados na compreensão ética que nós, urbanoides da sociedade de consumo, temos da vida coletiva. – Ele não tem dinheiro porque é criança. – Redarguiu o professor. – E o pai dele tem? – Questionou novamente o xavante. – Não. O pai dele não tem dinheiro.

Inconformado, nosso herói da tribo foi mais fundo: – Por que você come dessa pilha de comida boa e ele come comida estragada? A única resposta possível que Cortella encontrou foi a seguinte: – É que aqui, é assim!

Foi demais para os índios, que moram em tribos onde não há crianças desamparadas e famintas. Eles pediram para ir embora; não do Mercado Municipal, mas da cidade de São Paulo. Não quiseram ver mais nada porque não conseguiram compreender por que uma criança com fome, diante de pilhas de frutas, legumes e verduras frescas e fartas, é obrigada a se alimentar de comida estragada apanhada do chão. Depois eles é que são selvagens!

O professor Mário Sérgio Cortella termina a narrativa ressaltando que eles entenderiam o funcionamento do mundo capitalista em que vivemos se tivessem nascido em nossas famílias, frequentado nossas escolas e templos religiosos, assistido aos programas da TV… Aí, quando passassem por uma criança pegando tomate pisado do chão, achariam normal, como nós achamos.

Ele, então, arremata: – Não é normal gente ter fome! Não é normal gente não ter socorro médico e trabalho! Isso não pode ser tido como normal. Senão, a gente aceita o falecimento da esperança.

Temos, nesse episódio, uma situação que transita entre o absurdo, o banal e o revoltante. É de fato absurdo que, diante de tanta comida, uma criança tenha de pegar o que está no chão para tentar se alimentar. Digo “tentar” porque não há como ter uma alimentação saudável com comida pisoteada, amassada ou estragada. Banal porque a gente se acostuma com esse tipo de situação. Nosso olhar passa a achar tudo normal. É normal que haja corrupção, que tanta gente morra de fome, dengue, Covid, bala perdida ou bala encontrada. A miséria, a violência, a falta de acesso à educação e à saúde de qualidade passam também a ser banais. Idem no tocante à deturpação dos fatos por meios de comunicação comprometidos com os grandes investidores, empresários e rentistas… Nosso olhar vai sendo anestesiado e passamos a viver com o trágico como se ele fosse parte da paisagem. Por isso, uma criança pegando do chão um alimento ruim deixa de nos sensibilizar e mobilizar. É a banalidade do mal, teoria desenvolvida pela filósofa alemã Hannah Arendt. Por fim, é revoltante porque sabemos que o problema da fome no mundo não tem a ver com carência na produção de alimentos, mas sim com o sistema político e econômico em que estamos inseridos.

Em palestra virtual promovida pelo coletivo Espíritas à Esquerda, Thiago Lima, coordenador do grupo de pesquisa sobre fome e relações internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), tece sérias considerações acerca de como o sistema capitalista interfere na questão da fome. Segundo ele, tornar as pessoas vulneráveis à fome é fundamental para que a roda do capitalismo gire. É o popular “Quem não trabalha, não come”. De acordo com a cartilha capitalista, para que tenhamos alimento (e também moradia, roupas etc.) É preciso que trabalhemos, ou seja, coloquemos a nossa força de trabalho a serviço das engrenagens que movem este mundo de finanças, lucros e consumo. Se o indivíduo não trabalha, não possui renda. Por conseguinte, não terá acesso a alimentos. Dessa forma, para que não passe fome, a pessoa é impelida a trabalhar. Muitas vezes, a aceitar qualquer tipo de trabalho, isto é, mal remunerado, insalubre, além do tempo oficialmente estipulado, psicologicamente extenuante, repetitivo e que nem sempre aproveita os reais talentos e aptidões que o ser humano possui. Mas como a necessidade de levar comida para dentro de casa e o medo de passar fome falam mais alto, o trabalhador se submete a uma rotina que irá desgastá-lo e favorecer mais ao patrão do que a ele, na grande maioria dos casos. Se porventura o pai ou a mãe (ou ambos) não conseguir trabalho (seja por baixa qualificação, carência de vagas etc.), os filhos também sentirão o efeito.

