A CASA APEDREJADA POR ESPÍRITO

Miguel Domingos de Oliveira

Na década de 1950 presenciei um fato interessante, acontecido em uma casa que até hoje existe, na avenida Cesário Alvim, em Uberlândia, MG, ao lado de um depósito de brita, pertencente a uma casa de material de construção.

Sem que ninguém explicasse o porquê, a casa começava a ser alvejada por torrões de terra, que volta e meia estilhaçavam as vidraças.

Os donos da casa, muito assustados com aquilo, chamaram o padre para expulsar o que eles acreditavam ser o demônio. Na sala da casa, o sacerdote ergueu um pequeno altar e com muita boa vontade iniciou suas orações. De repente, um torrão vindo de um dos cômodos interiores passou rente aos seus óculos. Assustado, o pároco viu o segundo torrão ser lançado em direção ao quadro de jogadores de futebol, afixado na parede atrás.

Desesperado, o padre saiu a gritar que ali não ficava, que aquilo era coisa do demônio.

Naquele mesmo dia, nosso vizinho foi até em casa narrar o fato e revelou que gostaria de ver de perto aqueles fenômenos, embora o medo não o deixasse ir.

— Você já foi lá, Miguel? — perguntou-me ele.

— Eu não — lhe respondi.

— Ah! Então vamos todos ver isso de perto — falou, taxativa, minha esposa.

Nossa visita

Assim o fizemos. Maria, o vizinho e eu fomos recebidos pelo dono da casa, que nos contou o fato que já sabíamos, porém com mais detalhes. De repente, a cena se repetiu. Um torrão passou à nossa frente e foi se espatifar num quadro na parede, que caiu desfeito ao chão.

Meu vizinho, surpreso e contendo o temor, indignou-se:

— Oh, o negócio é verdade mesmo!

E os torrões continuaram vindo, um a um, destruindo quadros e enfeites da casa. Assustado, meu vizinho que acompanhava tudo muito atento, interrogou apavorado:

— Oh! Mas o que que é isso, Miguel?

— Isso não é nada, não. Esse fenômeno não deve mais continuar.

Enquanto Maria conversava com os donos da casa, fui andando pelos cômodos, fazendo uma prece mental, conversando com o amigo desencarnado, dizendo que ele estava trabalhando muito bem para a divulgação da mediunidade, mas que aquilo não era certo, pois que estava assustando muita gente, tomando o tempo das pessoas que ali moravam e que tinham os seus compromissos, porquanto o dia todo eram curiosos e repórteres que chegavam, querendo informações.

— Peço-lhe — continuei minha conversa mental — que se puder, me acompanhe aos trabalhos que mais à noite acontecerá no Centro Espírita Joana d’Arc, e lá poderemos conversar.

Despedimo-nos dos moradores e saímos para a nossa casa.

Trazendo à consciência

O dia transcorreu normalmente e, chegada a hora dos trabalhos mediúnicos, eis que o nosso amigo é o primeiro a nos falar, através de um dos médiuns presentes na reunião.

Ele ria, ria muito, dando altas gargalhadas. Eu, então, perguntei-lhe:

— Meu amigo, do que é que você está achando tanta graça?

— Você não assistiu lá as pedradas? Viu que boa acertada eu dei no quadro dos jogadores de futebol que estava na parede acima da janela?

Eu deixei-o rir bastante para depois tornar a falar do benefício que ele prestava às pessoas, despertando-as para as coisas além da matéria, mas a maneira com que fazia não era correta, pois trazia muitos transtornos.

— Eu faço isso há muito anos. Na fazenda, eu era mestre em pregar sustos nas pessoas. Eu pegava uma saia de mulher, amarrava uma peneira e pendurava-a no pescoço. Transfigurado na sombra da vela acesa que eu carregava, eu saía à noite assustando todo mundo.

— Ouvindo sua narrativa, eu perguntei de onde ele retirava os torrões de terra que atirava na casa, e porque não jogava britas, já que no terreno pegado a casa havia um enorme depósito.

— Ah, os torrões eu só consigo tirar debaixo dos pés daquele menino – referindo-se à criança de 12 anos que lá morava. Tratava-se do neto do dono da casa, que mesmo sem ter consciência do fato, oferecia das condições necessárias para o que o fenômeno de efeitos físicos se realizasse.

Através das faculdades mediúnicas da criança, ele interferia nas atividades da casa, na fazenda, nos lugares onde a criança convivia. Dizia ele que quando o menino estava na fazenda, não se conseguir tirar leite das vacas, pois que elas, enfurecidas, davam coices para todo lado.

O convite para o despertar

— Olha, meu amigo —continuei—, o tempo de brincar assim já se foi. Nós vamos juntos fazer uma prece e você vai observar que muita coisa mudou. Observe.

E com muito cuidado, estimulando aquele irmão para que percebesse que já havia deixado o corpo material para trás através da desencarnação, falei à certa altura da nossa conversa:

— O que pensaria se eu lhe dissesse que a vida não acaba com a morte e que continuamos a viver em outro plano? Muitos irmãos nossos desencarnam e nem percebem que já não pertencem a este plano!

— Não, mas não é meu caso, não. Eu tô vendo tudo o que se passa. Conheço todos que vão em casa. Ei joguei pedra no padre que eu sei quem é. Eu até ri demais com o jeito dele falar, que eu era o satanás. Ainda pensei: Que ignorância. Eu não sou o satanás, não.

— Pois é, meu amigo, é que seus atos estão mesmo parecendo de uma pessoa errada. Deixe disso. Acompanhe essa equipe que lhe convida para estudar e se preparar para que possa usar toda essa energia que você tem para fazer muita coisa boa.

Finalizamos o nosso diálogo sentindo que aquele irmão havia se sensibilizado com a conversa e que aceitara o nosso convite ao preparo para o seu aprimoramento e o trabalho no bem.

Depois daquele dia, não mais tivemos notícias sobre fenômenos sobrenaturais na casa, sobrenaturais não, mais do que naturais, pois se Deus é o criador de natureza, existir algo sobrenatural significaria estar fora do controle Daquele que tudo sabe, tudo ouve, tudo vê.

Do livro Atos de amor, Miguel Domingos de Oliveira, Izabel Vitusso. Lírio Editora, MG, 1997.

