Emoções e Sentimentos na Visão Espírita

Marisa Fonte

“Somos seres em eterna transformação. O mundo e a vida pedem que sejamos adaptáveis e essa é a lei que rege a nossa existência.” – Escrita terapêutica: um caminho para a cura interior, Bruna Ramos da Fonte. Ed. Letramento

Costumamos confundir emoção e sentimento. Muitos até pensam que as duas coisas são iguais, porém, a diferença é bem grande. A emoção é uma reação instintiva; é uma resposta neural a um estímulo externo, e está ligada ao corpo, enquanto o sentimento é o efeito da emoção, podendo ser duradouro, e muitas vezes fácil de esconder, pois está dentro de nós e tem a ver com a nossa mente.

O neurocientista português António Damásio, afirma que “A emoção é um programa de ações, portanto, é uma coisa que se desenrola com ações sucessivas. É uma espécie de concerto de ações. Não tem nada a ver com o que se passa na mente. O sentimento eu tenho e você não sabe se eu tenho ou não tenho. E se você tiver um sentimento de profunda tristeza, mas se me quiser enganar, e quiser comportar-se como se estivesse alegre, vai me enganar mesmo, porque eu não posso saber o que está dentro da sua cabeça, posso adivinhar, mas é diferente.”

A palavra emoção vem do latim emovere; e significa “fora” e movere significa “movimento”. Embora na animação divertidamente apareçam apenas 6 emoções – felicidade, tristeza, medo, surpresa, raiva e nojo, pesquisadores norte-americanos identificaram outros tipos de emoções, passando assim o número das emoções a 27, relacionadas a como reagimos diante das diversas situações. A lista das 27 emoções é a seguinte: admiração, adoração, apreciação estética, diversão, ansiedade, temor, estranheza, tédio, calma, confusão, desejo, nojo, dor empática, encantamento, inveja, excitação, medo, horror, interesse, alegria, nostalgia, romance, tristeza, satisfação, desejo sexual, simpatia e triunfo.

As emoções foram classificadas, ainda, como primárias, secundárias ou de fundo. Primárias são emoções que os que estão à nossa volta podem perceber claramente: tristeza, raiva, medo, alegria, aversão e surpresa. As emoções secundárias – também chamadas de sociais ou adquiridas – podem ser impostas por heranças familiares, convenções sociais, religiosas, culturais e econômicas, e podem ser aparentes ou não: ciúme, orgulho, vaidade, vergonha, culpa e nervosismo. Emoções de fundo não são perceptíveis pelos outros e proporcionam bem estar ou mal estar, como por exemplo, a calma ou a angústia.

As emoções surgiram no processo evolutivo e foram de extrema importância para favorecerem a sobrevivência da espécie humana, uma vez que alertavam em relação aos perigos que cercavam os humanos de então, provocando reações rápidas de defesa.

Sentimento, do latim sentimentum, é a maneira como interpretamos a emoção. São encontrados 17 tipos de sentimentos no ser humano, que podem ser divididos em negativos (tristeza, medo, hostilidade, frustração, raiva, desespero, culpa, ciúmes), positivos (felicidade, humor, alegria, amor, gratidão, esperança) e neutros (compaixão, surpresa).

Na verdade, os sentimentos são experiências que cada um de nós tem a partir de uma determinada emoção, influenciados por experiências pessoais, memórias e crenças. Dessa forma, os nossos pensamentos e observações, bem como a forma como nos sentimos, fazem com que sejam despertados os sentimentos, e é preciso saber lidar com eles, pois isso pode afetar o que fazemos.

Muitos abusam do álcool e de outras substâncias tóxicas e outros ainda praticam automutilação, dentre outras coisas, e tudo isso é resultado de sentimentos que são nutridos pela pessoa e causam sofrimento que no início é somente mental, mas que acaba prejudicando o corpo também.

Para prevenir e evitar que os nossos sentimentos nos escravizem e tornem a nossa vida infeliz e por vezes até insuportável, podemos recorrer a vários recursos, desde a terapia a práticas de relaxamento, exercícios físicos, atividades e por aí afora; o que importa é que aprendamos a lidar com o que sentimos e que saibamos agir a nosso favor nas situações que chegam até nós e nos causam contrariedades ou frustrações, por exemplo.

Uma das formas de terapia é a escrita terapêutica. Bruna Ramos da Fonte, autora do livro “Escrita Terapêutica: um caminho para a cura interior”, sugere que façamos um diário, e diz que “escrever um diário é construir um altar onde você poderá depositar tudo aquilo que há de mais sagrado dentro de você”. Em outro trecho da mesma obra ela afirma: “escrever é um processo de autocompreensão que nos leva a uma compreensão maior do mundo externo”.

É atribuída a T. Harv Eker a frase “Pensamentos conduzem a sentimentos. Sentimentos conduzem a ações. Ações conduzem a resultados”. Portanto, faça as suas escolhas, e que sejam as melhores escolhas. Tome atitudes, e que sejam as melhores atitudes. Somos adaptáveis, somos capazes e sabemos discernir o que pode ser benéfico e o que pode ser prejudicial para nós. Segundo frase atribuída a Jeffrey Gitomer: “A atitude positiva não tem nada a ver com o que acontece com você. É o que você faz com o que acontece com você e como reage a isso.”

Quando assumimos nossas dificuldades, constituímos um fator importante para superá-las, e nos mostra a importância de aceitarmos a nós mesmos, entendendo que estamos em processo de crescimento, o que também nos tornará mais tolerantes para com as faltas alheias. De fato, se nós pensarmos que todos somos alunos na escola da vida, fica bem mais fácil entender que muitos ainda estejam engatinhando enquanto outros conseguem voar.

Ermance Dufaux, por sua vez, chama a atenção para a necessidade de aceitarmos as nossas emoções, uma vez que isso possibilita que nosso pensamento seja adequado à realidade e que ocorra o desenvolvimento da autoaceitação, a fim de que assim não ocorra o autoabandono.

Quando falamos em sentimentos, é necessário que falemos sobre o amor, que é o sentimento mais delicado de todos, pois o amor levado ao âmbito do amor pelo próximo, e não apenas do amor por aqueles que são nossos amigos ou entes queridos, nos mostra que somos todos irmãos, e que quando aprendermos a agir desse modo todas as misérias morais e materiais começarão a ser solucionadas, pois o amor é luz que pode iluminar qualquer escuridão, sendo capaz de desencadear virtudes oriundas desse sentimento, como caridade, humildade, paciência, devotamento, abnegação, resignação e sacrifício. Quando João, o Evangelista, não mais pode pregar devido à saúde precária, repetia apenas:

“Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”, repetindo o que dizia Jesus, que nos ensinou também a que nos amassemos uns aos outros assim como Ele nos amou.

“Amai-vos e vereis a Terra em breve transformada em um Paraíso onde as almas dos justos virão repousar.” Fénelon (Bordeaux, 1861) – O Evangelho Segundo o Espiritismo

Concluindo as nossas reflexões sobre emoções e sentimentos, a sugestão é de que você faça uma autoavaliação. Quais têm sido suas atitudes? Como você tem reagido aos relacionamentos e às circunstâncias? Que sentimentos você tem deixado tomar conta de você? A partir de agora, procure sempre usar uma linguagem positiva, mesmo diante de circunstâncias menos favoráveis, pare de se julgar o tempo todo e em vez disso mude de atitude, pare de julgar os outros, pois você não tem o poder de modificar quem não quer se modificar. E quem disse que a sua opinião é certa o tempo todo?

Cada qual tem a sua verdade. Portanto, pare de criticar. Reclame menos e agradeça mais.