Há outros agravantes no fato acontecido no Mercado Municipal de São Paulo. De acordo com o exposto por Thiago Lima, a fome brasileira tem caracteres bem definidos. Ela tem raça, gênero e endereço. Em primeiro lugar, ela é maior no Nordeste e no meio rural. Por isso, tanto êxodo das populações interioranas para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. O pequeno agricultor de outrora, devido à seca, à miséria e ao poderio dos grandes latifundiários que sufoca o pequeno produtor, acabou migrando para o Sudeste. A fome também é maior nos lares governados por mulheres, fato corriqueiro no Brasil, onde mães solteiras ou abandonadas pelos parceiros se veem impelidas a sustentar várias bocas. Por fim, a fome atinge predominantemente as pessoas da raça negra devido ao histórico de escravidão e exclusão social que nossos irmãos trazidos à força da África sofrem. Todos esses fatores convergem para pesar sobre os ombros da criança que cata comida do chão. Somam-se a esses agravantes o fato de o menino provavelmente estar sozinho no Mercadão. Não se sabe se ele tem endereço fixo, com quem mora ou se dorme pelas ruas. E também entra nessa triste conta de somar a grande probabilidade de ele não estar frequentando regularmente a escola. Em suma: se ele não fosse vítima de um macabro efeito dominó que o colocou numa situação de alta vulnerabilidade social, estaria no aconchego do lar, devidamente alimentado, asseado e indo às aulas todos os dias.

Vou incluir o agravante espiritual na questão. No livro “A Constituição Divina”, o escritor espírita Richard Simonetti tece importantes considerações acerca da influência da injustiça social no processo reencarnatório. Primeiramente, Simonetti salienta que, à primeira vista, tem-se a ideia de que, nas camadas mais pobres, há “uma incidência significativa de indivíduos sem iniciativa, inspirando-nos a impressão de que, nesse vasto segmento da população, em países subdesenvolvidos, localizam-se espíritos primitivos”. Em seguida, questiona: “São espíritos primitivos ou estamos diante de problemas decorrentes da própria situação em que se encontram? Até que ponto o espírito de mediana evolução conseguiria superar condicionamentos psicológicos e culturais impostos pela pobreza?”

Trocando em miúdos: se um espírito de mediana evolução como nós se defrontar com subnutrição pobreza e parco acesso à saúde, lazer e educação nos primeiros anos de vida na Terra, dificilmente as leis biológicas serão contrariadas. Ele ou ela será alguém com fraca estrutura orgânica, dificuldade de aprendizado, déficit de atenção e, em muitos casos, revolta.

Ouço muitos espíritas dizerem que as agruras sociais pelas quais passam os menos favorecidos são consequência de erros cometidos em vidas passadas. Foram nobres ou milionários que esbanjaram fortunas, maltrataram pessoas e agora se veem às voltas com a penúria para pagarem o que deve. Dado o imenso contingente de homens, mulheres e crianças que passa fome, morre de doenças curáveis e não tem acesso nem a água potável no mundo, é impossível que todo esse povo tenha sido nobre ou rico. Haja título de barão, duquesa e dinheirama sendo esbanjada para dar conta de tanto miserável reencarnado! Isso soa a um desculpismo comodista, típico de quem se recusa a ter olhos de ver a real questão: muita gente está às voltas com a miséria porque estamos estruturados num sistema socioeconômico que não faz questão de dar conta das necessidades de todos e, ao mesmo tempo, se esmera para que poucos acumulem grande parte da riqueza que o planeta produz.

Na questão 930 de “O Livro dos Espíritos”, o plano espiritual deixa claro: “Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo ninguém deve morrer de fome.” Não estamos, portanto, estruturados conforme preconizam a justiça, o amor e a caridade. Se nos organizássemos de forma “criteriosa e previdente”, como também alerta a citada questão, não haveria crianças à cata da xepa dos mercados e feiras livres. E também não haveria êxodo rural, latifundiários massacrando camponeses, populações esquecidas em barracos de periferia… Tudo resultado do meio injusto que fomos construindo e que temos de começar a desconstruir para que “uma ordem social fundada na justiça e na solidariedade”, como também afirma a 930, se faça presente para que todos nós aprendamos a ser bem melhores do que somos.