Miguel Domingos de Oliveira

Fonte: Correio.News

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PRESERVE A ESPERANÇA

Divaldo P. Franco

Vive-se na Terra um dos seus momentos caóticos.

Muitas conquistas tecnológicas jamais dantes imaginadas e desastroso comportamento ético-moral.

Em toda parte, o sofrimento campeia, empurrando a sociedade para os abismos da insanidade e da perda de sentido existencial.

Mesmo pessoas sensatas e portadoras de objetivos elevados sentem a agressividade que se encontra no ar e o desespero que vai crescendo na intimidade da família.

As imposições estabelecidas pelos órgãos internacionais de saúde vêm produzindo rebeldia e desesperação, que explodem na convivência dos lares por falta de estrutura emocional dos seus membros para uma convivência harmônica e produtiva.

Por um lado, o isolamento, evitando formar grupos que se tornam perigosos pela facilidade de contaminação pela peste e, por outro, a presença no lar todo o tempo possível.

A saturação doméstica converte-se em surdas animosidades que explodem de maneira desastrosa entre os cônjuges e/ou com as crianças irrequietas nos pequenos espaços do lar.

O ser humano é eminentemente um indivíduo social, que tem necessidade de convivência com toda a sua espécie e com a vida em seu entorno. Quando se isola, está em crise interior, expressando alguma patologia correspondente à situação que atravessa.

Através da História, percebemos que a sua evolução antropológica tem sido conseguida a grande esforço moral, constituindo a civilização que pauta o seu comportamento.

O abandono da convivência em grupo torna-o estranho, desconfiado, agressivo, como se fosse obrigado a ferir antes de ser atingido.

A cada dia, ao lado dos altos índices de óbitos pela pandemia, o desânimo, o medo e a insegurança aturdem-no, sentindo-se enganado pelos veículos de comunicação, quase nunca fiéis aos fatos, sempre com notícias temerárias e pessimistas.

Não é a primeira vez que a sociedade enfrenta situação equivalente.

De vez em quando, ao longo dos tempos, surgem situações deste gênero ou a ele semelhantes, dando a ideia de que estão chegando os fins dos tempos.

Em realidade, este como outros fenômenos fazem parte do processo de evolução da Humanidade.

O progresso sempre exige expressiva contribuição de sofrimento, porque se trata de abandonar hábitos e situações estabelecidos por outros novos.

Dessa forma, faz-se indispensável uma total mudança de pensamento, saindo-se do pessimismo, do medo e da inquietação pela irrestrita confiança em Deus, porque o Universo não se autofez, e as leis que o administram são de origem transcendental.

Felizmente, já se apela para Deus, para a oração, para os pensamentos elevados possuidores dos antídotos capazes de restaurar a saúde dos enfermos ao lado das terapêuticas especializadas.

Divaldo Pereira Franco

Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 27.5.2021

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Afaste os Maus Espíritos!

Orson Peter Carrara

Muita gente tem medo só de pensar nos espíritos. Que dizer então quando se tratarem de maus espíritos? E, levados por uma suposta e antecipada proteção, utilizam-se de inúteis e variados meios que, dizem, protege contra a influência deles. Com esse propósito de se defenderem ou afastarem supostas presenças de maus espíritos que lhes prejudiquem a vida ou os negócios, utilizam-se de processos vulgares que a nada levam.

Essas práticas recebem o nome de oferendas, exorcismos, uso de amuletos etc. e são absolutamente inúteis, desgastantes, improdutivas e desnecessárias.

Antes de mais nada, é preciso que se repita que os espíritos são os seres humanos antes e após a existência na Terra. Portanto, também somos espíritos. E, após a morte do corpo, habitaremos o mundo dos espíritos, com nossas virtudes, defeitos e conquistas morais e intelectuais.

Podemos afirmar como princípio geral que os maus espíritos aparecem ou se intrometem onde alguma coisa os atrai. E o que os atrai? É simples. Em primeiro lugar, as imperfeições morais; em segundo lugar a demasiada confiança com que são acolhidas as suas palavras ou sugestões, ainda que intuitivas.

As imperfeições morais são a inveja, a maledicência, a ganância, o egoísmo, o ciúme, a intolerância, a irritação, a impaciência e outros males. Portanto para que eles não sejam atraídos, basta substituir aqueles sentimentos pela paz, pela concórdia, pelo entendimento, pela paciência, pela calma, pelo amor ao próximo…

Todos aqueles que cultivarem virtudes e procurarem se corrigir das próprias imperfeições morais estão construindo legítima defesa contra o ataque ou intromissão de espíritos enganadores, inconvenientes ou causadores de perturbações.

E no caso de você participar de intercâmbio mediúnico, a ponderação e a reserva com que analise e aceite as comunicações é outro instrumento de defesa contra os maus espíritos. Isso significa submeter todas as comunicações e supostas orientações advindas dos espíritos, através dos médiuns, aos critérios da lógica, do bom senso e do bem comum.

Agindo assim, pronto, estão afastados os maus espíritos, que perdem o acesso.

Não há mistérios. Onde o amor brote espontâneo, onde a fraternidade está presente, onde o esforço pelo bem comparece, os maus espíritos perdem acesso e meios de se intrometerem. Onde, porém, a tônica é o desrespeito, a desconfiança, a malícia, aí estão eles, em abundância.

Portanto, tudo depende de cada um mesmo. Ninguém é prejudicado senão porque se permitiu ser prejudicado pela própria conduta. Quem está e se esforça no bem, já, por si mesmo, está se protegendo. Simples!

Portanto, faça de seu lar um lugar protegido: afaste os maus espíritos.

Como? Com o esforço da conduta digna e reta! A começar no ambiente familiar. Isto atrairá os bons espíritos.

Orson Peter Carrara

Fonte: Associação Espírita Allan Kardec (kardecriopreto.com.br)

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As Bem-Aventuranças de Jesus para os dias de Hoje

Dora Incontri

Em tempos de angústia e de violência, de perplexidade e de desesperança, há fontes onde podemos nos retemperar e nos levantar. Tenho o hábito de ver, ler ou ouvir trechos, vídeos, filmes, poemas, que possam me apaziguar e me levantar em momentos em que as coisas parecem estar encurraladas.