Terapia, espiritualidade, oração, fé, gratidão, mudança de atitude mental e mudança de hábitos auxiliam a superar sentimentos negativos que acabam prejudicando a nossa saúde física e mental, e deixam no lugar a certeza de que estamos contribuindo para que o mundo seja um lugar melhor a partir da nossa atitude para conosco e para com as situações e pessoas que nos cercam.

Marisa Fonte

Fonte: Letra Espírita

REFERÊNCIAS

  • KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo 11, A lei do amor, itens 8 a 10. Editora Petit.
  • OLIVEIRA, Wanderley. Emoções que curam, pelo espírito Ermance Dufaux, Editora Dufaux
  • FONTE, Bruna Ramos da. Escrita terapêutica: um caminho para a cura interior. Editora Letramento (livro digital). 2021
  • https://www.diferenca.com/emocao-e-sentimento/ (acesso em 02 de julho de 2021)
  • https://www.voitto.com.br/blog/artigo/ciencia-das-emocoes (acesso em 02 de julho de 2021)
  • https://www.cursoead.sp.senac.br/neurociencia_emocoes/03_recurso_web (acesso em 02 de Julho de 2021)
  • https://www.fronteiras.com/entrevistas/emocao-ou-sentimento-mental-ou-comportamental-antonio-damasio-explica-a-organizacao-afetiva-humana (acesso em 02 de julho de 2021)
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FILHOS ADOTIVOS E PROCESSO REENCARNATÓRIO

Fernanda Oliveira

“Não habitou meu ventre, mas mergulhou nas entranhas da minha alma.

Não foi plasmado do meu sangue, mas alimenta-se no néctar de meus sonhos.

Não é fruto de minha hereditariedade, mas molda-se no valor de meu caráter.

Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim.

E se mães também são filhas, e se filhos todos são duplamente abençoados és, meu filho do coração.”  (Autor desconhecido)

Adoção do latim adoptio, do verbo adoptare, escolher, adotar. A adoção cria o vínculo de parentesco civil semelhante ao da paternidade-maternidade e filiação legítimas, análogo ao que resulta da filiação biológica. Constitui um parentesco eletivo, pois decorre exclusivamente de um ato de vontade. Modalidade de filiação construída no amor, constituindo vínculo de parentesco por opção e afeto, enraizado no exercício da liberdade.

Kardec esclarece em O Evangelho segundo o Espiritismo: “Os laços do sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos. O corpo procede do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito, porquanto o Espírito já existia antes da formação do corpo. Não é o pai quem cria o Espírito de seu filho; ele mais não faz do que lhe fornecer o invólucro corpóreo, cumprindo-lhe, no entanto, auxiliar o desenvolvimento intelectual e moral do filho, para fazê-lo progredir.” A genética define o físico, não o espírito.

Reencarnação significa o retorno do espírito em um novo corpo carnal. Vivemos uma única vida, já que somos, cada um, apenas um espírito. Ocorre que pela pluralidade de existências corpóreas, temos a oportunidade de inúmeras passagens pela Terra como encarnado para podermos evoluir. Durante essas inúmeras encarnações experimentamos uma série de biótipos físicos, nascemos ora homem, ora como mulher; ora rico; ora pobre; ora saudável; ora doentes, etc.

Para nós, a vida começa quando Deus nos criou como espíritos. Nosso nascimento na verdade é um novo renascimento, uma nova chance de aprendizagem, já nascemos e morremos inúmeras vezes antes dessa nova vida atual. Reencarnação é uma benção, é uma lei natural da evolução espiritual.

Grande parte dos fatos que ocorrem em nossa encarnação fazem parte do nosso planejamento reencarnatório, nada é por acaso, tudo foi planejado e elaborado pela espiritualidade para promover as alterações cármicas e de evolução necessárias paras as pessoas envolvidas. Porém durante a caminhada podemos através do nosso livre-arbítrio modificar e alterar esse planejamento com nossas escolhas e atitudes.

A cada encarnação trazemos em nossa “bagagem” o necessário para que nossa experiência seja a mais adequada ao que precisamos viver. Deus nos criou a todos iguais, simples e ignorantes, deixou-nos livres para escolhermos nosso caminho no bem ou no mal. Somos o resultado de múltiplas vivências em diferentes séculos.

Somos seres gregários viemos ao mundo para nos relacionar, o ser humano possui a necessidade de pertencer. Toda oportunidade nos conduz a um aprendizado novo, tornando-nos diferentes do que fomos. O bom vínculo é afetivo, comunicativo – o fato de alguém carregar o seu sangue não implica que não possa prejudicá-lo com o seu comportamento. Os genes estabelecem um vínculo hereditário que não implica um vínculo de afinidade. No conceito espírita de família importam o amor e a afinidade, não apenas a genética. O organograma da família atualmente é diferenciado com vários tipos e ramificações.

Família espiritual são aqueles que possuem afinidade conosco, que pensam e agem de forma parecido. A vida em família é um importante aprendizado para a vida em sociedade. A felicidade vem dos pequenos gestos éticos, pelo exemplo de atitudes de luz e da capacidade de mantermos relações empáticas.

“Procurando o bem para os nossos semelhantes, encontramos o nosso.”( Platão)

Adotar é um processo de procura, encontros e resultados. Ato de amor, aceitação, desprendimento e empatia. Vontade que vem da mente e do coração resgatando em nós o afeto, a compaixão e fraternidade. Na maioria das vezes é um encontro de seres planejado pela superioridade com muitas possibilidades de aprendizado e evolução.

A adoção não precisa necessariamente estar no planejamento de reencarnação dos envolvidos; pois gestos de afeto não estão condicionados necessariamente a outras encarnações ou dividas anteriores; ou ser necessariamente um acerto de contas ou resgate. Podem ser espíritos comprometidos pela lei do retorno e de ação e reação, que combinaram de forma planejada esse reencontro de forma madura e coerente. Há espíritos que reencarnam para serem filhos adotivos e em seu planejamento podem ou não escolherem seus pais. Cada nova encarnação é uma nova oportunidade para crescermos e superarmos imperfeições, a adoção é uma grande e iluminada oportunidade de elevação moral e aprendizado.

Não nos lembramos das nossas escolhas anteriores, que fazem parte da dinâmica natural da vida espiritual, se um acontecimento está no planejamento, ele fará tudo para ser realizado e será sempre para o bem e para o crescimento; mas a maneira que cada indivíduo irá agir será de acordo com as suas escolhas no momento das ocorrências, do uso do seu livre-arbítrio. A consciência pelos atos é proporcional ao entendimento e intenção. Através das escolhas o espírito é autor do seu próprio desenvolvimento.

Os espíritos superiores trabalham intensamente para que esses encontros sejam bem-sucedidos já que a adoção envolve fraternidade, afeto e é uma valorosa atitude de amor.

A doutrina espírita é favorável a tudo que reforce o amor, a caridade, solidariedade, as relações empáticas e de auxílio ao próximo. A gente é mais feliz quando caminha promovendo a felicidade dos outros.

Vamos caminhando com pequenos gestos do querer baseados no afeto e no respeito com muitas energias positivas.

“Somos feitos de átomos, mas a nossa essência tem que ser o amor.” (Samanta Merlin)

Fernanda Oliveira

Fonte: Blog Letra Espírita

Referências:

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Como ocorre o Planejamento Reencarnatório

Simara Cabral

“Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo”. Jesus (João, 3:7)

A reencarnação é a oportunidade dada por Deus para que os espíritos tenham a chance de se reeducarem, quantas vezes forem necessárias até alcançarem o aperfeiçoamento moral. Ela sempre traz novas possibilidades de aprendizado, reparação e, consequentemente, de evolução. Para que um espírito possa reencarnar é executado um planejamento orientado por espíritos mais evoluídos e que pode ter a participação do reencarnante, desde que este esteja equilibrado para participar do planejamento, visto que em outros casos, a reencarnação é compulsória.