Trata-se de um processo longo e trabalhoso, que exigirá de nós sérias tomadas de decisões para que o mundo, como o conhecemos, venha abaixo e surja, por meio da nossa própria iniciativa, uma sociedade bem melhor do que esta que nega às pessoas o acesso a alimentos e tantos outros itens.

Marcelo Teixeira

Fonte: Espiritismo na Rede

Bibliografia:

  1. CORTELLA, Mário Sérgio – Caciques xavantes em São Paulo
  2. KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos, 60ª edição, 1986, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.
  3. SIMONETTI, Richard. A Constituição Divina. Gráfica São João, 2ª Ed., 1989, Bauru, SP
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Destino… Fatalidade… Livre-Arbítrio…

A CONVIVÊNCIA HARMÔNICA ENTRE O DESTINO, A FATALIDADE E O LIVRE-ARBÍTRIO

Rogério Miguez

Quem não deseja saber como modificar o seu próprio destino? Quem não aspira obter revelações sobre o futuro para, de posse destes informes, construir com mais segurança a sua própria caminhada? Quem não almeja tomar de maneira absoluta as rédeas de sua própria vida e seguir conforme seus anseios, ao sabor de seus próprios ventos, segundo apenas o seu livre arbítrio? O tema é palpitante.

Evidentemente, a temática considera apenas os espiritualistas, os crentes em um ou muitos deuses e igualmente na continuidade da vida, visto que não há qualquer sentido em se debater o tema sob a óptica puramente materialista, considerando se que, para se acreditar em destino, dever-se-á crer igualmente em uma entidade superior, delineando, segundo seus princípios e desejos, os nossos particulares rumos.

Para iniciar uma breve reflexão sobre assunto tão importante, seria preciso primeiramente avaliar se do ponto de vista espírita há destino. Os nossos dicionários, enciclopédias das palavras, de modo geral, definem destino como um conjunto de acontecimentos alcançando-nos de modo inevitável, inexorável, como sinônimo de fatalidade, sina, sorte.

Dentro desta linha de entendimento, em princípio, não poderíamos alterar o desfecho de nossa existência, pois não teríamos como modificar as circunstâncias, ou conjunção de fatos, a nos atingir fatalmente, mais cedo ou mais tarde.

Graças ao Bom Deus, assim não se dá!.

Com efeito, se assim fosse, não haveria mérito, tampouco responsabilidade sobre qualquer ato, considerando não ser possível escapar ou enganar o implacável destino. Tudo que fizéssemos, de bom ou de mau, seria tempo perdido, pois nada mudaria a nossa sorte, muito menos a daqueles a quem endereçássemos nossos esforços e ações.

Outrossim, perguntamos:

por qual razão possuímos livre arbítrio? esta faculdade que tem o Espírito para determinar sua própria conduta, construída cuidadosamente ao longo de numerosas encarnações, seria totalmente inútil e ineficaz, uma vez que o seu exercício se mostraria impotente para alterar a implacável realidade futura.

Adicionalmente, a Lei do Progresso não faria mais nenhum sentido: afinal, progredir para quê, se o futuro está delineado? Ademais, pela prece podemos louvar, agradecer ou pedir. Em relação à última possibilidade, se tornaria uma ação na maior parte dos casos inócua, porquanto nada obteríamos em resposta às nossas súplicas, por mais fervorosas fossem, pois, de modo geral solicitamos mudanças e benesses para o futuro no quadro material de nossas existências e dos que nos cercam, exceção feita às petições de ordem moral, quando pertinentes, que poderiam ser atendidas normalmente.

A ideia de um destino preestabelecido está relacionada à fatalidade, sendo oportuno conhecer as pouquíssimas propriamente ditas fatalidades.. Elencamos aquelas recolhidas até o momento da consoladora Doutrina:

• Atingir a plenitude da evolução, representada pela aquisição de uma perfeição relativa, ou seja, o fatalismo da evolução é para o equilíbrio, a ordem, o bem, e a destinação é para a felicidade, quando consolidaremos a vitória definitiva sobre nós mesmos e trabalharemos mais próximos de Deus, contribuindo para o cumprimento de seus sábios desígnios.