E se há um texto sagrado, inspirador, para o qual sempre podemos voltar e encontrarmos um novo frescor, um inesgotável alívio e profundas releituras, é o sermão da montanha de Jesus. Esse texto está no Evangelho de Mateus, de maneira completa e mais dispersa em Lucas. Gandhi inspirou-se nele (e no Bhagavad Gita) para orientar a sua luta não violenta pela libertação da Índia. Kardec desmembrou alguns de seus versículos em capítulos, no Evangelho segundo o Espiritismo, aprofundando o sentido de cada versículo.

Passados dois mil anos que Jesus o pronunciou nas montanhas da Galileia, ainda nos serve de roteiro, de consolo, de esperança.

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus! E assim Jesus se dirige aos simples, aqueles que não têm tolas pretensões de superioridade sobre seus irmãos, aqueles que não são arrogantes, que não humilham ninguém, mas antes conseguem manter um olhar de transparência e humildade.

Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados! E assim Jesus nos acena que toda dor é impermanente, que todo sofrer terá fim, que tudo sempre caminha para mais amor e felicidade, mesmo que tenhamos para isso de projetar o nosso olhar na eternidade.

Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra! E assim Jesus promete que depois que todas as guerras forem extintas, que todas as armas forem enterradas, que toda violência for banida, ficarão nesse mundo aqueles que fizeram de sua mansidão a semeadura da paz, que a terra afinal será pacificada, expurgada de todo ódio e de toda devastação.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos! E assim Jesus também aponta para a certeza de que a justiça afinal será feita, de que todos nós que hoje ainda sentimos a tormenta da fome e da sede de justiça, seremos alimentados num mundo em que não paire mais a exploração e a opressão. Caminhamos para a reparação de todas as injustiças, mas para isso temos que manter nossa fome e nossa sede acordadas, denunciando e combatendo as injustiças.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia! E assim Jesus nos ensina a reciprocidade necessária da compaixão e da misericórdia entre todos e todas. Encontraremos a felicidade no perdão, na generosidade, na doação de nós mesmos e não no coração endurecido e estéril, indiferente e cruel.

Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus! E assim, Jesus relembra aqui outra passagem em que diz que temos de nos fazer como crianças para entrarmos no reino: a pureza, a simplicidade, a sinceridade são os caminhos para chegar a Deus e tocá-Lo dentro de nós e alcançá-lo no outro e senti-Lo no infinito. É a pureza da criança que se entrega e transcende e consegue ver o que outros não veem.

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus! E assim Jesus afirma que aqueles que trabalham pela reconciliação universal, que se engajam na pacificação do mundo, serão reconhecidos como filhos de Deus, ou seja, como aqueles que trazem na ação e na palavra uma inspiração divina, demonstrando sua conexão com Ele.

Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus! E assim Jesus nos conforta em relação a todos os torturados, excluídos, marginalizados, assassinados porque lutaram por um mundo melhor e encontraram a dureza dos que detêm o poder e dos que exploram e dos que praticam injustiças. O próprio Jesus foi um deles. Mas deles é o reino, porque carregam dentro de si a paz de haverem cumprido o bem e mostrado um caminho para o mundo.

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, falarem todo mal contra vós por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós! E assim Jesus prevê que quando nos colocamos ao lado da justiça e do bem ainda nesse mundo dominado pelos injustos, pelos exploradores, pelos ambiciosos, pelos egoístas, um mundo como o nosso que admite que milhões não tenham o que comer, que haja massacres e mortes de inocentes, que não acolhe crianças em miséria, violência, fuga… seremos perseguidos, como ele foi. Mas ele nos oferece recompensas de paz na eternidade.

E os últimos versículos que vamos comentar aqui, porque o sermão ainda se estende no capítulo 5 de Mateus, é uma convocação de Jesus, tão atual e necessária ainda, como dois mil anos atrás. Seus seguidores salgaram a terra e brilharam no meio do Império Romano, diante de Nero assassino, diante de imperadores outros pervertidos, sádicos e que se consideravam deuses. E esse sal e essa luz dos primeiros cristãos transformaram o mundo. Mas ainda não o suficiente. E séculos depois, ainda precisamos confirmar as palavras do Mestre:

Vós sois o sal da terra; e se o sal se tornar insípido, com que se há de salgar? para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.

Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte,

Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.

Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.

Dora Incontri

Fonte: Associação Espírita Allan Kardec (kardecriopreto.com.br)

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MORRER

Joanna de Ângelis

CONCEITO

A problemática da morte é decorrência do desequilíbrio biológico e físico-químico essenciais à manutenção da vida.

Fenômeno de transformação, mediante o qual se modificam as estruturas constitutivas dos corpos que sofrem ação de natureza química, física e microbiana determinantes dos processos cadavéricos e abióticos, a morte é o veículo condutor encarregado de transferir a mecânica da vida de uma para outra vibração. No homem representa a libertação dos implementos orgânicos, facultando ao espírito, responsável pela aglutinação das moléculas constitutivas dos órgãos, a livre ação fora da constrição restritiva do seu campo magnético. Morrer, entretanto, não é consumir-se. Da mesma forma que a matéria se desorganiza sob um aspecto para reassociar-se em outras manifestações, o espírito se ausenta de uma condição – a de encarnado -, para retornar à situação primeira da sua existência – despido do corpo material.

A vida carnal é decorrência da existência do princípio espiritual e a vida poderia existir no espírito sem que houvesse aquela.

Morrer ou desencarnar, porém, nem sempre pode ser considerado como libertar-se.

A perda do casulo celular somente liberta o espírito que estruturou o seu comportamento, quando no corpo, sem a dependência enlouquecedora deste.

Os que se imantaram aos vigorosos condicionamentos materiais, utilizando a vestimenta física como veículo apenas para vaso de luxúria ou de egoísmo, qual instrumento de gozo incessante ou do orgulho, na expressão de castelo de força e de paixões, ante a desencarnação prosseguem vinculados aos vapores entorpecentes das emanações cadavéricas em lamentável e demorado estado de perturbação, sitiados pelas visões torpes da destruição dos tecidos, sofrendo a voragem dos vibriões famélicos, enlouquecidos entre as paredes estreitas da paisagem sepulcral.