No planejamento reencarnatório são decididas questões como a localidade e a região onde ocorrerá a reencarnação, a formação familiar, a estrutura física e o gênero das provas, sempre de acordo com a sintonia que o próprio espírito atrai para si. Na questão 258 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta aos espíritos: “No estado errante e antes de uma nova existência corporal, o Espírito tem a consciência e a previsão das coisas que lhe acontecerão durante a vida?” “Ele mesmo escolhe o tipo de provações a que deseja submeter-se; nisso consiste o seu livre-arbítrio.”, ou seja, o espírito na maioria das vezes escolhe a natureza de provas pelas quais passará em sua encarnação. Por exemplo, pode-se escolher a prova da riqueza, da miséria, da convivência com malfeitores ou com os vícios e a responsabilidade pelo sucesso ou pela queda em cada uma destas provações será do próprio indivíduo, a depender da força moral com que ele enfrente cada uma das situações no decorrer de sua vida carnal.

No livro Nascer e Renascer, Emmanuel diz “Há quem peça a provação da riqueza para desvencilhar-se de pesados grilhões nos círculos da economia terrestre e há quem rogue penúria, buscando aprender como se deve agir na fartura. Há quem suplique doenças do corpo para valorizar a saúde e há quem solicite saúde para estender assistência aos enfermos dos quais se fez devedor(…). Há quem se proponha a receber um cérebro claro e forte para servir aos ignorantes e há quem peça um cérebro frustrado para restaurar-se, através da humildade e da dor, perante o próprio destino.”, ou seja, é através das diferentes provações que enfrenta na carne que o espírito encontra o caminho pelo qual se aperfeiçoará e avançará na escala espiritual, sendo a reencarnação a oportunidade que permite que ele possa vencer as suas más inclinações e exercitar as virtudes que germinam dentro de si.

No livro Missionários da Luz, no capítulo 13 é exemplificado como ocorre na espiritualidade o processo do planejamento reencarnatório, através do reencarne de Segismundo, evidenciando a atuação dos benfeitores espirituais desde a confecção de seu organismo físico, onde foram previstas algumas limitações físicas de acordo com as necessidades de provas e da retificação que ele precisava realizar, até a ligação do reencarnante com a matéria orgânica. O instrutor Alexandre elucida André Luiz da seguinte forma: “Em geral, a reencarnação sistemática é sempre um curso laborioso de trabalho contra os defeitos morais preexistentes nas lições e conflitos presentes. Pormenores anatômicos imperfeitos, circunstâncias adversas, ambientes hostis, constituem, na maioria das vezes, os melhores lugares de aprendizado e redenção para aqueles que renascem. Por isso, o mapa de provas úteis é organizado com antecedência, como o caderno de apontamentos dos aprendizes nas escolas comuns”.

É importante compreender que o plano reencarnatório não é fatalista, e sim um programa traçado para o bem do reencarnante e se trata de um processo aberto, visto que o encarnado continua de posse de seu livre-arbítrio e o aproveitamento que ele alcançará em cada experiência de sua vida depende unicamente de seu esforço e de sua vontade. Na questão 259 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta: “Se o Espírito tem a escolha do tipo de provação a que deve submeter-se, isso quer dizer que todas as tribulações que experimentamos na vida foram previstas e escolhidas por nós?”. “Não exatamente todas, pois não se pode dizer que escolhestes e previstes tudo o que vos acontece no mundo, até as menores coisas. Escolhestes o tipo de provação, os detalhes são consequência da situação e muitas vezes de vossas próprias ações.” Portanto, os espíritos possuem uma independência relativa dentro do programa previamente traçado pelos espíritos superiores e por eles mesmos, e o sucesso que alcançará dentro do seu plano reencarnatório será proporcional ao esforço que fizer para atingir a melhoria sobre si mesmo.

Através da compreensão da lei do progresso e da reencarnação se torna possível entender a importância de se desenvolver o sentimento de gratidão mesmo diante dos obstáculos que possam aparecer na vida terrena, pois todos eles são reflexos das decisões e atitudes tomadas anteriormente e na maioria das vezes foram solicitações do próprio reencarnante, afinal, quando encontra-se na erraticidade e desprendido da influência material, ele possui maior clareza diante do objetivo que deseja atingir, e entende que o alcançará mais rapidamente ao escolher as provações mais difíceis.

Em suma, cada pessoa é a construtora do seu próprio destino e todas as atitudes e hábitos desenvolvidos durante a vida terrena geram consequências, que podem ser positivas ou negativas, mas sempre de responsabilidade do próprio espírito. A vida que tem-se hoje é o resultado das ações do passado, e o futuro depende daquilo que se construir no presente. Aquele que deseja ter um futuro ditoso, acumule em sua bagagem espiritual apenas a caridade, o amor e a benevolência lembrando-se sempre do mais importante mandamento que é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, e assim certamente estará atraindo para si mesmo um glorioso porvir.

Simara Cabral

Fonte: Letra Espírita

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A DOR DA SAUDADE

“A SAUDADE É UMA DOR QUE FERE NOS DOIS MUNDO”

Jane Maiolo

Um dos princípios básicos da Doutrina Espírita é a imortalidade da alma. A Doutrina Espírita é um conjunto de leis, reveladas pelos Espíritos Superiores, contidas nas obras de Allan Kardec, como o objetivo fundamental de esclarecer, orientar e consolar os homens. Entretanto, mesmo com o manancial rico e fecundo das escrituras codificadas por Kardec, quando o assunto é morte, sofremos.

Ela, a morte, muitas vezes vem sorrateira, devagarinho, se insinua, se inscreve, marca seu território e somos obrigados a encará-la cada dia um pouco, a ponto de até aceitá-la. Porém, às vezes, ela vem sem aviso, se intromete, se atreve, roubando os tesouros e nos deixando perplexos, abatidos, com uma interrogação afásica, sem chão.

E assim a vida segue. Os que ficam… ficam assim: devagarinho, marcados, roubados, empobrecidos. Talvez, a grande lição da vida seja aprender a conviver com as separações: lentas, bruscas, estúpidas. Definitivamente não sabemos! Não queremos saber e nos recusamos aceitar, quando a dor é insuportável, entretanto, a morte é surda, é audaciosa, ela só faz o que quer fazer. Nessa briga de foice iremos sempre perder. Talvez, a outra grande lição da vida seja viver hoje como se não houvesse o amanhã, pois, o amanhã definitivamente não nos pertence. Sabemos que teremos outras oportunidades, porém, em outras experiências, permitidas por Deus.

O luto é um processo necessário, nem sempre alcançado por todos que perdem seus afetos. A confusão emocional se instala, a ausência do ser amado transforma-se num imenso oceano incolor, insípido e inodoro.

O grande paradoxo da morte é que a ausência se torna presença e não sabemos lidar com tantos sentimentos confusos. A tristeza, a raiva, a saudade, a frustação e o sentimento de impotência se agigantam. Todavia seguir adiante é preciso. O auxílio para elaboração das fases do luto é de fundamental importância a fim de se reconstruir, mesmo na falta.

No processo de luto, às vezes, sentimos negação e isolamento, como se estivéssemos em um sonho ruim e em breve iremos despertar. Sentimos raiva porque no fundo pensávamos que de alguma maneira poderíamos evitar o desfecho, tentamos de maneira quase infantil negociar um outro final com a divindade, com os espíritos superiores e nos sentimos frustrados pela negativa às rogativas.