• O instante da morte é uma fatalidade, uma vez que, dele, não se pode escapar, e o momento em que devemos reaparecer também o é.

• Vivenciar provas, expiações ou missões, previamente selecionadas e discutidas na erraticidade, conjugando as deliberações do livre-arbítrio e as ponderações dos Espíritos responsáveis pela nova reencarnação, tudo baseado no mapa de realizações construído em existências passadas do futuro reencarnante. Como exemplos destas escolhas temos: gênero ou causa da morte, doença específica que surgirá em determinado momento de nossa próxima existência, significativo revés econômico, dificuldade familiar de monta, grandes dores morais como resultado de infortúnios diversos, limitação física de nascença oriunda de uma deficiência perispiritual, ou seja, alguns aspectos materiais na existência podem constituir fatalidades.

Um ponto importante sobre as decisões e opções tomadas antes de reencarnar é que este ajuizamento conjunto com os Espíritos mais sábios ocorre quando o reencarnante possui uma bagagem de evolução tal, viabilizando ser frutífera esta interação; caso contrário, os grandes marcos da vida são inteiramente determinados pelos responsáveis por esta nova existência na Terra.

Esta realidade nos faz perceber estar a fatalidade tão mais presente na vida do Espírito quanto menos evoluído ele se encontrar.

Contudo, vale a pena lembrar, as consequências da vivência destas escolhas ou determinações dependem da forma como o Espírito enfrenta estas situações, ou seja, os efeitos morais dos acontecimentos nunca são fatais.

É interessante ponderar que mesmo estes grandes marcos materiais em nossa existência podem sofrer pequenos ajustes, podem ser replanejados, dependendo de como vivemos, da forma como aproveitamos as oportunidades oferecidas pela vida. Desta forma, a época ou gênero da morte poderia ser alterada caso estivéssemos: praticando muita caridade, buscando fazer apenas o bem ao próximo, levando uma vida produtiva do ponto de vista moral, pessoas estivessem dependendo de nossa ajuda. Desta forma, o momento da desencarnação poderia ser adiado, não por muito tempo, raro mecanismo em mundo de provas e expiações conhecido por moratória; por outro lado, caso conduzamos a nossa existência da forma “padrão”, sem grandes sacrifícios e conquistas morais, observando conforme o dito popular apenas o nosso umbigo, os grandes marcos se farão presentes e impostergáveis.

No entanto, cumpre ainda notar sempre existir no homem a liberdade de optar pelos atos da vida moral e como reagir às tentações, um campo totalmente aberto, incerto e imprevisível, sujeito às escolhas de conduta de cada um, ou seja, à vontade individual.

• Há considerável fatalidade nos reinos mineral e vegetal; nestas fases da evolução quase tudo acontece segundo as leis básicas que regem a matéria – químicas, físicas e biológicas -, considerando que há certa imprevisibilidade na natureza subatômica da matéria.

É pertinente esclarecer sobre o uso do conceito de fatalidade pela mídia e a sociedade, pois em linhas gerais está completamente desvirtuado. Os acidentes espetaculares causando mortes de pessoas não estão nos desígnios de Deus, quando o autor estava: embriagado ou drogado, dirigindo em velocidades acima do permitido, com veículo adulterado em seus componentes básicos, não possuía habilitação, entre outras causas, ocorrendo nestes casos apenas a imprudência do agente; e se este não for julgado pela sociedade da forma correta, o será pelas Leis Divinas.

Se estes acidentes fossem fatais, predeterminados, o responsável teria renascido com a “missão” de matar um semelhante, impondo Deus previamente uma conduta absurda ao causador do desastre. Este entendimento representa um absoluto despropósito em relação ao amor de Deus por todas as suas criaturas.