A vida começa a perecer desde o momento em que se agregam as células para a mecânica do viver.

Vida e morte, pois, são termos da mesma equação do existir.

Não morre aquele que aspira ao amor e sonha com o Ideal da Beleza, entregue ao cultivo da virtude, no exercício da retidão. Não se acaba aquele que se entrega à vida, pois que mediante cíclicas mudanças do tono vibratório o espírito se traslada de corpo a corpo, de estágio a estágio evolutivo até alcançar a plenitude da vida na vitória estuante da Imortalidade. Enquanto os processos abióticos são substituídos por novas atividades bioquímicas, o cadáver passando à fase da desintegração – autólise e putrefação -, o espírito que se educou para os labores de libertação encontra-se indene à participação do desconcertante fenômeno de transformação celular, não ocorrendo o mesmo com aqueles que transformaram o corpo em reduto de prazer ou catre de paixões de qualquer natureza.

DESENVOLVIMENTO

Porque representava a cessação do movimento externo com a consequente degenerescência da forma, a morte mereceu das Civilizações do passado homenagens e tributos consideráveis.

Herdando do homem primitivo o culto de respeito, envolto em mistérios, e complexos rituais com os quais desejavam reverenciar na morte a força disjuntora da vida, essas Civilizações, mediante enganosos conciliábulos através dos quais a personificavam como deidade facilmente subornável, ou mensageira da desgraça que se podia adiar, pensavam consegui-lo por meio desse comércio nefando e irracional.

Milenarmente misteriosa tem prosseguido no seu cortejo, semeando pavor e desconcerto emocional, reinando soberana.

Aplacando-lhe a ira e tentando evitar-lhe a visita inexorável celebraram-se nos diversos fastos do pensamento histórico solenidades soberbas, ora trágicas e deprimentes ou exaltadas a ponto de espicaçar o desinteresse pela vida, produzindo suicídios religiosos, em procissões pagãs, nas quais fanáticos cultivadores de aberrações veneravam seus deuses, atirando-se sob rodas denteadas, abismos profundos, fogueiras destruidoras ante o paroxismo da excitação de mentes primárias em exacerbação dos instintos…

Sob outro aspecto, porque se transformasse no umbral para o acesso ao Desconhecido, foi encarada como misterioso país de cujas fronteiras ninguém voltava, envolvendo-se-lhe o culto em absurdas fantasias.

O homem do período glaciário de Giinz, agindo intuitivamente sob a inspiração dos antepassados, colocava o crânio dos mortos à entrada das cavernas com o objetivo de impedir a incursão naqueles recintos dos inimigos desencarnados…

Os egípcios, conceituando o retorno ao corpo sob a paixão do imediato, transformaram os sepulcros em palácios, colocando tesouros e alimentos para os viandantes do vale das sombras não padeceram necessidades quando da volta…

Mausoléus e jazigos imponentes foram erguidos através dos tempos para perpetuarem a memória e a vida dos extintos, gerando quase sempre longos processos de apego e dor aos transitórios recursos materiais por parte dos que desencarnaram.

A Arte e a Literatura, a Poesia e a Religião contribuíram exorbitantemente para tornarem a morte a megera desventurada, portadora da infelicidade e do horror.

Com o desenvolvimento das conquistas modernas, em cujo período as luzes da fé já bruxuleantes quase se apagaram, a morte, por significar para os apaniguados do niilismo o fim de tudo, passou a constituir móvel de ridículo, senão a aspiração maior dos frívolos e inconsequentes cultivadores da cómoda filosofia do nada. Assim encontrariam a porta para a deserção, logo fossem colhidos pela responsabilidade ou surpreendidos pela dor…

ESPIRITISMO E MORTE

Jesus, indubitavelmente, o Senhor do Mundo e o Herói da Sepultura Vazia, foi o mais nobre pregoeiro da vida com excelente realidade a respeito da morte.

Circunscrevendo todos os seus ensinos em torno da vida, e da Vida abundante, a Sua mensagem é um hino perene à glória do existir, seja num ou noutro setor de atividade em que se manifestam as expressões eternas do espírito: na carne e além dela.

Em todo o Seu ministério de amor e trabalho Sua palavra é luz e vida, considerando mortos somente aqueles que perderam a visão e obstruíram as percepções da realidade espiritual.

Depois dEle coube ao Espiritismo a inapreciável tarefa de interpretar a morte, libertando-a dos infelizes conceitos de vário matiz que foram tecidos multimilenarmente na plenitude da ignorância sobre a sua legítima feição.

Atestando a continuidade da vida após o túmulo, graças ao convívio mantido entre os homens e os Imortais, o Espiritismo libertou a vida do guante da vândala destruidora, exaltando a perenidade do existir em todas as latitudes do Cosmo, na incessante progressão para o Infinito.

Vive, portanto, como se estivesse a cada momento preparando-te para renascer além e após o túmulo.

A vida que se leva é a vida que cada um aqui leva enquanto na indumentária carnal.

Transpassa-se o pórtico de lama e cinza em que se transformam os implementos materiais com as próprias conquistas morais, construindo as asas de anjo com que se pode ascender à Verdade ou as amarras grosseiras para com a retaguarda, mediante as quais se imantam aos engodos fisiológicos.

ESTUDO E MEDITAÇÃO

“Por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vicissitudes da matéria.

Depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e decompõe. O princípio vital, não mais encontrando elemento para sua atividade, se extingue e o corpo morre. O Espirito, para quem, este, carente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas, ou uma roupa imprestável”.

(A Génese, Allan Kardec, cap. XI, item 13)

“A vida espiritual é, com efeito, a verdadeira vida, é a vida normal do Espirito, sendo-lhe transitória e passageira a existência terrestre, espécie de morte, se comparada ao esplendor e à atividade da outra. O corpo não passa de simples vestimenta grosseira que temporariamente cobre o Espírito, verdadeiro grilhão que o prende à gleba terrena, do qual se sente ele feliz em libertar-se. O respeito que aos mortos se consagra não é a matéria que o inspira; é, pela lembrança, o Espírito ausente quem o infunde”. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. XXIII item 8)

Joanna de Ângelis

Psicografia de Divaldo Pereiro Franco

Livro: Estudos Espíritas – 7

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A PAZ NO MUNDO INICIA NO SEIO DE NOSSAS FAMÍLIAS

Maridos (ou esposas) e filhos não precisam de um (ou uma) médium em casa…

Daniela Migliari

“Já vivemos muitas vezes. Estamos com as pessoas certas para ajustarmos os nossos corações e solucionarmos os nossos problemas. Na reencarnação, ninguém erra de endereço”.