Muitos estacionam na fase da depressão e se negam a chance de novamente fazer investimento amorosos em todos os sentidos. Entretanto, se vivenciarmos esses momentos conscientes da natureza dos fatos, aceitando que estamos todos num processo de ir e vir, nascer, morrer, renascer ainda e progredir, passamos aceitar que a vida é o que é, assim nos permitiríamos viver, mesmo com a ausência. Cada um de nós elaboramos o luto com suas peculiaridades, tempo e intensidade. Não existe um tempo fixo para determinar a sua elaboração saudável, assim, o relevante é compreender que temos que nos permitir viver, apesar da dor da saudade!

Como diria Chico Xavier: A saudade é uma dor que fere nos dois mundos. Sejamos fortes, sigamos adiante, afinal, viver hoje agradecendo as oportunidades da vida é sinal de sabedoria emocional.

Jane Maiolo

Fonte: Kardec Rio Preto

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O NOVO NORMAL

Momento Espírita

Quando um vírus desconhecido ganhou lastro por todos os continentes, instalou-se a pandemia em nosso planeta.

Ele se alastrou na velocidade de um mundo sem fronteiras e distâncias, globalizado desde há muito.

Não tardou para que novos hábitos e costumes se inserissem no nosso cotidiano, exigindo atenção a detalhes antes desconsiderados.

Os apertos de mãos, abraços e rostos sem proteção foram rareando, nos necessários cuidados sanitários.

E tivemos que nos isolar uns dos outros, permanecendo em nossos lares.

Rapidamente passamos a comentar, nos noticiários e nas conversas informais, a respeito da instauração de um novo normal.

Aquilo que era tido como comportamento e atitudes normais, deviam, agora, ser repensados, reelaborados, para se inserir em novo contexto.

Efetivamente, é isso que a pandemia nos pede: uma reflexão, um novo olhar sobre o mundo e, acima de tudo, sobre nós mesmos.

Será que, efetivamente, o mundo estava em um estado normal? Será que nós estávamos na normalidade?

Podemos dizer que eram normais os nossos comportamentos ou os valores que conduziam nossas atitudes?

Talvez possamos pensar a esse respeito, antes de estabelecermos o nosso novo normal.

Há mais de dois mil anos, um homem especial propôs um novo normal.

Ele encontrou um mundo onde os poderosos sobrepujavam os fracos, onde a mentira poderia construir impérios e onde os frágeis, débeis e doentes eram desprezados, descartados.

Ele nos aconselhou a amar aos inimigos, e mesmo orar por aqueles que nos perseguem.

Ensinou que amar é uma questão de opção, e que a felicidade está na nossa capacidade de amar ao próximo como a nós mesmos.

Apontou que a ventura da vida se encontra em outros rumos, distante dos palácios e das riquezas temporárias. Está na intimidade do coração.

Esclareceu que Deus é Pai que nos ampara e provê a todas as nossas necessidades, porque nos ama infinitamente, mesmo nos enganos e nos tropeços.

Cantou as grandiosidades do Universo e a generosidade das Leis Divinas com simplicidade, para que, de coração simples, pudéssemos entender.

Porém, ao longo dos séculos, poucos nos convencemos de que era necessário estabelecer esse novo normal.

Quase todos permanecemos encastelados em nosso orgulho, cultivando atitudes egoístas.

Veio a pandemia para nos despertar e provocar reflexões.

Agora, sob os aguilhões da dor, não mais sob a bênção do amor, na doce proposta do meigo Rabi Galileu.

Busquemos, dessa forma, um novo normal. Mas que ele nasça não pautado apenas nos cuidados sanitários do vírus que a ciência analisa e estuda.

Em nossas almas, existem muitos vírus, que a ciência não detecta, mas que nos adoecem: os vírus da indiferença, da maldade, do egoísmo e do orgulho.

Para esse novo normal, que pretendemos construir, não permitamos todos esses vírus em nossas almas.

Busquemos a proteção para essas enfermidades, no tratamento maior que a figura incomparável de Jesus nos propôs: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a nós mesmos.

Redação do Momento Espírita

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VISÃO ESPÍRITA DA FAMÍLIA

Vera Cristina Marques de Oliveira Millano

Qual seria para a sociedade o resultado do relaxamento dos laços familiares? Uma recrudescência do egoísmo. “O Livro dos Espíritos” – pergunta 775

“A família é a base fundamental sobre a qual se ergue o imenso edifício da sociedade. Toda vez que a família se enfraquece a sociedade experimenta conflitos, abalada nas suas estruturas.” Joanna de Ângelis – Obra: “Constelação Familiar”

Por desconhecer a finalidade desta instituição chamada família, grande parcela da humanidade duvida de sua importância, despreza sua estrutura e desvaloriza seus laços consanguíneos e afetivos.

Mas a Doutrina Espírita alargou nossos horizontes para além da vida física e revelou-nos a vida do Espírito imortal. Impulsionados pela Lei do Progresso somos submetidos a vivenciar diferentes experiências no plano físico, nas mais diferentes situações, para aquisição do conhecimento e da mais elevada moral. Impossível progredir sem reencarnar. E a alma que reencarna vem do Mundo Espiritual para progredir. Hoje já temos informações suficientes para que possamos conhecer o objetivo da família, a origem da sua formação e a sua finalidade.

Ensinam-nos os Benfeitores Espirituais, na questão 913 do “O Livros dos Espíritos” que o egoísmo é o vício mais radical e que dele deriva todo o mal. Dizem eles: “Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos existe egoísmo… Quem nesta vida quiser se aproximar da perfeição moral deve extirpar do seu coração todo sentimento de egoísmo porque é incompatível com a justiça, o amor e a caridade: ele neutraliza todas as outras qualidades.”

É necessário extirpar o egoísmo que existe em nós e substituí-lo pela prática do amor e da caridade.

Deus, o Pai Nosso, conhecendo profundamente a fragilidade de seus filhos e os perigos que o egoísmo oferece para o nosso progresso, criou um mecanismo para nos auxiliar a combatê-lo: DEUS criou a FAMÍLIA, onde a proximidade física e os laços de afetividade trabalham na destruição deste vício.

Na busca do progresso e da evolução, indispensável reencarnarmos quantas vezes forem necessárias, e para que este retorno ao mundo material aconteça, necessitamos adquirir um novo corpo físico que somente será possível através da união de um óvulo com um espermatozoide, dando início à formação do feto que, desenvolvendo-se, nos colocará de volta ao palco da vida.

Portanto, já chegamos ao mundo físico, devendo gratidão aos nossos pais biológicos, pela oportunidade do regresso, como nos ensina “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo XIV: “Os laços de sangue não estabelecem necessariamente os laços entre os espíritos. O corpo procede do corpo, mas o espírito não procede do Espírito, porque o Espírito já existia antes da formação do corpo. O pai não gera o Espírito do filho: fornece-lhe apenas o envoltório corporal. Mas deve ajudar seu desenvolvimento intelectual e moral, para fazê-lo progredir. Os espíritos que se encarnam em uma mesma família, sobretudo entre parentes próximos, são o mais frequentemente, Espíritos simpáticos, unidos por relacionamentos anteriores que se traduzem por sua afeição durante a vida terrena. Mas pode ainda acontecer que esses Espíritos sejam completamente estranhos uns para os outros, separados por antipatias igualmente anteriores, que se traduzem também por seu antagonismo na Terra, a fim de lhes servir de prova”.

Concluem que “Os verdadeiros laços de família não são, pois, os da consanguinidade, mas os da simpatia e da comunhão de pensamentos que unem os Espíritos ANTES, DURANTE E APÓS SUA ENCARNAÇÃO”.