Além de classificar por fatalidade os acidentes espetaculares do cotidiano, criamos uma outra fatalidade para justificar a morte “prematura” pela chamada bala perdida. O espírita está ciente de que não há acaso nas Leis Divinas, nenhum imprevisto existe regendo ocorrências, ainda mais deste tipo; sendo assim, a bala jamais estará perdida, esta interpretação sugere que Deus não estaria ciente do que viria acontecer, estava “desatento”, e que a morte do atingido pela bala perdida se deu sem controle, antecipadamente, ou seja, o indivíduo morreu antes da hora esperada.

A onisciência e onipotência de Deus se chocam frontalmente com esta incorreta hipótese.

Ninguém há que acreditar ter nascido sob a sina de uma má ou boa estrela, vivendo desta forma sob uma fatalidade considerada imerecida em relação à primeira estrela. Quando os acontecimentos possuem uma característica repetitiva em termos de fracassos e sucessos, respectivamente, devem-se em alguns casos aos acertos prévios que fizemos na erraticidade antes de para a Terra voltarmos.

Continuadas aparentes desgraças ou repetidos triunfos, nada mais representam do que verificações de aprendizado, talvez sejam provas, que devem ser encaradas naturalmente, solicitando, ao considerarmos as primeiras, muita paciência e perseverança; quanto aos segundos, jamais nos imaginarmos privilegiados, não permitindo que o orgulho ou a vaidade nos alcancem na infantil suposição de que tudo que fazemos dá certo e de que fomos agraciados pelo dedo de Deus ao nascer. Além disso, continuados fracassos podem ser resultado do despreparo e inaptidão do indivíduo, e seguidos sucessos podem caracterizar uma pessoa inteligente e perspicaz para só se lançar em empreitadas em que vislumbre maiores chances de êxito: não há azar tampouco sorte no ordenamento celestial.

A propósito, jamais deveremos bater às portas dos chamados magos, bruxas, videntes ou adivinhos, os auto-intitulados profetas, para nos informar sobre o que está por vir, qual seria o nosso “glorioso e esplendoroso” destino. De modo geral estes exploradores da fé e da ignorância popular nada mais são do que aplicados aproveitadores, astutos interlocutores, a maioria nem sequer é médium, não possuindo qualquer dom para nos instruir sobre o porvir. Habilmente treinados, muitos sabem o que as pessoas desejam conhecer, seus anseios, dúvidas ou apreensões e, por meio de perguntas simples, vão delineando as expectativas do particular consulente, finalizando por dizer exatamente aquilo que mais agrada ao incauto. Ao final, aguardam ávidos alguma recompensa monetária devida aos seus espontâneos préstimos “mediúnicos”. Como resultado, todos ficam muito satisfeitos, o iludido e o falso iluminado.

Informações sobre o futuro, quando úteis, são apresentadas de forma natural, sem que a pessoa pergunte ou mostre interesse em conhecer. Às vezes, podem ser reveladas, mas em caráter particular e sem qualquer expectativa de remuneração.

Conclui-se, pelos exemplos citados anteriormente, que o conceito de fatalidade não se prende apenas a um desfecho ruim, conforme alguns acreditam; a fatalidade pode conduzir a um bom resultado sem deixar de ser fatal, sendo apenas a resultante da Lei de Causa e Efeito. Este justo postulado divino é neutro, não comporta preferências nem tendências.

Como se denota, as fatalidades são em número muito reduzido, relacionando-se a acontecimentos e não a resultados, e não poderia ser diferente; se assim não fora, seríamos “autômatos” sem qualquer controle sobre as nossas existências. Contudo, não nos iludamos, há certos compromissos assumidos antes de reencarnar, poucos, que não podem ser alterados. Sendo assim, a visão espírita no que tange a este fascinante tema é intermediária entre os extremos do tudo está escrito e do seu oposto, nada está escrito, tendendo para o último, ou seja, pouco está escrito.

Então, em resumo, podemos alterar o destino?

Sem sombra de dúvida! Trabalhando dedicadamente agora no presente, esforçando-nos para aprender e agir corretamente, criamos condições de esperar um futuro melhor e diverso de qualquer leviano prognóstico que porventura nos tenha sido informado, porquanto, com a existência do livre-arbítrio e da razão há sempre parcial fatalidade, e, se esta fosse absoluta, não poderia haver responsabilidade, tampouco mérito pelos atos praticados, sejam estes quais forem.