A frase de Francisco Cândido Xavier contém o mapa para acessar o tesouro de nossa evolução. É no recanto do lar que repousa nossa maior missão. Salvo alguns irmãos de caminhada, cuja tarefa espiritual já se vê ampliada para o serviço junto à família humana, a imensa maioria de nós encontra, na consanguinidade, sua maior e mais importante escola.

Em “Jesus no Lar”, de Néio Lúcio, com psicografia de Chico Xavier, o próprio Cristo nos convoca – logo no primeiro texto do livro – a internalizar essa verdade que, de tão próxima, chega a ser óbvia: “A paz do mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz, entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações? Se não nos habituamos a amar o irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Eterno Pai que nos parece distante?”

O assunto é incômodo para todos aqueles que escolheram no serviço abnegado e na prática da caridade, o seu leme de navegação. São tantas e inúmeras as tarefas nos centros e igrejas, que as pessoas saem de suas casas cedo e retornam tarde, deixando esposos entregues à solidão, filhos sentindo-se abandonados.

O trabalho em sociedade é fundamental, escola maravilhosa, a ser vivida sim – mas, antes de tudo, com lúcido equilíbrio, para que não se transforme num instrumento de fuga do compromisso no lar. Esse alerta nos auxilia a lembrar sempre que a caridade mais urgente às nossas almas é a caridade moral a ser praticada com todos, mas especialmente, com o nosso próximo mais próximo.

A advertência não tem o intuito de julgar ou rotular os trabalhadores incansáveis que desenvolvem suas tarefas com amor. Mas trazer à tona uma reflexão para descobrir se os nossos desafios domésticos estão recebendo a mesma entrega e dedicação que oferecemos nas esferas fora de casa.

Muitas vezes, deixamos de abrir os olhos e perceber que o local que mais necessita de nossa atenção e serviço espiritual está ao lado, bem junto de nós: maridos, esposas, filhos, pais, irmãos.

Em minha experiência pessoal, no afã da descoberta da doutrina bendita e da mediunidade abençoada, dei início a um profundo mergulho nos estudos. Ouvindo palestras a todo instante, maravilhada, inebriada de luz! Quanta paz, quanta benção…

Porém, acabava por me isolar no exagero, e isso causa desequilíbrios familiares. Por outro lado, percebo que a atuação em conjunto, no Evangelho no Lar, nas idas às aulas de evangelização, nas visitas a orfanatos com todos reunidos, a família vai ficando mais forte e unida. Aos poucos, o equilíbrio vai chegando, e os trabalhos que realizo sozinha foram restringindo-se a horários em que minha ausência não prejudica o núcleo.

Esse cuidado de harmonização trouxe mais felicidade e paz para todos. E mais tempo com aqueles que são os instrumentos do mais profundo serviço, ao qual a vida nos convida a todo instante. O trabalho nas casas de estudo espiritual serve de combustível para que o amor se amplie nas relações familiares. Isso acontece, por exemplo, quando buscamos nos inspirar na postura de um sábio dialogador para conseguir orientar uma criança com paciência e amor incondicional.

Cônjuges e filhos não precisam de uma médium em casa, nem de um palestrante ou evangelizador, ainda que reconheçam o quanto essas práticas trazem um bem imenso às nossas vidas. Eles precisam, antes de mais nada, de esposas, maridos, filhos e pais que encontram no terreno do lar, o arado perfeito para colocar em ação o plantio do amor e da coerência com seus ideais espirituais.

Daniela Migliari

Fonte: Kardec Rio Preto

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A ALMA E O INVÍSIVEL

Sidney Fernandes

Desde que o homem atingiu o princípio da racionalidade, a maior descoberta que fez sobre si mesmo foi a de que possui, além do corpo físico, um duplo espiritual, ou seja, todos somos dotados de alma.

Para onde vai a alma depois da morte? Dizer que ela vai para baixo (suposto inferno) ou para cima (suposto céu) seria, pretensiosamente, situá-la geograficamente na infinitude do universo, onde desaparecem as coordenadas, ainda que fôssemos dotados de um miraculoso GPS.

Em vez disso, dizer que as almas se situarão no todo invisível no meio do qual vivemos e levarão sua felicidade ou infelicidade em si mesmas; que seus destinos estão subordinados aos respectivos estados morais; e que elas se reunirão a outras almas simpáticas e afins, de acordo com seu grau de depuração, não seria utilizar linguagem mais convincente e acessível à razão humana? Convenhamos que esse raciocínio é muito mais útil e atraente do que o da felicidade da contemplação e da inutilidade perpétua. Salva-nos o Espiritismo, luz que clareia os caminhos e traz, com lógica e raciocínio incontestáveis, ampla visão das finalidades da vida física e dos caminhos que percorreremos após a morte. Da mesma forma, a Doutrina Espírita rege os contatos entre nós, que ora vivemos do lado de cá, com os outros, que vivem do lado de lá da existência.

Intercâmbio com os espíritos

O homem é simplesmente um espírito aprisionado num corpo. Por que motivo um espírito livre da carcaça física não poderia se comunicar conosco, assim como visitamos os prisioneiros da Terra? Não é compreensível que um ente querido, que nos amou e continua nos amando, cuja morada atual é a esfera espiritual, queira se comunicar conosco, desde que haja permissão dos superiores e meios adequados para isso?

Mediunidade e Evangelho

É justamente no Cristianismo nascente que a mediunidade atinge pontos mais expressivos na história da humanidade. Vários discípulos se converteram em autênticos médiuns da Antiguidade.

Curas pelo olhar

Um homem olhou para os apóstolos Pedro e João, talvez esperando receber deles alguma ajuda, pois era inválido e não conseguia andar.

Depois de ambos olharem significativamente para o deficiente, Pedro disse:

— Não tenho prata, nem ouro, mas o que tenho, lhe dou, em nome de Jesus Cristo, o nazareno: Ande!