Existem as famílias espirituais e as famílias corporais. As espirituais, ligadas pelos laços do espírito, pelas afinidades, são duráveis, fortalecem-se pela depuração, crescimento e evolução dos seres e reencontram-se no mundo dos Espíritos, através de diversas migrações da alma. A misericórdia Divina proporciona também seu reencontro periódico no plano físico. Seus membros estão ligados pelos laços eternos do amor. As famílias corporais, ligadas somente pelos laços corpóreos, são frágeis como a matéria e as diferenças e as dificuldades de convivência revelam a necessidade do esforço, da dedicação e do empenho para que possamos transformá-la em extensão da nossa família espiritual. A obrigação de vivermos com os laços consanguíneos faz com que acabemos desenvolvendo os vínculos de afetividade entre Espíritos afins ou devedores que se reencontram, para que um dia possamos formar a família universal que Jesus mencionou: “Um só rebanho, um só pastor”.

Não existe acaso na Criação, e a benfeitora Joanna de Ângelis em “Constelação Familiar”, esclarece no capítulo 1:

“Esse grupamento familiar não é resultado casual de encontros apressados no mundo físico, havendo ocorrido nas esferas espirituais antes do renascimento orgânico, quando são desenhadas as programações entre os espíritos comprometidos, positiva ou negativamente, para os ajustamentos necessários ao progresso a que todos se encontram submetidos. Analisando-se as necessidades evolutivas, aqueles que se encontram com responsabilidades a cumprir juntos, constatam a excelência do cometimento que lhes ensejará reparação e crescimento intelecto-moral, em face dos erros passados, facultando-se a tolerância e o perdão das ofensas como fundamentais para a aquisição da harmonia”.

Família é instituição divina, com planejamento que antecede esta vida física, e que tem por objetivo o crescimento espiritual de todos os seus membros.

O nosso reencontro com o passado é inevitável. Não alcançaremos os mais altos degraus da evolução sem nos harmonizarmos com todos a nossa volta. Algumas vezes, impossibilitados de nos reencontrarmos, através dos laços da consanguinidade, Deus possibilita-nos através da adoção receber em nosso lar, o companheiro do passado, ligado a nós por amor ou tragédias, para que possamos nos amparar e sublimar as desavenças do pretérito. A adoção é um grandioso ato de amor, comprova a fragilidade dos laços consanguíneos e a certeza de que a paternidade e a maternidade do coração são mais vigorosas, e Deus jamais nos nega a possibilidade de sermos pais e educadores.

Não importa o lado formal da família, qual a estrutura que ela apresenta neste momento. O que realmente importa é aproveitar a oportunidade de aprendizado que Deus nos oferta através da convivência que poderá ser de carinho, alegrias com nossos afetos, ou de conquistas futuras com os desafetos do momento. Os afetos de hoje serão nossos amores de amanhã. Esta é a grande proposta de Deus para estabelecer na Terra a Família Universal, a humanidade unida pelos laços do respeito e da fraternidade.

A família é o meio que Deus criou para que o Espírito, algumas vezes até mesmo de forma compulsória, possa aprender a pensar no outro, conviver com o diferente, vivenciar tolerância e resignação, exercitar perdão e assim desenvolver-se mais rapidamente.

Atualmente, com estrutura bastante diversificada, a família está exigindo de seus membros atitudes corajosas de renúncia e dedicação, oferecendo oportunidades grandiosas de revermos relacionamentos e de estendermos o amor e o perdão a todos que compartilham conosco as quatro paredes de nosso lar. Nos lares atuais encontramos situações delicadas e desafiadoras onde a dependência química, a violência, as dificuldades financeiras, as doenças, a ingratidão, a solidão, a traição e o desrespeito incorporam-se à rotina da família, que, quando frágil, desconhecendo o endereço do amor ensinado por Jesus, deixa-se vencer pelo desânimo, abandono, desespero, ódio, culpa, mágoas e pela revolta.

Torna-se urgente o despertar do Ser para o conhecimento de sua realidade espiritual para que possa compreender que as situações difíceis dentro e fora do lar não são castigos e, portanto, não existem vítimas na criação Divina. São situações geradas por nós mesmos, Espíritos imortais em trabalho de aprendizado e evolução, e existe sempre uma finalidade útil para todos os desafios que vivenciamos. As experiências na trajetória física transformam-se em lições de sabedoria para tornar mais fácil a ascensão do Espírito, para que, inclusive, ele possa ultrapassar os limites de progresso em que se encontra. Todas as aflições poderiam ser vivenciadas dentro de outro clima, caso o amor fosse escolhido como guia e roteiro. Somente o amor dispõe de recursos valiosos para que possamos enfrentar as situações penosas que se avolumam em nosso caminho. Somente o amor nos oferece os recursos poderosos da paciência, coragem, perseverança, perdão, compreensão e confiança em Deus.

A nossa tarefa mais importante é trabalhar a boa convivência na família. Na sociedade poderemos ser bons profissionais, ótimos executivos, grandes oradores, pessoas de fama e projeção social, mas se no lar estivermos devendo paciência, perdão, tolerância, respeito, atenção, indulgência, de nada nos valerá a evidência no mundo, pois estaremos falhando em nossos maiores compromissos, e nada disso é mais importante do que o sucesso nas nossas relações familiares.

E é assim que, neste convívio familiar, vamos sendo obrigados a nos preocuparmos com os nossos próximos mais próximos, vamos diminuindo o nosso egoísmo, aprendendo a dividir, a repartir, a dar atenção, a conviver com o diferente de nós e a aceitar as pessoas como elas são. Fora do lar é mais fácil pensarmos somente em nós, usamos máscaras que favorecem nossos relacionamentos com as outras pessoas, para que possamos ser aceitos. Mas, é na intimidade da família que demonstramos nossos valores morais e quem realmente somos.

O lar é a escola que Deus criou para que pudéssemos aprender a convivência fraterna, a amar de diferentes formas. Amar como pais, amar como filhos, enteados, irmãos, primos, avós, tios, sogro, sogra, genro, nora, madrasta, padrasto e todos aqueles que a vida traz para perto de nós. Se a família fracassar nesta tarefa de reeducar o Espírito que chega, a sociedade sofrerá as consequências trágicas deste fracasso, abalada na sua estrutura e mergulhará no caos.

Em “Jesus no Lar”, capítulo um, Néio Lúcio, através de Francisco Cândido Xavier, relembra Jesus orientando-nos: “O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum… A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendermos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações? Se não nos habituarmos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?”

A família é a estrutura da sociedade, é a exportadora de homens e mulheres que formam a nossa sociedade, que constroem o nosso dia a dia. É instituição Divina e irá sobreviver heroicamente aos golpes que lhe têm sido desferido. Jamais desaparecerá da sociedade terrestre, sendo, portanto urgente a sua valorização, para que dentro dela eduque-se o homem renovado pela força poderosa do amor, que construirá a Nova Era, o Mundo de Regeneração.

Diante dos desafios que vivenciamos em nosso convívio familiar, é imprescindível buscarmos apoio na Verdade, e amparo no Evangelho de Jesus, para que possamos perseverar e vencer os compromissos luminosos que elaboramos no mundo espiritual.

Muitas vezes, visando nobres aprendizados em relação à construção da família Universal, solicitamos à Providência Divina a oportunidade de vivenciarmos a ausência de uma família física, para que possamos adquirir, no exercício da solidariedade e da amizade, os laços de afinidade que nos confortarão o coração, avançando assim para a elevada expressão de caridade conforme Jesus a pregou e a viveu em todos os momentos, antes e depois do Seu desencarne.

Importante lembrar que não importa qual seja a nossa atual estrutura familiar, a solução é, e sempre será, amar dentro do nosso lar! Para sustentarmos estes compromissos divinos é urgente levarmos Jesus para dentro de nossos lares, pois somente o amor, em suas infinitas expressões, ensinadas e vividas por Ele, é capaz de nos auxiliar nesta missão sagrada.