A obra divina é perfeita, suas leis são justas e equilibradas, razão por que há harmonia e estabilidade entre conceitos aparentemente tão antagônicos, tais como: destinofatalidade e livre-arbítrio, o último possuindo por esteio a razão.

Somos Espíritos imortais, já tivemos e ainda teremos inúmeras existências.

Comparando este conjunto de vivências corporais que individualizam a caminhada evolutiva dos Espíritos a um livro, a introdução e os capítulos iniciais já estão preenchidos pela história passada de cada qual, não podendo mais ser alterados, muito menos apagados, influenciando por largo tempo a trajetória de cada um.

Em seguida, ainda considerando esta alegoria, há vários capítulos em branco, em que qualquer um deles contempla pelo menos duas previstas fatalidades – o nascimento e a morte – e, no derradeiro, há poucas linhas escritas, descrevendo a fatalidade maior: o nosso destino, a aquisição da perfeição relativa.

Como a maior parte das páginas do nosso livro da vida ainda não foi preenchida, cabe-nos “recheá-las” caprichosamente e com sabedoria, tendo como modelo e guia os inesquecíveis exemplos do incomparável Amigo Celestial.

Rogerio Miguezrogmig55@gmail.com
Revista Reformador  – Abril 2020

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PENSAMENTO É TUDO

Nilton Moreira

Muitas perguntas surgem no sentido de onde viemos o que viemos fazer aqui no Planeta Terra, e também para onde vamos. É verdade que os cientistas buscam incansavelmente respostas para esses questionamentos e cada vez que se aprofundam nas pesquisas novos conceitos surgem. Também é verdade que as religiões de um modo geral contribuem para o esclarecimento das questões relacionadas a Criação e objetivos, mas está acertado quem afirma que estamos em evolução, basta que olhemos gerações passadas em comparação com a atual.

As crianças, por exemplo, nos dias de hoje são mais desenvolvidas intelectualmente, procuram respostas através de meios tecnológicos, respostas estas que muitas vezes os próprios adultos não tiveram oportunidade de esclarecimento. Sabem manejar um aparelho celular sem grandes dificuldades. Os equipamentos de informática estão cada vez mais compactos e com capacidades de armazenamento maior, e a alta definição em imagens não para de evoluir, exigindo um preparo e regular capacitação dos educadores, cujos currículos têm de ser revistos e atualizados periodicamente.

Sem dúvida o espaço que nos envolve está sendo alvo de uma gama de ondas eletromagnéticas como nunca se viu, que trafega por toda parte obedecendo suas respectivas frequências, chegando às vezes confundirem-se umas com as outras, dependendo das rotas e potências que atuam.

Nosso pensamento já foi dito também vibra numa determinada frequência, “vivemos num mundo de ondas” disse um filósofo, mas o homem dotado de corpo físico ainda não conseguiu utilizar com plenitude esta aptidão, embora a medida que vai evoluindo e se questionando no âmbito religioso, filosófico e com a ciência avançando, certamente conseguirá vibrar a mente numa frequência que poderá comunicar-se e sentir a essência que o outro pensa.

Como já disse o sensitivo americano Edgar Cayse “nós somos aquilo que pensamos”, uma das maneiras mais antigas de comunicação pelo pensamento é a prece, a reza, a oração, a meditação, a vibração como queiram dizer. Essa modalidade que faz nosso pensamento viajar pelo universo e chegar ao nosso Criador é a prova maior de que somos capazes da comunicação pela mente.

Quanto mais evolução tiver o ser humano, mais capacidade de emissão e recepção na troca de pensamentos terá, pois, tal aptidão é inerente ao espírito que somos. Portanto devemos exercitar cada vez mais nossa mente no sentido de entrar em contato com nossos semelhantes, bastando para isso que encontremos serenidade.

Busquemos no recolhimento metal auscultar nosso interior astral, e certamente obteremos as respostas aos nossos anseios, emanados da Criação.

Nilton Moreira

Artigo da Semana – Estrada Iluminada

Fonte: Espirit Book

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