Essas palavras foram acompanhadas do magnetismo curativo que era praticado sistematicamente com o olhar Atos, 3:4-6.

Saulo, Saulo, por que me persegues?

Um dos fenômenos mediúnicos mais expressivos da história evangélica foi a faculdade da clarividência, o momento em que Paulo de Tarso viu Jesus, às portas de Damasco. A narrativa é surpreendente, pois descreve um resplendor de luz do céu, em plena luz do dia. Além disso, também a audição — faculdade mediúnica que permite captar sons e vozes do plano espiritual —, quando ele ouve claramente a voz de Jesus:

— Saulo, Saulo, por que me persegues?

A partir desse momento, o teimoso Saulo, diante da cegueira que o acometeu, somente conseguiu dizer:

— Quem és, Senhor?

E falou Jesus:

— Eu sou Jesus, a quem tu persegues.

Tremendo e atônito, disse Saulo:

— Senhor, que queres que eu faça?

A partir daí ele recolheu as instruções do Mestre e entrou na cidade de Damasco Atos, 9:3-8.

Saulo era um homem corajoso. Não obstante, após o choque traumático do encontro com Jesus, ele se sentiu desarvorado e experimentou grande abalo moral. Condoído, o Mestre apresentou-se para Ananias, em extraordinária visão espiritual, e lhe pediu que socorresse Saulo:

— Ananias!

— Eis-me aqui, Senhor — respondeu.

— Vá à casa de Judas, na rua chamada Direita, e pergunte por um homem de Tarso, chamado Saulo Atos, 9:10-11.

Ananias estranhou aquele pedido, pois sabia que Saulo havia ido a Damasco para prender todos os que invocavam o nome de Jesus.

Foi então que o Divino Mestre proferiu as célebres palavras que definiram para sempre a missão de Saulo. A partir da sua conversão, ele se tornaria o gigante Paulo de Tarso, o apóstolo:

— Vai, porque este é para mim um vaso escolhido, para levar o nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel Atos, 9:13-15.

Curas também eram praticadas com a imposição de mãos. Depois do encontro com Jesus, na estrada de Damasco, Saulo foi procurado por Ananias, que pôs sobre ele as mãos, dizendo:

— Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que apareceu no caminho por onde você vinha, enviou-me para que você volte a ver e seja cheio do Espírito Santo Atos, 9:17.

André Luiz e a mediunidade

André Luiz dá sequência ao seu esforço de consolo, restauração, medicação e alimento para nossas almas, com a explicação espírita da mediunidade, com o corpo de ideias que apresenta.

— A mediunidade — ensina André Luiz — à luz da Doutrina Espírita, revive a Doutrina de Jesus, no reconhecimento de que não basta a observação dos fatos em si, mas também que se fazem indispensáveis a disciplina e a iluminação dos ingredientes morais que os constituem, a fim de que se tornem fatores de aprimoramento e felicidade, a benefício da criatura em trânsito para a realidade maior (Mecanismos da mediunidade, de André Luiz).

Espiritismo: o porto seguro

A lógica irretorquível do Espiritismo proporciona calma, segurança e fortalece a convicção na existência de forças que nos circundam e nos influenciam, para o bem, ou para o mal, dependendo de nossos procedimentos.

A Doutrina Espírita é o porto seguro para o seguro diagnóstico da sensibilidade mediúnica. Ela nos dá certeza da reação do universo ao modo como conduzimos a nossas vidas.

Estudemo-la!

Sidney Fernandes

Fonte: Kardec Rio Preto

Referências: O Livro dos Médiuns e Revista Espírita de fevereiro de 1858, Allan Kardec; Mediunidade, tudo o que você precisa saber, Richard Simonetti; Mecanismos da mediunidade, André Luiz e Atos dos Apóstolos.

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SEXO E RELIGIÃO

Emmanuel

«Pergunta – Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se? »

«Resposta – Sofrendo a prova de uma nova existência. »

«Pergunta – Como realiza essa nova existência? Será pela sua transformação como Espírito?»

«Resposta – Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal.»

Questão nº 166, de «O LIVRO DOS ESPIRITOS».

Dar-se-á o fato de se isentar alguém dos impulsos e inquietações sexuais, simplesmente por haver assumido compromissos de natureza religiosa?

Claro que a lógica responde no espírito de sequência da natureza.

A criatura que abraça encargos dessa ordem está procurando ou aceitando para si mesma aguilhões regeneradores ou educativos, de vez que ordenações e providências de caráter externo não transfigurarão milagrosamente o mundo íntimo. As realizações da fé, por isso mesmo, se concretizam à base de porfiadas lutas da alma, de si para consigo.

Ninguém se burila de um dia para outro.

De que modo alienar condições inerentes à própria vida do Espírito, acalentadas, no curso das eras, tão-somente em função de afirmativas verbais? E entendendo-se que as Leis do Universo não destroem o instinto, mas transformam-no em razão e angelitude, na passagem dos evos, pelos mecanismos da sublimação, de que forma exigir a extinção dos estímulos genésicos em alguém, tão-só porque esse alguém se consagre ao Serviço Divino da Fé, quando esses mesmos estímulos são ingredientes da vida e da evolução, criados pela mesma Providência Divina para a sustentação e a elevação de todos os seres?

Compreendida a inalienabilidade dos problemas sexuais nas individualidades representativas das ideias religiosas no mundo, é mais que razoável considerar que essas individualidades, em grande maioria, solicitaram para si próprias os controles de feição moral a que transitoriamente se vinculam, no tentame de extraírem deles o proveito máximo, a favor de si próprios.

Efetivamente, Espíritos superiores e já erguidos a notáveis campos de elevação, unicamente por amor e sacrifício, tomam assento nas organizações religiosas da Terra, volvendo à reencarnação em atividades socorristas, nas quais impulsionam o progresso dos seus irmãos. Esses missionários do devotamento vibram em faixas de amor sublime, quase sempre inacessível à compreensão dos seus contemporâneos.