Vera Cristina Marques de Oliveira Millano

Livro: Evangelho no Lar, Nosso Encontro Com a Paz – Cap. 6

Fonte: Federação Espírita do Estado de S.Paulo (FEESP)

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Modismos e Posturas dispensáveis

Orson Peter Carrara

Artigo Modismo e Postura

Estouram periodicamente no movimento espírita ações e posturas – que em muitos casos viram modismos – que são plenamente dispensáveis, pois que inúteis.

São sugestionadas as censuras, as discriminações, as disputas. São escolhidos alguns tópicos ou temas – escolhidos os polêmicos, claro –, e até mesmo alguns livros ou pontos de vistas, que são alimentados pela presunção da sabedoria ou pela pretensão de denegrir. Elegem-se ídolos, constroem-se padrões planejados ou diretrizes como essenciais para direcionar a objetivos nem sempre claros, seguidos por desatentos, desinformados ou seduzidos.

Disputas, ídolos construídos, censuras, discriminações, polêmicas desnecessárias que só desviam do objetivo maior, egos buscados ou alimentados, são modismos. Igualmente são posturas dispensáveis. A nada servem. Na verdade, só desviam do objetivo essencial. Objetivo bem definido por Kardec.

Em “O Espiritismo em sua mais simples expressão”, encontramos:

“(…) 35 – O objetivo essencial do Espiritismo é o melhoramento dos homens. Não é preciso procurar nele senão o que pode ajudar no progresso moral e intelectual. (…)”

E mais adiante, nos itens 36 e 37 da mesma obra:

“(…) De nada adianta crer, se a crença não faz com que dê um passo adiante na via do progresso, e não o torne melhor para seu próximo. (…) O egoísmo, o orgulho, a vaidade, a ambição, a cupidez, o ódio, a inveja, o ciúme, a maledicência, são para a alma ervas venenosas das quais é preciso a cada dia arrancar algumas hastes, e que têm como antídoto: a caridade e a humildade. (…)”

Muitas outras transcrições, decorrentes de pesquisas na mesma direção em toda a obra de Kardec, levam à mesma conclusão: o objetivo do Espiritismo é nosso melhoramento moral. Desviar-se desse objetivo é distorcer a prática espírita. Portanto, as situações acima citadas, onde podem também incluir-se a imposição de ideias e mesmo a inclusão de práticas estranhas, são fruto da imaturidade humana, acionada especialmente pelo egoísmo que ainda nos caracteriza as ações.

Então, ficamos a dizer que isso pode, aquilo não pode. Ficamos a distorcer a credibilidade construída sobre a lógica e o bom senso, qualificamos experiências e ensinos valorosos como ultrapassados, entre outras situações que a imaginação, a memória ou a constatação do leitor já identificou em seu cotidiano nas instituições.

Pois isso os Modismos são incompatíveis com o Espiritismo. Isso é prática deturpada de espíritas desatentos e sem a conexão do conhecimento aliado à prática. Portanto, dispensáveis. Até porque os prejuízos gerados nos que se aproximam e encontram tais situações, ou mesmo a veteranos que se deixam contagiar ou se deixam conduzir, interrompem ou paralisam em definitivo iniciativas de inúmeros benefícios para muitos. Por força do egoísmo que impõe, que inclui na argumentação ilusória, que manipula buscando outros interesses ou que estabelece padrões de comportamento que nada tem a ver com a genuína prática espírita.

Isso tudo é fruto do egoísmo, é resultado da imaturidade, para os quais devemos estar atentos, para também não nos deixarmos levar, desviando ou desvalorizando nobres esforços consolidados ou em andamento.

Cuidado com os modismos. Eles passam e se ficarmos prestando atenção neles, deixamos de fazer aquilo que precisa ser feito, deixamos de cumprir o dever que nos cabe. Como identifica-los? Ah, isso é muito fácil! Basta observar a autopromoção, observar a ausência do bom senso e da lógica e também ver a presença do fanatismo. Também estão na inclusão de verdadeiros rituais, na imposição de modelos prontos e até mesmo na prevalência dos interesses pessoais, ao invés do interesse coletivo. Está também na manipulação das ideias e mesmo na mais fácil indicação que você pode observar: na pretensão da verdade e na preocupação constante da demonstração de infalibilidade. Nesses casos, inclusive, seus protagonistas fogem do objetivo essencial da Doutrina Espírita, procurando impressionar os desprevenidos, com posturas e modismo plenamente dispensáveis, totalmente desconectados com o Espiritismo.

Por isso voltemos a Kardec: o objetivo essencial do Espiritismo é nossa melhoria moral.

Orson Peter Carrara

Fonte: Portal do Espírito

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PARA ONDE VOCÊ VAI ESTA NOITE?

Vinícius Moura

A Doutrina Espírita se destaca pela análise profunda dos aspectos comuns de nossas vidas. Ela ilumina e amplia, por exemplo, o nosso entendimento do nascimento e da morte, da saúde e da doença e o papel do corpo na evolução do espírito. Biologicamente, o corpo requer descanso e chamamos este período de sono. Acontece que insuspeitáveis fenômenos ocorrem todos os dias durante o descanso do corpo. A nossa saúde física e mental, nosso estado de ânimo, a predisposição para o trabalho, a qualidade das relações e a evolução moral do espírito dependem deste instante, conhecido entre os espíritas como emancipação da alma.

Emancipar é sinônimo de libertar-se, tornar-se independente. Também significa ter responsabilidade pelos nossos atos. Muitos creem que o sono é uma atividade automática, ou seja, passiva, guiada única e exclusivamente pelo domínio do sistema neuroendócrino. Quem assim o concebe acaba por abdicar-se de seu controle, o que significa abrir mão de aproximadamente um terço da nossa vida. Agindo assim, negligenciamos o processo e somos os únicos responsáveis pelas consequências que se apresentarão no dia seguinte. Segundo a obra máxima da codificação, “O Espírito jamais está inativo. Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e, então, não precisando o corpo de sua presença, o espírito se lança no espaço e entra em relação mais direta com os outros espíritos1 ”. Frequentemente, essa liberdade deixa lembranças na forma de sonhos bem objetivos ou, ao contrário, intensamente enigmáticos. Conclusão, a emancipação da alma, algumas vezes chamada de desdobramento espiritual, é uma das maneiras em que se estabelece o intercâmbio entre o plano físico e o espiritual.

Para os leigos no conhecimento espírita, vale a pena ressaltar que não foi a doutrina codificada por Allan Kardec que inventou a emancipação da alma e tudo mais que lhe sucede. Sua veracidade é encontrada muito bem descrita em todos os tempos e em todas as artes. No evangelho de Mateus, encontramos a seguinte narrativa: “Depois que partiram, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e lhe disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito. Permanece lá até que eu te diga, pois Herodes há de procurar o menino para o matar’”2. Inúmeros relatos, inclusive autobiográficos, encontram-se na literatura científica. Em 1845, o inventor Elias Howe Jr. sonhou que estava sendo atacado por canibais. Ele notou que as lanças do sonho tinham furos nas pontas e assim imaginou como as agulhas de uma máquina de costura poderiam funcionar. Conta-se também, sem uma comprovação oficial, que o DNA foi visualizado em sonho por James D. Watson e a estrutura da tabela periódica por Dmitri Mendeleiev. Muito conhecida também é a história da composição da canção Yesterday, a música mais regravada da história, composta por Paul McCartney em 1965. Essa canção surgiu durante um sonho quando Paul tinha apenas 22 anos. O pintor e fotógrafo polonês Zdzisław Beksiński surpreendeu a comunidade artística com suas obras inspiradas no surrealismo. A intenção do artista era “pintar de uma maneira como se estivesse fotografando sonhos”, mas, ao que parece, elas acabaram retratando pesadelos. De 1990 em diante sua vida foi curiosa e lamentavelmente marcada por tragédias. Vale destacar que, durante as noites e neste mesmo período, tornou-se comum a presença de avisos nas portas dos artistas: “Poetas trabalhando”.

Este tema é muito útil para os que acreditam na existência do espírito e muito perigoso para os que descreem na atividade da alma mesmo durante o repouso do corpo. A grande questão que se apresenta aqui neste momento é: para onde vai e o que faz o espírito durante a emancipação da alma? Há quem diga que dormir é uma experiência da morte. Pela lei do esquecimento do passado, não posso assinar embaixo, pois não me lembro de como é morrer. No entanto, há muita similaridade entre dormir e morrer. Uma delas é que, durante o sono ou diante da morte, nós seguimos a direção dos nossos sonhos. Confuso? Explico. Cada alma vibra em determinada faixa e se move entre os limites extremos que nos sustentam. Nosso nascimento na Terra é a própria constatação dessa realidade. Nascemos na Terra e não em Júpiter, pois possuímos o passaporte “biopsiquicoespiritual” condizente com o planeta azul, e não com o gigante gasoso. Da mesma forma, seremos irresistivelmente atraídos para os ambientes e para as almas que se afinizam conosco. Nenhuma novidade aqui. Não é exatamente o que acontece hoje em sua vida? Você não está em ambientes e convivendo com pessoas necessárias para o seu progresso espiritual? De uma forma ou de outra, não foi você que escolheu? O Cristo resumiu esse fenômeno espiritual da seguinte forma: “Onde está o seu tesouro, aí estará o seu coração”. Simples assim. Suas preferências definirão paisagens, cenários, sensações e suas companhias espirituais.

Mas, o que fazer para evoluir nesse contexto? Estudo, humildade e mudança de hábitos são imprescindíveis. Assim como nos preparamos para sair de casa para trabalhar ou para ir a uma festa, é necessário nos prepararmos para adentrar a faixa sutil na qual a alma curtirá sua emancipação. E muita atenção ao longo do dia, pois o modo como vivenciamos as horas são determinantes para a qualidade do sono à noite. A boa notícia é que podemos elevar em diversos graus a nossa faixa vibracional. Mantenha conversações elevadas ao longo do dia, providencie alimentação mais leve antes de adormecer, pratique atividade física moderada, beba água, selecione vídeos, programas de TV e boa leitura antes de emancipar-se e não subestime a força da oração. Lembre-se: O sono é uma necessidade de repouso do corpo e a emancipação da alma uma oportunidade para o espírito. E por falar nisso, aonde você vai esta noite?

Vinícius Moura

Fonte: Fraternidade Espírita Irmão Glacus (FEIG)

Referências:

  • [1] O Livro dos Espíritos. Parte Segunda – “Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos” – Capítulo VIII – “Da emancipação da alma”.
  • [2] Evangelho de Mateus (2:13).
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EFEITO COLATERAL DO AMOR

Sidney Fernandes

Diante do sofrimento, há pessoas que fazem o bem buscando cura. Como alguém lhes disse que a assistência ao pobre, a contribuição à casa religiosa ou o trabalho voluntário pode lhes trazer alívio, assumem atitude altruística, visando benefícios, por interesse.

Muitas tomam gosto e, mesmo depois de curadas, tornam-se criaturas abnegadas, que sentem que é seu dever amenizar as dores do próximo. Com o passar do tempo, esquecem-se completamente do interesse, do dever, e passam a agir pela satisfação de ver o outro feliz, saudável e equilibrado. Eu diria que começaram a trilhar os primeiros passos do autêntico amor.

Detectei, caro leitor, não propriamente uma outra classe de caridosos, mas uma variação desta terceira, observando uma espécie de efeito colateral nos que, contínua ou esporadicamente, desprendem-se do egocentrismo humano e se tornam protagonistas de gestos inesquecíveis, ainda que de forma espontânea ou não intencional.

***

Roberto sofreu grave acidente de moto que o levou à morte encefálica. Sua irmã, que acompanhava de perto o paciente hospitalizado, autorizou o transplante de seu coração. A notícia deixou preocupada a mãe de Roberto, Izar, pois, com sua simplicidade, tinha dúvidas se o filho ficara bem e se havia aceito bem a decisão da irmã.

Izar foi quatro vezes a Uberaba. Na quarta viagem seu filho comunicou-se e lhe transmitiu o consolo e os esclarecimentos almejados, por intermédio de Chico Xavier. Eis um pequeno trecho de sua comunicação:

— Estou, mãezinha Izar, satisfeito por ter tido oportunidade de doar o coração, que se abeirava da imobilidade, a uma outra pessoa que com isto se beneficiaria. Segundo pode o seu generoso coração concluir, seu filho está feliz por ter encontrado o ensejo de cooperar em auxílio de alguém na hora da liberação que se achava prestes a se consumar.

Aqui temos, amigo leitor, um abençoado efeito colateral de um ato de amor. Roberto deixou bem claro que os reflexos benéficos que havia recebido no plano espiritual foram decorrentes da doação de seu coração.

***

Apeguemo-nos ao bem. No começo, incipientes no trato das coisas de Deus, talvez confundamos nosso comportamento, tentando estabelecer uma espécie de toma-lá-dá-cá com a divindade. Mas, no início é assim mesmo, porque pautamos nossas vidas pela partitura do egoísmo.

Mais adiante, mais equilibrados, tomaremos gosto e passaremos a fazer o bem por dever, para finalmente, ensaiarmos os primeiros passos em direção ao legítimo amor.

Fiquemos com Emmanuel: O bem que praticares em algum lugar é o teu advogado em toda parte.

Sidney Fernandes

Fonte: Kardec Rio Preto

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SOBRE FOMES, APETITES, DESESPEROS E GULODICES

Marcelo Teixeira

Há alguns anos, dois amigos de movimento espírita se casaram. A cerimônia foi no sítio da família do noivo, em uma cidade distante cerca de 100km de Petrópolis (RJ), onde moro. Decidimos fretar um ônibus. Assim, todos os convidados da Cidade Imperial iriam juntos. E chegariam com mais segurança ao local, já que nem todos conhecem a cidade, e o sítio está situado na zona rural. A família da noiva é de Petrópolis; a do noivo, de outra cidade vizinha. E havia também convidados de outras cidades, inclusive da capital.

A cerimônia civil estava marcada para o meio-dia, se não me engano. Em seguida, seria servido um opíparo almoço, já que a família do noivo é proprietária de vários restaurantes. Para que todos chegassem a tempo ao sítio, tiveram de acordar cedo e se produzir como convém à ocasião. E todo mundo tomou café da manhã bem cedo também. Eu, inclusive.

Era um sábado de feriado nacional, não me lembro qual. Casamento em zona rural, ou seja, nada de mercados, lanchonetes e afins. E se houvesse, talvez estivessem fechados. Tudo pronto para a cerimônia. Noivo e convidados a postos. Deram 12h, 13h, 13h30 e nada da noiva. Motivo: só havia um cabeleireiro e várias mulheres para serem penteadas. Além da nubente, havia a mãe e a sogra dela, além das madrinhas.

Uma agitação se instalou entre os convidados. Todos haviam tomado café da manhã muito cedo e ninguém conhecia a região para sair em busca de algum lanche. Mesmo porque, não havia nada por perto. E era feriado, ainda por cima. Quem poderia garantir se encontraríamos algo funcionando? A agitação foi se transformando em desespero causado pela fome; e nada da noiva chegar.

Foi quando o pai do noivo mandou improvisar uma tenda, na qual foram colocadas dezenas de pães franceses, além de fatias e mais fatias de queijo prato e presunto. Devem ter vindo de alguma padaria da região. Foi um Deus nos acuda! Os convidados, todos devidamente engalanados, maquiados e penteados, se acotovelaram, na disputa por um sanduíche.