Não ocorrem análogas circunstâncias entre aqueles outros que renascem sob regime disciplinar, requisitados por eles contra eles mesmos, de vez que grande número desses obreiros das ideias religiosas, reencarnados em condições de prova, demonstram dificuldades e inibições múltiplas, no corpo e na mente, quando não sofrem exagerada tendência aos desvarios sexuais -tendência essa que habitualmente os mantém recolhidos ao medo de qualquer expansão afetiva. Temendo as manifestações do amor e bastas vezes condenando indebitamente os companheiros da Humanidade, pelo fato de se acomodarem a uniões respeitáveis e dignas, na generalidade receiam a si próprios e censuram os semelhantes, no impulso inconsciente de lhes copiar a independência e a conduta.

Daí surgem os incidentes menos felizes, quantas vezes! em que vemos expositores ardentes e apaixonados, dessa ou daquela ideia religiosa, tombando em experiências emotivas, muito mais complicadas e deploráveis do que aquelas outras que eles próprios reprovavam no caminho e na vida dos companheiros!…

Aliás, registe-se que o fenômeno é mais que justo, porquanto, aceitando os distintivos de determinada seara religiosa, o Espírito impõe a si mesmo um fator de frenagem e autopoliciamento, sem que as marcas exteriores de fé signifiquem mais que um convite ou um desafio a que se aperfeiçoe, de acordo com os princípios de acrisolamento que abraça.

Instruções religiosas exteriores não alteram, de improviso, os impulsos do coração, conquanto se erijam em fortaleza de luz, amparando a criatura que a elas se acolhe para o serviço de auto-aprimoramento.

Qualquer professor na Terra há de se identificar com os alunos, no campo das experiências naturais do cotidiano, a fim de que se estabeleça, entre eles, o fio da compreensão mútua, unindo vanguarda e retaguarda do esforço para a escalada do grupo ao conhecimento.

Um anjo e uma equipe de criaturas humanas não entrariam em relacionamento ideal para rendimento ideal do ensino. À vista disso, somos nós mesmos, Espíritos endividados ante as Leis do Universo, que nos enlaçam – uns com os outros, encarnados e desencarnados, aperfeiçoando gradativamente as qualidades próprias e aprendendo, à custa de trabalho e tempo, como alcançar a sublimação que demandamos, em marcha laboriosa para a conquista dos Valores Eternos.

Emmanuel

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro: Vida e Sexo – 25

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Distorções – Sabemos o que é o Espiritismo?

Orson Peter Carrara

Sabemos bem o que é o Espiritismo?

Embora lamentável o que se vem assistindo no movimento espírita – igualmente contagiado por fatores estranhos à sua genuína proposta, como acontece em tantos segmentos –, é natural que aconteça, face à imaturidade que ainda nos caracteriza. Muitos já reconhecemos sua real natureza e seus objetivos, mas seduzidos por interesses e paixões variadas, ainda nos mostramos incapazes de viver o que sabemos. A essência do Espiritismo está na caridade em sua ampla configuração, não restrita – é claro – à doação de bens materiais passageiros, mas sim e especialmente na atenção, na gentileza, no acolhimento (presente no abraço, no aperto de mão, no estímulo sincero em favor da felicidade alheia por exemplo), e também na fé e na esperança que se materializam na postura de retidão, na solidariedade e no respeito que nos devemos mutuamente, de vez que todos precisamos uns dos outros. E conforme encontramos no item 292 de O Livro dos Médiuns, o objetivo principal, prioritário, do Espiritismo está na nossa melhora moral, ou, em outras palavras, nos esforços que possamos desenvolver na aquisição de virtudes e na superação das más tendências.

Infelizmente, porém, nos dividimos, levados por fanatismos momentâneos ou visões distorcidas da realidade que conseguimos assimilar, iludidos que ainda estamos por posições, imposições, por ideias ou posturas dispensáveis, pois que incompatíveis com a moral de Jesus. Será uma ilusão de domínio de consciências alheias, será fruto do orgulho que ainda nos caracteriza ou da vaidade que se permite cultivar? Não sei exatamente, cada um descobrirá dentro de si mesmo tais razões, já que só o tempo nos levará ao amadurecimento que se busca.

Felizmente, porém, por outro lado, tudo isso é ação humana, bem própria de nossa mediocridade moral, e que nada tem a ver com a grandeza da Doutrina Espírita. Esta sim, impecável, inatacável e que recebe os impactos ingratos de todos nós, os espíritas, que embora reconheçamos devidamente sua grandeza e benefícios em favor da humanidade, que poderíamos multiplicar continuamente, permitimo-nos contagiar pela vaidade, pelo egoísmo ou pelo ciúme, e simplesmente iludidos por tolas e dispensáveis pretensões para quem pretende afirmar-se discípulo de Jesus.

Isso é pessimismo? Não! Absolutamente! É até um processo natural, bem próprio de aprendizados que nos amadureçam. Mas grita dentro de nós um apelo ao bom senso, ao discernimento, virtudes que tão bem caracterizaram a inigualável personalidade de Allan Kardec. Seja por gratidão à própria vida, ou aos exemplos marcantes de nomes veneráveis (e quantos não são?!) que abriram os primeiros caminhos e os mantiveram íntegros. Vamos, pois, rever os caminhos? Já não é hora de nos mostrarmos coerentes, agindo dentro da ética que aprendemos com o Espiritismo?

Sei que essa reflexão será ignorada ou desprezada pela maioria – somos assim mesmo, é de nossa natureza, nunca achar que somos nós os protagonistas de ações em desserviço do Espiritismo e que isso é culpa dos outros, nunca somos os responsáveis –, apreciada por outros com reserva e assimilada por minoria muito significativa, mas isso é secundário. O que é preciso é que se fale. Quem sabe um mínimo trovão consiga despertar alguns, até o próprio autor, sujeito também a equívocos de todo tipo, como criatura humana também em lutas.

O lamento, porém, é pela supervalorização de ações (e aqui é um universo delas) sempre em detrimento do estudo e da consciência doutrinária – que esclarecem e orientam –, substituindo prioridades por interesses que estimulam vaidades e supremacias, criando exércitos que seguem pessoas e não o Espiritismo, quando deveria ser o contrário, face à nossa condição de criaturas falíveis.

Mas a Lei do Progresso é determinante. Não há como impedi-la. A vida nos colocará devidamente no lugar no tempo certo, quando então deveremos rever posturas e reparar os estragos que causamos com nossas vãs e tolas pretensões. Felizmente, porque nos levará à maturidade de consciência que estamos tentando construir.

Mas a história pode ser diferente desde já. Basta o olhar da humildade e da constatação de nossa própria fragilidade, aprendizes ainda incapazes de domar a si próprios.

Orson Peter Carrara

Fonte: Centro Espírita Irmão Agostinho

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A ESCRAVIDÃO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

– A Escravidão Moderna e seus desdobramentos espirituais

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Na sua geralmente árdua romagem terrena, que deveria lhe despertar a sensibilidade e os sentimentos para algo maior, a criatura humana não raro demonstra enormes dificuldades na assimilação da boa-fé e discernimento.

Ao agregar ao seu ser um conjunto de atitudes e ações desastrosas, não atina sobre os indesejáveis passivos que cria para si mesma. Sob essa sombria perspectiva e ainda movida pelo afã de “lucrar” inescrupulosamente, a tudo e a todos arrasta sem medir as consequências.

De erro em erro, portanto, elege a dor e o sofrimento como colheita obrigatória, que lhe caberá ceifar mais dia menos dia. Aliás, é decepcionante constatar que a lista dos desacertos dos seres humanos cresce exponencialmente, dado o seu voluntário afastamento das coisas sérias e elucidativas. Infelizmente, os apelos da matéria continuam atraindo os arautos da insensatez, até o dia em que os acicates da reparação cármica os despertem…

A propósito, Allan Kardec aduz interessantes comentários à questão 399 do Livro dos Espíritos, que merecem aqui ser resgatados – ou seja:

“A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos os atos de um culpado pelo castigo que lhe inflige a lei. Assim, o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado etc.” (ênfase minha)

Posto isto, é deveras chocante observar que ainda há neste planeta a soez prática da escravidão. É verdade que travestida de formas mais sutis, mas nem por isso menos real e concreta. Tal aberração foi, aliás, banida pela Inglaterra – país que, por sinal, muito dela se beneficiou – em 1834. No entanto, só em 1888 se deu a abolição da escravidão no Brasil – última nação do mundo a abraçar tão relevante ideal. Exibindo uma natural vocação à exploração humana, adiou quanto pôde a sua eliminação, até finalmente ceder aos ventos das transformações benfazejas trazidos pelas novas ideias e valores disseminados além-mar. Seja como for, e independente dos resgates justamente delineados pela lei de ação e reação, há criaturas ainda submetidas às injunções da escravidão em pleno século XXI.

Segundo o Observatório do Terceiro Setor, em 25 anos, 55 mil pessoas foram resgatadas do trabalho escravo em nosso solo. Para ilustrar a dimensão dessa imoralidade, só no ano passado, 942 pessoas foram libertadas dessa degradante condição. É fato incontestável que a pandemia trouxe mais agravos à situação que já era por si só deplorável. Com efeito, o desemprego acentuado e a miséria funcionam como indutores à proliferação desse mal à medida que facilitam a exploração trabalhista. E todo esse cenário indesejável proporciona as condições ideais à contratação de trabalhadores submetidos a situação semelhante à escravidão. Vítimas de verdadeiras aves de rapina são levadas a trabalhar e viver em ambientes sem sanitários, equipamentos mínimos de segurança e, o que é mais revoltante, sem pagamentos. A precariedade social desses trabalhadores leva-os ao endividamento perante os seus empregadores, que os exploram implacavelmente.

Lamentavelmente, não há suficiente número de auditores do trabalho, que poderiam, em teoria, intensificar as fiscalizações e, assim, reduzir ou eliminar de vez tão nefanda prática no país. Aqueles que são resgatados dessas aviltantes situações não têm garantia de que terão um futuro melhor já que:

“Mesmo com ações em prol da defesa dos direitos das vítimas resgatadas, os auditores não conseguem garantir que a vítima não vá retornar para a cadeia de exploração. De acordo com um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com base nas guias de seguro-desemprego do trabalhador resgatado no Brasil, ao menos 1,73% dos mais de 35 mil trabalhadores resgatados entre 2003 e 2017 haviam sido resgatados mais de uma vez”.

Segundo as estatísticas disponíveis, os setores que mais exploram esses trabalhadores são: criação de bovinos para corte (32%), cultivo de arroz (20%) e fabricação de álcool (11%). Boa parte das vítimas chegou a cursar no máximo até o 5º ano do ensino fundamental, mas a maioria é constituída de analfabetos.

A forma de escravização moderna é extremamente variada, ou seja, pode abarcar o trabalho forçado (incluindo o já referido endividamento), casamento forçado, exploração sexual de adultos e crianças e trabalho forçado imposto pelo próprio estado, ao ponto de especialistas afirmarem que “As pessoas precisam ter em mente que já podem ter tido contato com o trabalho análogo à escravidão. Não é algo que ocorre apenas em uma fazenda distante ou no interior do Brasil. A doméstica que trabalha para o seu vizinho, os trabalhadores na construção civil, ou até mesmo a carne que você compra pode ter passado por trabalhadores explorados. Toda a sociedade está envolvida neste ciclo”.

A situação é tão preocupante que a escravização moderna representa uma violação dos direitos humanos de aproximadamente 40,3 milhões de homens, mulheres e crianças ao redor do mundo, segundo um relatório de 2017 da OIT. Do ponto de vista espiritual, é preciso considerar que ao enveredar por tão tortuoso caminho, o Espírito infrator às leis de Deus está se comprometendo seriamente. Conforme revelaram os Espíritos a Kardec na citada obra, pois “É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão [e seus sistemas análogos hodiernos, vale acrescentar] é um abuso da força. Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos”.

Ora, se tal coisa ainda persiste é porque não atingimos o progresso espiritual minimamente desejado em nossa civilização. Submeter os nossos semelhantes a prática tão ultrajante denota profundo atraso moral, e o perpetrador de tamanha barbaridade um dia sofrerá sob o mesmo guante. Por ora, cabe a nós denunciar supostos casos que se enquadrem nessa descrição, elaborar leis mais sólidas e, acima de tudo, punir severamente os infratores.

Anselmo Ferreira Vasconcelos

Fonte: Espiritismo na Rede

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