Eu e os amigos de movimento espírita apenas observávamos. Aliás, tiro o chapéu para a turma espírita que estava presente. Nenhum de nós, apesar da fome, avançou na tenda. Patrícia, uma amiga, pediu para que eu, de forma civilizada, fosse até lá e fizesse um sanduíche para ela. Aquiesci e me aproximei tranquilamente. À minha frente, uma elegante senhora, entre desesperada e esbaforida, terminava de colocar várias fatias de queijo e presunto no pão. Não me arrisquei a entrar no embate. Preferi aguardar um pouquinho que fosse. Subitamente, só eu fiquei no local. Todos já haviam preparado suas iguarias improvisadas e se afastado. Havia sobrado meia banda de pão francês. Achei curioso como tanta gente faminta havia deixado aquela metade de pão para trás. Será que alguém montou o sanduba só com a outra banda do pão? Vali-me, então, de um guardanapo que também sobrara, peguei aquele pão, levei até Patrícia e disse que era o que havia restado para contar a história. Como ela preferiu não comer meia banda de pão seco, coloquei a iguaria de volta na mesa da tenda. Vai que alguém ainda à cata de uma migalha pudesse se interessar? Felizmente, minutos depois, a noiva chegou, o casamento se concretizou, o almoço foi servido e todo mundo se refestelou.

Confesso a vocês que foi um experimento e tanto ver como a fome faz muita gente descer do salto. E isso num caso de fome momentânea! Fico imaginando como deve ser com quem padece de fome crônica.

É bem interessante notar como a comida que é ofertada causa a mais variada gama de reações. No caso que narrei, tratava-se de uma cerimônia formal. Um enlace matrimonial. Ninguém foi lá para comer, embora soubesse que haveria almoço seguido de mesa de doces, bolo de casamento etc. E de fato foi uma tarde bem farta e variada. Mas como todos estavam há muitas horas sem comer, os sanduíches improvisados – e nos quais muitos dos presentes não tocariam se fizessem parte do menu oficial – se transformaram num manjar dos deuses a saciar a fome de adultos e crianças solenemente trajados para a ocasião.

Festas de casamento, aliás, são excelentes ensejos para observamos a relação que temos com fartura de comidas e bebidas. Já presenciei cenas que foram do divertido ao patético. Entre elas, casamentos em que os convidados depenaram a mesa de doces logo no início da festa. De nada adiantou as famílias dos noivos pedirem para os convivas deixarem a mesa intacta até o momento das fotos e de cortar o bolo. As trufas, “fondants”, bem-casados e afins foram atacados sem dó, nem piedade. E isso com o jantar sendo servido! Creio que a profusão de cores, aromas e sabores faz a turma comer com os olhos. E como o olho é maior que a barriga, lá se vai a mesa de doces para o tombo! E tem a ver com falta de educação também, convenhamos! Tem gente que não pode ver comida bonita, arrumada e em profusão. Às vezes não sobram nem os objetos de decoração que pertencem ao local onde a festa aconteceu. Já ouvi de um cerimonialista que ele teve de cobrar dos noivos por alguns jarros que os convidados levaram para casa. Jarros que eram propriedade da empresa de cerimonial.

Não precisamos, contudo, de um casamento com pompa e circunstância para atestarmos como do egoísmo derivam todos os males que assolam a humanidade, como diz a questão 913 de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec. Falarei sobre dois que têm a ver com o assunto em questão.

O primeiro mal é a gulodice, que faz o cidadão pensar só em si na hora de se servir. Certa vez, num restaurante a quilo, uma senhora se deparou com dois pratos à base de camarão. Um deles era chuchu com camarão. Do outro, não me lembro. Eu estava imediatamente atrás dela. A mulher ficou maravilhada e começou a falar para si mesma (e para mim também, creio) que adorava camarão, que era uma iguaria estupenda e coisa e tal. Em seguida, pegou todo o camarão que havia nos dois pratos. O chuchu com camarão virou chuchu com chuchu. O outro prato também ficou desprovido do apreciado fruto do mar. A mim não afetou, e por um motivo bem simples: detesto camarão! Mas os clientes que vinham em seguida a mim decerto gostariam de se servir de tão badalada iguaria. Não puderam porque a lépida senhorinha de classe média sequestrou o camarão só para si.

O outro mal é o parco acesso que boa parte da população tem a uma mesa farta, nutritiva e colorida. Por isso, quando se depara com uma situação de fartura, a gula fala mais alto. Uma gula que pode ser sinônimo de uma fome nunca dantes saciada. E não falo somente sobre barriga vazia, mas sobre barriga que nunca teve acesso a uma alimentação rica e variada. A isso, Maria Luíza, amiga e colega de trabalho por muito tempo, dá o nome de fome tardia.

Marilu, como eu a chamo, teve uma empregada que vivia comendo em excesso. Até de um vinho de baixa qualidade que minha amiga guardava para temperar a carne de vez em quando, a empregada deu cabo. O mesmo destino tiveram algumas garrafinhas de uma bebida que ela comprou porque iria receber um casal de amigos. Quando abriu a geladeira, dos seis exemplares que Maria Luíza havia comprado, só restavam dois. A empregada tomara quatro. E fazia a mesma coisa se Marilu comprasse quindins, cocadas, pastéis, caquis, morangos, quibes, pêssegos… É a fome de quem sempre come mal e, ao se deparar com fartura, engole tudo para compensar a fome por uma despensa cheia e por não saber quando haverá ensejo de comer bem novamente.

Na mesma questão 913 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec ressalta que o egoísmo é incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Já na questão 875-a, é dito que a base dessas três virtudes é querermos para os outros o mesmo que queremos para nós mesmos. Aí, cabe a pergunta: por que nem sempre queremos para os outros a qualidade do que queremos para nós mesmos? Isso me faz lembrar um então prefeito brasileiro, que sugeriu dar ração como merenda escolar. Acharíamos justo se nossos filhos comessem ração humana na hora do recreio? Ou será que pensamos que só nossas crianças têm direito a levar sucos, sanduíches, frutas e bolos na lancheira? Julgamos natural que algumas crianças tenham direito a uma merenda farta enquanto outras comem ração? Se a resposta é positiva, aconselho pesarmos direitinho na balança da nossa consciência o que de fato quer dizer a palavra cristão.

Volto a “O Livro dos Espíritos”. Dessa vez, na questão 803, a primeira do capítulo sobre a lei de igualdade. Kardec indaga se todos os homens são iguais perante Deus. Os amigos espirituais respondem que todos tendem para o mesmo fim, que o sol nasce para todos e que todos são submetidos às mesmas leis da natureza. Em suma, todos têm as mesmas necessidades, alegrias, dores físicas e morais. Tenhamos em mente que a dor da fome, seja ela crônica ou momentânea, é imensurável e, antes de tudo, imoral. Afinal, o mundo tem capacidade de sobra para que todos tenham uma alimentação rica e saudável. Se o sol nasce para todos, há água, terra, ar, além de frutas, legumes, verduras e cereais para todos. O que atrapalha é a proposital má gestão dos bens que o planeta produz a fim de que os poderosos de sempre sejam beneficiados. A isso se dá o nome de egoísmo, a maior de todas as chagas morais que aturdem o homem.

P.S.: ainda pretendo fazer esse assunto render. Ele requer uma abundância de interpretações.

Marcelo Teixeira

Fonte: Associação Brasileira de Pedagogia Espírtia (ABPE

Biblliografia:

KARDEC, Allan – O Livro dos Espíritos, 60ª edição, 1986, Federação Espírita Brasileira (FEB), Brasília, DF.

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